Polígono amoroso
14 Família
#Verônica
No mesmo dia da notícia da morte de Dianna, foi relatado um incêndio na casa de Jennifer, e segundo a notícia a garota estava em choque quando a encontraram do lado de fora da casa deitada na grama. Ela fora levada para o hospital e passava bem. Mark estava chocado demais com tudo, e dois dias depois ainda tinha um olhar vago e aspecto triste. Nós fomos juntos ao velório de Dianna, e lá presenciei uma cena imensamente triste. Mark chorava ao lado do corpo da amiga, ele acariciou seus cabelos e conversou com ela.
–Por que você fez isso Dianna? – ele perguntou chorando – Você era uma garota inteligente, promissora, tinha um futuro pela frente. Não sei como vou ficar agora sem minha melhor amiga. Jamais vou esquecer os momentos que passamos juntos, as brincadeiras, as situações embaraçosas... Você foi muito importante pra mim. Como eu queria que estivesse aqui, viva, comigo, rindo e brincando.
Ela desabou em lágrimas e eu o abracei, consolando-o. O resto do velório seguiu no mesmo ritmo. Mark jogou uma rosa amarela sobre o caixão de Dianna antes de ele ser enterrado. Sua cor favorita. Da cor dos raios de sol.
No dia seguinte Mark continuava com aquele aspecto triste. Levou alguns dias até ele retomar o humor, sempre parecia um pouco triste ainda. Eu tive uma ideia para tirá-lo daquela depressão.
–O que acha de irmos para aquele acampamento da sua escola? – perguntei um dia no café da manhã – Vai ser bom pra você tirar isso da cabeça.
Ele pensou um pouco antes de responder.
–Acho que você tem razão. – ele disse – Ela se foi, não há por que ficar aqui chorando, não vai trazer ela de volta. Dianna não gostaria de me ver triste por sua causa.
–Hoje mesmo vou falar com um amigo meu que faz excursões. – falei – Ele fará um bom preço para nos levar até o acampamento.
Estávamos sobrevivendo com a pensão que a mãe de Mark ganhava pela morte de Carlos. Ela havia cedido todo o dinheiro para nós. Era pouco, mas dava pra tocar a vida.
Depois de tudo acertado com o dono da van, partimos para o acampamento. A viagem demorou e foi bem cansativa, mas Mark finalmente parecia ter voltado ao normal. Ele ria e brincava. Ainda ficava um pouco triste ao lembrar-se de Dianna, mas na maior parte do tempo era o mesmo de sempre.
–Faz muitos anos que não venho aqui. – ele disse quando o veículo parou no estacionamento do acampamento – Mas o lugar parece tal qual como era da última vez.
–Já sabe onde ficam os nossos dormitórios? – perguntei para ele ao descermos da van.
–Temos de falar com a diretora primeiro.
Assenti e saímos de mãos dadas para a sala da direção. Mark observava encantado a natureza que cercava o lugar. Árvores por todos os lados, de sombra e frutíferas. Arbustos, flores, trepadeiras, orquídeas. Tinha de tudo. A única coisa fora do normal é que viam-se poucas pessoas fora de seus dormitórios, mesmo sendo pouco mais de 16:00h.
A diretora estava sentada atrás de sua mesa de mogno, com expressão pensativa e preocupada.
–Com licença. – disse Mark, parado à porta.
A diretora acenou com a cabeça e entramos. Mark e eu sentamos nas duas cadeiras dispostas à frente da mesa.
–Em que posso ser útil? – perguntou a diretora com a voz cansada.
–Eu sou Mark, essa é Verônica. Nós somos da escola que está acampada aqui, chegamos hoje.
A mulher franziu a testa.
–Mas fazem dias que sua escola chegou aqui. O que estão fazendo tão atrasados?
–Meu padrasto faleceu na véspera do passeio. – falou Mark – Eu tenho autorização especial para chegar depois.
A diretora assentiu e abriu uma gaveta de onde tirou uns papéis.
–Vou conferir quais dormitórios ainda estão disponíveis. – ela disse, e fez uma pausa enquanto olhava o papel – Temos um problema. Há apenas um quarto disponível, na ala masculina.
Soltei um risinho.
–Ela é minha prima. – disse Mark – Acho que não tem problema nos deixar no mesmo quarto.
A diretora ponderou por um momento, olhando de mim para Mark e então de volta.
–Está bem. – ela disse, preenchendo o papel – Não há outra solução mesmo. Assinem aqui, por favor – nos entregou a folha em que havia escrito.
Mark assinou primeiro e então eu o fiz depois dele. Entregamos o papel de volta à mulher.
–Dormitório número sete na ala masculina. – ela nos disse – Se quiserem posso mandar um monitor acompanhá-los para lhes mostrar onde fica.
Mark dispensou a sugestão com um gesto da mão.
–Eu conheço o local. – ele disse, e então acrescentou – Já estive aqui antes com a mesma escola.
A diretora assentiu. Estávamos saindo quando ela nos chamou novamente.
–Um momento. – disse a mulher – Há algo que preciso avisar antes de irem. – fez uma pausa – Estamos passando por problemas no acampamento, uma ocorrência de estupro e outra de homicídio. O culpado foi preso, mas todos ainda estão num clima um pouco assustado, então peço que não façam nada muito extravagante.
Fiquei chocada, e Mark parecia igualmente pasmo.
–Como assim? – ele perguntou incrédulo.
Alguns dias antes
#Amanda
Quando entramos na enfermaria foi um choque encontrar o homem que abusara de mim, lá atrás daquela maca. Rodrigo parecia surpreso e preocupado.
–Em que posso ajudá-los? – perguntou o ruivo, fingindo não saber de nada.
–Desgraçado! – gritou Rodrigo depois de um instante – Como saiu do quarto?!
O homem franziu a testa, surpreso.
–Deve ter visto meu irmão gêmeo, rapaz. – ele disse – Mas o que houve?
Rodrigo parecia ainda mais surpreso. A explicação era aceitável, visto que o ruivo que abusara de mim fora amarrado fortemente pelo meu irmão.
–Seu irmão gêmeo? – perguntei.
–Sim. – ele respondeu olhando para mim – Richard veio comigo para cá.
Rodrigo estava furioso.
–Aquele desgraçado abusou da minha irmã. – disse ele olhando para o enfermeiro.
O homem saltou da cadeira e nos olhou surpreso.
–Como disse? – perguntou, chocado.
–Seu irmão entrou no meu quarto e abusou da minha irmã! – gritou Rodrigo, furioso.
O enfermeiro parecia pasmo, sem saber o que fazer.
–Meu deus! – ele disse – Como isso aconteceu? Por favor, me perdoem, eu não sabia de nada. É por isso que ele não voltou então...
Contei a história para ele enquanto Rodrigo controlava-se ao meu lado.
–Não consigo acreditar... – disse o homem, surpreso – Richard disse que ia dar uma caminhada. Ele estava estranho, mas não achei que fosse capaz de algo assim. O que aconteceu com ele depois disso?
–Eu o amarrei. – disse Rodrigo – E se não fosse por Amanda o teria torturado e matado.
O homem desabou em lágrimas.
–Essa viagem deveria ser para ele aliviar o estresse. – disse o enfermeiro – Eu achei que o faria bem. Me perdoem, por favor. Se eu soubesse que Richard faria algo do tipo, jamais o teria trazido comigo.
Senti pena do homem.
–Não é sua culpa. – falei – Não podia adivinhar que algo assim aconteceria... Está tudo bem. Ele não me machucou gravemente. Estou apenas com dor em algumas partes do corpo. Poderia olhá-las para mim?
Ele secou as lágrimas e acenou para que eu me aproximasse. Rodrigo sentou-se num banco e ficou observando o enfermeiro, a raiva estampada em seu rosto.
Depois de me receitar alguns analgésicos e pedir perdão novamente, o homem nos liberou. Rodrigo pegou minha mão e saiu sem dizer nada ao enfermeiro.
Passamos pela sala da diretora e ela nos disse que a polícia estava a caminho. Contamos a ela sobre a conversa com o enfermeiro e a mulher pareceu surpresa.
–Meu deus! – exclamou – Não consigo acreditar nisso... Richard parecia um bom homem. Seu irmão, Otávio, daria a vida por ele, era o que tinha de mais valioso. Isso explica sua reação ao ouvir sobre o incidente...
Fale com o autor