Pokémon Magister

4 Capítulo 003


Depois de seis horas de viagem, Johan chegou em New Bark, a pacata cidade de onde a maioria dos treinadores iniciava sua jornada em Johto. Estava garoando e nublado, mas nada que atrapalhasse uma caminhada.

A primeira coisa que o aspirante a treinador fez foi procurar o laboratório do professor Elm. Não foi difícil encontrar, pois era o referencial da cidade. Um prédio branco, não muito alto, e dava para ver que o terreno era bastante amplo, e com uma vasta área verde em volta. Johan entrou e falou para a recepcionista que queria se registrar. Ela o encaminhou direto para onde o professor estava. Elm, muito simpático, gostava de conhecer todos os treinadores e aspirantes pessoalmente. E ele gostou do caráter de Johan. Ficou surpreso com o fato de seu pokémon inicial ser um Smeargle cego.

– Preciso que você coloque seus dados aqui. – E entregou uma planilha eletrônica, uma espécie de iPad, para o rapaz preencher.

De repente, entra com muita pressa um garoto loiro. Ele se apoia nos joelho, ofegante e suado, e fica um tempo sem conseguir dizer nada, arfando.

– Ahn... – Começou o professor – Você é Norton Birk?

O garoto, ainda sem conseguir pronunciar uma palavra, sorri e faz sinal de positivo.

– Eu me atrasei, professor! – Disse ele, finalmente.

Johan achou estranho, afinal, já eram uma hora da tarde, e Norton parecia que tinha acabado de levantar da cama.

– Não tem problema! Seu pokémon está reservado bem aqui. – Apontou para uma pokébola sobre um balcão, junto a uma plaqueta que dizia \"Norton Birk / Cyndaquil\"

O garoto, sorridente, foi até lá e pegou sua pokébola. Ele era um dos jovens treinadores que estavam começando sua jornada. Porém, os outros, que tinham escolhido Totodile e Chikorita, tinham partido bem mais cedo, e Norton, pelo visto, perdera a hora dormindo até tarde.

– Cyndaquil! – O tímido pokémon havia sido liberado de sua pokébola, e o jovem treinador se abaixou para falar com ele.

– Cyndaquil, eu sou Tony, seu treinador.

O pokémon estava contente, a sorriu para ele.

Tanto Johan quanto Norton estavam começando sua jornada e os dois estavam sozinhos, então Elm sugeriu que eles partissem juntos, o que não era uma má ideia.

Os dois terminaram de se registrar e receberam pokédex básicas e algumas pokébolas, além de um crachá que parecia um documento de identidade, onde estavam escritos os dados como nome, data de nascimento, cidade natal e número de inscrição (Id). Essa carteirinha era essencial para participar de torneios, ligas, batalhas de ginásios e etc. Além de que provava que o indivíduo era um treinador.

Norton convidou seu novo amigo para almoçar na casa de seu pai, ali em New Bark, antes de viajarem. O pai dele, Howard, era um pesquisador pokémon, aposentado depois de um acidente de trabalho. Ele parecia muito velho para ser pai do garoto de 16 anos, mas isso porque havia mais três irmãos e Norton era o caçula.

– Todos eles já são treinadores. Dois desistiram da carreira e tão por aí fazendo outra coisa, mas ainda têm seus pokémons, claro. Só Oliver, o terceiro, que está em Hoenn, é que continua na ativa. E agora Tony, é claro. – Dizia o pai, sorrindo orgulhoso.

Ele era um homem muito inteligente e Johan gostou de ter conversado com ele. Quando eram duas e meia, a garoa já tinha cessado por completo e o sol começava a ressurgir por detrás das nuvens. Os dois novatos se despediram de Howard, pegaram seus pertences e saíram de New Bark.

Tony, desde pequeno, estudou em escolas especializadas em Pokémon, o que era muito comum. Assim como existem famílias que restringem seus filhos a essa atividade, como a de Johan, existem as que incentivam. Escolas Pokémon ensinam matérias básicas: Matemática, Geografia, Ciências, História, Gramática, Educação Física, etc. Mas o que as diferenciam das demais são matérias como Biologia Pokémon, Legislação para Treinadores e Estratégias de Batalha.

No último ano, em que a maioria dos alunos tinha 16 anos, os estudos se intensificavam e até haviam aulas práticas com pokémons de verdade. E no fim, havia uma prova teórica, equivalente a um vestibular, e os três alunos que obtivessem maior nota, receberiam seu primeiro pokémon no Laboratório principal de seu continente. Tony era bastante estudioso, apesar de não parecer, e chegara ao segundo lugar, por isso conseguiu o Cyndaquil no laboratório do professor Elm.

– ...E eu esperei minha vida toda por esse momento! – Dizia o garoto com entusiasmo, enquanto caminhava com Johan por uma trilha da rota 29.

Johan sorriu para ele. Evidente que Tony era bem descontraído e falante.

O sol voltara a brilhar, mas a paisagem ainda estava úmida por causa da garoa. A vegetação parecia mais viva, brilhante ao refletir a luz do sol em suas folhas molhadas, e os dois treinadores desviavam de eventuais poças de lama no chão de terra batida. De vez em quando, viam aves voando pelo céu e piando. Tony ficava adivinhando se eram Pidgeys, Spearow, Pidgeottos ou Hoothoots de acordo com seus sons. Certo momento ele jurou que tinha ouvido um pio de Taillow, mas Johan não acreditou.

– Não existem Taillows em Johto! – afirmou ele, com um sorriso cético.

– Como não? Mesmo que não existam selvagens, podem existir Taillows que sejam de outros treinadores! – Devido a esse argumento, Johan cedeu. Mesmo assim, continuava sem acreditar que havia um ali por perto.

– Aliás... – prosseguiu o garoto loiro – Temos que capturar pokémons!

– Hm, é verdade... – Johan concordou, embora não estivesse muito disposto a ter novos companheiros sem antes conhecer melhor o que já tinha.

Tony, pelo contrário, disse que queria capturar todos os que fossem possíveis, e talvez até os impossíveis, como o lendário Mew!

Johan gostava do entusiasmo do rapaz. Eles eram bem diferentes, de fato. Porém, dava pra ver que estavam formando uma boa dupla e já conversavam como se fossem grandes amigos. Aliás... Tony conversava, e Johan escutava, basicamente.

– Tsc! Que droga! – Resmungava Tony, olhando para o céu – Esses pássaros são muito ágeis!

Ele tentara se aproximar de um Spearow que ciscava o chão, mas antes que pudesse sacar sua pokébola, a ave percebera e voara para longe.

– São mesmo – disse Johan – Talvez seja mais fácil começar capturando algum terrestre.

– O problema é que eles estão escondidos! – Tony parecia ser do tipo que irritava facilmente.

Realmente, com a urbanização, a maioria dos pokémons se retiraram para o interior de seus habitats, sejam estes cavernas, selvas ou mares. As rotas por onde os treinadores de antigamente viajavam agora eram pobres em pokémon. Tony aprendera na escola que nunca deveria sair da rota, pois poderia ser muito perigoso. Porém, depois de duas horas tentando encontrar pokémons selvagens que não fossem as ágeis aves, ficou de saco cheio e tentou convencer Johan a adentrarem na mata.

– Mas você disse que é perigoso... – disse o rapaz mais velho, provocando-o.

Hansi, que nessa altura já estava fora da pokébola, assentiu silenciosamente com a cabeça, imitando seu dono. Cyndaquil também estava livre, apenas obedecendo fielmente e tentando ajudar a achar algum pokémon.

Tony suspirou e sentou em um tronco de árvore caído que estava na beira da trilha. Cyndaquil veio ao seu encontro e o rapaz lhe deu um afago. Já eram bons amigos. Aquele pokémon realmente tinha sido uma ótima escolha, pensou ele.

Hansi era cego, mas tinha um diferencial honrável quando se tratava dos outros sentidos. Foi o primeiro a detectar algo que se aproximava lentamente deles, vindo da mata. Segundos depois, Johan o percebe em estado de alerta e também para para escutar o som dos galhos e folhas sendo destruídos pelos pesados passos que ficavam cada vez mais próximos. Os dois treinadores já tinham se levantado. Ambos se entreolharam, pensaram ao mesmo tempo em fugir, mas por algum motivo, também sentiam curiosidade de saber o que era aquilo.

– O... O que estamos fazendo? — Indagou Tony – Não deve ser algo bom, vamos sair daqui!

Johan concordou, mas quando se prepararam para fugir, os vagarosos passos se transformaram em um estrondo de algo rolando e esmagando a vegetação. Antes que pudessem escapar, um Graveler parou de súbito na trilha, em frente aos dois treinadores e seus pokémons. Ele parecia estar um pouco debilitado. Tony pensou que provavelmente ele teria descido da rota 46, ao norte, que levava a Blackthorn.

De qualquer forma, era muito maior do que os quatro juntos, e eles sabiam que não poderiam vencê-lo.

– Johan... Tem um Graveler selvagem querendo atacar a gente... – Tony balbuciou. Estava com medo, claro. Ainda não tinha batalhado de verdade e seu pequeno companheiro de fogo estava em uma tremenda desvantagem.

E Johan não conseguia pensar em nada. Seria impossível, para eles, passar por aquele oponente. Isso só significava uma coisa:

– Corre, Ton!

Como nunca tinham corrido antes, eles correram. E aquele furioso Graveler não era tão devagar, principalmente porque não vinha andando, mas sim, rolando! Johan, em certo momento, percebeu que os reflexos de Hansi eram incríveis para um pokémon cego. Se ele não estivesse usando sua habitual venda nos olhos, até diria que o Smeargle podia enxergar perfeitamente.

– Cyndaquil! – Tony segurava-o em seu ombro – use suas brasas!

O pokémon obedeceu, mas as fracas brasas dele não faziam efeito nenhum na rocha viva que estava cada vez mais próxima.

Agora passavam por um trecho da rota que ficava em uma encosta ainda mais íngreme e rochosa, um adendo do Monte Prateado, que contornava a rota 46. Tiveram que diminuir o passo, era arriscado correr ali.

Estavam quase terminando de atravessar este curto trecho, quando perceberam que o Graveler estava mais longe, agora andando. Claro, ele não era um pokémon burro e sabia que poderia cair morro abaixo se fosse muito rápido. Tony esboçou um sorriso de alívio, mas que se foi rapidamente quando o Graveler retribuiu o sorriso, mas com muita malícia.

– Eu acho que... – Começou o garoto, ao ver o pokémon rochoso erguer seus punhos – Ele vai usar um deslizamento de pedras!

Johan olhou assustado para ele. O Graveler então esmurrou com todas as forças o chão pedregoso e rochas começaram a descer vigorosamente para cima deles. Novamente, correram para se salvar, e quando o deslizamento cessou, respiraram aliviados de ninguém ter se ferido.

Porém, agora o Graveler estava bem diante deles, e uma fuga seria muito difícil. Foi aí que Hansi surpreendentemente se colocou na frente de todos, e parou na frente do inimigo.

– Hansi! O que você pensa que está fazendo?! – Johan perguntou, desesperado.

O Smeargle não se pronuncia, e continua de frente para o Graveler, que a esta altura também já havia parado, talvez estranhando essa atitude do mero pokémon. Hansi remove a faixa que cobria seus olhos, revelando suas assustadoras pupilas sem cor e olheiras fundas. Inspira terror e mira seus olhos com muita abominação para Graveler, que por um tempo fica paralizado de horror, e depois foge assustado, rolando encosta abaixo.

Johan e Tony ficam boquiabertos.

- E-ele... Usou um... Olhar paralisante? — Tony gaguejava com perplexidade.

Johan se levantou, muito alegre e ao mesmo tempo assustado. Aquilo parecia ser piada.

- Olhar paralisante, Hansi?! — Johan não conseguia acreditar.

O Smeragle, antes de se virar, recolocou a venda. Então, respondeu ao seu treinador com um simples sorriso.

Ele havia sido o herói do dia.

Notas finais
Eis o capitulo 3! Espero que tenham gostado ^^

NOTAS DO CAPÍTULO

Sou uma defensora da língua portuguesa, e por isso prefiro traduzir termos como ataques e localidades:

Olhar paralisante = Glare

Brasa = Ember

Monte Prateado = Silver Cave

Embora, como vocês puderam perceber, eu goste de usar nomes estrangeiros para personagens ^-^