Notas iniciais
Encontrava-se na mesma posição há quase vinte horas, sem contar os intervalos regulares para encher outra caneca de café, pegar mais uma lata de energético no refrigerador ou ir ao banheiro, trabalhando simultaneamente em três notebooks. Checou a hora em uma das máquinas que mostrava que a escuridão do quarto se devia ao recente anoitecer que ele não percebeu chegar ali mergulhado em trabalho, cafeína e um cinzeiro transbordando.
Observou o andamento do programa e mentalmente calculou quanto tempo ele levaria pra tomar um banho e sair para comprar mais cigarros. Decidiu que não se importava se o trabalho fosse ficar ainda mais atrasado, iria sair e esticar as pernas. Levantou da cama tropeçando na coleção de canecas e livros e dirigiu-se ao banheiro.
Viu sua face cansada no espelho por alguns segundos quando a luz brilhou fracamente no cômodo branco. Tinha olheiras tão fundas quanto as de um doente. Seu cabelo preto estava sem vida, clamando por água, shampoo e um pente. Memórias de quando tinha vida social, tempo para cuidar do cabelo e curtir seus amigos invadiram sua mente.
Sacudiu a cabeça, quase dormindo na frente do pequeno espelho raxado em uma das pontas e começou a se despir desajeitadamente, o corpo reclamando das longas horas sentado completamente errado na cama, depois entrou no chuveiro e deixou a água morna massagear-lhe os ombros.
Amaldiçoou quem quer que fosse que espalhara um vírus de computador na faculdade. Muita gente estúpida que sai clicando em qualquer coisa teve que mandar formatar seus computadores. Mas todo mundo sabe como é faculdade... Alunos amontoados de contas de livros e xerox, procurando aquele nerd que sabe tudo de computador e faz qualquer coisa pra ganhar um dinheirinho extra, cobrando mais barato que um suporte técnico com licença. O nerd era Frank.
O problema nem era quando pagavam... Afinal, dinheiro extra é sempre muito bem vindo, ainda mais para ele que não conseguiu arrumar um colega de quarto e morava sozinho naquele cubículo com dois quartos, sala, cozinha e banheiro. O maior problema dele eram os tais valentões que se acham no direito de ter tratamento especial.
Ele sempre fora baixinho e mesmo com seus quase vinte anos, continuava com cara de criança e isso não ajudava muito na sua vida. Desde o colegial era incomodado e insultado pelos valentões por ser o menorzinho da turma. Apelidavam-lhe de “nanico”, “tampinha”, “toco de gente”, “anão de jardim” e outras coisas piores. Respirou fundo, quase engolindo água do chuveiro pelo buraco errado, lembrando da última sexta feira.
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~Flashback on~
– Hey, nanico, precisamos de um favorzinho seu.
O sangue dele congelava só de ouvir aquela voz.
– Diga.
Deu meia volta e encarou o garoto, Travis, com quase dois metros de altura e braços mais largos que as duas pernas do pequeno juntas, que fazia parte do time de basquete da faculdade e que ele acreditava dormir de uniforme, pois nunca o vira sem. Ah, e claro, acompanhado de seus dois capangas, Henry e August, igualmente grandes e musculosos.
– Nossos computadores deram pau, queremos que você concerte. – Estendeu então três notebooks caríssimos, empurrando-os no peito do menor. Os três provavelmente teriam dinheiro pra pagar um técnico pra fazer o serviço, mas ele preferiu não contrariar. – E queremos pronto na segunda feira.
– C... Claro. – Gaguejou, enfiando os três notebooks na mochila com todo cuidado.
– E não se atrase, tampinha. – Deu um tapa exageiradamente dolorido no ombro do pequeno, marca registrada de Travis, e saiu andando, acompanhado dos capangas que só riam.
~Flashback off~
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Respirou fundo outra vez, travando uma luta pra sair de baixo da água morna do chuveiro e voltou ao quarto, onde os computadores continuavam a parte do trabalho que não exigia atenção completa do pequeno. Vestiu a primeira coisa que encontrou no guarda roupa e saiu do quarto, sendo seguido pela nuvem de fumaça que ficara presa no teto esperando alguma fresta pra sair.
Arrependeu-se de não ter pego uma blusa no momento em que pisou na calçada e um vento cortante lhe acertou a face, fazendo-o corar. Cruzou os braços na intenção de manter as mãos quentes e seguiu andando até a tabacaria na esquina de seu apartamento, quase correndo quando outro vento gelado lhe acertou a nuca e agradecendo enquanto fechava a porta do estabelecimento, já do lado de dentro.
– Hey, Frank! – Bob saudou atrás do balcão.
– Hey, Bob. – O pequeno sorriu quando avistou o rosto amigo.
– O que deseja, meu amigo?
Ele sabia que Bob só o chamava de amigo porque gastava quase todo seu dinheiro, pelo menos o que sobrava após comprar os caríssimos livros da faculdade, aqui nos fins de semana, mas não achava ruim ter alguém que o chamasse assim pra variar.
– Um pacote de Marlboro e um fardo de energético.
– O de sempre então. – Bob riu e foi buscar o que Frank pedira.
O sino da porta da tabacaria soou acompanhado do som da risada de três pessoas. Frank não deu atenção, mas eles começaram a rir muito alto e o pequeno ficou pertubado com aquilo, se virando para encarar os três. O primeiro, ruivo feito uma maçã, vinha de mãos vazias e um sorriso largo no rosto, tinha uma pele tão branca que quase o confundiu com um fantasma. O segundo, com os cabelos tão pretos quanto os do pequeno em baixo e loiros na parte de cima, com o rosto muito parecido com o do ruivo-maçã, tinha cara de quem acaba de ser sacaneado numa roda de amigos, carregava um case nas costas, provavelmente com um baixo ou guitarra dentro. O terceiro tinha um cabelo tão enrrolado que ele teve que se esforçar para não perguntar se tinha alguma coisa ilícita escondida ali, vinha carregando outro case parecido com o do moreno.
Sentiu saudades de sua guitarra, destruída no segundo ano do colegial por valentões. Ele nunca mais tivera dinheiro pra comprar outra.
– Hey, Gee, Mike, Ray! Podem ir descendo, vou só terminar de fechar aqui e já encontro vocês. – Bob falou para os três e Frank ficou curioso, mas não disse nada. – Aqui está o que pediu, meu amigo.
Frank pagou o que devia e saiu da loja, se arrependendo pela segunda vez logo em seguida por ter saído de casa sem blusa, e andou o mais rápido que pode de volta ao seu cubículo sem graça na outra esquina.
Sentou-se na cama outra vez, sentindo os ossos estalarem ao voltar para aquela posição, tentou se concentrar no trabalho que fazia, mas a visão daquele ruivo-maçã não lhe saía da cabeça. Ficou lembrando do sorriso dele enquanto tentava finalizar a formatação dos três notebooks, depois de tantas horas brigando com seu estúpido OS. [*]
Acendeu um cigarro e abriu a janela do quarto, deixando o vento frio entrar sem se incomodar, e encarou a pequena tabacaria da esquina, seu cérebro curioso querendo saber o que estava acontecendo por lá. Após alguns minutos, adormeceu com o rosto colado no vidro gelado, ainda encarando a tabacaria, mesmo que de olhos fechados, enquanto seu cigarro queimava sozinho no parapeito da janela.
Notas finais
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