Playing With Fire
24 Quero a verdade
Notas iniciais
Se consegui pensar em outra coisa? Não.
Minhas ideias estão completamente embaralhadas como em um quebra-cabeça a qual não sei resolver. Há alguns dias atrás eu estava ciente de que as coisas finalmente tinham melhorado, depois Ace chega com aquela ladainha de perdão e me deixa com um pé na frente e outro atrás, e agora Butch age daquele jeito estranho assim que pisa no laboratório do Professor, me deixando com os dois pés atrás.
A maneira que ele agiu lá dentro foi de deixar qualquer um desconfiado, era como se nem ele soubesse o que fazer naquela situação. E quando ele olhou para o Elemento X... Confesso que até me arrepiei. Não sei por que, mas senti como se ele já tivesse visto o Elemento X antes. Não tenho nenhum palpite para desencadear esse mistério, mas... Porra! Eu não aguento mais ficar confusa desse jeito!
– Tudo bem, Buttercup. Está tudo em ordem. – A voz do Professor me faz sair de meus pensamentos profundos, enfim, acordando para a realidade.
Eu e minhas irmãs estávamos em seu laboratório fazendo uma pequena “checagem”. E o que seria isso? Bom, basicamente, uma vez a cada mês o Professor nos leva ao laboratório para ver se o equilíbrio entre nossos poderes e resistência corporal está em ordem. Nessa checagem ele verá o quanto nosso corpo está aguentando a força que os nossos poderes nos transmitem, se alguma parte de nosso corpo está sendo afetada pelo Elemento X percorrendo em nosso sangue, ou até se adquirimos algum poder novo com o tempo, se esse for o caso, ele nos leva até a sala de treinamento para aprendermos a usá-lo.
Passamos por alguns experimentos, o que dura algumas horas, mas já estamos acostumadas. Quando eu era pequena detestava fazer a checagem, mas eu até compreendo, é muito entediante. Você tem que ficar parado dentro de uma máquina estranha enquanto o Professor lhe examina através dos monitores. Só pra conseguir uma informação, dura meia hora.
Nada fora do comum dessa vez. Ele disse que comigo estava tudo em ordem, em outras palavras: Nenhum poder novo, nem mesmo partes do corpo afetadas, e muito menos poderes novos. Merda. Eu gosto quando ele descobre um poder novo, assim eu poderia ficar me gabando dele para as minhas irmãs.
– Tem certeza? – Pergunto com um ar de decepção. Ele solta um risinho.
– Sim. – Responde. – Lamento, não foi dessa vez.
Saio da máquina, colocando os pés no chão e pondo as mãos no bolso da calça.
– Eu queria um poder novo... – Digo, soltando um suspiro. – Já faz quase um ano que não descubro um poder novo. Mas em compensação, a Blossom sempre tem um novo a cada dois meses.
Ele percebe que fiquei um tanto irritada. Sorri, e me dá um beijo na testa.
– Mesmo tendo dezoito anos, você ainda tem ciúmes dos poderes da Blossom? – Ele brinca, me olhando gentilmente nos olhos.
– Não é isso. – Respondo, seguindo de outro suspiro. – Só... Só acho que deve ser muito legal ter a força dela.
– Vocês três são incrivelmente fortes, mas eu já lhe expliquei isso a vocês... – Ele começa. Merda, ele vai explicar aquilo de novo. Já é a quarta vez. – Acontece que a Blossom tem um nível mais elevado de Elemento X percorrendo em seu sangue, chega a ser até fora do normal. Você e Bubbles tem um nível que equivale a 72% do elemento no sangue, já a Blossom, de alguma maneira, adquiriu 94% logo ao nascer. Por isso ela tem tantos poderes, então...
– “... Deixe de ser ciumenta. Vocês três são as minhas garotinhas, todas são especiais e blá blá blá...” – Interrompo-o, imitando-o com uma voz estranha. Ele começa a rir.
– Sabe, por causa disso, a Blossom tem que fazer a checagem toda semana. Você gostaria disso?
– Não. Nem pensar! – Nós dois rimos. Só em pensar de ter que fazer a checagem toda semana me dá vontade de chorar... Como é que ela aguenta? – Você já fez a checagem nelas?
– Sim. – Responde, enquanto escreve em seu caderno de trabalho, ele sempre faz isso para registrar o nosso desempenho durante a checagem. – A Bubbles parece estar sendo afetada com o seu poder psíquico (Ela desenvolveu o poder de controlar algumas coisas com sua mente. É muito foda, e de dar inveja, mas por sorte, tenho meus punhos de fogo), mas vou desenvolver uma pílula que irá resolver este problema.
– E a Blossom?
Percebo que o Professor começou a adquirir uma aura preocupada, daquelas que dá calafrios. Ele suspira e coça a cabeça.
– Bom... Eu preciso fazer alguns experimentos com ela. Ela adquiriu um poder estranho. Estranho demais. Talvez o mais estranho que vocês três já adquiriram... Tenho medo do que esse poder pode fazer. – Um clima tenso reinou o laboratório, o Professor parou de escrever e limpou o suor de sua testa. Me aproximo um pouco mais, colocando as mãos em seus ombros. – Espero que consigamos controlar este poder...
– Não fique assim Professor. Esta não é a primeira vez que a Blossom adquire um poder mais forte do que ela mesma, ela sempre teve que contar com sua força de vontade e conseguiu controlar todos eles. – Olho para ele sorrindo, acalmando-o. – Tudo vai dar certo, eu confio na Blossom. Ela é forte, com certeza vai aprender a usá-lo.
Ele sorri para mim, pega a minha mão e ali deixa um beijo.
– Eu sei que ela vai. Estou me preocupando a toa. Mas de qualquer forma... Estou precisando fazer alguns experimentos com ela agora mesmo. Pode chama-la até aqui?
– Ok.
Pus meus sapatos e subi as escadas, abrindo a porta em seguida. Antes que eu pudesse sair, fui interrompida pelo chamado do Professor.
– Buttercup!
– O que? – Pergunto, olhando para ele.
– Onde está o Butch? Ele costumava passar aqui todos os dias, mas desapareceu ultimamente.
Sinto uma pontada no meu peito, e todos aqueles pensamentos voltam a me atormentar. Fito o chão, imaginando onde ele deveria estar agora. Pensando bem... Não o vejo desde aquele dia.
– Não sei... Não tenho falado com ele.
– Que pena. Ele é um cara legal, apesar de ter sido um mala quando criança. – Seu comentário me surpreende um pouco. – Nem acredito que vou dizer isso, mas... Torço pra que dê tudo certo entre vocês.
Arregalo um pouco os olhos, respirando o fundo. Ainda fitando o chão, respondo-o e vou embora.
– Sim... Tomara...
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Mil e uma coisas passam pela minha cabeça nesse momento. Por mais que eu tentasse, não conseguia pensar em outra coisa que não fosse minha situação com Butch. Porque tudo tem que ser tão problemático? Porque eu tinha que me apaixonar justo por um Desordeiro? E porque quanto mais tempo passa, mais eu tenho certeza de que eu não sei nada sobre ele?
De que adianta estarmos juntos... Se eu mal o conheço?...
Esse pensamento me fez estremecer, mesmo sendo uma noite quente. Pensar na hipótese de deixar Butch para traz... Era como se estivesse fora de cogitação. Eu já tentei fazer isso várias vezes, e nunca deu certo. Meu coração nunca aceitou tê-lo distante de mim. Mas quanto mais eu descubro seus lados obscuros... Mais meus instintos pedem sua distância.
E em quem devo confiar? No meu coração? Ou no bom senso?
Porque é tudo tão confuso??
E todo esse drama estava sendo discutido em minha mente em plena duas horas da madrugada. Eu estava deitada na cama, tentando dormir, enquanto minhas irmãs já estavam no oitavo sonho. Sinto minha garganta seca e vou até a cozinha em busca de algo para saciar minha sede. Faço o mínimo de barulho possível para não acordar ninguém.
Descendo as escadas, posso ver que a luz da cozinha estava acesa, me deixando um tanto curiosa para saber quem estava ali. Ultrapassando a porta, vejo a Srta. Bellum comendo uma maçã, ela logo repara a minha presença e lança seu olhar em minha direção. Ela estava usando uma linda camisola branca de cetim, seu lindo cabelo rebelde estava solto, e seus pés estavam descalços. Mesmo com um olhar cansado, ela permanecia extremamente linda.
Depois de toda aquela estória do casamento e tudo mais, Srta. Bellum arrumou as trouxas e veio morar conosco. Finalmente o Professor não dormiria sozinho numa cama tão grande. Algumas coisas ainda ficaram na casa dela, mas ela irá busca-las quando tudo já estiver bem organizado.
A ruiva sorri para mim de maneira gentil, assim como sempre faz, tragando uma mordida na maçã em seguida.
– Quer alguma coisa, meu anjo? – Pergunta. Ah, como é bom tê-la aqui em casa.
– Eu estou com sede. – Respondo.
Caminho até o botijão de água segurando um copo, enchendo-o e bebendo tudo de uma vez. Coloco mais um pouco, e quando percebo, já estava no quarto copo. Nossa, quanto tempo faz que eu não bebo água?
Srta. Bellum observa a cena e solta um risinho.
– É o que dá ficar tomando refrigerante o tempo todo. – Brinca, jogando os restos da fruta no lixo. Eu a respondo com outro risinho e volto a beber minha água. Agora percebo que ela estava me observando de maneira estranha, como se estivesse desconfiando de alguma coisa. Ela sempre foi assim, curiosa, sempre formulando ideias na cabeça antes mesmo de saber de algo. Se bem que... Eu não ando disfarçando muito meu desconforto. Ela vem em minha direção lentamente, ainda sem tirar o sorriso do rosto, olha profundamente em meus olhos. – Tem alguma coisa errada, não tem?
Eu sabia que ela iria dizer isso.
Solto um suspiro cansado, bebendo o resto de água que tinha no copo.
– Parece ter? – Pergunto.
– Tem sim. – Ela afirma sem que eu confirmasse. – É o Butch de novo, não é?
Sua pergunta direta me pega de surpresa. Essa mulher tem mesmo um espírito de dedução muito grande. Eu não poderia mentir, afinal, de que adiantaria? Ela é minha mãe agora, então não vejo motivos para ter segredos com ela.
Eu precisava me abrir um pouco.
– Srta. Bellum...
– Sim?
Um silêncio amedrontador paira sobre a cozinha, deixando um clima meio tenso. O olhar curioso da mulher parecia penetrar em meus olhos, assim como eu me perguntava se deveria ter contado tudo a ela há muito tempo.
– Eu... Eu não sei... É como se eu não soubesse de nada... – Começo a contar, ela nada diz, esperando que eu continuasse. Respiro fundo. – Bom... Ao mesmo tempo que eu namoro o Butch, é como se ele fosse um estranho pra mim. Eu desconheço muitas coisas dele, e o pior de tudo... É que eu tenho medo de descobrir. – Pude sentir como se todas as lágrimas solitárias que estavam guardadas por todo esse tempo, tivessem se reunido em meus olhos. Culpa da TPM, talvez. Mas consegui contê-las, tentando não parecer uma desesperada. – Me diga... Como eu posso amar alguém que nem conheço? Ou pior... Que nem confio?...
O silêncio continua, Srta. Bellum parecia não estar ajudando em nada ficando calada daquele jeito. Era como se algo em mim implorasse a falta daquele silêncio. Pelo menos... Pelo menos eu disse o que queria dizer.
Sou capaz de ouvir seu suspiro farto, ela cruza os braços e inclina o corpo para o móvel da pia.
– É... Pelo visto a situação é séria... – Comenta, coloca a mão no meu ombro e me dá um beijo na cabeça, fazendo um leve cafuné. – Tudo bem, querida. Tenho certeza de que essa é só uma fase ruim entre vocês dois.
– Mas e se você soubesse que essa fase começou antes mesmo de namorarmos? – As palavras simplesmente saem de minha boca. Mal posso acreditar no que acabara de dizer.
Eu... Realmente disse isso?
Srta. Bellum faz uma expressão um tanto desconfiada, segura meu rosto e mais uma vez me olha nos olhos, era inevitável olhar para ela de volta.
Ela agora faz uma expressão séria, como se quisesse deixar o seu recado bem claro.
– Buttercup, se você realmente gosta desse menino, porque não tenta falar com ele? – ... Ahn? Porque essa ideia me parece tão estranha? Meu coração começa a bater mais forte do que antes de repente. – Sabe... Se vocês dois estão mesmo em um relacionamento, suponho que devem se abrir um com o outro, apontar as coisas que estão lhe incomodando é o primeiro passo. A única maneira de resolver este problema é conversando com ninguém menos que ele.
Eu sabia muito bem que ela estava certa, aliás, a ideia de falar com ele a respeito de tudo já havia passado pela minha cabeça várias vezes. Mas porque eu as recusei? Não tenho a mínima ideia.
Seria tudo muito mais fácil se eu perguntasse logo pra ele o que são essas coisas estranhas que estão acontecendo, o porquê de ele esconder tanto de mim, e o porquê de nossa relação ser tão complicada. Seria muito mais fácil se eu perguntasse logo o que seria a porra daquela aposta, ou se tudo o que Ace disse estava certo... Mas porque diabos eu ainda não perguntei? Por medo? Medo de como ele reagiria? Medo de ele continuar mentindo? Medo de saber a verdadeira estória?... Eu não faço ideia.
Quer saber?...
Eu estou sendo uma idiota.
Olho para a Srta. Bellum com um olhar confiante e um tanto mais sereno. Sim, aquela conversa me ajudou bastante. Como pude ser tão cega? Pois é, parece que a Super Poderosa mais durona está amolecendo.
– Obrigada Srta. Bellum. – Ponho o copo em cima do móvel e me espreguiço, sorrio para a mulher, que se surpreende ao ver minha expressão mudar tão de repente. – Eu... Vou seguir seu conselho.
Ela entreabre mais um sorriso no rosto, dessa vez um que demonstrava seu alívio ao me ver melhor.
– Disponha. – Responde. – Sempre que precisar, estarei ao seu lado.
– Ok. – Sigo em direção à porta, onde paro. Dou uma última olhada para ela com um sorriso no rosto. – Obrigada mesmo. Acho que... Você achou a solução que eu estava procurando. Eu agi feito uma idiota por tanto tempo...
– Não fale assim. – Ela me defende. – As mulheres fazem burradas quando se apaixonam. É como se você não quisesse enxergar os defeitos da pessoa e acabasse cegando a si mesma.
– Até que faz sentido... – Sinto meus olhos pesados, parece que finalmente o sono havia chegado. Caminho até meu quarto e aceno para ela. – Boa noite. Amanhã eu resolvo isso com ele.
– Boa noite e boa sorte. – Ela diz, otimista como sempre.
Enquanto subo as escadas até meu quarto, me flagro imaginando o quão longa será a minha conversa com ele. Que aliás, já deveria ter sido feita há muito tempo.
Há tantas coisas pra falar. Tantas coisas pra perguntar.
Mas... Por onde eu começo?
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Naquele dia, provavelmente o mais quente do ano, eu já havia decidido o que fazer.
Levantei-me de onze horas da manhã com os gritos de Bubbles. Ela e Blossom tiveram uma discussão justo no quarto, mesmo sabendo que eu estava dormindo. E sim, por terem me acordado, eu acabei entrando na briga. No fim, o Professor nos apartou com a velha ameaça do “Calem a boca, ou vão ficar de castigo!”. Depois tomei um banho frio e desci para o almoço. Enquanto fazia todas essas coisas, fiquei formulando mil e uma coisas em minha mente.
Fiquei horas deitada em minha cama ontem, pensando em diversas formas de como ter aquela conversa com Butch, no fim, acabei por decidir de ir na casa dele logo após o almoço. E que se dane se os irmãos dele estiverem lá.
Pois é, é hoje... Chega de bancar a idiota.
Assim que terminei minha refeição e lavei meu prato, fui em direção à porta.
– Vai atrás dele? – Pergunta Srta. Bellum assim que abro a porta. Viro meu rosto para ela com um olhar confiante, faço que sim com a cabeça e ela sorri. – Vai dar tudo certo. Você vai ver.
– Eu sei. – Aceno e saio de casa, fecho a porta e saio voando até a casa do moreno. – Sei disso...
Na verdade, eu não sabia. Era mais uma tentativa de enganar a mim mesma. Quem dera ter certeza de que tudo não passava de um mal entendido, ou até mesmo uma brincadeira de mau gosto. Eu já havia me preparado há muito tempo para saber a verdade, porque no fundo, eu sempre tive certeza de que esta verdade me decepcionaria.
Ah, Butch... Como pode uma paixão deixar alguém tão entregue?...
Pouso em frente a sua pequena casa. Estava suja, como sempre, até mesmo do lado de fora havia lixo espalhado pelo chão. As janelas estavam quebradas, e tinha um buraco no telhado a qual não me recordava, provavelmente houve alguma briga por aqui.
Encaro a porta de entrada e respiro fundo, ponho uma mecha de cabelo atrás da orelha e caminho até lá. As milhares de sensações que percorreram por meu corpo enquanto eu caminhava até aquela porta eram inexplicáveis, era como caminhar até os fatos enquanto o medo tentava me puxar para trás. Os três degraus que me limitavam da porta pareciam ser como as maiores montanhas do mundo. Eu me senti tão pequena diante de coisas tão simples.
Até mesmo as coisas mais simples haviam se tornado problemas gigantescos.
Estico meu dedo até a campainha, mas antes mesmo que eu pudesse apertar, percebo que ali estava preso um pedaço de papel embrulhado. Sem pensar duas vezes, o retiro dali e desembrulho, vendo a pequena, porém desapontável mensagem. Não pode ser...
“Ce estivé procurando os dono déça ksa, cai fora! Nóis viajamus pra um lugar e naum sabems cuando vamus voltá. Ce kizer entrá ein contatu, ligui pra esti numeru:”. E ao lado havia o desenho de um pênis.
– MAS QUE MERDA É ESSA?!?!? – Resmungo em voz alta, rasgando o papel em seguida. – PORRA! JUSTO QUANDO EU CRIO CORAGEM E FAÇO O MAIOR DRAMA PRA CHEGAR ATÉ AQUI, ESSE FILHO DA PUTA DECIDE VIAJAR?!? PUTA QUE PARIU!! TOMARA QUE TENHA IDO Á MERDA!! E QUE PORTUGUÊS HORRÍVEL É ESSE??
Após mais alguns minutos xingando-o de diversos nomes, tento me acalmar e sento na beirada da escadinha em frente à porta. Respiro fundo e finalmente esfrio a cabeça. Justo quando eu havia criado coragem... Droga! Não posso esperar mais!
Tiro meu telefone do bolso, digito seu número e ponho o telefone no ouvido. Eu não queria que fosse por telefone... Mas não vejo outra opção. Sinto um aperto em meu peito só ouvir o barulho de conexão, o que mais me atormentou foi a demora para ele atender. No fim, quando ouvi sua voz, senti um certo alívio. Eu já estava com saudades daquela voz.
– Alô?
– O-Oi Butch – Respondo um tanto nervosa. – Sou eu...
– Ah, oi Bc. Foi mal não ter aparecido esses dias, eu estava meio ocupado.
– É, eu percebi. Porque não me disse que ia viajar?
– Bom, eu não queria te deixar preocupada, e... Talvez eu nem demore. Mas eu iria te ligar hoje de noite.
– Quanto tempo vai ficar fora?
– Não sei... – Faz uma pequena pausa, pensativo. – O máximo é algumas semanas.
– Semanas?? E ainda diz que não vai demorar??
– Pois é... Desculpa, eu deveria ter avisado.
– Aonde você está agora?
– Nos céus, voando com meus irmãos. Nós viajamos hoje de manhã.
– Entendo.
Ambos ficamos em silêncio por alguns instantes. Centenas de coisas passam por minha mente e tudo se embaralha. Eu já havia perdido completamente o foco do que iria dizer.
– Mas... Você também não parece se lembrar de mim. – Arregalo um pouco os olhos. – Não me ligou, nem mandou mensagem... Esteve me evitando nos últimos dias?
Engulo seco ao ouvir sua pergunta, começo há suar um pouco, não só pelo calor, mas também, e principalmente, pelo nervosismo. Respiro fundo e suspiro fortemente. É agora...
– Mas... Mas também, depois daquela maneira que você agiu no laboratório, já era de se esperar que eu ficasse com receio de te ver.
Não ouço resposta, só o silêncio. Naquele momento, o que eu mais desejava era ver seu rosto, sua expressão, queria ver a reação dele naquele momento. Porque ele tinha que viajar? Eu detesto conversar por telefone.
Respiro fundo e continuo a falar.
– Butch, está me ouvindo? – Ouço um barulho como resposta, parecia um sim, só que muito baixo. – Bom... O motivo de eu estar te ligando é esse. – Ele nada responde, só escuta. Diga alguma coisa... Diga alguma coisa... – Eu... Eu não aguento mais isso, Butch. De verdade. Não aguento mais essa dúvida. Eu preciso saber por que você age tão estranho de repente, e porque é tudo tão complicado quando o assunto é você.
– Aonde quer chegar? – Ele finalmente responde, me aliviando um pouco.
– O que eu quero dizer é que... – Por um momento, as palavras deixam de sair. Senti algo preso na minha garganta que me impedia de falar. Não! Eu não posso parar agora! Tenho que ir até o fim! Luto contra esse força e, em fim, prossigo. – É que... Preciso de respostas. Eu preciso saber porque você agiu daquela maneira, porque você é tão misterioso comigo, porque você continua a mentir, e o que diabos é aquela aposta que o Brick falou. São tantas coisas que eu me pergunto há tanto tempo, e... Eu sempre tive medo de perguntar a você.
Eu... Consegui...
Nada ouço como resposta, Butch se calou e nada mais disse. Passei a me perguntar o que ele estava pensando, e o que eu estava prestes a ouvir. Eu sabia muito bem quando ele estava mentindo, portanto ele não tinha escapatória dessa vez.
O silêncio se prolonga e apenas escuto o barulho do vento forte do outro lado da linha, senti um leve arrepio nos braços e uma sensação estranha. Muito parecida com a que eu senti há alguns dias atrás com Butch no laboratório. Só não estava pior, pois eu não conseguia olhar em seu rosto. Garanto que se eu o visse agora, acharia sua expressão amedrontadora.
– Você... – Ele finalmente corta o silêncio, me dando um susto. – Você realmente quer saber?
Agora as coisas estavam começando a ficar tensa. A voz dele estava em um tom completamente sério, muito diferente do tom do Butch normal, que é sempre alegre e irônico. Até meu próprio tom de voz estava mais sério.
– Sim. – Respondo sem hesitar.
– Ok. – Ele faz uma pequena pausa, me deixando um tanto nervosa. – Eu... Eu vou te contar. Mas não agora. Não por telefone. Eu preciso te ver pessoalmente, e falar pessoalmente. Tudo bem?
Penso por alguns minutos. Esperar ainda mais?... Mais um sacrifício?...
Solto um suspiro, acabando por concordar.
– Tudo bem... Eu também não gosto de falar por telefone. Vou me sentir melhor falando pessoalmente.
– Ok. – Ele faz uma pequena pausa, ouço-o resmungar alguma coisa para um dos irmãos e volta a falar comigo. – Eu preciso desligar agora, Bc. Ligo pra você mais tarde.
– Tá.
– Vou ligar pra você todos os dias.
– Eu também vou te ligar.
– Certo.
– Beijo.
– Beijo.
E nós dois desligamos, seguido de um suspiro longo. Olho para o céu azul e sem nenhuma nuvem, refletindo a respeito do sofrimento que passarei nesse tempo em que Butch estiver viajando.
Butch... Volte logo, por favor...
POV Butch
Desligo o telefone, colocando-o no bolso em seguida. Continuo voando pelo céu vermelho daquele lugar medonho. Eu sempre gostei de vir pra cá, mas porque ultimamente eu tenho achado ele tão entediante?
Quando eu era menor, via tudo isso como um paraíso. Afinal, não é todo lugar em que você cheira a morte e sangue a cada passo que você dá. Parece que meu conceito de paraíso também mudou com o tempo.
Seria bom ficar refletindo sobre aquele lugar, mas eu tinha coisas mais importantes na minha cabeça. Eu já estava esperando que Buttercup fosse exigir uma explicação, contudo, não sei se tenho coragem de contar pra ela o grande filho da puta que eu sou. Ela vai me deixar, sem a menor dúvida. E por mais que eu queira seu bem... Eu sou egoísta. Quero que esse tempo continue para sempre, mesmo que tudo já esteja chegando ao fim.
Não estou preparado para o fim que estou destinado a ter.
– Quem era? – Pergunta Boomer, curioso.
– Bc. – Respondo.
– Ah, então a namoradinha ficou puta porque você não avisou que ia viajar? – Pergunta Brick, zoando com a minha cara. – Então o namoro está em crise, é? Vê se mantém ela na sua mão até terminarmos com tudo.
– Vai se foder, Brick! – Digo, preparando um soco com a mão direita. Ele se esquia, voando um pouco mais rápido.
– Se aquieta, Butch. – Diz Boomer, tentando me acalmar. – Foi você quem começou isso, pra início de conversa.
– Boomer tem razão. – O ruivo se intromete, voando para o meio de nós dois. – Não queira bancar o bonzinho. Você é o verdadeiro vilão dessa estória. – Suas palavras me calam, como se tragassem uma faca em meu peito. Merda... Juro que se eu pudesse mata-lo agora... – Além disso, eu prometi que não a mataria, não prometi? As outras duas... É, acho que vou matar as outras duas. Mal posso esperar para sentir o gosto de seu sangue. – Ele lambe os beiços de uma maneira estranha, fazendo uma expressão psicopata. – Deve ser delicioso.
– Brick, você é um lunático. – Afirma o loiro, zombando dele.
– Brick... – Chamo sua atenção.
– O quê, Butch?
– Não vamos machuca-la... Não é?
Ele continua com aquela expressão maquiavélica, lambendo os lábios como se realmente estivesse sentindo gosto de sangue em sua boca.
– Claro que não, maninho. Eu já disse uma vez... – Põe a mão em meu ombro, apesar de querer parecer sério, estava mais parecendo um psicopata zombando da minha cara. Era impossível saber se ele estava falando a verdade. – Uma promessa minha jamais é descumprida. Não vamos encostar um dedo na verdinha. Quer dizer... Só um pouquinho.
– Desgraçado...
Ele começa a rir enquanto encara o céu vermelho, à medida que chegávamos mais perto do castelo negro do lugar amedrontador que era o inferno.
– Finalmente vingaremos todos aqueles que foram humilhados por aquelas vagabundas. – Ele vangloriava-se com um sorriso maldoso e uma expressão maléfica. – E pensar que tudo começou com uma aposta escrota. Mas sinceramente, não consigo compreender esse seu desejo desesperado de protegê-la. Mesmo que fique viva, ela será a mais afetada nisso tudo.
– Cala a boca, seu puto!
– Só estou encarando os fatos.
Continuamos voando pelo céu vermelho do inferno ao som da gargalhada do ruivo, Boomer me olhava com uma expressão que parecia dizer “Isso é tudo culpa sua”, o que me deu vontade de soca-lo no rosto. Como se eu mesmo já não me culpasse por isso todos os dias.
Suspiro e olho para as nuvens negras, e mesmo naquela situação, mesmo naquele lugar, a única coisa que eu conseguia pensar era na morena de olhos verdes. Você não sai da minha cabeça mesmo...
Como eu queria que tudo fosse um pesadelo.
Continua...
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