Playing With Fire
11 Noite imprevisível
Notas iniciais
Duas semanas depois...
Abro meus olhos lentamente ao sentir algo me cutucar enquanto chama meu nome, eu não estava no meu quarto, muito menos em minha casa. Percebo que estava sentada com os braços estendidos na mesa, como um travesseiro para o meu rosto. A primeira coisa que vejo são inúmeros olhares para mim, tomo consciência de que aquilo não era um sonho e me ajusto na cadeira. Merda, dormi na aula outra vez.
O professor de matemática olhava para mim com seriedade, o que fez os alunos começarem a comentar entre si, me dando nos nevos. O homem mais uma vez deu o discurso de que “da próxima vez que a senhorita dormir em minha aula, terei de levá-la para a diretoria.” e volta a dar sua aula, que nem dei muita atenção pois ultimamente mal tenho dormido, tudo o que eu mais queria naquele momento era ir para casa e tentar dormir tranquilamente depois de duas semanas passando madrugadas em claro.
Eram tantas as coisas em minha mente, tantas inseguranças e medos que me deixavam cada vez mais confusa, e uma estranha sensação de vazio no peito quando volto a pensar... Nele. As semanas que se passaram pareceram durar uma eternidade, não tive nenhuma experiência insana ou aquele arrepio que se dá quando sabe que fez algo de errado. Minha única atividade agitada tem sido o que eu sempre fiz: Chutar a bunda de alguns bandidos. Por duas semanas, era como se tudo tivesse voltado ao normal. Quer dizer, quase tudo.
Acham mesmo que ele iria desistir? Não houve um dia que ele não me enviou uma mensagem ou um novo voicemail, todos perguntando sobre o que aconteceu naquela noite depois da boate. Aparentemente, e como eu esperava, ele não se lembra de nada que fez. Não lembra quando disse aquelas coisas sentimentais, de quando me encheu de beijos, me tocou em lugares constrangedores e me expos como ninguém nunca fez. E eu sei que naquela mente de bêbado, apesar de não ter a consciência de seus atos, ele estava querendo fazer “aquilo” comigo.
Mas não só esses devaneios estão me incomodando, acho que o que mais está mexendo com minha mente e meus sentidos foi o que a srta. Bellum disse naquela mesma noite.
“... Sei muito bem reconhecer uma mulher quando está... Apaixonada...”
Apaixonada, é?... Algumas lembranças ruins invadem minha mente, fazendo meu coração doer um pouco. Diferente da maioria das pessoas, quando ouço a palavra paixão não penso em algo bonito e duradouro, e sim algo que arranca seu coração com força, o esmaga, o soca, o chuta e depois cospe em cima. Não defino paixão como algo bom e positivo. E tudo isso agradeço ao filho da puta chamado Ace D. Copular, que usou e abusou de todas as minhas fraquezas e depois jogou fora sem dó.
Estar apaixonada é uma merda, e admito isso com o maior prazer.
Não. Eu não estou apaixonada.
Ouço o sinal do fim da aula tocar e agradeço a Deus, não tem nada melhor que ir embora depois de uma cansativa manhã de quinta-feira, que de fato é o dia das aulas mais chatas. Espero o professor sair da sala e me levanto da cadeira, arrumo minha bolsa e vejo Amy se aproximar de mim com seus grandes olhos e cabelos castanhos. Estava com um sorriso esquisito no rosto. Primeiramente estranho sua expressão e decido questionar.
– Pra quê essa cara? – Pergunto e ela solta um risinho.
– Eu fiquei sabendo, sua putinha. – Começa, me chamando do lindo apelido que adotou para a melhor amiga. Amizades são tão estranhas. Quanto mais são amigos, mais fortes são os “elogios”. Não entendo o que ela quis dizer com aquilo e fico confusa. – Quanto tempo achou que esconderia de mim?
– Do que está falando?
– Do seu aniversário, oras! – Diz e minha ficha cai. Ih, é mesmo! Meu aniversário é amanhã. – Anta! Nem sequer lembra da data do aniversário!
– Eu tenho mais coisas pra me preocupar! – Ponho a bolsa nas costas e sorrio para ela. – Quem te contou?
– A Blossom. Ela me pediu para te avisar que esta noite vocês fariam uma tal de “Despedida dos dezessete.”
– Ah... Esse ano também vai ter isso? – É meio que uma tradição entre mim e minhas irmãs. Um dia antes de nosso aniversário, chamamos nossas melhores amigas para dormirem lá em casa e assistimos alguns filmes, jogamos papo fora e aproveitamos nossa ultima noite sendo um ano mais novas. Ponho a mão no ombro de Amy. – Caso você não saiba, tá convidada. Aparece lá em casa umas sete horas e leva suas coisas, vou tentar convencê-las a por um filme de terror. – Ela pareceu recuar em pouco e eu suspiro, já sabia muito bem o motivo. – E não ouse faltar por causa da Bubbles.
Amy fica em silêncio por alguns instantes sem olhar em meus olhos, pensa um pouco e logo solta um suspiro longo.
– Tudo bem, eu vou. – Um sorriso involuntário de satisfação brota em meu rosto e eu bagunço seus cabelos castanhos, fazendo-a soltar alguns risinhos. – De sete horas estarei lá. Mas agora tenho que ir, minha aula de piano vai começar.
– Então tá. Até mais tarde.
Acenamos uma para a outra e vamos para lados opostos, ando o mais rápido possível em direção da porta do colégio, praticamente voando. Queria ir para casa, dormir, cochilar, cair dura na cama nem que fosse por meia hora. Sou pega de surpresa quando de repente esbarro em alguém, fazendo a pessoa quase cair no chão.
Mesmo sem olhar para a pessoa, já estava me desculpando de cabeça baixa. Ouço uma irritante voz de mulher vinda da pessoa que eu esbarrei. Acreditem, a voz era muito irritante.
– Está tentando me matar, Super-Horrorosa?!? – Ergo minha cabeça para reconhecer e sinto uma vontade imensa de me matar só em ver quem era. Justamente a pessoa que tenho evitado em um bom tempo depois do que aconteceu naquela piscina: Princesa. Ela me parecia irritada, mas ao mesmo tempo permanecia com seu olhar maléfico. – Porque tá me olhando assim? Parece até que viu um fantasma.
– Não. Vi coisa pior: Você. – Me viro de costas na intenção de ir embora para cortar o assunto de vez.
Princesa me puxa pelo ombro, me obrigando a ficar mais um pouco.
– Espere aí. – Ela ordena. – Eu ainda não terminei de falar contigo.
– Seja lá o que for... Não me interessa. – Debocho e ela bufa ainda mais.
– Isso lá é jeito de falar comigo?!? – Me empurra para a parede e me cerca, impedindo que eu escapasse. – Eu percebi que você anda fugindo de mim... E sei muito bem por que. – Merda! Pensei que ela tinha esquecido!
– Olha Princesa... – Começo. – Nos conhecemos desde o maternal, e acho que você já deveria ter percebido que meu pavio não é dos mais longos. Por isso, não teste minha paciência, eu só quero ir pra casa e...
– Ah, mas não é porque nos conhecemos desde o maternal que eu te dou liberdade de invadir minha casa de noite e ficar se agarrando com um garoto na minha piscina. – Ela me interrompe e eu engulo seco, começo a suar frio e ela se satisfaz com meu nervosismo. – Confesso que fiquei muito surpresa com o fato de você ter arranjado alguém, afinal só um babaca pra gostar de uma macho-fêmea. Mas o mais estranho é que eu percebi que ele também voava, e...
– N-Não sei do que está falando... – Minto sem olhar em seus olhos, as gotas de suor caiam com mais intensidade no decorrer que os segundos se passavam e tudo o que eu conseguia ouvir era a risada vitoriosa de Princesa.
– Não sabe, queridinha? Pois as câmeras de segurança podem refrescar sua memória.
Câmeras de segurança?!? Cacete!! Fodeu!! Eu sabia que aquela ideia estúpida dele ia dar merda!! Princesa estava com uma aura maléfica, assim como sempre fica quando ameaça a mim e minhas irmãs, ela parecia não estar para brincadeiras. Eu não tinha a menor ideia do que ela tinha em mente, mas tinha certeza de algo: Coisa boa não era.
Princesa nunca foi flor que se cheire, mas confesso que desta vez, eu era a errada. Ela provavelmente deve ter mostrado tudo pra polícia. Butch, seu maldito! Vou sujar minha imagem por sua culpa!!
– Esses vídeos... Você entregou para a polícia? – Pergunto e ela solta um risinho.
– E perder a oportunidade de te chantagear? Sem chance. – Diz ela e eu começo a ficar irritada. Chantagear é? Bem típico dela. – Vamos fazer o seguinte acordo: Se você não fizer tudo o que eu mandar, enviarei os vídeos para a polícia de Townsville, assim toda a cidade ficará sabendo que a grande heroína não passa de uma invasora de lares. – Meus olhos começam a pegar fogo. Essa maldita... – E também, irei relembrar que meu pai tem os melhores advogados da América, faça uma gracinha e deixarei você e suas irmãs idiotas morando num chiqueiro.
– Já entendi o recado! – Respondo com as sobrancelhas juntas. Estava me segurando para não voar no pescoço dela e enchê-la de porrada sem dó, mas sei que se eu explodisse, apenas pioraria as coisas. Tudo o que eu menos queria naquele momento era ter a imagem exposta para todos. – Quando você diz “fazer tudo”, sobre o que se refere?
– Tudo é tudo. – Tira uma lincha de unhas do bolso e começa a ajeitar suas próprias unhas. Começa a me dar ordens sem nem sequer olhar em meus olhos. – Para começar, eu encomendei uma saia da Prada lá no shopping e estou sem tempo para ir busca-la. Vá até lá por mim, amanhã quero ela na minha mão.
– O que?? Mas eu...
– Nada de “mas”! Vá buscar agora ou todos ficarão sabendo que você invade piscinas com seu namorado!!
Sua ordem exigente me fez engolir seco, da um último sorriso debochado e vai embora. Sinto chamas de raiva fluírem por meu sangue e uma vontade gigantesca de socar a cara de alguém. Vou para um lugar mais escondido da escola e liberto toda a minha raiva num soco dado na parede, que por sinal se quebra de tamanha intensidade e força.
– AAAARGH!! QUE ÓDIO!! AQUELA PUTA VAI TER O TROCO!!!
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Devido às circunstâncias, senti-me obrigada a sair de meu conforto e ir buscar a maldita saia na porra do shopping. Sim, eu passei um bom tempo dando chiliques para mim mesma, segurando com todas as minhas forças a vontade de matar a Princesa sem deixar um osso intacto. Depois de socar uma dezena de paredes, fui para casa e tomei um banho rápido, pus uma blusa preta confortável e uma calça jeans. Logo após o almoço, sai de fininho pela porta dos fundos e voei em direção ao shopping.
Não queria que suspeitassem de nada, pois se descobrissem que virei uma “capacho” da Princesa, saberiam que há um bom motivo por trás. O que eu mais temia era que descobrissem esse motivo. Chego ao local destinado e o encaro com chamas nos olhos, pensei que nunca mais teria de entrar ali, afinal depois das poucas e boas que aconteceram, não seria surpresa eu pegar uma versão ainda pior sobre o lugar.
Respiro fundo e mantenho a calma, entro e vou na direção do quarto andar, que de fato é o andar das lojas mais caras. Não é nenhuma surpresa aquela riquinha só comprar roupas nesse andar. Logo no primeiro corredor, lá estava a grande loja com o nome Prada estampado na frente. Caminho até lá dentro e dou de cara com uma vendedora, que de fato estava com um sorriso besta estampado no rosto.
– Olá senhorita, em que posso ajudar? – Ela pergunta e minha voz estranhamente some.
– E-Eu... – Começo a gaguejar e reviro um pouco o rosto. – V-Vim buscar a encomenda de Princesa Morebucks...
– Ah, então é amiga da srta. Morebucks?
– É... Mais ou menos isso...
A moça me leva até uma prateleira cheia de saias e vestidos extravagantes, pareciam até ser folheados a ouro, com toda certeza uma única peça custava o preço da minha casa. Ela retira uma saia cor-de-rosa da embalagem, tinha um tecido fino e delicado, não era tão extravagantes como as outras, mas confesso que era bem bonita.
Ela anda até mim com a saia em suas mãos e sorri gentilmente.
– Senhorita, poderia experimentar essa saia? – Ela pergunta e eu recuo um pouco.
– O-O que? Eu? Mas por quê?
– Bem, é que não tenho certeza se esse é o tamanho certo da srta. Morebucks. E acho que você tem a mesma medida dela.
Tento formular uma resposta negativa, mas meu nervosismo faz minha voz ir para o espaço. Eu não acredito que vou fazer isso... Assinto para a mulher e ela me leva até o vestiário. Tenho um pouco de dificuldade para vesti-la, afinal faz anos que não ponho uma saia, principalmente uma tão delicada quanto esta.
Consigo ajustá-la e saio dali para me ver no espelho, meu rosto esquenta ao perceber que muitos olhares se voltaram para mim, provavelmente eu estava ridícula. Me olho no espelho e me surpreendo com o que vejo. A saia combinava bastante comigo, não só pela cor, mas também por realçar minhas pernas. Que por sinal, nunca percebi serem tão bonitas.
A vendedora vem acompanhada de outro vendedor, aparentemente gay, e começaram a me elogiar, dizendo que combinava com minha aparência e tal. Mas por outro lado, senti como se Butch estivesse bem ali dizendo “Ainda prefiro você com suas roupas normais, menina-macho.”. Por estar envergonhada, agradeço rapidamente e volto ao vestiário para por minha calça de volta, saindo de lá entrego a saia para a vendedora que a embrulha numa sacola.
Agradeço por tudo e saio o mais rápido possível dali em desespero, como um peixe fora d’água. Solto um suspiro aliviado. Pronto. Agora eu posso ficar em casa, e-...
– Primeiro um vestido, agora uma saia... – Diz uma voz bem familiar ao meu lado, estranhamente fez-me esquentar e meu coração acelera. Olho na direção do dono da voz, por incrível que pareça não me surpreendo, afinal ele é mestre em aparecer do nada. – Parece que seu lado feminino finalmente despertou.
– Butch... – Fico o encarando por alguns segundos. – O que faz aqui?
– Eu é que pergunto. – Começa com um sorriso debochado. – Pensei que essa não fosse a sua praia.
– Eu... Eu tenho meus motivos. – Respondo. Suspiro e me sento num banco ao lado.
– Entendo...
Dizendo isso, se senta ao meu lado e nós ficamos em silêncio, Butch parecia tranquilo, já eu, tinha medo do que ele poderia perguntar. Porque estou desse jeito? Eu mesma decidi que me afastaria dele. Eu não deveria me preocupar com a opinião dele.
O moreno volta seu olhar para mim com um sorriso gentil. Fitava o fundo dos meus olhos, trazendo toda a minha atenção para ele.
– E também deve ter seus motivos para ter se afastado de mim. – Me pega num susto, meus olhos se arregalam e engulo seco. – Não responde mais minhas mensagens, minhas ligações, nem meus e-mails. Que foi? Tá com medo de mim?
Ele brinca e eu solto um risinho.
– É mais fácil você ter medo de mim. – Brinco com ele e ele ri.
Depois daquilo, ficamos em silêncio. Eu não tinha uma boa desculpa formulada, afinal de contas ele não sabia o que tinha feito naquela noite por causa da bebida, e tudo o que eu menos queria era lembrar daquilo. Argh! Eu não sei se fico com raiva dele, ou se eu finjo que nada aconteceu! Quer dizer, eu o ignorei por duas semanas, não posso fingir que está tudo bem...
– Butch... – Começo. — Não é como se eu não gostasse de você, é que...
– É por causa do que aconteceu naquela noite? – Ele interrompe e eu me calo. – Olha... Eu estava muito bêbado, e... Não tinha a menor noção do que estava fazendo. Eu acordei na minha casa com uma dor de cabeça terrível e não conseguia lembrar mais de nada. Eu não tenho a mínima ideia do que fiz... Mas deve ter sido uma merda muito grande pra te deixar puta. Me desculpe...
Olho no fundo de seus olhos, estava sendo sincero. Ele está arrependido sem nem ao menos saber o que fez? Um sorrisinho involuntário brota em meu rosto e solto um pequeno suspiro. Eu nunca vou entender esse menino.
– Não esquenta Butch, já passou. – O amenizo.
– O que? Tem certeza?
– Claro. Vamos fingir que nada aconteceu, ok? – Eu o acalmo e ele sorri. Esse sorriso... Já estava fazendo falta. – Se bem que... Eu já estava ficando com saudade das suas idiotices.
Butch começa a rir e põe a mão na minha cabeça, sacudindo meus cabelos, me deixando vermelha.
– Eu também já estava ficando com saudades de você, marrentinha.
Tiro sua mão dali, com vergonha, me ergo um pouco. Marrentinha? Esse idiota... O moreno não tira os olhos de mim, um tanto curioso.
– Então... Quer dizer que aconteceu mesmo alguma coisa naquela noite? – Sua pergunta me faz suar. Merda, será que ele não pode mudar de assunto? – O que foi que eu fiz, hein?
– E-Eu prefiro não falar mais sobre isso.
Butch me encara um pouco mais, me deixando nervosa. Logo assente e solta um suspiro. Põe a mão em meu ombro e se aproxima de mim, me deixando confusa.
– De qualquer forma... Eu ainda quero me redimir contigo.
Olho no fundo de seus olhos, ele estava falando sério. Nossa. Nunca o vi tão arrependido. Um sorriso involuntário brota em meu rosto e eu ponho a mão em seu ombro, o confortando.
– Não precisa Butch. Eu já disse, esquece isso.
– Precisa sim. Senão eu nunca vou me perdoar. – Põe a mão no bolso de seu casaco escuro e de lá tira um pequeno envelope que logo entrega em minhas mãos. – Pra você.
– O que é isso?
– Abra e verá.
Assinto e seguro as bordas do envelope, abro-o e de lá tiro dois papeis pequenos. Porém não era simples papeis. Encaro-os um pouco mais e logo me dou conta do que era, meu coração quase para e uma alegria inexplicável toma conta de mim. Esses papeis eram ingressos para o camarote do show da banda Iron Maiden* de hoje.
– Meu... Deus...
Dou um pulo do banco pela emoção do momento e Butch se levanta junto comigo, coçando a cabeça. Eu não tirava os olhos daquilo. Era a coisa mais linda que já vi na vida.
– Comprei eles agora. – Diz ele, meio sem jeito. – Foi uma sorte conseguir lugar no camarote, principalmente pelo show ser hoje. Eu não sei se você gosta do Iron Maiden, mas...
– TÁ BRINCANDO?!?!?! EU AMO!!! – O interrompo, gritando de alegria no meio do shopping. Dou um pulo em cima dele e o abraço com força, fazendo-o soltar uma risada baixa. – BUTCH, EU ADOREI!! OBRIGADA, OBRIGADA, OBRIGADA!! EU TE AMO CARA!!!
Depois dessa última frase, fico em silêncio processando o que disse. “Eu te amo cara. Eu te amo cara. Eu te amo cara. Eu te amo cara...”. Meu rosto esquenta violentamente e eu o solto, fico cabisbaixa, sem coragem de olhá-lo nos olhos. Ai, que vergonha! Não acredito que disse uma coisa daquelas alto.
– Hehehe. – Ele ri baixinho. – Não precisa me agradecer, eu sei que sou demais.
– Convencido! – Xingo e ele ri mais.
Finalmente olho para ele, estava com seu sorriso de sempre, saboreando-se do meu nervosismo. O silêncio reina o local e eu tento por um fim nele.
– Então... De que horas é o show? – Pergunto.
– De cinco.
– De cinco?? Mas... O show vai ser em Greenville, e são duas horas de viajem!
– Eu sei. E é por isso que nós temos que sair agora. – Segura minha mão e me puxa até o estacionamento do shopping. Ele estava de carro mais uma vez, que por sinal, parecia mais limpo que daquela noite. Só em lembrar que ele vomitou ali dentro... Me dá vontade de vomitar também. Nós dois entramos, ele iria dirigir, claro que com a ajuda do GPS afinal Butch aparentava ter senso de direção nenhum. Ponho o sinto de segurança e me aconchego na poltrona. – Pronta para ir?
– Pronta.
– Tá animada?
– Como nunca. – Libero um sorrisinho tímido. – Mais uma vez... Obrigada. Obrigada mesmo.
– Não precisa agradecer. – Liga o motor e nós saímos do lugar. – É pra isso que serve os amigos.
Solto um risinho.
Amigos? Bem... No nosso caso, temos uma amizade bastante estranha.
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E graças ao santo GPS, conseguimos chegar lá antes mesmo do show começar, a fila estava gigantesca, todos muito animados para que deixassem entrar logo, inclusive eu. Meu coração estava na boca, minha ansiedade estava em seu limite junto com a minha alegria, o que surpreendentemente me dava vontade de agarrar Butch ali mesmo e enchê-lo de beijos no rosto. Afinal, graças a ele eu estou aqui.
Como podem ver, sou grande fã do Iron Maiden (claro ¬¬), mas nunca fui a um show deles, agora estava prestes a realizar um sonho. Dou uma olhada no relógio de pulso, o show começaria em alguns minutos. Eu não sabia quando ele iria acabar, mas sei que com certeza eu chegaria atrasada para a “Despedida dos dezessete”. Ah, elas podem esperar um pouco. Pensei comigo mesma.
Percebi que a fila estava começando a andar e meu coração disparou, segurei o braço do moreno com força e o puxei para a entrada. A vista que conseguimos para o palco era perfeita, ver o Iron Maiden tocando logo em minha frente, foi uma das melhores coisas do mundo. Confesso, eu deixei algumas lágrimas escorrerem por meu rosto, mas nem venham me chamar de fresca pois isso é algo que eu não sou, mas a sensação de estar ali, vendo e ouvindo uma das minhas bandas favoritas de perto, tornou aquele um dos melhores dias da minha vida.
E eu nunca irei esquecer.
Mas infelizmente tudo o que é bom dura pouco, o show terminou o nós saímos dali. Butch e eu ficamos conversando sobre a experiência que acabamos de ter, falando das músicas, dos efeitos e da multidão animada cantando junto conosco. Sem brincadeiras, este foi o melhor show do mundo. Conseguimos sair da multidão e fomos em direção do estacionamento, que por sinal, também estava lotado.
Depois de alguns minutos andando enquanto conversamos, finalmente chagamos no carro, entramos e Butch põe a chave no motor. Olho para meu relógio de pulso, acabara de dar 19:55. Bem, estou quase uma hora atrasada. Elas vão reclamar, com toda certeza, mas acho que consigo inventar uma boa desculpa.
Desvio meu olhar para Butch e noto algo estranho, ele estava pálido como um morto, gotas de suor desciam por seu rosto, e sua expressão parecia a de alguém que tinha visto um fantasma.
– Butch, o que aconteceu? Você está bem? – Pergunto.
– Bc... Primeiro eu quero te pedir pra manter a calma. – Pede, quase num sussurro. Pra fazer essa cara... A coisa é séria!
– Manter a calma? Mas por quê? O que tá acontecendo? – Pergunto com o tom de voz alterado pelo nervosismo.
– O GPS... – Começa e eu desvio o olhar para o GPS, mas é aí que está o problema, o GPS não estava lá. Cadê o GPS?!?!?–... Foi roubado.
– Roubado?? Como assim roubado?? – Começo a entrar em desespero. – Como isso aconteceu?? Quando aconteceu??
– Eu sei lá! Entrei no carro e já estava sem!! – Afirma, também com o tom de voz alterado. – Devem ter roubado quando estávamos no show.
– E COMO CONSEGUIRAM ROUBAR???
– Acho que... Deixei o carro aberto sem querer. – Tanto a raiva quanto o desespero tomam conta de mim, libero tudo num soco que dou na cara de Butch, deixando uma grande marca roxa. – PORQUE VOCÊ FEZ ISSO??
– AINDA PERGUNTA? GRAÇAS A SUA ESTUPIDEZ ESTAMOS FODIDOS!! NÃO TEMOS A MÍNIMA NOÇÃO DE COMO VOLTAR PARA TOWNSVILLE!!
– Para de dar chiliques!! – Diz ele, tentando me acalmar. – Está tudo sob controle.
– Sob controle???
– Sob meu controle.
É isso que me preocupa! Retiro o sinto de segurança e o ordeno para parar.
– Para o carro!
– Como é?
– Para o carro! – Ordeno pela segunda vez. – Eu que vou dirigir!
Ele blefa.
– Até parece que você consegue se virar nessa estrada.
– Consigo me virar melhor do que você!! – Grito e ele se acanha. – Agora para a merda desse carro e me deixe dirigir se não quiser levar outro murro!!
Butch solta um suspiro e para o carro, nós dois saímos e invertemos os lugares. Logo o veículo mais uma vez e nós saímos do lugar. A estrada era deserta e escura, não tinha civilização por perto, nenhum ponto de informação sequer, o que já estava me deixando maluca de desespero. Eu não fazia a mínima ideia de onde estávamos indo, apenas segui em frente esperando algum sinal de luz para que eu pudesse pedir um mapa, uma informação, um aviso, um conselho, qualquer coisa.
O moreno fica em silêncio a viajem inteira, apenas olhando para a janela sem dar nenhum palpite. O suor em minha testa aos poucos caia com mais intensidade, eu estava com medo, muito medo, se eu soubesse que isso iria acontecer teria ficado em casa para a festinha. Se eu pensei em fazer uma ligação? É claro que sim, não sou idiota. Porém o lugar em que estávamos não tinha sinal algum, eu nem ao menos conseguia trocar uma mensagem.
Dou mais uma olhada no relógio, já estávamos a meia hora e nada havia aparecido. É... Estamos perdidos. Cutuco Butch para tentar me localizar com ele, mas ele nada responde. Desvio um pouco meu olhar para o moreno e percebo que ele estava dormindo.
– IDIOTA, ISSO NÃO É HORA PRA DORMIR!!!
Meu grito o acordou num susto e ele começa a retrucar. Assim iniciamos mais uma discussão para apontar os defeitos um do outro, como se fossemos um casal de velhos. De todas as merdas que ele já fez, essa passou dos limites. Eu nunca havia ficado com tanta raiva dele, faltava pouco para eu jogá-lo para fora do carro.
A discussão prosseguia até percebemos que estávamos sendo perseguidos por um carro de polícia com a sirene ligada. Butch havia me deixado com tanta raiva, mas tanta raiva, que foi o suficiente para eu ultrapassar a velocidade permitida. Mas o pior de tudo era: Eu ainda era de menor, e não havia nenhuma documentação ali presente. Em outras palavras, eu seria presa.
– PRONTO! FODEU!! – Ele grita desesperado.
– A CULPA É SUA!! – O culpo.
– MINHA?!?!?
– SIM!! SE VOCÊ NÃO TIVESSE ME CHAMADO PRA PORRA DAQUELE SHOW, NADA DISSO ESTARIA ACONTECENDO!!
– NÃO FALE COMO SE TAMBÉM NÃO TIVESSE CULPA!! “Eu que vou dirigir! Consigo me virar melhor do que você!” – Debocha de mim, imitando uma voz de garota. – TALVEZ SE VOCÊ NÃO TIVESSE ME FORÇADO A SAIR DO VOLANTE, A POLÍCIA NÃO TERIA NOS PEGO!!
Eu estava prestes a dar uma resposta daquelas, mas engulo seco ao ouvir o som de alguém bater levemente a janela do carro. Era o policial. Merda! Merda! Merda! Merda! Merda! Abro a janela do vidro automático e encaro o policial gordo e alto de perto. Rezava do fundo da minha alma para ele não pedir minha documentação.
– Mais um casal discutindo no volante. – Diz o policial, suspirando meio cansado.
O comentário no policial me deixa um tanto desconfortável. Meu rosto cora um pouco.
– S-Se nos der licença, estamos com pressa, senhor.
– Eu sei que estão com pressa, afinal só pessoas com muita pressa chegariam nessa velocidade insana. – Deduziu o policial, fazendo-me suar frio. Ele estende a mão aberta para a janela. – Sua documentação, por favor.
Começo a suar ainda mais, meu rosto fica pálido e meu coração quase sai pela boca. Viro estátua, não sei como agir nem como responder. Se eu não entregasse os documentos, certamente passaria um mês na cadeia. Butch me encarava, esperando que eu entregasse minha carteira ao policial, mas eu continuava uma estátua sem vida.
O policial me pede a documentação mais uma vez, reforçando para que eu ficasse ainda mais nervosa. Eu estava fodida. Literalmente fodida.
Não tem outro jeito...
Sem pensar duas vezes, piso fundo e acelero com toda potência do veículo, fazendo o policial atrás comendo poeira. Esta fora a primeira vez que cometi um crime diante das autoridades, o que é nem um pouco razoável, afinal sou uma heroína e meu dever é fazer o que é certo. Mas desde que este traste invadiu a minha vida, estou descobrindo um lado meu que nunca imaginava existir. O lado ousado que não se importa com as autoridades ou com o bem maior, o lado egoísta que só pensa em minha própria pele.
Eu fugia desesperadamente, com a velocidade a mais de 100 por hora, já podia escutar a sirene da viatura nos perseguindo. Já Butch, mal acreditava na cena que acabara de vivenciar.
– VOCÊ É PIRADA?!?! – Butch indaga.
– ME RECUSO A IR PARA A CADEIA POR CAUSA DE UMA MERDA SUA!! – Respondo, gritando com toda força de minhas cordas vocais.
O moreno fica em silêncio por alguns instantes me encarando profundamente, logo corta o silêncio e libera uma risada longa e alegre, como se a situação estivesse tranquila e digna de se achar graça.
– O QUE VOCÊ TEM NA CABEÇA?!? – Pergunto. – A GENTE TÁ A PONTO DE SER PRESO E VOCÊ FICA RINDO?!?
– Foi mal, é que... Você é louca.
Concordo comigo mesma que não responder seria a melhor opção, ouço o som da sirene se aproximar e entro em pânico. Piso mais fundo e acelero ainda mais, me arriscando nas curvas, fazendo a borracha do pneu queimar violentamente pelo atrito. Porém eu não estava muito preocupada, apesar de ser de menor, aprendi a dirigir muito bem com o Professor.
Professor... Merda! Se o Professor descobrir que estou fazendo uma loucura dessas, é capaz dele me matar! Ou pior... E se Townsville inteira ficar sabendo?? É o fim! Fim da minha reputação! Fim de tudo!!
Numa tentativa de despistá-lo, curvo na estrada pequena ao lado, nos levando para um rumo totalmente diferente de onde estávamos antes. Por muita sorte, o som da sirene vai diminuindo e a estrada se acalma, estávamos livres das viaturas. Pelo menos por enquanto.
Me dando conta de que não estávamos mais sendo perseguidos, paro para finalmente raciocinar o que acabar de acontecer. Um grande sentimento de culpa e preocupação invade meu coração e mais uma vez viro estátua.
–... Mas que diabos estou fazendo? – Pergunto para mim mesma enquanto coço a cabeça. Butch toma sua atenção para mim e estranha. – Acho que estou ficando maluca. Primeiro por estar com você. Segundo por não ter te deixado ali mesmo e ter ido voando para casa. E terceiro por não ter te matado naquela boate em Las Vegas, assim minha vida não teria se tornado no inferno que está agora. COMO EU PUDE SER TÃO BURRA?!?!?
– Ei, para de jogar a culpa em mim!! – Pede e eu me aquieto. – Olhe pelo lado bom, pelo menos nós despistamos deles!!
– FODA-SE SE NÓS DESPISTAMOS ELES!! – Volto a gritar. Eu definitivamente estava parecendo uma mulher louca na TPM. – SEJA LÁ O QUE FOR, AINDA ESTAMOS PERDIDOS E SEM SINAL DE CIVILIZAÇÃO!! NÓS NUNCA VAMOS CONSEGUIR CHEGAR EM TOWNSVILLE NESSE RUMO, E AINDA TENHO QUE OUVIR AS MERDAS QUE VOCÊ FALA!! ISSO NÃO DÁ PRA FICAR PIOR!!!
Pois essa última frase foi o suficiente para gerar algo ainda pior. Ouvimos o som do carro balançar enquanto perdia a velocidade aos poucos. Não... Tudo menos isso... O carro parou, olho no medidor do tanque, ficamos sem um pingo de gasolina.
–... Acho que dá sim. – Diz Butch, deixando-me mais nervosa do que já estava.
Um turbilhão de pensamentos invadem minha mente, eu estava desesperada, não sabia se ficava com raiva ao ponto de espancar o moreno ao meu lado, ou se simplesmente me contentava em chorar até o dia de amanhã. Sem pensar duas vezes, desço do carro e vou até a parte de trás, começo a empurrá-lo com todas as forças e ele sai do lugar.
Logo Butch sai do carro estranhando a minha atitude. Começa a me seguir e a me interrogar.
– O que está fazendo?
– E o que você quer que eu faça?? – Pergunto e ele se cala. – Estamos no meio da estrada deserta e escura! E pra completar, estamos sem carro!! Só falta chover pra completar a minha noite!!!
E adivinhem? Começou a chover. Molhando-nos por inteiro, fiquei totalmente ensopada e com a raiva ultrapassando os limites. A vontade de socar alguém era tanta, era tão grande, que eu precisei socar o próprio chão para me conter. Porém ao socar a terra molhada, ela espirrou lama em cima de mim, sujando-me toda. Butch permanecia uma estátua, ficava no dilema de “Não falo nada, apenas observo.”.
Já chega... Eu não aguento mais isso. Enfio minhas duas mãos na lama e pego um monte, atiro um em Butch, sujando-o todo. Ele fica puto e sem entender o motivo da reação.
– QUE MERDA DEU EM VOCÊ?!?! – Pergunta indagado enquanto eu continuo atirando bolas de lama em cima dele.
– SE NÃO FOSSE... POR VOCÊ... EU ESTARIA... EM CASA... APROVEITANDO... A NOITE... COM MINHAS IRMÃS... E MINHAS AMIGAS...!!!! – Grito para ele, interrompendo a frase com cada bola de lama que eu atirava em Butch.
O moreno se aproxima de mim e segura meus braços, parando as atiradas de lama. Quando eu me aquieto, ele põe as mãos em cada canto de meu rosto e me acalma.
– Desse jeito você está parecendo uma criança, isso sim!! – Ele suaviza um pouco mais a voz. – Calma... A gente vai achar a civilização. Confia em mim, eu vou te deixar em casa e prometo que nunca mais apareço na sua vida.
Sua frase me faz arregalar os olhos um pouco, fico cabisbaixa e pensativa com o que o moreno acabara de dizer. Nunca mais vai aparecer na minha vida?...
– Butch... Não é isso qu-
– Ouviu alguma coisa?? – Butch interrompe olhando para trás.
– O qu-
– Shhhh. – Interrompe mais uma vez, colocando o dedo indicador entre meus lábios.
Ficamos em silêncio e me concentro no som do ar, só conseguia ouvir o barulho do vento. Mas ainda... Havia outro barulho. Um barulho meio rouco, um barulho que parecia de um rádio, barulho... Barulho de civilização!
Nós dois olhamos para trás e vemos uma pequena luz do outro lado da estrada, um alívio reina meu corpo e solto um suspiro longo. Finalmente! Finalmente uma luz! Eu e Butch vamos para trás do carro e começamos a empurrá-lo até a luz, a medida que íamos no aproximando, percebíamos que era um outdoor, e daqueles bem extravagantes.
Haviam algumas casas ali perto, todas as luzes apagadas. Pouquíssimas luzes estavam acesas, mas apenas no local do outdoor estava completamente iluminado. Paramos em frente ao local, quando me dou conta do que era... Confesso que fiquei com o coração na boca mais uma vez.
“Motel Touch for love – 3 estrelas”
–… Um motel…
– E você queria o que? Um posto de taxi que também pudesse repor gasolina? – Ele pergunta. – Vamos entrar. É melhor do que nada.
– E-E o que você pretende fazer lá dentro? – Pergunto com o rosto vermelho.
– Sei lá. Pedir informação, talvez. Vai que eles dão comida pra gente. Tô morrendo de fome.
– Tem muitas casas aqui, e com certeza tem lanchonetes na civilização. — Digo, um tanto envergonhada e sem paciência. — Vamos pedir informação em outro lugar, qualquer outro.
Ele não me escuta, continua andando em direção da porta de entrada. Grito seu nome e ele se faz de surdo. Suspiro. Juro que se ele tiver intenções estranhas, eu mato ele.
Nós dois entramos sem pressa. O local, até que pra um motel de uma civilização no meio do nada, era bastante organizado. Porém completamente vazio. Havia uma velha gorda na recepção, lia o jornal enquanto o jornal estava no máximo, tanto que conseguimos ouvi-lo de longe. Ao nos avistar, larga tudo rapidamente e vem nos atender, aparentemente não tinha muitos clientes.
– Um jovem casalzinho aparecendo aqui por pura “coincidência”... O que posso fazer por vocês? – Pergunta, tinha uma voz rouca e cansada.
– Eu tô com fome. – Diz Butch sem vergonha alguma. – Tem alguma coisa pra comer?
– Isso aqui tem cara de restaurante, meu filho? – Diz ela debochando de nós dois. – Se quiser comer algo, coma a sua namorada aí.
Meu rosto esquenta violentamente e meu coração acelera. I-Isso é coisa pra se dizer em voz alta?? Começo a gaguejar.
– N-Nós não somos namorados, senhora!! – Respondo com o tom de voz um tanto elevado. – E-E não estamos aqui para isso...
– Como assim não? Vocês jovens tem tanta energia. Porque não pegam um quarto? Tenho os melhores disponíveis. – Fico ainda mais nervosa com seu comentário.
– E-Eu já disse que não estamos aqui para isso!! – Respondo com o tom de voz alterado e a mulher se cala. – Escuta... Nós dois acabamos de vir de um show, quando entramos no carro o nosso GPS tinha sido roubado. Tivemos que voltar por nós mesmos, mas acabamos nos perdendo. E pra completar ficamos sem gasolina. Portanto só queremos uma informação sobre como voltar para Townsville.
– Townsville? Pode esquecer. Daqui pra lá são quatro horas de viajem de carro, e como vocês estão sem gasolina... Só chegarão lá na hora do almoço. – Ela diz e ponho a mão em minha testa. Puta que pariu! O que a gente faz agora?! – Olha... Pode ser de ajuda, então... Porque não passam a noite aqui?
– O que? Já disse que nós não vamos...
– Eu já entendi! – Diz a velha, me amenizando. – Só estou tentando ajudar. São quase onze horas da noite e vocês não tem onde ficar. Não vejo porque não podem ficar uma noite aqui e voltar a viajar de manhã.
Reflito por alguns instantes e penso que não seria uma má ideia. Mas passar uma noite num motel... E com Butch... Realmente seria algo muito vergonhoso. Merda! Será que eu aceito?
– Nós aceitamos a oferta.
Butch diz para a mulher sem ao menos saber a minha opinião, eu o cutuco em seguida.
– Tá maluco, é?? – Pergunto.
– Calma Bc, nós só vamos dormir, entendeu? Dor-mir.
– E daí? Isso aqui não deixa de ser um motel, e...
– Então você prefere passar a noite carregando o carro pela estrada deserta? – Sua pergunta me faz engolir seco. – Esse lugar pode não ser cinco estrelas, mas garanto que não é tão ruim.
– Não é esse o problema, idiota! É que...
Fico em silêncio por alguns segundos enquanto Butch me estranha, olha no fundo de meus olhos e logo percebe o motivo do meu nervosismo. Solta um suspiro e põe as mãos em meus ombros.
– Confie em mim. Eu não vou tentar nada. – Uma veia salta em minha testa.
– É justamen-...!!!
– Vão querer o quarto ou não?!? – Pergunta a velha, já impaciente.
Bufo e assinto, ela nos entrega a chave e nós dois subimos as escadas que por sinal, faziam pequenos ruídos por já estarem velhas. Encaro Butch por um tempo e ele começa a estranhar.
– Butch...
– O que é?
– Eu juro que se você tentar alguma coisa... Eu te mato!
Minha ameaça o faz rir.
– Não sei do que está falando, Bc. – Ele blefa. – Eu sou um santo.
– Sei...
Continua...
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