Playing With Fire
22 Coisas boas
Notas iniciais
14h52:
O calor tomou conta da cidade de Townsville naquela tarde de agosto. Uma preparação para mais uma noite cheia de acontecimentos inesperados que estava prestes a vir.
Estamos no fim de agosto, o que me lembra: Fim das férias. Pois é, o tempo voa quando se está desocupada. Mas não fiquem pensando que durante esse tempo nada mudou em minha vida, aliás, muito pelo contrário. Para terem noção, estou em casa, tranquila, sentada em meu sofá junto com Butch, estamos jogando Mortal Kombat, que por sinal, estou vencendo. E adivinhem? Minha família está em casa.
E é nesse momento que vocês se jogam em cima de mim, perguntando o que deu na minha cabeça pra ficar junto do Butch da forma mais normal possível na presença da família. Como eu disse antes, muita coisa mudou. Mas calma, as coisas serão explicadas no decorrer do dia. Agora vou deixar vocês, expectadores verem o que acontece enquanto narro o que aconteceu naquela quente tarde de fim de agosto sem interrupções.
Como disse antes, eu e Butch estávamos sentados no sofá jogando Mortal Kombat, eu estava ganhando, o que o deixava um tanto desesperado pois ele sempre se exibe, falando que é o melhor jogador de MK do mundo e etc. Mas agora, estava perdendo para a sua “humilde” namorada. Pra falar a verdade, eu estava dando era uma surra nele.
Depois de finalmente conseguir atingi-lo com um fatality, ele começa a choramingar enquanto eu comemoro, esfregando a vitória na sua cara. Se tem uma coisa que eu gosto mais do que irritá-lo, é irritá-lo por ter ganho dele no jogo. Começo a pular no sofá, enquanto o moreno continua bufando para mim.
– Para com essa palhaçada! Você roubou que eu sei! – Ele indaga com uma cara emburrada. A cara que ele faz quando está emburrado é mais fofa do que se imagina. – E além disso, eu me distraí um pouco.
– Aham, eu acredito, perdedor. – Zombo de sua cara, sentando no sofá novamente, subitamente envolvendo meus braços em seus ombros. Estico um pouco um rosto e lhe dou um beijo na bochecha, posso vê-lo corar um pouco. – Ora, vamos. Isso não é motivo pra ficar com raiva.
– Mas eu não tô com raiva. – Responde indiferente, voltando a sorrir. Me dá um selinho de leve e volta a pegar seu controle. – Quer mais uma partida?
Eu assinto, assim voltamos a lutar. Estava contendo a minha vontade de tirar minha roupe e ficar apenas de roupa íntima pela casa, mas não vou fazer uma palhaçada dessas na frente do cara que estou namorando nem há um mês, apesar de ele já ter me visto sem roupa duas vezes. Merda de calor... Está começando a ficar insuportável.
O Professor aparece na sala e nos vê jogando aquele jogo violento, primeiro faz uma cara estranha, depois volta seu olhar para nós e nos cumprimenta.
– Olá, Butch. – Ele acena.
Butch retoma toda a sua atenção para ele, o que me deu a chance de atingi-lo com força no jogo, tirando metade de sua resistência.
– Boa tarde, sr. Utonium. – Butch responde.
Acreditem ou não, mas quando o Professor está por perto, Butch se torna o cara mais educado e cavalheiro do universo. Assim como todo homem, ele quer causar uma boa impressão pro meu pai.
O Professor se senta na beirada do sofá e começa a acariciar meu joelho dobrado enquanto olhava para o nosso jogo. Ao ver todo aquele sangue escorrendo e tripas sendo arrancadas dos jogadores, pude jurar que ele quase vomitou, mas conseguiu segurar muito bem.
– Bom... Eu só vim avisar que preciso sair agora. – Diz o Professor, voltando-se para nós dois. – A Blossom e a Bubbles estão lá em cima se precisarem de alguma coisa.
– Ok. – Respondo.
– Não precisa se preocupar com nada, sr. Utonium. – Diz Butch, largando o controle em algum lugar no chão para alisar meus cabelos. – Eu me encarrego de qualquer coisa. Pode contar comigo.
– Está certo. Vou confiar em você então, rapaz. – O Professor se levanta e vai em direção a porta, acena uma última vez e sai da casa.
Dou uma pausa no jogo para encarar Butch nos olhos com firmeza, ele estranha a minha ação e recua um pouco ao ouvir o som da minha risadinha de leve.
– O que foi? – Pergunta, se esquivando.
– Nada. É que... – Começo. – “Não precisa se preocupar com nada, sr. Utonium.”; “Pode contar comigo, sr. Utonium”. – O imito com uma voz forçada, provocando-o. Ele ri um pouco da minha imitação. – Se continuar desse jeito, vai até começar a falar “Sr. Utonium, gostaria que eu beijasse seus pés para que me considere um bom partido para a sua filha?”.
– Cala a boca. – Ele estila, eu começo a rir.
Me aproximo novamente de seu rosto, curiosa.
– Por que você fica tão educado perto do meu pai? – Pergunto.
Vejo-o soltar um breve risinho.
– E você ainda pergunta? – Fala como se eu já soubesse a resposta. Se espreguiça um pouco, seguido de um suspiro cansado. – Se eu não... Digamos... Causar uma “boa impressão” pro seu pai, ele nunca vai me deixar namorar você.
– Você não parece ser do tipo que valoriza a benção dos pais para um namoro.
– Comecei a valorizar depois que eu li Romeu e Julieta. – Seu comentário me faz rir mais uma vez, mas ele não tira a seriedade do rosto. – Tô falando sério. Eu não quero ter que me matar. Muito menos que você se esfaqueie.
– Tá legal Shakespeare, me convenceu. – Respondo. Ambos rimos um pouco.
Voltando a jogar, desta vez ele estava ganhando, o que levou de volta o meu orgulho. No meio do jogo, suspiro, e volto a atenção para o seu rosto mais uma vez.
– Mas sua relação com o meu pai já melhorou bastante desde o dia que vocês se conheceram. – O lembro, e ele solta mais uma risadinha.
– Nem me lembre daquele dia. – Comenta, cínico. – Eu nunca fui tão ameaçado em toda a minha vida.
Para vocês, que ainda não sabem como era a relação do Butch com o Professor, vou lhes explicar. Antes o Professor o olhava com desprezo por ter ciúmes de mim, mas com o tempo ele aprendeu a gostar do Butch e a trata-lo como um membro da família. Volto a falar: Muitas coisas mudaram.
Mas eu conheço vocês, e sei que vocês querem saber como foi que Butch veio pedir a benção do meu pai, então acho melhor resumir tudo em um flashback:
– FLASH BACK ON –
– Por favor... – Butch estava praticamente jogado no chão da minha casa, rastejando-se até os pés do Professor, que parecia nem acreditar no que estava vendo. Assim como eu, que estava a ponto de explodir de vergonha. Puta que pariu, o que ele tá fazendo?? – Me deixe namorar a sua filha!
Eu mau podia acreditar que Butch estava rastejando nos pés do meu pai, implorando por sua benção. Minhas irmãs estavam juntas, perplexas, sem fala. E pra completar, o Harold, namorado certinho da Blossom, também estava lá, trocando olhares assustados com sua ruiva.
– O que... Você está fazendo??... – Sussurro, de modo que ninguém escutasse. Só pra deixar claro, eu não pedi para ele vir aqui e pedir a benção do meu pai. Ele simplesmente apareceu do nada, e quando me dei conta, ele já estava fazendo essa merda.
O Professor coçou a cabeça e suspirou, se agachou até o moreno estabanado no chão. O olhou profundamente nos olhos e perguntou:
– Então... Você é o famoso Butch? – Pergunta, o moreno assente. O Professor segura em seus ombros, ele estava sorrindo gentilmente como sempre faz. Estranho, eu esperava que ele fosse dar uma surtada. Era tarde demais para eu pensar aquilo, pois logo o Professor já estava apertando seus ombros numa força completamente desconhecida vinda de alguém como ele. – Então você é o vagabundo que quer tirar a minha filhinha de mim, hãn? – Butch começa a fazer uma cara assustada, assim como todos ali presentes. – Fique sabendo que já passei por isso duas vezes, e posso passar pela terceira. Vou te dizer as mesmas coisas que disse para os babacas que se achavam dignos de namorar minhas filhas. – Naquele momento, nós três desviamos um olhar direto para Harold, que começou a suar um pouco. O Professor aproxima mais seu rosto de Butch para encará-lo bem nos olhos, como se os seus pegassem fogo. – É bom mostrar que pode cuidar dessa menina como uma rainha, entendeu? Tem que elogiá-la, fazê-la sorrir, fazê-la se sentir bem e protege-la com sua vida. Pra namorar a minha filha, você vai ter que ser o homem que ela merece! ENTENDEU?!? CASO CONTRÁRIO PODE DAR ADEUS À SEU PAU!!
Seguido de uma gota de suor, Butch responde:
– S-Sim senhor!!
– É BOM MESMO!! VOU SUPERVISIONAR CADA MINUTO DA SUA VIDA, RAPAZ!! E É BOM GUARDAR AS MINHAS PALAVRAS!!
A relação dos dois foi assim por algumas semanas.
– FLASH BACK OFF –
– Olhe pelo lado bom, ele não arrancou o seu pau. – Digo, e ele começa a rir mais ainda.
– Isso é uma coisa muito boa, de fato.
Depois que eu e Butch nos damos conta de que nosso relacionamento tinha se aprofundado mais do que deveria, decidimos assumir o nosso “namoro”. Eu contei para o Professor, e... Sim, a reação dele não foi das melhores. Em outras palavras, ele acendeu uma tocha e saiu na rua, tentando achar o Butch para que pudesse arrancar seu pênis fora. Certamente, ele não o encontrou e voltou para casa. Demorou uma semana para ele se acalmar.
Mas se querem saber, o Professor nem foi a parte mais complicada. A aceitação das minhas irmãs não foi algo fácil de conseguir. Digo, a Bubbles não foi muito difícil, já a Blossom... Bom, ela deixou bem claro que nunca vai aceitar essa “afronta”. E sabem?... Eu não ligo mais para isso. Se o Professor aceita, já está de bom tamanho.
Após mais uma partida. Butch se espreguiça e levanta do sofá, ficando de frente para mim.
– Bc, eu preciso ir agora.
Me levanto junto com ele e faço uma expressão chorosa.
– Hein?? Mas já??
– Sim... O Brick queria resolver umas coisas, e... Sabe como é, com aquele cara não se discute.
Suspiro e nós andamos até a porta. Ele me dá um beijo de despedida e sai voando pelos céus. Sou capaz de ver a faísca verde escura de seu corpo rapidamente deixada para trás, o que gerou ainda mais um suspiro. Depois de tudo o que já nos aconteceu... Parece que as coisas finalmente estão começando a dar certo.
16h06:
Ainda sentada no sofá, jogando mais alguns jogos, sou surpreendida quando Bubbles pula no sofá ao meu lado, começando a observar meu jogo sangrento. Ela nunca gostou de ver sangue jorrado por toda parte, assim como o Professor, ela quase começou a vomitar.
Suspira, olha para mim com um sorriso preocupado no rosto.
– Se continuar jogando esse tipo de coisa, vai acabar tendo um surto e matando todos na escola. – Diz, tentando parecer intelectual. – Existem muitos casos assim...
– Bem que eu queria dar uma facada no professor de física. – Comento, ela logo se assusta e eu começo a rir. – Calma, eu só tô brincando.
– Sei...
Ficamos alguns minutos em silêncio, eu e Bubbles nunca tivemos muito assunto pra conversar, apesar de nos darmos bem. Cortando o silêncio, a loira suspira mais uma vez.
– Então... O Butch já foi embora? – Pergunta.
– Aham. – Respondo, meio indiferente e ainda um tanto preocupada a respeito do que ela acha do nosso namoro. – Ele disse que precisava resolver umas coisas com o irmão.
– Entendo... – O silêncio volta, mas dessa vez, o clima ficou um tanto mais tenso. Tento ao máximo me concentrar no jogo e fingir que aquele assunto não foi tocado. Ultimamente, meu namoro com Butch tem sido o assunto mais polêmico aqui em casa. Posso ouvi-la suspirar mais uma vez. Ela olha para mim sorrindo enquanto ajeita a maria-chiquinha de seu cabelo. – Buttercup...
– O que foi?
– Você... Está feliz, não está? – Sua pergunta me surpreendeu. Digo, me surpreendeu bastante.
Esta fora a primeira vez que uma de minhas irmãs perguntara por minha felicidade quando se tratava de meu relacionamento com Butch. Elas sempre colocaram o fato de ele ser um Desordeiro na frente de meus sentimentos e se recusavam a me imaginar com ele.
Assim que oficializamos nosso namoro, devem imaginar as inúmeras discussões que surgiram entre nós três. Mas eu aprendi a ignorar todas elas. Confesso que fiquei muito feliz quando Bubbles perguntou por minha felicidade.
Olho no fundo de seus olhos azuis com um sorriso sincero, ela logo percebe a minha resposta.
– Sim... – Respondo, sem desmanchar o sorriso. – Butch me faz muito feliz.
– Que bom. – Ela diz aliviada. – Olha, eu sei que já disse muitas vezes que namorar o Butch não é uma boa, mas... No curto tempo que pude conhece-lo melhor, notei que ele é um cara muito legal, e...
– Não precisa continuar, Bubbles. – A interrompo. – Eu já sei o que você vai dizer... E obrigada. – Sorrio para ela mais uma vez.
Ela sorri de volta gentilmente.
– Se você estiver feliz, eu estou feliz. – E assim se iniciou uma troca de sorrisos entre nós duas.
Bubbles me dá um abraço inesperado, seguido de um beijo na bochecha. Aquilo me forçou a pausar o jogo e dar o resto de minha atenção para ela.
A loira tinha um olhar curioso no rosto, o que me fez estranhar um pouco.
– Que cara é essa? – Pergunto, também curiosa.
– Sabe... É que eu tenho algumas dúvidas. – Diz, pondo o dedo no queixo enquanto permanece pensativa. – Pode me responder umas três perguntinhas?
Ainda desconfiada, acho aquilo tudo muito estranho. Separo-me um pouco dela, de modo que me aconchegasse mais no sofá. Mas a loira não desviava aqueles olhos grandes de mim.
– Err... Ok... – Respondo, desconfiada. – O que quer saber?
– Bom... – Ela coça a nuca, pensando em como começar. – Tudo bem, a primeira pergunta é: Como você se apaixonou pelo Butch?
Esta era a pior pergunta que ela poderia ter feito naquele momento. Me pegou completamente desprevenida. Meu rosto começou a esquentar na mesma medida que meu coração começou a acelerar. Merda, ela tinha que fazer justo essa pergunta??
Olho para seus olhos novamente, seu olhar curioso exigia uma resposta logo, e a conhecendo bem, sei que ela não me deixaria em paz até que eu a respondesse. Acho que não tem outro jeito...
Desvio meu rosto, evitando olhar para aqueles olhos curiosos mais uma vez. Meu rosto permanecia quente e avermelhado, incapaz de ser escondido para que eu passasse mais vergonha ainda. Respiro fundo e fito o chão, me preparando para acabar logo com aquilo.
– Eu... Não sei bem... – Começo a falar, posso sentir seu olhar penetrante que não desviava de mim. Sou forçada a respirar fundo mais uma vez. – Quer dizer... Quando me dei conta, já estava apaixonada por ele... Acho que foi por causa do seu jeito estranho, que ao mesmo tempo que é um vagabundo, também é um cara muito atencioso e gentil. – E continuei dizendo aquelas coisas vergonhosas como se fosse a coisa mais simples do mundo. E o mais impressionante é que não consegui conter um sorriso. – Ele pode parecer um brutamonte. Quer dizer... Ele é um brutamonte... Mas ainda assim, ele se importa com você, e tem um lado muito protetor. Ele é engraçado, divertido, faz de tudo pra me fazer rir. Assim como ele te faz elogios quando você está triste, sempre fica do seu lado e deixa bem claro que não vai te deixar na mão. – À medida que eu ia falando, meu sorriso crescia ainda mais, assim como o olhar de Bubbles não se desviava de mim por um segundo. – E acima de tudo... Acho que me apaixonei pela maneira que ele me olha... – Solto um breve suspiro. – Basta ele olhar para mim... Pra eu me sentir especial.
Continuo olhando para o chão, sem acreditar que dissera uma coisa dessas tão abertamente para a minha irmã. Naquele momento, me dou conta mais uma vez de que me apaixonei mais do que deveria pelo misterioso moreno de olhos verdes escuros.
O sorriso não saia de meu rosto, assim como o avermelhado também. O silêncio reinara, o que me deixou com mais vergonha ainda.
– Isso é... Tão... – O silêncio é cortado por Bubbles. Olho diretamente para ela e quase me assusto com o que vejo. Ela estava com aqueles grandes olhos na minha cara, eles brilhavam de uma maneira que nunca vi antes. Seu rosto estava um tanto corado e ela estava fazendo uma expressão esquisita. – FOFOOOOOOOOOOOOO!!! – Ela se jogou para cima de mim e me abraçou, apertando meu rosto com força em seguida. – Eu não sabia que você se sentia dessa maneira! Pode não parecer, mas você é muito fofa, Buttercup!! MUITO FOFAAA!!
– M-ME LARGA, PORRA!! – A empurro em um surto de nervosismo. Ela começa a rir de maneira provocante, eu escondia meu rosto para que ela não me visse tão corada daquela maneira. – D-Diga logo qual é a segunda pergunta, idiota!
A loira põe o dedo no queixo mais uma vez, pensativa. Logo um sorriso aparece em seu rosto, sinal de que lembrou o que iria perguntar.
– Como foi o reencontro de vocês? – Pergunta. Eu logo estranho.
– Hein? Como assim?
– Você sabe... Nunca ouvi você mencionar como você o reencontrou depois de onze anos sem virmos os Desordeiros. – Responde, curiosa. – Quero que me conte essa história.
Aquilo de certa forma me trazia boas lembranças. As lembranças de como tudo começou. Fazia mais um sorriso abrir em meu rosto.
– Bom... Até que é uma história engraçada. – Começo, relaxando minha nuca na almofada. Olho para Bubbles, ela não tirava aquele olhar do rosto. – Sabe aquela vez que tivemos que parar a máfia M.Gang há alguns meses atrás?
– Sei.
– Bom... Quando eu fui para Las Vegas deter aqueles caras, acabei cruzando com ele.
– Hein? Sério?? – Ela fica surpresa, eu apenas assinto. – Nossa... Você deve ter tomado um grande susto quando viu ele.
– E como. – Respondo. – Voltando à história... Nós dois começamos a discutir e iniciamos uma luta no meio da boate. Como deve imaginar, todo mundo parou pra olhar nós dois. No fim das contas, nós fomos expulsos e disseram para nunca mais voltarmos lá. – Meu último comentário a faz rir um pouco. – Depois disso, nós conversamos um pouco, e... Depois daquela conversa, minha visão por ele mudou. Quer dizer... Mas voltou tudo de novo quando eu estava indo para o meu quarto de hotel, ele mais uma vez aparece surpreendentemente do meu lado apenas com uma toalha e depois fica nu para me provocar.
– Pera aí, como é que é?!?!? – Ela fica boquiaberta, sem acreditar no que acabara de ouvir.
– Longa história. Não queira saber. – Ela assente e finge nem ter escutado aquilo. Solto um breve suspiro. – Bom... No outro dia, ele me ajudou a derrotar a M.Gang, e... No outro dia...
Fico em silêncio, com vergonha de contar o fim da história. Mas Bubbles, persistente do jeito que é, não desistiu de arrancar todas as informações possíveis de mim.
– E no outro dia?... – Ela exige a continuação.
Me sinto forçada a contar o resto. Fito o chão mais uma vez com o rosto corado.
– No outro dia... Ele me roubou um beijo... – Ela faz aquela expressão novamente quando eu digo isso. – Na hora que eu estava prestes a partir...
– Puxa... Nunca pensei que vocês dois formassem um casal tão fofo! – Ela aperta minha bochecha mais uma vez.
Já impaciente com o interrogatório, me afasto da loira e a apresso.
– E então, qual é a sua última pergunta?
Ela fica pensativa, coçando a cabeça.
– Ahmm... Tava na ponta da língua... – Diz para si mesma, tentando se lembrar. – Ah é! Vocês dois já transaram?
– O-O QUE?!? – Surpresa, caio do sofá e bato a cabeça no chão. Bubbles fazia uma expressão maliciosa, se aproximando de mim aos poucos. – Q-QUE TIPO DE PERGUNTA É ESSA?!?
– Vamos, não precisa ficar com vergonha. – Ela diz, rindo maliciosamente. – Algo me diz que a minha irmãzinha não é mais tão pura.
– I-ISSO NÃO É DA SUA CONTA!!
Ela começa a rir compulsivamente, achando graça daquela situação toda. Mas que merda! Por que ela tinha que perguntar justo uma coisa dessas?!?
Por minha sorte, Blossom entra na sala, e quando ela está perto, o melhor a se fazer é esquecer esse tipo de assunto. Pela primeira vez, a puritanidade da Blossom me ajudou em alguma coisa. A ruiva olha para nós duas, reparando que eu estava jogada no chão enquanto Bubbles estava praticamente em cima de mim.
– O que vocês duas estão fazendo? – Pergunta Blossom, curiosa.
– Nada não. – Diz Bubbles, que me ajuda a levantar. A loira aproveita e sussurra baixo em meu ouvido, de maneira que a Blossom não escutasse. – Esse assunto ainda não está encerrado. Quero que você me conte tudo, mocinha.
– Pois vai esperar sentada. – Respondo mais alto do que deveria, fazendo Blossom escutar.
– Quem vai esperar o que? – A ruiva pergunta.
– N-Nada não.
Blossom suspira e coloca o cabelo para atrás da orelha. Olha para nós duas e cruza um pouco os braços.
– O Professor disse que precisa falar conosco sobre um determinado assunto. – Diz ela. – Ele vai estar nos esperando no restaurante francês do centro às oito horas.
– Nossa, deve ser importante. – Bubbles comenta, se aproxima um pouco de Blossom e segura em seu braço. – Ele contou o que era.
– Não. Ele disse que é uma surpresa.
– Temos que nos vestir que nem gente chique? – Pergunto.
– Sim.
– Merda.
– Mal posso esperar pra saber o que é! – Bubbles começa a pular no meio da sala de maneira ansiosa.
Para o Professor querer guardar surpresa, deve ser importante.
20h05:
– Vamos logo, Buttercup!! Estamos atrasadas!!
– Já tô indo, porra!!
– E lave essa boca suja antes de irmos!! – A ruiva gritava impaciente.
Blossom e Bubbles já estavam na porta de casa, arrumadas e cheirosas como duas damas. Já eu... Bem, eu estava no quarto, com o cabelo desarrumado, estava usando uma roupa qualquer e nem sequer escovei os dentes. Acabei cochilando de tarde e quando acordei já era sete e quarenta. Não tive tempo de me arrumar nem nada.
Quer saber? Que se foda! Vou assim mesmo! Desço as escadas correndo, ficando de frente à porta junto com elas.
– Vamos? – Pergunto.
Blossom faz cara feia pra mim quando vê meu estado.
– Eu não acredito que você vai assim! – Reclama. – Eu disse que a gente precisava ir bonita!!
– Não deu tempo de me arrumar, tá legal!? – Respondo. – Agora vamos logo!
Nós três saímos de casa e voamos até o restaurante. Pousamos na entrada. Estava completamente lotado, algumas pessoas aguardavam uma mesa do lado de fora, sendo servidas com alguns petiscos. Sempre vi estes petiscos como um “Não vá embora agora! Veja, temos comida!”.
Perguntamos se o Professor estaria nos esperado em alguma mesa, o garçom assentiu e nos levou até o andar de cima. A música estava no ar com o som do jazz calmo, as pessoas conversavam calmamente e da forma mais refinada possível. E sim, pude sentir muitos olhares à minha pessoa graças à minha roupa não muito... “Refinada”. Mas aprendi a não ligar pra esses olhares esnobes.
O Professor estava numa mesa ao lado da janela com a srta. Bellum. Os dois acenaram para nós de leve, e pudemos sentir um clima meio estranho no ar, o que nos deixou ainda mais curiosas. Isso tá começando a ficar esquisito...
Subitamente, sentamos na mesa junto ao casal que sorriam de uma maneira estranha um para o outro. Bubbles fazia uma cara de que já havia sacado o que estava acontecendo. Blossom parecia desconfiar de alguma coisa. Eu sempre fui uma anta, então provavelmente não descobriria nem tão cedo.
– Meninas, que bom que vieram! – Diz o Professor, alegre. – Já já nós pediremos o jantar. Antes eu... Quero dizer... Nós... – Ele pega na mão da srta. Bellum de forma carinhosa. – Queríamos dizer uma coisa...
– E o que seria essa “coisa”, Professor? – Bubbles pergunta com as mãos no rosto, também de uma maneira um tanto maliciosa.
Uma gota de suor desce pelo rosto do Professor, ele ajeita sua gravata no pescoço e suspira.
– Puxa... Nem sei por onde começar... – Ele dá sua primeira tentativa de como explicar o que estava acontecendo. – Bem... Err... Eu... Digo... A Sarah... Srta. Bellum!... Err... Quer dizer... Nós dois... Não... Nós cinco!...
Srta. Bellum logo percebe o nervosismo do professor e alisa sua mão, tentando acalmá-lo.
– Tudo bem, querido. Eu conto para elas. – Ele logo se alivia por ela ter se oferecido a contar. Srta. Bellum põe seu cabelo para atrás da orelha e põe um lindo sorriso no rosto, olhando para nós três com uma serenidade imensa. Mas o que esses dois estão aprontando? – Meninas... Nós chamamos vocês aqui porque temos um anuncio importante a fazer. – Ela faz um ar misterioso, me deixando ainda mais curiosa. Bubbles e Blossom parecia estar ansiosa ao que estava prestes a ouvir, como se já até soubessem o que ela ia dizer. Mas que merda! O que está acontecendo aqui?! – Bom... Eu e o Professor já estamos juntos há muito tempo, e... Nós dois pensamos muito a respeito disso. Achamos que já estava na hora de começarmos algo novo, entendem? De iniciarmos uma nova vida juntos. Não só eu e ele, mas todos nós. – Por um instante, pude jurar que a srta. Bellum derramou uma lágrima de seus olhos. Seu sorriso sereno transformou-se em um sorriso de plena felicidade, um que nunca vi nela antes. A mulher respira fundo e volta a falar. – Vocês sempre foram uma família para mim, e sempre serão. Mas agora... Nós começaremos uma família de verdade.
Srta. Bellum mostra para nós um lindo anel em seu dedo, o que fez Bubbles começar a chorar junto com Blossom. Quando vi aquele anel, uma luz se acendeu em minha mente, e finalmente pude notar o que estava acontecendo. Eu não acredito...
– Meninas... – O Professor toma coragem para falar, segurando na mão da srta. Bellum com firmeza. – Eu e a Sarah vamos nos casar.
– AI MEU DEUS!!! – Eu e minhas irmãs gritamos em coro, nos jogamos para os dois em um abraço caloroso.
Mal podíamos acreditar no que estava acontecendo. Nosso Professor? Casando? Nossa srta. Bellum? Se tornando nossa mãe? Somos uma família completa agora? Era tudo bom demais pra ser verdade.
Nós três... Ou melhor, nós cinco estávamos chorando nos braços um do outro, emocionados, felizes. Nunca estivemos tão alegres em nossas vidas. As pessoas ao redor tomaram sua atenção para nós, mas nem damos atenção, estava bom demais para cortamos aquilo tudo. Eu queria que aquele momento durasse para sempre.
– Srta. Bellum... – Blossom sussurrou em meio do choro. – Estão tão feliz por vocês dois... Tão feliz...
– Oh, queridas... – Ela disse, enxugando nossas lágrimas. – A partir de agora, podem me chamar de mãe, se quiserem.
Aquela foi a melhor coisa que ela poderia ter dito naquele momento. A palavra “mãe” parecia ser algo completamente desconhecido para nós. Nunca tivemos o carinho e atenção de uma mãe, apesar do Professor ter nos dado o melhor tipo de amor possível, sempre quisemos saber como era ter uma mãe para nos amar. Agora, depois de dezoito anos, finalmente poderíamos saber o que era o amor de mãe.
Tudo em minha vida está dando certo... Estão tão feliz...
– Vocês são tudo na minha vida. – Diz o Professor, tentando, sem sucesso, conter as lágrimas. – Este é o melhor dia da minha vida... Não quero que nada atrapalhe esse momento...
E foi justo naquele momento que o celular da Blossom tocou. É claro que nós iríamos ignorar, mas não era um toque qualquer, era o toque da prefeitura. Ou seja: Townsville está com problemas. Mas que porra, justo agora nesse momento familiar tão tocante?!?
Blossom atende o telefone, assente o recado e desliga. Enxuga suas lágrimas e olha para o Professor e a srta. Bellum meio sem graça.
– Eu sinto muito... Mas precisam da gente. – Ela diz.
– Tudo bem, meninas. – Diz a srta. Bellum, tranquilizando-a. – Nós esperaremos vocês.
Blossom olha para mim e para Bubbles com um olhar determinado, o que ela sempre faz quando somos chamadas para combater o crime.
– Meninas, a Gangue Gangrena está assaltando uma loja de joias! E estão com reféns!!
Nós três voamos dali. Mau tive tempo para raciocinar, geralmente nem ligo pro vilão que vamos combater, apenas sigo meu instinto e vou até ele com toda a força carregada e arrebento a sua cara. Mas desta vez, quando Blossom disse que era a Gangue Gangrena, pude sentir um pingo de aflição em meu peito.
Depois daquele dia, quando Ace me disse aquelas coisas, jurei para mim mesma que jamais olharia na cara dele. Não queria ter que vê-lo de novo. Não queria sentir aquela dor de novo.
Droga, Ace... Por que você tinha que causar problemas justo hoje?...
Continua...
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