Playing With Fire
20 Brincando com fogo - parte 2
Notas iniciais
– Não vá me dizer que... – Fiz uma pausa, sem acreditar na possibilidade. Algo em mim implorava que tudo aquilo fosse um sonho, ou melhor, um pesadelo. Ele não poderia ser... Não ele. – Que você é o cara que me manda as mensagens?
– É o que parece, não é?
– E o que te faz pensar que eu vou acreditar nessa sua história?
– Considerando o fato de que você veio até aqui... – Lança um olhar penetrante em meus olhos, fazendo-me arrepiar por inteiro. Seus olhos escuros eram como o céu da noite, lá havia um certo brilho semelhante as estrelas, que me convidavam a observá-las da mesma maneira que o mesmo não tirava os orbes dos meus. – Vai precisar acreditar em mim.
–--X---
Descrição do tempo: Nublado. As nuvens acinzentadas alertavam chuva na cidade de Townsville, um glorioso dia pós-independência, dia cinco de julho, dia em que minhas perguntas seriam respondidas. Não todas, mas pelo menos uma grande parte delas. Afinal, uma justificação para todas aquelas mensagens estranhas não explicam a mudança de comportamento repentina de Butch na noite passada.
Eu sei o que vocês estão pensando, aliás, por um momento eu também me perguntei a mesma coisa. “Porra Buttercup, como é que você aceita se encontrar com um suposto estranho que nem sequer mostra as caras, e, ainda por cima, nas ruínas de Townsville, que de fato é o lugar mais esquisito da cidade?”. Eu sei que é loucura, sei que eu não devo me encontrar com estranhos, muito menos nas ruínas de Townsville, que é um típico cenário de assalto ou estupro. Mas a questão é: Eu não aguento mais uma vida de incertezas, sem saber o que realmente está ao meu redor. E além disso, eu tenho superpoderes, esqueceram? Eu sei muito bem me virar, se tentarem alguma coisa comigo, estão fodidos (Dica para as meninas: Se você não tem superpoderes, nunca se arrisque a encontrar um estranho, principalmente se for em um lugar estranho).
Minha insegurança misturou-se com minha curiosidade, contribuindo para que eu não conseguisse dormir ontem à noite. Até mesmo em míseros minutos que consegui pegar no sono, era inevitável contar as horas para amanhã, eu precisava de respostas, precisava saber do perigo que eu estava correndo, precisava que meus olhos se abrissem para o suposto monstro em minha frente. E o que mais me assusta é o fato de estar com medo do que eu possa ouvir.
Bem... Independente do que esse tal anônimo disser, é melhor não ir acreditando em tudo de primeira, afinal, ele pode ser apenas um charlatão sem nada melhor pra fazer.
Tirando base de como foi o meu dia antes da hora marcada com uma certa pessoa nas ruínas de Townsville: Minha família passou o dia em casa, o Professor ainda estava trabalhando em sua nova invenção, enquanto Bubbles passou o tempo todo no face book e Blossom lia um livro atrás do outro (É impressionante a capacidade que ela tem de ler livros tão rápido). E eu, exausta por ter passado a noite em claro, tirei alguns cochilos no sofá enquanto assistia TV. Estar de férias é algo maravilhoso.
Um resumo do que eu sonhava em meus cochilos: Eu estava nas ruínas de Townsville, uma pessoa estava em minha frente, ela tinha um sorriso maléfico e brilhante, porém seus dentes eram afiados, quanto mais eu chegava perto, mais afiados eles ficavam, e por fim, eu estava sozinha, no escuro, chorando por alguém que não reconheço. Sim, sou do tipo de pessoa que tem os sonhos mais esquisitos possíveis. Quando senti a solidão em meu sonho, forcei-me a acordar, não suporto nem imaginar a solidão.
Levantei do sofá e o almoço já estava na mesa, o Professor fez espaguete com almondegas que faz qualquer um ficar com água na boca. O Professor sabe cozinhar qualquer coisa que você imaginar. Qualquer coisa mesmo. Sua comida é a melhor do mundo, na minha opinião, e ás vezes até me pergunto porque ele não investe no seu dom para a culinária. Contudo, por ser um pai muito protetor, ele não nos deixa sequer encostar no fogão, Blossom é a única de nós que conseguiu aprender a cozinhar fora de casa.
Após a refeição, fiquei sentada no sofá, inquieta, sem desviar os olhos do relógio. Não suportava mais toda aquela angústia e ansiedade ao extremo, queria poder controlar o tempo para que ele passasse mais rápido naquela tarde, ou simplesmente queria alguma coisa que me distraísse. Esta vontade foi em vão, pois até a hora marcada, nada conseguiu me distrair. Três horas parecem ter sido uns dez anos naquele momento.
Solto um suspiro. Ao menos não preciso esperar mais.
Sem hesitar, voou até a porta na maior velocidade que posso, mas antes que eu pudesse sair de casa, algo me interrompeu.
– Aonde você vai, mocinha? – Pergunta o Professor atrás de mim, fazendo-me engolir o ar.
Uma gota de suor desliza em meu rosto, coço a cabeça por alguns segundos, pensando em uma boa desculpa para enrolar o Professor.
– Err... Eu vou... – Continuo pensando, sem olhar nos olhos dele. O Professor sabe muito bem quando eu estou mentindo, contudo, sempre tenho que fazer o máximo para disfarçar. – Vou... Vou na casa da Amy! – Respondo a primeira coisa que vem a calhar. – É... Eu vou na casa da Amy...
Ele fica em silêncio por alguns segundos, ainda pude sentir seu olhar penetrante em minha direção, que parecia exigir que eu olhasse para trás, mas não olhei. Ouço seu suspiro, me aliviando. Ele se afasta dali.
– Está bem, querida. – Diz. – Não volte muito tarde.
– Ok.
Eu não sabia se eu voltaria tarde ou cedo, mas saí mesmo assim, sem hesitar por um segundo. É agora... Não tem mais volta.
Voei pelos ares da cidade de Townsville, visualizando com cuidado os carros passando, as pessoas caminhando pelas ruas, tendo certeza de que elas estavam seguras. Na cidade de Townsville ninguém está seguro, por isso nunca se deve deixar enganar pelo silêncio.
A alguns quilômetros adiante, lá estavam as sujas, degradantes e silenciosas ruínas de Townsville, lugar onde nenhum cidadão em sã consciência ousaria pisar por conta própria. Em outras palavras, era a parte sombria de Townsville, apesar de estar mais pra lixão. O lugar é sinistro, tem lixo pra todo lado, e só Deus sabe o que mais tem por lá. Algumas pessoas até inventam algumas histórias de terror a respeito desse lugar, nunca costumo acreditar nelas, mas de qualquer forma, nunca apreciei a experiência de ir lá nas contadas vezes que fui. Francamente, que tipo de maluco escolheria justo as ruínas da cidade pra dar uma explicação a respeito de mensagens sem o menor sentido?
Ponho os pés no chão, longo em frente à cerca que dividia a cidade e as ruínas da cidade, encaro fixamente o lugar, hesitando um pouco, ainda com medo do que eu estaria prestes a encontrar. Será que ainda tem tempo de voltar atrás?... Será que eu ainda posso fingir que eu não vi a mensagem e deixar o cara esperando?...
Respiro fundo, e sem aguentar mais, voou para o outro lado da cerca ao encontro com o suposto anônimo. O céu permanecia nublado com uma grande alerta de chuva, a brisa ventava forte contra o meu corpo, carregando consigo o frio e algumas folhas jogadas por aí. Mas o que mais me chamou a atenção foi ver todo aquele lixo espalhado. Nossa... Isso aqui está mais sujo do que nunca.
Algumas pessoas queimam o lixo por aqui, contudo pude sentir o cheiro de queimado pela redondeza. Estava quieto. Quieto até demais. A única coisa que pude ouvir eram meus passos leves. Olhava para um lado e para o outro, nenhum sinal de vida, nenhum sinal de anônimo. E mesmo assim, com todo aquele vazio, mantive meus sentidos bem atentos caso algo ruim acontecesse, pronta para golpear qualquer maluco que tentasse alguma coisa. Passei a me perguntar se tudo aquilo não passava de uma pegadinha e eu estava sendo feita de boba, mas era melhor continuar procurando do que ir embora e terminar sendo mais idiota ainda. Eu vim até aqui afinal, não vou voltar de mãos vazias.
O céu trovejou, me pegando em um grande susto, e junto com ele, pude ouvir um breve ruído de algo se mover atrás de mim. Olhei para trás o mais rápido que pude, tive a vista de uma sombra, mas ela logo sumiu. Puta que pariu! Isso está parecendo um filme de terror!
– Olá? – Perguntei, aflita. Não houve resposta, apenas mais um ruído, dessa vez um pouco mais baixo. – Tem alguém aí?
Ainda exigindo uma resposta, comecei a procurar o dono da sombra, causador dos ruídos pelos arredores próximos dali. Os ruídos foram ficando cada vez mais fortes e barulhentos, causando arrepios em meu corpo. Mas eu não pretendia fazer papel de medrosa, não foi para isso que eu vim.
Parei logo em frente à fonte do barulho, me mantive forte e pus a cara mais provocadora que pude.
– Tá legal, seja lá quem esteja aí, quer parar com essa palhaçada? – Ameacei. Pude ver a sombra novamente atrás de um monte de lixo, ela se aproximava aos poucos. – Eu não sei quem é você, nem porque você está querendo me assustar, mas se você não se importa, eu tenho algo importante pra fazer aqui e se continuar me atrapalhando eu serei obrigada a te dar uma surra!
Ainda conseguia ver a sombra parada ao longe, agora entre dois montes de lixo, um pouco mais próxima de mim. Pude ouvir o som de dentes mordendo alguma coisa, ao meu palpite, era uma maçã. Ouço passos leves, se aproximando aos poucos.
Um breve pressentimento fez-me arrepiar, dando um pequeno passo para trás ao sentir a pessoa se aproximando. O céu começou a trovejar mais forte, assim como o vento soprava com mais intensidade. Tudo contribuía para que o clima ficasse cada vez mais sinistro, dando a crer que aquela era uma típica cena dramática de filme de terror.
Quando a sombra estava a ponto de ir para a luz, uma voz masculina corta o silêncio.
– Sempre apelando para a violência, não é docinho?
Aquela voz. Ah, aquela maldita voz. Se ao menos eu a tivesse reconhecido antes dele sair das sombras e vir para a luz, eu seria capaz de voar para bem longe dali, fingindo que nada daquilo tivesse acontecido. Mas assim como a filosofia da Amy diz, talvez as coisas aconteceram dessa maneira porque simplesmente tinha que acontecer. Eu só não esperava que o dono dessa voz voltaria a deixar uma marca na minha vida como já deixou antes, e acreditem, foi uma marca terrível. Mas isso vocês já sabem.
Os passos vieram até mim, me dando a visão do homem em minha frente. Com o coração quase saindo em disparada, não pude evitar arregalar os olhos e quase perder a fala por um bom tempo. Dei outro passo involuntário para trás. De todas as pessoas, eu nunca imaginaria...
Dando o máximo de mim para que meu coração voltasse a seu estado normal, respiro fundo inúmeras vezes, enquanto o dono da sombra continuava em sua mesma posição, seu mesmo sorriso torto, sua mesma maneira desleixada de comer a maçã de cabeça para baixo. Tudo nele permanecia a mesma coisa.
Volto meus passos para frente, erguendo a cabeça, evitando demonstrar a minha insegurança, assim como a minha mudança de comportamento em revê-lo. Tentei demonstrar o máximo de ódio e indiferença possível.
– Típico de você perder o seu tempo assustando as pessoas. – Digo, com uma cara amarrada, sem desviar os olhos do homem de pele verde.
– Ah, eu te assustei?
– Vai à merda. – Respondo, impaciente. Ele tenta conter um risinho, mas não consegue. Ver aquela cara sorridente e debochada me dava vontade de enchê-lo de porrada até mata-lo. – O que está fazendo aqui?
– Eu que deveria estar fazendo essa pergunta. – Ace responde, indiferente. – Afinal... Essa área é minha.
– Nada nessa cidade é seu. E além disso, tudo o que vem de você é roubado.
– Seja mais compreensível com o cara que mora no lixão. – Ele não desmancha o sorriso, termina de comer a maçã e a joga em um dos montes de lixo. Ace se aproxima um pouco mais de mim, seguro a parte da blusa que cobre meu peito com força, tentando conter meu coração acelerado. Mas que merda! Porque essa porra tá disparando?! E porque esse cara tinha que aparecer na minha frente?!! – Então... Não vai me responder por que invadiu a minha área?
– Isso não é da sua conta! – Respondo rudemente, ainda contendo minha vontade de soca-lo no rosto.
O homem de pele verde continua se aproximando, de modo que pudesse olhar mais profundamente em meus olhos, ficando a poucos centímetros de mim. Apesar de eu querer golpeá-lo enlouquecidamente, minhas forças simplesmente sumiram, como se tivessem evaporado no ar. Ah, não! Não me diga que meu... Meu coração não quer que eu o machuque?!
Num impulso, o empurro de leve, andando para trás cabisbaixa, ainda sem entender a reação que meu coração tem diante de Ace. Evito olhá-lo nos olhos, continuando a andar para trás.
– Eu... Eu vou embora. – Digo a ele, que deixa transbordar um olhar mais sério no rosto. – Pode ficar tranquilo que eu não vou invadir a “sua” área nunca mais. E antes que eu me esqueça... Vai se foder.
Assim que eu me preparava para ir embora, pude ver claramente a expressão séria de seu rosto, que me chamou bastante a atenção. Ace nunca foi um cara que demonstra seriedade. Porque isso agora?
Ele solta um suspiro, cruza os braços e passa a encarar-me com frieza.
– E pra onde você vai? Vai correr para os braços daquele playboyzinho? – Pergunta, eu já sabia muito bem de quem ele se referia. Se encosta em um dos montes de lixo, cruzando tanto os braços quanto as pernas. – Francamente, eu não sei o que você viu nele. Ele é um escroto.
Pronto. Agora ele me deixara irritada. Afinal, quem ele pensa que é para julgar o cara que eu gosto?
Voou para ele em um movimento mais rápido que a luz, fazendo-o se assustar ao me ver tão perto e tão rápido. Agora sim eu precisei me conter de verdade para não mata-lo.
– E você é o que, seu filho da puta?!? – Meu tom de voz se engrossa, deixando bem a minha raiva bem explícita. – Quem foi que mentiu pra mim em dois anos de namoro?! Quem foi que me traiu com uma vagabunda?! Você me decepcionou sendo o cara mais escroto que já conheci na minha vida!! Então faça-me o favor de não mencionar mal o Butch, que é mil vezes melhor do que um bosta como o Ace D. Copular!!!
Ele quase cai para trás com o meu quase grito a dizer o nome dele. Ace fica pálido, sem fala e sem reação, enquanto eu me viro para trás, dando as costas para tudo aquilo que estava me fazendo mal. Já chega... Eu prefiro ficar sem minhas respostas do que permanecer ao lado desse filho da puta.
Me dirijo aos céus, e quase saindo dali de perto, Ace chama a minha atenção mais uma vez:
– Se ele é tão melhor do que eu, porque você não confia nele?!
Paro de voar, estranhando sua pergunta. Volto a pousar no chão e me aproximo dele novamente.
– O que está insinuando, seu bosta? – Pergunto, encarando-o com raiva e apertando as mãos. – Você nem sabe o que fala, e fica aí, praticamente vomitando merda!
– Você sabe muito bem do que eu estou falando! – Ele também me encara com raiva, se aproximando um pouco mais. Em uma questão de segundos, já estávamos nos encarando a poucos centímetros um do outro. – Você fala como se ele fosse perfeito, mas sabe muito bem que ele não é confiável!
– Escuta aq-... – Ace me interrompe antes que eu continuasse a falar.
– Se você realmente confiasse nele, não daria a mínima para as mensagens do anônimo! Mas você está tão certa de aquele cara não é confiável que resolveu vir aqui na tentativa desesperada de saber com o que você está se envolvendo!!
Eu estava prestes a dar uma bronca, mas por um momento parei para pensar no que ele disse. Demorou um pouco para eu assimilar que Ace havia dito algo um tanto questionável. Afinal, ninguém além de mim sabe das mensagens que eu recebo.
– Como... Como você sabe disso tudo?... – Ace desmancha seu olhar zangado, voltando a um toque sereno, tendo certeza de que eu ficaria um tempo tirando minhas próprias conclusões. Olho para ele no fundo dos olhos, ficando pasma. – Não vá me dizer que... – Fiz uma pausa, sem acreditar na possibilidade. Algo em mim implorava que tudo aquilo fosse um sonho, ou melhor, um pesadelo. Ele não poderia ser... Não ele. – Que você é o cara que me manda as mensagens?
Ace não desmanchou o seu olhar sereno, não demonstrou nenhuma reação que dissesse o contrário, apenas liberou um curto sorriso no rosto, que foi o suficiente para eu me convencer de que tudo aquilo a qual me perguntei por meses era obra dele.
– É o que parece, não é? – Responde, indiferente. O mesmo não esperava que eu fosse acreditar.
Arregalo os olhos sem acreditar. Não... Não pode ser. Ele está mentindo.
– E o que te faz pensar que eu vou acreditar nessa sua história? – Pergunto, da forma mais desconfiada possível.
Ace suspira.
– Considerando o fato de que você veio até aqui... – Lança um olhar penetrante em meus olhos, fazendo-me arrepiar por inteiro. Seus olhos escuros eram como o céu da noite, lá havia um certo brilho semelhante as estrelas, que me convidavam a observá-las da mesma maneira que o mesmo não tirava os orbes dos meus. – Vai precisar acreditar em mim.
Algo em mim ainda recusava tudo aquilo, recusava assimilar que Ace era o anônimo, e que ele estava falando a verdade a respeito de tudo o que disse até agora. Desvio meu olhar, recusando a olhar para ele.
– Não... Impossível... – Essa era a minha mente falando por mim. – Não, você não iria mandar aquelas mensagens a não ser que estivesse querendo zoar com a minha cara...
– Mas eu não estou zoando com a sua cara. – Ele segura meu braço, pedindo para que eu voltasse a olhá-lo nos olhos. Pela primeira vez, pude ver sinceridade ali, como se implorasse para que eu acreditasse nele. Mas meus sentidos ainda o recusavam, fingindo não ver aquela sinceridade e focando no Ace mau, o Ace que me fez sofrer, o Ace que eu odeio. E não esse novo Ace em minha frente. – Olha... Eu sei. Eu sei que parece difícil de acreditar, principalmente porque eu já menti muito pra você, mas se você me escutar... – Ele faz uma pausa, sem desviar os olhos de mim. – Tudo o que eu falei até agora é verdade. Tudo mesmo. Até mesmo nas mensagens. E eu escrevi tudo aquilo porque... – Volto a olhá-lo nos olhos mais uma vez, e tenho a chance de ver a primeira expressão de Ace que mostrava algo bom dentro dele. Eu permanecia recusando isso. – Porque... Eu... Eu quero proteger você...
Ao ouvir aquilo, foi como se todas as lembranças de meu passado com Ace tivessem produzido um filme em minha mente, a cena a qual foquei foi a parte em que eu o vi com outra mulher, jogando todas as suas mentiras na minha cara. Eu não queria passar por tudo aquilo de novo. Não queria.
Solto meu braço bruscamente de sua mão, fugindo dele, que se surpreendeu com a minha reação.
– Me proteger?! Quando é que você vai parar de mentir, Ace?!? – Ele queria voltar a falar, mas não deixei. Sei que pode parecer muito melodramático, mas por um momento, senti como se eu estivesse a ponto de chorar. Sim, esse foi, definitivamente, o momento mais dramático da minha vida. – Como você quer que eu acredite em você?! Você me odeia!! Do que exatamente você ia querer me proteger?!? Porque ia querer me proteger?!?
Houve uma pausa a partir dali, Ace estava sem fala, sem a mínima ideia de como responder, assim como eu estava mais confusa do que nunca, praticamente implorando para uma explicação daquilo tudo. Meu coração estava me apertando aos poucos, minha mente tentava me convencer de que tudo aquilo não passava de uma mentira. Afinal, quem diria que ele seria o anônimo?
E o mais estranho era o meu medo. Eu não tinha medo de Ace ser o anônimo, mas sim de ele estar falando a verdade em tudo o que disse. Naquele momento, eu não tinha ideia em quem eu deveria acreditar.
Ace solta um suspiro, coça a cabeça com força e desvia os olhos, imaginando qual seria a melhor maneira de começar a se explicar. O moreno de pele verde fica cabisbaixo, evitando olhar para mim. Um olhar sereno, seguido de mais um suspiro, o faz se encostar mais uma vez no monte de lixo, enquanto eu, não sabia mais como tirar os olhos dele, observando cada reação com cuidado.
– Eu... Eu também achei que te odiava... – Ele corta o silêncio, chamando o máximo de minha atenção. Seu cabelo negro dançava com a brisa fria, tal como levou mais um suspiro e sua coragem de olhar-me nos olhos novamente. Era como se eu nem estivesse ali. – Eu... Fiz muita merda com você. Eu sempre achei que você fosse apenas mais uma na minha lista de garotas com quem namorei ou fiquei, ou que talvez tirar você do sério fosse uma maneira de diversão, mas... – Fala como se isso fosse algo legal a se dizer para uma garota. – As coisas ficaram diferentes depois que eu vi você com aquele cara...
– Ah, eu já entendi. – O interrompo, cruzando os braços. – Então tudo isso não passa de uma crise de ciúme e possessão. Eu tenho cara de otária, por acaso?
– Quer deixar que eu termine de explicar? – Ele perde a paciência, já cansado de minhas interrupções, o que me enfureceu um pouco. Ace coça a cabeça, assim como seus cabelos são embaraçados pelo vento. O moreno olha para o céu de nuvens cinzas. – Quando... Quando ele te protegeu naquela noite no shopping, eu sabia que havia alguma coisa entre vocês dois. Mas eu nem dei importância. Sabia que, mesmo que ele tenha me dado uma surra, eu esqueceria uma hora ou outra, pois nunca me lembro dos caras que juro me vingar. Mas aí... A minha casa foi incendiada na mesma noite, e eu sabia muito bem que tinham sido vocês. – Ao dizer isso, desvio meu olhar, fazendo cara de santa. – Eu fiquei com muita raiva por vocês terem destruído tudo o que era meu e do resto da gangue, então eu prometi a mim mesmo que lembraria de me vingar. Mas para isso, eu precisaria saber mais sobre aquele cara, descobrir algum ponto fraco e usar contra ele, vingar-me de uma maneira que ele nunca esquecesse o nome da Gangue Gangrena.
Ace faz uma pausa, sentando-se no chão junto ao lixo. Me aproximo um pouco, olhando em seus olhos, colocando o meu cabelo atrás da orelha. Eu ainda estava curiosa, aquilo ainda não explicava o motivo das mensagens.
Ele suspira, recuperando-se da pausa para continuar a falar.
– Por uma incrível coincidência, eu fiquei amigo de um dos irmãos dele, o loiro galã. Ele pode parecer mau, mas é um cara com boas intenções... E tem pena de você. – Minhas sobrancelhas se juntam ao ouvir a última frase, num movimento rápido, Ace se levanta de onde estava e finalmente olha para mim, se aproximando aos poucos. – Buttercup... Eu nunca fui o cara mais confiável do mundo, mas precisa acreditar em mim agora, senão... Terá consequências mais tarde.
– D-Do que está falando?
Olha bem no fundo de meus olhos, exigindo o máximo de minha atenção, não pude evitar em arregalar os meus. Segura meus ombros com uma força exagerada que me deu vontade de me soltar dele. Pude ver sinceridade nas palavras de Ace, do mesmo jeito que ele pode ver o medo em meus olhos.
Eu tinha medo do que eu estava prestes a ouvir. Tinha medo da sinceridade do homem em minha frente. Tinha medo do que Butch não dizia ser.
– Eu... Eu não sei muito bem dessa história, mas só sei que é verdade. – Aos poucos, ele ia apertando mais os meus ombros. – Esse Butch não é o que você pensa. Ele está usando você, não sei bem pra quê, mas pelo o que eu entendi, tudo começou com uma aposta que ele fez com Brick, o outro irmão. – Naquele momento, pude sentir meu coração parar. Já ouvi comentários sobre essa aposta antes, e com o discurso de Ace, é como se as peças que faltavam no quebra-cabeça tivessem sido encontradas. Mas eu não pretendia encaixá-las.
Ace pretendia continuar, mas reparou meu rosto pálido, meus olhos espantados, e precisou segurar-se para não me abraçar. Eu ainda recusava tudo aquilo, afinal, estou em meio de um bando de mentirosos. Como posso escolher em qual acreditar?
– Não... – Sussurro. – Não é verdade...
– Escuta! – Ace segura meu rosto, direcionando para seus olhos novamente. – Eu sei que é difícil de acredita porque você gosta dele, mas é verdade! – Eu continuava negando, enquanto Ace desvia suas mãos até meus braços, onde os segura com força. – Em uma noite... Não me lembro bem quando... O Boomer, meu amigo e irmão dele, estava bêbado. E ele disse uma coisa a respeito dessa aposta, e até onde ela chegou, e foi aí que eu tive certeza... De que você estava em perigo. Eu não sei o que deu em mim, mas eu passei a ter uma vontade insana de te manter longe daquele cara. Eu não queria te ver se decepcionar outra vez porque você merece algo muito melhor do que todas essas decepções... Esse pensamento que me fez perceber que você não é uma mulher de diversão, e que... De certa forma...
– Pare... – Eu o interrompo, negando com a cabeça. – Pare de mentir, Ace... Por favor, pare...
Ace mais uma vez viu que eu estava pálida, mas agora, mais do que o normal. Ainda tentando me convencer, sacode meus braços com força, colocando um olhar mais sério no rosto.
– Porra, será que você não vai acreditar em mim?!? – Fala, mais alto do que o necessário, como se estivesse tentando me acordar. – Entenda, o cara por quem você se apaixonou é um monstro!! Aqueles Desordeiros são uns demônios em forma de gente, que vieram pra cá ainda piores do que antes!! Não sei se o Butch te disse isso, mas ele não te ama de verda-
– EU DISSE PRA PARAR DE MENTIR!!
Meu grito ecoou por todo lugar, fazendo alguns pássaros ali por perto voarem para longe. Mas garanto que nenhum som foi tão alto quanto o de meu punho cruzando com a face de Ace, um soco poderoso que deve ter desorganizado todos os dentes de sua boca.
Ace cai no chão por causa do impacto, quase desmaiado, põe a mão no rosto vermelho enquanto olha pra mim numa feição assustada. Ao mesmo tempo que eu estava a ponto de manda-lo para o além, lágrimas solitárias e silenciosas desciam por meu rosto. Esse cretino... Porque ele fez isso comigo?... Porque essas coisas tem que acontecer justo comigo??...
Me aproximo do corpo verde e machucado no chão, ainda surpreso pelo meu golpe, olha para mim com os olhos arregalados, da mesma forma que seus óculos escuros estavam rachados pelo impacto. Me agacho até ele, o seguro pela gola da camisa num tom ameaçador, aquilo o faz estremecer.
– Ace... Vou deixar uma coisa bem clara aqui. – Fazendo uma expressão furiosa, da mesma maneira que seguro as lágrimas, praticamente rosno como um leão na cara dele. – Nunca... Nunquinha mesmo... Volte a me procurar. Entendeu?
Ele nada responde, apenas assente, trêmulo. Sem olhar para trás, voou até a cerca que dividia aquele lugar repugnante da outra parte da cidade. Recapitulando tudo o que acabara de acontecer, quase que me pus a chorar novamente, mas engoli o choro com bravura, recusando-me a desabar por algo como aquilo.
Decido ir andando para casa, aproveitando a brisa fria que me conduzia para a direção contrária, refletindo comigo mesma as minhas incertezas, certezas e sentimentos. De um lado estava Ace, o babaca que destaquei como mentiroso desde o princípio. Ace já me fez sofrer muito, da mesma maneira que parecia estar sendo sincero agora a pouco quando mencionou em querer me proteger. Eu não entendo o Ace. Não entendo seus princípios, ou o que ele realmente está tentando proteger. Talvez seja egoísmo.
Talvez seja ciúme.
Talvez seja carência.
Talvez seja carinho.
Talvez seja paixão.
Todas essas possibilidades se encaixam em Ace, da mesma maneira que não se encaixam. Ace é um quebra-cabeça indecifrável. Assim como meus sentimentos por ele, que talvez não tenham mudado. Essa possibilidade mostrou-se possível quando eu não consegui atingi-lo antes que o mesmo desse sua explicação. Mas prefiro nem pensar no que meu coração tem a dizer sobre Ace.
Agora vamos partir de moreno de pele verde para moreno de pele bronzeada.
Butch. Oh, Butch. Será que você é mesmo o demônio que Ace diz ser? Será que você é um vigarista que está se aproveitando de mim? Será que você é um filho da puta que só está comigo por causa de uma aposta a qual nem sei direito? E se for... O que eu faço?
O que eu sou para ele afinal? Quando penso nisso, nenhuma possibilidade vem a calhar. Afinal, até hoje ele ainda não respondeu o meu “eu acho que te amo”, e ontem mesmo tratou-me da forma mais rude possível. Será que era apenas aquilo? Será que o que ele sente por mim é apenas algo induzido por chocolates com efeitos estranhos ou álcool?
Ora só. E eu que pensava que ao encontrar-me com o anônimo minhas perguntas seriam respondidas, mas na verdade, apenas trouxe mais e mais perguntas. Estou cansada dessas merdas de perguntas.
A brisa fria ventava contra o meu corpo, levava consigo as secas de minhas lágrimas, meus pensamentos e meus suspiros involuntários. Se ao menos eu pudesse ficar um tempo longe disso tudo, seria maravilhoso. Sim... Talvez seja melhor-
O destino pareceu ouvir-me... Tendo pensado isso, pude ouvi meu celular dar o bipe de mensagem recebida. Nem me perguntem a euforia que senti ao ler o nome do remetente.
“Me ajude, eu estou morrendo.
– Butch.”
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Butch estava sentado em sua cama, cabisbaixo, mesmo sabendo que eu estava ali, não olhou para mim. Parecia solitário. Seu conceito de estar morrendo era diferente do que eu imaginava, na verdade, estava morrendo mais pra dentro do que pra fora. Não houve diálogo entre nós dois por um bom momento, da mesma maneira que ele permanecia no silêncio profundo, eu não sabia o que dizer. Ainda estava confusa com tudo que aconteceu hoje.
Não tive tempo para pensar em nada, apenas li a mensagem e voei para a casa bagunçada dos Desordeiros pelo maior impulso do mundo. A mensagem, ao que parecia ser um pedido de socorro, não sei ao certo o que ela me fez sentir, seja felicidade ou preocupação naquele momento.
Ficando de frente para a porta da pequena casa, logo percebo que ela estava aberta, arrombada no caso, não faço ideia do porque ela estava assim. Não hesitei em entrar sem avisar. Considerando a bagunça de sempre, como latas de cerveja espalhadas no chão, restos de comida tanto na parede quanto nos assentos, baratas e formigas pra todo lado, cuecas sujas em cima da mesa, uma enorme quantidade de caixas de pizzas espalhadas por todo canto, e inúmeros CDs de videogame em cima do sofá, estava tudo normal por ali. A casa estava vazia e silenciosa, nenhum sinal de ruivos psicopatas ou de loiros pervertidos, apenas o cheiro de um moreno misterioso que vinha do que aparentava ser seu quarto.
Caminho pelo corredor estreito e repleto de roupas espalhadas pelo chão, ele dava passagem para três quartos e um único banheiro, Butch estava no quarto em que a porta estava fechada. Abro-a lentamente e dou de cara com o moreno sentado em sua cama, cabisbaixo, sem desviar um único olhar para mim mesmo sabendo que eu havia chegado.
Olho para ele da cabeça aos pés, além de não conseguir parar de imaginar que tudo o que Ace disse a seu respeito pode ser verdade, noto que sua expressão está a mesma de ontem. Distante, depressiva e solitária, como se realmente estivesse pedindo socorro. Será?... Não! Não posso me deixar acreditar nas palavras de Ace. Ele é um mentiroso e sempre será... Não é?
Subitamente, dou uns três passos em sua direção, me aproximando. Não houve nenhuma reação. Nem um piscar de olhos. O cutuco em seu ombro, o que o faz olhar para mim por uns dez segundos, depois voltou a ficar cabisbaixo. Ele me chamou pra isso, então?
Respiro fundo, seguido de um suspiro longo.
– Butch... – O chamo, baixinho. – Você... Está bem?
Ele olha para mim novamente, silencioso, sem coragem de responder. Tudo estava mais quieto do que deveria.
Todo aquele mistério estava me tirando dos nervos. Seus olhos verdes brilhavam em direção aos meus, havia algo nele que eu ainda não havia decifrado, embora eu fosse muito boa para decifrar o olhar das pessoas. Seus suspiros foram levados com a pequena brisa fria que circulava pela casa, o silêncio agoniante exigia que ele me respondesse alguma coisa, assim como meu olhar penetrante, que esperava impacientemente sua resposta.
– Eu não... – Revira o rosto para outro lado, cortando o contato visual entre nós. – Eu não sei...
Reparo o seu olhar solitário mais uma vez, com um impulso, sento-me ao seu lado com os braços cruzados, posso ver seu rosto avermelhar-se ao me ver ao seu lado, em seu quarto, em sua cama. Normalmente seria eu quem coraria nessas horas, mas dessa vez fora o contrário.
Tento olhá-lo nos olhos, como um pedido para que ele olhasse para mim também. Mas não olhou. Ficou ali, apenas apreciando minha companhia sem dizer uma só palavra.
Mas eu não estava satisfeita.
– Aconteceu alguma coisa? – Pergunto, ele não responde, nem me olha de volta. – Você... Quer conversar a respeito?
Sua resposta foi revirar o rosto ainda mais. O que ele quer, afinal? Ficar aí, sentado na cama, sem falar nada até que eu vá embora?
Libero uma bufada, já impaciente, me levanto da cama com os braços ainda cruzados. Pude perceber que ele finalmente voltou a olhar para mim.
– Tudo bem, já que você não vai responder, eu vou embora.
Caminho em direção a porta, mas antes mesmo que eu pudesse ultrapassar a cama, sinto uma mão me puxar para trás. Olho para Butch, que ainda transmitia aquele olhar solitário, ele parecia implorar para que eu ficasse apenas com os olhos.
– Espere. – Ele pede, ainda segurando em minha mão. – Não vá... – Agora ele implorara com palavras, as que foram suficientes para que eu voltasse para ele. Butch coça a cabeça e respira fundo, desviando o olhar de mim mais uma vez, fitando o chão. – Me... Me desculpe.
O que? Num movimento rápido, ele se levanta da cama, cruzando os braços, dando passos lentos ao redor do quarto, chutando algumas coisas com a ponta dos pés. Eu ouvi direito?
Não tiro os olhos dele por um segundo, o mesmo ainda fitava o chão.
– Porque está se desculpando? – Pergunto, curiosa.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Suspira, criando forças para voltar a falar.
– Me desculpe por... Por ter sido grosseiro com você ontem. Eu fui um idiota. – Seu olhar sereno me deixava ainda mais curiosa. Ele me chamou pra pedir desculpas por isso? Nossa... Eu ia exigir uma explicação por aquilo tudo, mas não sabia que ele tinha levado tão a sério. Ele não tirava os olhos do chão por um segundo sequer. – Mas não foi por isso que eu te chamei.
– Então porque você me chamou aqui?
O silêncio durou uns dois minutos de mais suspense, até que ele finalmente tomou coragem para dizer o que queria dizer, e o que eu queria ouvir. Voltou a olhar pra mim, bem no fundo dos meus olhos, me dando um certo arrepio.
– Por acaso você... – Começa, fazendo uma pequena pausa logo depois. – Já se perguntou se tudo no que você sempre acreditou... É uma mentira? – Essa fora, definitivamente, a pergunta mais complicada que alguém já fez pra mim. E eu nunca esperaria que quem a faria fosse Butch. Ele desvia seu olhar mais uma vez, fitando o chão bagunçado. – Ou que talvez... Tudo o que tenha feito até agora... Não tenha sido o certo?
– Uhn... Nossa... – Resmungo, baixo. Ele parecia estar falando sério dessa vez, mas não pude entender a linha de seu raciocínio. O que há com ele? Não parece o Butch de sempre. – Butch, eu... – Começo, coçando um pouco a nuca. – Eu não entend-
– É claro que não. – Ele interrompe, virando-se de costas para mim. Por um instante, pude jurar que ouvi-lo soluçando, não daqueles comuns, mas um soluço se choro. Mas talvez tenha sido apenas a minha impressão. Butch fica naquele silêncio agonizante até um certo momento, quando libera seu último suspiro. – Você nunca entenderia... Afinal, você nasceu para ser uma pessoa boa. Desde que se entende por gente, protege essa cidade de monstros como eu... Nem sei porque lhe dei o trabalho de vir aqui.
Uma gota de suor desce por meu rosto, aquela conversa estava aos poucos me fazendo lembrar do aviso que Ace me dera hoje a tarde. Me aproximo um pouco dele, na tentativa de fazê-lo olhar para mim novamente.
– Não diga isso. Você não é um monstro. – Falo no tom mais suave que posso. – Eu entendo-
– Não, você não entende! – Ele finalmente se vira para mim, e posso ver o que nunca imaginei ver. Lágrimas desciam por seu rosto enquanto ele fazia uma expressão furiosa e ao mesmo tempo solitária. Mas... Mas o que é isso? – Desde pequeno, eu me pergunto porque eu existo, e a resposta sempre foi: Para destruir tudo o que vê, fazer as pessoas gritarem de medo e gerar desordem por todo lugar em que passa! E foi o que eu sempre fiz, achando que esta fosse a coisa certa a fazer! Sempre dei o máximo de mim pra fazer o que eu achava que era certo, e qual é o resultado disso? Todos tem medo de mim! – Seu tom de voz ia aumentando, ao mesmo tempo que as lágrimas escorriam com maior intensidade. Ele não parecia se importar em chorar na minha frente. – Não, você não entende o que é ser temido por todas as pessoas! Elas olham para você como se você fosse uma aberração, como se você não deveria existir! Eu só... – Ele fecha os olhos, abaixando o tom de voz novamente. As lágrimas desciam cada vez mais. Meus olhos estavam arregalados, meu coração quase saia pela boca ao ouvir tudo aquilo. Eu nunca imaginei que Butch sentia essas coisas a seu respeito. – Eu só... Só queria mudar, sabe? Eu queria poder recomeçar e me tornar uma outra pessoa... Eu tô cansado de fazer merda o tempo todo... – Soluça um pouco, enquanto enxuga as lágrimas de seu rosto. – Eu já fiz muita coisa ruim... Principalmente com você... – Nesse momento pude sentir meu coração parar. – Mas eu... Não quero mais isso. Por mais que eu decepcione algumas pessoas... Eu quero ser lembrado pelo o que eu sou, e não pelo o que eu faço. Embora chegue um dia em que todos se esqueçam de mim.
Seu desabafo calou a mim. Não pude evitar pensar em tudo o que Ace disse a seu respeito em meio disso, mas em primeiro lugar, eu queria ajuda-lo. Queria ajuda-lo a alcançar seus objetivos e a se tornar alguém melhor. Queria mostrar a ele que o mundo poderia vê-lo de forma diferente. Assim como aconteceu comigo há muito tempo atrás.
Butch encosta a mão na cabeceira da cama, dessa vez evita olhar para mim novamente, com vergonha de mostrar as lágrimas. Acreditem, para os homens, chorar é a coisa menos máscula que existe, contanto, entregar-se as lágrimas é uma vergonha para eles.
Butch solta um suspiro, olhando para o teto do quarto. O mesmo nem parecia acreditar em tudo que acabara de dizer.
– Tanto que... Eu até comecei a ler livros, pensando que as pessoas me achariam mais “legal”, e... Teriam menos medo de mim... Embora eu tenha gostado de ler, eu percebi que essa ideia era ridícula e não adiantaria de nada. – Olha para o chão, não chorava mais, embora quisesse. – Eu... Eu só cansei de ser temido pelas pessoas. Eu cansei de ser mais uma sombra que não vai valer de nada. Eu só... Eu só queria fazer uma coisa certa... Eu quero mudar, quero ser alguém melhor pra essa cidade de merda... Eu quero ser melhor pra você. – Naquele momento pude sentir meu rosto corar e meu coração acelerar. Cacete, como ele consegue me deixar assim mesmo estando triste? Solta um suspiro cansado. – Mas quer saber? Esquece. Esquece tudo o que eu disse... Eu sou um idiota mesmo.
Um sorriso involuntário se abre no canto de meu rosto, agora, eu não dava a mínima se o que Ace disse era verdade ou não. Não dava a mínima se Butch era diferente do que eu esperava. Não dava a mínima para as minhas dúvidas. Agora eu pensava nele. Somente nele.
Afinal... Eu amo esse desgraçado.
Me aproximo dele aos poucos, quando chego perto, seguro seu rosto e enxugo as lágrimas, sorrindo gentilmente para ele. Lhe dou um beijo carinhoso em seus lábios, durou cerca de trinta segundos para que eu conseguisse soltá-los. Olho-o no fundo de seus olhos com um olhar sereno, no início ele estranha, mas presta atenção em mim. Somente em mim.
– Agora o senhor vai me escutar. – Digo, exigindo o máximo de sua atenção. – Butch... Por mais que você não perceba, ou acredite, há muita grandeza em você. Você é uma das pessoas mais incríveis que eu já conheci, entendeu? Só não teve a chance de mostrar sua perícia ainda. – Ele arregala os olhos para mim, enquanto eu, não desmanchava o sorriso gentil. – Bom... Eu não sei se você sabe dessa história. Acontece que foi há um bom tempo, quando eu ainda era uma garotinha. Mas enfim... Logo quando eu e minhas irmãs nascemos, não sabíamos bem a forma adequada de usarmos os nossos poderes, contanto, as pessoas achavam que éramos aberrações, ameaças, e simplesmente queriam que nós sumíssemos de Townsville. – Eu nunca pensei que contaria a minha versão dessa história pra alguém, mas... Já que comecei, vou prosseguir até o final. – Nós três éramos muito jovens, então não entendíamos muito bem porque as pessoas não aceitavam nossas singularidades. O Professor dizia para nós que as pessoas ficam assustadas, ou quem sabe, zangadas ao verem algo diferente ao seu redor. Mas um dia chegaria o momento em que nós poderíamos mostrar que somos como qualquer um, e que poderíamos usar nossas singularidades para fazer o bem. – Butch parecia cada vez mais curioso a respeito da história. Algumas lágrimas ainda escorriam no canto de seus olhos, mas eu as tirava com o polegar. – Bom... Esse dia chegou. Nós salvamos Townsville do Macaco e as pessoas puderam enfim entender o que nós realmente podíamos fazer. Hoje elas acreditam em nossas singularidades, são elas que as protegem de pessoas com propósitos ruins... E eu sei que a sua vez também irá chegar.
– Buttercup... – Sussurra meu nome enquanto deixa escapar mais uma lágrima no canto do rosto.
Ele nem parecia acreditar que alguém estava dizendo aquilo para ele. Eu não desmanchava o sorriso, embora estivesse quase desabando em lágrimas junto com ele.
– Mantenha-se firme! Não importa o que aconteça! Ignore todos aqueles que disserem que você não vale nada, apenas se importe em continuar traçando seu caminho sem olhar para trás! – Dou-lhe apoio, fazendo-o derramar mais e mais lágrimas. – E quando aparecer a oportunidade... Terá a chance de testar suas singularidades e mostrar para todos do que você realmente é capaz. – Seus olhos verdes escuros não desviavam dos meus por um segundo. Solto um breve suspiro. – Eu espero poder estar lá nesse dia... Pra desfrutar do brilho que você deixar pra trás... – Naquele momento, Butch me puxa para um abraço caloroso, a qual retribuo de bom grado. Fiz um carinho em sua nuca, tentando acalmá-lo. – Está tudo bem, Butch... Tudo bem... – Olho-o no fundo dos olhos, o convidando para mais um beijo. Nossos rostos vão se aproximando aos poucos, antes que nossos lábios colassem, sou capaz de dizer uma última coisa. – Eu estarei sempre com você...
Esta chama se tornara muito mais árdua do que de costume quando nossos lábios se uniam, não por uma vontade consciente, mas por quase um ato involuntário.
É a segunda vez em que eu o havia beijado de uma forma normal, as outras foram todas induzidas por fatores externos, os quais sempre me faziam levantar com o orgulho ferido por ter deixado me levar.
Porém agora o orgulho parecia ter sumido...
Agora eu estava sendo surpreendida por um dos melhores beijos que já recebera. Mesmo que fosse empurrada bruscamente contra a parede e preso pelos braços do moreno de cabelos negros, as vezes pensava que os ímpetos eram o único jeito de fazer as coisas funcionarem entre nós. Nossa, de onde está vindo toda essa selvageria?
O moreno não fora ousado e nem profundo, ao que parece, ele limitou-se a um pequeno e breve roçar de lábios, o suficiente para deixar-me sem palavras, sem reação. Era o que eu mais odiava e ao mesmo tempo amava nele.
O silencio por na pequena distancia entre seus rostos foi quebrado pela minha tentativa de pronunciar algo.
– Você planejou isso tudo? – Pergunto, não com raiva, mas de uma maneira um tanto maliciosa.
– Não. – Diz ele, me prensando mais contra a parede do quarto, roçando os dentes e a língua pela curvatura de meu pescoço, fazendo-me arfar. – Mas se quer saber... Está melhor do que eu imaginava.
– Filho da puta. – Brinco.
Nem foram preciso palavras, era outra das coisas as quais eu mais odiava naquele homem: ele sabia como provocar-me e induzir-me.
Os arrepios da pele áspera na região do maxilar do maior roçando em sua pele faziam todo seu corpo arrepiar-se, sentir essas sensações diante de alguém como Butch era algo totalmente novo para mim, perguntava a cada instante porque essas coisas aconteciam justamente para Butch, que era o único que conseguia me deixar dessa maneira.
Talvez seja porque eu estou destinada a ele desde o começo. O pensamento chegou a assustar-me, podia o destino ser tão exagerado na dose de ironia quando fora escrever o meu percurso?
Talvez não, talvez o destino, ou seja lá o que nos controla seja apenas uma pessoa ardilosa, uma criança queimando formigas com uma lupa abaixo do sol, talvez essa pessoa não faça planos, ou talvez desde o começo ela havia marcado esta data para mostrar-me o quão perfeitamente eu me encaixava naqueles braços fortes quando eles me abraçam para conduzir-me até sua cama grande o suficiente para dois, sentindo todo o prazer proporcionado pelo moreno que fornecia uma sensação estranha, porém gostosa entre as pernas quando me atacava com seus beijos selvagens e calorosos. Talvez seu gemido mais abafado desta hora fosse a prova de que tudo era um plano ardiloso, milimetricamente estudado e preparado para deixar qualquer pessoa embasbacada em fronte ao que alguns chamam de ‘coincidência’ ou ‘sorte’.
Eu queria apenas sentir tudo aquilo. Deixar para trás todos aqueles pensamentos que eram incômodos naquele momento.
Eu sei bem que as coisas não irão mudar. Eu sei que somos de mundos completamente diferentes, eu sou como a luz do bem, e ele é a escuridão da maldade. Eu sei que graças a ele terei que enfrentar muitas coisas. Eu sei que eu posso acabar me decepcionando. Eu sei que eu estou brincando com fogo.
Mas se quer saber... Eu não me importo de brincar com o fogo.
Vamos esquecer as queimaduras que estão por vir e focar na diversão.
A noite parecia estar apenas começando para nós dois.

Continua...
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