Playing With Fire
19 Brincando com fogo - parte 1
Notas iniciais
– Não quero pressioná-lo nem nada, mas... Eu queria uma resposta, sabe? Mesmo que ele não sinta o mesmo, eu... Ah, sei lá. – Digo à Amy, que me olhava com um ar de curiosidade. – Nem eu sei o que eu quero.
Duas semanas se passaram desde o incidente com as trocas de mensagem.
Eu tenho seguido minha vida normalmente, fingindo que nada daquilo tenha acontecido. As férias começaram há dois dias atrás, o que me anima bastante, pois já estou começando a fazer meus planos para esses longos dois meses de folga: Ficar em casa o dia todo, assistindo TV, comendo porcaria, lutar contra o crime quando me chamarem, e não fazer nada produtivo até que as aulas comecem. Folga... Oh, como eu preciso disso.
Mas eu sei qual é a pergunta que você quer fazer: Butch respondeu sua mensagem?
Confesso que não gosto de responder essa pergunta.
Butch, como já era de se esperar, não demonstra nenhum sinal de vida. Parece ter evaporado desde que eu disse aquelas coisas, ou simplesmente ter perdido a vontade de vir atrás de mim para me provocar ou fazer meus sentidos ficarem confusos. Eu sei bem o que ele está fazendo: Fugindo.
Estávamos apenas eu e Amy em casa, deitadas na minha cama, devorando todas as porcarias que tinham na geladeira. Aproveitei a ausência das minhas irmãs e do Professor para convidá-la a ficar comigo, por alguma razão eu estava me sentindo sensível hoje (Deve ser por causa da menstruação), e queria ter alguém pra conversar, ouvir meus problemas, e, depois dos desabafos, ouvir um pouco de música e assistir televisão comigo. Para essas coisas, Amy é a melhor indicada.
A menina de cabelos castanhos rolava na cama com a boca cheia de biscoito, não tirava os olhos da minha expressão. Engole o biscoito e suspira.
– Não ligue pra isso, Buttercup. – Ela diz, colocando a mão em meu ombro. – Olha, se quer minha opinião, eu acho que se ele ficar fugindo, é porque ele não te merece.
– Eu sei, mas... – Passo a mão pela minha testa suada, encostando a cabeça no travesseiro em seguida. – É complicado...
Ambas suspiramos, ficando em silêncio a partir daquele momento, cada uma olhando para um lado. Eu estava esperando que ela falasse algo, porém, quando ela percebe que estou meio pra baixo, não gosta muito de insistir no assunto. Então continuamos em silêncio.
De repente, quando sentimos a necessidade de puxar qualquer outro assunto, Amy chama a minha atenção.
– Então... A Bubbles já superou aquela merda que o Kevin fez com ela? – Pergunta.
Eu me surpreendo, afinal, ela nunca gostou de mencionar o Kevin. Eu assinto a cabeça, dizendo que sim.
– Aham. – Respondo. – Inclusive, ela disse que conheceu um garoto na academia de ginástica. Aquela loirinha não perde tempo. – Comento, rimos um pouco.
Voltando a ficar em silêncio, me incomodo mais uma vez. Retomo a vez de voltar a falar.
– Aliás, agora que ela não está mais namorando o Kevin, espero que você não tenha mais receio de falar com ela. – Digo.
Ela não parecia ter o mesmo olhar triste que fazia quando falava do Kevin, na verdade, por mais milagroso que seja, ela parecia até nem ligar mais. Será?... Ela finalmente superou??
– Eu quero mais que aquele idiota se foda. – Diz, me fazendo arregalar os olhos.
– Quê?? Eu ouvi bem?? – Ela solta um risinho, o que me deixou bastante curiosa. Suas bochechas levaram um tom rosado, como se estivesse pensando em algo vergonhoso, dali já sabia muito bem o que estava acontecendo. Faço uma expressão maliciosa, fazendo-a ficar com mais vergonha ainda. – Então, sua danadinha, não vai me contar o que está acontecendo?
Ela revira um pouco o rosto, com vergonha. Levou seu cabelo para trás da orelha e suspirou.
– Bom... Eu conheci um garoto, e...
– Quer dizer que a Bubbles não foi a única? – Perguntei, interrompendo-a. Ela ri com as bochechas quentes. – Conte-me tudo.
– Bem... Eu estava numa livraria para trocar um livro. Quando eu fui pegar o outro livro, minha mão se encostou com a de alguém, e... Quando vi era o cara mais gato que já vi na minha vida. – Fiz um som malicioso com a boca, provocando-a para que ficasse com mais vergonha. Ela solta outro risinho tímido e continua. – Ele olhou pra mim e viu que eu estava usando a camisa dos Guns 'N Roses, então... Digamos que ele também se interessou por mim. Começamos a conversar sobre diversas coisas, e aí ele me deu o telefone dele. – Ela liberou um lindo sorriso no rosto, daqueles difícil ver em alguém. Acabei sorrindo junto, feliz ao vê-la feliz. – Ai Buttercup, ele é tão legal, tão engraçado, tão lindo, tão tudo!
Eu a abraço de repente, ela me abraça junto. Eu estava tão feliz ao vê-la assim. Tão feliz.
– Ah Amy... Estou tão feliz por você. – Digo no meio do abraço. Eu a solto um pouco para olhá-la naqueles grandes olhos castanhos. – Mas lembre-se, não se entregue a ele logo de cara, seja difícil, tenha respeito próprio. E também não se apaixone muito fácil, deixe que ele se apaixone por você primeiro.
– Eu sei, eu sei. – Responde. – Vou me controlar para que ele não pense que sou uma desesperada.
– Isso aí, garota. – Sacudo os cabelos dela, fazendo-a rir. – Então... Qual é o nome dele?
– O nome dele é Kyle. Lindo, não é? – Responde entusiasmada. Eu assinto com a cabeça. – Ele estuda medicina na faculdade, tem dezenove anos e gosta das mesmas bandas que a gente.
– Nossa, que partidão! – Comento. – Quero conhece-lo, hein. Vou aprova-lo para ver se ele é bom o suficiente pra você.
Ela ri. O celular de Amy vibra em cima da cama, parecia ter recebido alguma mensagem. Ela o pega, e ao vê-lo, arregala os olhos e as bochechas voltam a ficar vermelhas. Ela parecia estar querendo gritar. Preocupada com seu estado, pergunto o que houve, ela respira fundo e diz, contendo a voz para não gritar:
– É o Kyle! Ele me convidou para ver os fogos-de-artifícios com ele amanhã! Ai meu Deus!! – Responde, eufórica.
Começamos a comemorar, pulando nas três camas do quarto. A seguro pelos dois braços e a puxo para voar em círculos pelo teto comigo, fazendo-a ficar ainda mais empolgada. Ela adora quando eu a carrego para voar.
A solto em minha cama, ela continua nos ataques de riso involuntários, sem desmanchar o sorriso no rosto. Eu continuo flutuando no ar, me perguntando sobre o passeio que Kyle propôs a ela.
– Vem cá, que fogos-de-artifícios são esses que ele te chamou pra ver? – Pergunto, curiosa.
Amy faz cara de que nem acredita que eu fiz aquela pergunta. O que? Eu fiz algo errado?
– Buttercup, não me diga que você esqueceu que dia é amanhã? – Pergunta. Eu faço que sim com a cabeça, não achando nada demais. – Amanhã é o dia da independência, anta! – Ela brinca.
Coço a cabeça, lembrando-me que a cidade estava enfestada com bandeiras dos Estados Unidos, pôsteres e convites para ver os fogos. É tanta coisa na minha cabeça que até tinha esquecido que amanhã é dia 4 de julho. Solto um suspiro, pousando no chão novamente.
– Me desculpe vossa majestade. – Zombo de sua cara. – Não sabia que era obrigação de todo americano lembrar-se do dia da independência do seu país.
– Você é um insulto a esse país. – Ela me faz rir.
– Um insulto que protege Townsville.
– Exibida você é, não?
– Só um pouco. – Nós rimos. Me jogo na cama ao seu lado, me espreguiçando. – Então... Você vai com ele?
– Espero que sim. – Responde. – Vou ter que convencer meu pai antes. Ele é muito ciumento.
– Sei como é.
– E você? Vai ver os fogos com sua família?
– Não. – Respondo, sentando-me. – Detesto fogos-de-artifício, são barulhentos demais, prefiro ficar em casa.
– Você parece uma velha reclamona.
– Foda-se. – Nós duas rimos.
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Amy ficou aqui em casa até tarde, nos divertimos bastante. Deviam ter visto a forma que ela sujou a própria camisa com o miojo que preparamos, ela parecia ter vomitado em si mesma, foi hilário. Mas justo na metade do filme que estávamos assistindo, o pai dela chegou para vir busca-la, ele parece ser um cara sério, mas é superengraçado quando quer.
Dormi umas duas horas da manhã, mas não tão tarde quanto o Professor, que passou a madrugada trabalhando em sua nova invenção. Acordei na hora do almoço, com fome o suficiente para comer quatro pedaços de carne. Nada melhor do que acordar tarde na segunda-feira sabendo que já está de férias. Foi um dia normal, tivemos que chutar a bunda do Macaco por volta das duas horas da tarde, mas tirando isso, foi um dia quieto e relaxante.
A oeste a escuridão consumia os últimos raios da alvorada, os quais se retiravam, dando lugar as estrelas nítidas de uma noite limpa com temperatura agradável. Típica noite a qual prometia a maior diversidade de acontecimentos inesperados, assim como tem sido minha vida ultimamente, eu já estava até me acostumando, mas hoje, especialmente hoje, eu não esperava que algo fosse acontecer.
O Professor e minhas irmãs se arrumaram da maneira mais elegante possível para verem os fogos-de-artifícios lançados na frente da prefeitura. Reforçaram bastante para que seus trajes seguissem o padrão da bandeira dos Estados Unidos, ficando perfeitamente apropriados para a ocasião. Seguindo para a porta, o Professor segura meu rosto e diz:
– Tem certeza que não quer ir com a gente, meu amor? – Ele pergunta pela décima vez no dia. Insistiu para que eu fosse ver os fogos com eles desde de manhã. – Nós podemos esperar você se arrumar para irmos, se você quiser.
– Obrigada Professor, mas eu realmente prefiro ficar em casa. – Respondo, segurando sua mão. – Eu não suporto o dia da independência. Todo ano é aquela mesma barulheira dos fogos-de-artifícios e pessoas gritando sem parar.
O Professor suspira e solta a mão de meu rosto, me dá um beijo na testa e em seguida segue minhas irmãs até o carro. Abro a porta da garagem para que o carro saia, o Professor abaixa a janela de vidro e me olha com um sorriso bondoso.
– Vai ficar bem sozinha? – Pergunta.
– Vou sim.
– Caso mude de ideia, vá para a prefeitura. – Responde com um sorriso no rosto. – O Prefeito nos convidou para ver os fogos com ele, e a Sarah também estará lá.
Eu assinto com a cabeça e ele vai embora, me deixando sozinha em casa, livre para refletir em meus pensamentos mais profundos sem que alguém apareça e corte todo o raciocínio. Sou dessas que só consegue pensar direito quando está sozinha.
Em meio de minhas fantasias casuais, começar a pensar no moreno do nada era inevitável. Embora eu tentasse, eu simplesmente não conseguia parar de pensar em Butch, ou se ele também pensava em mim. Não conseguia evitar pensar em tudo que nós passamos, e onde as coisas chegaram. Já estava me acostumando com essas reflexões em minha mente. E o mais irônico é que aquilo que eu mais tento evitar é o que mais me persegue nas horas mais inusitadas. Porra, o que há de errado comigo? Será que não consigo ficar um minuto sem pensar nisso?
Talvez a culpa não fosse dele, talvez as coisas aconteçam simplesmente porque tem que acontecer. Amy me disse isso em uma de suas consultas de psicóloga improvisadas, o que me deixou um tanto pensativa. Tudo estava me deixando pensativa nessas últimas duas semanas.
Já cruzei com várias pessoas durante estes longos 18 anos de estrada, conheci vários tipos de encrenqueiros, tímidos, mandões, simpáticos, antipáticos, psicopatas, etc. Mas nenhum deles causou tanta devastação como certo alguém de cabelos morenos e olhos verdes, que antes o considerava uma dor de cabeça ambulante, e agora, após 11 anos, simplesmente chegou e virou tudo de cabeça para baixo.
Após cinco meses de brigas, confusões, desejos e algumas vezes, homicídios, me pus a pensar que não adiantaria mais simplesmente querer fugir, ou ignorar como se não fosse nada demais. As coisas estavam nitidamente ligadas.
Parecia que tudo estava conspirando para estas teorias de mudança de vida. Aquilo, de certo modo, chegava a assustar. Mudo de canal para ver o que mais estava passando, aproveitando que ninguém estava em casa, dou uma pausa no Discovery Kids pois estava passando o desenho dos pôneis que eu, por incrível que pareça, gosto.
Mesmo que eu tentasse me distrair com aquela história complexa demais para um canal de crianças, as palavras da sábia tartaruga do filme do panda não saía da minha cabeça. Natural, levando em conta que o diferente sempre assusta os humanos, mas nunca provara nada igual, era como se o mundo estivesse se transformando ao meu redor, quando na verdade, era o meu modo de ver o mundo que estava mudando.
E é tudo culpa daquele idiota de cabelo em pé.
– Você não está velha demais pra assistir My Little Pony? – Diz a voz causadora dos fatos imprevisíveis desta noite.
Olho para trás, especificamente para o alto, e encontro o caos de minha vida, flutuando pelo ar de minha casa, sabe-se lá como entrou aqui. Minha surpresa foi tão grande que, se eu estivesse bebendo algo, certamente cuspiria tudo na hora.
Mas o que mais me surpreendeu foi o fato dele não estar com o mesmo olhar provocador de antes.
Eu estava feliz, muito feliz por ele ter aparecido, mesmo que repentinamente, mas contive minha euforia e respirei fundo. Volto minha atenção para a TV, tentando agir naturalmente.
– Não tinha nada melhor passando. – Respondo indiferente, com uma voz calma.
– Deve ter mais de cem canais aí. Me engana que eu gosto. – Ele brinca. – E eu sei que todo mundo gosta dessa porra agora, não precisa mentir.
– É um desenho ótimo, caso você não saiba. – Brinco de volta, fazendo-o rir.
Ele se senta ao meu lado, acomodando-se como se estivesse na própria casa. Um ar de curiosidade surgiu em minha mente, gerando uma série de perguntas bastante convenientes para o que eu estava passando. Mas afinal, porque ele está aqui?
Desvio um pouco os olhos para ele, que também fitava a TV, deixando bem claro que também fingia agir como se nada tivesse acontecido há duas semanas atrás. Mas esta não fora a única coisa que notei, havia algo ali que chamou ainda mais a minha atenção: Havia uma ponta de adrenalina, ou até mesmo, nervosismo em seus olhos. Nem parecia o mesmo Butch.
– Como entrou aqui? – Pergunto, ainda tentando parecer natural.
– No seu quarto tem três janelas grandes o suficiente para eu passar por uma delas. – Responde, irônico. Eu solto um risinho.
Ainda poupando o silêncio constrangedor, ouso a perguntar aquilo que estava me incomodando desde que ele apareceu.
– E porque está aqui?
Ele fica em silêncio por alguns minutos, cabisbaixo e, também, um tanto corado, coisa rara de se ver nele. Eu, por minha vez, ficava ainda mais curiosa a cada suspiro dele. O moreno se levanta de repente, fica de frente para mim e demonstra a sua expressão mais irreconhecível: Timidez. O que está havendo com ele?? Será que está doente?
Estende a mão para mim, como se estivesse oferecendo uma ajuda para levantar. Respira fundo e diz:
– Vim te levar pra sair. – Responde, depois fecha os olhos e sorri. – Me daria a honra?
Arregalo os olhos, surpresa. Pelo que eu lembre, da primeira vez que ele me chamou pra sair, me arrastou forçadamente com ele. De onde veio toda essa formalidade agora? O encaro meio torto, fazendo-o suar. Dava para ver nitidamente que ele estava nervoso. Será que alguma coisa aconteceu nessas últimas semanas pra ele ficar desse jeito?
Dou de ombros e sorrio, fazendo-o sorrir mais ainda. Ah, como eu senti falta desse sorriso. Segurei sua mão e levantei, ficando a alguns centímetros de distância de seu rosto. Ambos coramos um pouco.
– Então você é cavalheiro agora?
– Queira me perdoar, mocinha que assiste My Little Pony, mas sempre me considerei um cavalheiro de alta classe. – Responde, me fazendo rir.
– Então, cavalheiro de alta classe, aonde você pretende me levar?
– Verá quando chegarmos lá. – Esse ar misterioso... Ah, como eu senti falta disso também. E assim iniciei a lista das coisas que me fizeram falta em apenas duas semanas.
Desligo a TV e seguimos para a sala, deixo um bilhete dizendo “Fui dar uma volta”, caso minha família chegasse e reparassem minha ausência. Fomos até a porta e saímos de casa, por minha sorte, nenhum fogo-de-artifício ainda foi soltado.
Dou meu primeiro passo, mas sou parada pela mão do moreno envolta de meu pulso, me puxando para mais perto dele, fazendo-me apreciar o toque secretamente.
– Hoje nós vamos andando. – Ele convida num ar misterioso.
Raciocinando o que acabara de dizer, percebo que seu carro, nem tão pouco sua moto roubada estavam ali por perto. Estranho... Ele sempre gostou de exibir suas máquinas por aí.
– Sabe... Por mais que não tenha nenhum veículo, nós ainda podemos voar. – Comento, irônica.
– Eu sei, mas hoje eu gostaria de andar... – Responde distante, num ar mais misterioso ainda.
– Mas... Por que isso agora? – Indago, confusa com o ato do maior.
– Digamos que está... Uma noite muito... Apreciável. – Ele falava pausadamente, como se tentasse escolher as palavras certas. – E andar faz bem, conversamos mais, temos mais atitudes de pessoas saudáveis, sabe? Talvez o lugar aonde vamos não fique nem a duas quadras daqui.
Agora é oficial. Tem algo de errado com ele. Alguém como ele jamais saberia o significado da palavra “apreciável” a menos que tenha decorado por acaso pela internet, tão pouco colocá-la numa frase. Me aproximo dele, seguindo seus passos na mesma velocidade que o moreno, fitando-o nos olhos sem desviar por um segundo.
– E desde quando você se importa? – Pergunto, ainda muito desconfiada. Agora minha desconfiança parecia muito mais provocativa do que qualquer outra coisa, até mesmo para mim.
Butch tornara-se um desafio, um enigma o qual me dispus a tentar desvendar, de tal modo que deixei um sorriso escapar do canto de meus lábios, fazendo-o perceber o pequeno joguinho e querer justificar-se como inocente.
– Apenas... Eu... – Ele falava, rindo também, cativado pelo meu riso provocador. – Eu acho carros muito poluentes para o meio ambiente. – Agora ele fala tentando parecer sério, o que me fez arregalar os olhos de ponta a ponta das pálpebras. – Devemos contribuir para a diminuição da emissão de gases to-... – Tenta justificar enquanto é bruscamente interrompido por minha gargalhada alta, que provavelmente foi escutada por todo o quarteirão.
– HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!! BUTCH FALANDO DE MEIO AMBIENTE... HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!!! – Me jogo para trás, segurando minha barriga com as mãos, debatendo meus pés para tentar conter a risada, mas era impossível.
Continuei rindo até vê-lo ainda com aquela expressão séria, com uma sobrancelha mais levantada que a outra. De certo modo, ele parecia envergonhado. Consegui me conter, levantei-me novamente e respirei fundo, evitando rir ainda mais.
– Me diga, cavalheiro de alta classe, de onde você tirou isso? – Pergunto, ainda tomando a posse de provocadora da noite. – E desde quando você se importa com o meio ambiente?
Ele suspira e nada responde, deixando tudo no silêncio. Será... Que eu fui brusca demais com ele? Não me importei a pensar mais nisso, e continuei seguindo-o, em meio daquele grande céu bordado com as mais belas estrelas. A brisa denunciava a chegada iminente de um entardecer com temperatura agradável... Perfeito para estar ao lado de quem gosta.
O ar úmido e pesado realmente era bastante agradável. Andava sentindo aquela leve brisa fria de uma noite a qual prometia chuva. O tempo estava adorável, uma vez que nunca aprovei calor excessivo, e preferia dias nublados a dias ensolarados, eles simplesmente parecem mais aconchegantes e convidativos.
A felicidade é totalmente rotulada.
Esta era a frase pichada em um muro velho da cidade, provavelmente por algum delinquente juvenil, ignorada por maioria dos elementos que passavam por ali. Porém era algo que fazia refletir. E simplesmente adoro quando tenho esse tipo de reflexão em minha mente.
No pensamento das pessoas, ao se falar em felicidade, praticamente todos visualizam uma imagem de um dia ensolarado, com crianças correndo em um parque com a grama verde, e pais felizes sentados em uma toalha de piquenique os assistindo de longe.
A felicidade tem concepções diferentes para todas as pessoas, cada um tem seu próprio jeito de sentir-se feliz, e as pessoas tentam vender felicidade como se fosse um tipo de produto, em troca de dinheiro, felicidade falsa, passageira.
“O que te faz feliz?”
Ouço uma voz dizer em minha mente, e de repente, sentiu-me confusa, sem ter uma resposta exata. Todos já nos sentimos assim, pelo menos alguma vez na vida. Na vida de todos, sempre houve aquela uma pergunta que te deixava confuso, sem ter uma resposta exata, e você tem aquela vontade de dizer simplesmente “sei lá” por preguiça de pensar em todas as pequenas coisas do seu dia-a-dia que compõe a sua felicidade, e muitas delas são despercebidas por nós... Ou só reparamos sua falta quando ela se vai.
Refletindo sobre tudo isso, meu olhar pousa no garoto dos cabelos negros, cujo caminhava despreocupado, com uma expressão que parecia, assim como eu, estar apreciando o tempo agradável.
Aquele tempo me fazia feliz, minha casa me fazia feliz, meus confortos me faziam feliz... Até mesmo a sua companhia de hoje à noite me fazia excepcionalmente feliz.
Um dos meus medos estava ali, tornando-se realidade... Butch me dava uma felicidade peculiar jamais sentida antes, como se o Desordeiro fosse uma fonte dessa riqueza tão procurada por muitos, a qual veio até mim sem o mesmo pedir por nada. Talvez isso fosse sorte, talvez não eu devesse mais fugir de meu destino, como a tartaruga velha na televisão dissera. Talvez... Talvez chegara a hora de eu simplesmente deixar levar... Simplesmente deixar bem claro meus sentimentos por ele... Simplesmente... Simplesmente fazer com que aquele “eu te amo” tenha algum significado.
Pensando assim, me aproximo mais dele, envolvendo minhas mãos em seu braço forte, encostando minha cabeça em seu ombro largo enquanto andávamos. Não pude conter um sorriso em meu rosto, enquanto ele mesmo entregou seu nervosismo pelo rubor de suas bochechas.
– Eu gosto do tempo assim. – Ele disse, tentando quebrar o silêncio constrangedor.
– Eu também, muito mais agradável do que o sol ardente. – Concordei.
Butch apanha um cigarro em seu bolso e o acende com um toque em seu isqueiro de prata, protegendo o fogo de ser apagado pela brisa fria, guardando-o logo em seguida para dar uma tragada e soltar toda aquela fumaça branca pela boca.
Costumava odiar aquilo no moreno, achava que fumar era um hábito autodestrutivo totalmente estúpido e não entendia o motivo das pessoas fumarem, como se elas quisessem destruir a si mesmas.
– Pregando o próprio caixão desde já, cavalheiro de alta classe? – Pergunta, curiosa para saber o que ele responderia.
– Ah, é. Haha. – Ele riu, ironizado. – Esqueci que você detesta isso. – falou isso sem se preocupar em parar de fumar. – Logo, logo ele acaba, não se preocupe. – Terminou a frase dando uma piscadinha para mim, o que me surpreendeu.
– Isso é um modo de suicídio, um mais lento, mas ainda sim é um modo, você sabe que ele vai te matar, mas você não para, simplesmente não quer parar. – Refleti comigo mesma, compartilhando com ele.
Ele olha para o próprio cigarro, um tanto confuso. Parecia estar refletindo sobre o que eu falei, mas não estava disposto a parar de fumar por causa de minha filosofia repentina.
Nos damos de cara com uma mine-lanchonete, provavelmente a única aberta em Townsville, afinal, todos estavam comemorando o dia em que o país se tornou um país. Butch me leva até a lanchonete em que eu nunca sequer ouvi falar, mas não estranhei por causa disso, e sim porque não esperava que o lugar tão misterioso a qual ele queria me levar fosse... Aqui.
– Então... Era esse lugar que você queria me mostrar? – Pergunto, indiferente.
– Na verdade não. – Responde, me dando um certo alívio, afinal, eu estava esperando muito mais. – Mas tô morrendo de fome.
Entrando lá, pedimos dois sanduíches e uma porção gigantesca de batatas-fritas. O lugar estava vazio, afinal, as pessoas já estavam com outras ocupações para hoje. Mas do jeito atencioso a qual a garçonete nos atendeu, parece que nem mesmo quando as pessoas não tem outras ocupações, vem aqui.
Ficando de frente um para o outro, naquele lugar onde nunca estive antes, brotou-se um clima um tanto... Constrangedor. Arrisquei em cortar o silêncio dessa vez.
– É sempre bom vir a lugares diferentes. – Disse em bom humor, enquanto Butch me escutava com atenção. Coisa que ele não costumava fazer com ninguém.
Não costumava ficar completamente distraído também, ou focado em um único objeto, seus instintos geralmente foram aguçados para analisar o local como um todo.
– É sempre bom provar de novas sensações. – Ele replicou enquanto puxava a cadeira para sentar-se mais próximo daquela mesa reservada para dois.
– Esse dilema tem me feito balançar muitas coisas em minha vida, ultimamente. – Respondo irônica.
– Ouvi dizer que, quando se é jovem, não se deve pensar muito nas coisas – Butch falou, com um ar mais sério que o normal. Minhas sobrancelhas se levantam, entregando minha surpresa.
– E quem te disse isso? A tartaruga velha ou o guaxinim naquele desenho para crianças que estava passando agora a pouco na TV? – Indaguei. Provocá-lo estava se tornando mais um de meus passatempos.
– Quem é você pra falar de desenhos, mocinha que assiste My Little Pony? – Ele ironiza, fazendo-me rir. Eu não sabia que o que ele estava prestes a dizer me surpreenderia tanto. – Respondendo sua pergunta, eu... Eu li em um livro.
Mais uma vez sendo pega de surpresa, agradeço a Deus por não estar bebendo nada naquela hora, pois cuspiria tudo na cara dele.
– VOCÊ O QUE?? – Pergunto histericamente, desabando-me em risos forçados logo após – Você? Lendo?
– Sim, eu lendo... Disseram que não combina comigo.
– Ler? Sim, não combina mesmo... – Concordei em disparada, ainda com seu tom chacoteador fluindo.
– Tanto ler como pensar demais sobre esse tipo de assunto... Veja, eu sempre detestei literatura e filosofia, porém, coisas acontecem em minha vida que me deixam muito confuso, logo lembrei de um dia em que eu ouvi que nos livros havia a resposta para a maioria das perguntas, então me enchi de esperanças que houvesse uma resposta para a minha.
– E qual era a pergunta? — Indaguei, curiosa e com certa aflição.
– Eu nunca soube ao exato, mas neste livro dizia que quando os homens envelhecem, tornam-se fantoches dos fantasmas das paixões passadas e dos arrependimentos.
– Isso faz sentido. – Concordei, fitando o enfeite localizado ao meio da mesa, como se viajasse e refletisse enquanto escutava as que pareciam ser as primeiras palavras sábias do moreno.
–Logo minha dúvida se concretizou: O que posso fazer para não ser um desses velhos babacas e reclamões? – Ele disse, fazendo-me rir um pouco. – Logo uma duquesa velha e rabugenta perguntou à um sábio lorde “o que devo fazer para não ser este fantoche?” – interpretou o moreno, fazendo-me sorrir e mal acreditar que estava vendo a cena á minha frente. Butch refletindo sobre pensamentos de um livro... Essa é boa.
– E qual foi a resposta, senhor literatura? – Pergunto, zombando amigavelmente.
– Ele disse a ela que ela deveria repetir todas as loucuras de sua juventude... – Ele fez uma pausa, como se jogasse a ideia no ar e logo a capturasse outra vez para remoê-la. – Disse que a juventude é uma joia rara que não deve ser desperdiçada de maneira alguma, e que deve ser vivida sem arrependimento algum, que é a época de provar de todas as novas sensações possíveis... Odiar e amar intensamente, pois ela dura pouco e passa pela nossa vida apenas uma única vez.
– Isso é... Incrível. – O encarava, pensativa... Até esqueci de perguntar qual livro é este, adoraria lê-lo, parecia que ele obtinha as respostas que eu também havia procurando intensamente nestes últimos meses – Então agora o senhor virou “Cult”?
– Não. – Respondeu em meio de risos, quebrando o clima “Cult” e voltando para sua natureza normal. – Ainda sou aquele brutamonte burro que você julgou em um cassino, um hotel, um shopping e em vários outros momentos. Eu apenas parei para tentar buscar algumas respostas.
– Eu falo de você, mas... Eu também nunca fui muito chegada a livros. Nunca fui culta e inteligente, me esforço nas matérias da escola por querer chamar atenção do Professor, então é só um costume... Alguns livros realmente, tem coisas muito interessantes a dizer, queria ter o costume de ler mais frequentemente.
– Até eu mesmo acabei gostando. – Butch revelou.
– Imagino você roubando um banco enquanto lê Shakespeare. – Ironizo novamente, rindo demasiadamente logo após. Butch fora contagiado pelo riso e admitiu a graça nessa cena bizarra imaginada na minha cabeça.
– “Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com freqüência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar.” – O moreno pronunciou, de modo repentino, o olhei, espantada, com os olhos esbugalhados. Ele logo percebe minha surpresa e suspira. -... Sim... Eu andei lendo Shakespeare... Não roubando um banco, mas li.
Logo ambos caímos em um riso profundo e gostoso, sem sabermos ao certo o motivo.
– Você lendo... – Balbuciei entre risadas. – Não consigo nem imaginar.
– Nem eu... Mas isso me parou para refletir por horas, sabe? Arriscar é o segredo de tudo.
– Odeio afirmar isso, mas... Você tem razão.
– Ainda não trouxeram nosso pedido? Terei que usar de punhos ou sorrisos? – Butch brinca, rindo junto comigo.
– Nesse caso, sorrisos, Butch... Violência é repudiada pela maioria das sociedades.
Antes que pudéssemos reclamar mais, a garçonete atrapalhada, carregando com o máximo de cuidado possível para não deixar cair o nosso lanche. Deixou tudo na mesa, logo desculpou-se pela demora e voltou para dentro.
Butch a encarou por alguns instantes, o que me deixou bastante irritada, mas logo sua atenção voltou para mim novamente.
– Como se pode apreciar a diferença entre batatas fritas industrializadas e refrigerante? – Indaga em tom de crítica.
– Ouvi dizer que eles mesmos fabricam tudo o que servem aqui, desde os legumes até, eventualmente, as batatinhas. – Responde, sem preocupação.
– Você não tem jeito mesmo. – Desaprovo-o.
– Já estou acostumado com suas críticas, menina-macho.
– Brutamontes.
– Marrentinha.
– Aspirante a Cult.
Uma pequena pausa tomou a troca de elogios de ambos para um sorrir para o outro de modo simpático e um tanto... Romântico?
Butch debruçou-se sobre a mesa praticamente vazia, talvez com o objetivo não apenas de descansar os braços, mas sim de aproximar ainda mais seu rosto á minha face, que agora encontrava-se bastante ruborizada.
A minha respiração ficou mais pesada, comecei a sentir meus batimentos cardíacos aumentarem de ritmo repentinamente. Logo senti uma carga elétrica percorrendo em meu corpo, em frações de segundo. Odiava e amava aquele sentimento ao mesmo tempo, todavia, nunca havia o sentido em tamanha intensidade como antes.
Butch era diferente, todo beijo ou toda simples aproximação de rostos parecia a primeira, causava o mesmo nervosismo da primeira, e como a primeira, o fazia se apaixonar cada vez mais.
Tudo era como se fosse pela primeira vez.
Ambos não sabíamos como agir. O moreno então se afastou e encostou suas costas no encosto do estofado confortável da cadeira, talvez feliz com a reação que tinha causado.
O amaldiçoei. Eu realmente amo esse desgraçado...
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Pagamos a conta e fomos embora, reforcei a segurá-lo em seu braço forte, e seguimos para o misterioso local a qual ele insistia tanto em me levar. A conversa entre nós dois fluía como música doce em mãos de músicos talentosos inspirados. Conversávamos sobre tudo e todos, riamos e gargalhávamos, trocávamos insultos, porém, ambos sequer acreditávamos que estávamos apreciando tanto a companhia um do outro. Como as coisas mudam...
– Eu não acredito que ainda estou aqui – Ri, caminhando pela fria rua de Townsville, onde podia se ouvir nitidamente a música do hino nacional vindo do centro que comemorava animadamente a data mais importante do nosso país.
– Por quê? Eu me esforço para ser uma boa companhia e é assim que você agradece? – Butch fingiu indignação de modo sarcástico.
– Porque eu te achava um babaca, e agora estou aqui, te achando até mais culto do que eu. – Admiti. – Até que você não é lá tão babaca.
– Pare um pouco... Escute. – Ele fez uma expressão séria, como se tentasse captar algum som baixo no ar.
– O que? O hino nacional? Sim, posso ouvir muito bem.
– Não, não é do hino que estou falando. – Ele responde, me olhando nos olhos. – São os ensinamentos da vida sussurrando “nunca julgue pelas aparências”. – Ele concluiu, fazendo-me ter vontade de acertá-lo com um soco.
– E eu pensando que fosse coisa séria...
– Mas é sério. – Ele afirma. – Tire lições de suas experiências, até mesmo das fracassadas.
– Estou tirando muitas desde que você reapareceu na minha vida.
– Ah, é mesmo? – Butch lançou um olhar desafiador.
– Sim, coisas como “Nunca deixe um babaca aspirante a cult te stalkear em Las Vegas.”, ou “Nunca cuide dos ferimentos de um babaca aspirante a cult causados pelo irmão psicopata dele.”, ou também “Nunca dê carona para um babaca aspirante a cult e os irmãos do babaca aspirante a cult quando se estão bêbados.”
Ambos nos pusemos a rir deliciosamente.
– Mas é sério – Continuei, recuperando o fôlego. – Aprendi nestes últimos meses que... Jamais devo descartar nenhuma possibilidade na vida... Tudo é possível, tudo mesmo! – Concluo, deixando certa seriedade pairar sobre o ar.
Essa seriedade o contagiou mais do que deveria. Olho para Butch, ele fitava o chão com o sorriso desmanchado, parecia estar refletindo coisas consigo mesmo. Por mais que eu quisesse, não poderia cortar o silêncio agora. Talvez seja melhor deixa-lo falar.
Ele respira fundo, ainda sem olhar para mim, embora quisesse.
– Até mesmo... – O moreno murmurou, baixando o olhar mais ainda, como se pensasse com cuidado o que ia falar, com medo da resposta que podia obter.
– Até mesmo? – Pedi uma continuação.
– Até mesmo a possibilidade de você... – Fez mais uma pausa misteriosa com a expressão mais serena de todas, com certa ansiedade no olhar. De certa forma, aquilo me preocupava. – De você... Amar alguém como eu?
Ele me pega desprevenida, nós paramos de andar e ficamos no silêncio. Butch evitava olhar para mim, ainda com os olhos cabisbaixos, enquanto eu, olhava para o céu, procurando uma ajuda, uma luz, qualquer coisa que me dissesse o que fazer. Meu rosto estava quente embora o ar frio batesse em minha face. Ele não parecia querer uma resposta, apesar de eu estar me segurando com todas as forças para dizer “sim”.
Butch estava tão confuso quanto eu, parecia implorar para que eu dissesse “não”, apesar de saber que a resposta seria “sim”. Ele é bem fácil de ser narrado. Dava para ver nitidamente o que ele estava sentindo naquele momento.
E eu... Bem, o que eu poderia dizer? Não importa qual fosse a resposta, só pioraria as coisas.
Olhei-o no fundo dos olhos, e ali vi algo que nunca imaginei ver em minha vida: Butch estava a ponto de chorar como se nem se lembrasse que eu estava ali. Após tanto tempo o conhecendo já vi de tudo: ataques de perversão, gargalhadas histéricas, olhares provocantes, movimentos sensuais com os lábios, mas lágrimas... Oh, lágrimas são algo completamente incomum para ele.
Ele aperta suas mãos com força, se afasta bruscamente de mim enquanto ainda não me olhava. Por um instante, pensei que tinha visto uma lágrima solitária escorrer pelo rosto dele. Subitamente, me aproximo dele mais uma vez, ponho a mão em seu ombro como uma maneira de consolo. Eu não sabia o que estava se passando pela cabeça dele, mas pelo seu olhar, pude ver que ele se sentia solitário, distante, e um tanto... Culpado?
Ele retira minha mão de seu ombro e segue em frente, me deixando para trás.
– Eu acho melhor você ir embora... – Ele diz, enquanto continuava caminhando.
– O que?? – Indago, surpresa. – Mas... Nós ainda nem chegamos aonde você...
– Já disse pra você ir embora!! – Sua resposta, curta e grossa, me fez dar um pulo para trás. Eu nunca imaginei que chegaria uma hora em que ele fosse realmente bruto comigo.
Ele saiu voando pelo céu, agora enfestado por fogos-de-artifício de cor azul, vermelho e branco. E me deixou ali, sozinha, confusa e sedenta por uma explicação de toda aquela loucura. Algum surto deve ter acontecido na mente dele para ele estragar o passeio e, ainda por cima, me dar um fora daqueles.
Sem pensar duas vezes, dou as costas e sigo meu caminho de volta para casa, e é claro, se eu já estava confusa antes dele aparecer, quem dirá agora, que ele passou a demonstrar seu lado obscuro sem mais nem menos. Havia alguma coisa ali que ele não havia me contado, alguma coisa que gerou aquele olhar triste incomum para ele. Alguma coisa... Alguma que, na minha intuição, envolve aquele “eu te amo” dito há duas semanas atrás.
Cortando todo o meu raciocínio relacionado à mudança comportamental repentina de Butch, sinto algo vibrar em meu bolso, era meu celular, avisando a chegada de uma nova mensagem. Como minhas mensagens não tem sido as mais comuns, corro para pegá-lo e cortar o suspense. Desta vez o anônimo mandara uma mensagem diferente das outras, porém muito mais satisfatória do que aquelas outras que me mandavam ficar longe de um certo alguém. Parece que agora, finalmente obterei uma resposta para as minhas perguntas.
“Me encontre nas ruínas de Townsville amanhã à tarde.
– Anônimo”
Continua...
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