Playing With Fire
33 A peça que faltava
Notas iniciais
4 anos depois...
– Senhores passageiros com destino à Townsville, dirijam-se ao portão de embarque.
Me levantei no exato momento que ouvi a voz irritante de aeromoça no alto-falante e fui até meu destino, entreguei meu passaporte e fui a primeira a entrar no avião, buscando o meu assento com uma certa ansiedade. Sentei-me ao lado da janela, era impossível pra mim viajar de avião sem ter a vista das nuvens, uma senhorinha sentou do meu lado e em poucos segundos ela já estava cochilando. Após uns trinta minutos, o avião decolou, e tive a vista perfeita de Nova Jersey abaixo de mim. Não durou muito para eu começar a viajar em meus pensamentos enquanto admirava as nuvens.
Suspiro, aliviada. Já não aguentava mais um minuto sentada naquele aeroporto, na verdade, não aguentava mais um minuto em Nova Jersey, queria ir pra casa. A melhor parte de estar de férias era voltar pra Townsville, e agora eu teria dois longos meses para matar a saudade da minha cidade querida.
A faculdade definitivamente não é o que os jovens pensam, todos querem sair o mais rápido possível da escola para cursarem uma faculdade, achando que assim a vida deles será mais fácil. Há! Tenho pena de quem pensa assim. Eu pensava assim até ter minha primeira aula de planejamento técnico e tático de futebol. Sim, eu decidi me tornar uma jogadora profissional, e estou me saindo muito bem nessa área.
Há três anos atrás recebi minha carta de aceitação na faculdade de esportes de Nova Jersey, já devem imaginar o grande passo que foi na minha vida. Deixar a minha família, a cidade, meus amigos. Tudo era muito novo aqui em Nova Jersey, principalmente a ideia de estar sozinha, estudando e treinando todos os dias. Mas me acostumei rápido, fiz amizades de cara, me adaptei a nova cidade e mudei bastante em vários sentidos. Fiquei mais alta, mais morena, até deixei meu cabelo crescer até a cintura. Aqui conheci pessoas incríveis, e amadureci bastante desde então.
Tudo estava bem... Mas eu sei o que vocês realmente querem saber.
Antes de ir para Nova Jersey, não houve uma semana em que eu não o visitei. Sempre que podia, dava minhas escapadas para o hospital e ficava lá, sentada a seu lado, conversando com ele sobre como as coisas estavam, a falta que ele fazia, o quanto era torturante ver ele daquele jeito sem abrir os olhos. É claro que eu tentava ao máximo manter os assuntos não-depressivos, mas algumas vezes era impossível.
Os médicos cuidavam bem dele, mas a resposta era sempre a mesma, a previsão do despertar dele era nula. Com o tempo, comecei a encarar a situação com mais tranquilidade, afinal, o que se poderia fazer? Ele fazia falta, e muita, não houve uma noite a qual não rezei por sua volta. Mas não podia deixar minha vida parar por algo tão incerto.
Tive uns rolos com uns caras legais na faculdade, mas nada sério, nada deu muito certo. Onde quer que eu vá, sempre acabo fazendo mais amigos homens que amigas mulheres, e digamos que alguns deles acabaram querendo algo mais que amizade comigo. Três deles, para ser mais precisa.
Um foi Mike, ele estava no campus de basquete, nos conhecemos no meu primeiro ano na faculdade. Acabamos nos interessando um pelo outro, mas por alguma razão, eu não quis nada mais sério com ele, sei lá, eu não via nenhum futuro com ele, éramos muito diferentes. Outro foi o Josh, também o conheci no meu primeiro ano em Nova Jersey, mas não na faculdade, e sim numa festa. Ficamos bem amigos, e eu meio que notei que ele estava gostando de mim. Depois de um ano tentando me conquistar, eu resolvi dar uma chance, mas não durou nem seis meses. Ele era muito grudento, ciumento, não gostava nem quando eu recebia cartas de amigos. O que eu fiz? Chutei a bunda dele. O terceiro, e mais recente, foi o Owen. Esse sim é um cara legal, nos conhecemos numa lanchonete quando eu ainda namorava o Josh, aos poucos nos tornamos quase melhores amigos, eu digo quase porque o nosso envolvimento acabou estragando a nossa amizade. Eu simplesmente não me sentia a vontade namorando ele, não me sentia dele, e quando eu decidi terminar ele ficou muito triste, e me doeu muito vê-lo daquele jeito. Ainda bem que com o tempo as coisas se acalmaram.
Depois desses três casos, não me envolvi com mais ninguém, não por falta de opções, mas por simplesmente não querer. Owen e eu conversamos sobre esse meu espírito que não quer se prender a mais ninguém, e ele me disse algo que nunca vou esquecer: “Por mais que você esteja aqui, seu coração está em outro lugar, pertence a outro alguém, e você sabe disso, né?”.
Quando ele disse isso, me veio o grande impasse: Será mesmo que todos os meios que usei para evitar um relacionamento foi pelo fato de meu coração ainda não ter esquecido o Butch? Eis a maldita questão que vem me assombrando faz alguns meses. Por mais que eu evitasse esses pensamentos e negasse sentir um amor tão grande por alguém que talvez nunca irá acordar, era impossível. Era impossível esquecer tudo o que vivemos, tudo o que enfrentamos, e por mais sofrido que fosse aceitar, eu ainda o amava.
Era o que meu coração não queria escutar por medo de continuar sofrendo sozinha. Mas quem diria que eu aprenderia que estar sozinha era melhor do que forçar algo com alguém que não amo?
Bem... Depois disso, basicamente dei um belo resumo do que aconteceu comigo nesses últimos quatro anos. Já haviam passado 40 minutos no avião e eu ainda estava falando apenas de mim, que vergonha. Não tenho tanto pra contar, muito continuou o mesmo. Deixe-me ver por onde começar... Já sei, vou começar pela minha família!
O Professor e a Srta. Bellum estão numa alegria imensa, maior que isso é impossível. Eles e minhas irmãs sempre me mandam cartas ou mensagens por e-mail, as quais sempre respondo de muito bom grado. Antes que perguntem, não, eles não tiveram filhos ainda, e acho que não terão. Eles estão um pouco velhos para cuidar de crianças, cada um tem seu trabalho, os quais são bem pesados, e não teriam tempo para cuidar de filhos. Mas se por acaso eles tiverem a ideia maluca de colocar mais um humano no mundo, ou se eles acabarem se descuidando, vou apoiar com muita alegria a chegada de um novo irmãozinho.
A Blossom também está bem, seu futuro está garantido no curso de medicina que passou na universidade de Harvard. Nem humilha, né? Blossom é mesmo um gênio, e sempre dedicou sua vida para ajudar as pessoas, sem dúvida se tornará uma médica espetacular. Ela também está de férias, e provavelmente chegou em Townsville antes de mim, estou louca para apertar as bochechas rosadas daquela chata.
Bubbles foi a única que não saiu de Townsville, passou num curso de veterinária ali mesmo na faculdade da cidade. Ainda está morando com o Professor e a Srta. Bellum, imagino como tem sido suas noites solitárias no nosso quarto, que agora era inteiramente seu. Se bem que... Ela tinha Boomer para fazer companhia pra ela quando ela se sentisse só, se é que vocês me entendem. Sim meus amigos, acreditem se quiser, Bubbles e Boomer estão namorando há dois anos.
Quem diria, não? Mais uma vez uma Super-Poderosa caiu no charme de um Desordeiro, mas a maneira que eles começaram a se envolver fora muito mais intensa do que imaginam. Por causa de todo aquele escândalo que foi a perda de seus dois irmãos, Boomer estava extremamente abatido, nada consolava aquele coitado. Ele desapareceu por um ano inteirinho da cidade, que aliás foi no meu último ano de escola, e reapareceu quando eu e Blossom já estávamos em nossas respectivas faculdades. Eu fiquei sabendo de tudo o que aconteceu entre os dois por Bubbles, ela me disse que o encontrou numa festa onde ele estava fazendo um show como vocalista, e parece que agora ele é cantor. Ela foi falar com ele e daí eles começaram a se aproximar, a sair, até começarem a se envolver “até demais”. Ficaram um tempo nessa de não-compromisso, até que começaram a desenvolver sentimentos mais profundos um pelo outro, mas Boomer não deixou de ser um tarado descompromissado que nunca assumiu um relacionamento na vida. Depois de um tempo meio conturbado, parece que ela conseguiu enfim dar um jeito naquele rapaz e o colocou na linha, e daqui a cinco meses completam três anos juntos. E o mais incrível de citar é que Boomer foi o primeiro cara com quem Bubbles teve um relacionamento que deu certo, bonitinho não? É pessoal, o mundo dá mesmo voltas.
Ah, mas de maneira nenhuma vou esquecer de um ocorrido da última vez que estive visitando Townsville. Era madrugada e eu estava indo buscar um copo d’água, enquanto descia as escadas, fui escutando uns barulhos bem... “Estranhos” vindos da sala. Já tendo uma ideia do que estava acontecendo, não tive coragem de olhar, mas o som dos gemidos dos dois loiros era totalmente nítido, e eles estavam bem animados pra três horas da manhã. Nada contra pessoas transando, mas é minha irmã cara, foi bizarro. Enfim, traumas a parte. Contei porque querendo ou não é engraçado.
Basicamente é isso o que tenho a dizer sobre a família, não tenho muito a dizer sobre os amigos, mas eu sei que vocês querem saber como estão os carinhas de pele verde. Indo por partes, depois de toda aquela confusão, eu comecei a sair mais com os Gangrena, voltamos a ser grandes amigos e continuamos mantendo contato quando entrei pra faculdade, inclusive temos planos de diversão para essas férias. E uma coisa fantástica: eles agora estão nos ajudando a proteger Tonwsville. Depois da luta contra Brick, eles pediram para o Professor tirar seus poderes, mas como eu e Blossom tivemos que ir para cidades distintas, ficou difícil para Bubbles cuidar de tudo sozinha. Então eles se ofereceram a ajudar, e como haviam se tornado de confiança, passaram de uma grande ameaça para super-heróis. Com isso, sem contar que eles deixaram de ser vagabundos e arrumaram um emprego, podemos dizer que os Gangrena subiram na vida.
Não vão ficar surpresos em saber que Ace tentou voltar o namoro. Eu disse que não. Eu amo Ace, ele é um dos melhores amigos que já tive, mas definitivamente não vejo nenhum futuro com ele, sem contar que ele escolheu uma péssima época pra tentar voltar. Foi na época que eu ainda não conseguia aceitar a condição de Butch, nisso Ace foi um tanto burro. Mas ele não ficou chateado com o meu não, ele levou numa boa e até já esperava tal resposta, fico feliz que tudo tenha ficado bem.
E... É isso. Tudo estava bem, enfim, acho que as coisas estavam se encaixando, embora faltasse uma peça. E que fundamental era essa peça.
Meus pensamentos são cortados pela voz da aeromoça, que anuncia o pouso em Townsville que aconteceria em dez minutos. Olho para a janela, e vejo minha amada cidade abaixo de mim. Um suspiro breve enriquece minha alma de harmonia e felicidade por estar em casa.
Lar doce lar...
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A recepção foi mais que calorosa. Assim que atravessei o portão de desembarque com as malas em minhas mãos, duas faíscas, azul e cor-de-rosa, voam rapidamente em minha direção para me abraçar, a surpresa fora tanta que caí no chão junto com minhas irmãs. Nos vendo pagando aquele mico, começamos a rir e nos levantamos, elas não pararam de me abraçar por um minuto. Logo atrás delas vieram o Professor e a Srta. Bellum, não deve ser nenhuma surpresa saber que o Professor começou a chorar no momento em que me viu, sempre dramático ao extremo, uma das coisas que mais amo nele.
Depois de um tempo falando da saudade e perguntando como havia sido a viajem, pegamos minhas malas e fomos em direção ao carro, e conversamos sobre minha vida em Nova Jersey dali até chegarmos em casa. O Professor estaciona o carro e abre a porta da frente, me dando passagem para entrar primeiro, acendo as luzes da casa e me deparo com uma pequena surpresa.
Havia uma mesa enfeitada com doces no meio da sala, havia um cartaz dizendo “Bem vinda de volta, Buttercup!” segurado por Boomer, que parecia bem feliz em me rever. Ao redor da mesa estavam a Gangue Gangrena, Amy e Harold. Todos eles gritaram a frase escrita no cartaz quando eu entrei, confesso que quase choro ao ver tudo aquilo feito só pra mim. Abracei a cada um com um carinho enorme, eu tava morrendo de saudade dessa galera.
Todos nós sentamos ao redor da mesa enquanto comíamos os doces, depois que dei uma explanada de tudo o que havia acontecido em Nova Jersey esse ano, Bubbles começou a fazer uma trança no meu cabelo, coisa que ela se acostumou a fazer desde que o deixei crescer.
– Nem dá pra acreditar que esse é seu cabelo. – Ela diz sorridente enquanto fazia uma trança de lado. – Seu cabelo sempre foi curtinho, é difícil me acostumar com esse cabelão. Tá quase do tamanho do da Blossom!
– Ah Bubbles, não exagera. – Amy replica. – O cabelo da Blossom é uma coisa impossível de se ultrapassar.
– Vou encarar isso como um elogio, Amy. Obrigada. – Responde a ruiva sorrindo, ela trazia consigo mais doces para nós.
O Professor e a Srta. Bellum estavam na cozinha, enquanto nós estávamos na sala ao redor da mesa conversando. Blossom se sentou ao lado de seu namorado, segurando a mão dele com todo o carinho do mundo, e comecei a analisar aqueles dois. Já tinham nove anos de namoro, dá pra acreditar? E continuam que nem duas criancinhas apaixonadas, descobrindo o amor. O incrível era que tava estampado na testa deles que ainda eram virgens. Para jovens-adultos de 21 anos, isso com certeza era uma raridade, mas estamos falando de Blossom, esqueceram?
Bubbles também estava toda agarradinha no seu namorado, e sério, nunca vi o Boomer tão feliz em toda a minha vida. Parece que ele se deu bem ao deixar a vida de solteirão comedor de lado e ficar com minha irmãzinha, ele é um cara de sorte, e ele sabe disso. Caso não saiba e decida fazer merda, não vou pensar duas vezes antes de encher a cara dele de porrada.
E bem... Estou suspeitando que Bubbles e Boomer, e Blossom e Harold, não sejam os únicos casais presentes. Reparei a maneira que Amy e Ace estavam se olhando, os apresentei na minha época de escola ainda e ela começou a sair conosco, bem que os dois sempre foram muito parecidos, e agora que ela não estava mais namorando aquele Kyle, quem sabe?
Mas... Chega de falar de casais. Todos eles contaram como estavam suas vidas, e pelo visto todos estavam bem. Harold também estava fazendo faculdade de medicina em Harvard junto a Blossom, e os dois tiravam notas quase idênticas. Amy estava terminando seu curso de arquitetura aqui mesmo em Townsville, e os Gangrena, além de estarem salvando a cidade, começaram como faxineiros no restaurante mais chique de Townsville, e foram subindo, subindo, até conseguirem se tornar verdadeiros cozinheiros. Eles que haviam feito os doces, então posso garantir que eles tem um futuro promissor, que orgulho dos meus meninos.
Muito assunto foi jogado fora por horas, mas quando deu 19:30, todos precisavam ir embora. Quando os Gangrena saíram pela porta, pude ver Ace colocando o braço sobre o ombro de Amy, e ela envolvendo o seu sobre a cintura dele. Aquilo comprovou minha teoria de que os dois estavam tendo um caso, e um sorriso brotou no canto do meu rosto. Eles crescem tão rápido...
Harold saiu logo em seguida, me deu um abraço de despedida e beijou sua namorada antes de sair pela porta, ele veio com seu próprio carro, e cara, que carrão. Gente rica é foda mesmo, não? Ele deu uma última acenada para a família e foi embora.
Olhei para trás, olhando no rosto de cada um, e suspiro logo em seguida. Tô sentindo que serão férias ótimas! Todos estavam arrumando as coisas que ficaram bagunçadas, e eu fui ajudar, no momento em que eu iria ajudar Boomer a levantar a mesa, o telefone dele toca e, ao ver quem estava ligando, um sorriso gigante brota em seu rosto, o que me deixou bastante desconfiada. Deixa a mesa por minha conta e atende o telefone.
– Alô? – Ele diz, e escuto uma voz masculina do outro lado da linha. Ufa, por um segundo, achei que ele estava aprontando com algumazinha. No meio da conversa, seu sorriso se alarga ainda mais. – Eles acabaram de ir embora... Aham... Eu sei... Haha, calma aí cara. Eu sei que você tá ansioso, mas daqui a pouco nós-... Sim... – Cada pausa que ele fazia, escutava uma voz gutural vinda do telefone, decidi parar de bisbilhotar e levantei a mesa por mim mesma, colocando-a no lugar. – Sem problema, nos vemos depois.
Quando ele desligou o telefone, Bubbles veio em sua direção, agarrando o braço dele que colocava o celular no bolso.
– Era ele, amor? – Ela perguntou, olhando-o gentilmente nos olhos.
– Sim. – Ele responde, sorrindo para ela. – Ele já está impaciente... Você sabe como ele é.
– Sei sim. Sem contar que ele esperou meses por isso.
– Pois é... – Boomer suspira, colocando a mão livre na nuca. – Melhor irmos.
– Eu vou avisar o Professor. – Dizendo isso, ela lhe dá um selinho carinhoso e vai até a cozinha.
Caminho de braços cruzados em direção do loiro, que quando viu minha expressão, logo recuou.
– O que foi, Buttercup?
– Vocês estão esquisitos. – Digo num tom sarcástico, Boomer engole seco. – O que estão aprontando?
– Nada, nada! – Ele faz movimentos com as mãos enquanto parecia procurar o que dizer. – Err... Semana que vem é seu aniversário, né?
Paro pra pensar um pouco, e me lembro que ele estava certo. Caramba, eu já vou fazer 22 anos!
– É mesmo... Nem me lembrava disso.
– E é por isso que decidimos lhe dar o presente antecipadamente. – Diz o Professor logo atrás de mim, vejo que ele estava estendendo uma chave para mim, joga e eu pego. – Nem dá pra acreditar que minhas menininhas estão fazendo 22 anos... Eu fico tão emocionado...
– Professor, não envergonhe as meninas assim. – Diz a Srta. Bellum, enxugando as lágrimas de seu marido. – Blossom e Bubbles já receberam seus presentes, agora só falta você.
– Uma chave? Eu esperava um presente melhor. – Brinco, encarando-as em minha mão. – O que essa chave abre?
Minha mãe sorri.
– Saberá quando chegarmos lá.
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Saímos de casa e fomos de carro até uma avenida perto do centro da cidade, era um lugar bem agradável, sem muita barulheira. Paramos de frente a um prédio pequeno, porém bonito, e parecia bem aconchegante. Junto as peças do quebra-cabeça, e me dou conta de que aquele era meu presente. Viro para trás e olho para meus pais com um sorriso de orelha a orelha.
– Vocês estão falando sério? – Pergunto, animada como nunca.
– Apartamento 101, querida. – Diz Srta. Bellum, e naquele momento corro para abraça-los com o maior amor possível.
Eu sempre deixei bem claro meu sonho de ter meu próprio apartamento, ter o meu cantinho na minha cidade, e nem acreditava que eles tinham feito esse sacrifício por mim. Eles me deram mesmo um apartamento, não dá pra acreditar! O Professor sempre foi contra porque queria que morássemos com ele, mas agora eu tenho minha própria casa. Com certeza a Srta. Bellum deu um jeitinho nisso.
– Vocês são os melhores pais do mundo todo!
– Faríamos tudo por você, querida. – Diz o Professor, que já estava tendo que enxugar suas lágrimas novamente. Dou um grande beijo no rosto dos dois e ele põe a mão em meu ombro. – Vá ver como é por dentro. Tem uma surpresa te esperando.
Sem esperar mais um segundo, atravessei a portaria e comecei a subir as escadas, todos os cinco vieram lentamente atrás de mim. Como era no primeiro andar, não me dei o luxo de chamar um elevador, após uns vinte degraus eu já estava de frente para a porta do meu apartamento. Meu apartamento... Como é bom dizer isso!
Giro a chave na fechadura e abro bem de vagar, no fundo já estava me contendo pra não soltar um grito de alegria. O lugar era lindo, com espaço o suficiente para que eu pudesse me sentir a vontade. Os móveis já estavam todos no lugar, e do jeitinho que eu gosto. Já estava tudo arrumadinho me esperando.
Quando vejo eles entrarem no apartamento logo atrás de mim, me contenho pra não chorar na frente deles de tão feliz que eu estava.
– Você gostou, filha? – Perguntou o Professor.
– Tá brincando? Eu amei esse lugar! É incrível, maravilhoso, perfeito! Muito obrigada, Professor, obrigada mesmo!! – Falo isso com o maior sorriso do mundo, o abraço mais uma vez e encho seu rosto de beijos. Olho mais ao redor, analisando aquela linda sala, provavelmente a Blossom havia decorado, ela sabia bem meu gosto. – Aliás, bela surpresa! Já deixaram tudo arrumado pra mim, pensei que ainda teríamos que buscar minhas coisas lá em casa. Digo, casa do Professor.
Eles se entreolham, sem entender muito bem minha afirmação. Tombo a cabeça pro lado, meio confusa.
– Err, na verdade... – Começa Bubbles, tentando se explicar. – A surpre-
– Meu Deus... – Uma voz surge, interrompendo Bubbles. Nem tenho tempo de analisar a voz, pois ela volta a falar logo em seguida. – Seu cabelo... Está gigante!
Após alguns segundos, reconheço a voz.
... Não...
Viro meu rosto lentamente para trás, todos pararam para olhar para a figura que estava atrás de mim, e depois voltaram a me olhar, um tanto ansiosos. Naquele momento de confusão em minha mente, não conseguia pensar em mais nada que não fosse no dono da voz que ainda ecoava em minha cabeça.
... Não pode ser... Não pode...
Finalmente olho pra trás, e o que estava atrás de mim era tão inimaginável que é impossível descrever em palavras minha surpresa. A pessoa me olhava da cabeça aos pés, e quando me olhava nos olhos, dava para ver que estava tão nervosa quanto eu. Mas ao ver o moreno ali, acordado e de pé logo a minha frente, tive que me conter para não desmaiar ou soltar um grito. Porém meu cérebro e meu coração pareciam ter explodido em sincronia.
Definitivamente ficamos mais de dois minutos em silêncio, apenas olhando um para o outro sem dizer nada. Meus olhos arregalados demonstravam meu espanto, meu corpo trêmulo a minha ansiedade, e meu coração palpitando forte a minha tremenda e imensa felicidade. Embora feliz, não conseguia sorrir, nem falar, nem fazer nada.
Isso realmente está acontecendo?... Alguém pode, por favor, me dizer se isso é um sonho?...
– Nós vamos deixar os dois a sós. – Diz a Srta. Bellum, e logo em seguida escuto a porta fechar.
O silêncio continuou, a troca de olhares também. Não tinha a mínima ideia de como reagir, e estava distraída demais analisando a expressão dele, tão nervosa e confusa quanto a minha. Parecia que ambos estávamos esperando que o outro dissesse algo para cortar o silêncio, e sabe-se lá o que aconteceria depois.
Enquanto o analisava, não deixei de notar suas cicatrizes enfim desenfaixadas. Ele estava com marcas de queimadura pelos braços e pelo rosto, provavelmente haviam mais, mas suas roupas as cobriam. Uma das queimaduras atravessava seu olho direito, que por sinal estava cinza meio transparente, sem dúvida havia perdido a visão deste olho.
Eram tantas dúvidas na minha cabeça, e nenhuma palavra saia da minha boca, nem mesmo conseguia me mover para que eu corresse em sua direção e o abraçasse, segurasse sua mão, quem sabe até... Beijá-lo. Mas digo uma coisa: Apenas o fato dele estar ali, sem estar deitado naquela cama, olhando pra mim com os olhos bem abertos, já trazia lágrimas para meus olhos.
Butch põe a mão na nuca, suspira ao coçá-la.
– Nós... Vamos ficar em silêncio pra sempre? – Ele pergunta com um sorrisinho tímido no canto do rosto.
Impressionante, até nessas horas ele não deixa de ser debochado. Me recompus, respirei fundo para não fazer nenhuma loucura e me forcei a responde-lo.
– Eu... – Começo, mas naquele momento me dou conta de que não tinha a mínima ideia do que dizer. Eram tantas coisas pra falar, mas por onde começar? – Err... Eu... Você... Digo... Butch... – Gaguejo sem parar, não conseguia encontrar as palavras certas de maneira alguma. Mais uma vez respiro fundo. Um sorriso involuntário brota em meu rosto, tão grande que o contagiou. As lágrimas estavam se acumulando a cada segundo. – Então... Você voltou pra infernizar minha vida, né?
Ele se surpreende com minha resposta, e eu também. Ai, droga! Ele esteve quatro anos em coma e eu já vou cortando o clima assim? Bem gênia você, Buttercup. Logo ele começa a rir de minha resposta.
– É... É o que parece. – Ele diz, olha para o chão com o rosto vermelho. Olho em seus olhos e vejo que ele estava quase chorando também. – Droga cara, eu esperei seis meses por isso, mas... Não sei nem o que dizer... Por onde começar...
– Eu sinto o mesmo. – Complemento, rindo um pouco também.
E mais uma vez o silêncio reina, e a cada segundo a mais que passava com ele, mais sentia meu coração bater forte. Nunca ficamos tão tímidos, principalmente ele, que sempre fez questão de olhar em meus olhos, agora ambos só conseguíamos olhar para o chão. E quando havia uma troca de olhares, revirávamos de novo, eu fazia isso para não acabar chorando. Mas... Será que eu não devo mesmo chorar?
Ouço-o suspirar, e ele se aproxima um pouco de mim, meu rosto fica vermelho quase que imediatamente.
– Eu acordei há seis meses... – Começa a contar, um pouco sem jeito por eu manter os olhos nele. – No momento em que abri os olhos, jurei que tudo o que havia acontecido tinha sido apenas um sonho. Mas quando se acorda num hospital, e enxergando com apenas um olho, tudo se torna uma hipótese... Eu não conseguia me mover, nem falar, tive que esperar alguém chegar para ver que eu havia acordado. Foram péssimas horas, mas assim que viram meus olhos abertos, o tratamento começou. – Eu prestava atenção em cada palavra sua, sem retirar os olhos dos seus, que carregavam mais lágrimas que os meus. – Eu só consegui falar depois de uns treze dias, e levantar da cama, três semanas. Eu comecei a fazer vários tratamentos, tomar vários remédios, e só no terceiro mês acordado eu consegui sair da porcaria daquele hospital. Eu pensei que eu estava sem rumo, sem nenhuma casa pra ficar, mas... Assim que me liberaram da UTI, me mandaram para a casa de seus pais, e eles me acolheram e cuidaram de mim para a continuação do tratamento.
Meus lábios se abrem em um sorriso grande e involuntário, aquela realmente havia me pegado de surpresa, e por alguma razão, havia me deixado extremamente feliz. Minha família cuidou dele? Então... Ele esteve na minha casa por três meses, e eles não me contaram nada pra fazer essa surpresa pra mim? Eles não tem jeito mesmo...
Uma lágrima solitária escorre por meu rosto, mas eu imediatamente a enxugo, voltando minha atenção para o moreno.
– Quando a Blossom soube de tudo isso, veio imediatamente para Townsville. Parece que ela havia ganhado bastante experiência na faculdade, e garantiu que me acompanharia durante todo o resto do processo do tratamento. – Blossom cuidou de Butch? Agora eles apelaram, como que eu vou segurar o choro? Um sorrisinho sarcástico nasce no rosto dele. – Ela era uma enfermeira bem rígida, sempre me enchia o saco por causa dos remédios, mas no fim acabamos nos dando bem. O namorado gente boa dela também ajudava quando podia, e Boomer, que já havia virado um grude desde o momento em que eu acordei, também decidiu ajudar no processo. Em um mês e meio eu já estava conseguindo andar normalmente, apesar de eu ter tido que me acostumar com a falta de meus poderes. – Minhas sobrancelhas se juntam. Nossa... Tinha até me esquecido desse detalhe. E se até agora ele não tem poder nenhum, é porque o Professor não conseguiu desenvolver nada para restaurar os poderes dele. O sorriso dele se desmanchou, e ele começou a olhar para baixo. – Mas...
Ele fica em silêncio por um longo tempo, sem completar sua frase.
– Mas? – O induzo a falar, e ele suspira.
Vejo que uma lágrima escapa de seu olho ainda bom.
– Mas... Não houve um dia em que não pensei em você. – Mais lágrimas descem por seu rosto, e suas palavras me fazem chorar junto com ele. – Não houve... Não houve um minuto em que eu não continuei me culpando, e me questionando se você ainda me odiava depois de tudo o que fiz. Não houve um momento em que não me perguntei como você estava, com quem você estava andando, no que você estava pensando. – Quanto mais ele falava, mais chorávamos, e ele não conseguiu conter o soluço de seu choro mais. Ambos nos rendemos às lágrimas, mesmo para orgulhosos como nós, elas foram fortes demais dessa vez. – E não houve... Um segundo... Em que não me perguntei se você pensava em mim também... E se ainda me amava...
Voltamos a ficar em silêncio, as lágrimas pareciam responder por nós muito mais que as palavras.
Quatro anos... Dá pra acreditar? Ele perdeu quatro anos sonhando, enquanto eu vivi. Aprendi muito, vi muitas coisas, passei a entender coisas que antes para mim eram praticamente impossíveis de se interpretar. Agora lá estava eu, sem saber como responder a coisa mais simples do mundo. Amar é fácil, praticar o amor é a parte difícil. E o amor que sinto por Butch, o amor que cultivei por tanto tempo, agora havia despertado de seu sono profundo, se afogando naquele mar de lágrimas, implorando pela minha volta, pelo meu perdão.
Suspiro, caminho na direção do moreno e ponho as mãos em seu rosto, sentindo suas cicatrizes tocarem meus dedos, suas lágrimas escorrendo pela minha pele quente. Ainda em meio de lágrimas, sorrio para ele.
– Eu senti muitas dores, Butch. – Tomo a atenção dele, que segura a minha mão direita com delicadeza. – Senti a necessidade de amadurecer, senti a realidade bater em minha porta, e graças a ela, hoje sou uma mulher. Mas ainda assim, sou rancorosa, eu não esqueço das minhas dores passadas, e ainda tenho viva em minha memória a dor que senti há quatro anos atrás. – Mais lágrimas escorrem por meu rosto, diante do rosto do meu amor, eu era vulnerável, fraca, incapaz de me manter firme. Era impossível não me render a felicidade de tê-lo em meus braços novamente. – Eu sofri... Sofri muito quando pensei que você não me amava, Butch... Mas nenhuma dor foi maior do que a que eu senti quando achei que tinha te perdido.
Sem aguentarmos mais, nos abraçamos com força, provavelmente o melhor e mais caloroso abraço que havia dado em anos. Aquele abraço fora uma velha porta que se abria novamente, a continuação de uma história que estava esperando para ser escrita. Butch era a peça que estava faltando no meu quebra-cabeça abstrato, que na presença dele ganhava cores. O verde intenso de seus olhos era a cor que eu precisava para continuar a traçar meu rumo.
– Eu te amo, Buttercup. – Ele sussurrou no meio do abraço, que provavelmente se prolongaria por um longo tempo. – Te amo demais.
– Eu te amo, Butch. Você não tem ideia do quanto eu te amo...
Definitivamente ainda tínhamos muito pra conversar.
Assunto principal: nós.
Continua...
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