Pit-a-Pat
22 Capítulo XXII
Notas iniciais

Will
~Capítulo XXII~
:: 45º dia na Itália — Semana 6 ::
[...]
Will afagou os cabelos de Nico enquanto sentia sua respiração tranquila e calma contra seu peitoral. Estava quase que semi deitado no sofá com os braços do pirata em volta de seu torço segurando com leveza, mas não dando sinais de soltá-lo tão logo.
Respirou fundo beijando o topo de sua cabeça. Aquilo o assustou muito. Não era a primeira vez que via alguém tendo ataques de pânico, mas Nico era a ultima pessoa que ele pensou um dia poder ter um ataque. Sempre pareceu tão decidido das coisas que fazia e dizia, como se nada pudesse abalar sua estrutura rígida.
Pelo visto estava errado.
Conseguiu ligar alguns pontos com isso, e com o fato de ele ter soltado algumas palavras avulsas e muitas suplicas; suplicas para que aquilo ― seja lá o que fosse ― parasse. O nome de Hazel apareceu várias vezes, mas um deles o deixou um pouco curioso.
Bianca.
Will se lembrava dela ser a irmã mais velha de Nico, antes de toda a coisa da pirataria acontecer. Na primeira vez que ele falou dela parecia bem nostálgico, ainda que não chegou a especificar nada sobre a moça. Contudo desta vez quando ele chamou o nome dela não tinha amor.
Tinha ódio.
Ele não conseguia imaginar o que ela poderia ter feito para fazer Nico odiá-la aquele ponto. Ela era sua irmã, sangue do seu sangue, odiar irmãos ou qualquer parente já é algo um pouco surreal, mas aquela entonação dele era assustadora. Como se Bianca tivesse feito algo imperdoável.
Outra coisa que o assustou foi um pedido de desculpas. Ele pediu desculpas para alguém com tanto arrependimento que Will teve de se segurar para não chorar enquanto tentava acalmá-lo de todas as formas possíveis.
Seu corpo parou de tremer depois de algumas musicas de ninar que sua mãe lhe cantava quando ele era mais novo. Ao menos o ajudou a se acalmar e isso bastava por hora. Will sabia que não teria muitas respostas sobre o ataque e as chances de Nico fingir que ele nunca aconteceu também eram válidas, mas ele iria tentar.
Não tinha como explicar o quanto doeu vê-lo daquela forma. Era como se tivessem pego seu coração e o quebrado em centenas de pedaços da forma mais lenta e dolorosa possível. Cada soluço que ele soltava era uma facada quebrando-o ainda mais até não restar mais nada.
Era horrível.
Passou os dedos pelos cabelos de Nico soltando o rabo de cavalo para deixa-lo mais confortável. O pirata remexeu-se, mas nada que indicasse acordar. Voltou a acariciar os fios ajeitando-se no sofá e apoiando as costas no encosto para melhor conforto já que ficaria ali um tempo.
Sua porta foi bruscamente aberta o fazendo pular no lugar e instintivamente envolver Nico em um abraço protetor. Na porta ele viu um Charles preocupado e ligeiramente furioso. Ele sempre estava furioso, para ser franco.
― Will por que você saiu corren...do? ― Charles olhou para os dois apertando os olhos para a cena: ― O que diabos?
― Ele teve um ataque de pânico. ― disse Will cortando o falatório desnecessário. Soltou Nico do abraço voltando a afaga-lo para tentar trazer um pouco de paz para seu sono.
A postura de Charles mudou na mesma hora vestindo um olhar preocupado enquanto fechava a porta e se aproximava dos dois:
― Como ele está? ― perguntou genuinamente preocupado. Will suspirou:
― Melhor. Consegui fazer ele dormir, mas demorou um pouco. ― admitiu olhando para o moreno de soslaio.
Charles apoiou os braços no sofá encarando os dois um pouco menos tenso, mas Will ainda sentia uma grande necessidade de proteger Nico dele. Como se algo pudesse acontecer se não prestasse atenção enquanto o pirata abaixava sua guarda.
Nico nunca estava com a guarda baixa, nem enquanto dormia. A ideia de ter de protegê-lo caso algo acontecesse o deixou um pouco aterrorizado.
― Ele disse algo?
― Nada. ― respondeu secamente voltando a encarar o pirata que dormia um pouco mais tranquilo.
― Lou Ellen ficou genuinamente preocupada, deveria falar com ela depois e explicar isso. ― falou o amigo ficando ereto novamente. Will fechou os olhos: ― Ela é uma boa moça de fato. Será uma boa esposa se evitar de chegar atrasado ou fugir por ai.
― Cala boca.
Charles estremeceu olhando o doutor curiosamente.
― Will?
― Mandei calar a boca. ― trovejou Will abrindo os olhos novamente, desta vez com raiva: ― Para de tentar me empurrar pra ela! Só para! Não nos demos bem, por mais que ela conteste. Não gostei da Lou. E o que quer que eu explique? Meu amigo passou mal e eu fui atrás, só isso.
― O que tem de errado com a Lou? ― perguntou Charles irritado.
― Tudo? Ela não tem opinião própria, só sabe concordar comigo e nunca discute nada! ― bradou nervoso. Respirou fundo abaixando o tom de voz para não acordar Nico: ― E não estou apaixonado por ela também.
Charles passou a mão pelo rosto tentando manter a calma:
― E desde quando precisa se apaixonar pra casar? ― ele perguntou sério: ― Quantas famílias são compostas de casais que não se gostavam no começo e casaram por obrigação, mas que aprenderam a se amar? Foi assim com seu pai e a primeira esposa dele. Nem todos tem o privilégio de se casar com quem gosta.
― Posso tentar. ― rebateu de forma relutante.
― Ah, e o que? Vai me dizer que está apaixonado por alguém? ― zombou Charles descrente.
Will ficou tenso. Apertou Nico contra ele mordendo o lábio. Por algum motivo ele não tinha convicção o suficiente pra responder “não”. Por quê? Essa pergunta ele tinha medo de responder.
― Olha a gente conversa melhor sobre isso depois que você se acalmar, ok? ― falou por fim indo para a porta: ― Espero que ele fique bom. Não gosto dele, mas também não desejo o mal. Sabe disso, certo?
Will aquiesceu, mas nada disse. Charles respirou fundo saindo da casa deixando-os no silêncio daquela tarde. O doutor apoiou o queixo no topo da cabeça de Nico acariciando suas costas carinhosamente.
Alguns dias atrás Will havia percebido as pequenas investidas de Nico e uma possível paixonite errônea para com ele. O doutor sabia que lá no fundo o pirata era um rapaz solitário, que precisava de alguém em quem se apoiar e Will, aquele que cuidou dele desde o começo e não o julgou por ser pirata, acabou sendo o foco de sua afeição.
Para Will aquilo iria passar, mas estava com medo. Ele mesmo estava se sentindo estranho nos últimos dias, estranho de uma forma que não conseguia explicar para si mesmo nem se quisesse. Nico o deixava confuso, sem noção alguma do que deveria ou não fazer porque toda a vez que ele lhe sorria daquela forma sincera seu coração parecia igual a um beija-flor. Só faltava pular de seu peito.
Não era algo ruim, ele não se sentia mal, só não conhecia aquele sentimento e esse era seu medo.
E se Nico o estivesse confundindo? O fazendo atravessar uma linha que nunca deveria ter sido cruzada?
E se ele, de alguma forma já tivesse passado sem perceber? O que faria para resolver?
Ele queria resolver?
☠
Nico remexeu-se em seu colo abrindo os olhos lentamente. Will continuou a passar os dedos por seus cabelos enquanto esperava o mesmo se situar. Já estava anoitecendo quando o pirata resolveu acordar de vez.
Apertou os braços mais forte em torno de Will virando o rosto para seu peitoral escondendo-o ali um tempo. Will mordeu o lábio com medo de Nico ouvir seu coração descontrolado.
― Desculpe. ― Nico disse puxando as pernas para cima do sofá encolhendo-se quase no colo de Will. O doutor ficou tenso:
― Pelo que? Você não fez nada de errado. ― respondeu sincero.
O moreno respirou fundo repuxando a parte de trás de seu paletó.
― Você veio atrás de mim. Fiz você abandonar a garota. ― explicou-se com a voz um pouco abafada, mas Will o compreendeu. Ele negou com a cabeça:
― Não foi nenhum sacrifício, acredite. Além do mais eu precisava vir você parecia assustado na feira. ― falou ele esperando alguma reação de Nico. Como ele nada disse Will continuou: ― Eu me virei para te chamar e o vi naquele estado... Parecia tão assustado. Nunca o tinha visto daquela forma. Quando correu a única coisa que pensei em fazer foi ir atrás. Você parecia que iria quebrar a qualquer momento.
Nico continuou em silencio apertando-se mais contra o loiro.
― O que houve? O que você viu? ― perguntou preocupado, principalmente por ele não estar respondendo. Será que tinha dormido novamente?
― Por que acha que vi alguém? ― disse por fim afastando-se do doutor o suficiente para olhar em seus olhos, mas sem tirar os braços dele.
Will ficou sério:
―Porque você estava bem quando chegamos. Você não tem problema de memória ou nada do tipo. Você viu algo. Ou alguém te viu. ― supôs levando uma de suas mãos até o rosto pálido do pirata. O sentiu estremecer: ― O que está acontecendo Nico? Por favor.
O pirata abaixou o olhar segurando a mão de Will com a sua. Virou o rosto depositando um singelo beijo na palma da mão do doutor o fazendo puxar o ar entre os dentes tenso.
― Ninguém. ― respondeu convicto: ― Ninguém que valha a pena saber. Provavelmente não estão mais por aqui.
― Quem? ― insistiu aproximando-se do pirata: ― Por favor, me deixe ajudar.
― Não tem como! ― respondeu de uma vez desesperado: ― Solace se eles tiverem me visto eu... Isso vai virar um banho de sangue, o meu sangue. Acha que quero que se envolva nisso?
― Já estou envolvido! ― bradou nervosamente: ― Desde o dia que você apareceu na minha cozinha que me envolvi. Desde o momento que nos aproximamos eu me envolvi! Eu me importo com você ok?
Nico arregalou os olhos antes de preenchê-los com uma tristeza quase palpável:
― Esse é meu medo nesse momento. ― sussurrou: ― Você se importar demais. Antes de hoje eu adoraria que você me dissesse isso, mas agora nas atuais circunstâncias isso me assusta.
― Nico...?
O pirata respirou fundo balançando a cabeça com que para espantar os pensamentos. Colocou em seu rosto um sorriso forçado levantando-se:
― Vou ficar no meu quarto um pouco, se importa de jantar sozinho hoje? ― pediu ele enquanto fingia, como sempre, que nada acontecia.
Will queria insistir, queria apertar ele e arrancar as respostas, mas existia uma linha fina e tênue entre o que ele queria saber e o que poderia saber. Talvez se ele soubesse mais do mundo de Nico do que o ideal ele não conseguisse lidar.
Pois o próprio Nico não parecia estar conseguindo.
☠
A manhã seguinte chegou arrastada para Will. A noite não havia sido muito boa e a má posição em que ficou com Nico durante algumas horas não fez bem à sua coluna. Levantou da cama em movimentos sôfregos até sua pequena bacia com água lavando o rosto. Estava gelada o que o fez despertar instantaneamente.
Bufou pelo pequeno susto caminhando para fora do quarto. Assim que saiu sentiu o aroma forte na casa de algo que ele não identificou. Era bom, amargo e doce ao mesmo tempo o convidando até o andar de baixo.
Entrou na cozinha sem demora sendo bombardeado pelo aroma doce da bebida preta que Nico colocava em um bule. Will ficou parado no batente da porta olhando o pirata trabalhar. O moreno sorriu para o pequeno processo olhando Will na sequência.
O olhar afiado de Nico arrepiou todos os pelos de seu corpo e deixando tenso. Nico estava com uma aparência péssima. Olheiras maiores que as habituais em seu rosto cansado, como se sequer tivesse dormido na noite anterior. Suas roupas amassadas e um tanto tortas, além claro do ar pesado que se instaurou entre eles na cozinha.
Will desviou o olhar primeiro encarando o bule na mesa. Quis perguntar, mas não sabia bem se deveria atrapalhá-lo já que pedira espaço no dia anterior.
― Eu vou deixar você terminar. ― falou Will virando-se para sair.
― Solace. ― Nico chamou o fazendo retesar-se no lugar: ― Vem cá.
Um pouco a contra gosto o doutor o encarou. Nico enchia uma xícara com o líquido preto convidativo. Colocou de frente para uma cadeira ao lado dele e sentou:
― Experimenta. ― Convidou com um sorriso meigo não condizendo com sua feição.
Will respirou fundo sentando-se a mesa. Pegou a xícara em mãos e tomou um gole do líquido. Abriu um sorriso largo ao sentir aquele gosto amargo, mas tão saboroso em sua boca.
― Isso é muito bom! ― exclamou tomando outro gole caprichado. Nico riu:
― Isso é café meu amigo. ― zombou ele enchendo sua xícara com colheres e açúcar: ― Eu particularmente prefiro com açúcar, mas vai de gosto.
― Assim está bom. ― admitiu Will depositando a xícara na mesa: ― Agora entendo todo o seu drama sobre café.
O pirata rolou os olhos apontando a colher lambuzada de açúcar em seu rosto:
― Não era drama. Café cria abstinência, e eu já estava morrendo. ― resmungou devolvendo a colher para a xicara e mexendo ruidosamente. Tomou um gole relaxando visivelmente o corpo: ― Bebida dos deuses.
Will sorriu: ― Concordo.
Pegou um pedaço de pão na mesa e comeu tranquilamente. O doutor sabia que Nico iria fingir que nada a acontecia, era obvio depois daquele pequeno show na noite anterior sobre ser perigoso e coisas do tipo.
Ainda estava curioso demais, mas enquanto Nico continuasse inteiro para ele estava de bom tamanho. Nico não lhe devia nenhum tipo de explicação.
― O Charles apareceu ontem? ― o pirata perguntou mordendo o pão na sequencia. Will confirmou:
― Sim. Um pouco depois que você dormiu. Chegou chutando o pé da barraca, na verdade. ― resmungou o doutor torcendo o lábio.
Nico rolou os olhos: ― Típico. O que ele mais faz é chegar gritando. Ele gosta disso, faz ele se sentir importante.
― Nico. ― Will o repreendeu, mas o pirata somente deu de ombros.
― Além disso, eu lembro dele em meu sonho. ― resmungou: ― Ele gritando sobre compromisso e coisas idiotas.
― Er... Nós discutimos. ― admitiu Will. Nico parou com a xícara em seus lábios o olhando horrorizado.
― O que?
― Ele começou a me irritar sobre a Lou e que eu deveria casar logo e, bem, eu mandei ele calar a boca. ― respondeu Will escondendo o rosto nas mãos: ― Fui no impulso, deveria ir lá pedir desculpas.
― Não! ― exclamou Nico pegando Will de surpresa. O pirata pigarreou desviando o olhar: ― Olha, você se impôs. Pela primeira vez você decidiu o que você quer e isso é importante. Sei que se importa muito com o Charles, mas você precisa pensar mais em si mesmo de vez em quando.
― Não precisava ter mandando ele calar a boca. ― rebateu Will ainda chateado.
― Mandou ele se fuder? ― Nico perguntou direto. O doutor arregalou os olhos:
― O que? Claro que não!
― Então está tudo certo. ― disse por fim recostando-se na cadeira: ― Eu vou sair, preciso de algumas informações.
― Agora? ― Will o encarou tenso. Sabia exatamente aonde ele iria e não gostava nem um pouco disso.
― Sim. Como eu disse preciso me manter atualizado. ― dito isso ele se levantou ajeitando a roupa amassada: ― Volto pro almoço, quer que eu compre algo?
Eles trocaram olhares por um longo tempo antes de Will afirmar com a cabeça:
― Peixe. Está precisando de vitaminas. ― respondeu sem quebrar o contato visual.
Nico sorriu piscando o olho mandou um beijo e saiu em direção à porta. Will mordeu o lábio sentindo seu rosto arder. Respirou fundo passando a mão pelo rosto. Ao ouvir a porta da frente bater saiu da cozinha de volta para seu escritório. Não tinha clientes no dia então aproveitaria pra arrumar seus manuscritos.
☠
Will subiu e desceu a pequena escada enquanto arrumava a prateleira mais alta da estante de madeira. No topo tinham manuscritos em línguas que ele não compreendia, mas desde que Nico chegara com sua ferida fecha-não-fecha começou a revirar todos os livros que tinha.
Não teve muito tempo para arrumar novamente a estante então ter de organizar novamente cada coisa por seu idioma era complicado, principalmente porque alguns deles pareciam muito semelhantes.
Empilhou no chão diferentes categorias, chegando a ficar quase impossível de entrar e sair daquela pequena sala.
Resolvendo começar a organizar por cima começou a guardar manuscritos indianos na extrema direita da estante junto de alguns potes e utensílios usados lá que seu avô havia trazido de viagem quando ainda vivo.
Enquanto organizava ouviu a porta bater e passos dentro da casa. Parou o que fazia enquanto ouvia se aproximarem do comodo. Nico apontou na porta recostando-se no batente encarando os vários livros no chão. Assobiou impressionado:
― Ocupado?
Will rolou os olhos voltando a colocar os livros em sua mão na estante.
― Voltou rápido.
Nico cruzou os braços: ― Eu disse que voltava para o almoço. ― respondeu num sorriso sapeca: ― Quer que eu adiante as coisas lá?
― Mas nem pensar! ― esbravejou Will virando-se para ele: ― Você é terrível na cozinha.
― Ei, eu fiz café! ― resmungou falsamente ofendido.
― Que parece tão simples quanto chá, então não conta. ― rebateu o doutor descendo da escada.
― Que calúnia comparar café com chá. ― bradou Nico erguendo as mãos aos céus: ― Heresia.
― Há-há. ― o doutor deu a volta nos livros empurrando Nico para fora da sala: ― Vamos comer.
― Tem algo pronto? Porque só trouxe peixe. Cru. ― rebateu se deixando ser empurrado pelo Will.
― Tem um pouco de ontem. ― Afirmou entrando na cozinha. Pegou nos peixes encarando-os: ― Sabe limpar?
Nico riu debochado: ― Eu moro em um navio. Acha que não sei limpar um peixe?
― Não sei se piratas limpam as coisas antes de comer. ― comentou soltando o animal na mesa.
― Somos ladrões, não bichos. ― emendou Nico arregaçando as mangas: ― Alias comentário de muito mal gosto o seu.
Will riu jogando um dos panos que tinha em mãos no pirata. Nico o segurou mostrando a língua na sequência.
― Vamos fazer isso logo.
Terminaram o almoço rápido. Nico não estava brincando quando disse saber limpar os peixes já que fez bem mais rápido que Will teria feito. Não poderia negar que talvez fosse sua habilidade com facas, mas resolveu deixar o comentário pra si.
Durante o tempo em que arrumavam Nico contava como tinham passado meses comendo somente peixe e ovos. Depois de um tempo ninguém mais aguentava olhar pro depósito ou sentir o cheiro de ovo e peixe por quase um ano.
Will falou algo sobre não ser saudável, mas Nico somente o espantou com o pano não querendo ouvir.
Depois de tudo pronto sentaram à mesa com uma garrafa de vinho que Nico havia comprado.
― Por que vinho? ― perguntou Will arqueando a sobrancelha.
― Por que não? ― rebateu ele abrindo a garrafa: ― Vinho é saudável, cerveja e rum que tenho minhas dúvidas.
― Só dúvidas? ― resmungou comendo do peixe que haviam preparado.
― Mas voltando ao assunto, normalmente a bordo temos mais alimentos não perecíveis porque ficamos muito tempo em alto mar e a maresia estraga as coisas. ― explicou ele tomando um gole do vinho: ― Normalmente carne e peixe ficam submersos em água com sal pra não estragar. As vezes dava umas tonturas, mas enfim.
Will revirou os olhos, mas decidiu não comentar nada.
― Então coisas que nasciam do chão eram as ideais: Batatas, cenouras, milho, pepino. As vezes pegávamos outras coisas como maçãs ou laranjas, mas essas tinham de ser comidas logo ou jogadas no mar.
― Que desperdício.
― Era isso ou contaminar tudo. Ai teriamos de comer o Valdez. ― respondeu simplesmente. Will riu:
― Tenho dó desse Valdez.
Nico rolou os olhos, mas concordou: ― Pra ser sincero eu também tenho um pouco. Digamos que ele não começou muito bem.
― Ah não? ― Will tomou um gole de suco olhando Nico curioso: ― Não lembro de você falar dele.
― Bom isso aconteceu antes de eu entrar pra pirataria. ― Nico começou puxando uma das pernas para cima da cadeira apoiando queixo no joelho: ― O Valdez fazia parte da tripulação do Jackson na época. Ele quem construiu seu navio e várias outras coisas.
― Nesse tempo a Reyna e o Jackson estavam em guerra, sempre com um achando motivos pra atacar o outro. Era uma bagunça. ― Nico recostou na cadeira sem cortar contato visual com Will: ― Um dia uma bala de canhão foi atirada do navio do Jackson bem em cheiro no Aurum. Disseram que o Valdez havia atirado ela.
Will arregalou os olhos: ― Ele fez?
Nico negou: ― Não foi ele, mas na época foi quem levou a culpa. Reyna declarou guerra contra o Jackson e por seis meses eles ficam em confronto direto até que expulsaram o Valdez como pedido de paz. ― explicou remexendo-se na cadeira: ― Jason não o deixou a esmo então acolheu ele. Reyna não gostou muito, mas deixou passar.
― Entendi. O que ele fazia antes da pirataria? ― indagou Will.
― Ele construía coisas. A maioria delas eram barcos... Ou coisas que explodiam. ― resumiu dando de ombros: ― De toda forma ele faz o que gosta mesmo entre piratas. Por isso é o Bossum do Caronte e foi o Bossum das outras duas tripulações que esteve.
Will aquiesceu pensativo. Remexeu na comida sem muito entusiasmo. Queria continuar com a mesma linha de perguntas e falar sobre o passado dele, mas ele ainda não parecia muito bem, ainda que fingisse sorrisos e conversas bobas sobre piratas.
Nico parecia instável e Will queria mais do que tudo que ele desabafasse. Talvez dessa forma ele se sentisse melhor? Respirou fundo apoiando o rosto em sua mão. Nico não era obrigado a dizer nada a ele. Se conheciam há pouco tempo ainda e mesmo dividindo a casa isso não significava nada.
Ainda que ele quisesse que sim.
Sentiu um toque gélido em seu rosto o fazendo olhar para Nico. O pirata afagava seu rosto com sua mão, o olhar preocupado.
― Tudo bem?
Will suspirou retirando a mão de Nico.
― Não faz isso. ― pediu desviando o olhar.
― Isso o que? ― perguntou arqueando a sobrancelha.
“Não seja tão doce comigo quando você deveria estar gritando ou soltando tudo o que está preso ai dentro!” Era o que ele queria gritar, mas ao invés disso disse algo pior:
― Para de tocar em mim sem motivo.
Will se assustou com o que saiu de sua boca o fazendo olhar Nico no mesmo instante. O pirata arregalou os olhos assustado recolhendo as mãos para seu colo debaixo da mesa.
― Desculpe se isso te incomoda.
― Um pouco. ― continuou tirando coragem de lugares desconhecidos por ele.
― A é? ― balbuciou Nico desconfortável, mas sustentando o olhar duro do doutor. “Não, não é!”
― Sim. Você pode pensar que sou alheio, Nico, mas sei exatamente o que você esta fazendo. ― disse levantando-se da mesa na intensão de sair da cozinha.
― Eu sei que você sabe, Solace. ― defendeu-se Nico levantando também: ― Mas isso não quer dizer que vou parar.
― Isso é... Estranho. ― emendou cruzando os braços.
Will estava em uma disputa interna. E pela primeira vez resolveu colocar para fora sua angustia, por mais que parte de seu cérebro gritasse para ele se calar.
Porque não tinha verdade em suas palavras, mas também não havia mentiras.
Só a mais pura confusão.
― Estranho? O que é tão estranho nisso? ― insistiu Nico sério. Will balançou a cabeça.
― Você gostar de mim. Sabe o quão errado isso é? Sabe o que você vai fazer conosco se insistir nisso? ― esbravejou Will em tom baixo, mas era fácil notar o desespero em sua voz.
Nico mordeu o lábio: ― Sei exatamente, mas eu acho que vale a pena tentar ao menos.
― Pra quem?
― Pra nós. ― respondeu.
Will desviou o olhar recusando-se a responder aquilo. Nico bufou:
― Você não é idiota, mas eu também não sou. ― falou em um tom mais elevado. Will o encarou. Tinha um rastro de tristeza em seus olhos. Will quis parar, mas era como se estivesse em uma ladeira e as coisas simplesmente deslizassem por sua boca.
Ele não queria dizer nada daquilo, não de verdade, mas não poderia negar que tudo o que dizia estava engasgado em sua garganta há dias.
― Aonde você quer chegar Nico?
Nico desviou o olhar dando brecha pra Will fazer o mesmo. Ele estava confuso. Não planejou a conversa, não planejou nada daquilo. Só queria que as coisas voltassem ao normal. Sem pessoas aparecendo em feiras e desestruturando o clima da casa.
Will sentiu as mãos de Nico em seu rosto o forçando a olhá-lo:
― Não sei aonde quero chegar. ― admitiu acariciando o rosto do rapaz com os polegares. Will estremeceu com o toque: ― Pra ser franco com você só estou seguindo meus instintos. ― Aproximou-se dele encostando suas testas. Will prendeu a respiração, seu coração batendo rápido e descompassado.
Nico desceu as mãos até seu pescoço o puxando para perto. Will arfou olhando diretamente para as orbes caramelo que o encaravam com carinho.
― Não quero forçar nada. ― disse o pirata em um tom baixo, hálito forte contra seus lábios que formigavam: ― Se não gostar, me afaste.
Ele se aproximou fechando os olhos e puxando delicadamente o maxilar de Will para baixo. O doutor sentiu o suave toque dos lábios de Nico nos seus o desnorteando completamente. Soltou um arfar pelo susto apoiando-se no armário atrás de si, encurralado. Seu lábio era doce e ao mesmo tempo amargo pelo gosto do vinho que tomara minutos atrás.
Sentiu as mãos gélidas de Nico em seu pescoço o puxando mais para si. Se viu retribuindo no mesmo instante fechando os olhos e levando as mãos até a vestimenta fina do garoto. Aquilo era extasiante, e assustadoramente maravilhoso. Os dedos de Nico foram até sua nuca entrelaçando-se entre seus cabelos soltos bagunçando-os ainda mais.
O beijo se aprofundou. Will sentiu o mordo da língua de Nico passando por seus lábios antes de invadir sua boca; Will soltou um arfar baixo o puxando mais para si com a urgência crescendo em seu peito.
Seus ouvidos latejavam, e seus pulmões já pediam por ar, mas Nico foi o primeiro a se afastar. As respirações estavam aceleradas, com as testas ainda coladas Will pode admirar o rosto corado do garoto que respirava pesadamente com os lábios entreabertos. Os olhos estavam fechados, mas em seus lábios logo se formou um sorriso encantador.
A pulsação de Will aumentou, e ao mesmo tempo um incômodo surgiu em seu peito. E antes mesmo que falasse algo seus lábios foram novamente tomados pelo de Nico.
Desta vez o beijo foi mais urgente, necessitado. Sentiu os braços do rapaz circundarem seu pescoço enquanto institivamente o puxava para si pela cintura esquecendo-se brevemente do corte que ainda estava cicatrizando. Will foi o primeiro a investir com sua língua surpreendendo Nico que soltou um pequeno e rouco arfar.
Isso foi como um estalo na cabeça de Will. Naquele momento toda uma vida de ensinamentos, toda a sua criação veio à tona. O que ele estava fazendo?
Afastou-se abruptamente de Nico cobrindo os lábios com a mão. Aquilo estava errado, não podia fazer isso, era contra as leis da igreja, era pecado; seria enforcado se alguém soubesse disso.
Levantou os olhos até Nico que o fitava preocupado. Aquilo doía em seu peito. Era errado? Era mesmo tão errado assim beijar aquele rapaz? Ele não sabia dizer.
― Não posso. ― disse simplesmente: ― É errado.
O coração de Will vacilou uma batida ao ver a dor formada no rosto do rapaz. O pirata abriu a boca várias vezes antes de fechá-la. Nico se afastou com o olhar baixo, mas de certa forma compreensivo. Sem dizer mais nada saiu do cômodo.
Will soltou um suspiro doloroso. Era o certo, no final das contas. Ele era um doutor renomado, tinha uma vida boa e seguia as regras a risca. Não podia arriscar ter sua vida arrasada por causa de algo assim, mas ainda assim ele sentiu um vazio o preencher, e logo na sequência uma dor terrível.
Era mesmo errado ficar com Nico?
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