Pit-a-Pat
23 Capítulo XXIII
Notas iniciais

Will
~Capítulo XXIII~
:: 46º dia na Itália — Semana 6 ::
[...]
Will ficou um tempo sentado na mesa da cozinha encarando a porta dos fundos da casa. Não sabia há quanto tempo Nico havia saído, mas poderia chutar que estava a um bom tempo encarando o nada.
Respirou fundo levando o dedo indicador ao lábio sentindo-se enrubescer com a lembrança tão recente e nítida daquele beijo. Eles haviam passado do limite. Da pequena linha que Will havia desenhado mentalmente a qual ele não poderia, em nenhuma hipótese, cruzar. Agora lá estavam eles, com a amizade abalada e um deles decepcionado.
Will só não tinha certeza de quem.
Afundou a cabeça nos braços deitando-a na mesa. Sua mente martelava incessantemente na mesma tecla tentando achar uma solução praquele problema gigantesco. O doutor sabia bem o que aconteceria se alguém os pegasse ou mesmo descobrisse o que acontecera entre eles naquela cozinha.
Sabia bem que teria uma bela corda amarrada no pescoço e a condenação eterna. Contudo ainda estava naquele conflito, aquela pequena fagulha no peito que ardeu quando seus lábios se tocaram. O desejo de beijar mais e mais aquele rapaz sem parar. Will estava ciente disso. Não tinha mais volta.
Respirou fundo passando a mão pelos cabelos. Estava em um dilema terrível e não tinha ninguém com quem compartilhar suas aflições. Não entendia sobre atração, sobre amor, sobre nada dessas coisas. Nunca foi bom com esse tipo de sentimento, e ver o rosto quebrantado de Nico o deixou sem chão.
Will descobriu que odiava aquela expressão. Principalmente ao saber que ele quem tinha causado ela. Apertou os olhos ao senti-los arder por lagrimas as quais se recusava a deixar sair. Por que estava chorando? Não tinha sentido.
Nada daquilo tinha o menor sentido!
Remoeu-se por mais um tempo antes de ouvir batidas na porta e a voz das crianças da rua. Fungou baixo limpando o rosto na manga da camisa e caminhou até a porta de entrada destrancando e dando passagem para os dois pequenos correrem para dentro.
Silena apontou na porta abraçando Will com força. O rapaz não retribuiu com tanto empenho.
― Bom dia Will. ― disse a moça soltando-se dele: ― Viemos fazer uma pequena visi- HENRY SOLTA ISSO! ― Bradou a moça afastando-se de Will que a seguiu com os olhos.
Charles riu:
― O rapaz está virando uma peste. ― admitiu colocando a mão no ombro do doutor que sorriu fraco.
― Crianças. Sempre tem sua fase de terror. ― zombou fechando a porta: ― Cozinha?
― Pode ser. ― falou seguindo o doutor até lá.
Will se sentou no seu lugar com o prato do almoço ainda intacto, o de Nico praticamente a mesma coisa. Charles arqueou a sobrancelha.
― Onde está o pirata? ― perguntou curioso sentando-se ao lado de Will. O doutor ficou tenso sem saber o que dizer.
Respirou fundo:
― Está fora. Não estava se sentindo bem pra comer e resolveu sair um pouco. ― mentiu engolindo o bolo que se formou em sua garganta. Will não tinha a menor ideia de onde ele estava.
Ou se iria voltar.
― Típico. ― comentou o homem rolando os olhos.
Silena apareceu na cozinha sentando-se ao lado de Charles.
― Então Will. ― ela começou entrelaçando seus dedos em cima da mesa: ― Eu queria pedir desculpas a você. Charles me disse que você se sentiu pressionado com a história da Lou Ellen.
O doutor apertou os olhos, mas não disse nada.
― Só estamos preocupados. ― ela continuou. Sua voz doce e mansa, mas um pequeno tom receoso na voz: ― Queremos te ver feliz, e sabemos que é difícil alcançar isso sozinho. Todos precisam de um parceiro ao longo da vida.
Will desviou o olhar:
― Eu sei. ― admitiu: ― Eu só não quero. Não agora. ― respondeu rapidamente enquanto pensamentos invadiam sua mente.
― Eu entendo, mas achei sua reação ontem um pouco exagerada. ― Charles falou com dor na voz: ― Eu me importo demais com você William, só quero que saiba que nunca faríamos nada para te prejudicar. Não esperava aquilo de você ontem.
― Estava nervoso. Preocupado com o Nico. ― resmungou suspirando: ― Ataques de pânico não são fáceis de lidar Charles.
― Eu fiquei sabendo. ― disse Silena: ― Onde ele está? Passou bem à noite?
Charles concordou com a cabeça também querendo saber.
― Não sei como ele passou a noite na verdade. Ele não comentou sobre o ataque depois que acordou. ― admitiu Will o que não era mentira. Nico não falou com ele depois de tudo, não soube se chegou a dormir a noite ou se passou ela em claro: ― Ele saiu tem um tempo queria ficar sozinho.
―Deixe ele. ― falou a moça: ― Precisa de espaço, assim como você. Vamos parar de te empurrar para moças, mas pelo menos precisa pedir desculpas a Lou Ellen e explicar a situação. Você nos deixou em uma péssima posição fugindo daquela forma.
― Desculpe, de verdade. ― Will pediu passando a mão pelo pescoço tenso: ― Pedirei desculpas a eles também.
― Bom, se estamos resolvidos que tal mudarmos de assunto? ― Sugeriu Charles começando a falar sobre alguns de seus fregueses na ferraria e os pedidos estranhos que recebia.
Will não prestou muita atenção no que ele dizia. Voltou a encarar a porta dos fundos preocupado. Mordeu o lábio sentindo o aperto no peito piorar.
E se Nico não voltasse mais?
☠
Nico
Nico estava no beco atrás do bar falando com o homem que encontrou antes do almoço para pegar as informações prometidas. Os nervos a flor da pele e a paciência no limite. O homem a sua frente dava voltas e mais voltas nas perguntas que Nico havia lhe feito antes. Ao invés de responder diretamente resolveu enrolar gesticulando com as mãos esporadicamente.
Para seu azar o dia de Nico estava péssimo.
O pirata rosnou retirando seu punhal da cintura prensando o homem na parede de tijolos úmida pela maresia. Afundou a lâmina do punhal do pescoço do homem retirando um arfar assustado de seus lábios.
― Não estou com muita paciência no momento pra enrolações. ― falou Nico, o tom de voz baixo e duro: ― Me dê às informações antes que eu corte sua garganta.
― E perder uma boa informação? ― cuspiu o homem com o pouco de coragem que ainda tinha. Nico trincou os dentes.
― Consigo ela em outro lugar, não tem só você de informante em Ravenna Frances. ― retrucou apertando mais a lâmina cortando uma fina camada de pele. Não o bastante para sangrar, mas o suficiente para tremer as pernas do homem.
― Eu conheço um cara. Um tal de Louis. ― falou apressadamente: ― Ele trabalhava com o Conde e pode te responder o que precisa saber sobre os homens que viu na feira.
― Os homens do Conde não tem jurisdição em Ravenna. Duvido que você não sabia me responder e que eu precise me locomover atrás de um tal de Louis pra obter a informação. ― comentou Nico suspirando: ― Quando eu disse sem paciência não estava brincando.
― Nem eu! Nem eu! ― falou Frances apressadamente temendo o pior: ― As coisas tem estado estranhas nos últimos anos aqui na região. Ninguém sabe o que acontece, e nenhum dos ex homens do Conde falam. Nem o Louis deixou escapar informações para mim, eu juro!
― Seu juramento não serve de nada. ― disse Nico arqueando a sobrancelha: ― Mas vou acreditar nisso. Onde posso acha-lo?
― Ele está no norte da cidade. Trabalha em uma padaria chamada “Anello d’oro”. ― informou respirando profundamente.
Nico o soltou guardando o punhal. Frances resfolegou desesperadamente. O pirata rolou os olhos:
― Volto mais tarde com informações pra vender pra você. ― dito isso Nico gira os calcanhares e sai do beco andando a passos pesados até o norte da cidade.
Uma longa caminhada que lhe deixaria a mercê de sua mente bagunçada. Crispou os lábios sentindo ainda o gosto do beijo que compartilhou com o doutor. Não imaginou que ele fosse retribui-lo, pensou que o empurraria e o expulsaria definitivamente da casa depois daquela tentativa ousada, mas o que recebeu foi um beijo que aqueceu seu coração de uma forma que ele nunca tinha sentido.
A rejeição logo depois doeu. Doeu de uma forma que Nico não soube explicar direito. Só sabia que aquilo era similar à dor física, mas ele não sabia como fazer ela parar. Ele queria que ela parasse.
Respirou fundo repuxando a camisa na altura do peito.
Ardia, queimava, latejava como se estivesse sendo queimado vivo. Seus olhos desfocaram e por breves instantes não ouviu nada além do latejar do sangue em seus ouvidos. Parou de andar recostando-se em uma parede dos galpões do píer. Resfolegou controlando a respiração.
Que posição ridícula que ele se encontrava. Tinha passando por tanta coisa, coisas muito piores que uma simples rejeição, mas lá estava ele encostado numa parede mofada pela maresia segurando lágrimas que ele se recusava com todas as forças que descessem. Não valia a pena desperdiçar elas com isso.
Ele não desistiu ainda.
Abriu um sorriso sem emoção. Era o primeiro passo. Um passo coxo, mas foi a fagulha que ele precisava.
Will retribuiu. Sem pensar duas vezes ele retribuiu o beijo. Os dois beijos. Ele não sentiu nojo, não o recusou de primeira. Ele aceitou, ele hesitou.
Ele também sente algo.
Com um ultimo suspirar Nico se desencostou da parede. Ainda tinha chances com o doutor, só precisava jogar as cartas certas a partir de agora. Continuou a caminhada, desta vez mantendo os olhos baixos.
Não conseguiu se livrar das lágrimas.
☠
A padaria era refinada. Se localizava na parte nobre da cidade. As casas ao redor enormes com grandes jardins e quintais, avarandadas de dois andares que impunham respeito e soberania. Nico podia ouvir o longínquo som de um piano, logo mais distante o vibrar das cordas de um violino; trotar de cavalos de alguma das residências e claro as pessoas na rua esbeltas e graciosas.
Nico respirou fundo. O cheiro da riqueza o incomodava.
Passou apressadamente por algumas mulheres sem se dignar a cumprimentar ou curvar, não estava no clima para uma educação que ele não precisava mais exercer. Alguns homens o olhavam torto, mas Nico tinha uma presença forte o bastante para os manter afastados.
Depois de desviar de algumas carruagens chegou à padaria grande com mesas do lado de foras e homens conversando algo com seus charutos em mãos e bebidas caras nas mesas. Nico entrou indo diretamente para o balcão.
Um dos atendentes o olhou de cima a baixo torcendo o nariz para sua presença. Nico pensou em lhe dar um soco, mas não valeria a pena.
― Não vendemos fiado. ― bradou o homem severamente. Nico começou a repensar o soco.
― Estou atrás de um tal de Louis, conhece? ― perguntou diretamente. O homem a sua frente arqueou a sobrancelha ruiva.
― O que quer comigo pirralho? ― respondeu na mesma forma agressiva.
Nico grunhiu impaciente: ― Não sei, pensei que um antigo capacho do Castellan pudesse me dizer se é verdade que você subiu rápido no conceito dele chupando seu pinto.
O homem engasgou com o ar olhando em volta horrorizado. Nico não se dignou a ver se alguém o escutou. O rosto de Louis ficou avermelhado. Antes que ele pudesse gritar Nico afastou o paletó mostrando a pistola enroscada em sua cintura. O olhar ameaçador dele dizia o bastante.
Louis respirou fundo.
― Pros fundos, agora! ― ordenou Nico baixo. O homem aquiesceu saindo de trás do balcão e da padaria sendo seguido por Nico logo atrás.
Deram a volta no estabelecimento entrando pequeno beco atrás da padaria. O homem grunhiu:
― Cartas na mesa garoto. Não precisava baixar o padrão lá dentro. ― repreendeu ele severamente. Nico rolou os olhos.
― Não tenho padrões, por isso me chamam de pirata. ― sorriu maldosamente retirando a pistola. O homem recuou dois passos:
― Pirata? O que quer comigo? ― perguntou tenso.
― O que os homens do Castellan estão fazendo zanzando em Ravenna? Essa região não está sobre sua jurisdição. ― perguntou Nico sem rodeios. O homem franziu o cenho:
― Não tenho permissão para lhe contar isso.
O pirata trincou os dentes:
― Resposta errada. ― dito isso atirou rapidamente na perna do homem que urrou de dor. Caiu no chão segurando a coxa. Olhos raivosos. Nico carregou a pistola com outra bala: ― Melhor ser rápido porque muita gente ouviu o tiro e preciso sair daqui logo, com ou sem respostas.
O homem trincou os dentes: ― Vai me matar com ou sem respostas.
Nico sorriu maldosamente: ― Soldados são espertos.
― Se vai me matar de qualquer jeito por que deveria te dizer algo? ― perguntou exasperado. Nico soltou uma risada nasal:
― Porque se me falar te mato rapidamente e de forma indolor. Se não falar atiro nos seus pulmões e deixo você para morrer lenta e dolorosamente. ― respondeu: ― Sabia que leva cerca de horas para morrer com um tiro no pulmão? Dizem que a dor é angustiante.
Louis retesou-se.
― Posso pedir que acabem com minha dor. Não preciso de você pra isso.
Nico quase gargalhou:
― Religiosos como os Italianos? Antes deixar você angustiando de dor do que ir para o inferno te matando. De todas as opções sou o mais misericordioso.
O homem arfou sem opções. Abaixou o olhar antes de responder:
― O Duque está muito doente. O Conde Castellan e seus homens estão cuidando das coisas por aqui até ele melhorar, mas isso já tem anos. Ele provavelmente vai morrer. Sempre houve boatos dele ter uma doença mortal. ― disse por fim em um único folego.
Nico respirou fundo assimilando a informação. Não tinha como se esconder deles durante os quatro meses restantes em Ravenna. Se os homens do Castellan estavam fazendo rondas no condado e no ducado eles logo topariam com Nico em algum momento.
O relógio começou a contagem regressiva.
Nico riu comicamente: ― Doente é? ― comentou apontando a arma para a cabeça do homem: ― Tadinho de mim.
Louis arregalou os olhos pronto para rebater, mas o tiro o silenciou. Antes de seu corpo cair inerte no chão Nico já tinha desaparecido do beco.
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Nico sentou-se ao lado de Frances no bar tomando um gole generoso de rum. Frances balançou a cabeça incrédulo:
― Ouvi falar da doença dele, mas não pensei que o deixaria de cama por anos. ― disse ele um pouco em choque: ― Mas ele estava falando do antigo duque ou do garoto?
― Não deu detalhes. ― Nico mentiu dando de ombros. Não dar todas as informações é a regra numero um de um informante.
― Então precisamos descobrir mais. Tenho alguns homens que conhecem empregados do Ducado, posso pegar mais informações pra você. Claro, pelo preço certo. ― ele disse com um sorriso malandro no rosto.
Nico rolou os olhos. Não precisava de mais nenhuma informação. Já tinha juntado as peças o suficiente.
― Dinheiro pelas informações Frances. ― falou Nico esticando a mão para ele. O homem depositou um saco de moedas. Nico não se deu ao trabalho de contar.
Levantou-se pagando pela bebida:
― Meus pêsames pelo seu amigo. ― dito isso Nico saiu ouvindo um arfar atrás dele e um “Filho da puta” ao longe.
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Will
Will estava esquentando a comida do almoço para a janta. Já tinha escurecido e Charles e Silena acabado de sair de sua casa. Estava morrendo de fome por ter pulado o almoço, coisa que nunca fazia.
A conversa que teve com Charles voltando a sua cabeça a todo momento. Haviam falado sobre Nico depois de um tempo quando Will admitiu que havia brigado com ele mais cedo. Charles sugeriu que ele alugasse algum lugar para morar já que agora estava trabalhando ― Will não especificou o que ― para dar sossego ao doutor.
Will havia negado isso, não queria colocar ele para fora e que só estavam tendo uma pequena desavença. Não era de toda verdade, mas expulsar Nico por algo tão pequeno era um absurdo.
Tentou mudar o assunto, fazer ele esquecer sobre isso, mas a única coisa que pode fazer foi ficar calado enquanto Charles e Silena comentavam sobre o que fazer com o pirata dali em diante.
A única coisa que Will queria fazer era ficar sozinho e tentar achar respostas para suas perguntas constantes. Não sabia o que fazer com Nico, sobre a situação e sobre seu coração que não havia acalmado nem uma batida desde o beijo.
O maldito beijo que lhe dava borboletas no estomago toda vez que se lembrava dele. Fechou os olhos revivendo a memória mais uma vez, só mais uma, antes de espantá-la novamente.
Aquilo tinha sido errado, o pecado que ele cometera o estava perseguindo sem piedade. Will entendia a bíblia, conhecia as passagens, sabia que estava fazendo algo abominável aos olhos de todos, mas ainda assim queria beijar Nico de novo.
Fechar os olhos e se colar ao corpo pequeno, mas nada delicado do pirata.
Por Deus ele era um pecador depravado.
Resmungou dolorosamente afundando o rosto em suas mãos. Queria poder achar uma forma de conversar com Nico sobre o acontecido, mas algo lhe dizia que não seria uma conversa agradável.
Will acendeu o lampião da cozinha assim que começou a escurecer. O cheiro do peixe era convidativo, e como se tivesse atraído Nico para a cozinha lá estava ele em toda sua gloria. Se olharam por longos momentos. Nico com braços cruzados no batente da porta da cozinha tenso.
Não disseram nada um para o outro, deixando o desconforto invadir o cômodo.
Eles se sentaram à mesa de madeira no jantar. O silêncio entre eles era doloroso e palpável. Normalmente passavam o jantar e parte da noite conversando sobre várias histórias e conversas aleatórias. Todavia, aquela noite estava terrivelmente silenciosa.
Ambos sem saber como começar a conversa.
Will sabia que havia causado isso, mas estava confuso; assustado. Ele cresceu em uma família religiosamente correta, cresceu e foi criado nas normas da igreja. Will tinha noção do certo e do errado, das tentações assustadoras que o mundo lhe infligia, mas aquilo, aquele sentimento que estava tendo, ele não conseguia explicar.
Ali, olhando o rapaz com a luz do lampião iluminando seu rosto o deixando ainda mais bonito do que já era, Will tentava entender onde estava o erro deles terem feito o que fizeram de manhã.
Era errado, mas por que parecia ser tão certo?
Depois de longos minutos brincando com a comida de seu prato resolveu quebrar aquele clima:
―Então ― começou com a voz baixa: ― Soube que já viu uma sereia. Como elas são? ― a pergunta saiu baixa, e Will teve receio de Nico não tê-la ouvido. Mas assim que olhou para o rapaz viu o canto de seus lábios se torcerem segurando um sorriso aliviado. Will imaginou que foi por ter quebrado aquele clima tenso entre eles.
O coração de Will pulsou com mais força ao ouvir a voz melodiosa do rapaz, e isso o deixou cada vez mais confuso e incerto.
― Como você acha que elas são? ― rebateu a pergunta levantando finalmente o olhar, fitando-o com os olhos caramelo e brilhantes como uma joia.
― O de sempre, que elas são traiçoeiras, mas muito bonitas. Elas usam de magia para tentar os homens. ― respondeu baseando-se nos boatos da cidade. Ninguém ali nunca havia visto uma sereia, mas naquela época não era preciso se ver algo para poder falar. Nico riu:
― Em parte são consideradas monstros, talvez demônios? ― comentou com tom zombeteiro na voz. Will aquiesceu, a igreja muitas vezes lhes dizia sobre aquelas lendas, e o que elas eram. Na maioria das vezes eram seres diabólicos.
― Bom, certa vez meu navio foi pego em uma tempestade. Fomos arrastados por várias milhas pelas ondas. ― Ele contava entusiasmando, sem cortar o contato visual, criando várias borboletas arriscas no estômago de Will: ― Tivemos de parar em uma ilha pra reparos e reabastecer as muitas perdas durante a tempestade. Ficamos por quase uma semana lá, até que eu achei uma caverna mais isolada. Resolvi entrar, ver se achava algum tesouro deixado para trás, mas o que encontrei foi um rapaz nas pedras aproveitando a luz do sol que entrava pelo teto.
Nico ajeitou-se na cadeira, deixando o prato intacto de lado.
― Não havia reparado em sua cauda até chegar mais perto. Ele se assustou no primeiro momento, igualmente eu. ― Ele riu, uma música pros ouvidos de Will: ―Resolvi me manter longe da água, sereias e tritões são de fato traiçoeiros.
― Então os boatos não são tão errados assim. ― comentou Will divertido. Nico meneou:
― Mais ou menos. O canto de um tritão também é enfeitiçado. É o charme deles, de toda forma. ― respondeu: ― Não tivemos uma primeira conversa muito agradável. Quanto mais ele se irritava mais o mar parecia nebuloso e agitado. Somente depois me toquei de que ele tinha controle sobre as águas.
― Como assim?
― Elas obedeciam ao seu comando, independente de qual fosse. Percebi isso na segunda vez que o encontrei. Por algum motivo que desconheço ele resolveu conversar comigo amigavelmente, e falamos um pouco.
― Simples assim? ― perguntou Will um tanto incrédulo. Pelo que ouvia dos boatos, sereias não eram confiáveis.
Nico riu: ― Não, nenhum segredo de sereia, nenhuma história de vida, nada que eu pudesse tirar proveito. Só soube de onde viera, mas nada mais que isso. O resto foram histórias de barcos que ele afundou. ― disse entrelaçando seus dedos na mesa: ―Muitos deles vêm do triangulo de bermudas, o que explica como ele conseguia controlar a água. A maioria dos monstros marinhos vem de lá.
― Então provavelmente Atlantis fica por lá? ― Will sorriu com a cara de espanto de Nico. Esse tipo de literatura era proibida por muitos motivos. Ele saber talvez fosse muito mais estranho do que imaginara.
― Francis Bacon? ― O loiro assentiu: ― Eu li sobre o livro dele, as teorias são interessantes e bem similares ao de Aristocles. Estou surpreso por você ter acesso a esses tipos de livros, são pagãos.
― Não tive acesso necessariamente. Meu avô me contou sobre essa lenda, ele disse que tinha um exemplar antes de ser confiscado pela igreja. ― respondeu minimamente. Nico balançou a cabeça, compreendendo.
― De toda forma, acho que a teoria de Aristocles é mais plausível. Atlantis pertence à Poseidon, senhor dos mares. Mesmo depois de afundar ela continuou em seus domínios. Não me surpreende que ela esteja no Triangulo de Bermudas atualmente.
― Poseidon? Sério? ― zombou Will rolando os olhos.
Nico arfou indignado: ― Duvida da existência dele?
― Só existe um único Deus Nico. ― revidou o doutor: ― Além disso Poseidon seria um deus tirano se comparado as histórias do mar.
― Quem disse que os deuses são bons?
― Em teoria eles são. Deus é o senhor de tudo, uma imagem santa. ― afirmou Will convicto.
― Deus é o senhor e tudo, então ele também criou as trevas. O mal que ele mesmo combate foi ele mesmo quem criou e arquitetou. Me parece mais o trabalho de uma criança sozinha querendo atenção. ― zombou Nico recebendo um olhar severo de Will.
― Ele deu o livre arbítrio aos anjos. Eles escolheram cair.
― Livre arbítrio? Se ele sabe as escolhas que você vai fazer continua sendo livre arbítrio? ― sugeriu Nico. Will ficou calado: ― Ele sabia que eles iam cair, e deixou caírem. O bem e o mal andam de mãos dadas. Deus é ambos. A única diferença é que agora tem alguém em quem jogar todo o foco da maldade em cima se passando por santo.
Will balançou a cabeça incrédulo:
― Isso é um monte de blasfêmias. Ele é bom e tudo que faz tem um propósito. Seja ele criar o mal ou não. Não sei te responder se ele tem ou não o mal dentro dele, pois a escuridão vem sim de algum lugar, mas o que eu sei é que ele é bom, justo. Não zombe do que acredito, por favor.
Nico suspirou, mas concordou:
― Guardarei minhas opiniões religiosas para mim por um tempo. ― prometeu: ― Mas não destrate a religião dos outros. Cristãos não são os únicos que existem no mundo.
Will meneou: ― Justo.
― De toda forma Poseidon não é um deus tirano, mas pelas histórias também não era um deus bom. Os barcos que afundavam por conta de seus animais marinhos provinham de sua ira. Os pobres desafortunados que calhavam de estar ali sofriam. ― contou Nico tomando um gole de suco: ― Piratas são os que mais acreditam em lendas. O Kraken é uma delas, mas ninguém que viu sobreviveu para contar a história. Só temos histórias contatas por bêbados nos bares que sonharam com a besta.
Will riu: ― Interessante.
― Nem tanto. ― disse Nico apoiando-se na mesa: ―E você? Não tem nenhuma história pra me contar? Nenhum paciente estranho, história de vida? ― perguntou Nico curioso. Will deu de ombros.
― Não acontece muita coisa por aqui. Sou um simples doutor, e até agora fora um paciente que me veio com um garfo no ouvido não vi nada de estranho. ― comentou rindo. Nico o acompanhou.
― Parece que estou sempre falando e falando, mas nunca escuto nada sobre você. ― disse simplesmente. Will sorriu:
― Não me importo. Gosto de ouvir a sua voz.
O sorriso de Nico foi morrendo aos poucos. Seu rosto de contorceu em uma careta tristonha, e repleta de dor. Desviou o olhar.
― Will, não faz isso. ― suplicou o rapaz com a voz baixa. Will estremeceu. Nico levantou-se: ― Vou para o meu quarto. Te vejo amanhã.
Assim ele se retirou, e abruptamente Will percebeu o que fizera. Há poucas horas atrás havia negado o rapaz e agora estava ali na mesa flertando com ele. Sentiu vontade de ir atrás, mas não conseguiu. Se sentia mal em deixar as coisas como estavam, mas era o certo, não era?
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