Pit-a-Pat

48 Capítulo XLVI


Notas iniciais
Ah, e aqui estamos nós com o último capítulo desse Arco! Ain, nem acredito que vamos entrar no último já rehuhruehrue ia falar que passou rápido, mas foram 4 anos de fic, passou rápido nada Enfim, preparados pro capítulo? Pq assim, eu nao acho que vocês estão de fato ruehrerue eu não estava preparada para escrever aquela cena, mas enfim, é o que temos pra hoje. AVISO DE GATILHO: TRAUMAS E ASSÉDIO. É... Enfim, leia com cuidado! Boa Leitura!

~Capítulo XLVI~

:: 86º dia na Itália — Semana 12 ::

[...]

Hazel não se lembrava de ter visto Nico chorar antes.

Sabia que ele a havia abraçado quando sua mãe morreu, chorando em seus ombros pequenos por horas e horas até adormecer, agarrado à ela como o último resquício de felicidade em sua vida. Ela sabia, mas não se recordava.

Nunca havia visto seu irmão ruir de verdade, com lágrimas dolorosas, altas e carregadas; no desespero de que cada um de seus gritos pudessem ser ouvidos por forças além das nossas, carregando as súplicas de um dia melhor.

Não até aquela noite no navio; a noite a qual ainda habita seus sonhos mais nebulosos. Mesmo após tantos anos desde que partiram da Itália, pensou que nada em toda sua vida, agora e no futuro, seria pior do que os gritos de agonia de Nico enquanto tinha seu ferimento cuidado pela senhora Indiana, mas ao recordar-se daquela noite no convés, Hazel se convenceu de que era uma mentira a qual contava a si mesma.

Foi muito pior.

Hazel chorava junto de seu irmão, angustiada e desesperada, pois a lamúria de Nico era tão terrível e agoniante que tremeu os céus, fez as nuvens irromperem em água e luz; acordou os deuses adormecidos no fundo dos mares mais profundos. A chuva estava intensa, a tempestade cruel no navio, ninguém no convés além dos dois. Ela escondida atrás da escada e ele encostado na amurada chorando.

Gritando, berrando, agonizando.

Hazel chorava junto, desesperada. Ele sentia dor, tanta dor, que ela queria poder ir até ele, mas não teve coragem.

Doía tanto, pois seu irmão estava em prantos, e ela não poderia ajudar.

Ele chorava como se o mundo tivesse acabado, e Hazel nunca se esqueceria daquele momento.

Jamais.

Hazel olhou para fora da carruagem encarando a grande mansão que crescia à medida que se aproximavam da entrada. Repuxou a roupa entre os dedos, assustada. Seu coração estava frenético enquanto sua mente emaranhava-se num turbilhão de pensamentos.

Hazel fechou a cortina da janela enquanto mergulhava em aflições. Desejava ver Nico desde o momento que Jason bateu à sua porta naquele dia soturno, três meses atrás. Ela deveria ter suspeitado de sua aparição sozinho, mas tudo o que ele fez foi dizer que Nico não poderia visitá-la nos próximos meses por conta de uma guerra que havia se iniciado no Caribe, mas que a amava muito e que estava deixando a quantia para o ano e alguns presentes.

Ela adorou cada vestido e cada joia que Nico lhe deu, com todo o amor que ele podia representar em bens materiais, substituindo sua ausência. Hazel não se ressentia, ela compreendia.

Quando a verdade veio à tona naquela carta que recebeu de Nico vinda de Ravenna, ela se sentiu a mais tola das mulheres no mundo. Quando Dylan bateu à sua porta, ela desejou poder voltar no tempo e exigir que Jason a levasse até o irmão para que cuidasse dele.

Para que fosse sua âncora quando precisasse.

Fechou os olhos para as memórias da visita, de Dylan prostrado de joelhos no chão, um pedido de perdão sincero de seus lábios. Contou sobre a retomada da mansão, a morte de Luke; o assassinato de Bianca.

Se forçou a remoer cada palavra de novo, e de novo, e de novo. Como uma piada amarga contada no pior dos momentos. Suspirou profundamente, apertando a carta de seu irmão contra seu peito.

Ele estava vivo, e bem.

Vivo e bem.

E Hazel só queria poder chorar o que estava segurando.



No instante em que se afundou em seu peitoral, chorando compulsivamente em uma felicidade infinita, Hazel soube que era aquilo que ela esperou por anos a fim. Não a mansão, não os bens perdidos de uma era de ouro. Aquele calor fraterno que a embalava na certeza de que tudo ficaria bem enquanto protegida nos braços de seu irmão mais velho.

Naquele momento, entre lágrimas e muita saudade, Hazel era a mulher mais feliz do mundo.

— Senhorita Hazel, precisa de algo mais? — perguntou uma das empregadas, sua atual dama de companhia pelo que Nico lhe contou.

Havia sugerido que ela ficasse mais confortável na mansão, trocando as vestes para algo mais casual, e que a esperaria na sala de desenhos para um chá e conversas longas entre eles. Hazel mal podia esperar por isso, pelo luxo de sentar com Nico ao seu lado, trocando conversas diversas entre os assuntos mais banais sem o medo dele desaparecer ao anoitecer.

Deu a volta no quarto, passando a ponta dos dedos nos móveis novos, na cama com dossel de madeira e seda azul, as cortinas alabastrinas e as poltronas posicionadas em frente à uma lareira aconchegante. Voltou a encarar sua dama que mantinha-se de pé próxima à porta.

Hazel negou:

— Não, estou bem, só admirando o quarto. O meu é do tamanho da varanda. — comentou divertida, apontando para a varanda espaçosa e agradável com a mobília azul clara dispersa no chão frio de pedra.

A dama sorriu para ela.

— Gostaria que eu chamasse as damas para ajudarem a se trocar?

Hazel a encarou, sobrancelha arqueada.

— Ah, não, tudo bem eu faço isso. Pode ir. — Hazel a dispensou um tanto desconcertada. Já era uma mulher adulta, podia colocar os vestidos sozinha, afinal de contas.

A dama se curvou brevemente, saindo do quarto. Hazel olhou para a porta fechada por longos segundos antes de sorrir largo, virar-se em direção à cama e se jogar sobre as cobertas grossas. Era macia e confortável, moldando-se ao corpo da garota que ria gostosamente com o rosto escondido no tecido azul.

— Isso é simplesmente surreal! — exclamou empolgada, encarando a seda do dossel caindo delicadamente em ondas acima da cama: — Nunca imaginei que eu voltaria para casa. Eu nem sabia que o Nico estava planejando voltar…

Hazel sentou na cama, cruzando as pernas, imersa em dúvida. Ela havia sido trazida da Holanda para morar definitivamente na mansão, e imaginava que Nico fosse fazer a mesma coisa, mas pensando por esse lado, ele tinha toda uma tripulação esperando por ele no Caribe. Nico tinha alguma intenção de abandoná-los para morar com ela? Hazel sequer podia exigir algo assim dele depois de tudo?

Respirou fundo, uma parte de sua euforia desaparecendo com sua preocupação. Mais alguém além dela sabia sobre sua vida com pirata? Afinal, Nico era Duque mais uma vez, e não conseguia imaginar uma forma de seu irmão deixar de ser uma segunda vez, não sem arriscar-se em planos idiotas com seus sorrisos vitoriosos enquanto sangrava para conseguir um mísero saco de pão.

“Coma, vai ficar tudo bem.”

Ela sacudiu os cabelos, espantando lembranças amargas demais para serem mantidas em sua mente. Saiu da cama atrás de seus pertences para se trocar, mas não conseguiu encontrar sua mala em lugar algum. Deu uma volta pelo cômodo abrindo a porta do closet.

Hazel deveria ter imaginado que Nico teria enchido o closet com roupas e todo tipo de acessórios da moda italiana, mas aquilo? Aquilo era insano.

O Closet era tão grande quanto seu quarto com vestidos de todas as cores e estilos pendurados e perfeitamente engomados. Os sapatos cuidadosamente alinhados nas prateleiras brancas; dezenas de chapéus, echarpes e luvas expostas na parede em frente à porta, além de caixas e mais caixas na parte superior dos móveis com acessórios intocados pelos empregados.

No centro dele um sofá confortável, uma pequena mesinha e estendido no chão um tapete azul que cobria o centro do closet de forma elegante e fina. Hazel definitivamente não estava preparada para aquele tipo de atenção. Era um luxo que Hazel não se lembrava de ter no passado. Talvez nunca tenha tido por ter deixado a mansão bem nova, criança demais para luxos assim.

Dois toques na porta a despertaram de seu transe momentaneamente. Hazel caminhou até a porta que se abriu antes que a alcançasse. Da porta surgiu uma mulher que Hazel não via há anos, com um dos sorrisos mais doces e gentis que ela jamais se esqueceria.

Perséfone entrou pela porta, tão magnânima quanto Hazel se recordava. Os cabelos loiros em cachos longos e fartos, o vestido verde-mar descia em leves ondas pelas anáguas sob o tecido, firmes em sua cintura pelo espartilho decorado com pedras e fitas de ouro. Tinha em seu colo um colar de esmeraldas belíssimo, um reflexo de seus olhos meigos de um verde claro e suave.

Ela abriu os braços, seus olhos aquosos. Hazel se deixou ser abraçada, afundou-se no calor materno de Perséfone, no cheiro de flores e romã que sempre a embalavam. Não conseguiu segurar as lágrimas, não quando sentia-se acolhida e amada novamente depois de cinco anos vivendo sozinha sob os cuidados de uma freira rigorosa.

Se permitiu chorar pela saudade, pelo conforto daquela mulher, pelo amor que parecia transbordar de cada parede daquela mansão, plantados cuidadosamente pelas pessoas que Hazel mais amava em toda sua vida.

Foi guiada por Perséfone até o sofá em frente à lareira apagada, acomodada ao lado de seu corpo, como uma garotinha que idolatra a mãe como sua figura protetora. Perséfone segurou seu rosto em suas mãos enluvadas, acariciando suas bochechas ainda tão infantis aos seus olhos.

— Como eu sonhei em poder te rever, minha pequena. — disse Perséfone, seu tom doce como uma manta envolvendo Hazel confortavelmente: — Pedi para ficar na mansão, mesmo que seu pai tenha ficado na casa de campo sozinho. Eu precisava revê-la, abraçar minha criança que sofreu tanto. Perdoe-me por não conseguir cuidar de vocês como eu deveria.

Hazel negou com a cabeça, segurando os pulsos de sua mãe.

— Não tinha como saber o que ia acontecer, mamãe. Seria impossível imaginar que o Luke iria trair meu irmão. — comentou entristecida, a raiva há muito dissipada pelo tempo: — Nico fez o que achou que deveria fazer. Ele cuidou de mim pelos últimos cinco anos, eu estou bem.

Perséfone sorriu mais amena, concordando com a cabeça num movimento elegante. Limpou os olhos com um lenço, respirando profundamente.

— Irei lhe confessar uma coisa. — disse a mulher em tom altivo, como se o momento de fragilidade já houvesse passado. Hazel ajeitou-se ao seu lado, curiosa: — Desde antes do casamento de Bianca, muito antes de Nico se perder em Malta, nunca considerei o antigo Conde como alguém decente, sequer digno de Bianca. Sua irmã era uma mulher de pulso firme, que tinha metas e as cumpria da forma que fosse necessária… Mas ela nunca conseguiu ver quem ele realmente era.

Hazel abaixou o olhar, a tez franzida.

— Vocês sabiam? Você e o papai?

Perséfone prensou os lábios, consternada.

— Suspeitávamos. — confidenciou, um rastro de raiva em sua voz eloquente: — Mas Bianca era alguém que não podia ser controlada ou questionada. Não havia o que fazer. Pedimos para que Nico descobrisse algo sobre Luke, que comprovasse sua vileza. Ele foi para Malta a pedido de Bianca, mas ele tinha uma segunda missão naquela viagem. Infelizmente, as coisas terminaram de forma catastrófica.

Hazel alargou os olhos, num misto de choque e assombro.

Ela não sabia disso. Muito do que aconteceu na época em que seu irmão se perdeu em Malta era um borrão em sua memória. Hazel tinha sete anos na época. Recordava-se de se agarrar a Nico e segui-lo para todos os cantos da mansão, mas não era nada de diferente de um dia casual em sua infância.

Nico sempre foi o centro de sua vida, de uma forma ou de outra.

— Nico sabe disso?

Perséfone assentiu:

— Sabe e se culpa até hoje por não ter feito nada. Na época, quando Bianca se casou, Nico não estava bem, Hazel. Ele estava perdido nele mesmo. Tinha tanta raiva naquele garoto, tanta destruição em seus olhos, que ele não conseguiu fazer o que precisava. — respondeu em baixo tom, como se a recordação de Nico a machucasse: — Ele manteve o Castellan em suas rédeas, nunca permitindo liberdades demais. Isso o manteve em silêncio até Nico assumir o Ducado. Depois disso, tudo ruiu.

Hazel concordou, ainda conflitante.

— Mamãe…

— Sim?

— Por que os soldados se viraram contra meu irmão?

Perséfone a encarou por longos instantes, como se pensasse com cuidado no que diria a seguir. Hazel tentava entender o que tinha acontecido para que a mansão traísse seu senhor, e por qual razão tiveram que se rastejar pelos becos da Holanda para sobreviverem como animais.

— Seu irmão… mudou, Hazel. De uma forma que assustou as pessoas ao redor. — sua voz, outra vez, tornou-se amargurada, como mais um de seus fracassos expostos naquela conversa: — O Nico que você conhece hoje não é o mesmo garoto que foi para Malta. Traumas mudam as pessoas, e soldados são facilmente desencorajados a seguir um senhor que é… bem…

Hazel arqueou a sobrancelha:

— Insano?

— Bom, sim. — Perséfone parecia desconfortável em dizer aquelas coisas.

Hazel teve que rir um pouco. Ali ela teve a resposta para sua pergunta anterior. Provavelmente ninguém ali sabia que Nico era, de fato, um pirata. Não pela forma desconfortável de sua mãe em admitir que Nico era uma pessoa cruel. Ela sabia disso, sempre soube.

Não conseguia imaginar seu irmão sem aquele brilho no olhar, um lampejo da insanidade de quem perdeu tudo e reconquistou a partir de restos e migalhas; de quem despencou de um precipício e o escalou de volta, as mãos feridas e sangrentas, apoderando-se do topo do mundo.

— Mamãe, sem querer ofendê-la, mas a senhora não conhece meu irmão. — brincou mais leve, esticando os braços no ar: — Me magoa saber que as coisas poderiam ter sido evitadas se vocês tivessem intervido, mas diferente de Nico eu não guardo rancor ou mágoa. Não mais. Não do evento em si.

Somente de Bianca.

Somente da pessoa que causou em seu irmão a dor mais angustiante em seu peito; por quem chorou em desespero, em um convés frio e deserto, assistido pelos deuses e amaldiçoado pelos homens.

Mas claro, sua mãe não precisava saber disso. Havia aprendido a guardar segredos ao longo dos cincos anos em que Nico havia se tornado pirata. Mais um segredo de dezenas? Ela poderia sustentar.

De repente, recordou-se de seu compromisso.

— Ai Deus, o chá! — exclamou horrorizada: — O Nico está me esperando, preciso me trocar.

Perséfone abriu um sorriso divertido para a filha, esticando o braço para um sino dourado ao lado do sofá, disposto em uma bandeja de prata belissimamente adornada. Tocou o pequeno instrumento, que com ele apareceram três damas na porta.

— Minha filha tem um chá com o Duque, a vistam confortavelmente, mas de acordo com a ocasião. — alertou a antiga Duquesa enquanto Hazel encarava as damas que começaram a se locomover pelo quarto, em viagens rápidas até o closet.

— Ah, eu não preciso de ajuda, mamãe.

Perséfone analisou seu vestido de cima a baixo com um olhar intrigante, como se caçoasse da dificuldade do que ela vestia e daquilo que passaria a vestir dali por diante. Hazel sentiu-se corar, apertando os punhos no vestido que ganhara de presente de Nico na última vez que a visitou. Ela sabia que era simples, mas era confortável e feito de tecidos bons e bonitos.

Uma das coisas que Hazel mais se orgulhava era o quão bem vestida Nico a fazia andar pelas ruas da Holanda.

Hazel estufou o peito.

— Onde estão minhas roupas? — perguntou para a dama que a havia acompanhado até o quarto.

— Estão no outro cômodo, senhorita. Junto com os pertences antigos do quarto. — respondeu rapidamente.

— Por que?! — exclamou irritada: — São os vestidos que eu ganhei de presente do meu irmão! Traga-os de volta!

Ela estava nervosa, claro que estava. Aqueles vestidos podiam até não ser o que uma dama da alta sociedade usasse, mas eram os tesouros preciosos de Hazel, cada um deles vieram juntos de histórias de seu irmão no mar, de abraços apertados e desfiles cheios de risadas no meio de uma sala apertada e aconchegante.

— Não irei usar nenhum dos vestidos que estão no closet. Quero o vestido azul turquesa que está na mala. — anunciou no instante que a dama voltou com seus pertences: — Não preciso de ajuda, podem ir.

— Hazel. — Perséfone a censurou: — É o trabalho delas vesti-la. E de preferência um vestido adequado.

Hazel sorriu para a mãe, um sorriso que aprendeu com seu irmão ao longo dos anos. Cortante, educado, firme como uma ordem não proferida. Ela não era mais uma criança que se agarrava ao paletó de Nico pelos corredores da mansão.

Ela era uma mulher criada por um pirata.

— Irei me trocar agora, mamãe. Se me der licença. — sugeriu mansa, calma. O sorriso congelado em seu rosto.

Perséfone abaixou o olhar, compreendendo a dispensa. Ergueu-se do sofá, gesticulando para que as damas fizessem o mesmo.

— Acho que agora eu entendo. — foi tudo que Perséfone disse antes de deixar o quarto.

Não havia mais nada a ser dito, afinal.



Hazel se aproximou da sala de desenhos, sendo guiada por sua dama de companhia. A mansão era tão imensa quanto Hazel se lembrava, cheia de corredores largos, decorações romanas e o papel de parede azul que vivia em suas memórias mais antigas.

O cômodo era agradável e espaçoso. Havia um conjunto de sofás próximo a lareira, todo estofado em tons azulados e dourados, tal qual seu quarto e os móveis no corredor. Um quadro com uma arte romana pendia por cima da lareira, imenso, colorido de uma forma violenta aos olhos. No canto próximo à sacada aberta, um piano branco de cauda, belíssimo com adornos dourados em sua tampa. No outro extremo, estantes repletas de livros e decorações antigas. Uma mesa de mogno separava uma estante da outra com um candelabro e travessas com decorações belíssimas.

Na mesa redonda, de frente para as estantes e da outra sacada aberta, estava Nico, sentado confortavelmente com um livro em mãos enquanto esperava por Hazel. Sentiu seu coração vacilar mais uma vez com a imagem de um Nico tão pacífico em uma casa segura e confortável.

Estava vestido de preto como habitualmente usava. Tinha um broche belíssimo em sua gravata branca com uma pedra azul que chamou sua atenção desde quando a viu no hall da mansão. Nico manteve metade do cabelo preso para trás, enquanto o resto caía em ondas por sobre seu ombro. Estava mais comprido do que ela se recordava.

Nico ergueu seus olhos para a porta. Ainda que aparentasse tranquilidade, seu olhar era feroz e intenso; ainda era um pirata por baixo de linho e joias.

Nico sorriu largo, erguendo-se da cadeira e indo até sua irmã.

Hazel envolveu seu pescoço enquanto Nico a puxava para um abraço. Sentiu um beijo em sua têmpora e sorriu amorosa. Nico a afastou, observando-a com carinho.

— Esse vestido é familiar. — comentou divertido, sabendo bem quem havia lhe dado ele. Hazel rolou os olhos, mas deu uma volta no lugar, o vestido rodopiando junto dela.

— Talvez ele seja. — disse risonha, alegria transbordando de seu peito. Nico sorriu largo.

— É, eu tenho mesmo bom gosto.

Hazel lhe acertou o braço, enquanto Nico continuou a rir.

— Você é muito tonto. — reclamou Hazel, caminhando até a mesa.

— E você está linda. — respondeu de forma suave, afagando seus cabelos fartos. Hazel não conseguia tirar o sorriso do rosto. Nico a guiou até a cadeira, puxando-a para que se sentasse confortavelmente: — Então, tem mais de um ano que não nos vemos, porque não me conta como passou ele?

Com um sorriso impossivelmente alegre em seu rosto, Hazel lhe contou tudo.

Contou sobre a festividade a qual participou na primavera, onde dançou junto de suas amigas nas músicas agitadas e calorosas. Contou sobre a época de chuva, das goteiras que tinham na casa e que precisou consertar com o dinheiro que Nico deixou para ela; explicou sobre a discussão entre os dois soldados aposentados duas casais abaixo, gritando um para o outro de suas janelas em lados opostos da rua.

Falou sobre seu novo hobbie, sobre a paixão pela pintura que desenvolveu no último ano e no caderno que trouxe junto dela para lhe mostrar seu progresso. Nico a encorajou a continuar, disse que compraria materiais para que ela pudesse investir nisso. Propôs contratar um professor de artes, se ela preferisse. Hazel prometeu pensar, se deixando afundar na conversa confortável.

Outro chá foi trazido após o deles esfriar, e mesmo assim a conversa parecia eterna, tal qual a saudade e o desejo de continuar naquela sala, só eles dois, num companheirismo que Hazel finalmente poderia dar ao seu irmão mais velho.

Hazel olhou em volta, para os poucos empregados no cômodo antes de encará-lo de volta.

— Pode dispensá-los um pouco? — pediu Hazel em baixo tom, temerosa de acabar ofendendo um deles.

Nico concordou com a cabeça, gesticulando com os dedos. Como se entendessem o gesto, os três empregados deixaram a sala de desenhos, ficando somente Nico e Hazel.

— O que foi, Hazel?

— Quero saber dele. — comentou animada, ambos cotovelos apoiados na mesa, seu rosto sobre suas palmas em concha, ansiosa para descobrir mais sobre o amante do seu irmão.

Até aquele instante, Hazel tinha certeza de que seu irmão estava sendo totalmente ele mesmo com ela, mas depois que os empregados saíram e com a simples menção de William Solace feita, Nico deixou todas suas barreiras caírem de uma só vez.

Um sorriso irrompeu seu rosto, tão quente e primaveril como as flores desabrochando na primavera. Seus olhos quase se fechando com o tamanho de seu sorriso resplandescente.

Hazel nunca o viu daquela forma tão vivo.

— Por Deus, Hazel, ele é incrível. — disse Nico num suspiro apaixonado, como se não houvesse barreiras de idade e gênero entre eles. Eram dois irmãos falando de amantes e amores: — Will é muito doce e gentil, faz de tudo para que me sinta confortável, mesmo que só a presença dele já seja um conforto. Foi o primeiro homem a quem eu entreguei meu coração inteiramente, sem nenhum medo ou remorso de tê-lo feito, porque eu sei que ele cuidará dele com toda devoção do mundo.

Hazel exclamou excitada, totalmente animada pelas palavras de seu irmão.

Você está apaixonado! — Hazel afirmou espantada, como se houvesse assimilado aquele fato só durante a conversa: — Isso é maravilhoso, perfeito! Precisa trazer ele para a mansão! Podemos deixá-lo como nosso médico, já que precisam ficar escondidos. Podemos fazer altos planos, seria tão incrível!

Nico negou, ainda mantendo o sorriso no rosto.

— Ele não virá. Tem muita coisa acontecendo no momento, não é hora para isso. — Nico a interrompeu gentilmente, uma mão enluvada envolvendo a sua: — Além disso, temos que conversar sobre o que vai acontecer daqui por diante.

Hazel queria discordar, mas algo em seu olhar a fez se calar, entendendo a atmosfera repentinamente mais pesada. Hazel assentiu duas vezes, pressentindo que a conversa não seria das melhores.

Ao final dela, Hazel compreendeu que aquele chá entre os dois era provavelmente o último.

Nico

— Não se preocupe, Vossa Graça, não creio que seja uma proposta indelicada. — a matriarca da Família do Condado de Bréscia, Li-Yu Zhang, afirmou em tom altivo.

Nico concordou com a cabeça, ajeitando-se na mesa externa no jardim. Havia convidado a família do Conde para um chá para tratar do último de seus assuntos pendentes. Com exceção da festa de Phillip em seu jardim cinco anos atrás, onde recordava-se de ter convidado a família Lombardi, nunca antes trocaram cartas ou interesses pessoais.

Eram famílias nobres isoladas, cada qual vivendo sua vida em seus círculos pessoais reclusos. Nico precisava quebrar aquela barreira, invadir e conquistar o mais rápido que lhe era permitido.

Não havia margens para erros, não tão próximo do Baile de Primavera.

— Fico mais em paz, Madame. A proposta que faço à tua família foi pensada cuidadosamente entre o Imperador e eu. — explicou Nico, cruzando as pernas elegantemente sob a mesa: — Sua família tem alta influência na Sociedade Nobiliária, e nos seria de imensa gratidão se pudessem pensar nesta proposta.

O Conde de Bréscia, Vincenzo Lombardi, suspirou profundamente, como se a ideia lhe fosse conflitante.

— Vossa Graça, meu filho ainda é um rapaz imaturo e infantil. Talvez devesse pensar em alguém que possa cuidar das coisas com mais pulso e experiência. — propôs o Conde, seu tom forte e decidido.

Nico apertou os olhos, afiado.

Era uma oferta generosa a de Nico, e não seria surpreendente que o Conde almejasse tal honra no lugar de seu filho ainda tão jovem. Nico precisou conter-se naquele instante, segurar uma resposta amarga, pois precisaria do apoio deles dali por diante. Gesticulou para além do jardim, para o casal de jovens caminhando calmamente pelo gramado com uma dama de companhia ao lado.

Sua irmã brilhava na luz do sol com o vestido rosa que havia lhe dado no dia anterior, adornado em um corset suave e delicado. Tinha um sorriso belíssimo, com os cachos fartos e soltos erguidos pela brisa suave da primavera. Naquele instante, Hazel era parte de um cenário abstrato, surreal ao entorno que se encontrava; separada das conversas adultas exaustivas e nebulosas.

Ao seu lado, o filho herdeiro dos Lombardi, Frank Fai Zhang Lombardi, mantinha a postura ereta entre sorrisos sinceros e gestos educados entre um diálogo e outro. Aos seus olhos, eram duas crianças se conhecendo, se dando a oportunidade de talvez compartilharem de algo à mais no futuro.

Era isso que Nico precisava.

— Se você me disser que há alguém melhor para desposar minha irmã, creio que superestimei sua família e interesses. — Nico comentou, endurecendo seu tom: — Não pretendo entregar a mão de minha irmã a qualquer homem que possa ter um controle definitivo do Ducado, não é disso que estou atrás. Quero alguém que cresça e aprenda junto de minha irmã, que não a manipule por desejos cruéis de homens que se sentem no direito de decidir quem será poupado de tuas ambições e ganâncias.

O Conde Lombardi travou o maxilar, respirando profundamente numa derrota claramente hasteada.

A matriarca soltou uma risada escandalosa, fora de qualquer etiqueta nobiliária que Nico era familiar. O sorriso dela foi sagaz, como se lesse as entrelinhas de suas palavras raivosas.

— Vossa Graça é de fato como as conversas dizem: um homem de palavras ácidas e irrefutáveis. — seu comentário foi sincero, sem nenhum rastro de maldade: — Parece que a proposta nos fará mais bem do que mal, afinal de contas.

— De fato. Claro, é uma proposta de noivado que se manterá até a maioridade de seu filho, aos vinte um anos. São três anos de noivado, e minha irmã possui o direito de anulá-lo por qualquer que seja a situação ou motivo. — relembrou Nico, gesticulando para Perséfone ao seu lado: — Não só ela, como nossa mãe detém de toda a organização e controle absoluto do noivado, considerando nossa Classe Social e conexões. A partir de hoje, Hazel estará sob os cuidados de Perséfone di Angelo, e um noivado será oficializado com a família Lombardi. Tenho vosso consentimento?

Os dois membros do Condado na mesa se entreolharam numa conversa silenciosa e rápida. A madame Zhang sorriu, concordando educadamente.

— Sim, Vossa Graça, temos um noivado para organizar.

Faltando apenas um dia para o Baile de Primavera, Nico se afundou em documentos antigos e escrituras vencidas de uma organização precariamente feita pelo Castellan. Mesmo estando na mansão pelas últimas duas semanas, quanto mais seu mordomo e ele vasculhavam os documentos, mais falhas e débitos eram encontrados.

Por sorte, somente o Duque tinha acesso aos tesouros do Ducado e pode usar da reserva dos últimos cinco anos para pagar tudo que o Castellan deixou acumulado. Quão tolo aquele homem era por acreditar que poderia exercer o título de Duque enquanto mal sabia organizar as finanças pessoais de uma mansão?

Nico parou de escrever momentaneamente, esfregando o rosto cansado da noite em claro. Eram muitos assuntos para tratar, muitas cartas para enviar, um dote para finalizar até o final do dia. Não sabia como conseguiria dar conta de tudo aquilo sem ter um colapso.

Deixou a pena no tinteiro, apoiando as costas na cadeira. Christiano estava de pé ao seu lado, aguardando por algum pedido do Duque. Nico gesticulou para Louis se aproximar.

O mordomo se curvou rapidamente, num gesto educado em frente ao Duque.

— Vossa Graça, precisa de algo?

— Um chá e algo para comer. — respondeu calmamente, sentindo uma fome repentina depois de tanto trabalho.

O mordomo se curvou outra vez, deixando os aposentos para repassar suas ordens. Chris caminhou até sua mesa, organizando seus papéis como vinha fazendo pelos últimos dias. Havia se acostumado com a desorganização de Nico e aprendeu a colocá-la em ordem da forma que o Duque preferia.

Pelos minutos que se seguiram na sala, no silêncio confortável de papéis sendo organizados e a brisa entrando pela janela, Nico permitiu sua mente viajar por alguns instantes, perdida em uma memória doce demais para não ser apreciada. Se imaginava em outra mesa mais gasta e corroída pela maresia, no cheiro do sal e do mar, nos papéis espalhados em sua mesa que nada tinham a ver com documentos e cheques.

Recordava-se do som de risadas, do barulho de algo desabando nos andares inferiores, da voz do Valdez ecoando em risadas e pedidos de desculpas.

Sentia uma mão em seu ombro, um rosto severo de um imediato irritado por outra refeição ignorada, mas tinha em suas mãos um prato com os ingredientes melhor preservados de todo navio. Vai precisar que eu te trate como uma criança, Nico? Coma logo isso antes que desmaie por aí!

Sorriu largo, uma saudade impossível de conter. Desceu seus dedos para seu abdômen, onde havia uma tatuagem desbotada e um ferimento perverso; memórias do início de uma vida no mar e outra em uma casa aconchegante e terna.

Nico não tinha mais dúvidas do que faria depois que deixasse a mansão. Sabia o que queria, o que seu coração almejava ter no final de tanta carnificina e manipulações em solo firme.

Uma decisão formada e a dor do abandono.

No fundo, Nico almejava poder ter ambos desejos, ser egoísta e cruel ao ponto de exigir e tomar; saquear e pilhar o que seria seu por direito, mesmo não tendo tal privilégio de considerá-lo sua propriedade.

William Solace não pertencia a ninguém senão a ele mesmo.

Seu mordomo bateu na porta, despertando-o de sua pequena distração lamuriosa.

— Vossa Graça, o Marquês di Stefano está aqui para vê-lo. — anunciou Louis, aguardando instruções de Nico antes de permitir que o homem entrasse.

Nico torceu o lábio, imaginando o motivo da visita do Marquês. Havia pensado que ter uma arma apontada para seu rosto seria mais do que motivo o suficiente para espantá-lo, mas pelo visto Enrico era bem mais insistente do que Nico se recordava.

Chris se aproximou da mesa, o olhar agressivo em seu rosto, similar à primeira visita do Marquês em sua tenda antes da batalha. Nico não estava com paciência para lidar com nada daquilo.

Suspirou, cansado.

— Deixe-o entrar, Louis. Chris, saia por enquanto.

Christiano o encarou por longos instantes, uma preocupação clara em seu rosto. Nico sorriu para ele, tentando lhe passar algum conforto. Ele ficaria bem, Enrico não era um problema.

Compreendendo seu desejo, Christiano deixou o escritório pouco antes do mordomo permitir que o Marquês entrasse, deixando a sala na presença de somente ambos nobres e seu passado conturbado.

O Marquês retirou o chapéu, deixando as madeixas ruivas despencaram em cascatas suaves por seu ombro. As sardas em seu rosto eram ainda mais evidentes na claridade da sala, no contraste com sua roupa em tons de verde-esmeralda. Seus olhos faiscavam um misto de interesse e raiva, o que deixou Nico ligeiramente intrigado.

Nico se inclinou para frente, apoiando ambos os braços na mesa de mogno.

— Perdeu alguma coisa na mansão, Enrico?

O Marquês suspirou:

— Acho que perdi, e é por isso que vim até aqui. — confessou indiscreto, descartando seu chapéu no sofá ao lado. Nico arqueou a sobrancelha, cético: — Mas não acredito que será fácil encontrá-lo depois de tantos anos.

Nico respirou profundamente.

— Ah, tenho certeza de que você não irá encontrar o que procura, mas aprecio sua dedicação. — sibilou de forma perversa, o sorriso ardiloso tomando seu rosto.

— Urgh, não seja assim! — resmungou Enrico, claramente exausto: — Não podemos simplesmente tentar consertar os erros do passado? Não posso permitir que as coisas se encerrem desta forma, não depois de tudo que vivemos.

Não me faça repetir, Enrico. — Nico bradou, a raiva voltando a aflorar em seu peito: — Não somos amigos. Qualquer intimidade que tínhamos no passado ficou pra trás. Quando vai deixar de insistir nisso?

— Eu não posso! — Enrico exaltou-se, respirando profundamente antes de continuar: — Porque eu ainda me importo, porque eu ainda sinto alguma coisa por você, Nicollà.

Nico inflou o peito. Odiou ouvir aquilo, odiou como nunca antes odiara uma declaração em sua vida. Ergueu-se da mesa, dando a volta no móvel. Não tinha uma arma com ele, mas não precisaria chegar a tanto em um ambiente repleto de soldados do lado de fora do escritório.

— Eu não me importo, Enrico. Não tenho intenção alguma de reviver o que tínhamos, porque eu não sinto nada por você há muito tempo, tempo o suficiente para ter esquecido de sua existência. — o encarou nos olhos, sentindo-se fervilhar, submerso em ódio e ressentimento: — Você não significa nada para mim, e não sinto nada além de nojo por sua presença em minha sala.

Enrico arfou angustiado, seu rosto se contorcendo em desgosto e raiva.

—Saia daqui antes que eu chame os soldados.

Enrico engoliu em seco, abrindo e fechando a boca como se fosse dizer algo, refutar um Duque em suas palavras finais. Nico não lhe deu importância, sequer manteve contato visual por mais tempo do que o necessário antes de dar as costas para o Marquês.

Foi a primeira vez em anos que deu as costas para um inimigo.

E teve de pagar o preço.

Sentiu a mão de Enrico em seu pulso, puxando-o para trás com violência. Nico enrijeceu, os olhos arregalados no choque ao ser pego desprevenido. Se virou totalmente para ele, armando um soco com a mão livre, no instinto gritando em seus ouvidos, na adrenalina de uma briga iminente.

Enrico o empurrou para trás, tirando momentaneamente o equilíbrio de Nico. O soco lhe acertou no rosto, mas fraco demais para pará-lo antes que tocasse seus lábios nos de Nico.

Foi como um choque percorrendo seu corpo, doloroso, cruel; impiedoso.

Perdeu o controle total da sua mente ao sentir-se encurralado em sua mesa, em lábios desagradáveis nos seus, mãos em sua cintura; um joelho entre suas pernas.

Queria debater-se, mas não conseguia, sua mente estava em curto, gritando e berrando. Se viu imerso em pânico e desespero, revivendo memórias, se sabotando como sempre o fazia.

Uma mão pesa, um sorriso maldoso, um sussurrar em seu ouvido ao arrancar gritos desesperados de seus lábios.

Não me toque!

Não me toque!

Não me toque!

Não me toque!

Nico conseguiu desferir um soco em sua mandíbula, fraco, mas certeiro o suficiente para afastá-lo, para agarrar o vaso em sua mesa e acertá-lo no rosto com a porcelana pesada; o suficiente para que sentisse o tremor de seu corpo sem controle quase levá-lo ao chão.

NÃO ME TOQUE! SAIA DAQUI, VAI EMBORA! — gritou a plenos pulmões, berrou em agonia pela dor que corria por sua pele, nas lágrimas que queriam irromper de seus olhos.

Enrico estava no chão, com o rosto sangrando pela porcelana certeira. Viu Romeu e Alessandro entrarem apressados, espadas em riste e feições severas. Não podiam ficar, não com ele naquele estado, não com Nico à beira de um precipício.

— SAIAM TODOS! TIREM ELE DAQUI, AGORA! SAIAM! — ordenou raivoso, colérico: — Nunca mais volte aqui! Está proibido de entrar nesta mansão, de me dirigir a palavra! Nunca mais, nem depois de minha morte, nem de meus familiares ou descendentes. Desapareça da minha vista! Morra, suma, não me importo! SÓ VAI EMBORA!

Pela primeira vez em anos Nico perdeu o controle de sua raiva. Pela primeira vez em anos, Nico sentiu mais uma vez a dor daquela viagem maldita para Malta; as sequelas que seu corpo insistia em recordar.

A sala se esvaziou e Nico despencou ao chão, fraco, lesionado, fragilizado. Encostou as costas na mesa deixando as lágrimas descerem por seu rosto, o tremor de seu corpo desaparecer aos poucos de seu sistema. Escondeu seu rosto nos joelhos, tomado por uma angústia mortal.

Will…

Sussurrou seu nome, ainda que não pudesse ser ouvido de tão longe.

Nico queria ir embora dali, queria ser acolhido mais uma vez num abraço seguro, numa casa que era verdadeiramente sua. Pela pessoa que ele aprendeu a amar do fundo de seu coração.

Ele não aguentava mais.

— Nicollà, não deveria socializar melhor com os nobres? — Perséfone questionou ao seu lado, no meio do salão do Baile de Primavera.

Nico se virou para sua mãe, a mente distante e desligada. Deu um sorriso mordaz, gesticulando para sua irmã em meio aos jovens de sua idade. Ele havia acompanhado Hazel ao baile, apresentado-a aos nobres da festa e suas filhas, deixado com que conversasse com Pietro por alguns minutos antes de instruí-la a se divertir com outras garotas que debutariam naquele ano como Hazel o faria.

Teve sua parcela de diálogos com Matteo e Pietro, trocas de elogios e promessas vazias, além de expor a proximidade da família Lombardi outrora tão distante. Não havia mais nada para Nico fazer naquela festa além de sentir-se exaurido.

— Já fiz o que precisava fazer, minha mãe. Está tudo bem. Tudo da forma que havia planejado. — garantiu num fio de voz. Era a segunda noite que passou em claro, sua mente devorando-o de dentro para fora.

Não estava se sentindo muito bem.

— Entendo. Você é o chefe da casa, confiarei em suas palavras. — garantiu a mulher, apoiando uma mão em seu ombro, o olhar severo: — Está pálido, se sente mal?

Nico ia responder, mas precisou se apoiar na bengala ao sentir sua mente girar. A mão de Perséfone o segurou pelo antebraço enquanto sua mão ia de encontro com a mesa ao lado deles.

Não era sua intenção chamar atenção na festa, mas no instante em que sua vista voltou a clarear estava rodeado de nobres e alguns empregados do Palácio. Hazel apareceu ao seu lado, olhos largos e assustados.

— Nico! Está tudo bem? Se sente mal? — questionou nervosa, correndo seu olhar por seu corpo curvado.

Nico soltou uma risada gentil.

— Não se preocupe comigo. — garantiu Nico erguendo-se mais uma vez.

Os empregados do Palácio lhe trouxeram uma cadeira para se sentar, instruções do próprio Imperador, Nico imaginou. Não havia comido nada desde o café e esse era o motivo perfeito para sua diabetes lhe agraciar com sua presença desagradável.

Hazel lhe entregou um copo de suco, despertando-o um pouco do topor da glicemia baixa. Sorriu reconfortante para ela, a mente ainda aérea e fora de centro.

O som da orquestra parou, e o Imperador foi anunciado. Todos se curvaram na presença de Leopoldo I, no topo da escada, em sua magnitude e soberania.

Ao longe, cumprimentou Nico com um menear de cabeça antes de começar com seu discurso, parte dele já conhecido por Nico daquela manhã angustiante, prostrado frente à seu juiz em uma sala do trono vazia.

As palavras fortes ecoaram pelo salão, ditando com diversos detalhes omitidos os feitos de Nico e as vidas perdidas naquela batalha. Viu poucos olhares de nobres horrorizados, já outros com sorrisos faceiros escondidos por leques e luvas. Era um antro de víboras, não muito diferentes do Castellan e seu desejo por poder.

Todos ali desejariam estar tomando o título de Nico naquela noite.

— Depois de uma longa conversa com o Duque de Veneza, fiquei a par de sua saúde deteriorada ao longo das anos e como uma forma do Império se desculpar por negligenciarmos tamanha crueldade para com os di Angelo, o Duque irá se retirar para o litoral sob minha benção, deixando o título para trás. — seu anúncio submergiu o salão num silêncio mortal.

Perséfone se virou para Nico, tão surpresa quanto Matteo o Pietro. Não pode deixar de esboçar um sorriso inocente, como se aquele fato não fosse o motivo pelo qual passou as últimas semanas aprisionado em seu escritório.

Hazel apoiou sua mão em seu ombro, se mantendo ao seu lado.

— Por conta de seu distanciamento um novo Duque será nomeado. — Leopoldo I gesticulou para Frank ao lado da Madame Zhang: — Frank Fai Zhang Lombardi se tornará o novo Duque de Veneza, assumindo os compromisso outrora pertencente à família di Angelo. A mansão di Angelo e seus territórios, entretanto, serão mantidos como herança familiar.

Frank se curvou respeitosamente ao Imperador, aceitando o cargo que lhe foi entregue; a confiança para um serviço tão delicado. Palmas ecoaram pelo salão ao novo Duque emergindo frente aos olhos de dezenas de nobres.

Ao final do baile, com Frank pedindo a mão de Hazel publicamente, dedicado em torná-la na futura Duquesa da mansão onde cresceu e passou sua infância, Nico pode finalmente sentir que havia encerrado aquele ciclo vicioso entre seu passado e seu futuro.

Aquela seria a última vez que usaria o nome di Angelo.

Notas finais
Eu DISSE que o Enrico ainda ia voltar, porque infelizmente tem gente que não aceita um "não", mesmo que ele não esteja verdadeiramente interessado. Nico noivou a Hazel com o novo Duque, fingiu que ta morrendo pra fugir das obrigações (quem dera eu) e no final terminou traumatizado. Ain, o Will precisa dar um abraço nele Farei isso acontecer, não se preocupe. E finalizamos oficialmente esse arco, entrando no último. Decisões serão feitas e uma guerra no Caribe será narrada. Ain, animada estou! Saudades da minha tripulação amada. Até a próxima att, amores! Beijinhos~