Pit-a-Pat

49 Capítulo XLVII


Notas iniciais
Bom dia meus amores E como prometido, o primeiro capítulo do nosso último arco! Ah, nem posso acreditar que já estamos aqui, foi uma jornada tão longa! Obrigada mesmo pelo carinho e paciência de vocês até aqui, vocês quem me dão forma pra continuar a escrever todos os dias, mesmo que PaP não seja sempre a história a qual eu me envolva, meu desejo por escrever só é forte porque tenho o apoio de vocês, e isso é sem preço pra mim Enfim, não vou te segurar mais! Boa leitura!

Will

~Capítulo XLVII~

:: 92º dia na Itália — Semana 13 ::

[...]

— Will, recebi uma carta do Dylan! — exclamou Kayla ao entrar na sala de estar, a feição radiante com a notícia há muito esperada.

Will ergueu o olhar de seu sobrinho para ela, sorrindo tão empolgado quanto a irmã.

— Finalmente ele respondeu. Já não era sem tempo. — comentou Will ajeitando Lorenzo em seu colo. O pequeno brincava com o cavalo de madeira, entretido em seu próprio mundo, distante da conversa dos adultos.

Kayla se sentou na poltrona, abriu a carta e leu seu conteúdo em sua euforia palpável. Will esperou por algum comentário da irmã sobre a carta, qualquer coisa que pudesse complementar as notícias dadas por Nico. Um princípio de nervosismo o acometeu.

Havia recebido dezenas de cartas de Nico naquela caixa de tesouros, contando cada pequeno detalhe de sua jornada na batalha pelo Ducado — mesmo tendo a ciência de trechos omitidos das cartas, de ações as quais Nico não queria que Will soubesse.

Ele entendia. Depois de todo aquele tempo aprendeu a entender a natureza do medo de Nico de que Will visse demais de seu mundo. Quando mais fundo você mergulha no abismo, mais de sua luz é consumida pela escuridão até não restar nada do que você era antes da jornada ao fim; o que resta é uma carcaça vazia de emoções, mas carregada do mais vil dos sentimentos.

Nico não queria Will envolvido nisso, e Will aprendeu a respeitar esse desejo singelo.

E, por conta disso, temia que algo pudesse ter acontecido desde sua última carta, algum detalhe omitido por Nico que não o preparou para o pior. Respirou fundo, depositando Lorenzo no tapete que aproveitou a liberdade do chão para se rastejar ao redor da mesinha de centro, depositando seu cavalo na superfície como se fosse seu território sacro.

Ah! — Kayla exclamou animada, assustando tanto Will quanto Lorenzo que caiu para trás no chão, o princípio de um choro se formando em seus lábios trêmulos.

Will se ajoelhou ao seu lado, acudindo o sobrinho assustado.

Kayla. — William a repreendeu, severo.

— Ah, me desculpe. É que eu posso voltar para minha casa ainda hoje! — comentou entusiasmada, o olhar suave e aliviado de alguém que ansiava por seu lar há mais de um mês, confinada à uma casa que não era mais sua há vários anos.

Will arregalou os olhos.

— Casa? Então acabou?

Sim! Ele não fala sobre a Vossa Graça, então não sei o que aconteceu com ele, mas Dylan me permitiu voltar e cuidar dos meus afazeres. — explicou emocionada, entregando-lhe a carta para que lesse. Will franziu o cenho, não querendo ler as intimidades de sua irmã mais nova. Kayla soltou um risinho bobo: — Se tivesse algo pessoal nessa carta eu nunca lhe mostraria.

Aceitando a garantia da irmã, Will pegou a carta ficando de pé com Lorenzo no seu colo. O pequeno se inclinou na direção dos braços da mãe, sendo abraçado pela mulher em êxtase.

A guerra havia oficialmente terminado, e tudo se resolveu da forma mais pacífica que poderiam ter previsto. Dylan comentou na carta que se encontraria com Kayla em sua casa dali dois dias, e que teria muito para dizer pessoalmente.

Decidido a não ler além do necessário, William dobrou a carta lhe devolvendo.

— Então, quando vai partir? — questionou curioso, um tom solitário em sua voz baixa.

Kayla sorriu para Will, envolvendo sua cintura com seu braço livre. Will depositou sua mão no topo de seus cabelos soltos.

— Eu volto pra te visitar, Will. Prometo. — garantiu a caçula, apoiando a têmpora em seu peitoral.

Will afagou seus cabelos com carinho, retribuindo o gesto cálido de sua irmã mais nova. Lorenzo se enfiou entre eles, numa feição ofendida de quem demanda atenção exclusiva. Ambos riram dele, bagunçando seu cabelo ralo.

— Então, vou aproveitar para visitar o Senhor D, já que você vai tornar a convivência nesta casa um pesadelo. — comentou divertido ao se afastar da irmã, indo até seu escritório.

—Melhor ir mesmo, só irá atrapalhar minha arrumação. — ralhou a caçula, caminhando para o Hall: — Briella! Preciso que organize meus pertences, vamos partir em duas horas!

Pelo próximo quarto de hora, a voz de Kayla se tornou um eco constante na casa entre ordens em alto tom e resmungos baixos sobre desorganização e “pouco tempo para ir embora”. Fugir um pouco daquele ambiente barulhento seria a melhor coisa que Will poderia fazer antes de ser envolvido na arrumação por sua caçula.

Juntou seus pertences na mala, as ervas que o Senhor D normalmente usa, e deixou a casa absurdamente agitada. Caminhou calmamente pelas ruas de terra batida, tranquilas em uma tarde agradável de fim de Primavera.

Respirou o ar puro, sorrindo para o frescor em seus pulmões, o aroma da maresia invadindo seus sensos anestesiados por tantos dias recluso em seu escritório, na companhia somente de cartas aromatizadas e caligrafias ornamentais.

Alargou um sorriso, se deixando alimentar de seus sentimentos mais pueris, de um futuro pacífico aguardando Nico depois de tanta dor e desespero, da possibilidade de vê-lo mais uma vez antes que Nico decidisse finalmente o que faria dali por diante. Se ficaria em Ravenna ou se retornaria aos mares, reivindicando seu nome ecoante nos quatro cantos da terra.

Will não conseguia imaginar a escolha de Nico, nem o tipo de futuro que o aguardava depois de seu diálogo com o Imperador — que outra vez lhe foi brevemente citado e altamente omitido —, ainda assim, qualquer que fosse a escolha de Nico teria o total apoio de Will.

Dizem que leva anos para uma pessoa comum atingir conhecimentos vastos e plenos o suficiente para considerar-se um sábio; para ser definido como aquele que trava suas batalhas e evolui como nenhuma outra pessoa ordinária conseguiria. Crescendo em meses o que levaria anos.

Will não era um sábio, eremita ou erudito. Era um doutor que viu coisas além de sua compreensão nos últimos três meses, em noventa dias de angústias e questionamentos; sonetos sacros e falácias malditas.

Não se considerava um homem evoluído, mas havia crescido naquele mês distante de Nico, na pequena solidão que se criou em seu peito, na falta que se fez uma presença tão forte e ominifulgente quanto o próprio sol nos dias mais quentes de verão.

Nico não era um ser de luz, mas ninguém nunca parou para se questionar se o sol é, de fato, um astro benigno ou se só está longe demais para nos fazer mal. Nem toda luz provém da bondade. Nico era luz, mas não era bom; não para o mundo.

Mas era para o Will. Era tudo que ele desejava nos últimos dias, desde seu despertar ao sono irrequieto em sua cama vazia. A pequena luz que invadiu sua vida meses atrás e o viciou em sua presença calorosa e imprevisível.

Will descobriu que amava o caos que Nico lhe proporcionava.

Quando chegou na casa do Senhor D, Will lhe prescreveu ervas medicinais mais potentes, ainda que soubesse que não teriam resultado após tantos anos tendo seu fígado destruído pelo álcool. Ariadne aceitou as ervas, oferecendo um chá e uma conversa franca entre eles.

Foi a primeira vez que se sentou na varanda da casa do Senhor D e teve uma conversa real com Ariadne, onde pode explicar para ela a situação complicada de seu marido, a possibilidade de não ter muito o que fazer além das ervas que Dionísio já havia tomado em excesso.

Mesmo a medicação se torna nociva ao corpo com o tempo.

Ariadne ouvia impassível, o olhar distante no jardim de sua casa. Não bebeu do chá, sequer se atreveu a oferecer mais um pouco para Will que também manteve a sua xícara intocada. Esperava que a Senhora dissesse algo, talvez um ato de repúdio como o Senhor Barteles, ou o desespero amargurante da Senhora Barteles.

No final, ela não fez nenhum deles.

— Eu sempre soube que a bebida seria uma das coisas que nos separaria, mas nunca pensei que fosse chegar tão logo. — confessou, levemente transtornada. Voltou a encarar o doutor, os olhos cansados e sôfregos de quem luta batalhas perdidas pela incapacidade de hastear a bandeira branca: — Obrigada por sua honestidade, William… Acho que, daqui para frente, estarei cuidando dele sozinha.

Will se inclinou em sua direção, um sorriso triste em seus lábios.

— Não estará sozinha. Ele ainda está aqui, e estará por mais um tempo. — garantiu Will apertando sua mão com afeto e compaixão, sua tristeza velada em seu peito com mais facilidade após a morte de Henry.

Não estava acostumado com a ideia da morte e do fracasso, mas aprendeu a vestir seu coração em sedas e véus, escondendo o que sentia em sorrisos sempre doces. Um Doutor deve sempre sorrir, essa sempre foi a regra número um de seu pai.

Nunca era tarde para começar a aplicá-la.

Ariadne cobriu sua mão com a dela, retribuindo o sorriso com um mais fraco e frágil. Depois que o chá esfriou totalmente, Will deixou a mansão do Senhor D e retornou para casa.

Seu bom humor esmoreceu um pouco, mas o trajeto até sua casa era longo e poderia pensar no que fazer pelo restante do dia com a casa totalmente vazia. Seria a primeira vez em três meses que permaneceria dentro daquela residência enorme, feita para comportar uma família de cinco pessoas, sozinho nos ecos dos mortos nas paredes de tijolo e madeira.

Respirou profundamente, tentando tirar o pessimismo da cabeça. Ficaria bem, passou uma parte de sua vida sozinho e não seria agora que a solidão o destruiria.

Quando chegou em casa a carruagem de Kayla já estava cheia e o cocheiro esperava ao lado dela, aguardando as ordens de sua senhoria. Will suspirou, entrando no Hall mais vazio do que antes.

Depositou seu casaco e mala no sofá, buscando Kayla com os olhos. A irmã caçula apareceu da cozinha, carregando Lorenzo no colo.

— Estamos prontos para ir. — confessou a irmã, um sorriso triste e pesaroso em seu rosto: — Venha comigo, Will.

Will se surpreendeu com o pedido.

— Ir com você?

— Não quero que fique sozinho nesse mausoléu! — trovejou consternada, a tez franzida em desagrado. Will cruzou os braços, observando: — O Nico não vai voltar, nós dois sabemos disso. Venha comigo, por favor.

Will prensou os lábios em uma linha fina, irritado. Não era direito de Kayla opinar se Nico iria ou não retornar, ou de afirmar com tanta convicção de que ele poderia não fazer. Ele sabia disso! Sabia perfeitamente que havia uma chance alta, quase agourenta, de que Nico permanecesse um nobre e nunca mais pisasse em Ravenna.

Ele sabia, mas ignorava essa possibilidade sempre que ela surgia em sua mente. Prometeu que confiaria, que acreditaria na promessa de Nico de que iria fazer de tudo para voltar vivo, para voltar para casa.

Sua casa.

Ele não podia ir embora.

Deu um sorriso mecânico, desprovido de qualquer emoção real. Will não queria chateá-la, mas não iria deixar aquela casa.

A casa não era mais um mausoléu de seus parentes mortos e familiares desgarrados. Era um ambiente que se reformulou e ganhou vida e cores, repleta de promessas para um futuro entre aquelas paredes antigas.

Não era mais seu legado de morte.

— Eu ficarei bem. Vá, antes que fique tarde. — disse William se aproximando da irmã ainda em revolta.

Beijou sua testa com todo o amor que tinha dentro dele, abraçando-a com Lorenzo no meio, depositando até o mais singelo de seus sentimentos na garota que ajudou a criar e que iria, mais uma vez, ver partir.

— Eu te amo, sua peste. — Zombou Will, recebendo uma risada ofendida em um tapa moderado em sua cintura: — Me visite quando puder.

Kayla se afastou, radiante.

— Sempre, irmão.

Com um último beijo em seu rosto repleto de sardas, Kayla se despediu do irmão com acenos largos, beijos lançados ao ar e muitas risadas. Will ficou observando a carruagem partir da porta de entrada, permanecendo ali até o último resquício do veículo antes de suspirar pesadamente e voltar para dentro. Precisava de chá, e desta vez gostaria de poder tomar dele sem se preocupar em engasgar pela culpa e apreensão.

Colocou a água para ferver enquanto aproveitava o raro silêncio da casa. Era quase estranho, fora do normal para ele, mas apreciou por alguns instantes. Suspirou uma, duas vezes antes de retirar uma das cartas de Nico de seu paletó, lendo-a mais uma vez nos trechos que mais lhe eram familiares e confortáveis; onde via a figura clara de Nico ultrajado e revoltado com uma situação tão boba e facilmente resolvida por Romeo ou Alessandro.

Ao ler as cartas percebeu o quão impaciente Nico realmente era quando tinha uma meta em mente e queria vê-la executada a todo custo. Não que não fosse assim antes da guerra, claro, mas Will nunca teve provas escritas de sua teimosia. Aquilo era um tesouro de diversas formas.

Ouviu a porta de frente abrir e fechar, o trinco girando ruidosamente, ecoando pelo Hall até a cozinha.

Will retesou o corpo, guardando a carta enquanto prestava atenção no visitante estranho e sem convite.

Sentiu um frio subir por seu corpo, instalando-se em seu estômago gélido e pesado. Ofegou assustado, apossando-se do cabo da panela de aço no instante em que os passos chegaram na cozinha.

Se virou para a figura no batente, para a imagem imponente que habitava cartas e contos em sua caixa de tesouros; seus sonhos tranquilos das tardes de Primavera mais frescas. Soltou a panela na mesa, sua atenção fixa nos olhos caramelo que tanto sentia falta.

Nico estava na sua cozinha, com o sorriso mais lindo que jamais havia visto em seu rosto naqueles meses todos. Estava vestido com roupas comuns, similares àquelas que lhe comprou quase dois meses atrás, em tons de preto e cinza. A pedra azul em sua gravata se destacava como a única jóia em seu corpo, bruta e vívida. Mas não reluzia tanto quando o áureo de seus olhos brandos e serenos.

Will sentiu que poderia chorar a qualquer momento.

— Já faz um tempo, Will. — comentou Nico, um rastro de risada em sua voz macia, tão doce aos ouvidos do doutor quanto se recordava: — Espero não estar atrasado para o jantar.

Uma risada escapou dos lábios de William: boba, emotiva, cheia de sentimentos pesados e leves; simples e conflitantes.

Sentia-se no centro de um tornado, puxando e torcendo, sem saber como caminhar na direção correta.

Nico pareceu entender: — Espero que tenha recebido minhas cartas. Eu não sabia como enviá-las separadamente sem ter certeza de que não seria morto. Não quis te dar falsas esperanças. — comentou devagar, avançando um passo em sua direção antes de recuar, conflitante: — Espero que tenha passado bem. Senti sua falta.

O sorriso voltou ao seu rosto, um traço de dor em sua feição repentinamente preocupada. Will puxou a respiração com força, negando com a cabeça. Por Deus, um mês, William Solace! Você sabe exatamente o que fazer! Já fez sua escolha!

Sentindo que iria se destruir se continuasse naquela batalha interna, se permitiu ruir em frente à Nico, deixar as lágrimas descerem livres, o alívio transformado em água e sal; em leveza e paz.

Nico avançou até o doutor que fez o mesmo, se encontrando com o Pirata na metade do caminho, envolvendo-o em um abraço doce e apertado, escondendo seu rosto na curva de seu pescoço, no cheiro de maresia que nunca parecia abandoná-lo.

Apertou sua cintura, colando-o contra seu corpo, na esperança de que, caso fosse um sonho cruel e maligno, ele pudesse mantê-lo por mais alguns minutos em sua memória.

— Eu senti sua falta, Nico. Tanta que mal consigo acreditar. — confessou Will contra sua pele, numa fragilidade honesta e ampla.

Nico retribuia o aperto com o mesmo desespero, suas mãos repuxando seu paletó, envolvendo o tecido entre seus dedos, se firmando naquela posição. Nico soltou um suspiro aliviado e contente.

Will abriu um sorriso largo.

— Eu imagino. Eu acredito. — confessou Nico, aconchegando-se em seu abraço que tornou-se menos desesperado e mais gentil, mais calmo.

Ele era real.

Will subiu uma de suas mãos para os cabelos longos de Nico, acariciando-os um pouco antes de tomar seu rosto em sua palma. Seu peito palpitou descontrolado ao ver Nico se inclinar contra sua mão, olhos fechados em uma ternura cândida.

Segurou seu rosto com ambas mãos, acariciando suas maçãs do rosto, observando as feições que tanto amava. A pele oliva menos bronzeada do que antes, mas tão quente quanto se recordava; a cicatriz em seu rosto que descia ao pescoço — uma nova em sua bochecha direita, abaixo de seu olho —; as sardas tão singelas e tímidas forrando seu nariz fino.

Mas o que mais sentia falta eram seus olhos caramelo, os mesmo que o encaravam diretamente, devorando-o de dentro para fora; tomando sua alma para ele. Nico piscou lentamente, os cílios criando sombras em sua pele, escurecendo seus olhos focados unicamente em William.

Inclinou-se na direção dele, como a gravidade o puxando para Nico; um astro em busca de um planeta para habitar. Fechou os olhos ao sentir o hálito de Nico em seus lábios, o toque macio de sua boca, o suspirar satisfeito de seu amante.

Se permitiu afundar naquele beijo, no toque sutil e então desesperado, nos lábios de Nico domando-o e sorvendo de seus segredos mais íntimos. Os dedos ágeis em seus cabelos loiros agora soltos e revoltosos, apertando-os com força moderada.

O beijo lhe tomou o ar, o interior de sua boca, o calor de seu ventre. Limpou sua alma angustiada após semanas de espera e desespero, de angústias e desejos. Ele precisava daquele toque, daquele gosto em sua boca, do sentimento de ser tomado por alguém.

Nico di Angelo estava pilhando o que era seu por direito, e Will não seria tolo em negar-lhe isso.

Se separaram após um tempo, a euforia dos toques ainda formigante em seus corpos, em suas bocas sensíveis. Abriu os olhos atrás de Nico, sentindo-se sufocar no sorriso estonteante do pirata, daqueles que deformam o rosto e resplandecem como um astro no céu.

Encostou sua testa na dele, o sorriso pregado em seu rosto, tatuado eternamente em sua alma.

— Bem-vindo de volta. — falou Will, sentindo-se amaciado: — Está em casa.

Nico sorriu, concordando.

— Finalmente.

Se afastaram um pouco mais, mantendo suas mãos entrelaçadas enquanto Will o puxava para o Hall, sentando-se no sofá com Nico ao seu lado, suas mãos unidas.

— Como foi? Por que não me enviou uma carta dizendo que viria? — perguntou curioso, sem entender o motivo da visita repentina sem aviso.

Nico pareceu desconfortável com a pergunta, mas a respondeu da mesma forma.

— Fiquei preocupado de estar impondo alguma coisa, então preferi chegar de surpresa. Me pareceu mais certo. — admitiu em baixo tom.

Will estalou a língua:

— Eu te esperei pelas últimas quatro semanas, não há nada que possa impor a mim, Nico. Nada que eu não faria de tudo para corresponder. — admitiu, tomando seu rosto para si mais uma vez, viciado no toque de sua pele.

Nico sorriu ordinariamente, segurando seu pulso com carinho.

— Posso impor o que eu quiser? — sugeriu em baixo tom, em sua forma de conquistar algo que já era dele.

Will se inclinou em sua direção, depositando um beijo em seus lábios ainda avermelhados. Nico suspirou, aceitando aquela resposta. Will o observou um tempo, a feição branda e calma, seu olhar suave no seu.

Ele precisava dizer algo, ou não poderia suportar mais.

— Quando você foi embora, o fez com medo de quando voltar eu ter sentimentos diferentes. — comentou Will, retirando sua palma de seu rosto, envolvendo a chave em seu pescoço com força em sua palma: — Sim, eles mudaram. Mudaram tanto que não me reconheço mais, sinto como se tivesse me tornado uma pessoa diferente.

Nico o ouvia atento, curioso do rumo daquele diálogo. Will respirou profundamente, recordando-se das noites em claro na primeira semana depois de Nico partir, cogitando se valeria a pena arriscar-se por um amor tão incerto e desgraçado; lembrou-se de chorar copiosamente em seu quarto com a ideia de Nico talvez não voltar.

Na terceira semana, quando recebeu as cartas de Nico, o cheiro de lavanda e as emoções dele expostas tão claras à sua frente, Will entendeu o que se passava em seu peito.

Não tinha mais medo de estar cometendo um ato hediondo. Não, isso não o corroía como antes, ainda que estivesse à espreita. Seu medo era mais brutal do que jamais pensou sentir. Seu medo era o de nunca mais poder amar Nico di Angelo.

— Eu preciso de você, Nico. E você teve que partir para uma guerra pra que eu entendesse o quanto eu necessito de você. — confessou Will, as palavras de amor ainda presas em sua garganta, sem coragem de dizê-las: — Eu o machuquei tanto no passado, não planejo fazer mais isso, nunca mais.

Nico arfou pesado, seus olhos largos no choque da confissão, no peso das palavras que Will proferiu.

O para sempre escondido entre linhas e tons.

Nico se inclinou para ele, envolvendo-o em um abraço tímido, seu rosto escondido em suas roupas. Will o aninhou ao seu lado, puxando-o para seu colo. Nico riu, jogando a cabeça para trás na diatribe de seus atos, olhando-o de cima para baixo, sob seus cílios fartos e escuros; consumindo-o em suas pupilas dilatadas.

Will sentiu-se estremecer com a visão.

— Você é o motivo de eu estar vivo, William. Se você não existisse nada disso teria acontecido, e eu teria sido devorado por minhas próprias ações egoístas. — Nico falou abertamente, acariciando seu rosto com afeto: — Eu… Não sou uma pessoa fácil, nunca vou ser. Nem eu e nem a forma como lido com a minha vida.

Will concordou. Ele sabia disso.

— E mesmo assim você me quer? — não foi um questionamento, mas um desafio.

Will virou o rosto para a palma de Nico, depositando um beijo tenro em sua mão calejada.

— Só se ainda me quiser.

Nico gargalhou alto, quase selvagem: — Pelos Deuses, eu nunca deixei de te querer.

Nico o beijou outra vez, voraz, sedento daquele toque desesperado e abrasivo que queimava ambos corpos em decadência. Prendeu o lábio inferior de Will entre seus dentes, puxando-o suavemente, sentindo Will estremecer sob ele. Colou seus lábios outra vez, invadindo e conquistando, esmorecendo o foco de Will como uma taça frágil e delicada prestes a ruir.

Will revirou os olhos no sentimento formigante, no descontrole de seu coração eufórico. Nico envolveu seu pescoço com os braços, instigando Will a puxá-lo pela cintura, naquela posição que ficaram algumas vezes em atos brincalhões ou apreensivos.

Agora não havia nada os barrando de torná-lo o que sempre quiseram que fosse.

Nico afundou seus dedos nos cachos de Will, arranhando seu couro com certa força, um desejo primordial em seus gestos de controle. Will suspirou angustiado, querendo mais daquilo, afogar-se naquele calor em sua pele, na exploração lasciva em sua boca.

Se afastaram momentaneamente, ofegantes e impacientes. Sentiu Nico sorrir contra seus lábios, soltando um suspiro contente e agradável.

O beijou mais uma vez, um pouco mais calmo que antes.

— Preciso tirar as coisas da carruagem, trouxe alguns pertences e tem três homens lá fora esperando minhas ordens. — comentou Nico contra seus lábios, um sorriso sardônico se formando neles: — Vai me deixar ir até lá?

Will arqueou a sobrancelha, cético.

— Se você realmente precisa. Mas não acho que consiga disfarçar o que aconteceu aqui dentro.

Nico riu, negando com a cabeça. Depositou um beijo casto nos lábios molestados de Will antes de se afastar de seu corpo, inclinando-se para trás.

— Eu vou querer mais disso depois, acredite, mas eu preciso ir lá fora e eu quero você lá comigo. — pediu Nico de forma claramente contrariada. Nenhum dos dois queria sair daquele sofá, longe dos toques íntimos e devotos.

Will suspirou, vencido.

— O que você trouxe?

— Várias coisas, muitas delas a Hazel me forçou a trazer. — comentou se levantando da posição anterior, ajudando Will a se erguer. Arrumaram suas roupas à caminho da porta: — Tem várias roupas, algumas joias que pretendo vender eventualmente, e dinheiro o suficiente para vivermos bem por meses.

Will ficou chocado, observando Nico destrancar a porta de entrada, a carruagem imensa do Ducado repleta de caixas estacionada majestosamente. Will precisou rir daquilo.

— Tem certeza que só tem isso?

Nico sorriu, cúmplice.

— Talvez ela tenha se escondido em uma das caixas.

Will gargalhou alto, pego de surpresa pela brincadeira boba. O cocheiro desceu da carruagem, e junto de mais dois assistentes começaram a descarregar e colocar as caixas no Hall. Nico disse que organizaria depois, bagunçando o Hall que andara tão arrumado nas últimas semanas.

Will observou a imagem cacofônica do cômodo, sorrindo para si mesmo. É, ele preferia quando Nico se apossava do Hall. Ele ganhava vida dessa forma.

Nico deu novas ordens aos homens antes de dispensá-los, trancando a porta mais uma vez. Will caminhou até as caixas empilhadas cheias de decorações floridas, adornos e laços. Nico se aproximou.

— Pode abrir se quiser. — garantiu Nico, o sorriso simplório: — Nada aqui é meu.

— Claro que é, você quem trouxe. — Will resmungou, mas abriu a caixa de qualquer forma. Nico murmurou, divertido.

— Talvez devêssemos começar a aplicar o nosso de agora em diante.

Will sentiu seu coração falhar com aquelas palavras doces e aveludadas. Sorriu largo, escondendo a expressão com seu cabelo solto enquanto retirava a tampa. Havia uma coleção de livros dentro dela, bem conservados e de uma biblioteca privativa.

Retirou um deles da caixa, curioso.

— Não me disse que tinha trazido livros.

Nico se inclinou ao seu lado, lendo o título de Don Quixote em letras ornamentais.

— Bom, eu gosto de livros. — confessou sem ter muito como se defender. Will sorriu, compreensivo.

— Já leu esse?

Nico confirmou: — Há muito tempo, não me recordo da história. — seu olhar correu do livro para Will, sua feição tornando-se suave: — Posso ler pra você, se quiser.

Will riu incrédulo, mas aceitou. Claro que aceitou.

— Seria incrível. Acho que nunca leram nada pra mim desde criança. — admitiu divertido, abrindo o livro com curiosidade infinita.

Nico apoiou a mão em sua lombar, acariciando com ternura.

— Então vamos mudar isso. — garantiu Nico, o sorriso doce no rosto tornando o ambiente leve e confortável.

Nico franziu o cenho, virando o rosto para a cozinha.

— Tem algo no fogo? Está com cheiro de queimado.

Will alargou os olhos, deixando o livro na caixa.

— Eu coloquei água pro chá! — relembrou assustado, voltando para a cozinha com Nico logo atrás, o cheiro da panela queimada com a água totalmente evaporada tomava toda a cozinha.

Will retirou a panela do fogo enquanto Nico abria a janela e a porta dos fundos, deixando o ambiente ventilar. Nico soltou uma risada divertida.

— Tente não queimar a casa, Will. — sugeriu ao se sentar na mesa, apoiando as mãos na superfície de madeira: — Eu gosto dela.

Will revirou os olhos, não lhe dando atenção ao colocar a panela longe do fogão à lenha, indo atrás de outra que não estivesse com o fundo queimado.

— O que acha de um chá? — sugeriu Will, olhando para Nico por cima do ombro.

O pirata concordou, e Will começou a esquentar água fresca, desta vez permanecendo na cozinha. Foi até seu armário retirando algumas folhas e sementes dos potes empilhados no fundo.

— Gosta de romã?

— Adoro. — garantiu Nico, balançando as pernas na mesa confortável, apreciando a vista de William enchendo o bule com as sementes: — É quase hora do jantar, tem certeza que quer fazer somente um chá? Podemos preparar alguma coisa para comer.

Will meneou: — Eu voltei do Senhor D agora pouco. Tive uma conversa com sua esposa e não foi muito promissora. — admitiu fechando o bule e se virando para Nico que o encarava com atenção.

— Ele vai morrer? — perguntou de forma direta, naquele tom atento e preocupado de quem o viu ruir por um garotinho meses atrás.

Will suspirou.

— Vai sim, eventualmente. — explicou Will, um pouco desolado. Teve que manter sua feição triste escondida de sua conversa com Ariadne, mas não precisava fazer isso com Nico.

O pirata esticou sua mão, puxando Will para perto, alojando-o entre suas pernas. Will o envolveu pela cintura, aceitando a aproximação mais que bem-vinda.

— Eventualmente?

— Não é algo que vai matá-lo de uma vez, é a longo prazo. Ele já atingiu um estágio ruim, sente dores demais e tem vomitado sangue nos últimos dias. — comentou em um fio de voz. O Senhor D era seu paciente mais antigo, e o ver naquele estado decadente era triste e cruel: — Não tenho como estipular dias, porque não tenho como saber como estão as coisas por dentro. É ter fé e esperar. Nada mais.

Nico balançou a cabeça, concordando com seus pensamentos. Acariciou o rosto de William com afeto.

— E a fé deveria bastar. — foi seu comentário final. Mesmo que não acreditasse naquilo, e Will sabia que não, sentiu-se grato por sua gentileza.

Will deitou a cabeça em seu ombro, se deixando ser envolvido num abraço enquanto relaxava seu corpo contra Nico, o peso em seus ombros desaparecendo aos poucos como mágica.

Ficou um tempo naquela posição, no sentimento quente em seu peito, no carinho suave que Nico fazia em suas costas.

Quando a água ferveu, Will foi terminar de preparar o chá enquanto Nico punha a mesa com as xícaras, os talheres, açúcar e mel. Will sorriu para o amante. Nico e sua paixão incorrigível por doces.

Não iria repreendê-lo ainda, deixaria pra fazer isso dali alguns dias, quando saísse de forma natural e implicante. Nico sentou na cadeira, observando Will coar o restante das sementes antes de colocar o bule na mesa, servindo Nico com uma xícara fresca.

Encheu a sua própria sentando na cabeceira da mesa com Nico ao seu lado direito. Tomou um gole generoso do chá enquanto Nico acrescentava algumas colheres de mel, imerso na cor rubra do chá. Will envolveu sua mão livre, entrelaçando seus dedos na necessidade do toque.

Nico sorriu contra a xícara à caminho de sua boca, encostando seu joelho no de William debaixo da mesa. O doutor suspirou contente, se sentindo leve e renovado.

Havia criado tantos cenários em sua mente para o retorno de Nico, de como seria poder vê-lo e tocá-lo novamente, ter sua presença forte ao seu lado como uma âncora pro seu dia-a-dia. Em nenhuma delas, porém, conseguiu replicar como era sentir o calor da palma dele contra a sua, os olhares trocados que queriam dizer muito, mas não sabiam por onde começar; os sorrisos tão honestos quanto Will jamais se imaginou capaz de reproduzir.

E tinha aquele sentimento em seu corpo, algo primordial que rasgava suas entranhas, enviando arrepios em seu ventre; brutal e voraz, num sentimento que nunca havia sentido em sua vida, num desejo que o corroía com algo que não sabia ao certo o que queria.

Não era ruim ou desconfortável, mas havia um princípio de vergonha em seu rosto que ganhava cores fortes quando focada demais no sentimento, como se no fundo soubesse o que era, mas se recusava a pensar demais no assunto.

Nico apertou sua mão atrás de atenção e Will voltou a si, observando a feição divertida do amante.

— Vai compartilhar comigo seus pensamentos, ou devo adivinhar? — comentou em tom baixo, a rouquidão em sua voz arrepiou seu corpo. Seu rosto esquentou ainda mais, desviando o olhar envergonhado.

Ouviu a risada de Nico, seu corpo se inclinando por cima da mesa, depositando um beijo em sua bochecha avermelhada.

— Como você consegue ser tão adorável, William? — questionou numa suavidade que parecia destoante do que se lembrava de Nico, de seus tons normalmente púdicos ou rudes.

Isso lhe deu a brecha para começar suas perguntas, a curiosidade o vencendo.

— Posso perguntar sobre o que aconteceu?

Nico deu de ombros, bebendo mais um gole do chá doce.

— Claro, se tiver algo que não escrevi nas cartas irei responder. — garantiu honesto, deixando a xícara de lado, como se previsse uma conversa um pouco mais séria.

Will respirou fundo, se virando para Nico antes de começar a questioná-lo.

— Depois da última carta que me mandou, o que aconteceu? Com o Chris, a Hazel e todo o resto?

Nico pareceu ponderar aquela pergunta, batucando seu dedo na superfície de madeira enquanto buscava como iniciar a resposta.

— O Chris ficou comigo até o último dia. O deixei como meu atendente pessoal trabalhando no Ducado. O contratei definitivamente. — começou a falar pelo atendente, apoiando o rosto em sua mão: — Foi o melhor jeito que achei de lhe dar um bom futuro, e trabalhar num Ducado numa posição alta na idade que ele tem? Não é para todos.

Will sorriu satisfeito. Aquele garoto merecia todo reconhecimento que pudesse, e ficou feliz que Nico havia feito isso por ele. Mas uma pergunta se formou em sua mente com a explicação, amarga em sua boca.

— Então… Você ainda é Duque? — não que fosse algo ruim, Will havia entrado em um consenso consigo mesmo de aceitar qualquer caminho que Nico decidisse tomar, mesmo que não pudesse estar incluso nele.

Nico negou, sorrindo reconfortante.

— Durante minha conversa com o Imperador, o convenci de que minha doença era mais grave do que imaginávamos, e que não viveria por muito mais tempo. — explicou Nico de forma leviana, como se o assunto não fosse sério. Will fechou a cara, incomodado. Nico riu: — Eu sei, eu sei. Você não gosta disso, mas foi a forma que eu achei de conseguir abandonar o título de Duque sem ser pelos métodos de exílio igual o de meu pai.

Will balançou a cabeça, entendendo seus motivos.

— Você não está morrendo. — Will disse convicto, pontuando a frase para que Nico a absorvesse. O pirata sorriu, concordando.

— Claro que não, estou bem. Eu juro. — garantiu Nico, intensificando o aperto em suas mãos juntas: — Mas foi a desculpa perfeita. Com isso consegui colocar um rapaz como meu substituto, um que a família é confiável e influente, garantindo assim com que Hazel pudesse se tornar Duquesa no futuro.

Will exclamou, surpreso.

— Duquesa? Ela vai se casar?

— Não ainda. Ainda a acho muito nova, mas minha madrasta está com ela, então não preciso me preocupar tanto, Perséfone sabe o que faz. — explicou Nico, um respirar fundo e melancólico: — Só me sinto mal de ter passado poucos dias na presença dela antes de ter que abandoná-la definitivamente.

Will envolveu a mão de Nico em ambas as suas, num aperto reconfortante.

— Eu sei que ela entende, mas a saudade vai ficar por um tempo. — admitiu o doutor, acariciando sua mão levemente com os dedos. Nico sorriu para ele.

— Sim, ela entende. É tão nova, mas entende. — Nico respirou fundo, um rastro de tristeza em seu rosto recoberto por uma saudade tão pura.

Will levou uma de suas mãos ao rosto de Nico, ajeitando uma mecha de cabelo atrás de sua orelha.

— Algo mais aconteceu? Algo que gostaria de compartilhar? — sua pergunta saiu suave, curioso e sedento por mais histórias que não estavam em suas cartas.

Não pensou que fosse uma pergunta difícil, mas Nico tensionou ao seu lado, como se a pergunta fosse uma acusação contra ele. Will franziu a testa, preocupado.

— Tudo bem? Aconteceu alguma coisa?

Nico negou, um rastro de amargor escondido atrás de um sorriso. Will não gostou disso.

— Só… Algumas coisas aconteceram que eu gostaria de não ter de relembrar. — confessou um pouco mais sério, seus olhos perdidos na xícara vazia na mesa.

Will o observou por um tempo, tentando entender o que o afligia, mas não queria insistir na pergunta. Não parecia ser algo que ele gostaria de comentar no momento. E, considerando os atos violentos da guerra e o que aconteceu com sua irmã mais velha, talvez houvesse mais naquela tristeza em seu rosto do que poderia compartilhar.

— O que acha de levarmos as coisas pro quarto? — Will sugeriu, mudando de assunto.

Nico ergueu o rosto, focando em William. Sorriu largo, um sorriso verdadeiro e honesto.

— São várias caixas, e um baú cheio de roupas. — relembrou o pirata, o sorriso sardônico em seu rosto ganhando forças.

Will revirou os olhos:

— Acha que não consigo? — resmungou Will se erguendo da mesa. Nico riu dele enquanto o doutor caminhava em direção ao Hall.

— Longe de mim duvidar de suas capacidades, mas não são coisas leves. — emendou faceiro, gesticulando com suas mãos num ar prepotente.

Will exclamou, revoltado.

— Eu consigo te carregar se eu quisesse. Não sou tão fraco assim. — resmungou indo até as caixas, observando-as antes de retirar o paletó, dobrando as mangas da camisa até o cotovelo.

Nico estava em silêncio, observando-o atentamente por longos instantes. Aquela sensação estranha em seu corpo começou a arder sob o olhar do pirata, voltando a enrubescer seu rosto, ainda que pouco.

— O que foi? — perguntou suavemente, tentando soar gentil.

O pirata negou, sorrindo pra ele enquanto retirava o próprio paletó. Will pegou a primeira das caixas, levando-a diretamente para o primeiro andar. Nico o seguiu logo atrás, ajeitando o ângulo dela em seus braços antes de parar no topo da escadaria, a feição chocada ao ver William passar direto por seu quarto até o dele.

O doutor parou na soleira da porta, olhando para trás com curiosidade.

— Tudo bem?

Nico piscou algumas vezes, como se houvesse saído de algum transe, seu rosto tomando cores fortes e avermelhadas. Respirou fundo o seguindo até o quarto do doutor, o sorriso pequeno em seu rosto não passando despercebido por Will.

Ele havia dito antes de Nico partir sobre a possibilidade de compartilharem o quarto. Iria manter a promessa, se não por ele, por ambos.

Foram várias idas e vindas do Hall até o quarto com algumas paradas muito necessárias para um respiro, recheadas com Nico implicando por sua “falta de exercícios”. Ignorando o fato de Nico ter trazido toda a mansão para sua casa, Will se limitou a resmungos e rolares de olhos enfáticos antes de finalmente terminarem a mudança.

Will se jogou na cama, exausto, se sentindo acabado. Nico ainda ria dele, desempacotando as coisas.

— Tem espaço no guarda-roupa? — questionou levianamente, abrindo-o antes que Will respondesse.

O doutor sorriu: — O lado direito está vazio. Todo seu.

Nico deu uma risada baixa, quase tímida, organizando sua parte enquanto Will recuperava o fôlego. Se virou na cama, observando Nico em suas idas e vindas do baú com roupas, das caixas com chapéus e luvas. Nico bufou.

— Eu definitivamente não preciso de tudo isso, por que ela me fez trazer tudo isso? — resmungou baixo, observando os acessórios das caixas: — Por que eu deixei?

Will riu, recebendo um olhar atravessado do pirata, o sorriso sacana brilhante em seu rosto antes de voltar à tarefa. Um quarto de hora depois e Nico finalmente parecia satisfeito com a arrumação. Prendeu o cabelo em um rabo de cavalo, abrindo a camisa preta, expondo seu torso repleto de cicatrizes.

A tatuagem visível se destacava em sua pele, agredindo a vista de Will com o cerberus em evidência na pele oliva; no centro da tatuagem a cicatriz que tanto cuidou pelos últimos meses. Focado unicamente nela, Will levantou da cama, esticando sua mão para o ferimento cicatrizado.

O resvalar de seus dedos por sobre a pele de Nico foi rápido, um toque simples e curioso, e mesmo assim Nico o afastou com brusquidão, dando bons três passos para trás, colidindo suas costas no armário aberto. Will esticou sua mão segurando-o pelo pulso, tirando-o de perto do móvel antes que se machucasse, tão assustado quanto o pirata em pânico.

Nico o encarava de olhos arregalados, sua respiração inconstante e pesada, tremendo da cabeça aos pés. Will observou sua forma repentinamente frágil, de uma reação que não via no amante desde o começo de sua convivência, três meses atrás.

Isso o preocupou profundamente.

— Nico? Você está bem? Se machucou? — Will não o puxou para perto, com medo de piorar seu estresse.

Nico negou, um ofegar desesperado escapou de seus lábios, uma feição dolorosa, triste, tão quebrada. Nico avançou contra William, abraçando-o com toda a força que tinha, atrás de algum conforto no seu toque, no conforto de seus braços protetores. Will aceitou aquela missão, envolvendo-o calorosamente.

Seu corpo tremia, tão similar às suas crises antigas de um começo de convivência. Não pensou que poderia causar isso à ele de alguma forma, criando uma amargura em seu peito. Deveria prestar mais atenção, tomar mais cuidado com seus toques, avisando-o antes de tocá-lo.

Aquela forma frágil em seus braços o quebrou de diversas formas.

Nico respirou fundo, o tremor de seu corpo desaparecendo aos poucos, desfazendo-se à medida que as mãos de Will o traziam de volta entre carícias e afagos delicados. Após alguns minutos Nico ergueu o rosto do peitoral do doutor, deitando-a em seu ombro, exausto.

— Desculpe… Fui pego de surpresa. — confessou baixo, apertando seus braços em torno de William: — Não me tocam há um bom tempo. Não é nada com você.

Will concordou com a cabeça, afagando os cabelos negros de Nico com carinho. Nico fechou os olhos, aproveitando o tratamento exclusivo. Will o guiou para a cama, sentando-o por cima dos cobertores. Levou as mãos até a camisa de Nico, encarando-o brevemente atrás de permissão. Nico sorriu para ele, consentindo, e Will pode analisar a cicatriz.

Estava bem cicatrizada, numa coloração normal ainda que levemente saltada. Se comparar com sua cicatriz no ombro, era algo esperado de se ver. Acariciou a pele com cuidado, apalpando atrás de alguma reação de dor, mas Nico mal se mexeu.

Will esboçou um sorriso alegre.

— Finalmente. — suspirou grato, erguendo o olhar para o pirata que o observava com o olhar mais calmo, uma suavidade que o fez enrubescer: — Eu fiquei preocupado.

Oh, claro que ficou. — comentou Nico, beijando-o levemente nos lábios: — Mas eu disse que iria me comportar.

Will rolou os olhos: — Eu tenho certeza que você não se comportou, mas fico contente da mesma forma.

Will respirou satisfeito, abotoando a camisa de Nico com cuidado. O pirata arqueou a sobrancelha, mas nada disse a respeito. Após isso ficaram em um pequeno silêncio, um no qual Will se sentiu sufocar sobre o olhar endurecido do pirata ao desviar o olhar do ferimento, das caixas vazias e de William.

Parecia encurralado em sua própria mente.

Will o deixou imerso por alguns instantes, focando sua atenção nas portas do guarda-roupa ainda abertas, nas roupas colocadas perfeitamente nos cabides. Precisou sorrir para a vista, para uma pequena promessa em seu coração. Talvez não fosse para sempre, mas nem que durasse poucas horas Will sentia que poderia se satisfazer.

— Eu preciso te contar uma coisa. — comentou o pirata, a feição séria retornando ao seu rosto. Will se focou inteiramente nele, deixando que Nico tomasse suas mãos nas dele: — Eu vou voltar para o Caribe.

Will prendeu o ar em seu peito, pesado, sufocante.

No fundo, ele sempre soube. Nico sempre tentou achar formas de voltar para o mar, mesmo que desejasse poder tê-lo naquela casa por mais tempo, e não era de fato uma surpresa, mas ainda o abateu profundamente. Nico apertou suas mãos, firmando-o sob seus olhos caramelo.

— Eu preciso voltar. Aqui não é meu lugar, Will. Não é há muitos anos. — explicou sucinto, uma dureza em sua voz, um amargor em seu tom pesado: — Ainda assim, mesmo que eu diga que não consigo me imaginar morando aqui, seria mentira se eu dissesse que não me vejo com você. Eu vou partir em uma semana, talvez um pouco depois disso, mas preciso ir, e estou estendendo o convite para você… Caso queira vir comigo.

A ideia martelou em sua mente, visceral como tudo que envolvia Nico di Angelo. As mãos de Nico estavam repentinamente frias, seu corpo em uma tensão aguda enquanto Will afundava em suas opções.

Ir embora? Ele tinha esse direito? O desaparecer de Ravenna como seu irmão fez anos atrás, aceitando um destino tão incerto e perigoso quanto o de Nico? Poderia fazer esse sacrifício? Uma parte dele agonizava, barria em desespero sobre a ideia de partir, e deixar Kayla para trás; mais um irmão que a abandonaria pelos mesmos desejos egoístas de um ato parvo e cruel.

Respirou profundamente, sendo sugado pelo que aconteceria se aceitasse ir; o que aconteceria se não fosse com Nico. Ainda conseguiria seguir em frente sem tê-lo por perto? Poderia fazer isso consigo mesmo?

O quanto já havia sacrificado pelo pirata, e o quanto mais de si próprio poderia ofertar sem se tornar outra pessoa? Deformado por um amor tão conturbado e recente?

Não percebeu que havia começado a tremer até o instante em que Nico o puxou para perto, para um abraço firme e centrado.

— Não precisa me responder agora, não foi uma pergunta justa, me perdoe. — Nico comentou, sua voz suave e distante, como se esperasse aquela reação: — Só gostaria que soubesse que eu não me vejo deixando Ravenna sem você ao meu lado, mas eu vou entender se não puder vir comigo. Não irei julgá-lo.

Will concordou com a cabeça, se deixando embalar no pequeno conforto que sentia do pirata.

Teria coragem de abandonar quem ele era por Nico?

De alguma forma, a resposta para aquela pergunta era simples. William só precisava de um tempo para digeri-la, para aceitar os sacrifícios que viriam com ela. Independente de qual resposta ele desse, perderia uma parte de si mesmo pelo caminho que trilharia dali por diante.

E era isso que o assustava.

Notas finais
AH, esse reencontro foi uma das primeiras cenas que eu escrevi TAMBÉM! Junto com a cena no beijo lá em 2018. Claro, ela está totalmente diferente tanto na escrita tanto na forma como ele retorna, mas a essência é a mesma e to toda radiante de ter finalmente chego até aqui. Will está diferente né? Eu sinto ele diferente pra escrever, mais seguro de si. Ainda tem medo, claro que tem, mas ele está aprendendo a conviver com esse medo. Um mês ajudou ele a clarear demais a mente, a distância sempre ajuda. Ah... Nico não vai contar sobre o Enrico, caso estivessem esperando sobre isso. Não precisa pilhar o Will com isso, mas a reação está ai para nos lembrar que aconteceu... O impasse de William é eterno, mas agora tem prazo de validade. Ele vai com o Nico ou não gente? Ele conseguiria fazer esse sacrifício? Enfim, vamos descobrir logo! Me sigam no twitter, gente! Estou colocando lá alguns conteúdos de PaP e pretendo criar uma thread quando a fic acabar para eternizar a história daqui alguns meses. Pretendo fazer uma lista com meus leitores de pap por lá, então me deem um salve pra eu ver se tem gente o suficiente pra eu fazer essa listinha kkkkkkkk: https://twitter.com/Babswings até a próxima att que também vai ser enorme!