Pit-a-Pat

45 Capítulo XLIV


Notas iniciais
Oi meus amores como vocês estão? Obrigada imensamente pelos 700 comentários! Estou toda boba pelo carinho, de verdade!! Vocês são incríveis, e não essa história nao seria nada sem vocês Estou de volta com um capítulo IMENSO da Bianca. Ele é um capítulo denso e mais complexo do que eu estou acostumada em PaP. Mais difícil de escrever que o capítulo anterior que já tinha sido desgastante. Temos aqui muitas respostas para perguntas que vocês tinham, outras que já devem ter esquecido. Aqui vemos a infância de Nico aos olhos de Bianca. Tudo na perspectiva dela, então se tiverem personagens diferentes do que vocês lembram ao serem descritos, lembrem-se, a narração não é do Nico. Se atentem aos anos, não os meses, eles são a cronologia toda da vida do Nico ;) !!!AVISO!!! CUIDADO AO LER, POR FAVOR! Tem a morte de Maria di Angelo EXPLICITA nesse capítulo, o suicídio dela visto e descrito por Bianca com muitos detalhes, então fique seguro, fique bem, e se não puder ler não tem problema pq eu fiz um pequeno resumo do capítulo nas notas finais. Todo o capítulo retorna no suicídio dela, e ressalta o de Bianca também. É um capítulo pesado, tenso, então cuidado. A quem for ler: Boa leitura!

~Capítulo XLIV~

[...]

28 de Junho, 1669

Bianca flanou pelo piso frio da sala de música, os braços cruzados em seu peito, o espartilho justo modelando seu busto. O vestido bufante em tons de roxo reluziam na luz que entrava pela sacada aberta, as cortinas alabastrinas amarradas firmes ao lado de cada porta. Passou a mão enluvada pelos cabelos feitos e adornados em tranças complexas, puxando uma das mechas livres entre seus dedos finos.

— É totalmente injusto, mamãe. — resmungou a adolescente, o tom revoltoso em sua voz eclodindo nas paredes azul claro.

Sua mãe, Maria, permanecia sentada em frente ao piano, dedilhando notas doces e agradáveis aos ouvidos. As mãos enluvadas percorriam o teclado de marfim, os olhos fechados e imersos na melodia clássica. Maria soltou uma risada doce, inclinando-se para Bianca.

— infelizmente é como a nobreza funciona, Bianca. As filhas mais velhas se casam com homens poderosos, ganhando o status de sua família postiça, mas nunca assumem o título de seus pais. — afirmou a Duquesa retornando para a música.

Bianca bufou se jogando num dos sofás do salão, esticando as pernas sem decoro. Maria lançou-lhe um olhar repreensivo, forçando a filha a ajeitar a postura.

— Só não é justo, mamãe. Estudei tanto, desde pequena, e nunca poderei ser Duquesa. — reclamou outra vez, o peito cheio de ressentimentos pela traição do pai, dos privilégios que Nico possuía; negando à ela o direito de primogênita.

Maria respirou fundo encerrando a música, abaixando a tampa do piano. Ergueu-se elegante do banco estofado, deslizando pelo chão espelhado silenciosa e magnânima. Bianca deu espaço para que sua mãe ocupasse o assento ao seu lado no sofá.

Bianca fechou o rosto, decepcionada pelo olhar carinhoso de Maria. Esperava que a mãe lutasse por seus direitos, que impusesse aquilo que Bianca tinha direito e havia se dedicado por anos. Lá no fundo, ela sabia que a mãe nunca ergueria a voz contra seu pai se não fosse extremamente necessário.

Uma parte dela a considerava covarde, permitindo o abuso de seus filhos e o seu próprio. Maquinava em sua mente diversas formas onde Maria poderia ter se erguido, pedido ajuda para seus pais, exposto Hades e seu tratamento agressivo.

Sentia-se enganada pela mulher que se portava como a senhora daquela mansão, mas que não exercia o mesmo papel como cuidadora da família. Maria segurou suas mãos, quentes nas palmas.

Sua mente aquietou-se, buscando conforto no toque afável e doce da Duquesa.

— Sabe, minha querida, eu gostaria que Nico não fosse o Duque. — confessou a mulher, entre quatro paredes, longe dos espiões de seu pai. Maria se permitiu dizer: — Odeio a forma como seu pai o trata, de maneira material e obsessiva. Se eu pudesse, se houvesse em mim algum poder, nenhum de vocês teriam títulos relacionados aos di Angelo.

Maria respirou fundo: — Nico é o herdeiro, mesmo que você seja a primogênita. Ele é quem irá levar a herança dos di Angelo adiante, por sangue e progenitura. Por isso, seu pai é extremamente zeloso com Nico, por sua saúde frágil. É o único que levará nossa família adiante.

Bianca torceu a boca, invejosa.

— Podia ficar doente para sempre. — resmungou revoltosa. Maria puxou suas mãos para frente, repreensiva. Bianca se encolheu pelo olhar raivoso da matriarca.

Você é a mais velha, e é seu dever cuidar do bem estar de seu irmão. — ralhou a mulher, o tom doce em sua voz desaparecendo: — Ele vai precisar de você, de seus cuidados, ensinamentos, seu amor e zelo. Quando você se casar ele arcará com a vida na mansão sozinho, mas nunca deixará de cuidar de você. Bianca, seu irmão ama você e Hazel tão intensamente, que às vezes me pego enciumada do relacionamento de vocês. Ele vai cuidar de você, garantir que seja feliz e bem tratada, mas para isso precisa fazer o mesmo por ele.

Bianca suspirou, entendendo onde sua mãe chegaria.

— Nunca serei duquesa, mas posso garantir que Nico o seja?

Maria sorriu: — Que seja melhor que seu pai jamais foi.

Algo dentro de Bianca se acendeu, um sopro em sua mente enevoada. Talvez Nico fosse diferente de seu pai, e pudesse mudar a forma como a mansão e o Ducado estavam atualmente. Bianca não conseguiria — por mais que desejasse isso —, mas poderia garantir que Nico teria todo o direito e liberdade para lutar contra seu pai; a opressão de um homem fadado à queda.

Bianca sorriu.

— Ok, farei isso. Prometo.

Maria sorriu, puxando Bianca para um abraço aconchegante. Ela se permitiu ficar nos braços da mãe, deitada em seu colo como se fosse uma criança pequena e indefesa. Bianca cuidaria de seus irmãos e de sua mãe desamparada.

Seria a heroína por detrás das cortinas.

3 de Agosto, 1659

O grito desesperado de Nico ecoou por toda a mansão, gelando o sangue de Bianca no jardim interno. Levantou-se do banco de madeira, correndo pelos corredores lotados de empregados e soldados em desespero. Ergueu a saia do vestido farto, dando ordens para que saíssem de seu caminho.

Nico?! — Bianca gritou pelo caçula, parando em frente à um soldado: — Onde ele está?

— Está na sala de músic— Bianca avançou antes que ele continuasse: — Espere, Senhorita!

Bianca entrou na sala de música, pelas portas escancaradas do salão escuro e gélido. No instante em que identificou a imagem no chão, paralisou em puro choque. Deitada no chão, com o corpo coberto de sangue, estava a Duquesa em seu vestido de gala mais elegante. Em seu pescoço quebrado, a corda adornava como um colar maldito, caçooando da vida como uma mortuária.

Seus olhos estavam semi abertos, vazios e opacos, desprovidos do calor e gentileza que outrora vestia com júbilo. Ao seu lado, soluçando, gritando e chorando compulsivamente, estava seu irmão caçula; seu pequeno e doce menino de dez anos, escondendo a cabeça entre suas mãos, o corpo trêmulo em espasmos horripilantes.

Bianca puxou o ar entredentes, num grito agudo e desesperado que escapou por seus lábios em ruge. Correu para seu irmão, ajoelhando-se ao seu lado, abraçando-o com todo o carinho que conseguia, sentindo os tremores em seu corpo tão pequeno, tão diminuído naquele momento desesperador.

— Vou te tirar daqui, está tudo bem. — garantiu a irmã pegando-o no colo, escondendo seu rosto em seu pescoço, abraçando-o, acariciando seus cabelos o mais afetuoso que podia.

Correu para o lado de fora, distante daquela cena fúnebre. Nico chorava cada vez mais alto, debatendo-se em seu colo desconfortável. Hades apareceu no final do corredor, cercado pelos soldados de elite. Bianca reconheceu Alessandro no instante em que o soldado arregalou os olhos para o estado em que estavam, congelado no lugar.

—O que houve?! — inquiriu Hades, severo.

— Mamãe... — foi tudo que Bianca se permitiu dizer, dando passagem para Hades e seus soldados.

Alessandro permaneceu próximo das crianças, um rastro de compreensão alastrando-se por seu rosto empático. Hades parou na entrada da sala, observando a cena aterrorizante, a forma bela e formosa de Maria di Angelo reduzida à pano e pele.

Nico soluçou mais alto, chorando em agonia. Bianca o balançou, ansiando por sair daquele corredor, mas não precisou esperar muito para que fosse “convidada” a se retirar.

— PARE DE CHORAR! — gritou Hades para Nico, raivoso, possesso. Bianca recuou, protegendo Nico de sua fúria: — TIRE ESSE MENINO DAQUI!

Bianca estremeceu pela frieza de seu pai, mas não hesitou em cumprir a ordem dada. Alessandro ordenou dois soldados para escoltá-la até o quarto de Nico. Em passos largos, a mais velha carregou Nico por longos e intermitentes corredores, dizendo palavras de conforto, entoando melodias agradáveis, mas tudo que fazia parecia piorar o estado do irmão caçula.

Entrou no quarto em prantos silenciosos.

— Fechem as janelas! Quero uma bacia de água morna, panos limpos e mudas de roupa. — ordenou Bianca deitando com Nico na cama, secando o rosto com as costas das mãos.

O garotinho se debateu nas cobertas, chamando por sua mãe, gritando seu nome entre soluços e lágrimas. Bianca o deitou em seu colo, ninando-o para frente e para trás, afagando seus cabelos, deixando que Nico despejasse todo o desespero em cima dela, até que a exaustão tomasse conta de seu corpo.

Os empregados retornaram com o que Bianca pediu, mas levou quase uma hora até que Nico se acalmasse, e mais alguns minutos de melodias de ninar para que adormecesse em seus braços; exausto, rouco, tão pequenino quanto um recém-nascido.

O deitou apropriadamente na cama, cobrindo-o até os ombros. Beijou seus cabelos com afeto e saiu do cômodo.

— Preciso resolver uma coisa, fiquem aqui e me avisem se ele acordar. Não deixem ninguém entrar, é uma ordem! — bradou raivosa, flanando pelos corredores exasperada.

Suas mãos tremiam incontrolavelmente enquanto memórias de sua mãe voltavam para sua mente perturbada, como um conto de mau gosto. O sorriso reconfortante de Maria em sua conversa na sala de música no mês anterior, na sua forma amorosa ao acolher Nico e Hazel em seu colo no jardim, cantando para eles a mais bela das melodias.

Bianca resfolegou sôfrega, a amargura em seu peito, os gritos de pânico de Nico, as marcas de arranhões em seus braços e ombros pelo desespero e medo de seu irmão caçula, tudo isso acumulou-se em seu corpo prestes a explodir.

Parou em um corredor vazio se apoiando desesperadamente nas paredes claras, seu peito subindo e descendo em agonia, contraindo-se sem poder respirar. Levou o punho ao espartilho, puxando-o para frente numa tentativa tola de afrouxa-lo sem mexer nas amarrações.

Arfou em espasmos escorregando ao chão, o ar relutando a retornar para seus pulmões contraídos. Puxou com mais força, tentando inflá-los, desesperando-se com a asfixia. Fechou os olhos contando os segundos, as lufadas de ar, os passos rápidos pelos corredores adjacentes. Bianca abaixou a cabeça, concentrada.

Demorou, mas em poucos minutos voltou a respirar, não da forma desejada, mas o suficiente para erguer-se com classe, ajeitar a saia de seu vestido verde pastel e seguir adiante. Manteve uma mão em seu peito, controlando o sobe e desce, enquanto entrava no corredor da sala de música, agora repleta de soldados guardando as portas.

Bianca respirou fundo, parando em frente à porta.

— Senhorita, não pode entrar, ordens de Vossa Graça. — alertou um dos soldados, o tom de voz brando e solidário.

Bianca aprumou-se, coluna hirsuta, queixo empinado.

— Creio que não se aplique à familiares, a menos que não seja minha mãe no chão do salão de música, claro. — respondeu venenosa, a raiva em seu tom ecoando como um sibilar agudo.

Os soldados se remexeram, desconfortáveis.

— Senhorita, não sei se…

— Se não sabe, suponho que possa resolver esta questão por ti. Entrarei de uma vez, feche a porta quando passar. — dito isso gesticulou para que a abrissem, impetuosa.

Numa troca de olhares preocupados, ambos soldados abriram as portas para que Bianca passasse. As cortinas foram abertas, a visão assombrosa de antes recebendo cores cruéis. Perdeu o ar em seu peito antes de entrar, as portas fechando-se à suas costas.

Caminhou a passos lentos, suas pernas tremendo fora de controle. Fechou em seus punhos o tecido de sua saia farta, observando a imagem desfigurada de sua mãe, inchada, vertendo sangue como um animal abatido. Seus olhos opacos vislumbravam o além, focados em sua quietude agourenta.

Aos pés de Maria havia um pequeno papel com desenhos claramente feitos por Nico. Bianca agachou-se, pegando o papel em suas mãos enluvadas. Ergueu o desenho, as mãos trêmulas no papel manchado de sangue e tinta, destruído como o garotinho em seu quarto aos prantos.

Apertou suas mãos no desenho, virando o rosto para sua mãe, um sentimento colérico acometendo seu corpo em ondas.

— Estava planejando esse ato de covardia desde nossa conversa? — cuspiu irritadiça, imundiçando-se com o sangue em suas mãos, a barra de seu vestido perdido pelo manto coagulado aos seus pés: — Me considerava egoísta, mas diga-me quem é a egoísta agora, mamãe. Diga alguma coisa…

O silêncio permaneceu agudo na sala. Bianca virou o rosto, os olhos ardendo em raiva e tristeza e traição.

Ergueu-se mais uma vez, um novo sentimento apossando-se de suas pernas, guiando-a para fora. Não perdeu tempo com os soldados ou empregados que clamaram por seu nome, sequer deu atenção ao rastro de sangue que seu vestido criou ao desaparecer pelos corredores de volta aos seus aposentos.

Entrou em seu quarto fechando a porta no mesmo instante. Correu para o lavatório, mergulhando um pano na água fria da bacia, passando no desenho de Nico, tentando retirar as marcas de sangue coagulado.

Sua vista embaçou enquanto lágrimas desciam grossas por seu rosto avermelhado. Soluçava baixo, o corpo em espasmos desesperados enquanto esfregava o desenho com força. Ironicamente, a mancha de sangue havia coberto somente a imagem de Maria no desenho, caçoando dela como uma maldita pústula.

Passou os dedos enluvados e molhados pelo desenho de Nico, um bem feito e claramente com carinho. Sem coragem para jogá-lo fora, abraçou-o contra seu peito antes de colocá-lo em uma gaveta vazia, seu tesouro secreto.

Retornou à bacia d’água retirando suas luvas imundas, limpando seu rosto e pescoço do sangue que Nico espalhou nela em seu colo. Arrancou o espartilho bruscamente, retirando todas as camadas do vestido bufante, mantendo-se com as roupas íntimas e leves. Chamou suas damas que correm ao seu lado.

— Se livrem do vestido, queimem até o último pedaço de tecido. — ordenou indo em direção ao closet, atrás de outra muda de roupas.

— Mas, senhorita, este foi um presente de vossa mãe.

— Não me importo, queimem. — cuspiu ríspida, gesticulando para que uma delas a vestisse.

Sabia que ainda chorava, como sabia que as damas a encaravam com piedade e cautela, fervendo seu sangue já enraivecido. Se permitiu ser cuidada e vestida. Não ajeitou os cabelos, sequer sua maquiagem. Assim que pronta retornou para o quarto de seu irmão, escuro, silencioso, o som da respiração entrecortada de Nico partindo seu coração em dois.

Abriu uma fresta da cortina se aproximando do caçula na cama. Retirou as cobertas agora sujas do sangue seco preso as roupas de Nico e sua pele. Com cuidado, Bianca o ergueu da cama, retirando suas roupas e as descartando no chão frio do quarto. Em seguida, pegou a bacia de água morna deixada ao lado da cama de Nico. Mergulhou o pano na água e limpou seu rosto, seus bracinhos e mãos, os cabelos duros pelo sangue em seus fios.

Foi um trabalho demorado, rendendo-lhe outra onda de soluços e lágrimas incontroláveis. Terminou de limpá-lo deitando a cabeça em seu travesseiro trocado, beijando sua testa com tanto carinho e afeto.

Fungou baixo, indelicada, voltando-se para as atendentes.

— Queimem suas roupas e as de cama. Vocês duas fiquei aqui e me avisem quando ele acordar, preciso falar com meu pai sobre a situação. — ordenou Bianca saindo às pressas do quarto, com uma dama de companhia ao seu lado, apressada em seus passos.

Não sabia onde Hades estava depois da notícia da morte de Maria. Conhecia seu pai, sabia que o apreço que tinha por Maria era ínfimo comparado com sua reputação como Duque. Marchou para seu escritório onde provavelmente estava reunido com Alessandro para arcar com o corpo de sua mãe simplesmente abandonado na sala de música em sua insignificância e desprezo.

Bateu na porta algumas vezes e aguardou que seu pai permitisse sua entrada. Sua dama parecia apreensiva, e Bianca se virou para a mulher franzina com certa curiosidade. A porta foi bruscamente aberta por Hades. Não havia ninguém no escritório com ele, nem seus soldados ou o mordomo da mansão. Era somente Hades e uma feição devastadoramente assustadora.

Seus olhos tinham um brilho raivoso, a pupila pequena mesclando-se ao negro de sua íris, sua esclera avermelhada e pulsante, de uma amargura amorfa para Bianca ou qualquer pessoa que já tenha visto seu pai demonstrar algo além de repulsa. Hades bufou voltando para dentro, mantendo a porta aberta para que Bianca entrasse. Sua dama de companhia recuou dois passos, o medo estremecendo seu corpo pequeno.

Bianca entendeu.

— Me espere do lado de fora, Beatrice. — ofereceu a garota entrando no escritório de seu pai.

Estava tudo escuro e macabro como se recordava de outros momentos em que esteve ali. As cortinas espessas e escuras, os móveis de mogno e estofados em azul petróleo, devorando a luz e o calor do cômodo tão gélido, tão desprovido de vida, tal qual a forma deplorável de seu pai sentada no sofá, observando-a com olhos predatórios. Hades di Angelo não era um homem respeitado por seus feitos ou coragem em batalhas, não, ele travava batalhas em convenções sociais e bailes de gala; devorava as pessoas com olhares e palavras, as reduzia à nada além de poeira em seu sapato de couro. Hades di Angelo não era tão respeitado quanto era temido, e ele amava o sabor do medo, o prazer do pânico nos rostos desamparados.

Um demônio de sangue azul e anéis de ouro.

— O que você quer, Bianca? — sibilou enraivecido, sem tempo para os caprichos de sua filha mais velha.

Bianca ajeitou a saia do vestido, subitamente nervosa. Nunca precisou conversar com o pai sozinha antes, não sem sua mãe como apoio ao lado dele na mesa, ou a esperando com uma xícara de chá e um conto de fadas como consolação.

Pare, Bianca! Ela não está mais aqui. Você está sozinha.

— O que pretende fazer com a mamãe?

— Um enterro, como manda a etiqueta. — respondeu seco, sem encará-la. Recuperou o copo com bebida da mesinha de centro, o cheiro do álcool forte incomodando seu nariz delicado.

— E até lá pretende deixá-la no chão da sala de música até apodrecer? — as palavras saíram sem seu consentimento. Mordeu o lábio, horrorizada pela acidez em seu tom.

Hades a encarou com raiva, lançando o copo de vidro em sua direção, acertando a parede atrás de Bianca, passando próximo de seu rosto. Bianca se encolheu, horrorizada.

— NÃO USE TAL TOM DE VOZ COMIGO, BIANCA! AINDA SOU O SENHOR DESTA CASA! — esbravejou com tanta raiva, tanto rancor, como se falasse com outra pessoa; visse alguém diferente de Bianca à sua frente.

— Papai… — Bianca abaixou o tom, sentindo-se tremer no lugar.

Tinha quase dezesseis anos, havia debutado ano passado e, aos olhos da sociedade italiana, era uma mulher formada e introduzida ao mundo nobiliário. Mas ali, naquela sala escura e opressiva, Bianca nunca se sentiu mais incapaz.

— Eu… Eu quero assumir as funções de mamãe agora que ela se foi. Cumprir o papel dela na mansão. — pediu Bianca, o fio de voz ganhando forças a medida que as palavras se formavam: — Por favor, me deixe ajudá-lo.

Hades a encarou. Tinha raiva em suas feições, contida, redirecionada para outro sentimento em seu rosto. Ele sorriu, um sorriso desfigurante, anômalo em seu rosto nefasto. Ergueu-se do sofá, caminhando com graça até Bianca. Colocou ambas mãos em seus ombros trêmulos, encolhidos e assustados.

— Não esperaria menos de você, Bianca. Tem minha permissão e total controle da mansão, assim como sua mãe tinha. — permitiu Hades, um orgulho medonho em seus olhos: — Ficará nesta posição até que eu encontre uma nova Duquesa para a mansão. Não será fácil, é mais trabalho do que Maria jamais transpareceu.

Bianca arregalou os olhos, tanto pela permissão quanto ao fato de seu pai estar pensando em outra mulher. Ela já existia, igual a mãe de Hazel? Uma amante escondida só esperando pelo momento em que Maria abandonasse o prazer pela vida?

Bianca engoliu o choro.

— Sim, papai.

Hades alargou o sorriso a conduzindo até a porta.

— Irei avisar Fillipo sobre sua nova posição, Bianca. A partir de amanhã será a nova Duquesa di Angelo. — e com isso a empurrou gentilmente para fora, num gesto paternal desprezível: — Controle seu irmão, não quero escândalos no enterro de sua mãe amanhã.

— Sim, Senhor.

Ele fechou a porta e Bianca se permitiu perder a compostura, curvando-se para frente numa onda de náuseas. Beatrice foi até ela, a segurando pelos ombros com a firmeza que Bianca precisava para não desabar.

Hades era um homem maldito! Perverso e ardiloso! Bianca não permitiria que ficasse naquela sala, usando-a como um trono por mais tempo que o necessário. Nico se sentaria naquela cadeira, e Bianca veria seu pai rastejar como a peste que tinha orgulho em ser.

Se ele queria uma nova mulher, ele teria, mas seria nas condições de Bianca. A partir dali, ela quem manipularia as cordas daquele show de horrores.

— Vamos, Beatrice, vamos até Nico. Vou passar a noite em seu quarto. — alertou voltando a andar, permitindo-se ser amparada pela dama de companhia por todo o trajeto. Ninguém a reprimiria, sua mãe acabara de falecer, seriam complacentes.

Os corredores pareceram mais longos no trajeto de volta, e por algum motivo acabou passando pela entrada do jardim onde estava anteriormente ao caos. A pequena cabeleira encaracolada de Hazel correu em sua direção, os olhos grandes e assustados, as lágrimas riscando seu rostinho imaculado.

Bia, Bia! — chamou ela, erguendo os braços, exigindo colo. Bianca a pegou, encaixando-a com carinho em sua cintura. Seu rosto rechonchudo a encarava com medo, um sentimento que não queria em sua irmãzinha de dois anos: — Puque todo mundo ta bravo? Papai gritou comigo… e… e...

Seu biquinho estremeceu, fazendo Bianca ferver sob sua pele. Afagou os cabelos fartos da pequena, beijando seu rosto molhado.

— Ele está nervoso, meu amorzinho, mas vai ficar tudo bem. Vamos até o Nico? — sugeriu com carinho. O rosto de Hazel se iluminou, esquecendo-se da tristeza do descaso.

Bianca sabia o quanto Nico confiava nela, mas por algum motivo que nem ela ou Maria conseguiam entender, Nico tinha uma conexão com Hazel intrínseca, como almas gêmeas dos contos de sua mãe; um amor platônico que se formou entre duas crianças sozinhas nunca casa de adultos quebrados demais.

Carregou a pequena por todo o trajeto, ouvindo as conversas infantis emocionantes, de uma história que ela ouviu, mas que seu vocabulário e dicção não permitiam que reproduzisse de forma compreensível, mas isso não impediu Bianca de encorajá-la a continuar. Sua conversa alegre a distraiu um pouco da situação.

Ao menos até chegar na porta de Nico, ouvindo o choro baixo de seu irmão do outro lado da porta. Entrou apressada, vendo o cômodo escuro, nenhuma dama ao lado de seu irmão inconsolável sob as cobertas. Aquilo a irritou!

Hazel pulou de seu colo, correndo até Nico em um frenesi louvável. Subiu na cama com dificuldades abraçando Nico sob a coberta, ambos escondidos no tecido espesso. O choro continuou, mas parecia mais fraco, mais contido.

— Saia, Beatrice.

Bianca se sentou na cama ao lado das duas formas infantis escondidas. Retirou os sapatos, entrando debaixo da coberta, puxando os dois para seu colo. Hazel havia começado a chorar por conta de Nico, e Bianca precisou acalmar duas crianças em seu colo.

Tarde da noite, depois de um jantar no quarto e muitas lágrimas, Bianca os fez prometer nunca mais tocar no nome de Maria, e para Nico o evento na sala de música seria esquecido.

— Mamãe foi embora e não vai mais voltar.

Foi o que ela declarou às crianças, à Hazel principalmente, e ambos concordaram. Nico aceitou aquela mentira branca como verdade absoluta, e Hazel chorou pela perda da mãe a qual nem sabia que estava desaparecida.

No dia seguinte, quando se apresentou na frente dos empregados após o enterro de sua mãe, vestida de preto com o véu em seu rosto apático, Bianca repetiu as ordens.

Nada aconteceu na sala de música.

Maria fora embora.

Estava tudo bem.

24 de Maio, 1671

Bianca suspirou cansada, retornando de seus aposentos após organizar o pagamento dos funcionários daquele mês. Sua cabeça latejava pelo cansaço, os números aumentando drasticamente nos gastos da casa com a contratação de professores particulares fixos na casa.

Desde a morte de sua mãe, dois anos atrás, Hades havia declarado Nico seu herdeiro legítimo — ao menos antes de sua apresentação formal à sociedade —, contratando professores de diversas áreas para seu aprendizado. Nico era um garoto bem dotado de uma inteligência invejável, e tudo o que fazia era agraciado com elogios e sorrisos.

Bianca gostava disso, e sempre que podia acompanhava as aulas de seu irmão caçula.

Nico estava mais alegre, ainda que houvesse uma máscara rígida em seu rosto sempre que sua mente parecia divagar, imerso em pensamentos os quais Bianca o proibira de verbalizar. Sabia por onde sua mente vagueava em momentos de solilóquio, na imensidão de suas tardes de verão, anteriormente preenchidas por chás e bolos de pêssego.

— O que acha de um chá, senhorita? — Beatrice questionou ao seu lado, tirando-a de seus devaneios.

Bianca se virou para ela, o vestido de seda amplo em verde água esvoaçou no corredor ventilado. O espartilho comprimia sua cintura, ressaltando seu busto e quadril que adquiriu em sua puberdade. Seus cabelos estavam presos por laços adornados em cachos volumosos. Suas mão enluvadas carregavam um leque de renda, delicado como toda sua forma. Uma mulher formosa, desejada aos seus dezoito anos. Uma mulher comandando a mansão de um Duque, versada em administração e artes, leitura e idiomas.

Bianca di Angelo fez seu nome naqueles dois anos comparecendo à festas e chás nas casas de nobres e aristocratas. Ali, naquele corredor vasto, Bianca di Angelo reluzia como joia bruta.

— Eu apreciaria. Estou exausta, um pouco de chá e o ar fresco dos jardins ajudaria. — comentou interessada, retornando a andar: — Nico ainda está treinando?

— Sim, senhorita. Está na aula de esgrima no jardim leste, próximo ao campo de treinamento. — respondeu rapidamente, dando ordens as outras damas atrás de Bianca.

— Pois bem, sirva-me no jardim leste, desta forma Nico não irá fugir de mim. — comentou num sorriso contido, divertida com a ideia.

Beatrice pareceu satisfeita com a ideia, repassando as novas ordens. Bianca seguiu caminho até a área de treino. Dali conseguia ver os soldados treinando, o exercício físico exaustivo do treinamento desumano que seu pai os impunha. No centro de treino estava Romeu, a mais nova aquisição de seu pai.

Um rapaz um pouco mais novo que ela, talvez dois anos, vertendo sangue de ferimentos em seus braços e pernas, mas avançando com ferocidade contra seu instrutor. O manuseio de sua espada era impecável, o rolar de seu pulso desarmando o homem à sua frente. Um sorriso arrogante irrompeu seu rosto, afastando-se do instrutor. Bianca parou para assistir enquanto era dispensado para tratar os ferimentos.

Romeu seguiu para fora da área, parando em frente a Bianca, curvando-se.

— Bom dia, senhorita.

— Bom dia, Romeu. — cumprimentou animada. Era um rapaz educado e alegre. Nico parecia ter algum interesse genuíno no rapaz, e Bianca confiava nos instintos afiados de seu irmão caçula.

— Veio assistir ao treino?

— Não, estou atrás de meu irmão. Onde ele está? — questionou curiosa. Não conseguia vê-lo em lugar algum.

Romeu empalideceu.

— Ah, ele está no jardim leste, mais à frente. — respondeu mecânico. Bianca franziu a testa, atrás e mais informações. Romeu pigarreou: — Talvez a senhorita não devesse assistir ao treinamento dele. Não é… agradável.

O sangue de Bianca gelou com a afirmação. Apertou o leque em seus dedos com força.

Onde?

Romeu abaixou o olhar: — Siga-me.

Bianca sabia que Nico tinha recebido um novo instrutor depois do último ser dispensado por seu pai por sua ineficácia em treiná-lo. O aprendizado de seu irmão era programado inteiramente por seu pai, que tendia a controlar possessivamente o tempo de seu irmão sem pausas e descansos, levando-o à exaustão ou dias na enfermaria pela diabetes atacada.

Respirou fundo, preparando-se para ferimentos que seu irmão insistia em tentar esconder, para feições tristes e sorrisos forçados enquanto tentava explicar para Hazel que estava cansado demais para brincar.

A primeira coisa que viu foi Nico colidindo com força no chão, rolando para o lado no impacto intenso no piso frio. Nico tossiu, o corpo trêmulo em espasmos.

— Levante-se, jovem mestre! — gritou o homem, raivoso, gesticulando com a espada em suas mãos. Uma de verdade, e não de treinamento: — Ande logo, garoto!

O instrutor avançou para Nico, puxando-o pelo braço, chacoalhando-o com força e brutalidade. O jogou para trás, forçando Nico a equilibrar-se.

— Se não consegue se defender de um simples ataque, Deus sabe o tipo de combatente que será no futuro. Inútil! — gritou outra vez.

Nico encolheu-se, limpando o rosto com o sangue de seus cortes. Bianca aprumou-se, cólera tomando seu corpo com tanta força, tanta repulsa. Romeu ao seu lado parecia compartilhar do mesmo sentimento, o que a encorajou a caminhar solene pelo jardim. O instrutor olhou para ela, analisando-a com julgamento antes de reconhecê-la. Sorriu educado, curvando-se modesto.

— Senhorita di Angelo. A que devo a honra de sua visita? — questionou emocionado, disposto a tratá-la com respeito o qual negligenciava à Nico.

— Fiquei curiosa para conhecer o animal que ensina meu irmão. — cuspiu raivosa.

— Perdão? — o homem a encarou abismado.

— Você o trata sem respeito algum, com violência destinada à soldados. Ele não é um soldado, é o herdeiro dessas terras, Lorde desta mansão. Como se atreve? — inquiriu irritada, ficando em frente à Nico como um escudo. Seu irmão evitou seu olhar.

— Perdoe-me Senhorita se me pareço agressivo, mas é assim que os garotos são ensinados. Não faço nada fora do comum aos outros jovens mestres aos quais dei aula. — explicou educado, levando a acusação de Bianca seriamente.

— Não aceito tal barbárie.

— Creio que isso caiba à Vossa Graça decidir. — respondeu ríspido, raiva velada. Bianca ergueu o queixo.

— Pois bem. Está dispensado. Romeu, leve Nico até a enfermaria.

Bianca afastou-se do instrutor, observando Nico sendo pego nos braços por Romeu, o rubor no rosto de seu irmão enquanto conversava com o soldado. Bianca sorriu pequeno, compreensiva, antes de seguir até o escritório de seu pai.



Não!

— Mas, papai!

Eu quem decido quem ensinará seu irmão! Um pouco de violência nunca fez mal à ninguém, não se meta nos meus assuntos, Bianca. — trovejou Hades de sua mesa, lendo papéis e mais papéis com rispidez.

Bianca abaixou o olhar.

— Sim, Senhor.



A partir daquele dia, porém, Bianca assistia à todas as aulas de esgrima de Nico com olhos afiados. Chamava-o quando o via desgastado, ou distraia o instrutor quando este aumentava o tom de voz para Nico.

Sempre que o instrutor se irritava com a intromissão dela, Bianca sorria de forma inocente, tomando de seu chá servido pontualmente todos os dias no jardim leste. Nico parecia mais disposto aos treinos, sorrindo quando fazia algo certo, chamando por Bianca atrás de elogios, o brilho nos olhos nunca escapando a atenção ávida de Bianca.

Se Romeu se juntou a ela como espectador em diversos momentos, torcendo por Nico em segredo, Bianca nunca o reprimiu.

16 de Setembro, 1671

— Espero que possamos nos dar bem. — Perséfone apresentou-se à mansão após seu casamento com Hades.

O Duque se prostrou ao lado dela, imponente, com a beldade que era a estrangeira grega vinda de Pátras. Bianca não conhecia muito sobre a Grécia, mas pela aparência de Perséfone, sabia que era de berço de ouro tal qual ela mesma.

Hazel estava agarrada à sua saia, observando a mulher de longos cabelos loiros com ressalvas. Bianca não poderia culpá-la, Perséfone não parecia a mais cálida das mulheres. Nico estava ao seu lado, os braços cruzados e olhos raivosos. Seu corpo tremia de raiva, e Bianca conseguia ler o que ele sentia.

Você não é minha mãe!

Imaginava que tal pensamento se passasse pela mente de Hazel também. Respirou profundamente enquanto um sorriso se formava em seu rosto. Perséfone era uma das mulheres que Bianca havia insinuado à seu pai aos poucos, em pequenas conversas casuais, em encontros para chás ou jantares. Uma mulher bela e de personalidade duvidosa, a qual Bianca a pintou como santa. Havia algo naquela mulher impetuosa, de sorrisos dourados e olhos faiscantes que poderia ser uma aliada, se persuadida da maneira correta.

Bianca levou as crianças até ela.

— Um prazer tê-la em nossa família, Perséfone. — cumprimentou Bianca, curvando-se brevemente com graça.

Perséfone sorriu.

— O prazer é todo meu, Bianca. — respondeu abaixando-se um pouco, encarando os olhos caramelos desconfiados de Hazel: — Pequena Hazel, certo? Você é mais linda pessoalmente.

Hazel ergueu os olhos para Bianca, como se duvidasse das palavras da mulher. Bianca assentiu e Hazel sorriu, tímida.

— Obrigada.

Ao se virar para Nico, porém, ele já havia deixado-as para seus afazeres do dia, os passos duros e elegantes o impulsionaram para longe daquela reunião “afetiva”. Bianca não se desculpou por ele, sequer se deu ao trabalho se encará-lo por mais do que alguns segundos antes de sorrir complacente.

— Se me der licença, tenho afazeres. — com isso Bianca se afastou também, o sorriso ainda no rosto, a mãozinha de Hazel na sua em conforto.

24 de Outubro, 1671

Bianca bateu à porta do escritório de Perséfone.

A nova Duquesa estava atolada em trabalhos desde que Bianca abandonou o posto como chefe da mansão. Bianca estava acostumada com os gastos excessivos de seu pai, a necessidade de encobrir certos feitos de Hades com finanças falsas ao final do mês, coisas que Perséfone teria que aprender do início.

Como uma boa enteada, Bianca ajudaria, claro.

Entrou no escritório claro e alegre. Os móveis eram diferentes de quando Bianca residia ali, em tons de rosa claro com diversos vasos com flores, cortinas alabastrinas, móveis vindos de sua antiga casa dando ao ambiente o sentimento de leveza.

Bianca não pode evitar de sorrir satisfeita, confortável naquela sala cheia de vida e aromas agradáveis. Perséfone ergueu o olhar dos papéis, sorrindo fraca para a garota.

— No que posso ajudá-la, Bianca?

— Na verdade, vim prestar minha ajuda. — confessou cortês, o sorriso pregado em seu rosto imaculado de pó de arroz. Perséfone negou com a cabeça.

— Não se preocupe, eu dou conta, era em quem cuidava da casa após a morte de meu pai. Está tudo bem, querida. — respondeu, dispensando-a. Bianca torceu a boca em desagrado.

— Ah, então sabe como fazer Nico conversar com você, ou Hazel aceitar suas investidas? — comentou ácida, o tom ofensivo em sua voz fez Perséfone parar o que fazia, confusa.

— Não entendo onde quer chegar.

— Você não sabe onde está, Perséfone, talvez eu devesse alertá-la. — Bianca apoiou ambas mãos enluvadas na mesa clara, os cachos caindo como cascata sobre seus ombros descobertos: — Seu casamento não serve de nada nesta casa se seguir os mesmos passos de minha mãe. Poder, direitos, controle. Nada disso é seu.

Perséfone suspirou: — Bianca--

— Você acha que sabe onde se colocou, mas não sabe. Meu pai não é um homem bom, e irá descobrir quando não encobrir seus gastos ilegais com jogos com as finanças da casa. — comentou Bianca severamente. Perséfone apertou os olhos: — Irá gritar com você na frente de todos, transformando-a num capacho o qual todos pisarão em cima.

Perséfone negou: — Isso nunca acontecerá.

— Porque meu pai nunca fará, ou porquê você não irá permitir? — questionou curiosa: — Tem diferença dos dois, Perséfone, e minha mãe é a resposta para essa pergunta.

— A senhora Maria não conseguiu arcar com os deveres de Duquesa e por isso foi embora. Isso não acontecerá comigo. — Perséfone endureceu a voz, o tom severo: — Cansei dessa conversa, retire-se, Bianca.

— Minha mãe não foi embora. — Bianca falou, o fio de sua voz delatando o ressentimento em seu tom: — A menos que a corda em seu pescoço seja a forma de “ir embora” de vocês, gregos.

Perséfone afastou-se da mesa, os olhos arregalados em choque. Bianca compreendia. A ordem dela foi passada adiante em todo lugar, e só aqueles próximos à família compareceram ao funeral, compelidos a esconder a tragédia de sua morte. Para o resto da Itália, Maria di Angelo havia ido embora por conta, desaparecido sem deixar rastros.

— Está insinuando…?

— Estou afirmando que minha mãe se matou porque não aguentava a violência do meu pai, verbal e física. Porque não suportava a forma brutal que tratava meu irmão e ainda trata. Porque meu pai é um homem desonesto que teve um filha de um caso às escondidas e forçou minha mãe a criá-la, mas ninguém além de nós da mansão sabemos da existência de Hazel. — Bianca pontuou um a um, os olhos cravados nos azuis horrorizados.

— Eu preciso saber o que fará, Perséfone. Será Duquesa só no nome, obedecendo ao meu pai como minha mãe o fez até não suportar mais, ou assumirá o papel de senhora desta casa? Assumirá o dever como mãe de Nico e Hazel e cuidará de seus estudos como é o certo a se fazer? — questionou Bianca, o rosto severo: — A verei como dona da casa ou descartada com um pescoço quebrado?

Perséfone comprimiu os lábios, uma raiva alastrando-se por seu rosto de porcelana.

— Escolha. Será uma marionete de meu pai ou irá controlá-lo?

Bianca se afastou, ajeitando os cabelos para trás, num movimento fluido de suas mãos.

— Preciso ir, meu noivo está me esperando para um chá em sua casa e não posso me atrasar. — dito isso Bianca se afastou de Perséfone, deixando-a no silêncio do escritório e da verdade cruelmente escondida.

Seria a nova Duquesa outra Maria di Angelo ou seria a mulher impetuosa que Bianca acreditava que fosse?

31 de Outubro, 1671

Bianca nunca pensou que veria o dia em que seu pai se calaria perante alguém em sua vida. Nunca aconteceu com sua mãe ou nenhum outro familiar antes. Hades não abaixava a cabeça para ninguém além do Imperador, e seus gritos eram esperados pelos corredores da casa como os daquela manhã, quando humilhou Perséfone no escritório em alto tom.

Mas pela primeira vez em dezenove anos, Bianca ouviu a voz de uma mulher se sobressair à dele. A raiva, a impetuosidade, o tom de ordem que se formava na voz de Perséfone carregada em seu sotaque amplo voou pelos corredores como brisa; um respiro na casa submersa em escuridão e doutrinas.

Perséfone pontuou quem era no instante em que Hades gritou com ela, ordenando que se calasse e se afastasse de seus assuntos particulares. Bianca assistia da fresta da porta com curiosidade a forma esguia e alta da mulher forte que Perséfone era, apontando o dedo para Hades. A maneira como ela cresceu, como uma amazonas em armadura dourada e poderosa.

Perséfone não seria dobrada.

—… não me importa se concorda ou não! Eu sou a dona desta casa. Você se casou comigo, mas não é meu dono, Hades! — sua voz era firme, o tom incisivo: — Eu decido como arcar com os gastos da casa, eu decido como a educação das crianças serão executadas. Não sou sua criada, sou sua senhora.

Hades abriu a boca para falar, mas foi prontamente silenciado.

— Não ouse erguer a voz para mim! Se casou comigo sabendo quem eu era, quem meu pai é. Um único estalar de dedos e posso fazer com que suma de vista, meu marido. — sua voz assumiu um tom divertido: — Não seria meu primeiro.

Hades trincou os dentes, encurralado. Bianca conhecia tudo sobre a vida de Perséfone, seus ex-maridos e sua personalidade intensa e incontrolável. Diferente de Hades que só pensa em status e fortuna com o dote vasto de Perséfone, Perséfone era dotada de uma inteligência que Hades mal seria capaz de pontuar.

Bianca usou e abusou desta diferença magnânima. Algumas palavras agressivas de incentivo e Perséfone mostrou suas cores como predadora antes do bote.

— Dispensarei o tutor de Nico na esgrima, a partir de hoje treinará com Alessandro, e Hazel terá aulas com professoras que eu escolher. São meus filhos, Hades, e a partir de hoje minha total responsabilidade. — dito isso ela se virou, dando as costas à Hades: — Até o jantar, meu marido.

Perséfone deixou o escritório à passos firmes, impondo o respeito que merecia como Duquesa di Angelo. Ao sair, trocou olhares rápidos com Bianca que sorriu para a Duquesa, orgulhosa e secretamente agradecida. Perséfone sorriu de volta numa conversa silenciosa.

Bianca não lutaria mais sozinha.

02 de Dezembro, 1671

— Tem certeza que seu irmão é a escolha certa para ser o próximo Duque? — Luke questionou, a voz calma embalando Bianca na estufa da mansão Castellan.

— Claro, por que não seria?

Luke sorriu para ela, doce, orgulhoso. Esticou a mão para seu rosto, retirando uma mecha dos cachos fartos, enrolando-o em seus dedos enluvados.

— Você é inteligente e sabe controlar a situação da forma como gostaria que as coisas fluissem. Me contou o que fez com Perséfone, como tem controlado a mansão por conta própria desde o desaparecimento de sua mãe. Não vejo pessoa melhor para herdar o Ducado do que minha futura esposa. — comentou suavemente, o tom manso e doce.

Bianca sorriu, envergonhada.

— Não me orgulho disso. — admitiu em baixa voz. Não era certo uma mulher agir de maneira manipuladora, mesmo em função de outros. Atitudes como essa eram comumente repudiadas em jovens damas.

Exceto por Luke que se divertia com sua personalidade forte e autoritária. Luke acariciou seu rosto com a ponta dos dedos, tenro.

— Mas deveria. Fez o que uma Duquesa faria, garantindo que o Ducado estará em boas mãos mesmo sem sua assistência. — afirmou afastando-se de Bianca, servindo-se do chá morno: — Não vejo alguém melhor do que você para uma função de tamanho prestígio. Perdoe-me por condená-la à uma posição inferior, indigna à você.

Luke apoiou o rosto em sua palma, seus olhos azuis faiscantes com admiração e curiosidade. Bianca o observou, o loiro de seus cabelos reluzindo como ouro derretido. A cicatriz em seu rosto lhe dava um charme belo, a marca de respeito e honra de uma guerra vencida anos atrás.

Bianca sempre o achou fascinante nas festas às quais comparecia. O jeito elegante de se portar, os sorrisos educados ao dançar com as moças, a mão firme e quente ao firmá-la no minuet. Era um sonho de pretendente, um rapaz que a cortejou desde seus quinze anos com presentes, visitas discretas e companhia para festas e bailes.

Luke Castellan se tornou a única constância na vida de Bianca desde a morte e Maria, a certeza de tardes acolhedoras e protegida de seu pai ou afazeres exaustivos de uma posição alta demais para suas habilidades.

Ali, sentada ao lado de seu noivo, sob o sol fraco de uma tarde de inverno, o calor da estufa embalando-os como um manto acolhedor e tenro, sentia-se segura.

Ao ser levada até o interior da casa, o braço de Luke firmando-a em seus passos leves, Bianca sabia que a posição como Condessa não seria desagradável; não com o homem à quem chamaria de marido.

23 de Março, 1674

Bianca se casaria em breve. Estava planejando o casamento há mais de um ano com Perséfone, escolhendo as cores das decorações da festa recepcionada na mansão di Angelo após o casamento. Os arranjos de flores belos feitos pessoalmente pela Duquesa, o presente de casamento de seu pai na porta da mansão — a lustrosa carruagem francesa que Bianca era apaixonada — e o colar de esmeraldas que seu irmão comprou para ela.

“Você fica linda de verde”, ele lhe disse com aquele sorriso arrebatador.

Não era sua culpa amar tanto aquela cor, não depois de um elogio de seu irmão, o garotinho que se tornou um homem tão rápido quanto pode acompanhar; a criança frágil e delicada se transformou em um elegante rapaz quisto e elogiado pela sociedade nobiliária.

O orgulho di Angelo.

Bianca viu o tempo passar com lentidão, os momentos de dor após Maria, os choros escondidos de Nico pelos corredores, a voz tristonha de Hazel chamando por sua mãe que a abandonou igual a primeira. Os abusos incessantes de seu pai e seu amadurecimento rápido demais para sua idade.

Se pegou questionando quando o tempo voltou a passar rápido, quando permitiu que Perséfone se tornasse uma figura materna para ela, estando ao seu lado na escolha dos preparativos para o casamento. Bianca via a forma como Perséfone abraçou a família, como Hazel agarrava-se a ela com medo de que desaparecesse, como Nico amoleceu seu coração e permitiu que o consolasse em seus momentos de fragilidade.

Era a primeira vez em anos que agia como alguém da sua idade, eufórica e sem preocupações acima de sua capacidade. Bianca se casaria naquela semana com o homem o qual era apaixonada desde criança, seus irmãos estavam bem-cuidados e Nico seria o chefe da família em pouco tempo.

Bianca poderia respirar finalmente.

Nico havia partido atrás de um presente de casamento que Bianca tanto pedia quando criança, um punhado de areia clara e mágica de Malta. “Realizaria seus desejos” sua mãe dissera uma vez, de um conto que ouvira quando menor. Bianca riu de Nico quando ele disse que iria até lá, mas secretamente estava emocionada.

Ele estava para chegar e nunca esteve tão feliz.

Minirrosa havia ancorado em Veneza naquela manhã, avariado, as velas rasgadas e partidas.

E Nico não estava à bordo.



Bianca nunca desejou que o tempo corresse antes, por mais que o sentisse lento e torturante nos anos anteriores. Nunca implorou por respostas ou ajuda, nem o sono que a abandonava em noites insossas.

Agora ela implorava.

Um ataque pirata enquanto voltavam de Malta, uma abordagem traiçoeira de um navio que Bianca jamais esqueceria o nome.

Argos II

Argos II

Argos II

Bianca amaldiçoava sua existência, a audácia em retirar Nico dela sem prepará-la para a perda. Hades gritava cada vez mais a medida que os dias passavam, desesperado, raivoso, descontando suas frustrações em Giovanni acorrentado na prisão da mansão di Angelo. Às vezes gritava com Perséfone, outras com as empregadas que passavam pelos corredores.

Ela entendia suas frustrações, sentia o mesmo em seu coração pesado, a desolação de Bianca era imensa. O casamento fora adiado sem questionamentos e se via rodeada por Luke a todo instante, garantido que havia seus próprios homens atrás de Nico, que iriam achá-lo em segurança, mas Bianca sabia que nunca o encontrariam.

Um mês depois o Minirrosa retornou. Nico di Angelo se perdera no oceano, morto cruelmente por piratas deploráveis.

O rapaz que retornou à bordo do navio não era seu irmão.

Bianca não sabia quem ele era.



Nico não conversava com ninguém além de Hazel. Não permitia atendentes ou damas, ou ajuda em banhos ou momentos de intimidade. Andava com passos tão pesados, tão arrastados, carregando o mundo em suas costas esguias e repentinamente frágeis.

Comportava-se como um animal assustado, a todo momento atacando e machucando, gritando com pessoas que o tocassem, ofendendo seu pai em situações onde Hades o punha contra a parede, exigindo explicações sobre aquele mês no navio Pirata.

Nico nunca disse nada sobre o que aconteceu, mas Bianca sabia. Todos sabiam.

Hazel não saía do seu lado, as mãozinhas firmes em sua camisa ou terno, arrastada por onde Nico sentia-se compelido a ir. Seu rostinho tinha determinação, um brilho áustero em seus olhos avelã. Um pequeno anjo da guarda, como Perséfone a chamava.

Semanas tornaram-se meses antes que Bianca tivesse o bastante daquela situação.

Sentou-se ao lado de Nico no interior do labirinto de rosas de sua mãe, o refúgio de Nico em momentos de dor e lembranças. Hazel não estava com ele, e sem ela Nico parecia vazio, desolado, morto por dentro. Bianca entrelaçou seus dedos aos dele.

— Não precisa me contar o que aconteceu. — comentou sincera, apertando sua mão paralisada e tensa, muito tensa: — Mas não se afunde sozinho, estou aqui, me deixe cuidar de você.

Nico riu, uma risada tão amarga e cruel que Bianca prendeu a respiração em pavor. Tão seca e fria, tão parecida com Hades.

Por Deus, não.

— Não tem como cuidar de mim, Bia. — respondeu em sua piada cruel, sua secura desalmada: — Não sobrou nada aqui dentro pra você tratar.

— Claro que há. Estou olhando para você, estou ouvindo sua voz. — respondeu triste, tão triste.

— É a minha voz? Tem certeza?

Não, Bianca não tinha, e isso a assustava.

— Está tudo bem Bia, eu não vou quebrar como a mamãe… — Nico abaixou a cabeça, as cicatrizes em suas costas emergindo pela gola da camisa. Bianca engoliu o arfar desesperado: — Não posso quebrar.

— O que planeja fazer?

Nico se virou para ela, um sorriso caloroso se alastrando por seu rosto apático, incondizente, hórrido em sua face desprovida de calor real.

— Devolver o que me foi dado.

Bianca não sabia o que ele queria dizer, mas permitiu que a conversa se encerrasse ali, com Nico deitando sua cabeça em seu ombro desnudo, o primeiro contato fraternal entre eles em meses. Bianca tinha medo, medo do rapaz desconhecido ao seu lado, da crueldade em sua voz, da rigidez em seu corpo.

Sua mãe estava errada, ela não podia fazer aquilo.

24 de Abril, 1675

Bianca se casou com Luke como sonhara no ano anterior.

Fora levada por Nico até o altar, com a máscara alegre que seu irmão caçula passou a vestir. Estava mais alto, mais encorpado ainda que esguio e esbelto. Nico di Angelo exalava poder e controle, e Bianca sentiu-se tonta pela forma que Nico encarava Luke, agressivo, possessivo, entregando Bianca com um aviso e um alerta.

Nico estava controlando os passos de seu marido, predatoriamente.

Era isso que sua mãe quis dizer com ele a proteger?

Ela não se sentia protegida.

12 de Setembro, 1677

Bianca não estava lá quando Nico humilhou seu pai publicamente no baile de Outono, expondo seus segredos mais sórdidos ao Imperador enraivecido. Não percebeu que Nico passara três anos reunindo aliados poderosos, sequer que o Grão-Duque Howard tinha interesses em uma aliança com os di Angelo. Nenhum daqueles nobres demonstrou interesse por Hades antes.

Talvez houvesse uma rixa que Nico conhecia, e abusou da fragilidade de seu pai detestável com seus aliados importantes demais para serem combatidos.

Tudo foi colocado ao sol. Os jogos ilegais de seu pai, o caso fora do casamento e a existência de Hazel. O suicídio de sua mãe na sala de música.

A maldita sala de música.

Hades perdeu tudo que tinha direito, todas as posses e títulos, honrarias e reputação. Foi condenado a passar o resto de seus dias preso na casa de veraneio dos di Angelo, com soldados imperiais o guardando diariamente. Perséfone foi com ele quando Nico ascendeu como Duque.

Nicollá di Angelo, Duque de Veneza.

Bianca sentiu-se tonta com aquela informação.

Não esteve presente para a ascensão de Nico, mas esteve no instante em que Luke recebeu a notícia, lançando um vaso contra as paredes decoradas em tons de verde água.

Luke parecia um animal enraivecido, traído.

Bianca não tinha mais controle de nada, talvez nunca tenha tido.



— Ele não pode ser Duque. — Luke alertou Bianca enquanto ela colocava Phillip para dormir, seu pequeno tesouro envolvo em manto persa, um dos presentes dado por Nico no seu nascimento.

Nico havia sorriso de verdade naquele dia, como o tio carinhoso que ela sabia que ele seria. Ou poderia ter sido.

— Ele já o é. — salientou Bianca, sentando-se na poltrona ao lado do berço.

Luke se ajoelhou à sua frente, as mãos quentes em seus joelhos expostos pelo roupão de seda.

— Ele está doente, Bianca. Nós sabemos disso, vimos como ele retornou do mar, como agiu depois disso. Tudo que ele fez depois disso. — comentou Luke, uma acidez em sua voz que nunca esteve lá antes da ascensão de seu irmão. Bianca aprumou-se, preocupada.

— O que insinua, Luke?

— Ele terminará como sua mãe se não o salvarmos de si mesmo. Não tem condições de ser o Duque, como sua mãe não pode ser Duquesa. Eles são iguais. — respondeu seu marido, o amargor em suas voz tornando-se veneno.

Bianca se ergueu, afastando-se.

— Não! Ele não é igual, ele não pode ser igual. — comentou em desespero. Nico era forte, tinha a personalidade brutal de Hades, mas a doçura de sua mãe, era capaz de moldar seu caminho como sua mãe dissera que seria.

— Bianca, pense. Ele não deixa ninguém se aproximar dele a não ser seus amantes ímpios, e provavelmente tão indignos quanto Nico de estarem na mansão. — relembrou áspero. Bianca ferveu.

— Não fale dele assim, Luke! Não ouse!

— Ele está quebrado, irá acabar com tudo que há no Ducado, incluindo ele próprio e Hazel! — gritou de volta para ela, irritado, nervoso. Bianca afastou-se: — Não percebe, meu amor? Nico não consegue lidar com a pressão, ele não é o mesmo garoto de antes do sequestro. Nico di Angelo está quebrado, fragilizado. Ele não existe mais. Ou salvamos o que restou dele, ou irá velá-lo ao lado de sua mãe.

— Não… — Bianca negou, incrédula: — Ele é como o papai…

“Quando você se casar ele arcará com a vida na mansão sozinho, mas nunca deixará de cuidar de você”

— Ele não vai… — Bianca dispencou no sofá atrás dela, o choro de Phillip mudo aos seus ouvidos: — … ele está sozinho...

— Salve-o, Bianca. Cuide dele, eu cuido do Ducado. — a voz de Luke estava distante, tão oca aos seus ouvidos. Sua voz e o choro: — Eu serei o Duque, Nico pode viver em nossa casa de verão, ninguém perceberá...

Bianca não ouviu o resto da frase, mas concordou, concordou com desespero.

A sala de música não se repetiria.

Nunca.

15 de Novembro, 1677

A festa de Phillip foi incrível e alegre. Nico manteve-se como acompanhante de Hazel toda a festa, brincando com ela e fazendo companhia para Bianca. Seus sorrisos eram largos e aliviados, como um peso fora de seus ombros sempre rígidos, sempre prontos para um ataque inesperado.

Naquele dia ele flutuava, e Bianca sentiu o amargo em sua boca. Ele estava bem? Se estava bem poderia continuar como estava, não teriam que forçá-lo à uma renúncia.

Ele está fingindo, Luke lhe disse quando Bianca questionou na festa, escondido dos olhares.

Luke abordou Nico naquela tarde, e outra vez Bianca viu a forma feroz e agressiva de Nico com seu marido, o descaso, a raiva, a repulsa. Bianca percebeu o erro no pensamento de Luke que nenhum dos dois havia notado.

Ele não era igual Maria.

Nico era a cópia de seu pai naquele jardim. Vestia uma máscara de ferro, impenetrável, assustadora, olhos tão afiados e cortantes quanto a espada em seu coldre. Gesticulava com a elegância de uma naja, pronta para o bote.

Ele não estava em perigo, nunca esteve. Eles estavam. Bianca aceitou o ataque à mansão quando Luke alertou para que ficasse no quarto, que ele tomaria a mansão à força das mãos de um falso Duque; da cópia de um irmão desaparecido.

Ao som dos primeiros disparos e gritos, Bianca pareceu despertar para a realidade brutal a qual havia se colocado. Nico estava do outro lado daquela guerra tola, e Bianca aceitou seu papel como inimiga de uma guerra sem sentido.

Por Deus, o que ela fez?

Quando o ataque aconteceu dentro da mansão ela esperava que ele fosse embora com Hazel direto da passagem. Que saísse daquele lugar como o nobre que era e exigisse a morte de seu marido por lhe roubar tudo que tinha. Esperava que vestisse a máscara de sempre, que se portasse como Hades di Angelo.

Então por que ele estava no seu quarto? Por que ele veio desesperado buscá-la daquela bagunça, como se ela não fosse responsável por aquilo tudo? Desde o começo, desde a morte de Maria, desde quando resolveu usar seu irmão para conseguir o conforto que sempre quis.

Por que ele lhe gritava para que a seguisse, para que confiasse nele e lhe desse sua mão, dizendo que tudo ficaria bem? Ela conseguiria viver com seu filho junto deles se confiasse nele. Por que ele tinha que ser bom?

Bom!

Bom!

Bom!

Quem ele era? Hades ou Maria? Nico ou aquele menino desconhecido que desembarcou do Minirrosa? Ela não o conhecia, mas ele era tão familiar. Bianca estava aos prantos, sua mente pregando-lhe peças traiçoeiras e cruéis.

Nico gritou alto quando soldados prenderam Hazel em suas mãos. Nico rugiu de uma forma animalesca, e não era mais Nico à sua frente, nem Hazel ou as crianças que ajudou a criar. Era Hades em sua forma monstruosa, era o demônio que atormentava seus sonhos, a criatura que abandonou o corpo de sua mãe gélida no chão até minutos antes do enterro, jogando-a na caixa preta e lacrando para que ninguém à vise.

Aquele cujas as mãos marcaram sua pele com tapas e socos, em situações onde tentou agir como protetora, em momentos onde tentou combater a fera.

Hades ergueu-se à sua frente, poderoso, destrutivo, possuindo o corpo inocente de seu irmão, e Bianca desesperou-se com a visão cacofônica em sua mente perturbada. Ela o atacou, ordenou que protegessem Hazel e o apunhalou pelas costas. Sentiu a adaga entrando em sua pele, o sangue escorrendo por seus dedos junto do grito de dor de seu irmãozinho.

A mesma voz doce, o mesmo choro que acalmou quando mais novo debaixo de suas cobertas com histórias infantis. Ela viu seu choque e mágoa nos olhos caramelo, tão traídos e úmidos ao mesmo tempo. Bianca notou quando o quebrou, o partindo em dezenas de pedaços num ato imperdoável. Ela o machucou mais do Hades jamais o fez, e não pode velar a expressão horrorizada e o grito que queria escapar de seus lábios.

E quando ele, no instinto, atacou Bianca para proteger a única pessoa naquela sala que não o via como inimigo, não o culpou pela repulsa. Ele matou o soldado friamente e a jogou contra o berço despedaçando-o no impacto, lhe roubando um bem tão precioso no processo. Não teve gritos, nem barulho. Ele somente parou de respirar com o peso contra seus pequenos pulmões ainda fracos demais.

E Bianca gritou em agonia, gritou assassino com toda força de seus pulmões.

Mas desta vez não para Nico. Não era ele o culpado.

Não era ele.

Nunca havia sido.

Luke foi recebido por gritos de ódio, e o luto eterno de sua esposa trajada pelo negro da morte; a perda de Phillip e seus irmãozinhos. Luke aceitou seu afastamento, ele tinha o que sempre quis, e Bianca, tola, nunca percebeu.

Luke tinha a mansão.

E Bianca ficou sem nada

21 de Maio, 1684

— Senhora Castellan, invadiram a mansão! — gritou uma de suas damas, desesperada e em pânico ao entrar em seu quarto.

Bianca permaneceu sentada na mesa em frente à sacada aberta, os olhos fundos e pesados em seu rosto pálido, na mortuária que vestia há cinco anos longos e vazios. Bianca concordou com a cabeça, gesticulando com as mãos frias.

— Vão. Deixem-me sozinha. — ordenou baixo, o tom arrastado e cansado.

— Senhora, não sabemos quem está nos atacando! Podem ser ladrões ou bandidos! — disse outra de suas damas, Beatrice, Bianca imaginava. Não distinguia bem rostos há algum tempo.

— Eu sei quem é. Está tudo bem, vão.

Elas foram à contra gosto, deixando-a sozinha no seu refúgio solitário e doloroso. O isolamento onde escondeu-se por tantos anos, por tantas estações que perdeu-se no tempo, mas ali estava seu irmãozinho reivindicando o que sempre foi dele. Sozinho, poderoso, imponente, caminhando pelos jardins internos com um objetivo claro.

Estava tão crescido.

Bianca sorriu orgulhosa, erguendo-se da mesa, resgatando um frasco antigo que preparou alguns meses após a morte de Phillip, a culpa sendo a única coisa que a impedira de beber do líquido amargo e escuro. Sua culpa invadiu a mansão com tiros e fumaça, e mais nada a separava daquela pequena felicidade.

Misturou ao chá e bebericou como a dama que era. A coluna hirsuta, lábios em rouge e cabelos presos do preto mais sedoso e invejável. Sorriu largo para Hazel que corria pelo quarto com Nico jogado na cadeira em frente à ela, lendo um de seus livros fantasiosos que tanto amava e devorava com afinco.

Ele ergueu o olhar para Bianca, sorrindo tão brilhante como o sol, a luz guia que ela se lembrava, estendendo-lhe a mão sem medo ou rigidez, no mais puro amor em seu peito.

Ah, lá estava seu irmão perdido.

Finalmente havia o encontrado.

Notas finais
Resumo do capítulo para quem não quis ler: Bianca tem uma conversa com Maria sobre não poder ser Duquesa e que, a pedido de sua mãe, deveria cuidar para que Nico crescesse como um bom menino e se tornasse um bom Duque, diferente de seu pai. Bianca aceita essa promessa, e um mês depois dela Maria se mata enforcada na sala de música. Nico infelizmente estava lá e viu tudo, e Bianca acaba sendo a responsável por cuidar dele, do seu pânico e segurar o seu próprio ao pedir para Hades a posição de sua mãe como senhora da casa, para cumprir a promessa de cuidar de Nico. A partir dali ela começa a jogar com suas peças, manipular o cenário. Ela escolhe a esposa de seu pai sem que ele perceba, ela manipula Perséfone para se tornar uma Duquesa, não uma marionete como sua mãe, controla a entrada e saída de informações da mansão sobre sua mãe e dá a Nico e Hazel a infância que eles merecem. Porém, quando Nico volta de seu tempo em cativeiro com o Percy, ele volta diferente, e a partir daqui ela não o reconhece mais, e no fundo acredita que ele tenha morrido, que aquele Nico era uma miragem de sua mente. Ela passa a enxergar Hades em Nico cada vez mais, e isso a deixa vulnerável à manipulação barata de Luke. Ela ataca Nico por medo dele ser igual ao pai, e por sua traição, pela morte de seu filho e o luto eterno por seus irmãos, Bianca se mata no final. —----X----- OK, foi um capítulo tenso, né? Temos aqui o ponto de vista da Bia, a forma animalesca de Hades, a visão infantil pura e dócil que Bianca criou para Nico, a sensação de Poder que Bianca sentia ter ao manipular tudo (ou pensar estar manipulando). A Perséfone sendo a dona da casa surpreende zero pessoas, e assumindo as crianças de Maria me faz ter um espaço no meu coração para ela ♥ A visão da Bianca sobre o Nico é totalmente deturpada. Vocês sabem quem o Nico é, mas eu precisava mostrar o passado dele pelos olhos dela, o que ela fez para que o impulsionasse a querer ser Duque, o que aconteceu na mansão e quem foram os responsáveis por tudo (como a morte de Maria foi o centro de tudo). Enfim, espero que tenham gostado do capítulo, da leitura, pegado as pequenas coisas do capítulo que escrevi com carinho e cuidado. Voltaremos no próximo com o Nico, e avisando, o capítulo de hoje está com a numeração 44 ao invés de 47, porque eu irei apagar na semana que vem os capítulos 28, 32 e 42 e ajeitar os títulos de capítulos e capas. Se vocês quiserem, podem retornar nesses capítulos para resgatar seu comentário caso não queira comentar de novo e só fazer um cópia/cola (eu super faria isso, sou preguiçosa pra comentar), mas caso não queriam reler eles quando eu repostá-los super entendo também. Enfim, é isso! Até o próximo! Beijinhos~