Pit-a-Pat
46 Capítulo XLV
Notas iniciais

Nico
~Capítulo XLV~
:: 82º dia na Itália — Semana 11 ::
[...]
Nico perdeu a noção do tempo desde de entrou na carruagem até sua chegada no Palácio de Viena. Foram três dias na estrada, passando as noites em estalagens reservadas apenas à ele. Por mais que tivesse a companhia de Christiano, a angústia de ser mantido no escuro diante a decisão do Imperador o deixava incomodado.
Durante as noites que passou em claro, Nico escreveu cartas privadas à Will, mais uma das dezenas que não enviou desde que saiu para o acampamento há quase três semanas. Eram cartas sobre o dia-a-dia, seus pensamentos e suas saudades. Contou a ele sobre o reencontro com Romeu e Alessandro, a comida diferente que não experimentava há cinco anos; explicou de forma rasa a situação do acampamento, a invasão brutal da mansão. Não contou como matou Luke ou Augustus, mas lhe informou de suas mortes.
Em uma carta separada, contou em palavras o que nunca teria coragem de dizer em voz alta sobre o que sentiu com a morte de Bianca, o quanto gostaria que ele estivesse com Nico na primeira noite depois de seu enterro, quando encontrou um desenho gasto na escrivaninha do quarto antigo de sua irmã, velho e manchado de sangue; ajoelhou-se no chão e chorou copiosamente em angústia e pesar. No fundo, a raiva da irmã não era tão verdadeira quanto ele a pintou para si mesmo ou para Will. E o luto o acometeu dolorosamente.
Foram tantas cartas escritas, lacradas e mantidas em uma caixa de madeira em sua mesa, privadas e protegidas por Nico como um tesouro próprio. Ele as enviaria a Will quando tudo se acertasse, quando obtivesse absolvição do Imperador, mas não antes. Não teria coragem de criar esperanças falsas em Will sem antes saber se seguiria vivendo após o encontro com o Imperador.
Encerrou a última carta contando sobre seu encontro com o Imperador no dia seguinte, das acomodações que lhe foram dadas no Palácio de Viena; do peso do ouro e do poder que emanava de cada parede farta daquela construção monumental. Estivera no palácio no passado, quando expôs seu pai para a Sociedade Nobiliária, exigindo a posição de Duque e progenitor dos di Angelo. Não prestou muita atenção quando visitou pela primeira vez, mas o sentimento opressor era idêntico.
O fazia sentir-se diminuto em um antro de monstros e deuses.
Reclinou-se na cadeira, esticando os músculos das costas tensionados. Levantou, caminhando até a sacada aberta. Apoiou os braços na amurada, vendo o jardim do Palácio sob a luz do luar. Inspirou o ar limpo, absorveu o silêncio do Palácio no meio da noite, imaginando como seria a audiência com o Imperador no dia seguinte. Estava nervoso, ansioso. Era a primeira vez que sentia-se enjaulado sob o poder de outra pessoa que detinha de sua vida ou morte.
Apoiou a testa na amurada de pedra, estremecendo com o toque gélido.
— Vai dar tudo certo, tenho certeza… — comentou consigo mesmo, como um mantra: — Está tudo bem.
Ele não tinha certeza, realmente.
☠
Christiano terminava de aprontar sua vestimenta quando um empregado do Palácio veio ao seu encontro, avisando-lhe que o Imperador estava à sua espera. Nico respirou profundamente, deu um aceno breve para Christiano que retribuiu de forma nervosa e aterrorizada. Sem tempo para tranquilizar o garoto, Nico seguiu o empregado pelo caminho até a sala do trono.
Nico não sabia o que esperar. Poderia ser uma conversa pública com a Corte comparecendo ao seu julgamento, ou algo privado entre ele e o Imperador. A primeira opção seria sua sina, a segunda uma chance ínfima de sobrevivência. Caminhou exaurido, ambas pernas frouxas e trêmulas, guiando-o para o abate.
As enormes portas folheadas à ouro se abriram. Nico foi anunciado e então entrou. Ao longo do corredor de pilares altos e espaçados se estendia um tapete da porta até o trono onde Leopoldo I estava sentado. Havia um homem de pé ao seu lado, tão severo quanto o próprio. Não sabia bem como descrever Leopoldo I, mas a primeira coisa que pode dizer sobre sua pessoa era o olhar gélido e brutal que enviava a Nico.
Estavam sozinhos, sem plateia além do Conselheiro e dos soldados, um a cada dois metros encostados nas paredes. Nico se aproximou devagar, respirando profundamente a cada passo dado. Ajoelhou-se aos pés dos degraus do Trono, aguardando.
— Nicollà di Angelo, Duque de Veneza. Já faz um tempo que não o vejo. — comentou Leopoldo, cruzando as pernas graciosamente: — As coisas são sempre agitadas em sua família.
— Peço perdão, Vossa Majestade. — Nico comentou, ainda de cabeça baixa.
— Levante-se, Duque. — ordenou o Imperador. Nico ficou de pé, apoiando o peso do corpo na bengala. Estava repentinamente desgastado com toda a pressão ao longo dos dias. Leopoldo o encarou de cima a baixo de forma crítica antes de acenar para um dos serviçais na sala: — Tragam uma cadeira para o Duque descansar.
Nico não esperava por aquelas palavras, mas logo estava acomodado em uma cadeira estofada de frente para o Imperador que detinha de uma feição menos hostil.
— Fui informado de sua saúde precária nos últimos cinco anos. Não pode comparecer em nenhum de meus eventos, ou de quaisquer outros nobres ao longo dos anos. — comentou o Imperador, apoiando o rosto em sua mão enluvada: — Fui informado que o ataque à mansão foi um resgate à sua Graça que estava sendo mantida refém pelo Castellan. Procede?
— Sim, Vossa Majestade.
— Pois bem. Disseram ter sido organizado pelo Marquês di Stefano que convocou o Visconde Abbateli e o Conde de Baltimore para uma investida. Devo admitir que o resgate foi um sucesso, com exceção de alguns pontos. — o tom do Imperador se tornou mais grave à medida que chegava ao final da frase. Nico imaginava onde ele chegaria com aquilo: — Por qual motivo meu primo se envolveria em um resgate desse calibre?, eu me pergunto, e ainda morrendo pelas mãos do Castellan.
Nico abaixou o olhar. Não tinha muito o que expressar além do silêncio incriminador.
— Disseram-me que Sua Graça assassinou o Conde como vingança à morte de meu primo. — continuou o Imperador, resoluto: — E que custeou o enterro dele em Veneza poucos dias depois, amparando sua filha mais nova.
Nico segurou a vontade de rolar os olhos. As fofocas corriam rápido pela Corte. Tinha somente lhe entregue um lenço, mas obviamente tudo tem um significado profundo demais na alta sociedade, e um lenço pode ser visto como cortejo mesmo que tenha sido durante um enterro. Nico realmente não tinha mais paciência para tudo isso.
— Fiz o que deveria fazer numa situação tão terrível como aquela, quando a culpa se tornou totalmente minha. — foi a única resposta que Nico poderia dar naquele momento. Não havia outra forma de parafrasear sem ter um Imperador raivoso como inimigo.
Leopoldo suspirou.
— A família de meu primo exige que eu destitua as terras e títulos dos Castellan, e as famílias envolvidas no resgate pedem vingança e justiça pelo que aconteceu à você e a Senhora Castellan, sua irmã. Os pedidos do Visconde Abbateli foram os mais fervorosos. — afirmou o Imperador, soando repentinamente cansado.
Só pode imaginar o quando não foi exaustivo ter toda a Corte lhe cobrando justiça sobre uma família corrupta, principalmente com a família do Grão-Duque como porta-voz do pedido; ninguém se oporia a isso.
— Eu serei imensamente grato a cada um deles, mas tudo foi arquitetado por mim ao pedir ajuda ao Marquês di Stefano. Houveram coisas fora de meu controle, imprevistos e improvisos como toda guerra possui. Me responsabilizarei por tudo, Vossa Majestade. — confessou Nico, abaixando a cabeça em submissão.
Havia prometido não envolver os nobres em seus planos quando estivesse diante do Imperador e cumpriria sua promessa, ainda que fosse condenado por sua integridade.
— Eu entendo, aceitarei que se responsabilize por seus atos, mas não tudo. Conde Castellan tem que pagar por suas atitudes desonestas ao tentar tomar o título de Duque para ele, como se não precisasse vir a mim para isso. — rebateu o Imperador, descruzando as pernas: — Vocês di Angelo são realmente problemáticos. Me pego questionando se executá-lo não seria mais fácil para mim, afinal.
Nico fechou os olhos, sentindo amargor em sua boca. O tom do Imperador era absoluto, não dando brechas ao que sentia ou poderia expressar. Era uma muralha impenetrável, brincando com Nico como uma presa indefesa e claramente encurralada. Não havia nada que ele pudesse fazer.
Ouviu o barulho dos soldados ao redor, esperando pela ordem do Imperador da mesma forma que Nico a aceitou antes mesmo que fosse dada. Era aterrorizante o quanto seu corpo estava tremendo de medo e angústia. Torcia para que o Imperador não houvesse percebido.
— Contudo, Sua Graça se mostrou um homem de palavra. Não causou problemas desta vez, e sim o Castellan. — disse o Imperador, gesticulando para seu Conselheiro ao lado: — Irei cumprir os desejos de minha família em relação ao Castellan, tal qual a da Corte. Divulgue o decreto. Quanto ao Duque di Angelo, por ter sido feito refém por tanto tempo estando debilitado e impossibilitado de se proteger, a Coroa lhe pede desculpas por não poder prestar assistência quando necessitou de nós.
Nico soltou o ar, em choque. Piscou várias vezes, curvando-se respeitosamente. Não esperava aquele percurso na conversa, não após o último diálogo.
— Não há com o que se desculpar, Vossa Majestade. Não teria como saber que seria traído por um membro de minha família. Pegou a todos nós desprevenidos. — confidenciou, aliviado por se manter vivo por mais um dia: — Por favor, não se desculpe.
Leopoldo esboçou um sorriso, a postura mais relaxada.
— Pois bem. Soube de sua saúde, Duque, poderia me atualizar sobre ela? — inquiriu o Imperador, e Nico viu então sua chance de concluir mais um de seus esquemas.
Sorriu cansado.
— Tem piorado nos últimos meses, Vossa Majestade. Tem se tornado difícil para mim ficar muito tempo de pé em eventos, por isso tenho evitado comparecer aos vossos convites. — admitiu Nico, passando a mão pelos cabelos, em uma encenação ordinária: — Temo não ser digno de manter o título que me foi dado, e que eu venha a perdê-lo muito antes de conseguir algum herdeiro. Eu lhe peço para que escolha outro Duque que possa eternizar seu legado, pois não creio ter tempo para isso. — confessou Nico, mantendo o tom fragilizado: — Só lhe peço para manter a mansão que era tão querida por minha mãe.
A sala do trono ficou repentinamente silenciosa. Sabia que não era um pedido que o Imperador estaria esperando. Ele mesmo não tinha total certeza se poderia abandonar um título sem ser destituído ou morto, mas não tinha nada a perder e nenhuma intenção de assumir o Ducado, não depois dos últimos cinco anos no mar; não depois dos dois meses em Ravenna.
— Irei considerar seu pedido com cautela. Não há ninguém que possa assumir a responsabilidade do Ducado de Veneza, que como bem sabe é uma tarefa árdua e complexa demais. — salientou o Imperador, dedilhando no braço do trono, irrequieto: — Mas claro, caso seja destituído de seu título manterá as terras da mansão e o título de nobreza, ainda que não tenha mais o Ducado como responsabilidade. Sua família é antiga na Itália, não deixarei seu nome ser esquecido pelo tempo, mesmo que não possa dar continuidade à ela.
Nico respirou aliviado, um sorriso grato e sincero após tanto nervosismo.
— Se me permite, Vossa Majestade, tenho uma sugestão de quem poderia assumir meu lugar. Tenho pensado muito sobre isso nos últimos anos. — afirmou Nico, com o olhar afiado.
O Imperador se reclinou na cadeira, curioso, lhe dando permissão para prosseguir.
E então Nico conquistou sua última vitória.
☠
Nico estava em sua mesa assinando alguns papéis negligenciados pelo Castellan durante os últimos anos. Muitas contas da mansão estavam em atraso, pagamento dos funcionários reduzidos pela metade, contratos vencidos e diversos documentos sem assinatura jogados pelo escritório. Desde que voltou de Viena há alguns dias estava preso no escritório, organizando os documentos da casa com urgência.
Pela conversa que teve com o Mordomo que administrava as finanças da casa por negligência de Luke, estavam com menos empregados, os quais aceitaram os valores abusivos de Luke na esperança de que Nico retornasse para a mansão. Por mais que fosse um gesto muito honroso, Nico imaginou que se todos tivessem ido embora, talvez teriam percebido a situação do Ducado mais cedo.
Antes de lidar com as finanças da casa, Nico entrou em contato com os Generais, recompensando-os da forma que prometera, com honrarias das mais gratificantes. Além deles, cumpriu sua promessa com os Nobres que foram recompensados pelo Imperador por sua ajuda e lealdade, ficando em bons termos com o Ducado. E, como prometido à Howard, iria comparecer ao Baile de Verão do Imperador que garantiria seu conforto e isolamento caso precisasse descansar afastado do salão.
Tudo começou a se encaixar da forma como Nico havia planejado previamente, satisfeito com os resultados no final.
No dia em que foi absolvido pelo Imperador de qualquer culpa, acudido por Chris tão nervoso quando Nico no momento em que retornou ao quarto, cambaleante, sem sustento em suas pernas, escreveu uma última carta ao Will, selando-a na caixa de madeira. Entregou para Christiano ao chegarem na mansão, ordenando a entrega dela para a casa dos Solace em Ravenna urgentemente. Nico imaginava que William já estava em posse das cartas naquele momento.
Respirou fundo parando de escrever por alguns instantes. Ainda que tudo tenha se resolvido, que a parte crítica de toda a guerra tenha finalmente se encerrado, Nico ainda se sentia preso, submerso em algum medo primitivo sempre que pensava em retornar para Ravenna. Não era culpa ou medo, mas uma angústia que tomava seu corpo sem sua permissão.
O que aconteceria quando retornasse? Para onde realmente iria depois de abandonar o Ducado? Como resolveria os problemas de cinco anos nos quatro dias antes do Baile? Tinha tanto no que pensar, mas sua mente continuava o levando de volta para Ravenna. Sentia sua falta, tanta que passou diversas noites em claro lhe confidenciando em cartas aquilo que desejava sussurrar-lhe a noite, ambos debaixo das cobertas no conforto surreal de seu quarto.
Suspirou cansado, apoiando o rosto em ambas mãos.
— Só mais uma semana, Will. — sussurrou Nico, como se pudesse ser ouvido pelo amante.
Batidas leves na porta o fizeram erguer a cabeça.
— Entre.
O mordomo abriu a porta, curvando-se respeitoso.
— Vossa Graça, a senhorita Hazel acabou de chegar. — avisou ele, um pequeno sorriso no rosto envelhecido.
Nico sorriu também, sentindo seu peito comprimir-se com a ansiedade. Havia mandado Dylan buscá-la no dia em que viajou para Viena. Quase uma semana desde que Dylan deixou a Itália, imaginava que fosse demorar um pouco mais para chegarem, mas estava contente demais pra reclamar de algo tão trivial.
— Obrigado, Louis, irei eu mesmo recebê-la. — avisou comedido, levantando-se graciosamente.
Caminhou devagar pelos corredores da casa, com a mão em seu peito disparado. Uma ansiedade diferente da que vivenciou em Viena dias atrás. Era convidativa, familiar, quente em seu interior como se fosse explodir com um simples ato. Por um instante, tão breve que mal diminuiu seu andar, Nico imaginou se aquilo tudo não era um sonho, um devaneio após sua condenação na sala do trono, momentos antes da morte?
Ter a mansão de volta e poder devolver à Hazel tudo que lhe foi vetado ao longo dos anos era um sonho tão irreal para eles, tão impossível de acontecer. Havia ordenado que limpassem o quarto de Hazel, trocassem as decorações infantis por joviais, mantendo os móveis em um cômodo fechado para o caso dela desejar reaver algo que tinha como precioso.
Preparou tudo que pode para seu retorno, além de uma pequena festa comemorando sua chegada. Esperava que as coisas corressem bem, mas antes disso torcia para sobreviver mais um dia sem colapsar em aflição.
Aquele aperto no peito intensificou ao descer as escadas do Hall. Tentou manter a feição indiferente, não demonstrar o quanto a chegada de Hazel o afetava, mas tudo isso foi pelos ares quando pisou na base da escada e Hazel entrou pelas imensas portas de madeira.
Nico não sabia quando havia visto sua irmã pela última vez. Talvez há um ano e meio, ou mais do que isso. Na última vez que a viu, Hazel tinha seus treze anos, ainda uma menina frágil e inocente, uma criança aos seus olhos endurecidos pelo tempo. Hazel entregou-lhe um arranjo de flores e um colar de contas que quebrou na mesma semana, mas tudo aquilo com o olhar infantil e o brilho divertido no rosto arredondado.
Contudo, aquela Hazel na sua frente era uma mulher.
Ele prensou os lábios, segurando tudo o que estava borbulhando dentro de si, bem apertado. Aquela mulher à sua frente não poderia ser real, aquela beldade que chorava descontroladamente dentro de um vestido amarelo pastel vasto, delineando a cintura de uma mulher esbelta nos espartilhos e anáguas. Era tão linda que Nico precisou segurar as lágrimas.
Pois ele realmente tinha conseguido, afinal. Ela estava viva, bem e teria a vida de rainha que lhe foi tomada, e nada o impediria de dar o mundo à pessoa que o mantivera sã durante anos de perversidade e malícia.
Hazel abriu um sorriso aliviado, seus olhos brilharam intensos no avelã mais belo e resplandecente. Nico somente abriu os braços, convidativo, e sentiu quando a irmã colidiu contra seu corpo abraçando-o com força e carinho. Nico a envolveu nos braços, as lágrimas descendo livres enfim.
Aquela mulher em seus braços foi o único amor fraternal que teve em anos, toda sua vida e razão de sua luta por anos. Tudo que ele era, tudo que ele pode se tornar estava agora nos seus braços.
E Nico não queria mais soltá-la.
☠
Will
— Will, você viu onde o Lorenzo deixou o cavalinho de madeira? — questionou Kayla, olhando ao redor enquanto sua atendente vasculhava os móveis com curiosidade.
— Não. — respondeu de volta, concentrado na lista de ervas que precisaria comprar.
Teve um pequeno surto de catapora na cidade na última semana. Muitas crianças aflitas com as pequenas feridas na pele para o desespero de muitas mães. Não se sabia muito sobre a doença, mas sim que era comumente associada com varíola. Pelo que Will conhecia da doença, as marcas na pele das crianças eram menos agressivas e quase nunca causavam a morte. Em poucos dias, com compressas quentes e ervas medicinais, as feridas se fechavam e o contágio desaparecia, diferente da mortalidade da varíola.
Por conta disso, precisou usar todo seu estoque de ervas para feridas e coceiras, e agora estava em necessidade de reposição.
— Will!
Will respirou fundo, esfregando a mão no rosto antes de se levantar. Deixou a pena no tinteiro e saiu do escritório. Sua irmã estava no Hall, sentada na poltrona terminando um de seus bordados. Lorenzo corria pela casa com a ama atrás, segurando o dito cavalo de madeira.
— O que foi, Kayla?
— Eu ouvi algumas coisas na cidade, mais cedo. — comentou a irmã, deixando o bordado de lado. Will sentou-se no sofá, instigando-a a continuar: — Disseram que houve uma batalha imensa em Veneza que envolveu diversos Nobres. Alguns comentaram sobre o Imperador, mas não sei se é realmente correto. Não teve nenhuma notícia de Nico?
Will suspirou: — Não. Já se passaram duas semanas, imagino que as coisas estejam agitadas ao retomar o controle de um Ducado como este.
— De fato. Estou angustiada! Dylan não me enviou uma única carta, e as informações que tenho são fofocas no mercado. Honestamente, parece que não se importam com nossa preocupação. — resmungou Kayla, abrindo o leque a abanando-se com irritação.
Will sorriu delicadamente.
— Eles estão ocupados, Kayla, tente entender.
— Eu tento, mas me sinto menosprezada. — confidenciou entristecida: — Dylan é muito dedicado ao trabalho, eu sei disso, mas às vezes ele esquece de avisar que não vai voltar para casa, ou que se machucou nos treinos. Eu só… não gosto de ficar no escuro desta forma.
Will concordou brevemente. Não entendia como funcionava um casamento, mas se recordava de quando descobriu a mentira de Nico, a forma como aquilo o corroeu e chateou tão profundamente. Não se sentiu importante ou relevante o suficiente para que Nico lhe confidenciasse, causando a primeira briga deles. Conseguia imaginar o que a chateava.
Apoiou sua mão no antebraço de Kayla, sorriso brando, transbordando em conforto e afeto.
— Eu preciso ir ao mercado comprar algumas ervas, o que acha de me acompanhar? Só nós dois. Podemos parar no parque por alguns minutos. — propôs divertido, um sorriso pintando seu rosto.
Kayla imitou o sorriso, animada.
— Irei me trocar! — avisou empolgada, chamando sua atendente para auxiliá-la.
Will negou com a cabeça, sua irmã havia se tornado uma dama de fato. Sabendo que levaria ao menos meia hora antes que Kayla descesse para o Hall, Will pode voltar ao escritório e terminar de escrever sua pequena lista de compras. Junto dela, adicionou alguns chás estrangeiros usados para o tratamento da diabetes. Não sabia quando Nico voltaria — ou se voltaria —, mas gostaria de ter um estoque privado para ele caso tivesse algum agravante em sua saúde. Will respirou fundo, envolvendo a chave em seu pescoço entre seus dedos.
Não havia uma noite sequer onde não implorava para que Nico estivesse bem. O ferimento não era mais grave, mas Will desconhecia muitos fatores de sua doença, e a cicatrização fraca era a maior de suas preocupações. Ele teria lhe avisado caso tivesse problemas com o ferimento, certo? Will gostaria de imaginar que sim.
Duas semanas desde que partiu, abandonando a casa subitamente gélida e morta em sua ausência. Nunca se importou em ficar sozinho. As visitas de Kayla e a presença de Andréa eram o bastante para suprimir sua solidão em momentos de fragilidade, mas desde que Nico apareceu em sua vida sentia como se a simples ideia de solidão o destruísse por dentro, transformando-o em ecos vazios e ocos.
O Hall se tornou organizado, a cozinha silenciosa, sua cama fria e solitária; o jardim perdeu todo o brilho que Nico havia lhe dado, a grama alta e sem brilho. Às vezes, quando a saudade se tornava impossível na madrugada, Will sentava no balanço, recordando-se do rosto divertido de Nico, das conversas secretas e dos toques singelos. Seu corpo se arrepiava com as memórias, desejando sua presença com força e necessidade.
Depois de quase uma hora no relento, Will retornava para a casa, no silêncio soturno e lamurioso nas paredes opacas e ocas. E assim se tornou sua rotina, consultas durante o dia, solilóquio no jardim durante a madrugada.
Apertou a chave em sua mão mais uma vez antes de devolvê-la para dentro da camisa, dobrando o papel e o guardando em seu colete. Deixou o escritório no mesmo instante em que Kayla desceu as escadas. Ofereceu-lhe o braço e juntos seguiram para o mercado.
☠
— Will, experimente! — ofereceu Kayla, entregando-lhe um pedaço do bolo que havia pego no café próximo ao parque.
Will havia prometido um passeio à irmã, portanto se deixou ser alugado após as compras no mercado. Passaram pelo café duas vezes antes de Kayla insistir para que entrassem. Pegaram uma das mesas do lado de fora, aproveitando o calor do verão e a maresia que entrava pelas avenidas largas.
O bolo que Kayla havia escolhido era um Mille Feuille, um doce francês que se tornou comum na Itália na última década. Will não era muito fã de doces, mas a insistência de sua irmã era quase infantil. Ele riu divertido provando um pedaço do doce.
— E então?
— Muito doce. — comentou Will, tomando um gole generoso de seu chá. Kayla revirou os olhos, servindo-se de outra garfada.
— Não entendo como pode não gostar de doces. — resmungou a irmã, inconformada.
Will apoiou o rosto em sua mão, observando a irmã com carinho.
— Eu gosto, mas não é minha comida favorita. Prefiro um bom queijo ou vinho do porto à doces. — respondeu divertido, recebendo um chute por debaixo da mesa: — Seja educada, Kayla.
Ela sorriu inocentemente, voltando sua atenção ao doce. Will revirou os olhos, terminando o chá que havia pedido. A avenida estava bem movimentada nos últimos dias, provavelmente pela mesma conversa que Kayla ouviu no mercado mais cedo e Will também há poucas horas. Todos permaneciam na curiosidade sem saber o desfecho da guerra que ninguém além deles tinha ciência sobre.
Suspirou, um pesar em seu peito esmorecido. Queria poder voltar duas semanas no tempo, e dizer a Nico tudo que ele não podia na época. Um rastro de culpa e remorso começava a devorá-lo pouco a pouco.
O medo de ter perdido sua chance tornando-se uma quimera em seu peito angustiado.
— Senhor William, chegou esta caixa para o senhor. — a ama do Lorenzo lhe avisou, apontando para a caixa sobre a mesa de centro.
— Caixa? — questionou Will com curiosidade, retirando o paletó dos ombros. Kayla o pegou, dobrando-o em seu braço.
— Veja o que é, vou ver como Lorenzo está. — incentivou Kayla deixando-o sozinho no Hall enquanto as mulheres seguiam para o jardim onde o pequenino provavelmente estava.
Will se aproximou da caixa de madeira. Era belissimamente adornada em arabescos dourados. A madeira era escura e brilhante, capturando sua atenção no mesmo instante. Sentou-se no sofá abrindo a pequena caixa em seu colo. Assim que o fez viu diversas cartas endereçadas à ele presas por um cordão fino e delicado.
Desamarrou o laço retirando a primeira carta com curiosidade. Não conhecia o símbolo no selo, mas tinha seu nome nela. Virou a carta com curiosidade quase derrubando a caixa em seu choque.
Nicollà di Angelo.
Will arfou, repentinamente ofegante. Olhou ao redor com apreensão, uma parte dele egoísta com algo vindo de Nico depois de tanto tempo. Devolveu a carta para a caixa, caminhando até o escritório. Fechou a porta e se permitiu respirar fundo.
Ele tremia de ansiedade e nervosismo. Era a primeira notícia em semanas de Nico, e de repente ele tinha dezenas de cartas para ler, cada uma delas escrita metodicamente e endereçada a ele. Em cada um dos selos azuis havia uma flor diferente prensada entre a cera e o papel.
Um sorriso escapou por seus lábios abrindo a primeira carta.
Querido William,
Esta será a última carta que irei lhe escrever. Não se assuste, tudo correu bem, melhor do que esperava depois de dias em aflição sob o teto palaciano. Não entrarei em detalhes, meu amor, pois tudo que senti sobre o assunto lhe escrevi em uma das dezenas de cartas que lhe enviei nesta pequena caixa de tesouros, similar aquela que guardo em minha cabine, com pertences de minha irmã.
Durante todo o tempo que me mantive distante de ti, criei um hábito noturno nas madrugadas longas e exaustivas na tenda do acampamento e em meu quarto na mansão. Escrevi cartas endereçadas a ti contando tudo o que sentia em meu peito apertado; meus medos, angústias, saudades e desejos. Transcrevi pensamentos em palavras, versos em prosa, coloquei nestas cartas pedaços de mim quando ansiava por tua companhia morna.
Will, meu amado, não sabes o quanto sinto tua falta e desejaria ter você ao meu lado desde o começo, dando-me o apoio o qual meus homens são incapazes de replicar.
Hoje tive uma audiência com o Imperador. Não irei mentir, Will, eu tive muito medo do que aconteceria naquela sala, sob a presença de alguém acima de mim e abaixo somente dos deuses. Temi ter errado em alguma escolha durante a guerra, algum ato impulsivo e imaturo de um pirata devasso. Ajoelhei-me e prostrei-me esperando uma sentença de morte, mas cá estou eu, escrevendo-te de meu quarto no Palácio após ser absolvido de qualquer culpa; a vitória que não acreditei que teria, enfim minha.
Há tantas coisas que desejo contar-te, confidenciar-te no silêncio da noite cálida, mas deixarei minhas cartas contarem pelo que passei, meus pensamentos e opiniões; o desenrolar de uma guerra vencida com sangue e traições.
E antes que te preocupes, não sofri ferimentos na guerra, e minha ferida antiga não reabriu, abençoada por teu beijo doce antes de minha partida.
Nunca pude prometer-te nada, sei disso, mas desta vez posso oferecer-te uma promessa adequada, um compromisso.
Retornarei para casa em uma semana, e desta vez não voltarei mais ao Ducado. Temos muito o que conversar, e espero que esteja bem, que estas duas longas e intermitentes semanas lhe foram boas e generosas. Espere por mim, Will, confie em mim quando digo que minha devoção por ti continua inalterada.
Até breve, meu amor.
Para sempre e irrevogavelmente seu,
Nicollà di Angelo
Will sorriu largo, escondendo o rosto na carta aromatizada. Ele estava bem, à salvo e retornaria para casa. Casa! Will não sabia mais como reagir àquela carta além de relê-la de novo e de novo, até decorá-la por completo.
Havia sido absolvido, livre de culpa e pecados, finalmente liberto de seus demônios que tanto o atormentavam. Recostou na cadeira, contando as vinte cartas na caixa, cada uma delas com uma fração de Nico confidenciada em palavras eloquentes e caligrafia ornamental.
Acariciou as cartas, ansiando por ler cada uma com o apreço de um amante. Deixou lágrimas de felicidade descerem por seu rosto, impossibilitado de pará-las ou limpá-las antes que Kayla retornasse.
Nico estava vivo e voltaria para ele, seguro e bem.
E Will o receberia para nunca mais deixá-lo partir.
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