Pit-a-Pat

44 Capítulo XLIII


Notas iniciais
EU ESQUECI DE POSTAR AQUI! Gente, sério, eu postei esse cap no spirit dia 18/10 e esqueci completamente de postar aqui também, isso nunca tinha acontecido antes?! Perdão mesmo, nem sei dizer o que aconteceu, sempre posto os dois ao mesmo tempo. Bizarro, mas bom, ta aí ruehurhrue E um beijinho especial pra Zaps. Não recebia comentários aqui no Nyah desde Março (aliás, dois comentários lindos, seu e da SrtaRosier88 em março que esqueci de agradecer, estou o fazendo agora ♥). Obrigada pelo carinho, me deixou muito feliz! Boa leitura!

Nico

~Capítulo XLVIII~

:: 73º dia na Itália — Semana 10 ::

[...]

Nico ainda ofegava sob a adrenalina latente em suas veias. Sentia o sobe e desce de seu peito pesado, cansativo, como se assistisse de fora do corpo.

Luke arfava um pouco distante de Nico, a palma esquerda sobre o ferimento em sua lateral, contendo o sangue fresco.

Um sorriso satisfeito pintou seu rosto guardando a pistola ruidosamente, deixando Luke em alerta.

Avançou dois passos para o lado, espada tracejando o piso, firme e aguda. Luke recuou mais dois, mantendo distância entre ele a insanidade do Duque. Nico caminhou silenciosamente ao seu redor, observando o estrago feito pela munição, calculando o ataque seguinte.

Um, dois, três passos e investiu contra o Castellan num ataque frontal. Foi defendido com dificuldades, o sangue irrompendo de seu ferimento. Nico forçou a lâmina para baixo, ergueu o joelho em um golpe, acertando a lateral lesionada. Luke urrou e Nico afastou a espada, avançando outra vez num corte diagonal em seu corpo, do ombro ao ferimento.

O Castellan cambaleou, as mãos trêmulas na espada. Sangue pulsava nos ouvidos de Nico, ensurdecendo-o para o ambiente ao redor, aguçando seus sentidos restantes. Luke tremia, o sangue irradiava a frente de sua roupa já embebida; o cheiro de ferrugem embalando-os no jardim.

Nico avançou outra vez, pela lateral contrária ao machucado. Luke não suportou o impacto da lâmina de Nico, a sua escapando de suas mãos. Um novo corte se abriu, mais profundo e mortal que o outro.

Suas pernas fraquejaram caindo de joelhos, trépido. Nico observou de cima, arfando pesado. Luke puxou o ar sôfrego, depois o soltou, trêmulo, expelindo sangue fresco de seus lábios, quente e espesso, manchando o chão claro do corredor.

Nico soltou o ar, embainhando sua espada. Ajoelhou-se na frente de Luke, próximo o suficiente para sentir sua respiração cansada.

— Eu me pego questionando, o que o levou a querer se tornar um Duque de repente? — comentou Nico, a voz afiada e ampla, arrepiando o Castellan ao ser absorvida.

Luke não respondeu. Espasmos percorriam seu corpo, as mãos trêmulas em suas pernas ensanguentadas e fracas prensavam o tecido em seus punhos fechados, refletindo a dor que irradiava por seus músculos.

Nico ergueu o rosto de Luke entre seus dedos enluvados, bruto. O homem chiou, olhos chocados e úmidos. Nico aguardou, mantendo o contato visual forçadamente, deixando hematomas em sua pele maculada. O Conde estremeceu outra vez.

— Você não merecia o título. — cuspiu Castellan repulsivo: — Sodomitas não merecem nada além da forca.

A risada de Nico pegou a ambos de surpresa. Foi uma lufada de ar surpresa, ofegante, como se não esperasse que aquele motivo tão tolo o incentivasse a destruir tudo que havia conquistado ao longo dos anos. Só pode rir, deixar a incredulidade tomar seu corpo, curvar-se para frente, as risadas tornando-se vogais abertas, desgraçadas.

Soltou o maxilar do Conde, fechando a mão em punho e desferindo um soco na maçã do rosto, sentindo o trincar dos ossos sob seus dedos calejados. O Castellan urrou de dor tombando para o lado, indefeso. Nico arfou, a risada tornando-se ira, dissipando-se no ar.

— Está me dizendo que fudeu com a minha vida porque eu me relaciono com homens?! — vociferou colérico, seus braços tremendo de raiva, ansiando por violência pura.

Segurou o Castellan pela gola desferindo outro soco, forte, no meio de seus olhos, quebrando seu nariz no impacto. Depois outro, e mais outro. Sentia o sangue umedecendo sua luva, o barulho dos ossos se chocando, os gemidos de Luke diminuindo; tornando-se choramingos. Sentiu o corpo de Luke desfalecer em suas mãos, parando a hostilidade.

O jogou ao chão, bruto, ambas luvas ensanguentadas, gosto ferroso em sua boca entreaberta. Ergueu-se do chão confiscando a espada de Luke, apertando o cabo com força.

— Tudo o que você fez foi por sua crença idiota? Por se achar melhor do que eu porque prefiro o calor de um homem à uma mulher? — cuspiu nervoso girando a espada em seu punho, a ponta da lâmina para baixo. Desceu com força contra a coxa do Conde acordando-o de seu topor. Gritou alto e desesperado: — Se acha melhor? Você?

Girou a espada no ferimento, outro uivo agudo, rouco, desesperado. Retirou o lâmina e perfurou novamente, próximo ao corte anterior. O corpo do Conde se contraiu, as mãos espalmaram no chão tentando se afastar, ofegos se tornaram soluços e Nico sorriu, nefasto.

— Eu assassinei pessoas. Enganei tolos, roubei de ladrões e fiz pactos com demônios em corpos humanos. E mesmo assim, mesmo assim, sou melhor pessoa do que você jamais foi! — bradou grave, arrancando a lâmina de seu corpo com brusquidão apunhalando-o na lateral de seu tronco, atravessando seus órgãos.

Luke tossiu sangue, engasgando-se com o líquido espesso. Nico ofegou apoiando o corpo no pomo da espada, a adrenalina desaparecendo aos poucos de seu sistema. Os ofegos de Luke continuaram baixos, murmúrios lânguidos, os quais Nico não prestou atenção. Não estava satisfeito, nunca estaria.

Luke tirou dele tudo que tinha. O conforto de uma vida normal, sua inocência, sua mãe adotiva, Bianca e Hazel. Tudo lhe foi roubado por conta do Castellan. Não o apoiou na ascensão de poder no Ducado, o ofendeu quando lhe contaram o que aconteceu à ele no navio do Jackson, com zombaria e escárnio, mas que nunca eram para Nico; como se Nico fosse tolo o bastante para acreditar.

Havia tanta vileza em Luke Castellan desde muito antes de Nico desenvolver maldade em seu próprio coração. A pirataria o tornou amargo, mas Nico imaginava o que maculou Luke. A nobreza era uma mancha na sociedade, e Nico odiava cada parte daquele sistema injusto de aristocratas esnobes e cruéis.

Continuou a lacerar seu corpo até seus braços cansarem e seu corpo desabar sobre o mar de sangue ao redor de Luke. Sentiu seus ouvidos voltarem a funcionar num silvo agudo antes de finalmente ouvir o som da guerra mais perto de onde estava. O vento nas árvores, o som de passos distantes, mas se aproximando.

Apertou a espada de Luke em sua mão firme, mantendo o olhar no Conde há muito inerte no chão de mármore. Os passos chegaram no corredor parando bem próximo de Nico. O Duque ergueu o olhar para o Grão-Duque que avaliava seus feitos com horror em seus olhos azuis. Nico se obrigou a esconder o sorriso funesto.

Augustus pigarreou: — Vejo que deteve o Castellan como disse que iria.

Nico concordou com a cabeça, letárgico. Howard continuou a falar, afastando os sapatos do sangue coagulado.

— Não pensei que recorreria à carnificina, di Angelo. — comentou chocado, um rastro de preocupação pintando seu rosto. Nico sequer se mexeu: — Mas ao menos conseguiu sua vingança, mas limpe-se antes que mais alguém o encontre neste estado.

— Está sozinho? — foi tudo que Nico perguntou. Augustus concordou.

— Me separei de meus homens há pouco. — confessou num suspiro pesado, cansaço explícito em seu tom: — De toda forma, temos controle total da situação. Se cumprir sua parte de nossos acordos, eu mesmo me prostrarei em frente ao Imperador lhe contando seus atos de justiça, mas deixaremos de lado… isso.

Nico seguiu o olhar de Augustus para a carcaça irreconhecível do Conde Castellan. Sentiu que não conseguiria segurar o sorriso por muito tempo.

— É um homem digno e de palavra, espero eu. — emendou por fim, aguardando alguma reação maior de Nico.

O Duque sorriu então: — Não mereço tais elogios, nem uma aliança com Vossa Graça.

Augustus lhe estendeu uma mão amiga, o rosto apático para o cenário onde estavam. Contanto que Nico lhe desse o que Augustus queria, algumas mortes e massacres não seriam nada que o Grão-Duque, membro da família Imperial, não pudesse acobertar ou torná-la à seu favor; só mais um homem brincando com vidas à seu bel prazer.

Nico aceitou sua mão, firme, o mantendo no lugar. Com a outra puxou o cabo da espada num corte limpo e horizontal, rasgando a traquéia de Augustus em dois; sua cabeça pendendo para trás.

Despencou ao chão, olhos arregalados em choque e horror. Nico ergueu-se, o sorriso mais uma vez pintando seu rosto, uma risada ameaçando escapar de seu corpo. Jogou a espada ao lado de Luke como se nunca houvesse a usado.

Ajoelhou-se ao lado de Howard, mantendo-se em sua linha de visão enquanto o homem engasgava no sangue que jorrava. Morreria em menos de um minuto, mas era o suficiente para Nico.

“A vitória está reservada àqueles dispostos a pagar o preço.” — citou Nico, o olhar brando e sutil contra os olhos horrorizados de Augustus: — Me diga, o que você tinha a perder nessa batalha além de futuros benefícios? — Nico riu, sórdido: — Nunca esteve no controle, Augustus, nem antes e nem agora.

O Grão-Duque ofegou mais uma vez antes de calar-se, o silêncio respondendo por Nico. Fechou os olhos do homem o permitindo descansar.

— Nos vemos no inferno, sogro. — sussurrou para que só ele ouvisse, escarnecido. E então sorriu largo se virando ao espectador no final do corredor, à feição horrorizada de Dylan Ferrarezi.

O soldado tinha a mão no pomo da espada, mas recusava-se a puxá-la. Encarava Nico com tanto choque, a incerteza do que fazer alastrada por seu rosto pálido. Passos se aproximavam, e como um bom ator, Nico se jogou sobre Augustus, as mãos no corte ensanguentado, tentando estancá-lo.

Ouviu as botas de metal ao seu lado, o arfar horrorizado dos homens do Howard. Nico ofegou sôfrego, tremendo sobre o Grão-Duque.

— Eu mandei o Augustus ficar longe. Disse que o Castellan não era confiável, mas ele não ouviu. Queria me ajudar, mas o Castellan o matou antes que pudesse entrar em sua frente. — respondeu desolado, afagando o rosto do amigo com falso afeto: — O vinguei, mas à que preço?

A incredulidade dos homens era tão alarmante, que Nico precisou se conter em suas respostas afiadas. “O Castellan matou um membro da família imperial”, “Vossa Graça protegeu seu amigo, um ato nobre”.

Não há nobreza na morte, Nico pensou enquanto encenava sua parte.

— Assassinaram Vossa Graça sem motivo algum! A briga do Conde era com o Duque, mas isso… — o choque do soldado seria digno de respeito se Nico tivesse alguma compaixão pelo homem morto aos seus pés: — A família Castellan pagará caro por essa afronta ao Grão-Ducado e ao Ducado di Angelo.

Nico ergueu-se cambaleante, a mão do soldado o estabilizando. Encarou o homem nos olhos, feroz.

— Seja qual for a punição, terá o apoio total do Ducado di Angelo. Bancarei todos os custos de seu enterro. Morreu como um herói, salvou minha vida e serei eternamente grato. — confidenciou curvando-se ligeiramente ao soldado.

O homem negou ávido, forçando Nico a se reerguer.

— Por favor, Vossa Graça, não abaixe sua cabeça. Agradecemos sua compaixão, por favor, nos permita continuar a invasão daqui. Descanse. Seu guarda-costas o espera fora dos jardins. — explicou o soldado em profundo respeito.

Nico concordou saindo de cena e caminhando vagarosamente até Dylan. O soldado estava possesso por uma ira tão fria quanto já vira nos olhos de Reyna em alguns poucos momentos de sua vida. Sorriu complacente puxando Dylan pelo cotovelo, para uma área sem pessoas, somente ele e um soldado que havia visto demais.

— Não sei o que acha que viu, mas aconselho que se cale. — avisou assim que se afastaram de ouvidos curiosos.

— Você o matou. — foi tudo que Dylan disse, contrariando as ordens de Nico. O Duque riu.

— É, eu matei.

— Nico! — bradou o soldado, chocado, irado, as mãos agarrando seus braços rubros: — Você assassinou Augustus Howard sem razão, destruiu o corpo de Luke em pura ira! O que você fez? Quem é você?

Nico precisou rir daquela pergunta. Ah, então Giovanni lhe contou algo no final das contas.

— Sou alguém que pode destruir você e sua família se disser algo contra mim, Dylan. — respondeu indolente: — E não só por ser um Duque, caro amigo.

Dylan se afastou dois passos, ainda cético.

— Nico…

— Chega disso, Romeu está se aproximando. — afirmou se virando ao homem que correu para seu lado, seus olhos examinando o corpo ensanguentado de Nico com preocupação genuína.

Nico sorriu calmante.

— Estou bem, não estou ferido. — respondeu abaixando o olhar: — Mas Augustus morreu em combate ao meu lado.

Romeu enrijeceu antes de suspirar, apoiando ambas mãos nos ombros trêmulos de Nico.

— Fez tudo que pode, Vossa Graça, por favor não se martirize por algo que não possui controle. — alertou o soldado veemente. Nico poderia acreditar nele se não fossem as circunstâncias: — Venha, temos a mansão.

Nico sorriu para isso acompanhando Romeu para onde os outros nobres esperavam, deixando para trás dois corpos e um soldado irascível.

Ao dominarem a mansão, os soldados a mando do Castellan que sobreviveram foram presos e acorrentados no pátio frontal. Soldados de todos os nobres envolvidos que sobreviveram dividiram-se entre proteger de seus Lordes, guardar os presos e recolher os corpos.

Nico assistia aos homens carregando corpos abatidos para perto de uma tenda erguida para tratamentos. Seus corpos colocados um ao lado do outro, com lenços brancos em seus rostos. Incontáveis mortes para uma única mansão. Não que se arrependesse, mas o fazia questionar-se ao quão insignificante uma vida pode ser, jogada ao vento à mando de um Lorde detentor de sua vida.

Se questionava se havia diferença real entre escravos e soldados de nobres; entre a insignificância de uma vida e a sacrificável.

Suspirou enquanto permitia que colocassem um curativo em seu rosto. Havia há muito se esquecido desse corte. Suas mãos foram enfaixadas , as lacerações em seus dedos pelos socos incessantes.

Pelo que o doutor lhe disse, havia um ferimento de espada em sua panturrilha, mas Nico tinha certeza absoluta que havia causado esse ferimento ele mesmo, durante seu surto momentos antes da morte de Luke. Deixou que pensassem ter sofrido um ataque traiçoeiro do Conde, era melhor desta forma.

Não permitiu que trocassem suas roupas, mas retirou o paletó ensanguentado, permanecendo com a camisa branca e o colete azul por cima, ambos ainda limpos.

Romeu se aproximou de Nico.

— Revistamos a mansão, não há mais nenhum soldado do Castellan no terreno que não esteja acorrentado. — garantiu o soldado ao assistir o médico tratando de ferimentos maiores.

— E Bianca? — Nico inquiriu, observando o soldado de soslaio. Romeu respirou fundo.

— Trancada em seu quarto. Suas damas de companhia foram levadas para o jardim Oeste junto dos outros empregados, mas ela permaneceu isolada. — Romeu se virou para Nico, severo: — Não permiti que invadissem.

Nico anuiu, agradecido. Lidaria com Bianca ele mesmo. Gesticou para Dylan e seguiu para dentro da mansão com ambos soldados ao seu lado.

Fazia cinco anos desde que pisou no interior da mansão pela última vez. Pensou que, talvez, fosse ser agraciado por mudanças drásticas na aparência dela, uma prova da conquista de Castellan sobre os di Angelo.

Tudo estava igual. As paredes em seu tom de azul claro, os móveis impecáveis e quadros mantidos no lugar. As cortinas e janelas abertas, a coloração da tarde invadindo os corredores ricamente decorados com adornos de ouro.

Respirou fundo, absorvendo a vista ao caminhar pelo mesmo trajeto que fizera sua vida inteira. Direto pela escada do Hall, à direita nos corredores Leste onde os quartos de visitas ficavam, onde Bianca Castellan se hospedava com Luke, alegando não ter mais espaço para sua vida no antigo quarto de solteira; preservado por Nico como uma lembrança amarga.

Parou em frente à porta guardada por dois soldados, um de cada lado. Acenou para que se afastassem, lhe entregando a chave reserva do quarto trancado. Observou o pequeno objeto em sua palma se virando para Romeu.

— Entrarei sozinho. — alegou severo, sem abertura para argumentos. Romeu aquiesceu afastando Dylan e os homens da porta, mantendo a mão no coldre por precaução. Sempre havia a possibilidade de Bianca não estar sozinha.

Destrancou a porta e entrou no quarto bem iluminado. A fechou atrás de si logo que passou, sondando o recinto com angústia em seu peito. Deu dois passos à frente antes de parar, vendo finalmente a irmã próxima da sacada aberta, a cortina sucudindo-se no ar, escondendo o corpo no chão com o tecido fino.

Nico puxou o ar entredentes, paralizado. De certa forma não imaginou que Bianca, algum dia, terminaria daquela maneira desonrosa. Sentiu suas pernas tremerem ao se aproximar da irmã, ajoelhando-se ao seu lado.

A cortina recuou dando visão para Nico. Bianca era linda, uma mulher tão bela e quista na sociedade nobiliária. Os cabelos negros e sedosos, os sorrisos encantadores, a leveza em seus movimentos ao fluar pelo chão. Não conseguia absorver as olheiras pesadas sob seus olhos semi-abertos, o opaco de seu cabelo, a palidez de sua pele outrora tão vívida.

Bianca estava morta.

Passou a mão por seu rosto, acariciando com o nó dos dedos enfaixados. Observou a xícara caída na mesa, esticando o indicador para o líquido que escorria da lateral. Levou aos lábios, saboriando o amargor do veneno que a assassinou numa manhã de verão.

Voltou a afagar seu rosto ainda morno sob o sol, sentindo em seu peito um aperto angustiante, um grito preso em sua garganta seca, implorando para sair. Nico ressentia sua irmã, o ferimento que lhe causou, a dor e as sequelas de uma atitude parva de alguém controlado e manipulado.

Ressentia, mas ainda a amava, claro que amava.

Aquela cena o enviou no tempo, do momento com sua mãe na sala de música, da corda frouxa ao redor do pescoço se partindo, derrubando o corpo ao seu lado no chão, morto, gélido, vertendo sangue e dor de uma mulher que detinha de seu coração e mais puro amor.

E agora observava a segunda.

Respirou dolente, puxando Bianca para seus braços, erguendo-a em seu colo, frouxa e imóvel contra seu corpo, aninhando-a carinhosamente em seu peito. A depositou na cama, ajeitando a saia de seu vestido bufante grafite, na ironia que zombava de Nico enquanto passava os dedos por seus cabelos fartos. A cor do luto envolvendo-a como o manto da morte.

Beijou-lhe a testa.

Eu te odeio. — sussurrou seco, a voz carregada de sentimentos que Nico sequer conseguia distinguir: — Eu te odeio. — repetiu uma segunda vez, para que talvez acreditasse: — Eu te odeio.

As palavras ecoaram vazias no quarto, sem peso, sem verdades.

— Sempre chamou a mamãe de covarde, por tantos anos desde sua morte, para encontrá-la num estado similar. — comentou baixo, para que só ela o escutasse: — Hipócrita. — trincou os dentes, engolindo o turbilhão de emoções: — Você sabia que eu viria? Que eu a encontraria? O quão má tem que ser comigo…

Nico estremeceu, escondendo seu rosto nos cabelos da irmã, puxando-a para perto. Respirou pesado, sentindo as lágrimas descerem silenciosas por seu rosto. Aninhou-se a ela como fazia quando criança, permanecendo ali por bons minutos na solidão de suas lágrimas, nos braços da mulher que o criou quando sua mãe partiu.

Apoiou a testa na dela, abrindo e fechando a boca, sem saber o que dizer ao certo.

Eu te odeio... — murmurou uma última vez, engolindo as três palavras que gostaria de ter dito ao invés destas, e beijou seu rosto: — Adeus, Bia.

Se afastou então, enxugando o rosto com a manga de sua camisa, reabrindo o ferimento em sua bochecha. Respirou fundo encarando o teto branco, recompondo-se antes de sair do quarto, seus soldados à espera no corredor vazio.

Romeu tinha a feição preocupada ao vê-lo sair, mas nenhum deles ousou apontar os olhos vermelhos do Duque ou o rastro de lágrimas ainda em seu rosto manchado de sangue.

— Ela está morta, foi envenenada. — alertou Nico, áspero: — Puna as dama de companhia, às quero longe, mortas de preferência. — avisou se afastando dos soldados que assentiram ao irem em direção ao jardim Oeste onde os empregados estavam reunidos.

— O que faremos com o corpo? — Romeu inquiriu ao seu lado, em baixo tom, respeitoso.

— Irão cuidar dela, teremos uma cerimônia no jardim. Será enterrada ao lado de nossa mãe, com todas as honrarias que um membro di Angelo tem direito. — respondeu cansado, uma exaustão que acometia sem corpo sem permissão.

— Com todo respeito, ela não é mais uma di Angelo. — Dylan interviu, recebendo um olhar repreensivo de Romeu.

Nico riu: — Eu matei o marido dela, é uma viúva sem filhos. Eu sou o responsável por Bianca e seu enterro. — relembrou se virando ao soldado: — Apreciei a sensibilidade, Dylan.

Romeu pigarreou, olhos nervosos para Dylan que se encolheu, ficando alguns passos atrás do Duque.

Nico respirou fundo aquietando seu coração partido, as dores em seus membros e todo o desespero e cansaço que sentia. A mansão era novamente sua, o título, o poder e a capacidade de tecer o resto de seu futuro.

Tinha pouco tempo para o fazer, muitas coisas para organizar. Daria um passo de cada vez, e esperava poder retornar para Ravenna em uma carruagem, não em uma carta com memórias e promessas quebradas.

Apertou o passo.

Tinha muito o que fazer.

O enterro de Bianca aconteceu dois dias após o ataque.

Foi cuidada pelos empregados, vestida e arrumada para a cerimônia cristã que Nico organizou, como todo nobre tinha direito. Trouxe Perséfone da prisão domiciliar na casa de campo que Hades foi confinado pelo Imperador, anos antes. Ela o abraçou como uma mãe afetuosa, beijando sua têmpora, dócil e acolhedora como se lembrava. A acompanhou ao visitar Bianca antes da cerimônia, e viu as lágrimas silenciosas de uma mãe que falhou em proteger seus filhos.

Ele segurou sua mão por todo o momento, compartilhando um pouco da segurança que ele mesmo buscava.

Nico ficou ao lado do caixão, ouvindo as preces do Padre, os choros baixos de empregados antigos da mansão que a viram crescer e se tornar aquela mulher deitada em uma caixa de madeira repleta de flores.

A senhora Dodds havia lhe entregue um broche que pertencia à Bianca, o qual Nico usava em sua gravata branca, a joia azul destacando-se do preto de suas roupas. Pietro e os outros nobres prestaram suas condolências à falecida, traída pelo marido, enlutada pela perda de um filho tão jovem, a depressão óbvia relatada pelos empregados da mansão.

Nico apertou as mãos no aço da bengala, sentindo o maxilar estalar pela força que os pressionava. Ao final da cerimônia, colocou uma única rosa negra entre seus dedos enluvados, para então fecharem o caixão, a enterrando próximo ao túmulo de sua mãe, ao lado do labirinto adorado pela falecida Duquesa.

Impossibilitado de lidar com uma festa de despedida, Pietro se encarregou de recepcionar os convidados da cerimônia enquanto Nico se mantinha prostrado próximo ao túmulo da irmã, entoando uma música baixa e amarga.

Despedindo-se de Bianca pela última vez.



O enterro de Augustus foi no dia seguinte, organizado por sua esposa viúva. Havia diversos nobres reunidos na cerimônia, muitos dos quais Nico sequer conhecia.

Viu os filhos próximos da mãe aos prantos, contida, elegante em sua perda, mas ainda assim amparada pelos filhos preocupados. Ao seu lado, um pouco distante, estava Gabrielle. Havia um véu preto em seus cabelos, escondendo o choro da garota em baixo som, acudida por sua dama inexperiente no assunto.

Nico se aproximou dela, oferecendo-lhe um lenço, um sorriso triste e solidário para a criança um pouco mais velha que Hazel. Gabrielle aceitou, sorrindo encabulada pelo gesto de um Duque para com suas dores. Caminhou até o caixão onde o Grão-Duque estava, depositando uma rosa em seu colo antes de partir, impedindo-se de ver o resto da cerimônia daquele o qual assassinou a sangue frio.

Retornou para casa pesaroso, o amargo em sua boca permanecendo por dias enquanto lidava com o peso de tantas mortes.

Nico terminava de se arrumar em frente ao espelho de seu quarto. Christiano prendia suas abotoaduras nas mangas antes de se afastar, analisando a vestimenta de seu lorde.

Com um pedido simples, Nico conseguiu fazer com que Christiano permanecesse como seu atendente permanente no Ducado, agora detendo de uma alta posição na mansão di Angelo. O rapaz ainda tentava se adaptar ao ritmo dos empregados, mas aos poucos se inteirava nos corredores vastos.

Christiano era carismático, e Nico acreditava que era o suficiente para que fosse bem aceito em pouco tempo.

— Acredito ser a primeira vez que usar preto me frustra. — Nico comentou desgostoso. Gostava da cor, e a usava na maioria de suas peças de roupa, mas nunca significavam algo. Aquelas roupas eram uma lembrança que gostaria de esquecer.

O atendente escreveu em seu caderno, ágil.

“Só mais uma semana, Vossa Graça.” relembrou Christiano, simpático. Nico concordou, ainda enjoado.

Saiu de frente do espelho, caminhando até sua mesa onde havia nela três cartas cuidadosamente separadas. Nico deslizou a ponta de seu indicador pelo selo do Ducado, com uma pequena flor por trás da cera azul prensada.

Suspirou pesado, imaginando como sairia da situação a qual se colocou. Fora chamado para o Palácio de Leopold I, em Viena. Seria uma longa viagem de carruagem, a qual decidiria o destino do Ducado di Angelo e sua vida dali por diante.

Não sabia como o Imperador havia levado a morte de Augustus durante uma revolução armada por Nico, e as consequências de sua morte pesariam bem mais do que a do Castellan. Nico não havia planejado isso, e poderia ser o motivo de sua queda antes de alcançar suas ambições.

Umedeceu os lábios guardando as cartas no interior de seu paletó enquanto partia com Christiano para o Hall de entrada. Manteve o queixo elevado, intrépido, decidido a aceitar qualquer que fossem as consequências que o levaram até ali.

Não fugiria novamente.

Entregou as cartas ao Mordomo que o aguardava na porta, a carruagem abastecida com malas para sua permanência em Viena até ser recebido pelo Imperador.

— Entregue estas cartas caso o pior aconteça. — pediu Nico num sorriso doloroso.

O mordomo concordou, os olhos baixos em uma tristeza fria. Todos os empregados ainda o consideravam o Lorde da mansão, e quando retornou foi recebido por eles entre risadas e choros animados, pedidos de desculpas e diversas comidas feitas para ele durante a semana.

Sentia-se envergonhado com tamanha atenção, mas não recusou nenhum deles, imaginava que era uma forma de deixá-los reparar os erros do passado.

Se despediu com um aceno breve descendo as escadas de entrada para a carruagem exuberante, a insígnia do Ducado ardente no sol da manhã. Romeu e Alessandro partiriam com ele junto dos soldados de Elite; Dylan foi instruído por Romeu à ficar na mansão.

Entrou na carruagem de luxo, reclinou nos assentos e sentiu o solavanco ao partirem para Viena, o aperto em seu peito explodindo em ansiedade.

O medo daquela situação fora de seu controle.

Notas finais
“A vitória está reservada àqueles dispostos a pagar o preço.” - trecho do Livro 'A arte da guerra' por Sun Tzu. Parece que matei algumas pessoas né? reurheurhurhe Pra quem estava preocupado com o Augustus influenciando o Nico, agora ele morreu então sme problemas né? Matar a Bianca foi triste, porque ela sofreu bastante com tudo isso, juro, ainda vou mostrar pra vocês entenderem. Não precisam amar ela, mas entender que ela ainda era irmã dele, e que o ódio por ela nunca será maior que seu amor e carinho, ela foi muito importante pra ele. Três mortes em um capitulo! Parece até o final de OTD ruehuhreuhreu ai ai, faz parte. Obrigada pelo carinho, vou tentar escrever o outro o mais rápido que puder Até o próximo! Beijinhos~