Pit-a-Pat
14 Capítulo XIV
Notas iniciais

Will
~Capítulo XIV~
:: 30º dia na Itália — Semana 4 ::
[...]
― E então o Henry pulou do sofá e a mamãe ficou muito brava! ― falou Milena gesticulando com as mãos animada.
― Muito brava! ― repetiu Henry animado.
Nico soltou uma risada nasal apoiando o rosto em sua mão. Soltou um bocejo por ainda ser bem cedo. Bom Will não podia controlar quando Silena apareceria com as crianças. A moça bebericou do chá sentada na mesa ao lado de Will. Nico estava no canto oposto a eles com as duas crianças uma de cada lado.
Will sorriu com o fato. Milena e Henry pareciam gostar muito dele e Nico parecia sentir o mesmo pelas crianças. Pelo menos era um ponto positivo.
― Eu e Charles estávamos relembrando da nossa última conversa. ― começou Silena recolocando a xícara na mesa. Will a encarou: ― E marcamos um dia para você se encontrar com a Lou Ellen.
O doutor estremeceu:
― O que? ― exclamou em choque: ― Quando isso? Mas tinha de ter me avisado!
― Estou avisando agora. ― afirmou ela dando de ombros: ― Semana que vem terá uma Quermesse e sua família estará presente. É uma boa chance de se encontrar com ela.
Will não respondeu. Franziu o cenho com a ideia de ter de se encontrar com essa moça. Realmente não tinha nenhuma vontade de sair com uma garota que ele sequer conhecia. Não tinha tempo para relacionamentos, não no momento, ainda mais com Nico na sua casa. Como a receberia?
Bufou cruzando os braços. Silena riu:
― Você já prometeu, não pode voltar atrás! ― disse ela séria. Virou-se para frente: ― Consegue vir conosco Senhor Levesque?
O moreno a encarou um pouco perdido.
― Ir aonde? ― indagou ainda tendo de dividir sua atenção entre as duas crianças.
― Na quermesse que terá semana que vem. ― disse a mulher esperançosa. Nico torceu o lábio.
― Não sei como eu vou estar até lá, mas posso tentar. ― afirmou voltando a atenção para Milena que o puxou pela camisa larga de Will.
O doutor torceu o lábio. Deveria comprar roupas pra eles já que ficaria bastante tempo em sua casa.
― Que bom! ― exclamou a moça virando-se novamente para Will. Seu olhar ficou sério novamente: ― Teve notícias do Harley?
Will ficou tenso. Olhou para a amiga apreensivo.
― Honestamente eu não sei. ― falou voltando o olhar pras crianças. Ficou surpreso ao encontrar Nico o encarando sério. Sentiu-se julgado por ambos na mesa naquele momento.
Claro, ele era o médico do garoto e deveria saber sua condição física, mas também estava de mãos atadas. Ter aquele olhar dos dois sobre si o deixou mal, muito mal. Nico levantou-se da mesa com dificuldades.
― Por que não vamos pra sala Milena? Henry? ― chamou Nico que nem precisou dizer duas vezes antes dos dois correrem em disparada para a sala.
Will arqueou a sobrancelha curioso. Nico arqueou a sua de volta como se dissesse “Me agradeça depois com doces”. Sinceramente para Will suas expressões faciais estavam ficando repetitivas. Tudo envolvia doces. Abstinência talvez?
Ele passou por Will lhe dando um tapa moderado em sua cabeça. O doutor exclamou mais pelo susto que pela dor. Nico continuou andando como se nada tivesse o atingido na cabeça.
Silena riu:
― Estão se dando bem? ― perguntou ela mais calma.
― Digamos que sim. Ele é meio estupido, mas eu consigo ser bem insistente. ― admitiu o doutor olhando para a sala. Nico havia acabado de chegar nela jogando-se no sofá de uma forma que Will reprovou dali torcendo o lábio.
― Ele te maltrata?
Will virou-se pra ela em choque:
― O que? Não! ― respondeu ele na mesma hora. Claro que a ameaça de morte não precisava ser trazia a tona, desnecessário.
― Bom. ― disse respirando fundo: ― Voltando ao assunto. Não tem ideia de como o garoto está?
O doutor franziu o cenho:
― Pelo jeito que está falando você sabe. ― supôs desgostoso. Ela aquiesceu:
― Digamos que ele, bem, piorou muito nesses dias. ― admitiu a moça. Will mordeu o lábio: ― Quando foi a ultima vez que o viu?
― Há uns três dias eu acho. ― afirmou: ― Tenho evitado de ir lá. Não faço diferença. ― respondeu num sorriso sem emoção: ― Além disso não quero topar com o Senhor Barteles.
― É uma boa escolha, soube que ele voltou da sua viagem de negócios mais cedo. ― Silena disse passando a mão pelos cabelos: ― O garoto piorou tanto que a sua esposa o chamou de volta.
Will soltou uma lufada de ar abaixando a cabeça na mesa.
― Podemos não falar dele o tempo todo? Por favor? ― suplicou o doutor olhando para a amiga de soslaio.
A moça respirou fundo:
― Charles está preocupado com você. ― falou ela mexendo em seus dedos nervosamente: ― Ele acha que você vai se abalar pela morte do garo―
― Ainda não morreu! ― cortou Will levantando-se da mesa. Silena o seguiu com o olhar: ― Pare de falar como se ele não estivesse mais aqui. Eu posso não conseguir salvá-lo, mas não significa que perdi as esperanças ainda!
Nervoso saiu a passos pesados até a porta da cozinha parando nela:
― Vai embora por hoje Silena, depois me fale mais sobre a Lou. ― pediu educadamente subindo as escadas olhou para a sala cruzando olhares com Nico.
Não sustentou ele por muito tempo e entrou no seu quarto. Respirou profundamente deitando-se na cama. Fechou os olhos e desviou os pensamentos para outra coisa que não fosse o Harley.
Honestamente ele não estava com nem um pouco de vontade de falar do garotinho no momento. Ficou um tempo deitado sentindo a brisa gélida arrepiando-o de tempo em tempo. Pensou em levantar para fechar a janela, mas não estava com vontade de sair daquela posição.
Não soube dizer quanto tempo ficou ali, mas assim que ouviu a janela de seu quarto ser fechada percebeu que fora bastante. Abriu os olhos pelo susto olhando Nico do outro lado de seu quarto.
O rapaz o encarou com aquele mesmo ar debochado de sempre. Will automaticamente rolou os olhos se sentando. Nico o fez do seu lado, um pouco mais distante.
― Então, qual foi a do surto? ― perguntou o pirata apoiando-se para trás nos braços. Parecia aliviar a dor naquela posição, já que desfez a careta de sempre.
― O de sempre. ― respondeu num suspiro.
― E... Qual é o de sempre? ― insistiu Nico bufando: ― Estou aqui há três semanas Solace, precisa me dar um pouco mais de informação.
― O Harley. ― respondeu passando a mão em seu pescoço: ― Olha, não gosto de falar nele e você sabe disso.
― Eu sei, mas então o que aconteceu com ele? ― perguntou Nico ignorando o desconforto do doutor. Will teve vontade de bater sua cabeça oca na parede.
― Argh! O que eu acabei de falar? ― resmungou ele jogando-se para trás voltando a deitar.
Nico soltou uma risada forçada mantendo-se na mesma posição.
― Escuta Solace. ― chamou ele sério. Will virou a cabeça para ele vendo somente suas costas e o cabelo já solto e mais comprido do que deveria: ― O único jeito de você superar isso é descobrir o que exatamente está acontecendo. Bem ou mal você vai ter de ir ver ele. Vai ter de dar o veredito.
― Como assim? ― Will levantou o corpo apoiando-se em seus cotovelos. Nico virou o rosto para ele, o ar ainda sério.
― Vai ter de dizer agora de uma vez por todas a verdade. ― bradou. Will mordeu o lábio: ― Se ele vai viver ou vai morrer. Vai ter de encarar seu medo Doutor, ou esperar o rapaz morrer pra você finalmente acordar.
Levantou-se espreguiçando com cautela. Will abaixou o olhar. Nico estava certo e ele sabia disso. Não poderia evitar o rapaz por muito tempo, afinal era seu doutor e o quadro dele estava muito ruim.
Contudo enfrentar a “morte iminente” do rapazinho era o que doía em Will. Porque ele sabia que deveria contar, sabia que deveria enfrentar a família com a verdade, mas seu próprio subconsciente não concordava com ele.
Will era emocionalmente fraco para lidar com perdas. Teve poucas ao longo de sua vida como médico, ao todo cinco mortes se contar com a de seu pai. Mas ainda assim não se sentia confortável com a ideia de chegar com uma notícia ruim.
Ele odiou receber uma da mesma forma que odiava dar.
Nico saiu do quarto sem dizer mais nada. Will sentou-se bruscamente.
― Onde vai? ― perguntou curioso. O moreno o encarou dando de ombros.
― Pro Hall. ― respondeu: ― Quanto menos tempo ficar na cama melhor pra mim. ― disse por fim saindo pelo corredor.
Will passou a mão pelo rosto exausto.
Teria de resolver isso o quanto antes, e infelizmente não gostava dessa ideia.
☠
Will terminou de escrever a carta em sua mesa no quarto. Havia decidido que veria o Harley pela ultima vez antes de realmente colocar as cartas na mesa. Entretanto precisava garantir que não teria problemas com o Senhor Barteles, e por isso o ideal era resolver tudo sem ele por perto.
Escreveu uma carta com poucas linhas pedindo para que o Senhor Barteles se retirasse durante a consulta para assim Will poder examiná-lo uma ultima vez. Caso ele se recusasse teria de achar outra forma de chegar ao menino.
Pegou a carta e algumas libras e saiu do quarto. Passou por Nico que dormia no sofá e se dirigiu para a feira. Em uma das barracas havia um mensageiro que auxiliava na entrega e leitura de cartas para aqueles que não sabiam ler.
O mensageiro era um rapaz novo e normalmente entregava mensagens para outras cidades, então claro que ele achou estranho a carta ser para dois quarteirões de distância. Will pagou bem pela mensagem e voltou para casa.
Assim que entrou viu Nico de braços cruzados olhando para ele. O doutor fechou a porta desconfortável.
― Er... O que houve? ― perguntou ele sem jeito.
― Uma carta? É sério? ― perguntou ele soltando uma risada incrédula: ― Não que você deva ouvir um pirata, longe disso, mas acho que pessoalmente era melhor.
― Não era pra isso a carta! ― defendeu-se Will chocado: ― Era pra pedir pro senhor Barteles se abster da conversa.
― Oh! ― exclamou Nico.
― Se ele estiver lá será complicado. Tenho uma ameaça nas costas e quero evitar ela o máximo que der. ― disse por fim.
O pirata descruzou os braços deixando-os rente ao corpo. Daquele jeito dava para ver o quão compridas as mangas eram, mesmo dobradas duas vezes. Will soltou uma risada.
― Do que está rindo? ― perguntou Nico arqueando a sobrancelha.
― Sua roupa.
― Ah, quer dizer a sua roupa? ― rebateu ele levantando os braços para os lados horizontalmente mexendo-os bruscamente mostrando o quão compridas estavam.
― Precisamos comprar roupas pra você. ― admitiu Will aproximando-se. Nico rolou os olhos:
― Caramba, só agora pensou nisso? Estou ligeiramente ofendido Doutor. ― falou sarcástico.
Will deu de ombros: ― Como está o machucado?
― Na mesma. ― respondeu voltando a se sentar. Will o fez um pouco distante. Ficaram em silêncio por um tempo antes de Nico voltar a falar: ― Posso ser sincero?
― Você sempre é. Até demais. ― resmungou Will dando de ombros. Nico soltou uma risada concordando.
― Culpado. ― disse respirando fundo: ― Eu não acho que o machucado vá melhorar. ― admitiu colocando o braço sobre seus olhos.
― Por que acha isso? ― perguntou ele subitamente interessado.
― O outro se curou na sorte. ― admitiu ele: ― Eu... Eu estava a bordo de um barco na época e o médico não era um dos melhores. Ele havia dito que eu morreria aquele dia. ― ele parou ainda com o braço no rosto impedindo Will de ver sua expressão: ― Bem eu esperei, mas a morte não veio. Só dor após dor. A ferida começou a necrosar.
Will segurou a respiração tenso. Um ferimento não melhora depois que começa a necrosar, em hipótese alguma. Não algo que ele conhecesse.
― Uma mulher no navio se voluntariou pra me ajudar. ― respondeu ele soltando uma risada: ― Ela disse que vinha da Índia? Não lembro ao certo. Ela me perguntou como consegui a ferida e outras informações que você também queria saber quando me achou.
Nico ajeitou-se no sofá retirando o braço do rosto, mas evitando contato com o doutor.
― Na época eu disse que tinha diabetes. ― complementou mordendo o lábio: ― Ela disse que feridas em diabéticos são mortais e que provavelmente eu morreria com alguma ferida mais grave que aquela, mas diferente do médico ela tentou algo.
― Ela... ― Nico engoliu em seco passando a mão pelos cabelos: ― Teve de fazer uma remoção de tecido, ou algo parecido, à sangue frio. Só sei que eu desmaiei mais vezes de dor do que posso contar.
Will soltou uma lufada de ar incrédulo. Nico o encarou. O olhar frio o sofrido.
― Minha irmã estava junto. Consegue imaginar isso? ― emendou ele mantendo o contato. Will não o desfez: ― Depois dessa sessão de tortura ela usou de água do mar pra ajudar na cicatrização. Levou um mês para eu me recuperar, e mais quatro para voltar a mexer o braço sem sentir tanta dor.
Nico pôs sua mão em seu ombro direito.
― Eu na verdade sou destro. ― admitiu ele: ― Mas não consigo fazer muita coisa com esse braço sem sentir as dores do ferimento, portanto aprendi a usar a mão esquerda pra tudo, inclusive escrever.
― Então quando você se mexe muito não é só o ferimento de agora que dói. ― concluiu Will ao lembrar de alguns momentos na cama e o motivo de ele nunca dormir de lado.
Nico concordou:
― A dor é constante, mas é pequena e suportável.
― E por que acha que essa não vai se curar? ― perguntou Will sério: ― Se precisar eu aprendo sobre esse procedimento, mesmo eu não vendo nenhum indício de necrose.
― O ferimento é muito grande. ― explicou Nico: ― Nunca tive um ferimento desse jeito, que atravessasse meu abdômen. O máximo foram cortes profundos que demoraram pra cicatrizar, mas que cicatrizam no final.
Will passou a mão no rosto nervoso. Era muita informação pra digerir.
― Então é melhor eu ficar de olho nesse ferimento, e se precisar te deixar acamado. ― concluiu Will. Nico torceu o lábio.
― Preferia que não. ― emendou o rapaz: ― Não tem solução. Ou eu vivo ou eu morro, não tem meio termo Solace.
― Pare com isso. ― pediu o doutor. Nico o encarou nos olhos sorrindo na sequência.
― Desculpe.
Will aproximou-se dele. Nico ficou tenso, mas não disse nada. O doutor desabotoou sua camisa conseguindo ver a cicatriz em seu ombro direito. Tinha visto somente por trás naquele dia, mas agora ali na frente podia ver que ela realmente era maior do que uma lâmina.
Essa remoção de tecido parecia ser bem cruel. Olhou para Nico como se pedindo permissão. O rapaz concordou mordendo o lábio na sequência. Will passou os dedos pelo ferimento analisando. Ele cicatrizou de forma errada criando uma pele elevada no local do ferimento.
Ele era mais escuro que os outros igualmente o contorno da cicatriz. Não tinha percebido isso no dia. Nico fechou os olhos mordendo o lábio com força. Will retesou-se afastando o toque.
― Desculpe, esqueci que ainda dói. ― pediu envergonhado. Nico negou:
― Não doeu. ― respondeu com a voz em um sussurro. Abriu os olhos fechando a roupa novamente. Seu rosto estava levemente avermelhado: ― Dessa vez pediu permissão.
Will corou afastando-se:
― Nico!!
O pirata gargalhou da sua cara envergonhada. O doutor soltou uma risada junto.
Duas batidas na porta os atrapalhou. Will levantou-se para abri-la. O mensageiro estava na porta.
― Entreguei sua carta como pediu Senhor Solace. ― disse o rapaz.
― Alguma resposta? ― perguntou o doutor curioso. O rapaz aquiesceu:
― Ela disse que amanhã seu marido estará fora pela parte da manhã e que você pode aparecer por lá. ― ele respondeu o mais brando que pode. Will concordou:
― Pois bem, obrigado pela mensagem. Te devo mais algo? ― perguntou Will procurando pelas libras em seus bolsos.
― Não senhor. ― respondeu o rapaz: ― Tenha um bom dia.
― Bom dia. ― replicou Will voltando para dentro fechando a porta.
― Então é amanhã. ― disse o pirata de costas pra porta ainda no sofá.
― Amanhã. ― imitou ele indo pra cozinha: ― Acho que vou fazer só uma salada hoje.
Nico resmungou algo que Will ignorou. Se fosse depender do Nico pra comida só comeriam porcarias.
☠
No dia seguinte Will se aprontou para visitar a senhora Barteles. Acordou mais cedo que o habitual ― na verdade nem dormira direito à noite, mas isso era detalhe ― preparou o café e acordou Nico.
O rapaz resmungou algo em um idioma que Will não soube dizer qual, mas depois se levantou. Tomaram café juntos, e quanto mais o tempo passava mais nervoso Will ficava.
― Parece que não tem nada pro almoço, você vai ter de comprar algo doutor. ― falou Nico abrindo e fechando os armários de Will bruscamente.
Se ele estivesse num bom estado de espirito teria brigado com o moreno, mas sinceramente ele não estava muito alheio ao que o pirata fazia.
― Ok. ― respondeu automaticamente tomando do suco.
― Solace? ― chamou Nico parando ao seu lado: ― Não sou bem com essas coisas, mas quanto mais rápido você falar melhor. Anda.
Sem dizer mais nada Will levantou e saiu da cozinha. Logo na sequência deixou a casa e partiu para a dos Barteles. O caminho foi rápido já que aquele horário mal havia pessoas nas ruas ainda.
Chegou na casa e foi recebido pela senhora Barteles. A mulher o encarou séria. Toda vez que Will a via parecia mais e mais cansada. Não poderia culpa-la.
Foi até o quarto ver o rapaz. Assim que entrou parou bruscamente no lugar. O rapaz estava pálido e muito magro. As maças do rosto protuberantes, o rosto fino e olheiras profundas. Respirava descompassado.
Aquela cena era de partir o coração. A mãe sentou-se desolada ao lado da criança segurando suas mãos finas. Will queria sair correndo dali. Aproximou-se do garoto com um olhar sofrido.
― O senhor veio me dar a má notícia, doutor? ― perguntou a mãe sem emoção alguma na voz.
Will não conseguiu replicar:
― Eu sei que ele não está bom, mas por favor me diga que ele vai ficar bem. ― suplicou a mãe num sussurro. O encarou fazendo um arrepio correr por seu corpo: ― Por favor.
Ele mordeu o lábio encarando o menino mais uma vez.
― Eu sinto muito. ― falou ele apertando as mãos em punhos. A mulher ficou pálida: ― Do jeito que ele esta... A senhora vai precisar aproveitar o pouco tempo com ele. Infelizmente.
A mãe soltou uma lufada de ar antes do choro desesperador. Will queria chorar ali mesmo, mas não poderia perder a compostura.
― Sinto muito. ― respondeu saindo da casa o mais rápido que pode, antes que desmoronasse ali mesmo.
☠
Nico
Enquanto esperava o Solace voltar Nico sentou-se no sofá da sala com um livro novo em mãos. Desta vez um do escritório dele. Um livro médico no caso falando um pouco sobre curas e medicamentos asiáticos.
O livro estava em Indiano, mas era somente um desafio a mais, certo? Ele cruzou as pernas e começou a tentar decifrar os códigos. Passou por várias páginas entre pós dos mais diversos, um deles Nico tendo certeza de ser Ópio, e alguns procedimentos de algo que ele não conseguiu identificar.
― É não vai ser fácil. ― resmungou pra si mesmo virando outra folha.
Ficou um tempo lendo o livro até que a porta se abriu e se fechou lentamente e tão silenciosa que se Nico não tivesse prestado atenção não notaria que Will havia voltado. Levantou-se do sofá da sala deixando o livro na mesa de centro.
― Solace voltou rápido. Você compr―
Ele parou abruptamente. Will estava sentando no sofá do Hall com a cabeça entre as mãos tremendo violentamente. Sua bolsa estava no chão de qualquer jeito e nenhuma cesta com compras.
― Solace? ― chamou Nico preocupado indo até ele.
― Ele esta praticamente morto. ― respondeu em voz baixa. Nico parou no lugar: ― Você não viu ele Nico, ele estava... Estava... Oh Deus.
Nico não esperava por isso. Will começou a tremer mais e um soluço escapou por seus lábios. O que Nico deveria fazer em uma situação como essa? Consolá-lo? Ele não sabia fazer isso, era péssimo com pessoas.
Abraçar? Dizer que tudo ficará bem quando ele sabia muito bem que isso não aconteceria? O que Jason faria no seu lugar?
Quase que automaticamente andou até ele sentando-se ao seu lado. Passou o braço por seu ombro o puxando pra si. Não disse nada, não consolou ou garantiu que tudo ficaria bem, pois não ficaria.
O garoto iria morrer e Will iria sentir o peso disso por muito tempo. O máximo que ele poderia fazer por Will era estar ali por ele. Assim sendo o loiro escondeu seu rosto em seu ombro e começou a chorar baixo.
Nico afagou seus cabelos enquanto ele se debulhava em lágrimas sofridas.
Ficaram um tempo dessa forma. Will nada dissera, somente ficou ali enquanto sua respiração voltava ao normal. Aos poucos ele se ajeitou no sofá afastando-se de Nico.
― Desculpe. ― disse com a voz rouca do choro. Nico negou:
― Eu te entendo, acredite. ― falou ele afastando alguns fios de cabelo de seu rosto molhado: ― Chorar faz bem, não tenha vergonha disso.
Will aquiesceu limpando o rosto com as costas das mãos.
― Essa não deveria ser a imagem de um médico, certo? ― zombou Will respirando fundo: ― Charles já havia me dito para não me ressentir com a morte de meus pacientes, mas... Não consigo evitar pensar que não fiz o suficiente. Não fui o bastante.
Nico o olhou incerto:
― Você faz tudo o que pode para salvar vidas Solace, e na maior parte do tempo você consegue salvá-los, mas algumas mortes não podem ser evitadas. ― respondeu Nico puxando o queixo de Will com o indicador e polegar: ―Não diga que não foi o bastante, pois você faz mais do que muitos sequer seriam capazes. Se orgulhe do que faz e do que é.
Will soltou um riso fraco: ― Obrigado, Nico.
O pirata piscou para ele levantando-se cuidadosamente devido ao machucado.
― Já que você não comprou os ingredientes pra fazer massa acho que teremos de fazer algo diferente. ― respondeu o rapaz: ― Não sei cozinhar, mas sei sobreviver. Vamos ver o que encontro na sua cozinha.
Will negou com a cabeça levantando-se também, com o semblante mais aliviado.
― Nem chegue perto da cozinha, você é uma tragédia nela. ― bradou o loiro caminhando para a cozinha. Nico riu baixo:
― Culpado.
Batidas fortes da porta e ela sendo aberta bruscamente fez os dois pararem no lugar. O Senhor Barteles estava na frente deles com o olhar fulminante. Nico sentiu seu sangue gelar. Ele estava certo. Ele voltou.
― Doutor Solace! ― bradou ele andando a passos pesados até Will que estava paralisado no lugar sem reação. Nico apressou-se ficando entre eles: ― Você disse à minha esposa que o Henry morreria? Que deveríamos aproveitar o pouco tempo com ele? VOCÊ TEM IDEIA DO QUE FEZ?
Nico apertou os olhos abrindo levemente os braços ficando em frente ao Will protetoramente. O homem olhou para Nico, mas não sustentou o olhar por muito tempo antes de ficar tenso e dar um passo para trás.
O Nico sabia que tinha uma presença pesada e assustadora para as pessoas, e agradeceu mentalmente por isso ainda funcionar com ele sem a roupa e as armas piratas.
― Ela está inconsolável, você disse que ele ficaria bom! Vai pagar por isso! ― gritou o homem recompondo-se.
Will colocou uma mão no ombro de Nico o empurrando para o lado delicadamente.
― Eu disse que se a doença agravasse ele não iria resistir. E infelizmente agravou. Não posso fazer nada quanto a isso, Senhor Barteles. ― explicou Will talvez pela milésima vez àquele homem.
Nico podia entender o porque dele não querer acreditar na morte do filho. Ele se sentiu da mesma forma quando sua mãe morreu, mas ele tinha Hazel pra tomar conta o que fez a dor da perda ser menor. Ele, claro, não sabia o peso quando se tratava de um filho.
― Eu cansei de suas desculpas! ― trovejou avançando com o punho fechado contra Will. Nico se colocou na frente segurando seu pulso com uma mão, e com a outra acertando seu braço com uma cotovelada certeira na junta.
O braço fez um estalo e o homem afastou-se com um urro assustador. Nico não soltou o braço dele, ao contrário, apertou o pulso com mais força:
― Toque nele e ao invés de quebrar seu braço eu te mato. ― ameaçou o moreno esboçando um sorriso medonho: ―Quer arriscar a sorte?
O homem tentou se soltar investindo com o outro braço. Nico desviou sem dificuldades chutando seu rosto com força. A adrenalina correndo por suas veias.
― Nico, pare! ― pediu Will o segurando pelo ombro. Ele tentou se soltar, mas Will o encarou seriamente o que o fez baixar a guarda e parar de se debater.
O homem levantou-se com o nariz sangrando.
― Isso ainda não acabou.
Assim ele saiu da casa e o burburinho das pessoas da rua entrou na casa como um soco. Nico respirou pesadamente sentindo sua vista embaçar. Passou mão pelo machucado o sentindo úmido e dolorido.
Apertou os olhos pela dor que bateu fortemente. No momento ele não sentiu nada e fez movimentos que não deveria, agora estava sentindo a dor acumulada. Curvou-se para frente sendo segurado por Will que o olhava desesperado perguntando algo que ele não entendia.
Sentiu-se ser arrastado até o sofá e depois disso simplesmente apagou.
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