Pit-a-Pat
13 Capítulo XIII
Notas iniciais

Will
~Capítulo XIII~
:: 26º dia na Itália — Semana 3 ::
[...]
Will começou a arrumar o jantar com os legumes que tinha na casa. Não aguentava mais sopa todos os dias, mas era um sacrifício pelo melhora do Nico.
Ele não sabia como iria trata-lo e nem mesmo se ele conseguiria sobreviver àquele machucado. No início ele pensou que Nico daria conta da ferida só com o Will tratando dela normalmente, agora a incerteza o assolava.
O maldito pirata era diabético. Tinha problemas com açúcar e não disse nada. Will soltou um suspiro irritado. Ele só dava trabalho.
― Will estamos entrando! ― anunciou Silena do Hall.
O doutor se esticou pra ver a moça parando em frente aos sofás onde Nico ainda estava deitado, mas no caso com um livro acima da cabeça lendo algo. Dali Will não conseguia ver o que era.
― Senhor Levesque! ― exclamou Silena o encarando de cima: ― Está aqui embaixo hoje!
― Will deixou. ― respondeu o pirata ironicamente. O doutor rolou os olhos.
― Ora ele precisa deixar? ― zombou a moça.
― Hey! Eu sou o médico! Dou as ordens aqui. ― bradou ele da cozinha.
― Ele pensa que da as ordens! ― falou a moça piscando para Nico. O pirata rolou os olhos depositando o livro em seu colo: ― Como esta hoje senhor Levesque?
― Morrendo. ― admitiu debochado: ― Fora isso estou normal.
― Não seja trágico. ― repreendeu a moça. Henry saiu de trás dela indo até Nico.
Silena foi até a cozinha depositando um beijo fraternal no rosto de Will. O doutor riu cortando os legumes desastrosamente.
― Tem de passar mais confiança aos seus pacientes. Pensarem que vão morrer é muito mórbido. ― comentou a moça apoiando-se na pia ao lado dele.
Will parou de picar os legumes ficando tenso. Respirou fundo largando a faca.
― Eu não sei mais. ― admitiu o doutor. Silena estremeceu.
― O que quer dizer? ― insistiu preocupada.
― A ferida inflamou, acabamos de sair de uma sessão de limpeza que foi mais uma tortura. ― respondeu: ― E o meu paciente não me disse antes que tinha diabetes.
― Diabetes? O nome é familiar, mas... ― ela comentou negando com a cabeça.
― É uma doença maldita! ― exclamou Will mantendo a voz baixa para não chamar a atenção de Nico: ― Se ele tivesse me dito antes poderia tentar achar um jeito de tratá-lo.
― E não tem como?
Will negou: ― As mortes são sempre inexplicáveis. Nos livros consta que uma dieta balanceada controla, mas às vezes a pessoa se alimenta bem, mas nunca melhora e ainda morrem.
― Mas ele está reagindo bem às sopas, certo? ― perguntou ansiosa.
― Até o momento sim, mas o ferimento demora pra cicatrizar, e quando demora inflama. ― ressaltou olhando-a nos olhos: ― Eu não vou perder ele pra doença Silena.
A moça segurou suas mãos molhadas puxando-o pra ela. Sorriu-lhe terna.
― Não vai. Você é um médico excelente. E assim que achar uma forma de tratá-lo ele vai sobreviver.
― Espero. ― sussurrou se soltando dela: ― Vai dar uma olhada no Hery pra não empoleirar no Nico.
― Oh! Verdade. ― bradou ela correndo para o Hall: ― Henry deixa o Senhor Levesque quieto!
Will riu do desespero dela voltando a cortar os legumes.
☠
― Achei que eles fossem ficar pra jantar. ― admitiu Will colocando a mesa. Nico sentou-se com certa dificuldade.
― Deus escuta nossas preces de vez em quando. ― zombou Nico soltando uma lufada de ar.
Will rolou os olhos:
― Da pra parar de zombar o tempo todo?
― te incomoda? ― perguntou curioso.
― Sim. ― admitiu servindo a sopa.
― Então não. ― respondeu pegando a colher e tomando da sopa. Fez uma careta desgostosa.
Will se sentou olhando-o um pouco aflito.
― Está ruim?
― Não, mas sopa por duas semanas é tortura. ― resmungou apoiando o rosto em sua mão esquerda. Will riu concordando: ― Preciso dos meus doces. Estou entrando em abstinência.
― O que?! ― trovejou Will chocado: ― Você tem diabetes e ainda come doces?
― Não vou parar minha vida por isso. ― admitiu rolando os olhos.
― Não é parar a vida, mas controlar sua alimentação com variedades de legumes e frutas. ― explicou Will tomando da sopa.
― No mar?
O doutor torceu o lábio.
― Às vezes esqueço que é um pirata. ― murmurou emburrado.
― O que significa que minha atuação funciona. ― zombou dando de ombros, Will resmungou algo voltando a comer.
O resto do jantar foi silencioso. Nico comia com certa lerdeza pela falta de fome, já Will estava em sua segunda porção de sopa. Fez uma pequena careta pra comida, realmente não aguentava mais sopa. Provavelmente Nico poderia comer outras coisas àquela altura.
Assim que terminou levantou-se da mesa e foi até o escritório para mais uma sessão de estudos, desta vez conhecendo bem o problema dele. Ofereceu primeiro levar ele pro quarto, mas Nico disse querer ficar no Hall e terminar o livro que havia pego mais cedo.
Assim separaram-se e talvez pela primeira vez desde que Nico chegou a sua casa Will não se intimidou em saber que ele estava sozinho com o pirata, desta vez vagando por sua casa. Ele estava bem com a presença dele diferente dos últimos dias.
Resolveu ignorar o atentado à sua vida e voltou aos livros empoeirados e grossos na esperança de algum deles contar sobre a doença. O pouco que os livros contavam era exatamente o que ele explicou à Silena mais cedo, portanto o que ele faria dali por diante dependeria totalmente de sua capacidade médica.
Um arrepio lhe percorreu a espinha ao pensar dessa forma. Ele tinha conhecimento o suficiente para isso? Honestamente Will não saberia responder isso. Estava certo de suas habilidades, mas quando batia em muros difíceis demais de derrubar sentia-se inválido.
O mesmo aconteceu com Harley e agora com Nico. São dois muros impenetráveis e isso o amargurava. Contudo com Harley ele dependia totalmente de um milagre, já Nico dependia dele e somente dele.
Não tinha referências significantes, não tinha uma carga de conhecimento suficiente para entender das comidas que ele poderia ingerir, e não tinha poderes para imaginar se ele morreria mesmo com todos os seus esforços.
Como todos os diabéticos.
Respirou fundo encostando a cabeça na mesa preguiçosamente. Um minuto de descanso para a mente era tudo que ele pedia naquela hora. Fechou os olhos caindo no sono na mesma hora.
Esquecendo-se de Nico no outro cômodo, novamente.
☠
Nico
Deitado no sofá do Hall desajeitadamente Nico soltou um resmungo pela dor incômoda de seu machucado abaixando o livro das mãos. Segurou no encosto do sofá usando-o como apoio para se levantar.
Sentou com dificuldades massageando o pescoço tensionado. Ficou parte da tarde e a noite lendo aquele conto de fadas que há muitos anos não lia ou dava atenção. Era bem nostálgico por ser uma das histórias que contava à Hazel quando menor.
“A esposa Sereia”.
A história em si tem um final controverso e toda vez que ele contava a história para Hazel ela chorava por empatia das sereias que morrem no final do conto, enquanto Dylan sempre dizia que o final fora feliz para o casal e isso era o que importava.
Já Nico não tinha uma opinião formada sobre isso. Era simplesmente uma história que ele contava para ela dormir ―, mas parou de fazer na quarta vez que ela chorou com ele, mesmo pedindo que relesse.
Esticou os braços para cima espreguiçando-se delicadamente. O machucado repuxava com o movimento e quis evitar ter de chamar o Will por causa da dor. Olhou para a porta aberta da sala escura prestando atenção em possíveis barulhos que o doutor poderia estar fazendo, mas somente havia o silêncio.
― Solace? ― chamou ele levantando-se e caminhando vagarosamente até a porta. Deu duas cambaleadas antes de segurar-se com firmeza no batente dela.
Respirou fundo apoiando a testa na madeira gelada: ― Pareço um bêbado andando desse jeito. ― resmungou voltando a andar, desta vez com uma das mãos apoiando na parede e nos móveis durante o caminho.
A sala estava escura, mas uma porta no fundo do cômodo estava com luz o guiando como um inseto curioso. Apontou a cabeça para dentro do escritório vendo o doutor dormindo tranquilamente na mesa.
Soltou uma risada incrédula: ― Sempre dormindo nos piores lugares.
Zombou aproximando-se vagarosamente. Apoiou as mãos na mesa sem fazer barulho agachando-se ao lado dela encarando o rosto sereno de Will. Parecia confortável e ao mesmo tempo cansado. Daquele ângulo via claramente bolsas negras e pesadas debaixo de seus olhos. Não sabia dizer se era por causa do cansaço ou da luz da lamparina.
Olhou para a porta pensando no que fazer.
E se ele fosse embora? Mordeu o lábio cogitando a ideia de partir. Poderia ir a um dos bares clandestinos de Ravenna e conseguir uma carona para o Caribe em barcos mercantes. Aquela altura sabia que Jason já estava seguindo caminho para lá e que pelos próximos seis meses ficaria preso na casa do Solace.
Bom talvez não preso necessariamente. Will deixara claro que poderia sair quando quisesse assim que ficasse melhor, mas a ideia de ficar quieto e agir de acordo com a moral e a ética Cristã com certeza não era sua escolha favorita.
Apoiou a testa na borda da mesa encarando suas pernas por longos instantes. O que ele tinha a perder saindo dali naquele momento e o que tinha a ganhar? Voltou o olhar para o loiro que remexeu-se confortavelmente sobre seus braços soltando um som preguiçoso dos lábios.
Nico sorriu involuntariamente. Antes que percebesse sua mão tocava os cabelos loiros que caiam em seu rosto com curiosidade.
― Não deveria dormir desse jeito vulnerável comigo aqui, Solace. ― sussurrou ele passando os dedos pelas mexas loiras.
Arregalou os olhos afastando-se com brusquidão. Colocou uma das mãos sobre a boca sentindo seu rosto queimar instantaneamente.
― Para com isso Nico. ― repreendeu-se olhando uma ultima vez para o doutor antes de sair da sala aos tropeços.
Voltou para o Hall rapidamente sentando-se ofegante, mas não sabia se era pelo cansaço ou simplesmente pela vergonha. Afundou o rosto nas mãos tentando acalmar-se, mas seu coração batia como de um beija-flor.
E não tinha intenção de voltar ao normal.
☠
Acordou com dores no corpo assim que sentiu alguém lhe tocando o ombro. Abriu os olhos à contra gosto encarando o doutor que o chamava delicadamente. Rosnou baixo tapando o rosto pela claridade excessiva que agredia seus olhos.
― Você passou a noite no sofá? ― perguntou o doutor mesmo sabendo a resposta. Nico grunhiu baixo aquiescendo.
Ouviu Will rir.
― Bem então somos dois. ― admitiu baixo. O pirata o observou por entre os braços vendo-o parado o encarando com curiosidade: ― Chá?
Ele sorriu: ― Café!
Will rolou os olhos oferecendo-lhe o braço. Nico o encarou duvidoso, mas pegou a mão do doutor que o ajudou a se levantar delicadamente.
― Não tenho café, isso é coisa nova por aqui. ― admitiu o loiro: ― Nunca tomei.
Nico o encarou incrédulo: ― Nunca tomou café?
Will novamente negou: ― Não, até onde sei Viena é famosa pelos cafés, mas pra esses lados? Nada.
O pirata meneou: ― Compre um dia e te mostro como é. O ideal é com leite.
― Como sabe?
― Rodei o mundo, Solace. Por aqui só tem na Itália e na Inglaterra, mas na Arábia tem há muitas décadas. Ouso até dizer séculos. ― respondeu ele seguindo o doutor para a cozinha.
Sentou-se imediatamente pelo repentino cansaço. Will sorriu:
― Você já visitou o mundo todo em. ― comentou pegando as coisas para colocar na mesa. Nico negou.
― Boa parte dele sim, mas ele é grande demais para ser totalmente visto. ― admitiu bocejando na sequência: ― Nunca fui pro Czarado da Russia. Parece interessante, ainda mais com o Czar que eles tem. Soube que é bem novo.
― Feodor não?
― Sim, o Romanov. ― respondeu ele concordando: ― É mais novo que eu.
Will riu rolando os olhos e sentando-se. Na mesa havia pães, suco e o chá estava esquentando. Nico respirou fundo recostando-se na cadeira. Ficaram em um silêncio constrangedor enquanto o pirata balançava as pernas.
Estava com dor, mas tentou aliviar prestando atenção em outras coisas. Aproveitou para dar uma melhor examinada na cozinha. Havia feito isso no dia anterior, mas não custava nada olhar novamente.
Era grande a cozinha, assim como a casa em si. Provavelmente era uma família grande antes de Will tomar a casa para si ― o que normalmente acontece com o mais velhos ―, a mesa era para cinco pessoas, o fogão à lenha tinha partes de ferro muito bem moldadas, a janela no fundo dava para algum jardim atrás da casa.
Nico sentiu uma curiosidade imensa de ir lá fora e ver o que tinha. Olhou para Will que voltava para o fogão ver o chá. Parecia que iria demorar um pouco, assim levantou-se e caminhou com dificuldade para a porta.
― Nico? Onde vai? ― perguntou o doutor curioso.
― Lá fora. ― respondeu girando a maçaneta.
Abriu a porta vendo um pequeno jardim com fundo para outra casa; uma cerca de madeira um tanto quanto alta e uma figueira no fundo com um balanço amarrado em um dos galhos grossos.
As cordas pareciam um tanto velhas e talvez não o aguentassem se sentasse nele; a grama estava um tanto alta, mas o caminho de pedras ainda era visível; na lateral tinha um banco e uma fonte com a imagem de Afrodite no topo. Nico rolou os olhos pro quão clichê aquela fonte era.
Saiu da casa sentindo a brisa gélida contra seu rosto. Seu corpo tremeu imediatamente sentindo um arrepio correr por seu corpo e um sorriso brotar em seus lábios. Como sentia falta do vento.
Continuou a andar parando exatamente em frente ao balanço. Passou os dedos pela corda apodrecida apertando os olhos.
“―Nico me empurra! ― pediu Bianca sentada no balanço. Suas mãos segurando com firmeza as cordas enquanto os pés balançavam bem longe do chão.
O rapaz sorriu puxando-a para trás e depois a empurrando levemente para frente. Aos poucos ela ganhou impulso sorrindo animada quando chegava ao topo. Os cabelos ao vento e a risada gostosa e maravilhosa a qual Nico adorava.
Depois de alguns empurrões começou a diminuir a velocidade do balanço.
―Eu vou sentir sua falta. ― respondeu a irmã olhando-o com ternura: ― Sabe disso, certo?
Nico assentiu segurando o balanço com força a fazendo parar bruscamente. Colou sua testa na dela fechando os olhos por um instante. A ouviu rir.
― Também vou irmã. ― respondeu ele beijando sua testa na sequência.
Ouviu ser chamado e viu Hazel correndo desajeitada até eles dois com Dylan logo atrás. Sorriu para a cena da pequenina tentando não tropeçar na barra do vestido fazendo caretas irritadas e birrentas de uma criança de sete anos.
― Eu tenho a Hazel ainda, e essa vai demorar pra ir embora. ― respondeu ele: ― O que acha de aproveitarmos esse ultimo dia juntos?
Bianca sorriu concordando: ― Hazel vem, o Nico vai nos balançar!
A menina abraçou Bianca subindo no balanço e sentando-se ao seu lado. A irmã mais velha passou o braço por sua cintura para que não caísse, e com um impulso leve Nico as empurrou ouvindo a gargalhada alegre da pequena.
― Mais alto Neeks, mais aaltoooo! ― bradou animada.
Nico amava aquelas duas demais.
Sentiria falta desses momentos no balanço. Muita falta, mas o dever falava mais alto. Como sempre.”
― Nico?
Saindo do transe num salto olhou para trás. Will o encarava preocupado. Ele balançou a cabeça voltando a encarar o balanço.
― Está frio, vamos entrar? ― pediu ele educadamente.
― Não quero. ― respondeu fechando os olhos com força: ― Pode me deixar sozinho um pouco? Entro depois.
Não ouviu a resposta do loiro e nem se virou para responder, somente segurou a corda do balanço com força à medida que as memórias voltavam, ainda que felizes sempre levavam ao momento em que tudo ruiu.
Em que ele começou a odiar essas memórias com força.
Sentiu algo pesado cair sobre seus ombros o fazendo olhar para trás. Will colocava seu casaco nele com o olhar baixo.
― Não sente no balanço as cordas estão podres. ― avisou ele afastando-se: ― Entre assim que puder, vou estar na cozinha.
Afastou-se voltando para a casa. Nico puxou as laterais do sobretudo pesado do loiro. O cheiro de colônia barata impregnado em seu tecido. Passou o braço pelas mangas rindo ao ver que ficaram grandes e impossível de ver suas mãos.
Levou a manga até seu rosto inalando o cheio. Fechou os olhos com força aterrando o rosto nas mãos.
― Para Nico, não faz isso. ― recriminou-se passando o braço por seu corpo abraçando-se: ― Vai se arrepender.
☠
― Ok, vamos ver o machucado novamente? ― perguntou Will para Nico sentado no Hall. O moreno somente o olhou por cima do livro por alguns segundos antes de ignorá-lo.
Ouviu um resmungo indignado do doutor. Soltou uma risada baixa.
― Senta direito, anda! ― bradou ele. Nico deixou o livro de lado e sentou-se normalmente.
Will o desenfaixou tirando um gemido de Nico. O moreno fechou os olhos pela pequena fisgada, mas se recompôs na sequência. O doutor encarou o machucado antes de levantar-se.
― O que foi?
― Não está ruim, mas acredito que um pouco de água quente ajude. ― falou ele num sorriso sapeca. Nico torceu o lábio.
― Vai me fazer tomar banho, Solace? ― perguntou o pirata. Will assentiu.
― Vou esquentar a água, mas antes vou te subir para o quarto onde ela está. ― disse ele ajudando Nico a se levantar.
O pirata pegou o livro em mãos e foram ao segundo andar. Num quarto ao lado do de Nico tinha uma tela de madeira que separava o ambiente da banheira branca no centro do quarto; no canto em cima de uma mesinha havia sais e toalhas dobradas, um espelho enorme na parede esquerda e uma penteadeira enorme. Nico arqueou a sobrancelha.
― Penteadeira? ― zombou ele vendo Will corar com o comentário negando rapidamente.
― Era da minha mãe e irmã, ok? ― falou ele defendendo-se: ― Não seja estupido.
Nico riu soltando-se do doutor. Caminhou até a penteadeira e sentou-se na cadeira.
― Bom melhor ir buscar a água, vão ser várias idas e voltas. ― zombou ele vendo a cara desgostosa do doutor.
― Quando disse pro meu pai colocar isso lá embaixo ele reclamou. Vai ver porque não era ele quem enchia. ― resmungou saindo do quarto.
Nico rolou os olhos olhando para o livro, mas o colocou na penteadeira evitando de lê-lo. Fechou os olhos e, mais uma vez naquele dia se deixou levar pelas memórias.
“― Eu não quero tomar banho. ― Nico ouviu Hazel bradar do lado de dentro do cômodo onde havia uma banheira enorme.
Encostou o ouvido na porta.
― Senhorita precisa se banhar, vamos ter uma festa hoje e precisa estar apresentável. ― pediu uma das moças do lado de dentro. Nico a reconheceu como uma das serviçais novas da casa.
― Não! ― gritou a menina. Nico suspirou pesado entrando no cômodo. As moças se viraram assustadas tapando Hazel com a toalha já que estava nua.
A menininha olhou para o irmão e cruzou o braço irritada. Ele rolou os olhos balançando a mão e dispensando as moças. A contra gosto as três deixaram o cômodo e Nico ajoelhou-se em frente à Hazel.
Ela fazia um bico emburrado e lágrimas se aglomeravam no canto de seus olhos. O moreno a puxou para um abraço acariciando seus cabelos volumosos.
― Eu sei que você não gosta, mas precisa se banhar. ― falou ele afastando-a. As lágrimas descendo teimosas por seu rosto. As limpou delicadamente com o polegar: ― Quer que eu te dê banho?
Ela assentiu.
Ele a ajudou a entrar na banheira que já tinha um pouco de água dentro. Ela fechou os olhos assustada agarrando Nico com força. Ele encarou o fundo dela colocando a mão na água. Ela mergulhou até seu cotovelo.
Trincou os dentes irritado.
― Elas encheram demais. ― resmungou tirando-a dali de dentro. A olhou curioso antes de sorrir sapeca: ― Faz tempo que não tomamos banho juntos, o que acha?
O sorriso dela foi instantâneo.
― Sim! Sim, sim, sim, sim!! ― falou animada tapando a boca com as mãos: ― O papai não vai gostar.
― Nah! Eu nunca fiquei nu perto de você. Vou entrar de calça como sempre. ― respondeu ele piscando-lhe o olho: ― Afinal você é uma dama, e deve ficar pura até o final.
Ela concordou avidamente.
Entraram juntos na banheira com Hazel sentando em seu colo longe da água funda. Ele a lavou com delicadeza e o que era para ser um momento de limpeza se estendeu para uma hora de risadas e água espalhada por todo o cômodo”.
― Ah isso vai ser cansativo. ― resmungou Will fazendo Nico abrir os olhos assustado: ― Mas bem, fazer o que né?
Nico rolou os olhos:
― Não reclame. ― resmungou puxando o casaco para fechá-lo mais apertado.
― Com frio? ― perguntou Will aproximando-se.
― Na verd―
Ele parou no meio da frase ao ver Will encostando sua testa na dele. Arregalou os olhos pela aproximação. Antes que pensasse em se afastar o doutor o fez.
― Não está com febre. ― confirmou colocando a mão em seu queixo: ― Mas por via das dúvidas vou ficar de olho. ― respondeu voltando para a porta: ― Vou esquentar mais água, pode colocar essa dentro da banheira?
E sem esperar uma resposta saiu andando.
Nico soltou uma lufada de ar tapando a boca. Fechou os olhos respirando profundamente acalmando o coração descontrolado.
― Estou abaixando demais a guarda. ― falou para si mesmo olhando para a porta incerto:
― Em todos os sentidos.
☠
Will
Encheu o segundo balde da água que deixou fervendo. Colocou mais no outro balde e voltou para o fogo. Por sorte eles eram grandes e mais três viagens dariam para dar um banho no pirata.
Will ficava um pouco incerto sobre molhar o ferimento daquela forma, mas antes de deixa-lo entrar na água enfaixaria só para evitar qualquer problema. Pegou na alça do balde e subiu novamente as escadas.
Entrou no quarto vendo Nico despejando a água na banheira. Seu rosto estava vermelho e parecia ofegante. Ficou tenso com isso soltando o balde do lado da banheira e segurando-o pelos ombros.
― Nico, ta tudo bem? ― perguntou genuinamente preocupado. O moreno concordou afastando-o grosseiramente.
― Sim.
O doutor respirou fundo abaixando-se e pegando o balde vazio.
― Enche o outro, vou pegar mais. ― falou saindo novamente, desta vez um pouco intrigado. Nico estava bem naqueles dias, mas se iria explodir novamente precisava ficar mais alerta.
Mais cedo ficou preocupado com ele no jardim, parecia distante. Sabia que não era fácil ficar em um lugar desconhecido com pessoas estranhas, e ainda por cima ferido, então tentava entende-lo sempre que tinha essas reações.
Era isso ou brigarem todas às vezes.
Encheu o balde e trocou com o outro do fogão e subiu novamente. Desta vez não olhou para o rapaz no canto da sala observando os adornos nas paredes.
Will se lembrava de alguns deles, todos escolhidos um a um por sua mãe, Naomi. Ele se lembrava pouco dela. Naomi morreu quando ele tinha sete anos com tuberculose, mas o sorriso em seu rosto antes de morrer fez Will sorrir de volta mesmo com lágrimas descendo por seu rosto e seu pai a abraçando quando fechou os olhos pela ultima vez.
Lembrava-se de Austin o pegando pela mão e o tirando dali com Kayla em seu colo. Ouvia o choro de seu pai lá dentro e isso o fez chorar ainda mais, contudo não estava desolado. Sua mãe morreu sorrindo, por que deveria ficar triste por ela?
Quando disse isso ao seu pai o homem surtou dizendo que isso era desrespeitá-la. Austin havia interferido naquele dia, mas a memória de Will acaba nesse ponto.
Toda a decoração da casa foi feita por Naomi e ela permanecia até o momento, mesmo depois de Austin deserdar da família, Kayla se casar e Lester, seu pai, falecer pela mesma doença de sua mãe.
Respirou fundo voltando para o andar de baixo. Fez o mesmo processo, desta vez apagando o fogo. Quando voltou ao cômodo Nico retirava o casado lentamente colocando-o na cadeira. Passou a mão pelos cabelos pensativo.
Will gostaria de saber o que ele pensava. Sua mente parecia ser no mínimo interessante.
― Vamos?
Nico o encarou arqueando a sobrancelha:
― Vamos? Vai me dar banho Solace? ― zombou o rapaz cruzando os braços. Quando Will concordou o sorriso debochado sumiu de seu rosto: ― Ah, não!
― Ah sim! ― disse arregaçando as mangas: ― Não vou te deixar sozinho machucado, vou te dar banho.
Nico cruzou os braços negando.
― Nem morto. Esquece Solace! ― bradou o pirata sério: ― Fora!
― Não.
Nico o olhou com certa raiva. Will sustentou o olhar ainda que um pouco assustado. Ele explodiria de novo? Tinha alguma faca escondida nas botas? Ele estremeceu com a ideia. Nico percebeu isso relaxando o corpo aos poucos.
― Não vou te atacar, Solace. ― disse ele calmamente. Will continuou tenso: ― Só fica do outro lado da tela ok? Isso é intimo demais.
O doutor o encarou profundamente antes de suspirar concordando.
― Tudo bem, mas qualquer coisa estranha que eu ouvir vou ir até você. ― falou ele sério.
― Justo.
Will foi para trás da tela sentando-se no chão. Ouviu Nico jogando a roupa no chão e tempos depois entrando na banheira. O ouviu respirar fundo relaxando. Will sorriu com isso abraçando seus joelhos enquanto esperava.
Então Will lembrou-se que não havia enfaixado o ferimento apropriadamente. Levantou-se abruptamente.
― Nico espera preciso colocar alguma coisa no Machu—
Parou ao não ver sinal do rapaz na banheira. Estremeceu andando até ela. Nico havia mergulhado e só se viam bolhas na superfície da água. Will arregalou os olhos puxando-o pelo braço pra superfície.
O rapaz arfou olhando-o surpreso. Will soltou o ar respirando descompassado.
― Você... Está louco? ― bradou ele irritado. Nico arqueou a sobrancelha intrigado, mas então riu.
― Oh! Solace eu to bem, submergir não mata, é mito. ― admitiu o rapaz: ― Sério!
― Como pode ter certeza? ― perguntou ele preocupado: ― Não faz bem pra saúde.
― Há essa altura pra que se importar com a minha saúde? Ela é uma droga mesmo. Sempre foi. ― admitiu soltando-se dele: ― Agora fora, xô!
Will passou a mão pelos cabelos levantando-se. Pegou alguns sais jogando-os nas mãos espalhando e depois passando nos cabelos de Nico. O moreno arfou olhando para ele de soslaio.
O doutor mordeu o lábio:
― Para de ser inconsequente. ― resmungou: ― Não vou olhar você, só lavar seu cabelo, então trate de se limpar bem.
Nico demorou para responder, mas logo depois aquiesceu pegando o pano com sais e passando em seus braços marcados com grossas cicatrizes que pareciam ser de lutas, algumas maiores que outras.
Olhou para o resto de seu corpo por trás vendo todas elas que formavam desenhos desconexos em seus ombros e costas. Contudo um deles parecia ser tão serio quanto o que ele tinha no abdômen.
Em seu ombro direito uma marca grossa e mal cicatrizada atravessava seu ombro. Parecia do tamanho exato de uma lâmina. Antes de pensar bem tocou a cicatriz. Sentiu Nico ficar tenso afastando-se do toque automaticamente. Will ignorou isso a tocando novamente.
― Onde fez essa cicatriz? ― perguntou curioso passando os dedos pela pele em alto-relevo. O rapaz olhou para o ombro por longos instantes antes de negar.
― Não lembro de todas as cicatrizes. ― respondeu voltando-se pra frente: ― Não precisa de desculpa pra me tocar Solace, é só pedir. ― zombou ele lhe sorrindo debochado.
Will sentiu seu rosto arder afastando-se:
― Não foi isso que eu quis fazer, eu só... É que ela parece igual o seu machucado, queria saber como cicatrizou. ― falou ele sincero. Nico o avaliou um tempo:
― Demorou muito. ― respondeu sério: ― Muito mais que os outros. Infeccionou de um jeito que disseram que eu iria morrer. De alguma forma melhorei.
― Não sabe como? ― perguntou Will curioso.
Nico negou.
― Você não disse que não sabia onde tinha se machucado? ― indagou o doutor com um sorriso zombeteiro.
Nico ficou tenso. Virou o rosto para o lado contrário pegando uma caneca e a enchendo com agua, em seguida jogou em sua cabeça retirando a espuma. Vendo que não conseguiria mais nada dele afastou-se sentando na cadeira.
Cada vez mais Will ficava curioso quanto ao pirata, e infelizmente cada vez mais a vontade. Não sabia se deveria baixar a guarda com ele, mas diferente do começo ele parecia mais a vontade.
E Will ficava feliz em saber isso.
Nico levantou-se da banheira e dali Will tinha uma visão de suas costas. Não soube dizer o porque, mas seu coração bateu tão rápido com a visão que precisou desviar o olhar. Tapou a boca com a mão sentindo seu rosto arder.
Mas que merda?
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