Pit-a-Pat
55 Capítulo LIII
Notas iniciais

Travis
~Capítulo LIII~
:: 3º dia em Tortuga — Semana 12 ::
[...]
O céu estava limpo e claro, como os verões tendem a ser. Um calor intenso, brisas frescas e nuvens esparsas ou inexistentes no cenário caribenho.
Independente de quantas vezes Travis erguesse seus olhos para o céu, as nuvens jamais se reuniam no prelúdio de uma tempestade.
Se tornou uma rotina sua analisar os céus. Sua feição arisca e olhares afiados, focados nas formações distantes de vapor e ventos. Havia uma espécie de apreensão em seu peito, na perda que uma tempestade surpresa lhes custou.
Travis nunca mais ignorou o aviso dos céus.
Era o terceiro dia do Caronte ancorado em Tortuga, na monotonia do dia-a-dia dos piratas aprisionados em terra firme.
Suspirou pesado, entediado, uma pedra de rubi em sua palma fazia pouco para distraí-lo. Desde a ancoragem, a única diversão que Travis tinha era o trajeto até o bar e a irritação que Malcolm exibia sempre que os irmãos Stoll decidiam que o navegador seria a vítima de suas brincadeiras.
Ao menos, Malcolm não os ameaçava com um machado como Sherman, era uma irritação sutil entre xingamentos e feições fechadas.
Travis adorava quando o navegador se escondia deles depois de um dia inteiro sob a atenção constante dos Stoll. Essa era uma das poucas rotinas que Travis possuía certo apreço.
Uma das razões de amar a pirataria era a inexistência de rotinas. As obrigações diárias e constantes que a sociedade os forçaram a ter, quando ainda moravam em terra firme e tentavam — mesmo sem sucesso — fazer parte do novo mundo.
A pirataria o resgatou desta monotonia a qual vivia, dos horrores de tentar e falhar tantas vezes em se encaixar. Travis tinha suas obrigações no navio, suas tarefas dadas por Nico ao embarcarem. Era uma rotina que Travis aceitava, uma sociedade que Travis fazia parte sem precisar se moldar.
Nico os resgatou por serem quem eram, não pela mentira que foram forçados a contar por tantos anos.
Travis pertencia ao Caronte. As águas raivosas, à incerteza do dia de amanhã. Não havia dois dias iguais no mar. Não havia formas de prever o futuro e a falta de constante o deleitava.
Até lhe tomarem algo precioso.
Suspirou pesado, se impulsionando na amurada do navio. As pernas do lado de fora, pendentes no casco do Caronte, lhe dão um conforto ao apoiar as mãos na madeira úmida. Fechou os olhos, sentindo a brisa fresca da maresia.
Passaram longos meses nos mares indianos em uma pilhagem conjunta com a Ramirez, naquele clima quente e ao mesmo tempo complexo. Era impossível prever o clima, as tempestades violentas a cada soprar mais forte nos céus. Navegar nos mares indianos era sempre um desafio.
O Caribe, por outro lado, tinha um vento constante e o céu quase sempre limpo. Era fácil ler o horizonte, prever para onde os ventos carregavam as nuvens e quando se tornavam uma tempestade.
Era onde o Caronte pertencia, afinal de contas. Abriu um sorriso ao sentir um corpo encostar contra a amurada, bufando audível as suas costas.
— Dia ruim?
— Urgh! — resmungou Piper, fazendo o rapaz abrir os olhos, curioso: — Percy atacou três navios do Octavian esta noite. Não estava nos planos, e mesmo assim ele sequer pensou antes de agir! Vamos ter que nos envolver antes do previsto.
Travis rosnou:
— Maldito Jackson. Só faz o que quer. — comentou revoltado, se virando para Piper: — O que a Reyna pretende fazer sobre isso?
— Ela atirou nele. — comentou Piper, o sorriso ladino no rosto: — Ele deu sorte que ela estava bêbada. Ele fugiu antes que ela carregasse o segundo disparo.
Travis riu, lançando a pedra de rubi no ar, deixando que caísse em sua palma aberta.
— Devia ter acertado. — Travis zombou, virando totalmente o corpo para Piper, trazendo as pernas para dentro do navio: — E então? Vamos atacar de volta?
— Pra limpar a sujeira do Jackson? Não. — Piper resmungou, cruzando os braços enfaticamente.
Travis ficou em silêncio alguns segundos, absorvendo o que Piper lhe disse.
— Se ele decidiu atacar, podemos tentar--
— Não acho que foi ele quem decidiu atacar. — Jason interrompeu Travis, se aproximando.
Travis ergueu os ombros, a presença de Jason um incômodo latente. Por mais que não conseguisse imaginar Jason traindo Nico, havia algo suspeito na forma como Jason lidou com a decisão de não poderem buscá-lo.
Ele aceitou fácil demais, e essa facilidade amargava sua boca.
Piper levantou ambas sobrancelhas, curiosa:
— Ah, não?
— Annabeth tem uma longa rixa com Reyna. Ambas são estrategistas, e competem nos mares há mais de uma década. Annabeth decidiu agir por conta, ignorando os planos de Reyna. — o "pois os considerou inúteis e previsíveis" nas entrelinhas não passou despercebido por Travis.
Travis bufou:
— É cada um por si? Então, por que estamos ajudando?
Jason o observou por um tempo, seu olhar o julgando em desinteresse. Travis travou a mandíbula, irritado.
— Quem lhe disse que estamos ajudando? — Jason rebateu com outra pergunta, deixando Travis possesso.
Odiava quando Jason rodeava.
— Então que porra estamos fazendo, Grace?! — cuspiu o Stoll, raivoso.
Jason apertou os olhos, a paciência deixando sua feição normalmente calma. Piper colocou a mão em sua coxa, num gesto calmante. Travis tirou sua mão de cima dele, descendo do parapeito e se afastando às pressas.
— Travis! — Piper o chamou, mas o garoto continuou seu trajeto para longe, a raiva se transformando em algo monstruoso.
Era sempre assim. Ele fazia perguntas e Jason o respondia com meias respostas como se ele não pudesse entender, que fosse novo demais para compreender qualquer coisa. Diferente de Jason, Travis só tinha vinte e um anos. Sua experiência e decisões de vida eram limitadas, sabia disso, mas esse fato nunca foi um empecilho para ser de alguma utilidade.
Nico sempre o ajudava a entender, ainda que eles sentassem por um tempo em sua cabine, com o Capitão gentil, mas firme, explicando as nuances de suas escolhas.
Nico considerava importante deixá-lo ciente das estratégias, do que acontecia ao seu redor. O ensinava as malícias, as maldades e crueldades nos olhares dos homens à sua volta, para poder se defender de atos hediondos quem vem com a vida de pirata.
Nico sempre se mantinha atento nele e em Connor, cuidando de longe, como um mentor em meio a tantos horrores e olhares perigosos.
Travis via esse mesmo olhar em Jason. Um olhar perverso, como quem trama algo. Ele temia que Nico tivesse confiado em alguém fajuto por todos aqueles anos. Travis estava começando a desconfiar ainda mais de Jason à medida que o tempo passava. Uma contagem regressiva, como se precisasse de um último motivo para tomar para ele o controle do Caronte.
E, por mais que não gostasse de Jason tanto quanto deveria, Travis temia de estar certo e ser obrigado a se livrar do amigo mais íntimo de Nico.
Parecia uma traição pior que o motim.
☠
Numa noite de estrelas, onde a única iluminação natural se dá por astros distantes demais para guiá-los às cegas por águas tão escuras quanto a própria noite, navegar pelo Caribe é um dos maiores perigos dos mares.
Há lendas, daquelas proferidas por bardos e bêbados em bares lotados, que se arrastam pelas águas como barris de óleo despejados na correnteza. Estão na superfície, visíveis aos olhos daqueles atentos o bastante para ver, mas discretos o suficiente para se espalharem e ocuparem dezenas de milhas sem serem notados.
Ninguém percebe que há algo na água até a primeira fagulha ser lançada ao oceano. O fósforo recém-apagado, cigarros descartados no oceano, um esbarrar infeliz num lampião que despenca em queda livre para as águas escuras. Irá apagar, é o que todos pensam.
E então, uma explosão os devoram impiedosamente.
Entre lendas e contos, há verdadeiros perigos ocultos nos oceanos.
O barqueiro do Mundo Inferior é uma das grandes lendas que ecoam pelos oceanos, que habitam os mares caribenhos durante a noite, navegando em total escuridão; navio negro e velas negras. Sem lamparinas, fogo ou som. Um navio vazio, recheado de almas penosas e odiosas, daqueles impossibilitados de atravessarem para o outro lado, fadados a servirem o barqueiro até sua dívida ser paga.
O Caronte não era visto há meses, e isso deixou os piratas da região mal-acostumados e corajosos.
Até a primeira faísca cair.
Um navio pirata explodiu a poucos metros do píer de Tortuga, o som atraindo a atenção de todos seus habitantes para o show de luzes e sons. O fogo se erguia aos céus em uma dança belíssima, ovacionando as estrelas em seu maior esplendor. Nenhum navio à vista, nada além de uma silhueta sutil ao longe, distante demais para distinguí-la, mas o suficiente para erguer exclamações, corações disparados e gritos desesperados por toda a Tortuga.
— O barqueiro dos mortos está de volta!
O Caronte retornou ao Caribe.
☠
Na manhã seguinte, um navio de velas vermelhas foi avistado no norte de Tortuga. Sinos tocavam a cada milha que o navio se aproximava, trazendo consigo o mau agouro que todos mais temiam.
O retorno da morte pela noite e o da guerra durante o dia.
Clarisse La Rue, a Senhora da Guerra, marcou sua presença naquela manhã desesperadora, trazendo consigo o prelúdio de uma batalha cruel e sangrenta. Clarisse La Rue nunca se aliaria ao Jackson ou a Ramirez, por rixas antigas e brigas intensas de navios afundando e imediatos assassinados a sangue frio.
E, com isso, Octavian acabara de ganhar uma aliada poderosa, e Tortuga se aquietou, como nunca antes havia feito.
☠
— Acha que ela vai nos atacar? — Travis perguntou a Sherman, observando o artilheiro afiar seu machado vagarosamente, cenho franzido em concentração; ou frustração, qualquer um dos dois seria crível.
Sherman riu, erguendo o machado contra a luz antes de baixá-lo novamente, a pedra de amolar outra vez deslizando pela lâmina.
— Óbvio. — Sherman resmungou, encarando Travis nos olhos: — Clarisse quer o controle do Caribe, e no momento temos três Capitães que comandam essas águas: a Ramirez, o Jackson e o nosso Capitão. Ficando do lado do Octavian, ela derrubaria os três de uma vez.
Sherman apoiou o machado na amurada, gesticulando para que Travis se aproximasse. O rapaz o fez, curioso. Sherman aproximou seu rosto do Stoll, falando em baixo tom, algo que Travis não imaginava que o artilheiro fosse capaz.
— Ninguém sabe que somos tripulantes do Caronte. Tem um motivo para usarmos velas brancas quando ancoramos na cidade. — o homem gesticulou para os mastros, as velas claras num ir e vir letárgico na brisa calma da tarde: — Clarisse só pode nos atacar quando estivermos fora de Tortuga, e no mar as disputas são nos nossos termos. Por isso, ela vai atrás do mais vulnerável de nós três.
Travis levantou as sobrancelhas, surpreso.
— O Jackson?
Sherman sorriu:
— O Jackson.
— Ele não é vulnerável. — rebateu Travis, contrariado.
Por mais que não gostasse do Jackson — apenas por perceber que ninguém no navio gostava dele do que por algum motivo pessoal —, sabia a força que o homem considerado semideus tinha à sua disposição. Há um quê boêmio nas atitudes de Perseu, leviano na forma que gesticula ao falar, mas seus olhos são felinos demais, astutos ao ponto de ouvir, arquitetar e concluir planos em sua mente durante uma simples conversa casual.
Não havia nada de vulnerável em uma fúria em forma humana.
— Não é, mas é o mais acessível pra La Rue. — garantiu Sherman, se afastando de Travis: — Desta forma ela afunda antes que precisemos nos envolver. De quebra, o Jackson se enfraquece o suficiente pra gente--
Sherman parou de falar, gesticulando o restante de sua frase com o polegar cruzando sua garganta horizontalmente, passando a mensagem de forma bem enfática. Travis concordou com a cabeça, surpreso.
Não sabia que estavam planejando se livrar do Perseu.
— Agora vai, descamba. Estou ocupado. — o artilheiro o espantou, voltando sua atenção total para as lâminas de seus machados.
Travis rolou os olhos, se afastando do mais velho. Esticou os braços para cima, num espreguiçar preguiçoso enquanto descia para os andares inferiores.
Connor havia descido com Leo para a cidade, a fim de explorar cada pequeno detalhe de Tortuga. Seu irmão caçula tinha energia demais, junto de uma curiosidade perigosa. Era necessário manter-se sempre atento, sempre próximo, ainda mais pela incapacidade de mantê-lo quieto por muito tempo.
Confiava em Leo. Por mais que sua aparência não exalasse ferocidade como Sherman ou superioridade como Nico, o que normalmente mantinha as pessoas distantes, Leo sempre foi bom com suas invenções.
E tinha uma mira melhor que muitos no navio. Connor ficaria bem aos seus cuidados.
Com a conversa de Sherman ainda recente em sua mente, desceu para o andar inferior onde mantinham os alimentos. Não queria descer em terra firme, e qualquer coisa que forrasse seu estômago bastaria por hora — talvez até achasse um dos esconderijos de doces de Nico.
Piper havia abastecido o navio com condimentos em conserva e algumas frutas para passarem alguns dias longe do porto. Pelo que a amiga lhe contou, após o ataque que fizeram à um dos navios de Octavian, manter distância das zonas de conflito seria o ideal para evitar envolver o Caronte em algum ataque quando ancorados de velas brancas.
Pegou uma maçã das caixas abertas, a mordeu e manteve na boca enquanto procurava outra coisa para comer.
Ouviu vozes no fundo, parando de remexer nas caixas imediatamente. Aguçou seus ouvidos, os sons ganhando vogais e os passos consistência.
Jason e Piper.
— Isso vai causar uma comoção imensa, Jason. — Piper repreendeu, severa.
Travis franziu o cenho para o tom incomum da amiga, a raiva em sua voz um alerta sutil. Tirou a maçã da boca, a colocando em seu bolso. Talvez precisasse das mãos e da boca para uns bons xingamentos, caso a discussão entre eles desandasse.
— Eu sei o que estou fazendo, Pips. — rebateu Jason irritado: — Pode não parecer, mas eu entendo como as coisas precisam ser feitas, sou pirata há mais tempo que todos nesse navio.
— Esse é o problema! — exclamou a amiga, escandalizada: — Você pensa demais como um pirata em situações que não deveria. Você está mantendo eles em uma mentira! — censurou novamente, fazendo Travis estremecer.
Mentira? Que mentira?
Jason suspirou alto: — Você fala como se o Nico nunca tivesse mentido para eles.
— Não sobre assuntos importantes! — bradou, exasperada: — Ele mantinha segredos sobre seu passado, mas cacete Jason, todos nós fazemos isso! Agora, qualquer assunto que envolvesse nossas vidas ele sempre nos contava, principalmente aos meninos! Não pode deixá-los no escuro até o suposto retorno do Nico que talvez nunca aconteça!
— Eles não precisam saber de tudo. — Jason rebateu em tom severo: — São jovens, não entendem como as coisas funcionam. Eu sim. Só… pode confiar em mim pelo menos uma vez?
Piper ficou em silêncio, servindo de combustível para a fúria de Travis.
Sabia que era considerado um garoto, mas ouvir isso diretamente de Jason o angustiava. Nunca o bastante, nem em terra nem na porra de um navio pirata!
Piper suspirou, cansada.
— Sabe que eu confio, sempre confiei, mas antes era diferente, Jason. Éramos só você e eu, sozinhos numa tripulação hostil. — Piper sussurrou, uma dor antiga em sua voz: — Mas aqui? Aqui não temos que nos esconder atrás de mentiras e armações. É nosso lar, Jason. Quando você vai começar a ver o Caronte dessa forma?
Sem dizer mais nada, Piper subiu para o convés, pulando os degraus de dois em dois. Travis paralisou atrás das caixas, o silêncio de Jason entregando tudo que não contava. Sussurrando seus segredos mais amargos.
Jason estava tramando algo. Algo grande que iria criar uma revolta na tripulação, principalmente com Sherman atento a cada movimento do Imediato. Uma mentira contada entre eles com intenções ruins os levariam à ruína e, quando Nico retornasse, talvez só restassem a história do que antes foi uma grande lenda dos mares.
Estavam caminhando para um fim amargo.
Jason sumiu um pouco depois, deixando Travis sozinho com seus pensamentos, a conversa de Sherman intensificando em sua mente, as memórias e a saudade de Nico repentinamente latentes.
Travis se sentou no assoalho úmido da embarcação, puxando os joelhos contra seu corpo, uma angústia sem fim em seu peito.
Seu medo à um passo de se tornar realidade.
☠
Ao final da tarde, Travis foi arrastado por Connor até uma loja de bugigangas, pilhadas de vários locais pelo mundo. Sempre que podiam, ambos irmãos visitavam a pequena loja atrás de algum aparato para suas brincadeiras no navio, ou como um presente para Nico — colocado estrategicamente em sua mesa, sem remetente algum, mas Nico sempre parecia saber que os presentes eram dos Stoll, mantendo as bugigangas em sua estante aos olhos de todos.
A lembrança de Nico pressionava o peito de Travis, pesando como uma âncora em seu corpo. Não negava que eram próximos do Capitão, até mais do que deveriam ser. Havia algo reconfortante em suas atitudes bruscas, mas protetoras, como um irmão mais velho que Travis nunca teve; o irmão mais velho que Connor sempre mereceu ter.
Recordava-se de quando foram encontrados por Nico, dos horrores da vida nas ruas, dos calos e defesas que se ergueram ao fazerem de tudo, certo ou errado, para garantir mais um dia de alimento. Houve dias, quando o clima piorava e Santo Domingo se via refém de tempestades e ventanias mortais, em que Travis temia serem os últimos em que veria seu irmão vivo ao seu lado, sobrevivendo aos dias vazios das ruas, às chuvas intensas e a falta de empatia dos cidadãos despreocupados.
Foi em um desses dias, quando Travis roubou um grupo de marinheiros na cidade, grupo esse com roupas de civis, e foi alvo de uma violência extrema e pública. Ele já é adulto, diziam as vozes ao redor, Ele deve arcar por seus crimes.
O pânico em seu peito ao ter suas mãos presas sobre um barril, a lâmina de uma espada reluzindo na garoa fina de uma semana de intensas tempestades, e os gritos de Connor ao fundo, horrorizados. Ambos sabiam o que aquele ferimento significaria, as infecções que Travis contrairia em horas.
O terceiro corpo que Connor seria obrigado a enterrar.
Travis se recorda de fechar os olhos, das lágrimas riscando seu rosto antes do som de tiros e espadas colidindo; da sombra imensa de Nico sobre ele, o protegendo de marinheiros em maior número.
Ele estava sozinho, mas isso não pareceu realmente afetá-lo. Travis pensou em gritar, em pedir para que aquele garoto, não muito mais velho que ele, fugisse e levasse seu irmão caçula junto, antes que mais sangue fosse derramado.
Não havia notado o olhar de Nico, sequer sentido a ira que emanava de seu corpo; o estremecer dos marinheiros na presença de um pirata na luz do dia.
Nico não foi piedoso, e resgatou ambos garotos de um destino cruel, deixando corpos para trás e uma reputação maculada.
Desde então, os Stoll têm estado sob os cuidados pessoais do Capitão do Caronte, recebendo tratamento especial de todos os tripulantes veteranos.
Os garotos do Capitão, era como os chamavam.
Travis nunca se importou com o termo, na verdade sempre gostou de ter alguma relação pessoal com Nico. Nunca se importou até ficar claro que ainda eram vistos como crianças mesmo após dois anos à bordo do Caronte.
Até seu irmão mais velho desaparecer e ficarem à mercê de um Imediato indiferente e lembranças amargas.
No final, saíram da loja com um presente novo para Nico, um que ficaria em suas coisas até seu irmão voltar.
Se ele voltasse.
Chegaram ao cais em meio aos sons altos de vozes, instrumentos sendo tocados, danças sendo exibidas entre sorrisos e rodopiares intrigantes.
Era caótico, mas harmonioso, um cenário típico de contos e bardos. Um conjunto de sinfonias com propósitos únicos. Há desordem e mentiras em meio aos piratas em igual peso com astúcia perspicaz. Olhos atentos e ouvidos aguçados.
O caos de Tortuga era ordenado, feito para distrair os mais novos, inocentes e ignorantes piratas. O caos se torna um mar infinito de informações para homens astutos e palavras doces como mel.
Uma beleza que Travis ainda tentava compreender.
— Austin! — Connor chamou de onde estavam, acenando para a figura no cais, rodeada de outros homens no meio de uma conversa despretensiosa.
Travis tencionou ao seu lado, o olhar dos homens se virando para o par de adolescentes chegando no píer. Travis não precisava pensar demais para saber que eram homens do Octavian, que Austin era o atual espião do Jackson.
Era terreno perigoso e Travis precisava tirá-los dali. Tentou puxar o caçula pelo braço, mas Connor já se aproximava do veterano com uma intimidade estranha, como se tivessem se encontrado antes, longe do radar de Travis.
O loiro o encarou de cima a baixo, arqueando a sobrancelha.
— Eu te conheço, garoto? — perguntou Austin um pouco alterado pela bebida. Os homens com quem falava se afastaram, olhares afiados para a dupla.
— Estive com o Leo aqui mais cedo. — Connor explicou, apontando para Travis às suas costas: — E esse é meu irmão mais velho, Travis.
Compreensão iluminou o rosto de Austin que abriu um sorriso largo e cheio de interesses, dando espaço aos irmãos.
— Ah, sejam bem-vindos então! Me lembro que você disse que voltaria mais tarde pra jogar, ainda quer? — sugeriu o mais velho, gesticulando para a mesa com cartas e vários homens sentados ao redor.
Travis observou Connor com desconfiança, mas havia ali só o mais puro e inocente desejo pelo dinheiro fácil no caçula. Travis suspirou, aceitando a proposta.
Não recusaria um jogo já ganho.
☠
Levaram menos de uma hora para vencerem os jogos na mesa de apostas. Várias risadas, ofensas e ameaças trocadas, que no final culminaram em um saco cheio de moedas e jóias.
Ao terminarem o jogo, Connor se aproximou de Austin, começando uma conversa antes que Travis pudesse puxá-lo para longe. Não conhecia muito do informante para ficarem tão próximos dele, mas Connor parecia ter desenvolvido certo interesse no Solace, algo que Travis não conseguia entender.
Entre uma risada e outra de uma conversa a qual Travis não conseguiu pegar, Austin perguntou:
— Então, foi motim?
Travis travou no lugar, encarando Austin com desconfiança.
— Como assim?
— Jason. — Complementou Austin, o sorriso felino em seu rosto ganhando forças: — A imagem do Nico que Percy idealizou na minha cabeça não era realmente de um homem britânico, sabe. — Admitiu numa risada divertida, tomando um gole generoso de seu cantil.
— Não foi motim. — cuspiu Connor, irritado.
Travis o puxou para trás, olhos fixos no informante, em silêncio.
Austin arqueou a sobrancelha, comicamente: — Entendo. O silêncio é uma arma poderosa, afinal.
Uma briga começou ao lado deles. Travis e Connor se afastaram alguns passos, enquanto Austin se manteve no mesmo lugar, sem dar importância alguma para a troca de socos acontecendo ao lado.
Entre um e outro gole de seu cantil, Austin proferiu:
— O que acham do Octavian?
Travis sentiu como se fosse vomitar.
Connor se virou para responder, mas Travis o puxou duas vezes na camisa, um sinal entre eles para que ficasse quieto. Uma pergunta capciosa, feita em público, entre dezenas de homens que podem ou não apoiar o Octavian.
Austin os estava testando.
Travs respirou fundo, uma lembrança antiga das primeiras conversas com Nico veio à sua mente:
— Tome cuidado com algumas perguntas. — Nico o alertou, atento: — Algumas delas são feitas em forma de teste. Vão ser perguntas casuais que custarão caro no final.
— E como vou saber quando são testes e quando são normais? — Travis perguntou, preocupado.
— Elas são óbvias. — admitiu Nico: — São sempre assuntos sérios, mas feitos de forma inocente. Normalmente piratas mais experientes tem esse jeito traiçoeiro de conseguir informações, pegando os menos experientes tanto na pirataria quanto na vida.
— E a resposta certa? Como sei qual é?
— Preste atenção na conversa, no que acontece ao seu redor. Só assim vai saber exatamente o que responder. — Nico garantiu, cruzando as pernas ao se sentar em cima de sua mesa do escritório: — A resposta errada te custa a vida, mas às vezes a resposta certa vai te poupar de ser morto pelo pirata que fez a pergunta, mas pode ser atacado por aqueles ao redor que discordam da sua opnião. — explicou o mais sucinto que pode, a feição severa: — Vai ter de achar um meio termo. Uma resposta que ataque, mas não ofenda; que seja direta, mas não tome partidos. Vai responder contornando o ponto.
— Não parece um tipo de resposta pirata. — concluiu Travis.
— Não é. — confessou Nico, dando de ombros: — É uma norma social. Quando se vive em sociedade você aprende quando estão te manipulando e quando estão tentando tirar respostas. Você aprende como responder de forma educada, mas evasiva.
— E se eu der a resposta errada? Como me safo?
Nico prensou os lábios, olhando para a janela de sua sala.
— Eu dei uma resposta errada uma vez. — Nico admitiu, sem voltar a olhá-lo: — Eu paguei muito caro por ela. Não tive como me livrar das consequências. — respondeu, abaixando o olhar: — Não confie em piratas com pelo menos dez anos a mais de experiência que você. Eles sabem como te domar.”
Travis respirou fundo, adotando uma expressão relaxada.
— Acho que ele deveria tomar mais sol. — respondeu por fim, a tensão em seus ombros quase dolorosa.
Connor o observava com curiosidade, um sorriso se formando em seus lábios.
Austin parou a garrafa na metade do caminho até sua boca. Olhou para Travis e desatou a rir, curvando-se para frente na surpresa daquela resposta. Travis soltou o ar, aliviado.
— Devo concordar com você, aquele homem é mais branco que estátuas de mármore. — ralhou, sorrindo sapeca: — Gostei de você, pirralho.
Travis pensou em rebater, mas não valeria a pena.
— Então, como vocês dois conseguiram entrar para a turma dos veteranos na tripulação com metade da minha idade? — perguntou curiosamente.
Connor rolou os olhos, mas Travis arqueou a sobrancelha:
— Não lembro de ter te dado essa informação.
Austin riu, divertido: — Não deu.
E então algo estalou para Travis. Ele os estava interrogando e pegando as respostas sem que ele percebesse.
Merda.
— Vamos, Connor. — Ele pegou o caçula pelo braço e o arrastou para longe do informante.
Austin acenou para eles, voltando a tomar de sua bebida. Travis se sentiu idiota por cair na armadilha do Solace. Antes que se afastasse o bastante, Leo se aproximou deles, ofegante. O semblante preocupado e a tez franzida deixaram ambos tensos.
— Precisamos voltar pro navio, houve um ataque. — Leo falou ele entredentes. Os irmãos se entreolharam em choque: — Você também, Solace.
Austin franziu o cenho, fechando o cantil:
— Por que eu? — indagou severo, sem um traço de embriaguês.
Travis estranhou isso, mas não teve tempo para perguntar nada.
— Só vem, seu idiota. — bradou Leo, puxando Connor pela mão, guiando-os de volta para o Caronte.
☠
O navio parecia intacto pelo lado de fora. Nenhum alvoroço no píer ao lado ou ao redor, mas isso não significava muita coisa. Brigas em navios piratas raramente eram motivos de preocupação para a população de Tortuga. Subiram à bordo do Caronte, se deparando com uma cena de massacre.
O convés estava pintado pelo sangue espesso e coagulado, escorregadio sob suas botas de couro. Vários homens espalhados pelo assoalho pegajoso, entre grunhidos de dor e incômodo.
Travis olhou ao redor, atrás de Sherman e Malcolm que estavam à bordo durante o ataque. Mal haviam deixado o navio uma hora antes, os dois certamente estavam entre os feridos.
Travis travou a mandíbula, consternado.
— Valdez! — Sherman gritou da popa do navio, raivoso, com Malcom logo atrás.
Estava manchado com sangue, mas a forma como andava era um sinal de que não havia ferimentos. Um pouco da tensão deixou o corpo de Travis.
— Ótimo, achou os garotos. — Sherman se aproximou de Travis, medindo Austin de cima abaixo: — Quem é o loiro?
— É um amigo. — respondeu Leo ao se aproximar. Austin crispou os lábios, não pareceu gostar da apresentação: — Sabe quem fez isso?
O artilheiro rosnou, nervoso:
— A maldita da Clarisse. — bradou Sherman, batendo a mão em punho da amurada do navio: — Atacou todos os navios ancorados nesse lado de Tortuga. Tentando acertar inimigos em tiros cegos.
Um dos tripulantes puxou Travis pela calça, num pedido silencioso por ajuda. Ele se ajoelhou em frente ao homem, avaliando seu estado. Parecia o menos ferido, mas segurava a perna com a dor latente. Não tinham um médico a bordo. Todos ali sabiam um básico de medicina, mas uma perna quebrada não teria conserto.
Travis se apiedou do homem e da perna que ele perderia.
— Se foi a Clarisse, então precisamos nos afastar do píer como Piper sugeriu há alguns dias. — Jason bradou alto, causando um arrepio em Travis: — Reúnam os feridos no andar inferior, limpem o convés e organizem nossa partida.
Travis se virou para encará-lo enquanto subia à bordo dando ordens, a feição de Jason era de pura raiva contida. O Primeiro Imediato passou a mão pelos cabelos nervosamente como se pensasse demais e não obtivesse resposta alguma.
— Piper, preciso que chame a Reyna e o Percy e os alerte sobre o ataque em massa. — ordenou Jason, severo. A mulher acenou com a cabeça, convicta.
— Sim, Capitão. — concordou Piper, saindo do navio às pressas.
O homem a frente de Travis gemeu mais uma vez ao tentar se mexer, chamando sua atenção de volta para ele. Austin torceu o lábio, aproximando-se deles.
— Eu posso ajudar. — disse para Travis, analisando o homem com o olhar focado. Travis imaginou a forma de ajuda que ele poderia dar e estremeceu com o pensamento. Ouviu Austin rir ao seu lado, deduzindo seu conflito: — Não vou amputá-lo, garoto.
Sherman se virou para eles, cenho franzido.
— Então como vai ajudar ele, seu porra? — Sherman perguntou, braços cruzados e o machado em suas costas respingado de sangue seco: — E o que sabe sobre medicina?
— Eu estudava medicina antes de virar pirata. Sei o que fazer. — respondeu desinteressado no artilheiro, observando a perna inchada do homem.
— Então virou informante, por que? Poderia ser médico no navio. Está sempre faltando um. — comentou Jason, recebendo uma risada irônica do Solace.
— Eu virei pirata justamente para fugir dessa obrigação. — admitiu por fim: — A medicina mais me tirou do que me deu. Não tenho interesse. — respondeu com uma sinceridade que Travis não imaginava que o homem possuía: — Além disso, qual a emoção de cuidar de pessoas? Ser informante tem sua adrenalina.
Travis grunhiu, incrédulo.
— Oh? Gente morta é seu passado? Entre na fila. — zombou Sherman, cínico.
Austin franziu o cenho por um momento antes de voltar ao sorriso casual de sempre.
— Regra pirata número um: Nunca conte aos outros seus segredos. — recitou ele repentinamente.
— Ninguém segue regras piratas. — Disse Connor, observando as mãos ágeis de Austin na perna do tripulante, entretido.
— Elas nem existem de verdade… — Leo reclamou do outro lado do convés, a voz abafada pela porta de onde ele estava abaixado atrás, recolhendo alguns materiais de limpeza.
— Só quando não nos convém. — rebateu Austin ao se levantar: — Ele está bem, só tem uma torção severa. Dá pra se virar daqui e sem amputações. Só paciência e muito repouso. — Austin observou Jason por longos instantes antes de sorrir, felino: — Eu até ficaria para ajudar, mas o Leo errou na introdução, Grace. Não sou amigo dele e sim do Octavian. Posso até ter os acompanhado hoje, mas na próxima não contem comigo.
Com um aceno de mãos, ele desceu do navio.
Travis cruzou os braços, desconfortável. Austin Solace tinha uma forma irritante de deixar sua marca, e pelo olhar do Sherman não foi uma impressão muito boa.
Jason se aproxima de Travis.
— O que pode me dizer dele? — perguntou, severo.
Travis respirou fundo, observando o Solace sumir pelo cais, recordando-se da forma como tentou obter informações da tripulação do Caronte entre joguinhos de palavras. Mesmo que ele fosse na verdade espião do Jackson e precisasse manter as aparências como inimigo e não aliado, havia uma pequena chance de ele ter realmente mudado de lado.
Um pirata experiente, que dedica suas habilidades àqueles que pagam mais.
Por fim, Travis concluiu o que seria a resposta mais clara, a única que Nico esperaria que ele desse numa situação como aquela.
— Ele não é confiável.
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