Pit-a-Pat
38 Capítulo XXXVII
Notas iniciais

Nico
~Capítulo XXXVII~
:: 60º dia na Itália — Semana 8 ::
[...]
Nico mal dormiu naquela noite.
A visita de Howard foi mais impactante do que ele esperava. Nico imaginava que o Grão-Duque fosse aparecer em algum momento — na verdade até esperava —, considerando seu enorme interesse para com o Ducado di Angelo. Ter alguém de grande influência como ele aumentaria a moral dos soldados e principalmente tornaria a investida mais válida.
O problema eram os acordos.
Não imaginou que fosse cair em alguma armadilha política tão cedo. Tinha plena noção de sua inabilidade para manipulação quando se tratava da nobreza, mas nunca imaginou que fosse tão pobre ao ponto de não imaginar em nenhum momento que Howard usaria um pedido inocente de cinco anos atrás contra ele.
Se arrependia agora de ter requerido seu apoio para retirar seu pai do poder. Talvez tivesse evitado algumas dores de cabeça se permanecesse somente como herdeiro, como o atentado ou mesmo sua ida forçada para a pirataria.
Nico suspirou frustrado. De nada adiantava se lamentar do passado. Precisava manter o foco no golpe e em como passar a perna nos acordos com Howard.
Ele não tinha como esconder totalmente o envolvimento deles — nem mesmo o Grão-Duque era tão idiota para acreditar nisso —, o baile ainda encaixava em seus planos, pelo menos por enquanto, o problema mesmo era o neto. Na verdade essa última parte estava totalmente fora de questão por mil e um motivos.
Agora, como iria evitar os acordos era o real problema. Howard era influente, bem mais do que Nico jamais foi em toda sua vida na Elite, fora o poder que detinha e voz perante o Imperador. Seria fácil derrubar Nico se recusasse ou quebrasse qualquer um deles.
Grunhiu revoltado jogando o corpo na cama novamente. Malditos nobres, malditas guerras. Ele só queria uma semana de paz antes de toda a bagunça, era pedir demais? Uma semana? Nem isso os céus lhe permitiam?
Se virou para o lado encarando a janela. O sol mal havia saído e já estava exausto. Será que Will deixaria que passasse o dia na cama sem fazer nada além de se lamentar por suas escolhas idiotas na vida? Quem sabe não se esqueciam dele e fizessem a guerra por conta?
Bateram na porta delicadamente e Nico só soube resmungar outra vez.
Se virou para ela vendo a cabeleira de Will apontar no batente. De repente um bolo se formou em sua garganta.
Filho. O Grão-Duque pediu um filho para ele. Uma esposa, um casamento. Lhe pediu isso sem nem perguntar se estava ou não comprometido.
E Nico seria um tolo em dizer que não estava totalmente amarrado naquele sorriso lindo estampado no rosto do doutor. Engoliu em seco se forçando a sorrir.
— Bom dia, Raio de Sol. — falou Nico o mais amoroso que pode jogando seus pensamentos de canto por um momento.
Will fechou a porta atrás dele se aproximando. Sentou na beirada da cama acariciando seu rosto.
— Não dormiu bem? — questionou passando o polegar sob seus olhos. Nico os fechou segurando a mão do doutor no lugar.
— Não muito, mas é compreensível. — afirmou beijando a palma de sua mão, terno. Abriu os olhos flagrando o rubor no rosto de Will e um sorriso se formando. Nico sorriu de volta.
— Eu soube da visita que teve à noite, Chris me contou. — afirmou mantendo a carícia levemente. Nico ficou tentado a voltar a dormir daquela forma: — Não foi boa a conversa?
Nico pensou em contar sobre o acordo. Havia prometido à Will e a si mesmo que não esconderia mais nada do doutor. Que teriam um relacionamento aberto e sem segredos, provando que confiava nele.
Queria contar, de verdade, mas aquele sorriso e a feição serena no rosto de Will eram raras. Tão rara quanto seus momentos de paz, mas que naquele momento estavam direcionadas à Nico. O sorriso, a calmaria, aqueles olhos brilhantes tão adoráveis.
Não, Nico não conseguiria contar. Sabia como iria acabar. Will iria se afastar, se fechar novamente à sete chaves e permanecer assim mesmo se Nico conseguisse evitar pelo menos a parte do filho. Will não iria aceitar o relacionamento, aquele romance ainda novo e tão em cima da linha.
Talvez fosse egoísmo, ou um pouco de sensatez. Mas o que Nico sabia realmente é que não gostaria de ser a causa mais uma vez de sua confusão e tristeza. De seu rosto decepcionado e traição nos olhos. Não, Nico nunca mais traria isso para Will.
Então somente sorriu, um sorriso que não era verdadeiro, mas que o usaria pelo tempo que fosse necessário. Errado ou não.
— Foi bom. O Grão-Duque vai apoiar a causa. — respondeu Nico se aproximando mais de Will na cama. O doutor se acomodou melhor encaixando Nico entre suas pernas.
O pirata passou os braços pelo pescoço de Will se sentando de frente para ele. Depositou um selinho em seus lábios antes de continuar.
— Acho que vamos vencer, sabe. — comentou convencido. Will rolou os olhos, mas riu envolvendo sua cintura.
— Fico feliz em ouvir isso. — admitiu o beijando no rosto: — Mas ainda assim não dormiu.
Nico riu: — Não, desculpe.
Will negou: — Tudo bem, mas sabe que pode me chamar para conversar se quiser não é? Não importa a hora.
Nico sorriu com isso, encabulado. Concordou de leve com a cabeça sentindo seu peito apertar pelo carinho. Apoiou a cabeça no ombro de Will fechando os olhos enquanto sentia os dedos do doutor passando por seus fios.
Como queria aquilo o tempo todo, era tão calmante e incrível. Viver uma vida tranquila ao lado de Will estava virando uma tentação a cada dia que passava. Inspirou fundo depositando um beijo na pele exposta de seu pescoço.
Will estremeceu de leve, mas não disse nada.
Nico se afastou.
— Preciso me arrumar pra descer. Já tomou café?— perguntou. Will negou:
— Vim te acordar primeiro, mas Christiano já estava descendo então melhor irmos. — respondeu se levantando.
Nico se vestiu rápido com as roupas mais fáceis que tinha. Will o virou de costas e prendeu metade de seu cabelo para trás, o beijou no rosto e então saíram para a cozinha. Christiano servia a mesa com as coisas que havia comprado no mercado e chá fresco. Nico torceu o lábio.
— Precisamos de mais café. — resmungou se sentando na mesa.
— Podemos ir na feira. — propôs Will se servindo do chá: — Acho que nunca fomos juntos lá.
Nico negou: — Não que eu me lembre, só na quermesse. Vai ser bom sair de casa para fazer coisas menos perigosas. — admitiu sorrindo sapeca do olhar reprovador de Will.
— Isso eu concordo. Poderia aderir, não acha? — ralhou rolando os olhos. Nico quis beijá-lo ali mesmo, mas Christiano era um obstáculo na mesa.
Somente cruzou as pernas recostando na cadeira.
— Quem sabe, depende muito do que eu vá fazer e que me pague a mesma quantidade. — zombou recebendo um chute do doutor por baixo da mesa. Soltou uma risada: — Agressivo!!
— Encrenqueiro. — ralhou o doutor tomando do chá despreocupado. Christiano sorriu comedido do outro lado da mesa: — Mas vamos sim. Não tenho pacientes hoje, não até o momento.
Nico concordou comendo do pão na mesa.
A conversa fluiu tranquila com assuntos banais aqui e ai. Nico se recusou a comentar da conversa com o Grão-Duque e Will não parecia muito interessado nisso. Christiano avisou que iria visitar Kayla na hospedagem para ver se precisava de algo, enquanto isso os dois saíram para a feira.
Nico foi logo atrás dos grãos e de sua dose de cafeína. Will o seguiu pelo caminho fazendo comentários sobre coisas que estavam vendendo. Will começou a olhar alguns tipos de tecido e Nico logo comentou sobre alguns quadros para colocar na casa.
Andaram a feira toda, mas saíram somente com os grãos em mãos. Pararam no parque com a grande fonte no meio decorando. Se sentaram nela retomando uma conversa que vinham tendo o caminho todo.
— Certo, mas e se você realmente se perdesse em uma ilha deserta só que dessa vez tivessem piratas nela, você pediria ajuda? — questionou Nico seriamente. Will gargalhou:
— Ah com certeza não. — admitiu: — Nem todos são como você, seria roubado na mesma hora das minhas poucas coisas.
Nico concordou: — Ah isso seria sim, mas e se você visse um capitão lindo, sabe. Cabelos negros, roupas pretas e com cara de problemático...
— Bom, nesse caso eu daria uma chance. — zombou o empurrando pelo ombro. Nico riu.
— Ótimo, porque eu com certeza não deixaria que roubassem um rapaz lindo como você. Seria um desperdício. — acrescentou piscando o olho.
Will rolou os olhos, mas o sorriso ainda no rosto.
— Fico lisonjeado. — disse se virando de frente para ele: — Ok, mas e se você se perdesse em uma ilha sem ninguém, o que faria para sair?
Nico fez um bico, pensando a fundo nisso.
— Provavelmente eu faria um sinal de fumaça. Queimaria folhas de bananeira, criam muita. Ai esperaria. — respondeu dando de ombros: — Claro, considerando que eu não fosse procurado pela marinha. Agora se eu já fosse o Capitão esperaria. Nenhuma ilha é totalmente abandonada.
Will riu: — Que resposta complicada.
— Vida complicada amor, fica difícil achar algo mais simples. — falou honesto: — Mas eu sei me virar nesse mundo selvagem.
O doutor lhe deu um tapa, mas o rosto continuava tranquilo. A tarde estava quente, mas agradável em vista dos dias anteriores. Uma brisa tranquila corria pelo ambiente, suavizando o tempo e umedecendo o ar.
Respirou fundo encostando seu joelho no de Will atrás de contato, singelo e imperceptível aos olhos das pessoas. O doutor sorriu depositando sua mão sobre sua perna carinhosamente, acariciando-a antes de recolher a mão.
Ficaram um tempo se alfinetando na Praça observando as pessoas passarem — e Nico retornou com a brincadeira de roupas espalhafatosas, ganhando de lavada — antes de retornarem para casa.
Como Christiano ainda não havia chegado, os dois aproveitaram a rara privacidade e calmaria dos últimos dias para se curtirem um pouco. Will se jogou no sofá fechando os olhos enquanto Nico entrou em seu escritório vasculhando a estante atrás de algum livro decente.
Will tinha vários, e Nico colocou uma meta de ler todos eles quando voltasse, mesmo que uma voz no fundo de sua cabeça o mandasse parar com a esperança boba.
Pegou um livro de poesia e voltou para a sala. Se deitou no sofá apoiando a cabeça no colo de Will que sorriu levando a mão direita automaticamente para seus cabelos soltos.
Nico murmurou contente abrindo o livro e lendo em voz alta. Will mantinha as carícias enquanto ouvia os versos calmos ressoando pela sala. O ângulo da leitura estava ruim por conta de estar totalmente deitado, mas aquele conforto era agradável. Valeria a dor nos braços depois.
Ficaram um tempo assim na leitura, Will intercalava os carinhos dos cabelos para o rosto de forma letárgica, imerso no momento. Seus dedos passaram leves pela maçã de seu rosto subindo para as têmporas e voltando pelo nariz.
Nico respirou pesado se desconcentrando da leitura gradualmente. Will passou o polegar abaixo de seus olhos nas olheiras ainda pesadas, franziu o cenho para elas como se imaginasse formas de se livrar delas.
Nico fechou os olhos aceitando o carinho. Soltou um resmungo prazeroso, o livro esquecido em seu colo. Will sorriu amoroso abaixando e selando seus lábios.
O pirata riu contra ele segurando o rosto de Will com ternura. Ficaram no beijo por longos momentos, revezando entre a leitura e o afeto. Terminaram com ambos deitados no sofá rindo de algum poema ridículo da época.
Nico alargou o sorriso no final do dia ao perceber o quão caseiro estava se tornando. Não era de todo ruim, afinal.
☠
Os dias passaram voando e quando deram por si já era véspera da partida de Nico. Christiano havia arrumado suas malas e providenciado uma carruagem para levá-lo até Veneza.
Sua roupa de Duque já estava preparada e Nico praguejava a pessoa que criou gravatas com camadas. Nico tomou um gole generoso de café enquanto esperava o doutor no Hall.
Havia dispensado Chris e aguardava Will com os olhos pregados no relógio. Normalmente ele não voltava tão tarde, mas o chamado foi de urgência para a mulher em quarentena na cidade.
Nico não lembrava o motivo da quarentena, mas tinha algo a ver com álcool, certo? Deu de ombros encolhendo as pernas na poltrona enquanto o ar gélido percorria o ambiente.
Passava das dez da noite e nada de Will ou algum mensageiro. Tinha plena noção dos soldados que Giovanni colocou para proteger o doutor seguindo-o pela cidade, mas mesmo assim ficava ansioso.
Muito tempo na pirataria tornava seu desconforto em medo. Estava sendo visado, e usar o Will era a tática mais sensata para atacá-lo no momento.
Mordeu o lábio arrancando sangue entre seus dentes. Esperaria mais um pouco, e se ele não voltasse iria atrás.
Suspirou outra vez se remexendo na poltrona repentinamente desconfortável. Encostou a cabeça no encosto fechando os olhos e se obrigando a ficar calmo.
Ele sempre fazia isso, estava tudo bem. Nenhum paciente pede pra ficar ruim de noite ou de madrugada, acontece, faz parte. Se ajeitou novamente na poltrona e forçou sua mente a desligar.
Não soube dizer ao certo se foi cansaço ou não, mas acabou adormecendo no Hall e acordando com o relógio ressoando meia-noite e o querosene das lamparinas quase totalmente queimados.
Sentou no tranco em total pânico. Aquilo era um absurdo! A pessoa morreu e o Will precisou cavar a cova e enterrar?
Se levantou impaciente derrubando a xícara no tapete. Fez um som abafado, mas com o silêncio do hall parecia que havia derrubado a estante.
Ouviu barulho na cozinha e Will apareceu curioso na porta. Nico suspirou aliviado basicamente despencando novamente na poltrona com o rosto escondido nas mãos.
— Nico? Tudo bem? — perguntou Will preocupado. O pirata concordou.
— Sim, só paranoia. — admitiu esfregando o pescoço atrás de alívio muscular: — Chegou agora? Como foi a consulta?
— Cheguei tem uns dez minutos, mas não quis te acordar ainda. — admitiu se aproximando: — A mulher estava tendo convulsões de novo, mas desta vez não parece consequência da falta de álcool.
O doutor se sentou no sofá de frente para Nico.
— Precisei ficar por lá pra evitar que sufocasse e ensinar os familiares como ajudá-la quando acontecesse de novo. — explicou cansado: — Não sei o que ela tem, vou precisar estudar mais do assunto.
Nico concordou com a cabeça levantando de novo.
— Vamos? Amanhã será um dia cheio pra nós dois. — comentou estendendo sua mão. Will abaixou o olhar aceitando.
— Vai mesmo. — sussurrou sendo puxado para cima.
Will apagou as lamparinas da cozinha e da sala antes de subirem. Nico parou em frente a sua porta hesitante, não querendo entrar realmente.
Será que poderiam passar a noite inteira conversando no Hall? Ou talvez na sala com a lareira acesa?
Prensou os lábios se virando para o doutor, a ideia vívida na mente, topando com Will que o encarava do último degrau da escada, como se estivesse imerso em um pensamento similar.
O doutor se aproximou de Nico o segurando pela mão delicadamente e o puxou em direção ao seu quarto. O pirata franziu o cenho sem entender, mas foi atrás.
Will o colocou para dentro fechando a porta e trancando logo depois. Nico ficou subitamente tenso, hiper ciente da presença do doutor no quarto.
Ele se virou para Nico um tanto envergonhado.
— Eu pensei que poderíamos passar essa última noite juntos. — comentou ligeiramente desconfortável: — Eu não quero que pense que o que tivéssemos essa semana acabou lá embaixo no Hall.
Nico inspirou fundo totalmente chocado. Não esperava essa atitude do doutor, mas seria um hipócrita se dissesse que nunca pensou nessa hipótese.
A lareira era um lugar cômodo e confortável, mas passar a última noite no quarto com William era muito mais íntimo.
— Quero ficar com você hoje, se não de importar. — concluiu desviando o olhar.
Nico sentiu seu rosto arder horrores o forçando a olhar para o lado em reação. Era adorável, de fato, mas não tinha coração que aguentasse aquilo sem surtar.
Voltou a encarar o doutor sorrindo meigo. Qualquer piada sexual foi enterrada no fundo de sua mente. Não era o que aquilo significava.
Will sorriu de volta e Nico se virou de costas desabotoando seu colete ficando somente de camisa preta.
Ouviu o doutor fazendo o mesmo do outro lado. O ar no quarto era quase sufocante de tão tenso que ambos estavam.
Era algo tão simples e normal, dividir uma cama com alguém que gostava. Não seria a primeira vez que Nico faria algo do tipo, mas ainda assim seu coração parecia ter entrado em modo pânico.
Suspirou retirando a calça e ficando de ceroulas. Se virou para o doutor com um sorriso leve, tentando manter o clima calmo.
Will estava tranquilo, o mais tranquilo que ele poderia demonstrar. Isso tirou toda a tensão dos ombros de Nico se deixando relaxar no quarto. Will sorriu pra ele enquanto soltava os cabelos.
Nico fez o mesmo sentando na beirada para retirar os sapatos. O doutor apagou a luz e os dois deitaram na cama de casal. Will puxou a coberta sobre eles.
Estava bem escuro sem a lamparina acesa, mas com o tempo conseguiu ver a silhueta de Will emergido do breu. Crispou os lábios repentinamente tímido arriscando sua mão no rosto do doutor.
Desenhou sua maçã do rosto com delicadeza absorvendo seu calor pela ponta dos dedos. Will suspirou se aproximando do pirata e o puxando pela cintura para perto.
Nico sentiu que iria entrar em combustão. O doutor riu de sua tensão beijando seu rosto.
— Invertemos os papéis? — zombou numa meia risada.
Nico não evitou de rir escondendo o rosto em seu ombro.
— Culpa sua. — falhou apertando os braços em torno de Will com firmeza.
O doutor acariciou suas costas antes de se ajeitar melhor para dormir. Nico fechou os olhos sentindo o calor irradiar por seu corpo aconchegado contra Will.
Era estranho como uma única pessoa conseguia mudar as coisas e o fazer se sentir especial. Seus relacionamentos nunca foram dessa forma tão ancorada; segura. Abraçou o Solace com mais afinco e se permitiu aceitar aquilo como casa. Como seu lugar para voltar depois da guerra.
Pois não se imaginava em nenhum outro lugar sem Will por perto.
☠
O sol sequer havia começado a nascer quando Nico acordou no meio da noite com a ansiedade borbulhando em seu peito. Ficou horas ouvindo a respiração de Will pensando em tudo que estava pra acontecer.
Era inevitável não pensar nas coisas que tinha a perder na Batalha, não só para ele mas para aqueles envolvidos involuntariamente. Nico compreendia os riscos da guerra, mas as consequências para os que ficarem para trás caso falhe ele não teve tempo de pensar.
Teve essa conversa com Will durante a semana, e a única coisa que o doutor respondia era compromisso. Não conseguiu tirar nada dele, muito menos uma explicação pra palavra aleatória.
O doutor somente riu, abrindo um sorriso largo e beijando-o logo depois fazendo Nico desistir de perguntar uma segunda vez.
Mas lá estava ele absorto em pensamentos desesperados sobre o que aconteceria se morresse no combate contra o Castellan; ou mesmo fosse condenado à forca pelo próprio Imperador.
Quem ele deixaria para trás? Quantas pessoas ficariam abandonadas sem seu auxílio? Existia alguém dependente dele o suficiente para que retornasse?
Inspirou fundo levantando o olhar para o rosto sereno e adormecido de Will. Seu cabelo todo bagunçado no travesseiro e suas sardas fortes em seu rosto tranquilo.
Nico ainda sentia o braço firme do doutor em sua cintura o segurando no lugar; seu coração batendo letárgico contra sua palma apoiada em seu peito; a respiração leve e o sobe e desce de seu corpo.
Nico umedeceu os lábios acariciando-o por cima da camisa, fazendo movimentos leves com a ponta dos dedos. Suspirou conformado.
Will poderia não depender dele, nem mesmo sentir sua falta quando e se partisse — fosse pela morte ou por compromisso —, mas Nico precisava dele.
Pelos deuses como dependia daquele homem deitado ao seu lado. Era uma necessidade tão estranha, nada obsessivo, nem tóxico ou possessivo; era simples e puro desejo de estar por perto, de sentir o calor de seu corpo todas as vezes que acordasse, ouvir sua risada doce e incrédula, ou mesmo sentir seus toques surpresa durante o dia e um sorriso inocente pintando seu rosto.
Nico não sabia se merecia aquilo, mas esperava que sim. Ansiava com todas as suas forças.
Então pela primeira vez em anos Nico se viu aclamando por aquele que nunca mais ousou pronunciar, pelo deus que renegou sua vida inteira. Por uma chance, somente uma, de pode estar ao lado de Will sem guerras ou perseguições.
Só eles dois e ninguém mais.
Sentiu o fundo de sua garganta arder junto de seus olhos. Os fechou com força afundando o rosto no ombro de Will tentando controlar suas emoções ensandecidas.
O sol sequer havia nascido e já estava emotivo. Não chorava desde que partiu da Itália para a Holanda. Nunca, depois daqueles eventos, derramou uma lágrima sequer, mas lá estava ele à beira de uma quebra colossal de postura e nem saberia explicar o motivo.
Só sabia a força a qual seu peito se contraia, o quão desesperado se sentia ao pensar em ir embora e não conseguir voltar; ou em vencer e precisar — por motivos burocráticos — Se manter por lá meses antes de poder voltar.
Inspirou falho sentindo seu corpo tremendo em espasmos leves. Tentou se concentrar em voltar a dormir, talvez seu pequeno pânico cessasse antes de acordar o Will.
Sentiu os braços ao seu redor apertarem e percebeu tarde que Will já estava acordado. O doutor o puxou contra ele aninhando-o contra seu peito cantarolando baixo contra seus cabelos, depositando leves beijos no topo de sua cabeça.
— Tudo bem, vai ficar tudo bem. — ele repetia enquanto Nico tentava se forcar em seu toque, seus dedos acariciando suas costas com leveza.
Apertou os olhos com força inalando o cheiro de Colônia barata que Will possuía. Nico não chorou, mas sabia que Will havia percebido as lágrimas mesmo sem deixá-las cair.
As carícias em suas costas continuaram mesmo após seus tremores cessarem, quando sua respiração ficou tranquila e serena. Nico inspirou forte outra vez.
— Desculpe, acabei te acordando. — comentou baixo, ainda escondendo seu rosto em seu peitoral.
Sentiu Will respirar fundo, como que aliviado, abraçando-o com com força.
— Tudo bem. Que bom que estava aqui ao invés de sozinho em seu quarto. — concluiu calmo afastando Nico de si o suficiente para observá-lo. Will franziu o cenho acariciando seu rosto: — O que houve?
Nico suspirou: — Pânico pré-guerra? — arriscou tentando parecer convincente, mas pelo arquear de sobrancelha do doutor ele falhou no teste.
— Nico, o que foi? — perguntou uma segunda vez e Nico não tinha forças para criar nenhuma desculpa.
— Eu vou poder voltar? — questionou baixo, arrependendo-se de sua franqueza.
Will arregalou os olhos inflando o peito em choque.
— Como?
— Nada, esqueça. Bobagem. — falou Nico rápido praguejando por sua idiotice. Tentou se afastar: — Acho melhor voltar a dormir, ainda é de noite.
Will afrouxou o braço em volta de Nico ficando de bruços na cama apoiado nos cotovelos, o olhar severo.
— Nicollà. — repreendeu Will ainda chocado: — O que te faz pensar que não poderia voltar?
O pirata suspirou arrependido de ter dito algo. Se sentou na cama, evitando olhar direto.
— Existe a menor chance de eu voltar e não ser recebido bem? — Nico resolveu ser honesto.
Ficaram uma semana fingindo estar tudo bem, fingindo serem um casal antigo e normal por vários dias, mas não poderia deixar perguntas sem respostas.
Will inspirou fundo visivelmente ofendido.
— Acha que eu faria isso?
Nico deu de ombros: — Não sei o que se passa na sua cabeça Will. Sei que esteve confuso pelo último mês em relação a mim. Não ficaria surpreso se depois de hoje você percebesse que não é o que quer pra você.
Will travou o maxilar se sentando também. Nico ficou tenso, aguardando pela briga inevitável que fervia nos olhos safira.
Se encararam por longos momentos, agressivos em suas posturas. Will crispou os lábios suspirando em derrota.
— Desculpe, isso é culpa minha. — disse decepcionado. Nico recuou sem entender, já que esperava alguma gritaria ou que ele recuasse completamente: — Eu o afastei por tanto tempo, o deixei inseguro.
Nico pensou em negar, mas não teria sentindo em acobertar aquilo se o próprio Will estava ciente de suas consequências.
— Eu não vou dizer que estou totalmente bem com isso, não tem como mudar minha forma de pensar em uma semana, mas eu pude perceber que não quero que isso acabe. — confessou pegando na mão de Nico com um sorriso triste: — Não quero perder isso, quero você por perto, me sinto bem e não tenho intenção de te afastar, não mais.
Nico respirou fundo soltando um sorriso aliviado. Will imitou o gesto acariciando sua mão.
— Vamos continuar devagar, não sei até onde consigo ir sem começar a me questionar de novo, vamos aos poucos como agora. — pediu segurando o rosto de Nico em sua mão depositando um beijo doce em seu rosto: — Sei o que eu quero Nico, e sei o que preciso fazer para conseguir. É minha guerra, e eu pretendo ganhar.
Will sorriu sapeca e Nico riu da analogia ridícula. Nico se deixou ser puxado para perto, quase sentando no colo do doutor.
— Você não pode voltar, deve. — bradou mais severo: — Está me ouvindo? Você vai voltar pra cá, é a sua casa.
Nico sorriu encabulado abraçando Will pela cintura. O doutor riu retribuindo o gesto amoroso. O pirata suspirou apoiando ambas mãos em seu peitoral e o empurrando na cama. Will soltou o ar assustado colidindo as costas no colchão.
Nico se encaixou por cima o beijando nos lábios. Will sorriu enlaçando seu pescoço o puxando para perto, arqueando o corpo em direção ao do pirata que acariciava seus lábios com a ponta da língua, morna e delicada.
Aprofundaram o beijo naquela cama, naquele calor desesperador, naquele pequeno medo de ser um último momento de amor entre os dois. Nico afagou seus cabelos com carinho degustando do sabor doce do doutor, sorvendo o que podia daquele momento.
Will o permitiu voltar para ele, e Nico faria de tudo para para ter o doutor sob si novamente naquela cama, com sorrisos e abraços, aquilo que melhor lhes encaixar.
Porque no final Will se tornou seu motivo racional de querer sair vivo daquela guerra.
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