Pit-a-Pat
36 Capítulo XXXVI
Notas iniciais

Nico
~Capítulo XXXVI~
:: 58º dia na Itália — Semana 8 ::
[...]
Nico se jogou no sofá sentindo-se leve. Não saberia dizer quando foi a última vez que sentiu uma alegria tão genuína que o fizesse rir sem motivo algum por um dia inteiro.
Não se lembrava disso, mas tinha certeza que queria preservar aquele sentimento caloroso no peito pelo tempo que fosse necessário, até o último segundo de seus dias na casa de Will.
Ainda naquele dia, se lhe contassem que Will iria ceder e aproveitar um dia na praia com ele Nico provavelmente riria sem acreditar. Parecia tão surreal horas atrás. Quando acordou naquele dia, estava disposto a agir como faziam antes de todas as investidas. Tudo parecia doer e remoer a ferida aberta e de nada adiantava.
A verdade do que fizeram durante o dia, a fuga para a praia e o clima calmo e gostoso no calor de Ravenna era tão abstrato, como a pintura em tela à óleo.
Mas aqueles beijos foram reais, mais reais do que Nico conseguia explicar. Os toques, as risadas, os olhares. Cada um deles enviava uma cascata de sensações por seu corpo, uma mais intensa que a outra.
Nico só conseguia imaginar aquilo se repetindo de novo e de novo, nunca se cansando daquela risada tão doce que ecoava em seus ouvidos sem parar.
Soltou um suspiro se afundando nas almofadas. Christiano apareceu com uma xícara de café fresco e um sorriso no rosto. Nico retribuiu se servindo da cafeína.
Chris o observou por um tempo, o semblante satisfeito enquanto aguardava por ordens. Nico arqueou a sobrancelha curioso:
— Algum problema Chris?
O atendente negou pescando uma folha em mãos e a pena.
“Vossa Graça parece feliz, isso é bom.”
Nico concordou voltando a sorrir.
— Estou me sentindo muito bem. Faz tempo que não tenho uma pausa de tanta ação e aproveito meu tempo pessoal. — admitiu brincando com a manga da camisa, as manchas do sal começando a desbotar a cor preta: — E falta somente uma semana para eu partir. Doideira não é?
Christiano negou: “Isso é bom. Aproveitar enquanto pode. Lorde William te faz bem.”
— Realmente. — admitiu suspirando satisfeito. Ah se Jason pudesse vê-lo todo derretido assim com certeza não deixaria passar as piadinhas.
Christiano pigarreou, chamando a atenção para sua folha escrita:
“Precisa que eu prepare um banho?”
— Talvez amanhã, hoje quero aproveitar uma noite de sono agradável. — avisou passando a mão pelos cabelos involuntariamente. Areia caiu das mechas endurecidas pelo sal. Abriu um sorriso largo para a nostalgia do mar.
Esperava que Will não notasse, mas sentia falta da maresia, do contato com o oceano e sua imponência. Era gratificante, como pirata, estar rodeado por águas onde os olhos levassem, sempre tendo o cheio de sal como calmante.
Respirou fundo, um pouco anestesiado e resolveu subir para seu quarto. Dispensou Christiano e entrou no cômodo retirando as roupas sujas de areia perto da porta, descartando-as desinteressadamente.
Se jogou na cama somente de ceroulas e uma camiseta, fechou os olhos caindo instantaneamente em sono profundo. O som do oceano ainda impregnado em seus ouvidos.
☠
O dia seguinte chegou mais cedo do que Nico gostaria, levando à resmungos irritados e um atendente mais paciente do que deveria.
Christiano o acordou para um banho quente logo de manhã antes do café. A água já tinha sais e tudo o que precisava dentro do cômodo. Se deixou mergulhar na água aromatizada fechando os olhos para o calor contra seus músculos doloridos.
Era agradável e precisava se sentir pelo menos um pouco limpo afinal. Mergulhou na água lavando o sal dos cabelos e saindo assim que a água começou a esfriar. Vestiu-se parcialmente antes de permitir que Christiano entrasse e o vestisse.
Não havia percebido que Dylan havia remanejado seu guarda-roupa inteiro no curto período de tempo que esteve na casa. Ainda possuía suas roupas antigas, mas o guarda-roupa — antes quase vazio — estava abarrotado de vestimentas de mais fino porte.
Evitou usá-las e preferiu as roupas que Will lhe comprou outrora, fosse por sentimentalismo ou não Nico não saberia dizer. Pediu para Chris avisar o doutor sobre o banho antes de descer para a cozinha atrás de cafeína.
Nico precisava de álcool, mas com seu atendente na cola e Will com um bom humor dos deuses achou melhor adiar suas necessidades alcóolatras para outra hora. ingeriu duas xícaras antes que Christiano descesse esquentar mais água.
Observou o rapaz fazer as viagens até o andar de cima, e novamente sentiu aquele ímpeto de terminar o fogão no banheiro, mas se conteve nos comentários e saiu para o balanço. O clima estava agradável igual o anterior, e Nico aproveitou o sol da manhã para sentir o cheiro de maresia que o calor sempre trazia.
Sentou no balanço se movimentando levemente para frente e para trás imerso em pensamentos. Não deixou sua mente vagar para a guerra, não ainda. Tinha mais alguns dias antes de partir e poderia deixar a revisão do plano para depois, no momento se deixou aproveitar a pequena paz interior que sentia.
Era rara, tão rara quanto qualquer sentimento bom que conseguiu ter em seus últimos cinco anos como pirata. Era curta, pois sua mente nunca descansava ou deixava de trabalhar realmente, mas gostava dela e muito.
Fechou os olhos inclinando-se para trás no balanço segurando-se pelas cordas. Deixou o vento bagunçar seus cabelos soltos e arrepiá-lo com a sensação. Abriu um pequeno sorriso ao ouvir passos se aproximando.
Não precisava de muito esforço para identificar o andar de William Solace. Poderia ser um rapaz comedido em suas ações, mas seu andar era firme, como alguém certo do que faz. Nico adorava pensar que Will tinha essa auto-estima quanto ao trabalho, ainda que não se aplicasse a tudo.
— Você vai cair Nico. — repreendeu o doutor. O pirata riu voltando corpo para a posição ereta, sorriso sapeca nos lábios.
— Bom dia, Raio de sol. — cumprimentou apoiando uma das mãos no punho fechado na corda.
William sorriu para ele: — Bom dia.
O doutor se sentou no banco ao lado do balanço, os cabelos estavam soltos e um pouco úmidos do banho. Tinha uma maçã em mãos e o olhar tranquilo. Nico voltou a balançar de leve. Os olhos varreram o pequeno jardim mal cuidado. A vegetação já estava começando a aderir com a parede de pedras e a janela do escritório de Will.
Torceu o lábio em pequeno desagrado.
— Quando eu voltar a primeira coisa que vou fazer é arrumar esse jardim. — Nico soltou e se arrependeu no momento que as palavras saíram de sua boca.
Ficou estático com a idiotice que acabara de falar. Quando voltar? E se ele não voltar? E se seu plano desse totalmente errado ou os nobres o traíssem de alguma forma? Tinham tantos “e ses” que Nico se sentiu enjoado por uma falsa promessa.
Não podia fazer isso com Will.
Se virou para o doutor no intuito de pedir desculpas, mas os olhos azuis estavam leves e serenos. O sorriso em seus lábios não tinha nenhuma falsidade e Nico sentiu-se ainda pior.
— Ah vai? Nem está tão ruim assim. — rebateu Will mordendo a maçã. O pirata respirou fundo desviando o olhar do loiro por breves momentos.
Talvez não fosse mal imaginar? Nico não saberia dizer realmente. O gosto amargo não saiu de sua boca, mas mesmo assim respondeu o mais alegre que pode, o mais verdadeiro que conseguiu ser colocando um pouco de seu nervosismo debaixo do tapete.
— Está horrível! — rebateu gesticulando para o jardim inteiro: — A grama está alta em alguns pontos, a hera começou a tomar conta das paredes e até mesmo os arbustos estão mais para árvores!
Will riu: — A manutenção de um jardim não é barato senhor Duque.
Nico fez uma cara de indignação: — Ah então é assim? Só porque sou Duque não posso criticar?
— Pode, mas sabendo do meu limite de gastos mensais que já aumentaram com a Andréa. — relembrou cruzando as pernas. Nico arqueou a sobrancelha:
— Eu ajudo nisso, ou acha que eu moraria aqui de favor? — comentou e novamente falou sem pensar. Will arregalou os olhos e ambos se calaram.
Nico engoliu em seco desviando os olhos novamente do doutor, não sabendo como continuar a conversa. Merda de sentimentalismo.
— Não acho. — murmurou Will fazendo Nico o encarar novamente. O doutor observava a maçã em suas mãos com falso interesse. Levantou o olhar, um pouco de dor neles que Nico queria poder espantar: — Acho que você ajudaria no que pudesse, não iria gostar de ser bancado o tempo todo.
O Duque concordou levemente deixando o doutor falar:
— Não sei o que nos espera depois que você partir, mas eu disse ontem que iria aproveitar o que temos agora. — confidenciou, olhos vidrados nos âmbares de Nico: — Imaginar um futuro onde você volte e resolva ficar de verdade não é ruim Nico, não nos faz tolos.
O pirata suspirou:
— Não, não faz. — admitiu sorrindo na sequência: — Um pouco de otimismo é bom.
Will concordou sorrindo de leve:
— O que mais planeja fazer quando voltar? — questionou Will esticando a mão para Nico. O pirata a pegou se deixando ser puxado do balanço para o banco ao lado do doutor.
Desta vez Nico alargou o sorriso deixando as preocupações de lado. Que elas o perseguissem quando chegasse a hora. Entrelaçou seus dedos aos de Will de uma forma escondida entre eles, para que nem Chris ou Andréa os vissem.
— Arrumar o fogão a lenha no banheiro. Um absurdo ter que descer e subir as escadas para um único banho decente. — comentou Nico indignado.
Will gargalhou pego de surpresa.
— Ok, você tem um ponto.
— Um? Só um? — debateu Nico divertido: — Eu tenho vários! É cansativo, nada prático, a água nunca vai ficar quente de verdade com tantas idas e vindas, e principalmente não dá vontade de se banhar.
Will meneou a cabeça: — Certo, isso é verdade.
— Sim! Vamos terminar aquilo, talvez comprar mais sais e outras coisas de banho e tornar mais frequente, três vezes na semana se quiser, ou até mais. — sugeriu Nico deitando a cabeça em seu ombro.
Will pressionou seu joelho contra o de Nico pensativo:
— Acho que poderíamos retirar o piano do quarto do fundo. — comentou acariciando a mão do pirata. O rapaz concordou:
— Seria bom. Podemos não tocar, mas é uma boa decoração para ter no Hall. — completou fechando os olhos para o calor convidativo que Will lhe passava: — Talvez abastecer a cozinha com grãos diferentes.
— Mudar as cortinas escuras para algo mais alegre. — continuou Will: — Sempre quis fazer isso, mas nunca tive a oportunidade.
— Então vamos fazer isso! — disse Nico convicto.
— Talvez mudar suas coisas para o meu quarto. — murmurou Will apertando a mão de Nico.
O pirata prendeu a respiração pela simples ideia dos dois dormindo juntos no mesmo quarto. Ele não tinha se permitido pensar nessas coisas, mas ali estava Will lhe enchendo de ideias. Soltou o ar escondendo o rosto em seu ombro, sorrindo bobo.
— Eu iria adorar.
Will sorriu, mas ficaram em silêncio depois disso, confortáveis com o que o futuro poderia ter para eles. Talvez fosse tolice sonhar com uma vida simples depois da guerra, caseira e certa.
Talvez Nico o deixasse para voltar ao Caribe assim que voltasse da guerra; talvez enviassem uma carta ao Will sobre sua execução na forca.
Fosse o que fosse, naquele pequena instante, naqueles dias que ainda tinham para aproveitar a companhia um do outro Nico iria se permitir ter aquele futuro. Por um momento, um pequeno.
Se permitir sonhar de verdade.
☠
O dia passou bem rápido.
Andréa apareceu na casa e teve uma conversa com Will e Nico, e foi decidido que ela só iria aparecer uma vez por semana, e que se tudo desse certo para a renda deles no futuro a contratariam integral.
Ela se despediu e disse que voltaria dali uma semana, mas deixou almoço e jantar prontos para os rapazes. Christiano os serviu como sempre, mas Will insistiu que o garoto se sentasse à mesa junto dos dois.
Nico sorriu orgulhoso do doutor e os três comeram animados na mesa, Will comentando um pouco sobre seus clientes da semana enquanto Nico falava de umas conversas loucas que ouvira no bar no cais.
Christiano ficava fascinado com as histórias, como uma criança apresentada à um conto de fadas. Nico gesticulava enquanto falava de sua experiência com dois ladrões e uma garçonete que os escorraçou do bar sozinha e com as mãos limpas; comentou também de um grupo de contrabandistas que começaram a se vangloriar de seus feitos em mar, e que foram rendidos no lado de fora do bar por um marinheiro infiltrado — mas que Nico sabia quem era desde o começo.
Continuaram as conversas por um tempo até Will ter que sair para uma consulta e Christiano resolver arrumar a cozinha. Nico se jogou no escritório e começou a ler algum dos livros da coleção pessoal de Will.
Se sentou na janela aberta para o jardim, apoiou as costas no batente e começou a leitura. Ficou um tempo ali a mercê do vento e imerso no livro de conto de fadas que Will tinha perdido em suas prateleiras cheias de livros medicinais.
Estava com ambas pernas em cima da janela, o livro apoiado em suas coxas e a cortina o tampando parcialmente com o vento. Christiano apareceu um tempo durante a tarde deixando uma xícara de chá e frutas na bandeja na mesa.
Nico se serviu dela antes de voltar para a janela e permaneceu lá. Encostou a cabeça no batente e fechou os olhos cansado, e antes que pudesse voltar à leitura caiu em sono profundo.
Acordou um tempo depois com o barulho da porta do escritório se abrindo.
— Nico?
O pirata se mexeu na janela, mas não calculou bem o movimento escorregando da moldura. Ainda desnorteado pelo sono somente fechou os olhos esperando o impacto, mas foi segurado por braços firmes em sua cintura.
Ambos caíram no chão, mas o impacto foi menos intenso e mais macio por parte do Nico. Will o segurava firme entre seus braços enquanto soltava uma risada. Nico o acompanhou encostando no peitoral do doutor.
— Opa. — comentou irônico.
— Opa? Poderia ter caído para fora sabia? — resmungou Will, mas sua voz ainda leve pela risada.
— Erro técnico, não tinha planejado dormir. — admitiu dando de ombros. O doutor negou com a cabeça apoiando a testa em seu ombro. Nico acariciou seus cabelos: — Como foi na consulta?
— Não via o Senhor D há alguns meses. Ele tem estado bem, mas parece que as ervas finalmente começaram a falhar. — explicou tranquilo: — Dei algo mais forte, mas se ele não parar com o vinho não tem muito que eu possa fazer.
Nico riu:
— Ah, alcóolatras. — exclamou em falsa decepção: — O que seria de nós sem um desses em nossas vidas.
Will riu se afastando do pirata. O segurou firme na cintura pegando impulso no chão os levantando ao mesmo tempo. Nico soltou o ar chocado com o movimento brusco ao ser colocado de pé,
— Esqueci que você não é tão fraco quanto aparenta ser. — zombou Nico ajeitando sua roupa. Will arqueou a sobrancelha:
— Não duvide de mim Di Angelo. — falou encostando o quadril na mesa: — Falando em duvidar, não que eu te ache incapaz nem nada disso, mas o Hall ainda está com sua papelada até hoje e você não organizou.
Nico o encarou por longos segundos antes de soltar uma gargalhada incrédula.
— Está me mandando ir ajeitar minhas coisas?
Will sorriu sagaz: — Sugerindo, talvez?
— Ok, eu vou lá senhor organização. — falou pegando o livro do chão, o devolveu para a prateleira e saiu do escritório arrastando Will pelo pulso que ria: — Vou arrumar assim que eu reler algumas coisas, ok?
— Certo, certo. — falou Will nada convencido: — Então vamos jantar primeiro, depois você arruma essa, nem sei o que chamar isso. — gesticou o doutor para o monte de papéis entre os sofás, alguns no chão.
— Bagunça organizada. — explicou Nico.
— Certeza que não era isso que eu planejava dizer. — refutou enquanto entravam na cozinha.
Christiano já aprontava a mesa e comeram os três juntos novamente. Will jogando indiretas sobre bagunça e Nico falando sobre “ter que se acostumar” ou “bagunça é uma forma de arrumação”.
Antes que começassem algum assunto sobre a época pirata de Nico super desordenada, Will subiu para o quarto com Nico para chegar seu ferimento, e aproveitando que estavam longe de olhos curiosos Nico lhe roubou um beijo que ansiava desde o começo da manhã.
Will arfou contra os lábios rachados de Nico deixando-o controlar o beijo, leve e calmo. Nico subiu os braços para o pescoço do doutor acariciando seus cabelos soltos e levemente embaraçados.
Passou a ponta da língua contra os lábios de Will que os entreabriu, se deixando derreter na boca ágil do pirata. Se afastaram por ar mantendo a aproximação. Will sorriu timidamente depositando um beijo na ponta do nariz de Nico arrancando um suspiro do pirata.
Se afastaram de vez e Will terminou de checar a ferida que finalmente estava sarando. Depositou um beijo na bochecha de Nico e se levantou:
— Vou pro meu quarto, vai ficar muito tempo lá embaixo? — questionou limpando as mãos do unguento.
Nico negou: — Não, só um pouco. Organizar a papelada o máximo que eu puder, mas vai continuar no Hall.
Will rolou os olhos, mas relevou:
— Contanto que pareça arrumado. — admitiu o puxando pela cintura. Nico soltou um som contente com o toque abraçando-o de volta: — Boa noite.
Nico ficou levemente na ponta dos pés e o beijou nos lábios.
— Boa noite.
O doutor sorriu e se afastou indo para o quarto descansar.
Nico desceu para o Hall, se ajeitou em frente à papelada e começou a arrumar um pouco de suas informações enquanto outras ideias sobre o ataque surgiam em sua mente. Não queria pensar sobre a guerra, mas seria desnaturado de sua parte deixar tudo para os generais. Não era esse tipo de nobre.
O barulho do relógio de corda ecoava no hall silencioso, com somente o barulho das folhas quebrando o ritmo do pêndulo. Nico estava começando a se irritar com o som.
Batidas na porta já tarde da noite fizeram Nico tirar os olhos dos papéis onde rascunhava suas estratégias e observar Christiano atender a pessoa. Por ela passou um homem alto com um chapéu preto de abas largas e penas do mesmo tom; um sobretudo refinado e grosso, tão escuro quanto o resto de sua vestimenta.
Suas mãos enluvadas retiraram o chapéu revelando olhos azul celeste tempestuosos. Sua aparência lhe dava a idade de quarenta anos, ainda que Nico soubesse que ele ainda estava na casa dos trinta. Nico se levantou com leveza fazendo uma reverência breve, escondendo o sorriso dos lábios.
Havia imaginado que ele apareceria em algum momento. Foi o único dos Nobres a recusar sua carta, mas claro que não seria deixado de lado de algo como uma revolução.
— Grão-Duque Howard. — cumprimentou ele: — Que surpresa vê-lo tão tarde da noite nessa pequena cidade fora de seus domínios.
— Não precisa de tantas formalidades comigo Di Angelo. — respondeu o homem entregando o chapéu e o sobretudo para Christiano que se retirou do Hall: — Somos ambos velhos conhecidos.
Nico confirmou com a cabeça, pensativo:
— Não imaginei que fosse aparecer por aqui, dado à sua resposta negativa. — informou o Duque gesticulando com a mão para os sofás oferecendo assento para o homem.
— Não iria vir pois não conhecia a veracidade daquela carta. Qualquer um poderia falsificar uma assinatura e selo. — confirmou depositando as mãos em suas pernas cruzadas: — Mas isso fez pensar com mais clareza nas coisas que vinham acontecendo no Ducado, coisas que o senhor não faria em nenhuma instância.
Nico arqueou a sobrancelha:
— Ah sim? Poderia clarear minha mente para tais acontecimentos? — pediu educado cruzando os braços.
— Foram dados vários bailes pelo Imperador nos últimos cinco anos, bailes os quais você se recusou a participar. — citou Howard num arfar perplexo: — Isso é uma ofensa terrível ao Imperador, e só não houve punição por sua saúde que o deixou de cama todos esses anos.
— Fiquei sabendo. — rebateu Nico cínico. O Grão-Duque repuxou o canto dos lábios para cima, num quase sorriso.
— Não imaginei que fosse encontrá-lo aqui, mas resolvi tirar a prova já que não o vejo há cinco anos, e nem mesmo visitas estava aceitando. — admitiu descruzando as pernas ao ver Chris se aproximar com duas xícaras de chá frescas.
Ele os serviu e se retirou mais uma vez.
— Estou e adoraria poder dizer que se estivesse em Veneza esse tempo todo iria te receber, mas seria uma mentira. Bateria com a porta na sua cara. — zombou bebericando do chá. Howard rolou os olhos nada surpreso.
— Continua petulante. — criticou o homem: — Mas vou relevar isso. Outro fato que nos deixou confusos foi justamente a posição que deu ao Castellan sobre o Ducado. Total controle de duas porções de terras na Itália gera conversas.
— Nunca teria feito isso em situações normais. O Conde não é um homem equilibrado, nunca foi. — comentou Nico abaixando o olhar para sua xícara: — Se veio posso crer em uma parceria?
O Grão-Duque calou-se observando o mais novo atentamente. Nico sustentou seu olhar com calidez, preparado para uma negativa. Howard depositou o pires na mesa de centro soltando um suspiro longo e cansado.
— Não estaria aqui se esta não fosse minha intenção, Nicollà. — confirmou sentando-se ereto: — Tem algum plano em mente? Não posso te emprestar meus homens sem saber onde estou os colocando.
Nico guardou suas emoções para si recapitulando toda a conversa do dia anterior com os outros nobres e generais.
— A ideia inicial é uma invasão. Pode parecer insensatez, mas Dylan retornou à mansão ontem atrás dos homens ainda leais a mim mesmo depois de cinco anos desaparecido. — começou ele apoiando as mãos em seus joelhos: — Depois disso entrar será fácil. O problema mesmo será chegar no Castellan antes que ele fuja.
Howard balançou a cabeça pensativo, absorvendo as informações.
— Me diga como pretende não causar fofocas e pânico nas pessoas? Uma invasão como essa envolve tiros com armas de fogo, espadas e até mesmo o risco de um incêndio proposital na propriedade ou no entorno. — relembrou ele sério: — Será um acontecimento público.
— Já pensei nisso e o problema é simples de resolver. — refutou Nico em tom forte. O Grão-Duque arqueou a sobrancelha esperando: — Vamos soltar um boato nas cidades.
— Boato?
— As fofocas voam mais depressa do que qualquer outro tipo de notícia. Teremos que fazer parecer que o acontecido foi culpa exclusiva do Conde, um ataque para vingar sua honra. — explicou melhor gesticulando minimamente com as mãos.
— E qual seria o motivo para isso?
— Traição contra minha irmã. — ressaltou Nico franzindo o cenho ao assimilar suas ideias. O Grão-Duque pareceu interessado: — Soube da morte de meu sobrinho Phillip há dois dias. Aconteceu há muitos anos, mas não é um assunto que foi à público.
Howard negou: — Os Castellan omitiram isso, mas aqueles da nobreza sabem que a criança morreu em um acidente. Uma das cuidadoras o derrubou no chão.
— Isso é o que sabemos, mas não é o que iremos contar ao povo. — continuou Nico: — Veja bem, para termos o Castellan como inimigo ele precisa ser posto contra a população para assim ficarem do meu lado em qualquer circunstância. Isso vai depender da profundidade da mentira e da extensão da história, pois todos sabemos que um boato se espalha sempre aumentando com mentiras e calúnias.
— E o que pretende dizer à população de tão grave?
Nico sorriu maldoso.
— O Castellan enlouqueceu de ciúmes por não ter se tornado Duque ao se casar com Bianca que descontou sua fúria nela e em seu filho, matando-o à sangue frio por ser inútil para ele. — cuspiu Nico as palavras com dificuldade. Era uma mentira cruel que condenaria e destruiria a família Castellan, até mesmo os destituindo do título por longas gerações.
Howard crispou os lábios conflituoso, mas concordou.
— Será um ato cruel contra sua irmã. Está disposto à isso? — relembrou o homem com rispidez. Nico assentiu:
— Ela literalmente me apunhalou cinco anos atrás Augustus, não é nenhuma santa nesta história. — confessou raivoso. Howard respirou fundo recostando no sofá.
— Já que é assim tenho algumas condições para aceitar fazer parte dessa revolta.
— E quais seriam?
— Você não vai citar nosso envolvimento em nada disso, nem meu e muito menos dos outros nobres. É um problema unicamente seu e que será resolvido com o Imperador caso resulte na morte do Castellan. — enumerou o Grão-Duque severo.
Nico aquiesceu.
— Vai se apresentar publicamente no baile de inverno daqui um mês, ainda que debilitado pelos anos acamado. Não sei se veio para ficar definitivamente, mas vai mostrar que ainda está vivo. Se vai ou não depois forjar sua morte para perder o título não me interessa. — afirmou.
Nico mordeu o lábio para a conclusão do Grão-Duque concordando mais uma vez.
— E a última coisa. Vai proporcionar um herdeiro para a família Di Angelo. — disse por fim finalizando suas condições.
Nico piscou algumas vezes antes de compreender o que ele quis dizer. Não pode evitar o choque que aquelas palavras lhe causaram.
— Desculpe, como é?
— Um herdeiro legítimo para não ter mais nenhum problema no seu Ducado. Parece que os Di Angelo adoram arranjar confusões. — atacou Howard sem pudor. Nico enrubesceu.
— Não sou casado, e não é algo que esteja planejando no momento. — disse friamente tentando esconder o embrulho em seu estômago.
Um filho? O Grão-Duque estava exigindo um filho?
— Isso não será problema. — ele falou cruzando os braços: — Tenho uma filha de dezesseis anos e estava planejando desposá-la com o Duque de Veneza há tempos. — confirmou ele sorrindo mordaz: — Se case com Gabrielle, lhe dê um filho e o título de Duquesa. Depois disso faça o que quiser, ame-a, vá embora viver sua vida. Não ligo. Mas essa é a condição final para meu total apoio. E considerando que o apoiei quando roubou o título de seu pai cinco anos atrás é o mínimo que me deve.
Nico estava em choque.
Aquelas reuniões com os nobres eram para convencê-los a ajudá-lo. Obrigá-los a cair em sua teia e manipular suas mentes da forma que mais queria. Mas Nico sempre se esquecia que era ingênuo como um nobre. Mal ficara um mês no posto antes de ser escorraçado de seu título por cinco anos.
Howard o manipulou e o tinha onde ele queria. Mordeu o lábio com força encarando os olhos azuis ardentes de um homem que já conhecia sua vitória.
Nico estava encurralado. Respirou fundo concordando.
— Pois bem, temos um acordo.
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