Pit-a-Pat

37 Extra - Aniversário


Notas iniciais
Boa noite amores da minha vida! Sei que vim fora de data, mas me escutem ok? Hoje a fic comemora 2 anos!! Gente, que emoção que eu sinto! Todas as minhas longs batem dois anos e quase chegam a três, mas essa aqui se superou. Cheguei em 38 caps em 2 anos, o que me levava 3 no passado. Evolução é tudo. Enfim, o aniversário é de PaP, mas o presente é para vocês. Vim aqui com um capítulo extra fresquinho e uma mudança na cara da fic. Agora temos capas de capítulo exclusivas e personalizadas dos personagens que começam as narrações de cada capítulo. Fora, claro, uma capa toda zerada, feita pela minha marida linda e perfeita @America_Rogers ♥ Razão da minha existência!!! Pensa numa pessoa que me aturou hoje o dia todo nos meus surtos e ainda teve tempinho de fazer a capa? Anjo! Então, esse cap ele não tem ligação nenhuma com a linha temporal da história, é só um bônus pra vocês se divertirem com uma ideia que me ocorreu. Vocês me pedem muito extras quando atingimos alguma meta como os 500 comentários e 200 favoritos e nunca pude lhes dar, então vim cumprir isso. Sem mais delongas né? É grande, 11k, não precisa ler se não quiser, como eu disse é um extra e um presente para vocês, o capítulo normal vai ser postado depois, talvez ainda esse domingo, mas não posso prometer. Então, vamos ao extra? Boa leitura. "E se o Castellan não tivesse feito o golpe e Nico nunca tenha precisado se tornar pirata? E se o Will resolvesse seguir Austin e se juntasse ao Argos II? E se Will se ferisse em um combate e ficasse aos cuidados do Duque di Angelo?"

Extra Aniversário

~Conte-me suas fraquezas e acharei beleza nelas~

[...]

Will acordou dolorido.

A fisgada em seu abdômen o fez grunhir em dor se virando para o lado nos cobertores. Se lembrava da briga, de como pararam no Canal Candiano por acidente e foram abordados por mais de cinco navios e três torres da marinha.

Seu ferimento latejava, e Will conseguia imaginar bem o estrago que havia causado em seu corpo.

Havia recebido, além de um tiro de pederneira, uma explosão que o arremessou na água sem piedade. Sabia que seu irmão havia gritado seu nome do barco — Austin ainda era preocupado com ele independente de sua idade —, mas Percy nunca voltaria por ele.

E Will estava decidido a aceitar tal destino.

Passou a mão pelo tecido da cama estranhando. Não se lembrava de conseguir abrigo em nenhuma casa, muito menos uma com aquele tipo de conforto. Abriu os olhos relutante. Uma porta enorme e escura entrou em sua visão, além de um guarda-roupa com várias portas e um enorme espelho no canto.

Franziu a testa sem entender. Onde estava?

Se mexeu letárgico tentando se sentar, mas duas mãos o seguraram pelo ombro. Em puro instinto as segurou com força jogando-as para o lado, longe de si. Ouviu um arfar assustado, fino e agudo. Sua vista se ajustou e uma moça em seus dezoito anos o encarava horrorizada. Seus olhos azuis enormes o fitavam com medo.

Soltou seus pulsos e ela sumiu do quarto na mesma hora, com uma última olhada para trás, preocupada. Suspirou cansado deitando a cabeça novamente no travesseiro. Passou a mão pelo rosto tentando compreender o que estava acontecendo, mas seu cérebro ainda não funcionava como deveria.

— Pelo visto espantar moças é um dom. — ouviu uma voz de fundo, o tom de zombaria facilmente identificável no amargor da voz. Will franziu a tez olhando em volta.

Encostado na janela estava uma figura um tanto familiar. Seu quadril estava apoiado no parapeito, os braços cruzados na altura do peito, firmes e rijos; a roupa era toda em tom de azul marinho com tecido branco destacando seu colar e pulso. Os cabelos eram negros e curtos na altura dos ombros, presos pela metade para trás. Seus olhos caramelos pareciam cansados, mas um brilho curioso pairava ali.

Will sabia que era um nobre sem nem precisar se esforçar demais.

— Quem é você? — questionou grosseiro. O rapaz suspirou.

— Imagino que nosso encontro na praia não tenha sido tão impactante se não se lembra de mim. — comentou sarcástico, sobrancelha arqueada.

— Praia? — repetiu confuso tentando se lembrar de alguém na praia quando ele chegou à margem.

Se lembrava um pouco de uma discussão, sons de tiros de canhões e mãos delicadas contra seus ombros, mas nada além disso. Negou com a cabeça se sentando finalmente. A dor em seu torso irradiou por sua coluna o fazendo arfar pesado.

O tiro, claro.

— Você se feriu no combate. Teve sorte que eu estava por perto para ajudá-lo. — comentou desinteressado. Will se virou para ele novamente.

Se ele realmente havia sido ajudado depois da confusão, o nobre provavelmente sabia de sua natureza pirata. Ou estava ali jogando conversa fiada enquanto a marinha aguardava do lado de fora para invadir o quarto, ou não tinha noção do perigo.

Correu os olhos pelo quarto amplo e bem decorado. As paredes com papel verde-claro, móveis em mogno e sua cama com dossel no mesmo tom escuro. Definitivamente nobre. Olhou para a porta percebendo estarem sozinhos no quarto. Nenhum guarda ou soldado cuidando da proteção daquele homem na janela.

— Então, sabe quem eu sou ou pelo menos de onde vim. — afirmou William voltando o olhar para o rapaz.

Ainda estava na mesma posição, mas via claramente seus ombros tensos sob a vestimenta. Ele confirmou, olhos firmes na porta de entrada. Will repuxou o cobertor entre seus dedos. Não notou o quão tenso estava até perceber que aquele homem realmente poderia entregá-lo à marinha.

— Sei sim. — respondeu se afastando da janela: — E poderia ter te deixado para morrer na praia, ou entregue aos soldados.

Will o seguiu com os olhos enquanto contornava a cama, a ponta dos dedos passando pela madeira do dossel. Crispou os lábios preocupado. O nobre parou do outro lado, distante de Will. Encostou o ombro na madeira adornada.

— Mas você tem sorte, afinal. — disse somente, um sorriso maldoso desenhando seus lábios: — A primeira moça que você espantou não me deixou matá-lo.

Will piscou algumas vezes perdido na história.

— Moça? Que moça? — indagou transtornado. Que parte que ele realmente perdeu disso tudo?

— Minha irmã caçula. — respondeu: — Um pirata abandonado pelo próprio Capitão, recebendo piedade de uma moça nobre de quinze anos. Não sou pirata, nem conheço seu tipo muito bem, mas garanto que isso é humilhante de certa forma.

Will trincou os dentes:

— E você é?

— Nicollà di Angelo. — apresentou-se ajeitando a postura: — Duque de Veneza.

Will arregalou os olhos instintivamente levando a mão até a cintura atrás de sua arma, mas não encontrou nada além das faixas para o seu ferimento. Seu coração batia rápido em seu peito, em alerta.

Não era um nobre, era literalmente da elite. Duque era uma das posições de maior prestígio e contato com o Imperador. Com um único estalar de dedos poderia sumir com ele do mapa e nem perturbaria seu sono.

— E por que não me entregou? — resolveu perguntar. Nico deu de ombros:

— Tenho meus motivos. — salientou se afastando: — Não saia desse quarto, além de ferido é um pirata. Quanto menos pessoas souberem que está aqui melhor.

Will soltou uma risada irônica:

— E devo acreditar que não vai me entregar assim que pisar para fora do quarto?

Nico arqueou a sobrancelha:

— Não é como se você realmente pudesse me impedir. — cuspiu ácido tomando em mãos uma bengala preta com cabeça prateada: — Aliás, a única coisa que posso te garantir é proteção sob meu teto, mas não fora dele. Se eu fosse você me obedeceria.

E assim ele saiu do quarto, o salto de seu sapato ecoando no corredor do lado de fora. Will grunhiu escondendo o rosto entre suas mãos trêmulas. Não conseguia nem começar a raciocinar o quão ferrado ele estava.

Se fosse um camponês ou qualquer outro seria até mais fácil tentar barganhar, ou mesmo atacá-lo desprevenido. Mas um nobre da elite, que deve ter pelo menos um exército particular o protegendo a cada corredor e que tem poderes imensos sobre a marinha, era, com certeza, a pior merda que poderia acontecer.

Esfregou os cabelos preocupado. Austin com certeza estava surtando com seu sumiço, sem falar que viu Will ser baleado bem diante de seus olhos. O irmão não deveria estar levando seu abandono muito bem e Percy iria ouvir por um longo tempo.

Suspirou cansado afastando as cobertas. Levantou a camisa branca — que tinha certeza que não era sua — observando o ferimento. Estava coberto com faixas brancas e confortáveis, nenhuma mancha de sangue era visível e com certeza não estava inflamado.

Bufou irritado. Aquilo era um serviço de um médico profissional. Esse nobre realmente sabia como o deixar conflitante entre dar um murro em sua cabeça ou agradecer pelos cuidados. Claro que a segunda opção nem era de fato uma opção.

Encarou a janela aberta. O tempo estava limpo, sequer parecia que um ciclone os havia enviado para um covil de cobras. Jogou as pernas para fora da cama caminhando dolorosamente até ela. Apoiou as mãos no parapeito e quase caiu para trás.

O terreno da casa era imenso.

O muro da mansão era à pelo menos vários quilômetros de distância, com um jardim de entrada magnânimo. Uma floresta rodeava o terreno da casa, sendo impossível de ver qualquer cidade por perto. Vários soldados marchavam aos pés do muro enquanto outros patrulhavam o jardim.

Will mordeu o lábio consternado.

Estava totalmente ferrado.

A moça que Will havia espantado mais cedo retornou com uma bacia d’água e toalhas limpas para que o pirata se limpasse.

Ela sorria educada, chamando-o de Lorde aqui ou ali. Deixou uma jarra de água morna ao lado da bacia se curvando brevemente.

— Meu Lorde, precisa de ajuda para se lavar? — propôs a moça cortês. Will negou:

— Estou bem. — garantiu se ajeitando melhor na cama para poder se levantar: — E esqueça isso de Lorde.

A menina negou:

— Meu Lorde é um convidado da Vossa Graça, não desejo desrespeitá-lo.

Will estacou no lugar absorvendo a informação.

— Convidado?

— Um amigo de longa data. Foi ferido no ataque pirata enquanto desembarcava. — explicou a serviçal mexendo na barra da manga: — Vossa Graça o aguardava no píer quando o ataque aconteceu. Graças a meu bom Deus ele está bem, mas sinto que tenha se envolvido depois de viajar de tão longe.

Will aquiesceu lentamente, quase letárgico. Então o Duque resolveu não contar nada a ninguém sobre sua origem pirata para não afetá-lo? Esperto, na verdade esperto até demais pro gosto dele.

Ele inventou aquela história toda num intervalo de tempo tão pequeno que nem Will conseguia achar furo no conto. Estalou a língua consternado.

Maldito Duque manipulador.

— Obrigado pela preocupação, senhorita….?

— Marinne. Violet Marinne. — se apresentou num floreio: — Vou deixá-lo se banhar.

E assim a garota se foi deixando Will pensativo na cama. Se levantou calado enchendo a bacia com água quente da jarra molhando o rosto agradavelmente.

Desceu a mão úmida até o pescoço suspirando exausto. Só a distância até a mesa já o deixava morto devido ao ferimento. Foi bem cuidado, havia dado uma olhada antes e realmente era trabalho bem feito. Foram dados pontos para fechar o ferimento, por mais que Will não fosse adepto a fechá-los dessa forma.

Lavou os braços e rosto, e depois voltou para a cama despencando cansado. Estava preso naquele quarto até o senhor ricaço retornar para mais uma conversa enigmática.

Pela forma que o ferimento estava levaria um tempo para que pudesse realmente fugir, mas Will não estava disposto a entregar sua vida nas mãos de um nobre.

Três dias e cairia fora.

Nico retornou ao seu quarto dois dias depois. Estava vestido com linho fino de um tom azul escuro — Will percebeu aí uma preferência —, mas chegou parecendo irritado.

Will arqueou a sobrancelha:

— Problemas no paraíso?

Nico o encarou sem expressão não respondendo.

— Como está o ferimento? — questionou sério. Will deu de ombros.

— Não converso com meu médico, você deve saber mais do que eu. — cuspiu sem interesse na conversa. Nico concordou.

— Sei como está, estou perguntando se está com dor. Somente isso. — reformulou simples.

Will estreitou os olhos:

— Por que se importa?

— Não me importo. — deu de ombros: — Mas ao mesmo tempo preciso demonstrar preocupação. Aonde vai nossa pequena quantidade de humanidade se não o fizermos?

Will riu cético: — Humanidade? Não acho que tenho.

Nico arqueou a sobrancelha alto:

— Suponho que não. — concordou: — Piratas não podem ter humanidade demais.

— O que sabe sobre nós?

— O suficiente. — comentou baixo, quase como um rosnado. Will foi pego de surpresa pelo tom. Não o viu expressar muita coisa nas duas visitas, era deveras curioso.

— Parece ter contas antigas com piratas. — reparou mais interessando.

Nico fechou a expressão, sumindo com qualquer vestígio de ódio que Will poderia ter lido em seu rosto. Se virou para ir embora.

— Me chame se precisar de algo. Tem dois soldados na porta que podem te auxiliar. — respondeu sério: — Não saia, espero que tenha ficado claro.

E assim ele saiu novamente. Will alargou o sorriso pelo desafio. Dois soldados na porta? Então o Duque não era tão inconsequente quanto pensava.

Olhou em volta no quarto decidido. Sairia daquela mansão e mandaria um crânio para o Duque numa caixa como presente de agradecimento.

Encarou rapidamente o enorme tecido que ia do chão ao teto ao lado da lareira. Uma tapeçaria decorada com arte barroca da mais fina; colorida e cheia de desenhos contando alguma história da Roma antiga.

Will riu levantando e passando a mão pelo tecido grosso. Já havia saqueado lugares chiques o suficiente para entender como uma passagem funcionava.

Puxou a peça para o lado empurrando a parede para trás que se abriu como uma porta que dava para um enorme corredor enclausurado. Não era sujo, mas tinham alguns móveis com tecido branco os cobrindo, provavelmente fora de uso há décadas.

Will não evitou de rir satisfeito. Se havia uma passagem é porque tinha uma forma de sair da mansão sem ser descoberto.

Fechou a porta e decidiu esperar.

A noite é amante dos saqueadores, afinal.

Violet retornou deixando para ele uma bandeja farta com a janta na mesa ao lado da cama. Perguntou como estava antes de se retirar desejando boa noite.

Will encarou a comida um tempo, mas não estava com fome. Se vestiu com sua roupa própria e limpa — surpreso pelo Duque não ter ateado fogo nelas — e saiu pela passagem secreta.

Estava escuro, bem mais do que antes e isso tornou a locomoção mais complicada. O ferimento interferia em alguns movimentos o forçando a parar para respirar de tempos em tempos.

Demorou mais do que desejava para chegar no final da passagem que dava direto para uma área aberta com um jardim interno deslumbrante. Havia alguns escudos e espadas num canto mais afastado e Will deduziu ser a área de treinamento da Mansão.

Se esgueirou pelas sombras dos pilares largos visando a floresta no fundo. Se passasse por ela talvez conseguisse sair sem ser visto pelos oficiais.

Encarou ambos lados do corredor antes seguir caminho até a passagem estreita que tanto almejava. Sua ferida começou a reclamar, mas decidiu que não pararia naquela hora. Arriscado demais.

Contudo, mais alguns passos e sua ferida começou a latejar impiedosa.

Apoiou a mão no pilar exasperado e assim que puxou o fôlego sentiu a ponta de uma espada entre suas omoplatas. Estacou no lugar se virando lentamente para a figura enorme atrás dele.

Soldado era pouco pra ele. Will chutaria Viking ou até mesmo um Romano da era de ouro. Era imenso, dando dois do pirata facilmente.

Levou a mão para o lado do corpo, no instinto básico para usar de sua pederneira, mas logo se lembrou que estava desarmado.

O Duque era astuto, afinal.

— Quem é você? Como entrou aqui? — exigiu o homem enquanto Will se virava completamente, a espada próxima à seu rosto desta vez.

Levantou as mãos em sinal de paz enquanto praguejava sua falta de sorte.

— Eu trabalho aqui, só estou tomando um ar. — respondeu entre dentes, sorriso sacana no rosto.

O Soldado não pareceu convencido:

— Nome e serviço. — exigiu grosseiro. Will mordeu o lábio nervoso, não tinha uma desculpa preparada na ponta da língua que o tirasse dali, mas talvez...

— Apolo. Vim reclamar meu tesouro. Vocês tem feito pouco uso de sacrifícios, me sinto ofendido. — ralhou divertido recebendo uma investida contra seu ombro o qual desviou com dificuldades.

— Sem gracinhas ou te entrego para o Duque faltando pedaços. — cuspiu raivoso.

Will estalou a língua: — Parece que alguém não tem senso de humor.

— Última chance.

Will bufou:

— Olha eu já disse, eu trabalho aqui. — resmungou Will nervoso. O soldado tinha a ponta de sua espada contra seu pomo de adão, irritado.

— Não lembro de seu rosto em todos os meus anos servindo à Vossa Graça. — respondeu o mesmo trocando o peso das pernas e olhando ao redor atrás de reforços.

Levou a mão ao cinto e Will sabia o que ele iria pegar.

Will praguejou. Se mais soldados aparecessem sua fuga mirabolante sairia voando pela janela. Ouviu passos agudos vindo detrás, firmes e precisos. Will não precisou ouvir mais de uma vez para identificar o andar imponente de Nico di Angelo.

— Posso saber que barulheira é essa? Já passou da meia-noite. — demandou Nico nada satisfeito.

Will travou o maxilar. Nico poderia muito bem mandá-lo para a forca se quisesse, só precisava de um pouco de incentivo. Ele temia ter dado exatamente o que o Duque almejava para dormir com a mente tranquila enquanto seu pescoço se quebrava na corda.

— Encontrei este homem andando pelo jardim. Disse trabalhar aqui, Vossa Graça.

Nico encarou Will finalmente, os olhos meticulosos e frios. O mediu de cima à baixo como se fosse uma mercadoria. Will pensou que esfaqueá-lo antes de morrer seria bem promissor, pelo menos teria companhia no inferno.

O Duque deu dois passos para perto, rosto gélido como sempre, mas Will podia jurar que vira o princípio de um sorriso no canto de sua boca firme.

— Abaixe sua arma soldado, este é meu médico particular. — respondeu o Duque resoluto voltando o olhar para o homem fardado: — Foi contratado hoje para me servir pessoalmente por conta de minha saúde.

O soldado concordou recolhendo a espada imediatamente:

— Desculpe desacatá-lo meu Lorde. — desculpou-se o soldado. Curvou-se para Nico: — Com sua licença, Vossa Graça.

— Vá. Tenha uma boa patrulha. — disse Nico e o homem se foi em uma marcha solene.

Nico encarou Will de soslaio antes de abrir um sorriso debochado.

— Eu disse que não ia conseguir sair, pirata. — zombou o Duque cruzando os braços frente ao peito. Will bufou:

— Eu teria conseguido sim. Era somente um homem. — confirmou recusando-se a aceitar derrota, ainda que ela fosse óbvia.

— Seeeei. — cantarolou Nico cético: — Como teria passado pelos portões de entrada que são fortemente guardados, principalmente com Dylan fazendo a patrulha à esta hora? — ressaltou, dando de ombros: — Ah, mas o que são duzentos soldados em patrulha para o pirata do tão renomado Argos II?

Will rosnou enquanto Nico começava a andar de volta para a mansão, o princípio de uma risada dissipando com o vento, sutil mas ainda ali. Rolou os olhos seguindo o Duque para onde quer que iria. Estava atado à ele, afinal.

Porcaria de nobre manipulador.

Nico caminhou pelos corredores já escuros da mansão sem se importar em fazer silêncio ou não. Por onde ia, serviçais ainda a trabalho se curvavam para ele em respeito, com rostos serenos e devotos.

Will se mantinha atrás de Nico observando atento cada detalhe de suas ações. Ainda não compreendia como a mente do Nobre funcionava, mas quanto mais assistia mais certo estava de sua falsa tranquilidade.

Era compreensível que ficasse tenso na presença de um Pirata — principalmente um que estava na mansão em segredo —, e mais em alerta. Dava pra ver dali a tensão em seus ombros e seu amplo radar.

Nico o sondava, e Will estava odiando estar do outro lado do jogo. Subiram para o segundo andar parando em frente à duas portas de madeira bem entalhadas.

O Duque a abriu entrando logo na sequência, Will entrou depois observando o quarto bem mais luxuoso que aquele onde estava.

A cama com dossel era ainda maior, com roupas de cama em tom de amarelo pastel. As paredes com papel bege e armários de madeira clara junto da mesa. Logo de frente pra cama uma sacada generosa e uma porta que provavelmente dava para o banheiro — nobres e suas manias de banhos com sais.

Voltou o olhar para Nico que o observada encostado na mesa. Seu olhar era analítico, frio enquanto buscava algo. Will endireitou a coluna, se mantendo calmo.

Não importava o que Nico havia dito ou feito para livrá-lo do soldado Viking, ainda era uma ameaça mesmo sem estar armado.

Travou a mandíbula nervoso com o sorriso sacana que brotou no rosto de Nico.

— Você sabia? — Will questionou. Nico arqueou a sobrancelha:

— Sabia que você iria fugir pela passagem no quarto? Sim, sabia. — respondeu simplesmente: — Todas as passagens desse andar caem na sala de treino, então sim, sabia.

Will trincou os dentes consternado.

— Por que me colocar em uma sala com passagem então? Por que ter o trabalho? — bradou Will sentindo-se pequeno perto daquele homem.

Nico deu de ombros.

— Não teria como te manter escondido para sempre, precisava te ocupar de algo, mas nunca aceitaria um acordo comigo e eu não acreditaria em suas palavras. — explicou, braços cruzados em frente ao corpo: — Armar uma cilada parecia mais viável.

Will arregalou os olhos em choque.

— Aquele Viking sabia?!

Nico arqueou a sobrancelha cômico:

— Viking?

— Irrelevante. — resmungou num suspiro se deixando cair na beirada da cama, exausto.

A ferida ainda latejava, e algo lhe dizia que havia aberto os pontos com o esforço. Nico o encarou sério, a tez franzida, antes de continuar.

— Você é diferente dos piratas que já conheci. — comentou o Duque: — Age diferente, e é por isso que estou te mantendo aqui por um tempo.

Will levantou o olhar não compreendendo:

— Diferente? Como? Que tipo de interação tivemos pra você chegar a essa conclusão? Qual base?

Nico levantou as mãos:

— Calma. — falou parecendo achar graça: — Está querendo que eu te entregue um relatório por escrito?

Will bufou não se dignando a responder. Nico ficou em silêncio por um tempo.

— Você saiu da água depois de ser atingido pela explosão. — Nico falou mantendo contato visual: — Hazel te achou, os soldados te puxaram para a borda e eu sabia que você era um Pirata. Todos sabiam. Mas mesmo assim minha irmã exigiu tratamento.

Nico crispou os lábios antes de continuar:

— Quando você acordou estava em choque, afastou Hazel e puxou sua arma. — explicou encarando Will nos olhos: — Meu primeiro instinto foi de atirar, o seu foi outro.

Will franziu o cenho:

— Se estava armado, porque não estou ferido?

— Porque você largou ela na mesma hora e perguntou pra minha irmã se ela estava ferida. Se aquele sangue era dela e se precisava de cuidados. — respondeu Nico, olhar duro. Will puxou o ar entre os dentes: — Você deu prioridade à ela, ao sangue que pensou ser dela, não para as dez armas apontadas pra sua cabeça.

Will desviou o olhar finalmente, não sabendo o que dizer.

— Você desmaiou depois disso, e Hazel fez questão de cuidar de você, me implorou. — continuou torcendo o lábio: —Ela não é de implorar.

Se aproximou do pirata com firmeza, nenhum medo em seus olhos.

— Quero que entenda que eu poderia ter te matado, mas não o fiz e portanto não farei agora, a menos que me dê razões. — relembrou, encarando em desafio: — Você recebeu uma segunda chance, se vai voltar pra pirataria ou não, sinceramente? Não me importo. Vou cuidar da sua ferida e se quiser partir, vá.

Dito isso Nico se afastou e Will compreendia aquele tom muito bem, o assunto foi dado por encerrado e não discutiria mais sobre. O pirata passou a mão pelos cabelos nervosamente. Era muito para assimilar.

— Não quer dizer que eu seja bom. — relembrou Will em fraca voz: — Foi instinto, e sequer me lembro disso.

— Esse é o ponto. — concordou indo para a porta: — Esse vai ser seu quarto. Se vai agir como meu médico precisa de acomodações para tal. O armário está cheio de roupas, pode usá-las. A mansão é livre, tem soldados de patrulha a cada dez metros de corredor, você não é uma ameaça. Me prove que é diferente, ou não, não me interessa. Independente do que faça tenho soldados que sabem quem você realmente é. Não pense que não está sendo vigiado.

Abriu a porta para sair, mas parou no caminho:

— Tem nome?

Will rolou os olhos: — Claro que sim, até animais tem nomes.

— É, mas você fala. Tem um? — cuspiu sem paciência.

Will sorriu sapeca.

— William Solace.

Nico arqueou a sobrancelha: — Nenhum nome fictício?

— Tenho, e usei no seu amigo Viking. — respondeu sapeca.

Nico revirou os olhos saindo do quarto e deixando Will sozinho naquele lugar imenso. O pirata suspirou exausto caindo com o corpo para trás se esparramando na cama. Tapou o rosto com as mãos frustrado.

Não sabia que tinha feito aquilo. Ajudar uma garota ia contra tudo que a pirataria pregava, e ainda assim lá estava ele agindo como sempre fez; ajudando pessoas sem esperar nada em troca.

Austin sempre dizia que ele não encaixava na pirataria, que não era uma pessoa ruim ou egoísta o suficiente para fingir ser um pirata. Era um médico, era uma pessoa com caráter definido, e seu irmão gostava de ressaltar isso.

Que um dia as pessoas perceberiam que era bom, e que teria a chance de ir embora daquela armadilha que Austin o enfiou. Will suspirou mais uma vez fingindo não ouvir a voz do irmão no fundo de sua mente.

Se virou na cama e dormiu naquela posição, cansado pelo ferimento.

Acordou no dia seguinte sendo sacudido gentilmente por Violet. A moça lhe trazia seu desjejum e perguntou se gostaria de Se banhar com sais.

Will negou no momento tentando voltar à se situar. Perguntou como ela sabia onde ele estava e Violet informou que o Duque lhe deu o serviço de atendente pessoal do senhor Solace — palavras dela — e auxiliar no que precisasse.

O pirata desejou dar um soco em Nico por isso. Dispensou a garota dizendo que a chamaria se precisasse e se trocou com as roupas chiques no guarda-roupa. Ficou incomodado com aquilo, mas não poderia usar sempre as mesmas roupas.

Se serviu da comida farta na bandeja antes de receber o doutor para avaliar o ferimento. Nesse caso, porém, o médico falou com ele diretamente sobre detalhes mais técnicos.

Will percebeu que Nico contou a todos sobre ser médico. Sorte a dele que o pirata realmente era um, não precisaria de muito esforço para fingir.

Teve que refazer um dos pontos que havia soltado, e se lembrou porque odiava tanto pontos. Não era necessário uso de morfina para suturar alguém, e sua sorte era não ter um ferimento inflamado ou criaria ainda mais complicações.

Praguejou pela dor, mas guardou as palavras chulas pra si.

— Nunca pensei que o Duque finalmente aceitasse meu conselho. — comentou o doutor guardando as coisas em sua bolsa de couro.

Will o encarou curioso: — Sobre?

— Contratar um médico para cuidar dele o tempo todo. Suponho que saiba de sua doença agressiva, e te ter em constante vigilância será um alento para as pessoas na mansão. — explicou sucinto, olhar cansado e distante.

— Pensei que você fosse o médico daqui. — admitiu sincero.

O doutor riu: — Não, o Duque não suporta pessoas o vigiando. Eu venho da cidade quando há situações de emergência, mas houve vezes em que quase não deu tempo de chegar. — o comentário foi ácido, como se a culpa ainda estivesse impregnada nele: — Ter o senhor aqui, Solace, me deixa tranquilo como não fico há anos.

Will não soube o que responder, então somente sorriu e deixou o doutor sair do quarto com o olhar aliviado em seu rosto.

Então o Nico tinha alguma doença agressiva? Algo mortal talvez? Ponderou isso enquanto ajeitava sua camisa. Não admitiria que estava preocupado, era simples curiosidade.

Suspirou saindo do quarto vendo Violet sentada perto da porta conversando com um dos soldados prostrados nos corredores.

— Marinne? — chamou fazendo a moça se aproximar dele.

— No que posso ser útil?

— Pode me levar à enfermaria daqui? Preciso me situar com o que tenho à disposição. — disse preciso fechando a porta atrás dele.

— Claro, por aqui.

Ele seguiu a atendente por todo o caminho até à enfermaria tentando decorar quantas curvas teve que dar nos imensos corredores iguais. De manhã era fácil observar os quadros caros espalhados pelas paredes de papel florido azul claro.

Percebeu que a mansão toda, com exceção dos cômodos privados, era coberta em tons de azul. Era agradável e calmante, Will gostou disso, por mais que estivesse naquele lugar contra sua vontade.

Haviam várias estátuas de mármore, vasos caros, móveis importados e exóticos e várias outras coisas nos corredores enfeitando-os. Era surreal a quantidade de artefatos que valiam muito mais do que Will conseguiria juntar em uma vida.

Violet entrou em uma sala no térreo e Will ficou chocado com o arsenal que havia ali.

As estantes de livros eram cheias assim como as de ervas. Uma cama estava no fundo da sala, provavelmente para atender doentes graves, e utensílios cirúrgicos mais afastados, mas de aparência boa e provavelmente cara.

Soltou um assobio impressionado.

— Provavelmente tem tudo que preciso aqui. — comentou sorrindo nostálgico para o sentimento, mas logo espantou isso. Não precisava daquilo: — Onde esta o Ni- Duque. — se corrigiu apressado tirando uma risada da atendente.

— Sabemos que são amigos, meu Lorde. Não vamos repreendê-lo por usar seu nome cristão. — afirmou a moça radiante: — Como posso ajudar por aqui? Não sei muito de medicina, admito.

Ele negou: — Não preciso de nada… — comentou pegando uma seringa em mãos sorrindo maldoso: — Na verdade, onde o Nico está agora?

— Vossa Graça, aumentar os impostos dos cidadãos é uma forma de garantir fundos para a construção da ferrovia, não é uma má sugestão. — comentou um dos conselheiros segurando um livro de anotações grosso e com várias folhas pautadas escapando por elas.

— Aumentar os impostos, que já são altos, não me parece uma estratégia tão bem pensada. — comentou Nico sério lendo os documentos sobre a ferrovia: — Não há motivos para isso, não preciso de uma revolução agora, Tardelli.

— Não haverá. O dinheiro coletado a mais será usufruído pela população em um intervalo de dez anos. — garantiu o homem convicto. Nico arqueou a sobrancelha.

— Oh? E com qual dinheiro conseguirão comprar as passagens, se o aumento dos impostos lhes tira o pouco de economia que eles conseguem guardar? — refutou jogando as folhas na mesa desinteressado: — Não aceitarei isso. Convoque um conselho para as três, preciso de uma solução imediata, mas que não envolva os impostos.

— Mas Vossa Graça—

Dois toques na porta ecoaram pelo grande escritório antes de Will entrar com uma bandeja em mãos com remédios equilibrados nela. O conselheiro o encarou raivoso por sua falta de educação, mas antes que pudesse dizer algo Nico o fez.

— Tardelli está dispensado. — avisou Nico voltando a rabiscar nas folhas na mesa, desfocando totalmente do homem. O conselheiro se curvou e saiu da sala, lançando um olhar nada amigável para Will.

O pirata arqueou a sobrancelha, mas nada disse ao se aproximar de Nico. Depositou os remédios na grande mesa onde o rapaz estava. O Duque encarou sua bandeja franzindo o cenho:

— Espero que não tenha vindo realmente me medicar. — disse, os olhos desafiando a seringa: — Porque isso não vai chegar nem perto da minha pele.

Will soltou uma risada irônica.

— Pensei que eu fosse seu “médico particular”, não se lembra? — zombou cruzando os braços.

O canto dos lábios de Nico se curvou minimamente, mas logo retornou a escrever:

— O que faz aqui?

— Estou encenando meu papel como médico dedicado. — afirmou apoiando ambas mãos na mesa: — Agora, qual a sua doença tão mirabolante?

Nico parou de escrever, o encarando severo.

— Não tenho nada, minha saúde é ótima. — respondeu rígido. Will cerrou os olhos não acreditando.

— Engraçado, você disse ao soldado que havia me contratado por causa de sua saúde, além do seu médico ter entregue o jogo. — comentou Will traiçoeiro. Nico apertou a pena contra seus dedos, mantendo a expressão plácida: — Devo assumir que pelo menos alguma coisa você tem.

Nico respirou fundo se levantando:

— Se não tem nada para fazer sugiro que se retire, antes que ordene. — trovejou o Duque dando a volta na mesa, na intenção de sair do escritório.

Mas Will não o deixaria sair assim.

— Eu vim te medicar, acha que não consigo? — comentou pegando a seringa, um sorriso sapeca brotando nos lábios.

Nico encarou sua mão como se estivesse segurando uma arma de fogo, seus olhos arregalaram visivelmente antes de fechar a expressão.

— Abaixe isso, Solace. — ordenou Nico forte. O pirata rolou os olhos.

— Vem tirar de mim, Nicollà. — zombou avançando contra o Duque que desviou com maestria da investida.

Will trocou a seringa sem agulha de mão investido com ela para o lado. Nico abaixou colidindo contra o braço do sofá. Abriu um sorriso mínimo correndo para longe de Will que somente riu. Não achou que Nico fosse realmente entrar na brincadeira, mas lá estava ele.

— Abaixa isso. — falou novamente, o tom de ordem longe de sua voz. Will avançou com seu jogo de pés, esquerda, direita, investida.

Nico desviou segurando o braço de Will pegando-o de surpresa. O pirata rodou se desvencilhando do aperto gélido do Duque, o segurou pelo ombro e num movimento brusco o prensou contra a mesa, seu braço direito dobrado para trás e seu tronco curvado em cima da mesa.

Will soltou uma risada:

— Te peguei, Nicollà. — zombou soltando a seringa na mesa.

Ouviu batidas na porta, violentas.

— Vossa Graça?!

— E-Estou bem! — falou Nico: — Esbarrei na mesa, somente isso. — respondeu entrecortado, mas convincente o suficiente para que o soldado se afastasse da porta.

— Parece que fizemos mais barulho que o esperado. — comentou Will, mas Nico não o respondeu: — Duque?

— Me solta. — rosnou entre dentes. Seu cabelo ocultava seu rosto, Will não conseguia ver seus olhos.

— O que foi? Não gosta de perder? — ralhou rolando os olhos, mas pronto para soltá-lo.

— William. — falou Nico mais uma vez, desta sua voz vacilou levemente. Will franziu o cenho soltando seu pulso do aperto, temendo tê-lo machucado.

— Nico? Tudo bem?

Se afasta de mim Will! — dessa vez foi uma suplica. Will arregalou os olhos afastando-se uns bons cinco passos.

Nico mal se sustentou na mesa com os braços, e Will pode finalmente ver o tremor de seu corpo, a fragilidade de sua forma agarrando a mesa com fraqueza. Arregalou os olhos enquanto Nico tentava manter a compostura, mas não parecia possível àquela altura.

Sua respiração ficou pesada, o tremor intensificou. Will, temendo um ataque de pânico, tentou se aproximar.

— NÃO! — exclamou Nico, o desespero escorregando por sua voz falha: — Vai embora, me deixa sozinho Solace.

E Will foi, compreendendo talvez pela primeira vez como um trauma avançado realmente funcionava, e era bem mais forte do que gostaria de imaginar.

Aquilo era trauma dos mais graves e Will se pegou mais preocupado do que curioso dessa vez.

Depois desse evento Nico o evitou, mandando o pirata cuidar dos soldados feridos em treinamento enquanto viajava para fora da mansão à trabalho. Foi ordenado, porém, a cuidar de seu ferimento em primeiro lugar e por isso recebia os feridos na enfermaria ao invés de ir até eles.

Violet o acompanhou durante todos os atendimentos e Will acabou conhecendo o tal Dylan que tanto falavam e o assustavam sobre, mas na hora que o viu quase teve vontade de voltar pro quarto.

O rapaz encarou Will com raiva moderada o levando para um canto na enfermaria dispensando Marinne. Fechou a enfermaria e gesticulou agressivo.

— Você faz a mínima ideia do que você causou, Will? — ralhou o soldado: — Você simplesmente some da noite pro dia deixando a Kayla com Artemis na França e acha que é normal? Abandonar sua família por seu irmão alcoólatra?

Will fechou a cara, severo:

— O que eu faço ou não não lhe diz respeito Dylan! Eu fui porque eu quis, e Kayla está mil vezes melhor aos cuidados de outra mulher do que ficaria aos meus. — bradou o pirata inflando o peito, raiva culminando aos poucos: — E quero entender de onde veio essa sua intimidade toda pra falar do que não entende.

Dylan riu cético: — Não entendo? Eu? Você abandona a família e eu sou o que não entende as coisas?

— Sim, porque você não sabe como era viver naquele inferno. Austin me estendeu a mão e eu peguei. Simples e não te devo satisfação. — concluiu cruzando os braços: — Não estou aqui porque quero e sabe disso. Vou embora assim que me for possível.

Disse dando as costas para o soldado. Dylan suspirou:

— Não vai perguntar de sua irmã?

Will deixou o olhar cair para a mesa. Não se permitia pensar em Kayla, levando em conta que realmente a abandonou quando ela mais precisava. Will estava quebrado e não poderia cuidar da irmã, mas não pensou realmente no assunto quando aceitou a proposta de Austin aquele dia.

— Não. — respondeu seco: — Não tenho direito de saber.

Dylan ficou calado por mais uns momentos e então saiu ruidosamente da enfermaria, mas não antes de concluir a conversa.

— Vossa Graça é um homem complicado de lidar e nem um pouco tolo, mas te garanto que se fizer qualquer coisa para ele, por menor que seja, eu te mato. — ameaçou severo: — Não importa que você é meu cunhado, William.

E assim ele se foi e Will simplesmente bufou com a quantidade de ameaças que estava recebendo naquela mansão.

— Parece que voltei pro Argos, não é possível. — resmungou entredentes ajeitando as coisas na mesa depois da última consulta.

Massageou a têmpora pensando no que fazer dali em diante. Não tinha como voltar para o Caribe da forma que estava, não só pelo ferimento, mas por sua falta de contatos decentes e dinheiro.

Levaria um tempo para ficar realmente bom, e talvez o Duque não o liberasse antes. Lhe daria um tempo para planejar alguma coisa concreta, mas no momento estava com a mente nublada.

Apertou os olhos sentando na cadeira e apoiando a cabeça nos braços em cima da mesa. Não sabia mais dizer se era cansaço físico ou emocional. Chutava os dois. Suspirou e resolveu voltar a atender os soldados novos, ocupar a mente com algo que gostava era bom.

Dava pra fingir algumas coisas.

Nico voltou naquela tarde depois de quase uma semana fora.

Will topou com ele no corredor. O Duque estava com uma garota no braço, deveria ter entre quinze e dezesseis anos. Cabelos cacheados e volumosos presos de lado por um laço amarelo; seu vestido era do mesmo tom, mas puxando para o pastel com várias camadas e rendas adornando sua cintura e mangas. Os ombros estavam descobertos, e o contraste de sua pele chocolate com o amarelo do vestido era muito belo.

Seus olhos caramelo encararam Will por longos segundos antes de exibir um sorriso brilhante.

— Bom dia, senhor Solace.

Will meneou com a cabeça:

— Senhorita. — cumprimentou tendo vaga noção de quem era. Nico mantinha a expressão severa no rosto, talvez mais grave por Will estar próximo deles.

— Soube que andou ocupado com os soldados. — o Duque comentou direto: — Bom, me entregue um relatório sobre os ferimentos, preciso ter noção do que estão falhando e exigir outro treinamento para Dylan planejar.

— Pois bem. — respondeu Will num trincar de dentes. Detestava ordens dele, mas não tinha para onde fugir.

— Nico, não abuse tanto dele, ainda está ferido. — repreendeu a garota encarando o Duque com olhos bravos.

O nobre riu comedido acariciando sua mão enluvada ainda presa à seu braço.

— Tem razão. — admitiu voltando a olhar para Will, menos grosseiro dessa vez: — Obrigado pelo serviço, Solace.

— Disponha. — respondeu um pouco surpreso.

— Sou Hazel, irmã mais nova do Duque. — se apresentou a garota sanando as suspeitas de Will: — Soube que não se lembra do dia da praia, mas gostaria de dizer que fico grata por sua preocupação.

O pirata sorriu falso, não tinha como aceitar agradecimento de algo que não se lembrava.

— Não precisa, senhorita.

— Vamos Hazel, vai se atrasar pra aula de dança. — relembrou Nico a guiando para o final do corredor: — Solace. — se despediu com um breve aceno de cabeça e desapareceu pelos corredores enormes da mansão.

Aquela foi a última vez que teve contato com Nico naquele mês.

Semanas se passaram até topar com o Duque novamente, desta vez acompanhado de dois homens trajados com roupas finas e sorrisos venenosos no rosto. Uma reunião de nobres, talvez para decidir algum detalhe político da região.

Will não compreendia muito a hierarquia da nobreza, mas sabia que Nico estava num dos — se não o — mais altos patamares abaixo do Imperador. Sua postura era impositiva, e fácil distinguir qual deles possuía mais poder na conversa.

Gesticulava levianamente com as mãos enluvadas, sorriso polido e olhos analíticos para os dois nobres ao seu lado. Parou em um momento, comentando algo com seriedade quando avistou Will do outro lado do corredor.

Sua postura inteira mudou e Will não conseguiu ler seu rosto antes que sugerisse que entrassem em alguma sala para mais privacidade. O pirata crispou os lábios finalmente sentindo um pouco de culpa por isso.

Havia assustado o Duque e se tornado um gatilho para seus traumas. Não sabia até onde isso seria bom ou ruim para ele, levando em conta que dependia da boa vontade de Nico para continuar vivo e incognito.

Bufou voltando para a área de treinamento atrás do garoto idiota que conseguiu acertar uma flecha no próprio pé.

Will começou a explorar a mansão assim que o ferimento deixou de doer constantemente.

Descobriu um labirinto no jardim, por mais que não tivesse vontade de explorá-lo; havia um depósito com móveis antigos e um piano de cauda preto em bom estado no fundo da mansão, Marinne dissera pertencer à falecida Duquesa; um conjunto de ruínas no fundo da mansão, pertencente à alguma herança da era de ouro do Império Romano; e principalmente conseguiu acesso até o terraço.

Ficou contente com a descoberta e começou a fugir para lá com frequência. Era quieto, calmo, e o único lugar que não se sentia vigiado ou observado. Se sentava na beirada quase todas as noites e assistia as estrelas, a nostalgia das noites no convés com Austin contando as histórias de cada uma das constelações.

Austin sempre sorria e inventava algumas sem sentido para fazê-lo rir, outras vezes Percy estava junto e comentava sobre ver animais se atacando por puro esporte e então Annabeth se sentava com eles e explicava as histórias de forma mais histórica e correta. Will não admitiria que preferia os contos dela, por mais que a mulher soubesse e sempre lhe fazia companhia para continuá-las durante o dia.

Will gostava do ambiente do Argos II, mas sempre se sentia em perigo constante, podendo ser apunhalado pelas costas a qualquer momento. Ninguém além de Austin era confiável, e Will voltou a sentir isso em terra. Aquela mansão era segura, mas ao mesmo tempo uma grande armadilha.

Se quisessem matá-lo seria fácil e provavelmente Nico sequer saberia, e se soubesse deixaria com prazer principalmente depois do que aconteceu entre eles.

Bufou irritado enquanto subia para o terraço. Mais de um mês desde sua última conversa com Nico que resultou em um ataque de nervos e uma avalanche de culpa. Will odiava ser gatilho para algo do tipo, e saber que sua simples presença era agressiva ao rapaz o deixou repentinamente desconfortável.

Não falaria em voz alta — a menos que conseguisse falar com Nico pessoalmente —, mas aqueles dias na mansão o fizeram lembrar de sua casa, de sua época como um renomado Solace e isso o estava deixando ansioso novamente.

Pois não só fracassou como um Solace, mas seguiu os mesmos passos de seu irmão renegado. Mas ainda assim, sentia falta da medicina, da calmaria das coisas; de deitar na cama e saber que vai acordar no dia seguinte sem uma espada na garganta.

Ele sentia falta da vida comum, infelizmente.

Grunhiu nervoso com sua linha de pensamentos abrindo a porta do terraço.

O ar gélido agrediu seu rosto e se permitiu fechar os olhos e aproveitar a noite cálida. Soltou um suspiro satisfeito reabrindo os olhos. Então notou um corpo sentado em um dos bancos de ferro no terraço.

A roupa toda em preto o escondia bem, mas Will sabia que era Nico sem muito esforço. Engoliu em seco pensando em ir embora dali e lhe dar o espaço que parecia querer. Deu meia volta abrindo a porta novamente.

— Não precisa ir embora. — a voz de Nico viajou serena pelo vento da noite fazendo Will estacar no lugar: — Sei que gosta daqui, também aprecio a vista. — emendou distante.

O pirata ponderou fechando a porta e se aproximando do Duque. Will se sentou ao lado de Nico no banco e o observou.

O Duque encarava o céu, olhos perdidos na imensidão das estrelas. Manteve uma distância saudável de Nico enquanto apreciava o silêncio da mansão, se deliciando com a brisa fresca da primavera.

Ficaram ali um tempo, um ao lado do outro, sem começar nenhuma conversa. Will não tinha certeza de como o fazer, mas sabia que precisava falar algo, qualquer coisa. Nico o estava evitando há semanas e isso o deixou realmente mal.

Principalmente porque ele merecia o tratamento. Subiu o olhara para o céu criando coragem.

— Nico. — Will começou, sem retirar os olhos das estrelas atrás de conforto: — Desculpe por aquilo, não imaginei que tivesse um trauma, não naquele nível.

Ouviu Nico inspirar forte, a tensão se formando entre eles forte e palpável. Apertou as mãos juntas segurando o nervoso da conversa. Ambos eram adultos, estava na hora de agirem como tal.

— Tudo bem, eu entrei na brincadeira. — confessou Nico seco. Will concordou com a cabeça, não acreditando muito: — Além disso, não tenho um trauma.

Will riu sem emoção:

— Eu abandonei a medicina aos dezoito anos Nicollà, mas acho que sei identificar um trauma quando vejo um. — admitiu olhando para Nico finalmente.

Conseguiu ver o olhar chocado do Duque mudar para incredulidade, e logo conformação. Não parecia disposto a discutir aquilo no momento, mas algo lhe dizia que iria retornar ao assunto logo.

— Não gosto de contato físico. — disse em um suspiro cansado. Seus ombros caíram e seus olhos pesaram o que pareceram dez anos: — Me traz memórias ruins, mas isso depende da forma, e se sou pego ou não de surpresa.

— Era claro que eu ia prendê-lo na mesa. — comentou Will tentando absorver o que aprendia, mas Nico mais uma vez nublou sua expressão, lábios prensados em uma linha fina.

— Sim, mas foi diferente do que imaginei. — murmurou virando o rosto para longe dos olhos analíticos de Will. O pirata voltou o olhar para o jardim dando o espaço que Nico parecia querer.

O trauma estava ali, mas não sabia realmente como ele aconteceu ou quando. Um trauma de toque sempre significam alguma espécie de abuso, físico ou psicológico. O peso do que lhe aconteceu era claro para quem quisesse ver, mas a maioria dos empregados parecia ter um voto de distância.

Ninguém além de Hazel o tocava de verdade, e talvez ele não devesse como um bom serviçal. Respirou fundo. Ele não trabalhava para Nico de verdade, afinal. Não devia nenhum respeito ou devoção.

— E então? Quem foi a mulher que lhe molestou? — Will jogou sujo, sabia, mas uma coisa que aprendeu na pirataria em seus cinco anos de experiência era a manipulação.

Austin era ótimo nela, e Will aprendeu a jogar verde logo que tivesse a possibilidade. Nico estremeceu, olhando-o alarmado.

Ele não respondeu, sequer se dignou a fingir algum tipo de emoção além do choque. Will esperava mais, alguma espécie de repulsa, raiva, ou mesmo o mandasse ir embora. Aquele silêncio não era nem um pouco convidativo.

— Não foi uma mulher.

E a resposta veio seca e baixa como uma confissão ao padre na igreja. Will franziu o cenho a medida que a resposta pegava forma em sua mente. Arregalou os olhos não contendo a expressão de puro desespero que se alastrou por seu rosto.

Foi a primeira vez em sua vida que odiou o que colheu.

Seu estômago revirou, em um súbito desejo de voltar atrás em suas palavras, fingir que não sabia. Era melhor assim, a ideia de que Nico ainda tinha alguma dignidade naquela conversa. Will respirou entrecortado encarando o Duque sem saber como respondê-lo.

Nico estava de cabeça baixa encarando o jardim. O brilho sapeca em seus olhos ofuscados pela expressão agressiva em seu rosto. Will sentiu um desejo incomum de puxá-lo para um abraço, mas não sabia como ele iria lidar com o toque.

Umedeceu os lábios:

— Isso tem algo a ver com seu ódio por piratas? — tentou mais uma vez, jogou mais uma vez a pergunta. Nico travou o maxilar, mas desta vez não respondeu. Mesmo após dez minutos sentados no telhado.

Will pegou a resposta de seu silêncio.

Repentinamente sentiu frio. Um frio intenso em seu corpo, o arrepio subindo por sua espinha. Nico soltou o ar levantando-se do banco e ajeitando a calça antes de se virar para Will, o rosto limpo e sem emoção alguma.

— Já viu nosso labirinto?

Will piscou forçado, não entendendo de primeira.

— Labirinto? Sabe o que é? — insistiu Nico arqueando a sobrancelha.

O pirata estalou a língua: — Eu sei o que é. Mas o que isso tem a ver com—

— Nada, mas eu gosto de ir lá para pensar, mais do que aqui. — falou se aproximando da beirada.

Passou a perna por cima da amurada alarmando Will.

— O que você está fazendo?!

— Descendo? — respondeu simplesmente agarrando-se nas molduras das janelas e descendo do terceiro andar para a sacada de seu quarto em um salto.

Will o encarou na beirada enquanto ajeitava o paletó.

— Você não vem?

O pirata riu o seguindo com mais facilidade do que Nico. Ambos desceram até o jardim pelo lado de fora da casa. Caminharam pelos arbustos diretamente para o labirinto no centro do jardim Sul.

Will tinha visto ele de longe, mas não teve interesse em entrar e se perder. Nico caminhou até as paredes altas de folhas bem podadas.

— Minha mãe mandou criar ele quando meu pai assumiu como Duque. Tem um pequeno jardim de rosas negras com uma fonte no centro. — explicou Nico, um sorriso triste em seu rosto: — Se não me engano tem uma figueira nela, mas às vezes minha memória falha.

O pirata concordou, mas levemente preocupado.

— Bom, sabe de cor para onde ir e vir?

Nico sorriu malandro: — Todo desafio tem um segredo de como resolvê-lo Solace. Um truque, uma magia oculta. Quando ele foi construído minha mãe fez questão de haver uma coluna de rosas negras a cada curva certa. Por ser um jardim de rosas ninguém nunca suspeita, até que fique preso por três horas e finalmente entenda a dica.

E então ele entrou no escuro da noite, seus passos fofos na grama bem cortada. Will o seguiu apressado, não sabendo se veria as tais rosas negras no escuro, mas a lua estava fazendo um bom serviço iluminando o caminho.

Seguiu o Duque labirinto adentro, reparando nas singelas flores. A forma como foram colocadas realmente não as entregava, mas depois de uma ou duas vezes perdido teria reparado nelas e arriscado um palpite.

Andaram uns dois minutos antes de entrarem no jardim. Era realmente belo. As flores não eram totalmente negras, Will reparou, mas ainda eram bem escuras e muito lindas. A quantidade era pouca, mas elas faziam o destaque da fonte e dos bancos de mármore.

O som delicado da água caindo o deixava calmo. Nico se sentou no banco fechando os olhos e se deixando levar pelo ambiente. Will se sentou ao seu lado encarando-o. Repentinamente o Duque se tornou a coisa mais interessante que acontecia com ele desde que pisara em terra.

Achou que fosse conseguir enganá-lo e desaparecer na noite como planejou no começo, mas foi se atraindo por sua figura mais e mais. Era magnético como uma droga, e de alguma forma os problemas que ele tinha o deixavam mais intrigante.

Will queria saber mais, queria poder tocá-lo e dizer que ficaria tudo bem. Um sentimento de proteção que não sentia desde Kayla. Era estranho como um rapaz daquele tipo, um nobre manipulador e sádico, tivesse tanto sentimento acumulado dentro de si.

Will queria ajudá-lo a extrair essa parte quebrada de seu interior e curá-la. Parecia idiotice ele sabia, mas começou a compreender o porquê das pessoas se atraírem por ele, mesmo com sua atitude fria e bruta.

Ele ainda era uma pessoa atrás daquela armadura de ferro.

— Você pensa alto demais William. — comentou Nico se virando para ele, olhos bem abertos e alertas. Will corou desviando o olhar. Nico soltou uma risada contida: — Eu posso entender a curiosidade, acredite. Todos ficam curiosos, mas depois isso esfria.

— Você se subestima, sabia? — comentou o pirata sorrindo sincero. Nico retribuiu não muito honesto.

— Talvez. — comentou num suspiro cansado: — Os soldados odeiam quando eu venho para cá sem avisá-los, principalmente Dylan. Falam que é fácil de armar uma emboscada.

— Bom, você está comigo aqui. — relembrou Will abrindo um sorriso esperando pela resposta de Nico.

— Ah sim, um pirata assassino. Estou tão seguro quanto se estivesse na companhia de um Lince. — zombou rolando os olhos, mas o sorriso que apareceu em seu rosto era divertido, e Will gostou disso, muito: — Mas sim, você está aqui. Por alguma razão louca e sem sentido eu não me importo.

— De ficar sozinho comigo?

— Da sua presença. — rebateu: — Ela não é agressiva e aterrorizante como os piratas normalmente são. Tem um pouco de humanidade em você, surpreendentemente.

Will não evitou de rir disso, tapando a boca para abafar o som.

— Ridículo! — ralhou se lembrando da conversa deles no começo, quando ainda falavam um com o outro: — O que pensou que eu fosse antes de Pirata?

— Com certeza não médico. — evidenciou sapeca. O Solace arqueou a sobrancelha, mas concordou:

— Sou um médico mesmo entre os piratas, a diferença é que eu amputo pernas com mais frequência do que em terra. — disse solene.

Nico franziu o nariz nem um pouco à vontade com a imagem em sua cabeça.

— Você disse que abandonou a medicina.

— Não existe medicina entre piratas. Eu só decidi que seria aquele à fazer o trabalho que mais ninguém quer. Não tem consultas, medicamentos, nada disso. — disse sério: — Eu quem aviso ao capitão sobre quem vai ou não viver.

Nico respirou fundo, mas nada disse sobre o assunto.

Encararam a lua, grande e luminosa.

— Então vai começar a ser meu médico de verdade? — sugeriu Nico com certo receio: — Não acredito que consiga realmente voltar para o Caribe.

Era uma proposta perigosa e Will tinha medo do que responder, não por medo de Nico ou do que ele pensava de Will, mas pelo fato de não ter certeza se queria ou não voltar. Quando partiu para o Caribe com Austin tinha uma ideia em mente, mas quando chegou lá as coisas mudaram de figura.

Ficar era tentador demais pra recusar.

— Um pirata não volta por outro. É um mundo selvagem. — confessou, olhos sinceros: — Ninguém espera que eu retorne, nem eu mesmo.

Nico concordou com a cabeça, mas não pareceu entender de fato.

— Ou seja, eu quero você indo em mais eventos sociais para lutar contra essa sua baixa auto-estima. Ordens médicas. — ralhou sapeca, tom de voz brincalhão.

E então Nico gargalhou.

E Will percebeu que ficar seria uma escolha melhor do que previu, aquele riso era lindo demais para ignorar.

Will pensou que as coisas permaneceriam como estavam entre eles depois da conversa no labirinto, mas logo no dia seguinte Nico o chamou para a sua sala enquanto assinava alguns papéis.

O que era para ser mais um dia preso na enfermaria virou horas de bate-papo e risadas por nada. Will descobriu, nesses pequenos momentos que se repetiam com frequência, que Nico adorava doces e álcool, mas que passava mal depois sempre que os ingeria demais — isso entregou sua diabetes logo de cara, a famosa doença agressiva.

Will lhe deu um sermão por esconder isso dele, mas Nico simplesmente encarava a doença como algo leviano e o doutor não sabia se o estrangulava ali mesmo ou tentava colocar algum senso em sua cabeça teimosa.

Notou também que Nico era um ótimo dançarino e sempre que ficava nervoso esvaziava o salão e os corredores para dançar e extravasar a raiva. Gostava de cavalgar, mas odiava ter que caçar com outros nobres quando o convidavam. Confessou se sentir ridículo no meio daquele monte de homem com roupa de caça se gabando de suas conquistas, mas quem caçava mesmo eram os serviçais e suas miras excelentes.

Hazel aparecia com mais frequência mostrando seus conhecimentos avançado e gosto por cavalos. Will se pegou curioso pela mulher que ela se tornaria. Não perdeu o olhar que ela mandou para Nico como se dissesse “Viu, eu disse que ele valeria a pena”. Will riu da cara severa do Duque quando a expulsou de sua sala.

Nico gostava de sentar no sofá para ler e Will sempre ficava ao seu lado quando podia, respeitando a distância, mas se fazendo presente. O Duque, aos poucos, se aproximava e conversava sobre algo, os sorrisos se tornando mais presentes assim como os flertes.

Will pensou ter ouvido errado na primeira vez que Nico flertou com ele.

Era uma tarde de verão, três meses depois que resolveu ficar na mansão, e estavam no jardim apreciando um chá da tarde enquanto Hazel era cortejada por um nobre. Will sorriu para o casalzinho no jardim:

— Parece que sua irmã vai se casar primeiro, senhor Duque. — zombou o doutor apoiando o cotovelo na mesa.

Nico levantou o olhar sem muito interesse:

— Não é uma competição. — respondeu dando de ombros: — Além disso, o tipo de relacionamento que estou atrás não envolve matrimônio.

Will arqueou a sobrancelha: — Ah não? Do que está atrás?

Nico sorriu sapeca: — Ora isso depende, Solace. Onde você prefere estar?

Will levou um tempo para compreender o que aquilo significava, mas quando o fez não sabia onde enfiar a cara e esconder o vermelho vivo que pintou seu rosto. Nico gargalhou, mas não retirou o que disse.

Depois disso o doutor começou a pensar melhor nas coisas que dizia para Nico.

A partir daí os comentários aumentaram. Era como ganhar coragem aos poucos, testar o terreno e depois investir novamente. Nico sempre tinha alguma resposta no ponta da língua, o que fazia Will perceber que ele seria um bom pirata se tivesse optado pela trapaça e furto ao invés de permanecer como nobre.

Se tornou comum ouvir isso de Nico com frequência, mas quando Will respondia à altura era como pegá-lo desprevenido e isso sempre ocasionava em algum acidente próximo à eles.

Isso aconteceu enquanto estavam no jardim leste atirando em alvos fixos e móveis para treinar mira. Will era bom com bestas e arcos, mas Nico não tinha a mesma habilidade ou mira que tinha com uma arma de fogo.

Will havia acertado vários alvos enquanto Nico resmungava sobre trapaça e a “vantagem da pirataria”. Em parte era verdade, mas não perderia a chance de esfregar na cara do Duque que era melhor em alguma coisa.

— É simplesmente ridículo, a flecha não vai pra onde deve. — resmungou Nico em baixo tom, mas Will estava perto o bastante para ouvir.

— Você quem escolhe o alvo, Nico. Se a flecha não vai não é culpa dela. — ralhou o doutor rindo abertamente.

O Duque rolou os olhos:

— Sua sorte eu não ser o Cupido, poderia tentar te acertar e passar direto para um esquilo. E olha que seria difícil acertar nele se mirasse propositalmente. — resmungou tentando ajeitar a besta nas mãos.

— Acho que fazer sexo comigo seria bem mais prazeroso do que com um esquilo, e mais fácil. — comentou descarado e Nico o encarou assustado apertando o gatilho da besta que disparou quase acertando um dos serviçais que passava por ali.

Nico exclamou horrorizado, mas o rapaz somente riu nervoso dizendo que estava bem e que desviou à tempo. O Duque escondeu o rosto nas mãos envergonhado e Will simplesmente gargalhou.

E percebeu que deveria tomar cuidado na hora de revidar as brincadeiras.

Nico tinhas dias ruins, às vezes com mais frequência do que bons.

Will tentava ser presente nesses dias, mas Nico o afastava e se mantinha isolado no escritório, ou planejava viagens para os limites do Ducado, sempre mantendo distância do doutor nos momentos em que começava a quebrar.

O doutor entendia aquilo, e por mais que quisesse ajudar não tinha como começar se não era recebido bem quando tentava. Nico ficava uma semana nesse estado antes de voltar ao normal e contar piadas obscenas como se nada acontecesse.

Então, quando Nico retornou de uma de suas viagens para a cidade, Will pensou que ele iria agir desentendido, mas a feição severa em seu rosto o deixou alarmado.

Seguiu o Duque até o salão de baile onde Hazel praticava com o professor e a atendente pessoal junto de vários outros servos. Nico ordenou que saíssem, que iria dançar e que precisava esfriar a cabeça.

As moças fecharam as cortinas na mesma hora, dando privacidade para o salão e para o Duque. Hazel o encarou preocupada, mas Nico sorriu para ela reconfortante. A garota seguiu o professor para fora, mas não antes de lançar um olhar suplicante para Will.

O pedindo para ficar.

Todos abandonaram o salão às pressas e os soldados saíram dos corredores. Nico ficou no centro do salão encarando Will que permaneceu ali, imóvel.

— Pensei ter mandado você sair. — disse num arquear de sobrancelha desafiador.

— Eu ouvi, mas você não está bem. — relembrou Will se aproximando dele.

Nico deu um passo para trás em falso tropeçando no salto do sapato. Will esticou o braço o segurando pelo cotovelo enquanto a outra mão o puxava pela cintura. Um estremecer passou pelo corpo de Nico onde Will pode sentir sob seus dedos. Seus olhos se encontraram e o doutor o soltou bruscamente afastando-se.

— Me desculpe. — pediu alarmado.

Ainda não tinha coragem de tocá-lo, mesmo depois de tanto tempo e intimidade. Sentia como se Nico fosse reagir mal todas as vezes e manteve distância, por mais que quisesse segurar sua mão em determinados momentos.

Nico o fitou confuso encarando suas mãos, assustado. Will praguejou por sua idiotice observando-o com certo cuidado, medo de ter servido de gatilho para alguma coisa, mas Nico somente as observou, o rosto limpo e tranquilo.

Ele as fechou em punho encarando o pirata que pareceu entender no mesmo momento.

O Duque não estava tremendo como normalmente fazia.

Nico desviou o olhar para a janela fechada e então lhe estendeu a mão convidativo. Will franziu a tez.

— Já que está aqui seja útil e dance comigo. — falou por fim, um sorriso tímido brotando em seu rosto.

O pirata encarou sua mão estendida:

— Eu não sei dançar. — confessou. Nico arqueou a sobrancelha e Will emendou: — Não sei dançar as suas danças.

Nico riu: — Não vamos dançar o Minuet William, levaria um tempo para ensiná-lo e é uma dança para um homem e uma mulher. — afirmou aproximando-se dele: — Vamos dançar outra coisa.

Puxou a mão de Will para perto e a levou até sua cintura. O pirata estremeceu alarmado, mas Nico simplesmente aproximou seus corpos. A outra mão segurou na sua esquerda e a direita apoiada em seu ombro.

Deu um passo para o lado e para o outro, mal saindo do lugar. Will ficou tenso o tempo todo. Conhecia aquele tipo de dança, íntima à dois.

Um cortejo.

— Olhe para mim William. — falou Nico firme, mas doce: — Sinta.

O pirata o fez.

Encarou os olhos caramelo de Nico com carinho e se viu incapaz de desviar o olhar. O sorriso em seu rosto era sincero, e talvez o mais próximo que já chegou de suas barreiras abaixadas. Nico não fez menção de se mover além do que já fazia, convidando Will à tomar a liderança, a guiá-los.

O firmou na cintura e arriscou um passo para frente e um para o lado. Nico o seguiu sem tropeçar, o contato visual se tornando fogo em brasa. O aperto em sua mão ficou mais forte, os dedos finos de Nico cravaram em seu ombro como que atrás de apoio.

E quando Will deu por si estavam dançando pelo salão, dando voltas e mais voltas pelo chão espelhado. Nico então sorriu aberto, um sorriso tão lindo que Will tropeçou no passo seguinte quase os derrubando.

O Duque riu, divertido, mas manteve a compostura desta vez guiando-os pelo salão antes de devolver o controle para Will que tentou não derrubá-los. Em um momento Nico soltou de seu ombro fazendo um floreio com a mão e então girou sozinho pelo salão tomando o papel da donzela.

Se curvou minimamente, o sorriso em seus lábios divertido e a mão estendida. Will rolou os olhos aproximando-se dele e o puxando pela mão. Nico rodopiou em seus braços sendo preso de costas para Will, ambos braços sobre o estômago, trançados e entrelaçados aos dedos de Will.

Os dois estavam ofegantes, mas a dança de nada tinha a ver com isso. Nico respirou fundo fechando os olhos.

— É estranho. — admitiu, sua voz saindo repentinamente alta entre os dois depois do silêncio.

— O que?

— Seu toque. — falou, a voz mansa: — Não me incomoda como achei que iria, não igual da primeira vez.

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Will concordou soltando suas mãos enquanto Nico se virava para ele, seus olhos se encontrando. A mão de Will voltou para sua cintura e o Duque fechou os olhos de leve, apreciando-o.

— Não sei o que posso ou como posso tocá-lo. — confessou Will temeroso, seu polegar acariciando-o sobre a camisa: — Não quero causar aquilo em você de novo, nunca mais.

O Duque levantou os mãos tocando-o nos ombros rijos.

— Você me toca de um jeito que ninguém nunca o fez, deve ser por isso. — sussurrou Nico, a delicadeza em sua voz palpável. Will sentiu seu coração pulsar desesperado.

— Com receio?

— Como quem se importa. Como se eu fosse algo precioso. — disse baixo, uma confissão difícil de fazer: — Ninguém se importa, sempre vem e vão e nunca perguntam se estou bem.

Will quis perguntar quem, mas logo descobriu que não queria saber realmente.

— Eu me importo Nico. — reforçou o puxando-o para perto: — Mais do que pensa.

Nico soltou o ar surpreso, mas o sorriso ainda nos lábios.

— Ninguém nunca reagiu às minhas investidas dessa forma tão positiva, nem mesmo responder aos meus comentários mais impróprios. — comentou por fim, enlaçando seu braços ao redor de seu pescoço, confortável: — Ou eles me recusam educadamente ou saem correndo.

Will riu.

— Vai sair correndo? — sugeriu Nico sapeca: — Ainda dá tempo.

Will pensou em zombar e dizer que iria se ele o soltasse, mas algo em seu tom de voz o fez ficar quieto. Uma insegurança, o medo de que Will não quisesse aquilo e fosse por educação ou pena. Era singelo, mas estava ali e ele conseguia senti-lo ficando tenso a cada segundo.

O pirata sorriu aproximando seus rostos:

— Infelizmente, meu Duque, não pretendo ir a lugar nenhum. — confessou: — Vai ter que me aturar.

— Acho que posso lidar com isso. — e com um sorriso que pareceu ganhar o mundo Nico o beijou.

Seus lábios eram experientes e quentes, ágeis nos seus, mas o toque em seus cabelos, a forma como se inclinava sobre Will era afetuosa. Seus dedos enrolando em seu cachos, sua mão descendo por seu pescoço acariciando-o; seus suspiros contra os lábios do pirata.

Tudo era delicado, preciso. Como se quisesse preservar aquele momento, com medo que acabasse.

Will não se importava com o que Nico planejava fazer com eles no futuro, o tipo de relacionamento que os aguardava, mas estava certo de uma coisa: estava apaixonado e era recíproco.

O beijou de volta com todo o carinho que sentia falta de dar, com tudo o que não pode demonstrar nos cinco anos na pirataria. Seu corpo era quente, seus toques carinhosos e seus sons delicados.

Will decidiu daquele momento em diante que iria protegê-lo de tudo. E que Nico receberia todo o amor que lhe foi negado.

De novo e de novo, até que Nico pudesse sorrir de verdade em público, e que percebesse que poderia continuar a viver mesmo com as cicatrizes de combate.

Que merecia ser amado afinal.

Notas finais
Então? O que acharam? Eu sei, eles ficam juntos bem rápido, mas nesse universo próprio, o Will não tem problemas com se relacionar com homens e Nico nunca teve mesmo como Duque. Não tinha como desenvolver um relacionamento de 38 capítulos em 11.000 palavras, mas espero que tenham gostado da premissa. Se acharam bom eu pretendo voltar com mais Extras futuramente, quando atingirmos algumas metas em PaP que eu possa lhes dar mais um pouco desse UA dentro de Pit-a-Pat ruehruehre História dentro da história, acontece né? Bom, me digam o que acharam. Se a ideia é interessante, se a cara nova da fanfic está do agrado. Enfim, parabéns pra PaP e um milhão de agradecimentos a cada um de vocês ♥ ♥ ♥ Não seríamos nada sem o carinho e a paciência de vocês. Obrigada de coração ♥ Até o capítulo oficial. Beijinhos~