Pit-a-Pat
31 Capítulo XXXI
Notas iniciais

Nico
~Capítulo XXXI~
:: 54º dia na Itália — Semana 7 ::
[...]
O dia seguinte chegou junto de vozes no andar de baixo. Nico se remexeu na cama num resmungo sonolento, incomodado pelas vozes que pareciam tão altas. Suas costas doíam ligeiramente do tempo que ficou sentando no sofá no dia anterior. Se virou de bruços aterrando o rosto no travesseiro e esperando o sono voltar, mas já estava desperto o bastante para sua mente vaguear.
Suspirou satisfeito sorrindo abobado ao se lembrar da noite anterior, das mãos de Will nas suas e a implicação do que ele queria. Uma tentativa, uma chance de compreender o que ele sentia e como se expressar. Por Deus Nico não sabia como reagir aquilo além de rir tolamente.
Mordeu o lábio puxando a coberta para os ombros. Parecia surreal. Pela primeira vez em anos estava radiante e feliz com alguém. Sem aquela desconfiança toda ou máscaras e mentiras. Aquilo era de verdade, era o começo de alguma coisa e Nico com certeza tentaria fazer durar o máximo que conseguisse.
Seu coração palpitava dolorosamente em seu peito e só pensava em como descer naquela cozinha sem dar na cara o quão feliz estava com aquele avanço. Suspirou sentando finalmente na cama. O vento frio colidiu contra seu corpo o fazendo se arrepender de ter saído debaixo das cobertas.
Se levantou indo atrás de suas roupas de sempre. Prendeu o cabelo com a fita e andou até a porta bocejando audível. Abriu ela dando de cara com uma criança de dois anos sentada nos degraus da casa brincando com alguma coisa em mãos. Parecia um tipo de cavalo de madeira.
Nico sorriu pro pequeno se aproximando manso. O rapazinho olhou para ele curioso abrindo um sorriso enorme. Esticou os braços para ele e Nico sorriu o pegando no colo assim que chegou no final da escadaria.
O pequeno riu animado enquanto o pirata entrava na cozinha. Kayla e Will estavam conversando sobre algo, mas a moça parou ao ver o pequeno nos braços do rapaz. Ela sorriu:
— Desculpe a folga dele, Vossa Alteza. — disse ela rolando os olhos. Nico negou:
— Tudo bem, não vejo problema algum. — admitiu o colocando no chão quando o garotinho pediu para descer.
Nico ficou ereto olhando Will que sorria para ele envergonhado.
— Bom dia. — falou o doutor afetuoso.
— Bom dia. — respondeu no mesmo tom. Kayla pigarreou:
— Dylan saiu para ir atrás dos homens que irão ajudá-lo. Creio que ele deva voltar hoje à noite. — avisou a moça recebendo um aceno compreensivo de Nico.
— Conversaremos mais sobre isso quando ele voltar então. — comentou ele se servindo de um copo de chá na mesa. Olhou Will de cima à baixo: — Por que está todo arrumado? Tem alguma visita pra fazer hoje?
Will confirmou: — Tenho quatro. três crianças e uma mulher adulta. Já estou de saída, só preciso terminar de arrumar minhas coisas.
Nico meneou a cabeça terminando o chá em três goles grandes.
— Eu te ajudo. — comentou recebendo um sorriso do doutor que saiu da cozinha sendo seguido pelo pirata.
Caminharam até o escritório onde Will terminava de colocar algumas ervas em sua bolsa, além de panos limpos e uma máscara médica. Nico torceu o lábio para ela, mas decidiu não comentar nada.
Will colocou alguns outros potes na mala antes de fechá-la. Suspirou profundamente olhando Nico nos olhos. O pirata sorriu avançando com sua mão até a do doutor acariciando-a delicadamente, um gesto de conforto.
O doutor sorriu de volta levantando sua mão e entrelaçando seus dedos trazendo Nico para mais perto. O pirata respirou entrecortado com a aproximação. Will levou sua mão até seu rosto colocando uma de suas mechas de cabelo atrás de sua orelha. Nico sorriu tímido desviando o olhar.
O doutor imitou o gesto dele se afastando, mas mantendo as mãos juntas.
— Tem problema em ficar com minha irmã o resto do dia? — perguntou Will ligeiramente preocupado.
Nico negou:
— Nenhum. Ela parece interessante. É uma boa forma de nos conhecermos melhor, certo? — assegurou o pirata olhando para trás rapidamente. Se aproximou outra vez de Will depositando um beijo em sua bochecha, vendo o rubor se espalhar pelo rosto do doutor: — Melhor você ir antes que fique tarde.
Will confirmou pegando a mala e saindo da sala com Nico logo atrás. Kayla os interceptou no Hall ajeitando a gravata engomada do irmão.
— Soube que um de seus pacientes tem uma doença infecciosa. Tome cuidado. — pediu ela séria. Will sorriu beijando sua testa num gesto terno.
— Vou sim. — afirmou ele abrindo a porta e olhando para os dois: — Se comportem.
— Sim, senhor.
— Claro, irmão.
Responderam em uníssono tirando uma risada de Will antes dele sair definitivamente da casa deixando os dois sozinhos. Kayla retesou a coluna visivelmente tensa. Nico cruzou os braços abrindo um sorriso cortês.
— Vou terminar meu desjejum. Me acompanha? — perguntou educadamente para a moça. Kayla o encarou por um longo momento antes de confirmar num sorriso tímido. Seus ombros relaxando levemente.
Ela entrou primeiro e então Nico se serviu do pão fresco da mesa e mais um pouco de chá. Kayla se sentou à sua frente pensativa.
— Posso te fazer uma pergunta? — indagou a moça, mas mãos entrelaçadas em seu colo, séria.
Nico mudou sua feição para algo mais severo.
— Depende. Se for algo razoável. — respondeu ele deixando o copo de chá de lado.
— Por que nunca voltou pra cá se tinha contatos para conseguir o Ducado de volta? — perguntou a moça curiosamente.
Nico ponderou. Independente do que falasse para ela Kayla provavelmente não compreenderia seus motivos e ter de omitir que foram cinco anos de pirataria também não ajudava.
Respirou fundo pensando por onde começar a explicar:
— Várias razões. — Comentou passando a ponta do indicador na borda da xícara: — A primeira delas era a falta de dinheiro, como disse ontem. A segunda era o fato de não ter ciência de até onde o golpe se estendia e se, no final das contas, meu pai estivesse envolvido. A terceira foi o fato de não ter aliados de verdade. — disse apoiando ambos braços em cima da mesa: — Não tinha como saber se Dylan ou mesmo Giovanni estavam de fora do conflito.
Kayla meneou.
— E além disso, durante meus cinco anos eu fiquei impossibilitado de voltar por causa do meu serviço. Só consegui agora por ter me ferido em uma das minhas viagens que passava por aqui. — concluiu mascarando seus cinco anos de pirataria e o real motivo da ferida.
A menina balançou a cabeça, mas a tez ainda franzida:
— Nunca pensou em arriscar? Não valeria a pena voltar a ser quem você era?
Nico cerrou os olhos antes de suavizar o olhar:
— Eu ainda sou eu. Com ou sem título de nobreza. — relembrou ele sorrindo para a menina: — Muitas vezes pensamos que só somos o que somos por causa de nossas posses, nossos títulos, nossos feitos, mas o que somos está em nós desde o começo. Eu cuidar de um ducado ou vender café não faz diferença.
O sorriso em seu rosto era sincero. Nico precisou de anos para compreender isso, e entender esse fato ajudou a se aceitar como um pirata. Nico poderia ser um vigarista, um pirata traiçoeiro, mas ele ainda era a mesma pessoa de quando usava uma roupa pomposa e pó no cabelo. A única diferença é que como pirata ele poderia realmente mostrar quem ele era, sem sociedade para julgá-lo.
Quando descobriu isso foi como alcançar o nirvana.
Kayla soltou uma risada de deboche:
— Se o senhor diz. — completou ela se levantando: — Se vão se juntar homens de alta classe aqui essa casa precisa estar impecável. Sabe quando a Andréa chega?
Nico arqueou a sobrancelha:
— Quem?
— Andréa, a governanta do Will. — repetiu ela como se Nico fosse tapado.
O rapaz começou a desgostar um pouco da garota.
— Nunca vi essa mulher por aqui. — reforçou ele se impedindo de mandar a menina se colocar em seu lugar.
— Estranho, Will não comentou nada comigo de ter mandado ela embora. Ele não sabe fazer nada na casa além de cozinhar. — resmungou a mesma com a mão no queixo: — Quando foi a última vez que limparam a casa?
Nico piscou uma, duas vezes se recusando a responder isso. Kayla fez uma cara de horror.
— Por Deus! Vocês homens não tem noção de limpeza? — indagou ela andando apressada para fora da cozinha.
Nico a seguiu com o olhar antes de constatar que seria bom talvez seguí-la de verdade. Se levantou e foi atrás do furacão Ferrarezi. Ela estava vestindo o chapéu e a echarpe olhando Nico séria:
— Vou sair rapidinho, olha o Lorenzo pra mim? — pediu ela abrindo a porta e saindo sem nem mesmo esperar uma resposta.
Nico torceu o lábio irritado.
— Mulherzinha mal educada. — resmungou pra si mesmo espiando o pequeno folheando um dos livros de Will sentado no chão. Parecia se divertir com as figuras de plantas nas páginas.
Num suspiro latente o pirata foi até ele o pegando no colo e o depositando no sofá.
— Então, quer ouvir uma história?
☠
Ao passar uma hora Kayla se fez presente na casa entrando irritada. Nico a observou por cima do sofá enquanto Lorenzo brincava com Nico batendo com as palminhas nas mãos ásperas do pirata.
— Ele demitiu ela tem três meses, dá para acreditar? — vociferou a mulher retirando o chapéu e a echarpe: — Achei um tanto curioso isso.
O olhar dela era acusador e Nico pode compreender isso. Era o mesmo tempo em que ele estava morando na casa. Franziu o cenho abaixando o olhar para o pequeno que parecia entretido com suas mãos.
— Não tenho a mínima ideia, menina. — respondeu ele a encarando novamente: — Nunca vi ela, nem nos primeiros dias que estava aqui.
Kayla respirou fundo caminhando até a poltrona e se sentando nela. Lorenzo parou o que fazia para encarar a mãe, mas resolveu que brincar com Nico era mais interessante.
— Bom, independente de ele ter ou não um bom motivo para dispensar sua governanta eu a recontratei. Soube que ela está sem trabalho, então pelo menos por hoje ela recebe um dinheiro. — emendou depositando ambas mãos no colo e fechou os olhos parecendo cansada.
Nico mordeu o lábio imaginando o motivo de Will ter demitido a mulher, mas então a resposta veio como um clique. Governantas estão em casa o tempo todo, moram na casa de seus senhores e sabem de tudo que acontece entre as paredes.
Will sabia que Nico ser um pirata não seria um segredo que poderia guardar de uma mulher vivendo na casa o tempo todo. Ela iria descobrir, iria perceber e isso poderia condenar à ambos.
Ele a demitiu por causa de Nico.
O pirata suspirou baixo compreendendo mais uma vez o quanto sua presença interferia na vida de Will. Não era uma coisa boa de se ter em mente.
— Então ela virá hoje? — comentou Nico ignorando o bolo em sua garganta.
— Sim. Chegará depois do almoço. — respondeu ainda de olhos fechados. O rapaz mordeu a bochecha se levantando do sofá.
Entregou o brinquedo de Lorenzo e caminhou para a cozinha.
— Então é melhor começarmos a fazer o almoço. — falou lhe dando um tapa no ombro da moça no caminho. A mesma pulou no lugar pelo susto.
— Mas o que?
— Anda menina, você vai me ajudar. — falou sem muita paciência. Ela fez uma cara desgostosa.
— Quem disse que eu sei cozinhar?
Nico arqueou a sobrancelha:
— E agora pouco estava criticando nossa inabilidade de limpar a casa. — cuspiu ele irônico: — Não acha que é hipocrisia demais pra sua idade?
— Hunf. — resmungou se levantando e seguindo o pirata até a cozinha. O vestido fazendo barulho ao andar. Nico se incomodou um pouco com o barulho, havia se desacostumado com o quão irritante é um vestido das moças da classe média-alta.
— Vamos limpar um frango. — disse por fim retirando a ave abatida ainda cheia de penas da bacia com água gelada que Will havia colocado na noite anterior.
Ajudava a manter a ave fresca, mas tinha de consumir em vinte e quatro horas no máximo. Kayla soltou um som de puro nojo.
— Eu não vou tocar nisso, está morto. — disse ela enojada.
Nico bufou:
— Iria preferir que estivesse vivo pra você comer então? — cuspiu sem paciência. Por Deus, Hazel nunca deu trabalho assim.
Ela cruzou os braços relutante.
— Nunca cozinhei antes. Sempre tive empregadas para fazer isso por mim, por que agora deveria te ajudar? — indagou observando a ave com o nariz franzido.
— Eu você acha que eu por acaso fazia minha própria comida na minha casa? — rebateu ele balançando a cabeça incrédulo. Kayla ficou calada: — É bom saber fazer isso, porque eu tive de aprender na marra como sobreviver. Você não sabe o dia de amanhã e pode precisar saber fazer isso para seu filho não passar fome. — disse por fim balançando a ave morta de um lado para o outro.
Kayla grunhiu, mas aceitou a ideia.
— O que eu faço então? — falou aproximando-se cautelosa.
— Ferva água. — pediu Nico: — Precisamos tirar as penas, mas elas só saem com água fervente.
Kayla aquiesceu pegando uma panela grande com água e colocando no fogo que Nico ascendera pra ela. Enquanto esperavam começaram a cortar cenouras e cebolas para colocar no tempero.
— Pensei que não soubesse cozinhar. — começou Kayla enquanto cortava a mesma rodela de cenoura numa lerdeza irritante, mas Nico resolveu deixar ela ir no seu próprio tempo e evitar perder um dedo ou dois.
— Não sei. — admitiu dando de ombros, suas mãos ágeis na cebola na pia, de costas para a menina: — Eu sei o básico. Limpar animais, cortar coisas, passar café, fazer chá. O resto nem sei por onde começar.
Ela soltou uma risadinha:
— Então o que vamos fazer com tudo isso? — perguntou ela divertida.
Nico se virou para Kayla num sorriso cúmplice: —Jogar na panela e ver se vira comida.
A menina riu pegando uma das rodelas de cenoura e jogando nele. O rapaz sorriu voltando a cortar a cebola.
Assim que a água ferveu colocaram a ave dentro e esperaram um tempo antes de retirá-la para Nico começar a arrancar as penas que saíam facilmente. A parte bruta do corte e da limpeza Nico resolveu não entregar à menina, mas a fez ver todo o processo.
Ela ter ficado verde enquanto ele arrancava as tripas talvez o tenha feito ganhar o dia.
Talvez.
Colocaram os temperos dentro da ave limpa, um pouco de azeite e colocaram em outra panela para cozinhar. Dali em diante era esperar. Se sentaram na mesa da cozinha e Kayla desatou a falar. Parecia mais à vontade na presença de Nico, menos nervosa ou bruta.
As histórias dela iam desde sua infância com Will até seu casamento e histórias sobre Lorenzo que deixavam Nico nostálgico.
— Ele ainda não fala muito bem, só o básico, mas é bonitinho ver ele tentando. — comentou ela num sorriso amoroso: — Normalmente ele confunde as coisas ou acha que tudo é a mesma palavra, mas acho tão fofo.
Nico sorriu para ela:
— Foi o mesmo com Hazel, ainda que ela não seja minha filha. — comentou ele nostálgico: — Sinto falta dessa parte da minha vida.
— As crianças? — perguntou ela curiosa.
Ele concordou:
— Sim. Pode parecer engraçado, mas eu gostaria de poder ter uma criança ainda em algum momento. — comentou sorrindo meigo: — Mas eu penso em adotar. O que eu passei nas ruas sei que muitas crianças mais novas que Hazel também passaram, e se eu puder resgatar e cuidar de alguém que precise de mim será o bastante.
Kayla sorriu, mas não estendeu a conversa.
Duas batidas na porta chamaram a atenção dos dois. Kayla suspirou forte:
— Deve ser a Andréa. — comentou se levantando e indo até a porta. Nico por sua vez foi dar uma olhada no frango que cozinhava. Sinceramente ele não sabia o que estava fazendo.
Ouviu as vozes se aproximando e se virou para ver a ex-governanta entrar na cozinha. Estava usando um vestido bege sem muitos charmes fechado até o pescoço com botões brancos grandes e lustrosos; os cabelos presos em um coque bem feito e firme no lugar, sem nenhum fio de cabelo escapando do arranjo.
Suas luvas iam até o cotovelo, e a pequena mala em sua mão na cor marrom fechava o conjunto. Os cabelos eram cor mel e os olhos negros eram sérios. Uma mulher de pelo menos umas quatro décadas de idade, com muito pra ensinar.
Ou dar bronca.
Nico se aproximou curvando-se educadamente:
— Me chamo Nico Levesque. — apresentou-se voltando a posição ereta.
Andréa o analisou de cima a baixo antes de lhe oferecer a mão e um sorriso cortês.
— Andréa Povarolli. — respondeu enquanto Nico lhe beijava a mão: — Soube que está morando com o jovem mestre.
— Sim.
— Fico contente que ele tenha um amigo depois de todos esses anos. — comentou ela orgulhosa. Olhou rapidamente em volta parando os olhos na panela sobre o fogo: — O que estão cozinhando?
— É um experimento. — respondeu Nico sorrindo sapeca: — Ou vira comida pra nós ou alimento pros cães na rua.
Kayla riu se sentando à mesa novamente:
— Espero que comida. — Zombou ela entrando na brincadeira.
Andréa rolou os olhos deixando a mala em um canto e indo até a panela. Observou a ave por um tempo antes de fechá-la.
— Vai virar comida, o sabor mesmo só vamos descobrir quando ficar pronto. — frisou se voltando para Nico: — Vou começar às arrumações. Se tem algo que gostaria que eu não mexesse melhor esconder.
Nico ficou tenso.
Suas coisas piratas estavam escondidas no assoalho solto do quarto, então as chances dela achar eram mínimas, mas provavelmente pra alguém tão bem acostumada com a casa achar esses esconderijos deveria ser fácil.
Antes de responder viu Will entrar pela cozinha e parar no lugar ao ver Andréa. A governanta lhe sorriu e o doutor só soube olhar para Kayla repreensivo.
— Bom dia, William. — cumprimentou a mulher. Will sorriu para ela:
— Bom dia, Andréa. — respondeu se aproximando deles: — Há que devo sua visita?
— Eu a recontratei. — disse Kayla se apressando pra continuar antes que Will explodisse com ela: — Mas só uma vez por semana. Pelo que ela me disse você precisava cortar custos, mas deixar a casa nesse estado de perdição não é uma opção.
Will suspirou massageando as têmporas. Nico segurou o riso.
— Obrigado por resolver aparecer Andréa, mas não sei se posso te manter fixa por aqui. — explicou sério. Kayla resmungou inconformada.
— Eu compreendo, mas fiquei sabendo que receberá visitas. Mesmo que não me mantenha quatro vezes por mês pelo menos me deixe organizar as coisas agora. — disse a mulher esperando a resposta do doutor.
Will olhou rapidamente para Nico, parecia realmente preocupado, mas não sustentou o olhar o bastante pro pirata decifrá-lo.
— Pois bem. — cedeu: — Se puder ajudar agora eu agradeço. Conversamos mais tarde sobre você retornar ou não.
Ela se curvou ligeiramente, parecendo satisfeita com a decisão.
— Vou repetir o que disse ao senhor Levesque. Vou começar a arrumação. Se tem algo que não quer que eu mexa, guarde. — repetiu a mulher retirando as luvas e voltando à panela.
Nico olhou para Will sério. O doutor entendeu acenando com a cabeça.
— Nos dê um momento então. — pediu seguindo para o segundo andar com Nico logo atrás.
Entraram no quarto do pirata.
— Onde eu poderia esconder uma arma e uma espada e itens pirata sem aquela mulher lá embaixo achar? — resmungou Nico.
Will riu:
— Os baús nos quartos são para isso. — explicou ele apontando para o baú de bronze no pé da cama: — Tudo que não quer que mexam guarde lá. Ele fecha com chave e é o único lugar que Andréa não mexe.
Nico meneou a cabeça:
— Mas se chegar alguém mais perigoso que uma governanta vai achar minhas coisas. — rebateu sério: — Mas acho que dá por enquanto.
Will concordou saindo do quarto enquanto Nico se ajoelhava no chão e removia o assoalho para o pequeno espaço que havia feito. Deixou as armas, mas pelo menos as roupas colocaria dentro do baú.
O doutor retornou com uma chave abrindo o baú. Nico guardou o que precisava e recebeu a chave. Resolveu guardá-la no assoalho por precaução. Se virou para Will o segurando pela mão. O doutor sorriu beijando os nódulos de seus dedos finos.
— Como foram as consultas? — perguntou curioso. Will suspirou se sentando na cama puxando Nico com ele.
— Só visitei as crianças, vou precisar sair mais tarde para ver a mulher. — explicou: — As crianças estão com doenças leves, vão passar com as ervas que receitei.
— Bom saber. — respondeu Nico sorrindo. Will devolveu o gesto:
— Como foi com a Kayla?
— Mau educada, mas já acostumei. — respondeu tirando um rolar de olhos do doutor.
— Me conte uma novidade.
Ambos riram.
— Se eu dissesse que senti sua falta seria muito absurdo? — comentou Nico em graça. Will sorriu para isso apertando levemente sua mão entrelaçada na dele.
— Não. Eu senti também. — admitiu ele respirando fundo: — Acho que passamos tempos demais juntos nesses últimos dias. É estranho sair assim.
— Concordo, principalmente agora. — falou mordendo o lábio inferior evitando contato visual.
Nico estaria mentindo se dissesse que não estava temeroso com a decisão do Will. O doutor poderia se arrepender na metade do caminho, ou decidir que aquele tipo de relacionamento não era o que ele tinha em mente, afinal o que Nico tinha para lhe oferecer?
Will pediu para avançarem com calma, para entenderem o que estava acontecendo entre eles e como desenvolver aquilo. Ele entendia, claro que sim, e por mais que o doutor parecesse receptivo com o fato de ainda estarem de mãos dadas atiçasse as borboletas em seu estômago, ele ainda temia por um final ruim entre eles.
Will acariciou sua mão com o polegar levando sua mão livre até seu rosto o virando para ele. O doutor tinha o olhar preocupado, mas sorriu o mais sincero de seus sorrisos. Nico retribuiu o gesto sentindo um peso sair de seus ombros.
Will se aproximou dele depositando um beijo em sua testa de forma carinhosa. Nico riu abobado com o gesto. Pelos deuses ele parecia uma menininha apaixonada!
— Jovem mestre já terminou de guardar as coisas? — a voz da Governanta ecoou pela casa fazendo os dois se afastarem bruscamente.
Nico respirou fundo tentando acalmar o coração. Tinha esquecido das mulheres na cozinha!
Will pigarreou sem graça:
— Já sim, só um momento Andréa. — pediu ele soltando o ar tenso. Nico riu da situação deles. Aquilo era pateticamente clichê.
— Vamos descer Raio de Sol. — sugeriu Nico se levantando da cama. Will concordou sorrindo para ele ao se levantar também.
— Quero ouvir mais tarde como foi passar o dia com minha irmã. — sugeriu ele depositando um beijo em sua bochecha, um sorriso meigo desenhado em seu rosto: — Vamos.
Ele se afastou saindo do quarto enquanto Nico tapava o rosto que ardia como brasa.
Demorou um pouco para se recompor antes de descer atrás do doutor. Andréa dava mais uma olhada na panela enquanto Will segurava Lorenzo no colo e conversava calmamente com Kayla.
— Já que os senhores terminaram, vou começar a limpeza. Não precisam me esperar para o almoço. — respondeu Andréa fechando a tampa da panela e saindo da cozinha: — Com licença.
Nico saiu do caminho dela e andou até Kayla apoiada na mesa. Will devolveu Lorenzo ao chão.
— A ave já está pronta? Porque estou morrendo de fome. — admitiu o doutor com as mãos na cintura. Nico olhou para Kayla cúmplice.
— Quer ser nossa cobaia? — sugeriu a irmã sapeca. Will arqueou a sobrancelha levemente, mas não respondeu à pergunta.
Kayla somente riu indo até a panela servir um pouco para o doutor. Will olhou para Nico curioso, mas o pirata colocou as mãos no pescoço fazendo uma careta, como se a comida fosse envenenada.
Will riu disso ignorando o fato de que a comida realmente pudesse ser mortal.
— Aqui. — disse dela colocando o prato na mesa: — Vê que gosto tem e por favor não morre.
Com um rolar de olhos o doutor sentou-se à mesa pegando uma garfada da comida. Ele deu de ombros engolindo a carne.
— Não tem muito gosto, mas dá pra comer. — admitiu pegando outro pedaço e oferecendo o garfo ao Nico: — Experimenta.
O pirata soltou uma risada incrédula, mas se inclinou na mesa comendo da carne sem tocar no garfo. Observou Will prender a respiração. Ele provavelmente esperava que Nico pegasse o garfo.
Kayla riu:
— Nem é folgado. — zombou a garota servindo um pouco da comida para dar ao Lorenzo.
Will ruborizou desviando o olhar do pirata que sorria sem vergonha alguma.
— Não tem gosto de nada, Kayla. — disse ele por fim indo se servir.
☠
Depois do almoço Will saiu novamente indo visitar a mulher, enquanto isso Kayla resolveu colocar Lorenzo para dormir e subiu para o quarto de hóspedes que Andréa já limpara.
Nico aproveitou o silêncio para espairecer um pouco. Tinha que planejar todo um discurso para convencer os nobres à apoiarem sua tomada de poder.
Esteve ausente por cinco anos sem reforçar o apoio de pessoas influentes durante esse tempo. Por mais que conhecesse alguns nobres devotos a casa Di Angelo não era certeza que apoiariam sua causa.
Havia infelizmente a questão do escândalo. A nobreza sempre evitou se envolver em problemas alheios para fugir de exposições. Nunca auxiliaram sua família no passado em questões pessoais; fingiram que Maria era feliz e não precisava de ajuda.
Temia que no final ninguém realmente o apoiasse.
Respirou fundo balançando levemente para frente e para trás. Não estava ventando tanto, mas ainda sentia um calafrio correr por seu corpo. Apertou as mãos na corda afetado por suas suposições.
Se quisesse realmente convencer aqueles homens enganados a ajudarem precisaria ter uma espécie de plano de ataque. Fechou os olhos tentando recriar sua casa em sua mente.
A mansão era contornada por florestas dos quatro lados. O fundo dava para um lago particular enquanto as laterais eram cheias de pomares carregados na primavera.
A estrada principal dava acesso à cidade pertencente ao Ducado. Um único acesso para carruagens e a locomoção do exército. A entrada de funcionários era nos fundos estreita e quase nunca vigiada, mas a quantidade de pessoas que passavam por ali era preocupante se quisessem entrar despercebidos.
Precisaria de pessoas de dentro da mansão trabalhando para ele se quisesse realmente entrar na mansão.
Dylan provavelmente conhecia pessoas dispostas a trair o Castellan ou arrependidas do golpe, mas enquanto o soldado não retornava com respostas só podia mesmo especular.
A porta dos fundos se abriu passando por ela o doutor, o semblante era sério e cansado. Nico parou o balanço encarando Will preocupado.
O doutor caminhou até ele sentando no banco ao lado da árvore. Fechou os olhos massageando-os com os dedos. Nico se levantou ocupando o espaço ao lado dele.
— O que houve?
— Tive que colocá-la em isolamento definitivo. — admitiu suspirando: — Está com tuberculose.
— Oh… — Nico abaixou o olhar. Tuberculose era uma doença mortal.
Depositou sua mão sobre a de Will para confortá-lo. O doutor deitou sua cabeça em seu ombro entrelaçando seus dedos por breves momentos.
Nico estava ciente de Andréa e Kayla dentro da casa, mas não afastaria o toque de Will. Não quando ele precisava daquele contato.
Virou a cabeça depositando um beijo terno em seus cabelos loiros acariciando sua mão com o polegar. Will suspirou confortável no toque do pirata.
Ficaram um momento assim aproveitando a presença um do outro. O silêncio do Jardim; a brisa fresca do verão e o sol se pondo por detrás dos sobrados.
Nico fechou os olhos aproveitando aquele momento de paz, pois dali por diante dias pacíficos se tornariam raros.
A porta dos fundos se abriu forçando Nico a soltar a mão do doutor prontamente. Will ficou ereto encarando Dylan que saia da casa com imponência.
Nico arqueou a sobrancelha questionador:
— Visitei as casas dos nobres que nos apoiariam na causa. — explicou Dylan cruzando os braços.
— E? — incentivou Nico impaciente.
Dylan sorriu para ele:
— Prepare sua melhor roupa Vossa Graça, receberá visitas importantes em dois dias. — respondeu satisfeito.
Nico soltou o ar aliviado. Se eles concordaram em se encontrar com ele poderia convencê-los a investir naquela batalha.
Sorriu cheio de malícia se levantando com leveza. Dali para frente não era mais um pirata ferido se escondido da marinha, sequer um homem sem nome ou terras; um desonesto atrás de honrarias.
Era Nicollà di Angelo, Duque de Veneza.
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