Pit-a-Pat
32 Capítulo XXXII
Notas iniciais

Nico
~Capítulo XXXII~
:: 54º dia na Itália — Semana 7 ::
[...]
Nico entrou em casa junto de Dylan para entender mais a fundo sobre as conversas com os nobres. Ele havia sido bem claro quanto à suas restrições, pois nobres são complicados de lidar, e muito provavelmente deixariam alguém ruir se isso significasse poupar o próprio pescoço.
Ele escreveu cartas, marcando-as apropriadamente com seu selo e assinatura, dando instruções de entregá-las pessoalmente aos nobres e explicar a atual situação caso as palavras na carta não fossem o suficientes.
Sentou-se na poltrona enquanto Dylan se apossou do sofá ao lado. Cruzou as pernas e esperou pelas informações do soldado.
— O Visconde Abbateli foi o primeiro que visitei. — começou Dylan: — Depois de ler sua carta ele imediatamente já se dispôs a ajudar mesmo sem conhecimento mais à fundo da causa. Ainda que isso nos seja vantajoso, vamos precisar esclarecer muitas coisas na reunião.
Nico concordou com a cabeça, pensativo.
— Especifiquei na carta a necessidade de forças bélicas, além de financeiro. É uma guerra interna. Ele estava ciente disso? — indagou o Duque sério.
Dylan umedeceu os lábios:
— Sim, está ciente, mas não creio que ele seja de grande ajuda na área financeira. O Visconde tem passado por crises nos últimos anos. — ressaltou o soldado.
— Me lembro disso. — afirmou Nico solene: — Mesmo antes do golpe já passava por problemas em sua casa.
— Mas ele irá comparecer na reunião. — concluiu Dylan. Nico meneou a cabeça para que continuasse: — O Marquês di Stefano também aceitou entrar na resistência, mesmo sem ter mais detalhes da causa.
Nico crispou os lábios: — Não que seja ruim, mas eles podem desistir da causa ao saberem do que se trata. Posso ser um Duque, mas ir contra um Conde não é simples, mesmo para o Marquês que é hierarquicamente superior ao Castellan.
— Brigas na nobreza sempre são resolvidas por baixo dos panos. Nada da forma como planeja fazer. — relembrou Dylan, a tez franzida: — Tem certeza que quer transformar esse problema em batalha? Já não tem problemas demais com o Imperador?
Nico bufou:
— Tenho, mas quem disse que a culpa recairá sobre mim? — comentou desafiador. O soldado ficou calado: — Para entrar nesse jogo, Dylan, precisa jogar conforme as regras. Acho que conheço o suficiente da Nobreza italiana para decidir como e quando agir em prol dos meus ideais.
— O Visconde e o Marquês estão entrando nessa de primeira, pois preferem conversar pessoalmente comigo antes de negar, afinal de contas é um pedido direto de um Duque. — explicou Nico: — O entusiasmo é para mascarar qualquer sinal de desconfiança, mas não vão bater o martelo até terem certeza do que eu tenho em mente.
Dylan concordou com a cabeça, compreendendo.
— Vocês nobres são complicados demais. — grunhiu o soldado recebendo um rolar de olhos de Nico: — O Conde de Baltimore se recusou a dar uma resposta sem antes confirmar que você está mesmo liderando essa revolta.
— Compreensível. Sempre foi um homem sensato. — disse Nico encostado na poltrona: — Prossiga.
— Já o Grão-Duque Howard não me recebeu, somente pegou a carta. Nem mesmo deixou que os empregados perguntassem mais a fundo sobre o golpe. — explicou desconfortável: — Mandou dizer que não havia provas de que você havia sumido nos últimos cinco anos, e que não se envolveria em uma revolta por um falso Duque.
Nico mordeu o lábio. Ter o apoio do Grão-Duque era importante tanto pela parte bélica e financeira, quanto pela moral dos homens que fariam parte daquilo. Howard era um homem influente, poderoso e bem visto pela sociedade nobiliária. Ter seu envolvimento direto faria com que a revolta se tornasse mais concreta, menos filosófica.
Porém, Nico conseguia entender a recusa. Ele mesmo, se fosse há cinco anos quando ainda era Duque, teria recusado qualquer proposta de revolta ou golpe que lhe pedissem auxílio. Não era tolo, e o Grão-Duque muito menos.
— Quem mais além dos três? — inquiriu sério.
— Giovanni convenceu os Generais Mogliezzi, Pamparonni e Artiaggli a participarem do golpe. — deu as boas notícias, mais calmo falando de soldados do que de nobres.
Nico ficou chocado, ainda que não demonstrasse isso. Eram mais pessoas do que esperava para um ataque tão repentino. Nem mesmo dos nobres amigos da família ele esperava muita coisa, mas ali estavam três dos quatro que poderiam ajudá-lo determinados à comparecer na reunião.
Talvez as coisas não estivessem tão perdidas quanto aparentavam.
— Bom. Vamos precisar trazer estes homens até aqui sem chamar atenção. Espero que tenha explicado para eles como faríamos para nos reunir, certo? — inquiriu Nico sisudo. Dylan confirmou:
— Claro Vossa Graça, foi a última coisa que fiz antes de partir. — garantiu severo: — Mesmo usando de tais precauções ainda há chances de sermos pegos.
— Sim há. E é exatamente por isso que preciso que você deixe soldados disfarçados à espreita da casa. Qualquer movimento suspeito deve ser levado em conta. Homem ou mulher, velhos ou crianças. Não deixe nada passar. — ordenou fechando os olhos.
Ouviu Dylan saudá-lo e depois pedir licença para ir atrás de Kayla. Isso deu a Nico um tempo para refletir as coisas que havia compreendido pelas informações do soldado. Foram ao todo quatro cartas seladas e assinadas por suas próprias mãos e entregues à eles, das quatro somente três chegaram aos respectivos donos da forma que pretendia.
Das três, duas delas já estavam comprometidas à ajudar, ainda que Nico soubesse que por detrás desse acordo haveria algo em troca e deveria estar preparado para pagar sua dívida. Outro ponto que o alarmou foi o envolvimento direto do exército do Ducado. Conseguir auxílio dos Comandantes de três linhas diferentes do exército não era um feito fácil, levando em conta a seriedade daqueles que usam o emblema da família Di Angelo.
O Grão-Duque Howard era uma preocupação à levar em conta.
Ele se recusou a encontrar com Nico alegando a falta de provas de sua ausência. O que leva a crer que ele já se encontrou com o Castellan em algum momento e compactua com o golpe — o que seria ruim em todos os aspectos —, ou ele realmente não está sabendo de nada, mas se recusa a acreditar em fofocas.
Nico não era tolo em relação à elas, e sua suposta doença — diabetes —, que o deixou acamado por cinco anos com certeza não passaria despercebido pela nobreza italiana, muito menos por aqueles próximos.
Se o Grão-Duque decidisse investigar à fundo aquela reunião, poderiam ter um grande inimigo contra eles.
E a forca começaria e ter formas mais justas e em torno de seu pescoço.
— Nico?
O Duque deu um salto, não esperando alguém chamá-lo naquele momento. Abriu os olhos vendo Will inclinado em sua direção, rosto coberto de preocupação. Nico sorriu para ele, tentando amenizar o clima.
— Sim?
— Kayla e Dylan voltaram para a hospedagem, e Andréa se retirou por hoje. — avisou se sentando no sofá.
Nico concordou levantando da poltrona e ocupando o espaço ao lado de Will, acomodando-se ali com um suspiro aliviado. A tensão começando a sumir pouco a pouco de seus membros.
— Amanhã será o último dia calmo que teremos. — admitiu Nico, encarando Will de soslaio: — Depois disso não sei quando as coisas vão melhorar novamente.
Will assentiu. Deslizou seus dedos pela palma da mão de Nico entrelaçando seus dedos afetuoso. Nico sorriu mordendo o lábio inferior para segurar a pequena euforia em seu peito.
— Então melhor aproveitarmos a paz enquanto ela durar. — sugeriu Will deitando a cabeça no ombro de Nico. O pirata tombou a sua em cima da do doutor e ali ficaram encarando as chamas da lareira arderem fracas na lenha já queimada da tarde.
Seria complicado a interação entre eles enquanto a casa estivesse lotada, principalmente de nobres e homens do exército. Gostaria de poder privar Will daquilo, mas sabia muito bem que seria impossível convencê-lo a ficar na casa dos Beckendorf durante os encontros.
Precisaria deixá-lo a par de tudo.
Prometeu à si mesmo não esconder mais nada dele, então deveria começar a cumprir isso.
— Daqui dois dias irei me reunir com três nobres e três comandantes do exército. — avisou acariciando a mão do doutor com o polegar.
Will suspirou: — São confiáveis?
— Sim. — respondeu: — Os conheço há muito tempo. Estão no ofício a mais tempo do que eu, aliás. — ele riu sem emoção. Will o acompanhou fracamente.
— Existe alguma chance deles descobrirem que é um pirata?
Nico crispou os lábios. As chances eram mínimas, pelo menos entre os nobres. O problema seriam os Comandantes que veriam certa semelhança entre seu jeito de pensar e agir com piratas ou marginais.
Não pretendia jogar limpo. Não era mais um Duque para tal ato nobre.
— Sim. — admitiu. Will ficou tenso afastando-se o suficiente para encará-lo nos olhos, as mãos ainda entrelaçadas.
— E mesmo assim vai arriscar? — indagou não compreendendo.
— É o único jeito. Por mais que eu preferisse envolver somente os nobres, sem a ajuda do exército mal iremos passar pelo jardim da mansão. — explicou calmamente virando-se de frente para ele, rostos bem próximos: — Sei que está preocupado, mas vai dar tudo certo.
Will umedeceu os lábios tenso. Nico seguiu o movimento com os olhos, distraindo-se brevemente.
— Ok, confio em você. — concluiu Will abrindo um sorriso para amenizar o medo que ambos estavam sentindo.
Nico sabia dos perigos, entendia que havia muito a perder se fosse reconhecido, e que não cairia sozinho. Ter Will ali, decidindo por conta própria que valeria o risco era uma forma silenciosa de demonstrar a evolução que estavam tendo.
O Will de dois meses atrás nunca aceitaria isso sem antes ter certeza absoluta do que fazer e como fazer. Respirou fundo imitando seu sorriso.
O doutor levou sua mão livre até o rosto do pirata acariciando com o polegar. Nico fechou os olhos aceitando o carinho mais que convidativo. Soltou um suspiro aliviado deixando a tensão de seu corpo ir embora e permitindo o calor de Will acalmá-lo.
O doutor aproximou-se encostando suas testas afetuoso.
— Só seja cauteloso com o que fala. — pediu num sussurro, soprando ar quente contra o rosto de Nico.
O pirata abriu os olhos admirando os cílios longos do Solace.
— Will… — sussurrou seu nome involuntariamente sentindo Will arrepiar-se contra ele: — Eu sempre sou cauteloso. — concluiu em baixo tom.
O Solace concordou com a cabeça descendo sua mão até a nuca de Nico puxando-o para mais perto. O pirata fechou os olhos instintivamente sentindo os lábios do doutor contra os seus, ternos e tímidos.
Nico deixou que ele conduzisse, que ele controlasse o momento. Ele tinha que querer aquilo tanto quanto Nico.
Will envolveu sua cintura com ambos braços passando a língua de leve contra seus lábios, e Nico permitiu que ele aprofundasse o beijo soltando um suspiro necessitado. Passou o braço em seu pescoço firmando o peso no lugar.
Nico passou os dedos pelo cabelo de Will soltando-o do laço, fazendo as várias madeixas onduladas tomarem conta de suas mãos ávidas. O doutor o puxou pela cintura e Nico passou a perna por cima de Will ficando em seu colo.
Separou-se momentaneamente atrás de ar antes de retomar o beijo e saciar-se do sabor adocicado dos lábios do doutor. Ficaram um tempo naquela posição, o beijo sendo interrompido por breves momentos atrás de ar antes de retomarem.
Will não aprofundou as carícias, e Nico decidiu que era mais do que suficiente.
Se afastaram definitivamente, ofegantes. Encostou a testa na dele enquanto tentava retomar o fôlego. Will acariciou sua cintura por cima da roupa, sem nenhuma malícia no toque. Era delicado e cheio de carinho.
Nico não evitou de sorrir para isso. Will era delicado em tudo relacionado à eles, e isso esquentava o peito do pirata.
Abriu os olhos afastando o rosto poucos centímetros observando a face corada e os lábios inchados do doutor. Mordeu os seus em admiração.
— Não fique me encarando, Nico. — resmungou Will virando o rosto para o lado. Nico riu puxando-o pelo queixo depositando um beijo na ponta de seu nariz.
— Desculpe.
Will negou abraçando-o pela cintura: — Quer jantar?
Nico fingiu pensar: — Hm… Já estou alimentado. — sussurrou lambendo os lábios provocante. Will rolou os olhos, mas o vermelho atingiu suas bochechas.
— Perguntei por perguntar. Vamos comer. — ordenou ele empurrando Nico de leve para o lado.
Nico suspirou saindo de cima do doutor ficando de pé com um pouco de dificuldade. As pernas ficaram dormentes na posição que estava.
Will o segurou pela mão e seguiram até a cozinha.
☠
— Não preciso que seu Atendente me vista, Dylan. — resmungou Nico raivoso.
— Você não pode encontrar com Nobres vestido como um camponês. — rebateu o soldado do outro lado da mesa.
Nico rosnou audível: — Mas não preciso de ajuda. Pode não se lembrar, mas eu me vestia sozinho depois dos meus quinze. No máximo permitia uma atendente. Mulher.
Dylan torceu o lábio: — Eu sei e entendo, acredite, mas não tem mais ninguém nessa sala que sabia te vestir com todas as dezenas de acessórios para deixá-lo apresentável.
Aquilo era verdade. De todos naquela sala Nico era o único que já havia usado roupas de alta grife. Ele sabia se arrumar, mas compreendia que algumas partes do vestuário não poderiam ser feitas sozinho.
Mas um Atendente estava fora de cogitação.
— Posso ir atrás de uma mulher se quiser. Deve ter alguma disponível que possa atendê-lo sem problemas. — disse Dylan ao se levantar.
Nico torceu o lábio desgostoso. Olhou de relance para Will que mantinha a face neutra, mas conseguia ver os músculos de seus braços tensos cruzados contra o peito.
— Ok, tá. — cedeu observando Dylan na soleira da porta: — Eu aceito seu Atendente, mas eu tenho regras e ele deve seguí-las. Caso contrário eu o mato.
Kayla arfou em choque. Dylan concordou com a cabeça, resignado.
— Se ele fizer algo indevido, eu mesmo o mato. — reforçou o soldado saindo atrás do Atendente.
Kayla se abanou com a mão aberta, desacreditada.
— Não precisa disso rapazes. — admitiu ela: — Ele é um bom menino, nunca que faria algo contra você Nico.
Ele suspirou cansado. Viu Will sentar-se ao seu lado parecendo conflitante.
— Quantos anos tem o garoto? — perguntou Nico sem muita curiosidade.
— Dezoito. — respondeu ela: — É um rapaz de família importante. Todos de sua geração anterior foram Atendentes de Nobres, até mesmo de Reis. Ele é bem educado, te garanto.
Contraiu os lábios incerto, mas Dylan já havia saído e não tinha mais o que fazer.
Ouviu barulho no andar de cima e Andréa xingando alguma coisa. Will e Kayla soltaram uma risada.
— O que ela…? — Nico começou, mas não soube formular nada.
— Alguma coisa caiu e ela está xingando o objeto. — explicou Kayla: — Ela sempre foi bem expressiva. Falam que era bem mais mal educada quando começou o trabalho aqui em casa.
Nico riu pequeno encostando na cadeira, não dando atenção para a conversa paralela de Will e Kayla sobre as histórias que envolviam Andréa e um espanador. Sinceramente? Ele não dava à mínima.
Um Atendente seria mais um problema para lidar. Ele teria de ficar próximo o tempo todo de conversas sigilosas entre ele e os nobres, além de permanecer na casa para atendê-lo devidamente. Como esconder que era um pirata?
Como esconder sua relação com Will?
Quando as coisas pareciam entrar no eixo algo aparecia e descarrilhava tudo.
Dylan retornou com um rapaz mediano ao seu lado. Possuía cabelos negros presos em um rabo de cavalo baixo; roupas específicas de atendente em cores pastéis de marrom, luvas brancas nas mãos e olhos baixos em sinal de respeito.
Nico ajeitou-se na cadeira.
— O nome dele é Christiano. Começou a trabalhar para mim há seis meses, mas é bem dotado. — apresentou Dylan. O rapaz se curvou brevemente.
Nico arqueou a sobrancelha.
— Por que não deixe ele mesmo se apresentar? — perguntou curioso.
— Ele é mudo, Vossa Graça. — explicou o soldado. Nico respirou fundo compreendendo.
Era comum nobres e comerciantes com atividades ilegais contratarem rapazes mudos para atendê-los ou mesmo como acompanhantes. Nunca poderiam espalhar boatos ou mesmo quebrar um segredo.
Seu pai teve um quando era menor, mas logo depois foi demitido por motivos que Nico desconhecia até o momento.
Sua mãe ainda estava viva na época.
— Pois bem. — Nico aceitou o rapaz se levantando: — Se está me deixando usar seu Atendente, espero que esteja ciente que não é só por hoje.
Dylan aquiesceu: — Ele trouxe suas coisas para permanecer até o momento que deixarmos a cidade. Ficará ao seu lado durante a marcha e depois enquanto usar de seu título como Duque durante o golpe. Depois disso ele irá retornar comigo.
— De acordo então.
Christiano curvou-se mais uma vez. Will se remexeu desconfortável ao lado de Nico. O pirata acariciou seu joelho de leve sob a mesa para confortá-lo. Não soube dizer se era pelo Atendente ficar o tempo todo ali ou por usarem de sua deficiência como algo benéfico.
— Precisamos ir. Tenho uma reunião com Giovanni e Kayla precisa retornar para a hospedagem. — avisou Dylan ajudando a esposa a se levantar.
— Kayla pode permanecer aqui se quiser. — propôs Will cortês. Dylan sorriu:
— Quando partirmos irei deixá-la em suas mãos, cunhado. Mas por enquanto o ideal é manter as mulheres longe de assuntos brutais. — ressaltou a segurando pela cintura.
Kayla sorriu amorosa para ele antes de responder o irmão.
— Volto antes que sinta minha falta.
E assim eles partiram deixando Nico e Will com o jovem Atendente. Nico respirou profundamente se levantando.
Christiano ficou atento aos movimentos do Duque, aguardando por ordens. Nico se aproximou dele:
— Como você se comunica? — inquiriu sério. O Atendente o encarou por um momento antes de sinalizar com a mão o movimento da escrita contra a sua palma aberta. Nico balançou a cabeça: — Me acompanhe.
Christiano o fez seguindo Nico até o escritório de Will. Ali ele apossou-se de um punhado de papel, uma pena fora do uso e um pote de tinta fechado. Entregou ao garoto que segurou os objetos com curiosidade.
— Caso precise que eu saiba de algo, use isso para me dizer. Mesmo que demore eu irei esperar. — explicou Nico casualmente. Will os assistia da soleira da porta: — Tudo que acontecer nesta casa fica aqui dentro. Não irei tolerar uma única palavra nossa sendo exposta por ai, escrita ou não. Fui claro?
Christiano concordou sério, como se aquilo fosse questão de vida ou morte.
De certa forma era.
— Bom. Hoje não precisarei de seus serviços, mas vamos lhe providenciar um quarto temporário. — disse Nico olhando brevemente para Will. O doutor concordou: — Vamos subir?
O Atendente seguiu ambos para o segundo andar, parando no Hall para pegar sua mala. Andréa estava no banheiro terminando a limpeza.
— Andréa, temos mais um hóspede. — avisou ele. A mulher se virou alarmada.
— Jovem mestre, esta casa não é um centro de caridade. — disse a mulher convicta. Nico segurou a risada.
— É um Atendente. Vai ajudar Nico no tempo que permanecer aqui. — explicou ele sucinto. A Governanta concordou.
— Os quartos estão todos limpos. Escolha qualquer um e o coloque lá. — disse ela por fim fechando a porta do banheiro.
Nico olhou para Will arqueando a sobrancelha cômico. Will deu de ombros:
— Nem pergunte.
Assim o doutor abriu a porta de um quarto que Nico não havia entrado ainda. Tinha uma sacada para o jardim. Cortinas de seda clara, uma cama branca e arrumada no centro do quarto, o guarda-roupa de cedro do lado oposto e uma mesa. Na parede ao lado havia um desenho que ele conhecia muito bem.
Ficou subitamente tenso ao encarar o símbolo de um tridente quebrado. Era a marca de Poseidon, de sua ira contra o povo da terra e ódio aos piratas que desbravam seus mares.
Aquele era o quarto de Austin.
Will respirou fundo:
— Ficará aqui pelo tempo que precisar. — avisou Will educadamente. Christiano acenou com a cabeça.
Nico abriu passagem para o rapaz que depositou suas coisas na mesa e a mala no pé da cama.
— Meu quarto é aquela porta no pé da escada. O do Will é a porta no extremo. — Apontou Nico: — Faça o que quiser por hoje. A partir de amanhã irá me atender.
Christiano concordou curvando-se uma outra vez. Nico torceu o lábio, mas nada comentou sobre isso. Saiu do quarto fechando a porta atrás dele. Will o encarava com uma cara severa.
— Não começa.
— Isso é ridículo. — reclamou o doutor. Nico grunhiu entrando no quarto de Will. O Solace o seguiu fechando-a na sequência: — Por que você precisa de um Atendente? Melhor, porque usar um rapaz com deficiência desta forma?
— Nunca disse que a nobreza era justa. — cuspiu Nico sem paciência: — Pelo menos ele tem um trabalho diferente de muitos que são considerados impossíveis de serem educados! — vociferou alterado: — Não vou tratá-lo como um objeto Will, nunca fiz isso e não vou começar agora, mas não podemos ignorar que eu como um Duque preciso e devo ter um Atendente. Nem mesmo uma folha de papel posso pegar sozinho.
Will respirou fundo: — Certo. Faça o que precisa fazer, mas não trate esse garoto como um servente.
— Anotado. — prometeu Nico amenizando os nervos. Will respirou outra vez segurando as mãos de Nico nas suas.
— Não é perigoso ele ficar aqui?
— Sim e não. — admitiu Nico: — Ele não vai contar nada, mas isso não quer dizer que não preciso de cautela. Nada de comentários piratas e nada disso. — falou apontando a cabeça para suas mãos.
O doutor concordou: — Justo.
Se separaram com Will abrindo a porta novamente e Nico se espreguiçando.
— Vou precisar refazer o curativo de uma forma que sua tatuagem não apareça. — comentou observando o abdômen de Nico sob a camisa branca.
Nico sorriu sapeca: — Não precisa usar o ferimento como desculpa pra me tocar, é só pedir.
Will ruborizou: — Eu não-- Não foi o que-- Nico! — resmungou ele tapando rosto.
Nico achou adorável.
— Rapazes? — chamou Andréa. Ambos se viraram para ela: — Vou descer fazer o almoço e depois disso vou me recolher. Me chame se decidir me contratar novamente.
— Claro Andréa, obrigado. — agradeceu Will. A mulher saiu da porta descendo as escadas enquanto os dois resolveram terminar suas tarefas.
☠
Nico estava no Hall lendo suas estratégias que iria apresentar ao Nobres. O almoço já fora servido e Andréa havia ido embora com um punhado de moedas que Will lhe deu para pagar pelos dois dias de serviço.
Depois disso o ambiente ficou silencioso.
Will saiu para uma consulta e Christiano era silencioso até no andar e sua presença era discreta o bastante para Nico se esquecer dele.
Releu a última folha de um ataque lateral antes de ser obscurecido por uma sombra. Olhou para cima em espanto, mas Christiano somente sorriu para ele lhe servindo uma xícara de chá na travessa de prata polida.
Nico agradeceu pegando o pires na mão e tomando do chá de lavanda. Suspirou agraciado pelo doce da bebida.
— Obrigado, Chris. — falou deixando a xícara na mesa de centro antes de estacar no lugar: — Posso chamá-lo assim?
O Atendente confirmou parando ao seu lado aguardando por ordens. Nico aquiesceu voltando a ler os papéis.
Seria mentira se dissesse que não estava acostumado com aquilo, mas o tempo que passou como pirata o deixou mais recluso, e ter um garoto ao seu lado o tempo todo o deixava tenso. Não estava confortável com o garoto.
Suspirou pesado deixando as folhas de lado.
— Christiano, vem cá. — chamou ele. O Atendente parou em sua frente, olhar curioso. Nico pensou em dispensá-lo pelo dia, mas ao observar as mãos do garoto tensionadas contra a travessa de prata, ele percebeu que o garoto estava assustado.
Não só pelo fato de estar servindo uma pessoa totalmente estranha, mas pelo fato de Nico ser um Duque. Diferente de Dylan, Christiano precisaria fazer tudo certo e com muito mais capricho se quisesse permanecer ali.
Receber um esporro logo no primeiro dia deixaria uma marca naquele garoto que Nico não queria ser responsável. Forçou um sorriso:
— Pode preparar água para o meu banho? — pediu sem saber mais o que dizer. O rosto do garoto se iluminou concordando.
Se curvou de leve e saiu para a cozinha.
Nico soltou o ar pesado.
— Problemas, só problemas. — resmungou para si esticando a mão para juntar os papéis, mas então ele paralisou em choque.
Havia esquecido a tatuagem!
Grunhiu chocado com sua ignorância. Estava acostumado a pedir este tipo de coisa para suas Atendentes, mas naquela situação simplesmente não poderia se deixar ser banhado pelo garoto.
Crispou os lábios deixando os papéis jogados na mesinha de centro e subiu para seu quarto. Lá viu o garoto recolhendo algumas de suas roupas limpas para que usasse. Observou o garoto trabalhar e resolveu não atrapalhar.
Se no começo nem mesmo o Will ele gostava que o visse tomar banho, poderia dispensar o garoto tranquilamente. Chris passou por ele colocando as coisas no banheiro e então começou a encher a banheira com a água que fervia no caldeirão na cozinha.
Nico decidiu que iria arrumar o fogão à lenha dentro do banheiro de Will assim que voltasse daquela guerra. Todas as viagens com o caldeirão cheio d’água não era fácil.
Christiano fez um gesto para que ele entrasse no banheiro. Nico o fez observando o ambiente. Ele havia acendido algumas essências, velas e ajeitou a divisória do cômodo de modo que a banheira ficasse oculta para quem viesse da porta, mas a janela se tornasse clara e visível.
A banheira estava cheia de espuma e sais. Ele realmente era rápido.
Chris fez um gesto com as mãos, pedindo permissão para despí-lo. Nico negou:
— Sou tímido. Nunca deixo meus Atendentes dentro do banheiro comigo. — explicou côrtes: — Obrigado por preparar isso pra mim, eu o chamo assim que acabar.
O rapaz concordou deixando o ambiente discreto.
Nico soltou o ar: — Pelo menos é compreensivo.
Voltou a encarar a banheira e sorriu. Um banho digno da nobreza depois de cinco anos convivendo com seu mau cheiro diário não faria mal a ninguém.
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