Pit-a-Pat

28 Capítulo XXVIII


Notas iniciais
CHEGUEI! ruehurheur como vocês estão amores? Capítulo fresquinho pra vocês. Ia postar mais cedo, mas só tive tempo pra mexer no computador hoje, então aqui estou eu o/ Já tenho o próximo escrito, então eu não vai demorar a atualização, mas não decidi se vou postar o próximo quarta ou no domingo, ainda decidirei. Vai depender de como a semana vai correr. A partir de quarta feira terei de tomar conta de toda a casa, além de semana de provas já começar dia 15. Maio vai ser um mês bem apertado pra mim, mas vou tentar escrever o que posso. Sem mais avisos, aproveitem a leitura cheia de informações interessantes ;) Boa Leitura.

Nico

~Capítulo XXVIII~

:: 52º dia na Itália — Semana 7 ::

[...]

Nico foi acordado na madrugada seguinte pelo barulho da chuva. Sentou-se assustado encarando os clarões pela janela do quarto. Estava bem fresco e essa chuva não ajudava muito naquele final de primavera. Resfolegou ajustando a respiração e voltou a se deitar sem sono. Colocou o braço sobre os olhos enquanto sua mente começava a trabalhar nervosa.

Tinha conseguido evitar pensar muito no acontecido durante a tarde quando dormiu por algumas horas, mas não tinha como fugir enquanto os trovões atrapalhavam sua capacidade de dormir. Normalmente, quando em alto mar, esse tipo de tempestade mantinha cada marujo acordado na espera de ordens enquanto tentavam evitar que o navio afundasse.

Mesmo que ali ele não precisasse disso velhos costumes não são descartados do nada. Respirou fundo pensando no que fazer. Antes de mais nada precisaria pegar informações sobre quem os atacou e o porquê. Com certeza algum informante já teria a resposta para vender àquela altura, e também notícias sobre o Caribe. O Caronte deveria chegar por aqueles dias, e precisava saber exatamente onde seus tripulantes estavam se metendo.

Sentou-se dolorosamente cruzando as pernas e se embolando nas cobertas grossas. Outra prioridade era o Ducado. Ele não poderia mais fugir da sua obrigação. Por mais que ele nunca mais pudesse voltar a ser Duque, pelo menos tiraria o Castellan da ditadura que havia armado em sua casa.

Pelo pouco que ouviu dos homens do bar Luke havia deixado o Ducado em um caos total chamando a atenção do próprio Imperador, o que não era muito sensato. Pelo que soube ninguém além das pessoas da casa sabiam do golpe e ainda acreditavam realmente que Nico estava acamado, mas que ainda era Duque.

Seria difícil convencer homens que eram leais ao Ducado de se voltar contra o Castellan sem provas de que ele, realmente, era o verdadeiro Nicolà di Angelo. Sequer sairiam de suas cadeiras confortáveis para se darem ao luxo de confirmar com seus próprios olhos.

Soltou um resmungo deitando-se novamente. Sentiu uma leve fisgada no ferimento parando imóvel. Não deveria ter piorado dessa forma, mas parecia que todo o Karma do mundo estava contra ele.

Problema atrás de problema, sem fim ou explicação. Nico poderia até compreender os motivos de estar sendo visado depois de tudo que fez, mas envolver o doutor em seus problemas era o fim.

Ainda se arrependia de não ter ido embora antes. Will estava com a cabeça à mostra para todos verem, como um animal de abate esperando pela morte.

Will não teria como voltar a ter uma vida tranquila, não sem que Nico intervenha. Se virou na cama fechando os olhos. Resolveria isso quando o Sol nascesse.

Sem falta.

Nico desceu horas depois quando a chuva amenizou e o sol teve forças para atravessar as grossas nuvens no céu. Espreguiçou-se entrando na cozinha com cautela.

Will não estava ali, e não havia nenhum sinal de que já havia levantado. Aproveitou isso pegando um pedaço de pão, tomando o resto do suco e saiu pegando emprestado um dos guarda-chuvas da casa.

Abriu ele e andou pelas ruas de Ravenna. A chuva havia castigado a cidade. As ruas de terra empoçadas se desfazendo em depressões em em alguns pontos específicos da rua. Ninguém andava por ali exceto pelos donos de loja abrindo seus comércios e bêbados trançando as pernas pelos cantos atrás de um puxado de telhado que os protegesse da chuva.

Desviou de algumas poças antes de chegar ao cais. Ali o som das risadas e conversas abafavam o fato de uma chuva torrencial ter passado pela cidade.

Todos estavam nos lugares de sempre ocupando os espaços no relento sem se importar com a água fria que caía dos céus. As mulheres de trabalhos promíscuos dançavam despreocupadas em meio às águas acumuladas batendo a sola de seus pés com força espirrando jatos de água com seus movimentos graciosos, mas brutos.

Seguravam a ponta de seus vestidos encharcados em mãos, rodopiando e rodopiando. Homens se reuniam para assistir enquanto outros tocam seus instrumentos no ritmo gracioso das mulheres sorridentes.

Nico contagiou-se pela animação não evitando de retribuir o sorriso de uma delas que se aproximou dele, olhos em busca de aventura.

A segurou pela mão rodopiando-a três vezes antes de soltá-la de volta para as outras. Curvou-se educadamente recebendo um sorriso e uma imitação grosseira de seu gesto.

Seguiu caminho até o bar clandestino escondido no beco mais ao sul do cais. Entrou despreocupadamente fechando o guarda-chuva e se sentando na bancada.

Não demorou muito para ouvir alguém sentar ao seu lado.

― Levesque. ― cumprimentou ele sorrindo maliciosamente.

― Frances. ― rebateu irônico recebendo um resmungo irritado.

― Então, tem algo para compartilhar? ― perguntou pedindo uma rodada de bebida para os dois.

― Depende do que está disposto a vender. ― rebateu pegando a caneca em mãos. Frances imitou o gesto: ― Já deve saber do ataque ao doutor.

― Todos ficaram sabendo. ― rebateu tomando um gole generoso da bebida: ― Não é algo que a gente aceite se quiser saber. Ele é bonzinho demais pra sairmos machucando o Solace.

Nico balançou a cabeça gostando do que ouviu:

― Sei quem foi, mas a informação é no momento cara demais pra você. ― ralhou debruçando-se sobre o balcão: ― Mas pode mudar dependendo do que tem pra mim.

Nico gesticulou com a mão desinteressado. Não estava tão desesperado por está informação. Ela seria uma consequência de seus próximos atos, afinal.

― Isso consigo descobrir sozinho. Não é segredo algum que foi um ataque executado pelo Conde. Sabendo disso o resto é fácil de adivinhar. ― admitiu esvaziando a caneca: ― Estou mais interessado em gastar meu dinheiro em informações sobre o Caribe.

Frances riu:

― Sempre arrogante. ― comentou empolgado: ― Bom soube por fontes nada confiáveis que o Caronte chegou no Caribe à duas semanas. Ninguém realmente o viu ancorar, mas todo boato tem seu ponto de verdade.

― Fato. ― confirmou Nico interessado. Se tinham chego a tanto tempo já estariam envolvidos nos problemas da Ramirez.

― Mas parece que o Caribe se dividiu. Entre tolos e suicidas. ― comentou virando-se na banqueta ficando de frente para Nico: ― Octavian tem a mesma quantidade de poder de fogo que a Ramirez, mas a entrada do Argos II nessa guerra muda as coisas.

― Muda em qual sentido?

― No sentido de que já houve confronto entre Octavian e o Jackson. ― respondeu intrigando Nico: ― Parece que o Jackson reduziu dois de seus barcos à cinzas.

Nico riu:

― Exibido. ― resmungou para si mesmo. Percy Jackson tinha prazer em se exibir como o mais forte sempre que ele ou Reyna estavam por perto: ― Mais alguém conhecido no meio da guerra?

― Clarisse La Rue apareceu na região. Não sei dizer se vai lutar ao lado de Reyna ou contra ela e Octavian. Essa mulher não toma lados. ― admitiu dando de ombros.

Nico teve de concordar com isso.

― Mais algo? ― perguntou Nico esperando. Frances sorriu perverso:

― A aposta contra a Ramirez está fervendo. ― ralhou recebendo um rolar de olhos dramáticos de Nico.

Retirou o dinheiro de seu bolso entregando ao informante. Frances pegou o saco de dinheiro com o rosto curioso.

― Nada pra mim?

― Me pergunte daqui algumas semanas e vou ter algo muito bom pra te vender. ― admitiu se levantando: ― Agradeço pela bebida.

Saiu do bar segurando o guarda-chuva molhado em mãos. A chuva já havia parado, mas o céu nublado ainda pintava toda a cidade de cinza. Girou os calcanhares na madeira úmida do cais e seguiu caminho de volta à cidade.

― Duque di Angelo.

Nico estacou no lugar prendendo a respiração na base da garganta. Mão segurando o cabo da pistola automaticamente esperando um ataque.

Virou-se lentamente topando com os olhos afiados do Capitão Mozetti. Soltou a respiração devagar mantendo a pose ereta, mas alerta.

Apertou a arma contra sua palma esperando alguma espécie de alarde por parte da marinha. Se algo assim acontecesse conseguiria pelo menos derrubar Giovanni.

O Capitão levantou a mão em sinal amistoso apontando com a cabeça para um canto mais isolado do cais. Nico franziu o cenho vendo o homem caminhar confiante de que o pirata o seguiria.

Nico grunhiu indo atrás dele, ajeitando a arma para um possível ataque surpresa.

Entraram em um beco totalmente fechado do chão ao topo dos galpões. Sem janelas ou muro baixo para espiar. Nico mudou sua posição de pés.

Se foi chamado por Duque não tinha o porquê agir malandro na frente do homem que conhecia seu eu nobre.

― O que está fazendo na região, meu senhor? ― perguntou ele sério, mas Nico conseguia identificar aquele pequeno ar de preocupação em sua voz.

Relaxou um pouco mais com a constatação disso.

― Trabalhando. ― mentiu, rosto plácido e desafiando-o a contrariá-lo. Giovanni riu.

― Conheço você a muito tempo, Nicolà. Sei quando mente. ― zombou cruzando os braços e desfazendo a pose durona.

Nico suspirou derrotado.

― O que quer de mim Giovanni? ― perguntou direto.

O Capitão cerrou os olhos demorando-se para responder.

― Cinco anos. ― respondeu somente. Nico franziu o cenho sem entender: ― Cinco anos que não recebo uma resposta sua das cartas que te enviei.

Nico mordeu o lábio culpado. Não tinha como ter avisado o Capitão do golpe antes que sumisse de vista.

― E suponho que tenha feito uma pesquisa. ― sugeriu. Giovanni confirmou.

― Descobri a pouco tempo, na verdade. O golpe é muito bem mascarado pela sua saúde frágil. ― comentou sorriso mordaz: ― Mas ouso dizer que está muito bem para um moribundo.

Nico rolou os olhos: ― Me poupe de suas brincadeiras, Mozetti. Se era só isso que queria falar então está tomando meu tempo a toa.

Fez menção de deixar o beco, mas Giovanni se adiantou:

― Acho que a toa é uma boa definição para um pirata. ― cuspiu ele raivoso.

Nico instintivamente sacou sua arma apontando para Giovanni. O Capitão sequer reagiu.

― É algum tipo de brincadeira? ― ameaçou Nico: ― Conversa mansa para depois entregar minha cabeça para a forca como um troféu?

― Nunca faria isso. ― admitiu desviando o olhar para o chão: ― Só quero saber porque um pirata de todas as coisas que poderia ter feito. Justamente um pirata.

Nico retesou-se entendendo o rumo da conversa. Abaixou a arma lentamente.

― Fala como se eu tivesse tido escolha. ― respondeu com ar derrotado. Giovanni comprimiu os lábios, mas sorriu convidativo.

Sentou-se nas caixas empilhadas no canto dando espaço para Nico o fazer. Ainda receoso aproximou-se do Capitão sentando de frente para ele, uma perna dobrada em cima da caixa e outra no chão.

― Perdeu os modos? ― repreendeu Giovanni.

― Perdeu os seus? ― devolveu Nico desafiador. O Capitão suspirou desistindo da briga.

― O que aconteceu exatamente?

Nico inspirou fundo não sabendo por onde começar. Tanta coisa aconteceu depois que Giovanni foi transferido para Ravenna. Era difícil começar uma explicação.

Giovanni esperou. Os segundos se tornaram rapidamente em minutos antes que Nico conseguisse formar alguma coisa em sua mente nervosa.

― O golpe me deixou sem opção. ― respondeu somente: ― Não tive tempo de me preparar, pois meus espiões também estavam no golpe. Não tive como buscar dinheiro porque o primeiro lugar que ocuparam foi o escritório e o meu quarto. Sai com uma mão na frente e outra atrás.

Giovanni balançou a cabeça, mas nada disse esperando ele continuar. Nico suspirou:

― Vendi o cavalo que usei para escapar com Hazel. Pensei em ir para a casa de algum conhecido, mas não sabia a extensão do golpe. Só soldados atuais ou antigos com algum ressentimento. ― admitiu francamente: ― Comprei uma passagem para o lugar mais longe que achei. Pensei na época ser uma boa escolha.

― Claro que não era. ― Giovanni comentou: ― Nunca teria deixado você fazer isso.

― Posso ter sido Duque já adulto, mas quem disser que aos dezoito sabemos tomar decisões nunca teve que tomar uma nessa idade. ― admitiu Nico passando a mão pelos cabelos: ― Como pode imaginar quebrei a cara com essa decisão.

― Passamos fome por alguns meses antes que eu decidisse por medidas drásticas. ― comentou evitando o olhar do Capitão: ― Roubei para sobreviver. Enganei para alimentar a Hazel, e menti para conseguir a piedade das freiras que aceitaram cuidar de Hazel enquanto eu trabalhava.

Deu uma pausa para ajeitar os pensamentos.

― Fui trabalhar em um navio mercante. ― emendou: ― A primeira viagem lucrei bem, a segunda um pouco menos, a terceira o dobro. Depois de um tempo consegui pagar pela estadia de Hazel por um ano.

― E então eu percebi tarde demais onde havia me metido. ― confessou apertando as mãos em punho sobre as pernas: ― Era um navio com mercadorias roubadas. Fomos barrados pelos britânicos e então presos. Condenados a forca. Sem direito a defesa nem nada do tipo, só um padre para rogar por nossas almas.

Giovanni se mexeu desconfortável ao seu lado, mas Nico não ousou levantar o olhar.

― Depois de semanas ouvi gritaria do lado de fora. Tiros de canhões e armas de fogo. Espadas contra espadas. E então eles entraram. Piratas.

Nico desta vez riu nostálgico:

― Um deles era um conhecido da tripulação do Jackson.

Giovanni arregalou os olhos, choque e raiva misturando-se em seu rosto. Nico continuou antes que ele criasse teorias precipitadas.

― Foi o pirata que me salvou das mãos do Jackson. Que cuidou de mim e me despachou assim que teve a oportunidade. ― explicou tentando amenizar a tensão: ― Nesse caso eu tinha duas opções. Ficar e morrer pela forca ou seguir aquele homem mar a fora.

Giovanni soltou um “hum” descrente.

― E é um pirata até hoje? ― julgou decepcionado.

― Peguei gosto pela coisa. ― confessou dando de ombros.

Não tinha mais vergonha de ser um pirata como antes. Ver o rosto de nojo ou decepção das pessoas era impagável.

Giovanni cruzou os braços encostando na parede atrás dele.

― E a Hazel?

― Abri uma floricultura para ela, mas antes disso viveu por pelo menos um ano das minhas pilhagens. Ainda lhe mando pelo menos 70% do que conquisto para ajudar no que precisar. ― respondeu sério: ― Ela sabe o que faço e entende como cheguei à esse ponto. Comprei uma casa para ela e a tirei das mãos das freiras. Não tem a mesma vida de luxo que antes, mas lhe dou o suficiente para se sentir bem e nunca mais passar fome.

O silêncio se instaurou no beco.

Nico abaixou a cabeça puxando a borda de seu chapéu para baixo. Giovanni não entenderia, e nem pediria que o fizesse. Nico entendia os sacrifícios que fez, mas também sabia que haviam outras soluções. Sempre existem, mas o desespero cega o mais sensato dos homens.

― Sinto muito por isso. ― disse Giovanni: ― Gostaria de ter ajudado você. Tentado pelo menos.

Nico sorriu não acreditando nele.

― Não gostaria não. ― desmentiu o Duque respirando profundamente: ― Ia te colocar em mais problemas. E foi difícil manter você fora de vista.

Giovanni riu sem emoção:

― Devo minha vida à você. ― respondeu somente: ― Não precisava ter feito o que fez.

― Você perdeu o emprego por minha causa. Era o mínimo. ― respondeu Nico prontamente.

― Não. ― negou Giovanni o encarando nos olhos: ― Eu falhei com você quando não consegui impedir que o Jackson o levasse. Era o Capitão do navio, mas também seu responsável. A falha foi minha, e mesmo depois disso você quem decidiu que eu merecia o perdão.

― Não te perdoei porque você não fez nada. ― insistiu Nico.

Giovanni rosnou: ― Exato.

Nico crispou os lábios. Não sabia mais o que dizer para ele, então resolveu ficar quieto sobre o assunto. Se Giovanni queria viver com uma falsa culpa problema dele. Mas não era função do Nico apiedar-se de sua situação.

― Pode me ajudar em uma coisa, se quer tanto pagar por seu crime. ― disse Nico aproveitando-se do homem.

O Capitão o encarou curioso.

― Não vou acobertar furto. ― disse de cara: ― Posso esconder que você é um pirata, mas não serei cúmplice de nada.

Nico o chutou ligeiramente ofendido. Giovanni riu.

― Então o que é?

― Vou enfrentar o Castellan. ― respondeu sério. Giovanni retesou a coluna, ouvindo atentamente: ― Tenho meus contatos, mas um pequeno toque seu ajudaria.

― Quer me envolver nisso? ― perguntou direto. Nico negou.

― Tenho dois pedidos pra te fazer. O primeiro deles é descobrir se o Dylan era parte do golpe. Caso não, quero que o chame. Use a desculpa dos capangas do Conde, não me importo. Precisarei dele e da sua posição no exército.

― Mandei ontem uma carta urgente para ele. Assuntos sobre má conduta de soldados são resolvidos pelo Dylan. Não fez parte do golpe até onde sei. ― respondeu Giovanni: ― Deve chegar hoje de tarde ou amanhã dependendo de quando o mensageiro chegou com a chuva.

Nico meneou a cabeça concordando:

― A segunda coisa é, pra mim, mais importante e pessoal. ― disse abaixando o tom de voz.

O Capitão aquiesceu entendendo:

― O doutor?

― Sim. ― respondeu cruzando os braços: ― Quero que o proteja a partir de hoje por tempo indeterminado. Ele vai se tornar um alvo quando eu partir para Veneza. Preciso saber que alguém vai estar cuidando dele por mim.

― Posso colocar dois de meus soldados na entrada da casa dele. Ninguém entra sem eu saber. ― concordou.

― Bom, mas não tire a privacidade dele. ― alertou sério: ― Vai vigiá-lo igual me vigiava. Evitar que alguém o ataque, mas não escuta nada nem vê nada. Fui claro?

― Como água. ― respondeu batendo uma breve continência.

― Fora isso não se envolva. Você tem mulher e filha pra cuidar, não quero que se tornem alvos por minha causa. ― ordenou se levantando: ― Tenho que ir. Conhecendo o doutor deve estar doido atrás de mim.

Giovanni concordou se levantando também. Nico acenou com a cabeça se virando para ir.

― Posso fazer uma pergunta indelicada?

Nico sorriu sincero pela primeira vez no beco.

― Sim. ― respondeu a pergunta ainda não feita: ― Ele é sim.

E então partiu.

Entrou cautelosamente na casa. Já era quase horário de almoço quando voltou. Havia se distraído um pouco no cais depois da conversa com Giovanni.

Digamos que as garotas o pegaram para Cristo na dança de rua.

Deixou o guarda-chuva de lado retirando o chapéu e o casaco um pouco úmidos. Tossiu levemente se amaldiçoando por isso. O instinto médico de Will ia apitar na mesma hora.

Não demorou para ouvir passos vindos do andar de cima. A feição irritada do doutor apareceu se debruçando no corrimão.

― Se divertiu na chuva? ― perguntou mascarando sua irritação.

― Igual uma puta.

Will torceu a boca, mas não disse nada sobre isso.

― E o machucado?

Nico pensou em mentir sobre a dor leve que estava sentindo, mas não havia motivo para piorar sua situação.

― Dolorida. ― admitiu cruzando os braços orgulhoso. Odiava admitir isso.

― Sobe aqui. ― pediu Will, a voz mansa em comparação com mais cedo.

Nico o fez seguindo o doutor para seu quarto. Se sentou na cama enquanto Will se aproximava para retirar sua roupa.

Desfez a atadura passando os dedos pelo entorno da ferida.

― Não está inchada. ― respondeu aliviado: ― A dor é por causa do impacto,mas vou colocar ataduras secas. Aproveite e coloque roupas secas também.

― Ok.

Ele fez o que foi pedido caminhando até o guarda roupa e se trocando de costas para o doutor. Sentiu seu rosto esquentar a medida que deixava as peças de roupa caírem no chão.

Não estava se exibindo, não era a intenção, mas não achou palavras honestas em seu vocabulário para pedir para que Will saísse.

Seria uma mentira descabida.

Retirou a calça e desamarrou os cabelos sentindo a brisa fria contra sua pele quente e sensível.

O rubor aumentou quando teve a certeza de que estava sendo observado. Respirou fundo vestindo uma camisa seca e calças mais confortáveis.

Se virou para Will que estava de costas para ele mexendo nas ataduras. Nico não teve coragem de perguntar se ele o estava encarando de fato.

Se sentou na cama esperando Will se virar, mas o doutor pediu licença e saiu do quarto as pressas atrás de algo. Nico se surpreendeu pela enorme decepção que sentiu quando Will saiu sem mais nem menos.

Se jogou para trás na cama. Decepcionado.

Will

Não foi nenhuma surpresa acordar e não ver o Nico na casa, já que era costume o rapaz sair para buscar informações logo cedo, mas isso não impediu o pânico que cresceu em seu peito só de imaginar que ele tivesse ido embora realmente.

Só se sentiu aliviado mesmo quando viu os pertences de Nico ainda escondidos no assoalho.

O dia anterior foi uma bagunça. Descrever o que ele estava sentindo era incabível. Não tinha como começar a explicar o que o levou a beijar o rapaz naquela noite.

Não conseguia colocar em palavras o quanto desejava poder beijá-lo de novo e de novo, poder ouvir sua risada e saber que estavam bem.

Se covardia tinha algum nome para descrevê-la provavelmente seria o seu. Não pensou nas consequências, em como Nico ficaria se ele desistisse no caminho.

E era óbvio que ele desistiria.

Não conseguiu dormir direito pensando nisso, pensando no que fazer depois disso. O que ele queria? O que ele estaria disposto a sacrificar por isso?

Por isso o que? Esse era o problema.

O que Will queria realmente?

Escondeu o rosto em suas mãos dentro de seu quarto enquanto normalizava o coração descompassado.

Seu rosto ardia de vergonha e algo mais. Não compreendia, não entendia o porquê de não ter conseguido encarar Nico se trocar como tinha feito tantas vezes antes.

O que tinha de diferente desta vez?

O Nico era o mesmo. Era a mesma vista, a mesma cena de sempre. Por que desta vez parecia mais real? Mais invasivo?

Mais íntimo?

Respirou fundo levantando o olhar para o nada. O pulsar em seu peito era forte e doloroso. Engoliu em seco respirando outra vez, e mais outra.

Precisava voltar para o quarto. Nico ainda era um paciente. Precisava dele lá, e não escondido no quarto.

Pegou um rolo de faixas só pra dizer que tinha saído por um motivo plausível e voltou.

Nico estava deitado de costas encarando o teto. O viu estremecer quando se fez presente no quarto.

Aquela tensão entre eles era palpável demais.

― Voltei. ― anunciou guardando a faixa extra e pegando as já cortadas: ― Sente direito para eu te enfaixar.

Nico fez o que pediu ajeitando melhor a postura. Will passou um pouco de emplastro antes de passar a faixa por seu abdômen.

Evitou contato desnecessário, por mais desejasse isso. Deu um nó e se afastou de Nico permitindo que ele mesmo abotoasse a camisa.

― Está com fome? ― perguntou tentando quebrar a rigidez entre eles.

Nico concordou:

― O bar serve bebidas decentes, mas a comida é horrorosa. Evito comer lá. ― respondeu terminando de abotoar a camisa e se levantou.

― Se você acha ruim então deve ser terrível. ― zombou Will ouvindo Nico soltar um som ofendido.

― Está insinuando que não tenho paladar, Solace? ― supôs o pirata tirando uma risada sapeca do doutor.

― Estou insinuando que temos que descer comer. ― falou desviando do assunto e saindo do quarto.

― A não, não vai sair dessa sem uma conversa Solace. ― disse Nico marchando atrás dele falsamente ofendido.

Will conseguia ouvir o tom de zombaria em sua voz.

― Você mesmo disse que come para sobreviver. Então não é exigente. ― continuou entrando cozinha.

― Eu disse que não tínhamos muitas opções de menu. Não existe restaurante em alto mar. ― ralhou se sentando à mesa: ― Eu tenho um ótimo paladar.

― Hm.

Will sentiu o tapa em seu braço tirando uma risada honesta de seus lábios. Aquela harmonia era boa, por mais que ainda forçada.

― Espero que não tenha enjoado de sopa. ― comentou Will.

Nico resmungou algo que o doutor não deu atenção. Serviu a ambos uma porção generosa voltando a sentar.

O pirata começou a comer pensativo. Will respeitou seu silêncio submergindo em seus próprios.

Comeram rápido e se separaram assim que terminaram. Cada um para um lado da casa. Will se escondeu no escritório organizando suas coisas para sua próxima visita.

Ariadne havia mandado uma carta pedindo a visita de Will durante a semana. Senhor D havia tido uma piora com os medicamentos.

Fazia pelo menos dois meses que não o visitava. Era um recorde e Will sentiu orgulho da força de vontade daquele homem.

Durante a semana ainda teria mais duas crianças para visitar e uma mulher acamada. Boatos diziam que estava com tuberculose.

Deixaram a moça isolada no quarto por um tempo. Will daria prioridade para ela, mas antes precisaria dos medicamentos certos caso realmente fosse tal doença.

Suspirou massageando as têmporas. Não estava descansado o bastante para sua rotina de trabalho. O outono estava começando e o número de doentes dobraria em relação aos últimos meses de calor.

O relógio tocou às seis da tarde o despertando de seus afazeres. Levantou e caminhou pela casa escura atrás de água.

A porta do Jardim estava aberta. Will seguiu pelo caminho sorrindo ao ver Nico sentado no balanço.

Parecia imerso em pensamentos, balançando vagarosamente para frente e para trás. Encostava os pés no chão, mas não totalmente precisando usar a ponta dos pés para impulso.

Encostou no batente assistindo-o. Uma calma absurda o invadiu. Era estranho. A forma como a presença dele o deixava confortável e tranquilo.

Uma espécie de calmaria que não sentia a muitos anos. Era convidativa demais.

Suspirou baixo tendo um pouco de noção do motivo disso. Nico era incrível, e Will estava falhando em disfarçar seu afeto.

Eles sairiam machucados dessa brincadeira, com certeza.

Resolveu deixá-lo em paz e subiu para o quarto. Não estava com fome.

Nico

O dia seguinte chegou com sol. Se tinha uma coisa que não compreendia era o clima na Itália. Dia faz chuva outro faz sol. Sinceramente irritante.

Desceu bocejando forte. Havia ficado até tarde no balanço no dia anterior. Era mais fácil se concentrar em seus pensamentos ali. Não era atoa que a mãe do Will gostava daquele ponto.

Nico decidiu que era seu lugar favorito da casa.

Entrou na cozinha enchendo uma caneca de chá quente. Olhou em volta atrás do doutor, mas nada dele por perto.

Saiu da cozinha com o chá em mãos atrás do rapaz. Entrou na sala vendo o doutor sentado com o rosto entre as mãos.

Nico parou no lugar em choque.

―Solace? ― chamou depositando a caneca no móvel perto da porta.

O doutor se virou para ele e sorriu. Nico mordeu o lábio para o quão falsa daquela reação era.

― Bom dia. ― cumprimentou Will sentando mais ereto: ― Já tomou café?

― Não me engane, Solace. ― pediu Nico suplicante.

Will abaixou o olhar recusando-se a responder. Aquilo doía tanto, mas Nico aceitava esse castigo.

Se sentou ao lado de Will acariciando seu rosto. O doutor ficou tenso ao toque:

― Eu me importo muito com você Solace. ― falou ele afastando as mãos de seu rosto: ― Sei que está preocupado com como as coisas estão entre nós. Sei que está com medo. ― disse olhando momentaneamente para o fogo na lareira antes de sorrir tristonho: ― Mas eu nunca faria nada que te machucasse. Não vou insistir se você não está confortável.

Will apertou os olhos sem dizer nada.

― Eu vou embora mais rápido do que você pensa. Desculpe por isso. ― pediu ele se levantando. Tinha a intenção de voltar para o quarto, mas Will segurou sua mão o puxando para ele delicadamente.

― Não quero que vá. ― pediu ele apertando a mão de Nico. O pirata o encarou: ― Só não sei o que fazer Nico.

O rapaz sorriu tristonho voltando sua mão livre para o rosto do doutor:

― Não precisa fazer nada. ― disse carinhosamente: ― Não se obrigue a nada. Deixe as coisas fluírem.

Will fechou os olhos segurando a mão de Nico em seu rosto. O encarou novamente puxando seu braço aproximando seu rosto lentamente. O pirata segurou a respiração sem saber o que fazer.

Sentiu seu estômago revirar, mas não se moveu. Deixou Will tomar controle. Sentiu os dedos quentes dele em sua mão se apertarem. O doutor fechou os olhos aproximando os lábios nos de Nico.

O pirata semicerrou os olhos sentindo o latejar em suas orelhas aumentar.

As batidas fortes na porta os obrigou a se afastarem no susto. Ambos olharam para ela. Will arqueou a sobrancelha:

― Quem será?

As batidas aumentaram deixando Nico tenso. Will se afastou indo em direção à ela. O pirata levantou-se também segurando o cabo da arma em sua cintura por precaução. O doutor abriu a porta:

― Uma carruagem?

Nico ficou tenso aproximando-se vagarosamente. Viu de longe o sorriso no rosto de Will aumentar grandemente:

― Kayla!

O pirata ficou mais tranquilo fugindo da visão da porta. Respirou fundo guardando sua arma atrás de um dos móveis da sala. Passou a mão pelos cabelos e decidiu ir para a cozinha dar espaço à Will enquanto normalizava seu coração desesperado.

Notas finais
O que acharam??? Urrgrh esses dois me matam toda hora. Fofura demais ♥ ♥ ♥ GIOVANNI É DO BEM! rhuehrueh a história dele ainda será contada com mais detalhes, não se preocupem, mas como deu para ver ele conhece nosso pequeno Duque. Agora... devo dizer que as coisas ficam complicadas do próximo em diante, só queria alertá-los mesmo. obrigada por lerem até aqui, e vou responder os comentários não se preocupem ;) beijinhos~