Pit-a-Pat
29 Capítulo XXIX
Notas iniciais

Giovanni
~Capítulo XXIX~
:: 53º dia na Itália — Semana 7 ::
[...]
Um homem fardado entrou no escritório de Giovanni sem convite batendo a porta ao passar. O Capitão levantou o olhar já sabendo quem era o furacão na sala.
― Dylan.
― O que era aquilo na sua carta? ― exigiu saber. O olhar raivoso em seu rosto era intimidador, mas Giovanni somente riu da tentativa falha do rapaz.
― Nico precisa de nós, Dylan. ― falou Giovanni sério gesticulando com as mãos para a cadeira à sua frente: ― Sente-se. A conversa será longa.
O rapaz bufou, mas fez o que foi pedido. Sentou cruzando os braços esperando pela conversa.
― Não tem como ser o Nicolà. ― respondeu Dylan descrente: ― Ele foi embora da Itália tem cinco anos. Não voltaria por nada.
Giovanni o observou sério antes de suspirar:
― Quão fiel você é a ele? ― perguntou o homem trançando seus dedos sob seu queixo.
Dylan respondeu sem hesitar: ― Daria minha vida sem pensar duas vezes.
Giovanni assentiu satisfeito.
― Ele voltou e pretende bater de frente com o Castellan. Ele me pediu diretamente para não me envolver, maa também me pediu para chamá-lo.
― Foi por isso que mandou aquela carta em código? ― indagou Dylan seriamente.
Giovanni concordou:
― Soldados não entendem a linguagem dos marinheiros, mas Nico ter te ensinado isso teve sua utilidade. ― comentou: ― Não sabia que ele o queria aqui quando chamei. O chamei mesmo para falar sobre o que fazer quanto aos homens do Conde que o atacaram.
― Disto cuido eu, nao se preocupe. Sabem que está aqui? ― perguntou Dylan preocupado.
― Não sei dizer. Ele não me disse o que pensa. Ele nunca diz. ― resmungou incrédulo.
Dylan riu cômico:
― Me conte uma novidade.
― Vai ajudá-lo?
O soldado sorriu: ― Lógico. É o mínimo que posso fazer.
Giovanni aquiesceu levantando-se.
― Ele está na casa do seu cunhado.
Dyuan franziu o cenho. Se levantou também.
― Por que ele se envolveria com o Will?
― Ele está ferido e o doutor está tratando dele. Infelizmente isso o envolveu em problemas também. ― admitiu cansado.
Aquele assunto daria mais trabalho do que ele pensava. Já tinha mandado dois de seus homens mais confiáveis para proteger o doutor, mas dependendo do que aconteça dentro da casa não poderá manter o segredo de Nico por muito tempo.
Tinha mais perigo naquela escolta do que Nico acreditava ter.
― Então preciso falar com ele. ― avisou batendo continência de forma preguiçosa: ― Tchau Giovanni.
― Vou refazer minha pergunta. ― disse obrigando o rapaz a se virar: ― O quão fiel você é ao Nico, ao ponto de guardar seus segredos independente do quão graves eles sejam?
Dylan crispou os lábios antes de responder.
― O suficiente para manter o segredo dele longe de seu pai pelos anos que trabalhei na casa. ― sugeriu ele arqueando a sobrancelha: ― Tem algo mais que ele esteja fazendo de errado?
― Algo que se descobrirem que você sabia vai para a forca com ele. ― encerrou cruzando os braços: ― E sua família perde as terras e as honrarias.
Dylan franziu o cenho ligeiramente preocupado, mas balançou a cabeça.
― Bom dia, Giovanni.
Ele saiu deixando o Capitão intrigado. Dylan de todos os soldados era o que melhor conhecia Nico, talvez o mesmo tanto que Giovanni.
Mas quantos segredos ele poderia guardar pelo Duque?
☠
Will
― Kayla, quanto tempo! ― disse Will entusiasmado ao ver a irmã descer da carruagem. Ela usava um belo vestido amarelo vintage. O corpete que delineava sua cintura fina possuía várias pedras brancas encrustadas adornado a região dos seios; as mangas compridas possuíam lindas rendas que se completavam a luva branca em suas mãos finas.
O chapéu era grande, com rendas brancas detalhando o entorno destacando o ruivo de seus cabelos. Seus olhos verdes eram brilhantes contrastando com as sardas em seu rosto. Simplesmente linda. Kayla sorriu para Will abraçando-o afetuosamente.
― Que saudades de você, irmão. ― falou afastando-se dele: ― Lorenzo, venha cumprimentar seu tio. ― chamou Kayla para o garotinho dentro da carruagem.
Com aparentemente dois anos, Lorenzo desceu da carruagem com a ajuda do cocheiro. Seus cabelos eram negros, mas os olhos tão verdes quanto os de sua mãe. Pequenas sardinhas podiam ser vistas em sua pele branca.
― Will. ― o rapazinho chamou agarrando as pernas do tio com força: ― Oi! ― cumprimentou feliz. Will sorriu afagando-lhe os cabelos.
― Como está grande, da última vez parecia tão menor. ― zombou Will o pegando no colo. Lorenzo torceu o lábio: ― Não faz essa cara, agora você está grande.
― Sim! ― respondeu sorrindo. Abraçou o tio antes de pedir para descer e entrar correndo na casa.
― Desculpe por isso, mas ele estava ansioso pela viagem. ― avisou Kayla passando os olhos analíticos pelo rosto do irmão.
Parou o olhar em seu olho cortado torcendo o lábio. Will suspirou.
― Entre. ― falou dando passagem para a irmã e seu vestido espaçoso.
Assim que fechou a porta foi envolvido pelos braços finos da caçula. Passou os seus por sua cintura retribuindo o abraço.
― O que aconteceu? Por que alguém te atacaria? ― falou ela afastando-se e segurando o rosto do doutor em suas mãos enluvadas.
― Estavam atrás de dinheiro, minha irmã. ― respondeu ele calmamente: ― Pelo que sei já foi resolvido.
― Dylan foi chamado por conta disso. Para resolver ou se livrar deles. ― comentou a moça, olhar feroz: ― Eu particularmente preferiria a segunda.
― Kayla. ― Will a repreendeu. Ela bufou se afastando dele.
― Onde está o Lorenzo? ― perguntou olhando em volta.
― Na cozinha, provavelmente. ― respondeu calmo. Ela ficou tensa:
― Lá tem várias coisas perigosas. ― comentou andando até lá.
― Eu não me preocuparia com isso. ― garantiu imaginando que Nico estivesse lá.
Entraram na cozinha vendo Lorenzo sentado na mesa com Nico conversando animadamente com ele. Will sorriu com a cena. Kayla arqueou a sobrancelha para o moreno:
― Will? ― Kayla chamou o olhando curiosamente.
― Esse é Nico, meu amigo. Me ajuda em minhas consultas. ― respondeu ignorando o pequeno aperto em seu peito.
Nico o ouviu virando-se para encarar a mãe do menino. Sorriu e foi até ela. Kayla lhe estendeu a mão e Nico a pegou depositando um beijo rápido.
― Prazer em conhecê-la. Meu chamo Nico Levesque. ― apresentou-se soltando sua mão.
― Kayla Ferrarezi, muito gosto. ― respondeu radiante: ― Pelo visto já conheceu meu filho.
―Sim, o rapaz é bem energético. ― Will reparou no tom afetuoso de Nico ao falar do garoto, sorrindo amorosamente.
Nunca se cansava de observar seu carinho por crianças. Olhou em volta na cozinha suspirando irritado.
Kayla lhe cutucou:
― Tudo bem? ― perguntou preocupada. Ele aquiesceu:
― Sim. Bem, como você veio de última hora estou sem nada em casa, vou precisar ir ao mercado. ― disse direto ao ponto. Nico negou:
― Eu vou. Curta a sua irmã, não é sempre que a vê. ― falou simplesmente pegando o pequeno saco com moedas para a troca: ― Além do mais estou precisando me exercitar, ficar só aqui dentro está fazendo mal pra minha sanidade.
― Você sai mais do que deveria com esse ferimento. ― rebateu Will seriamente. Kayla revirou os olhos:
― Ele parece muito bem para mim, e pare de agir como um médico uma vez na vida. ― falou ela indo até Lorenzo que brincava com alguns talheres: ― Dessa forma vai ser difícil se casar.
O comentário pegou Will de surpresa. Ele viu Nico ficar tenso e olhar para baixo, ver aquilo foi como um soco. Péssima hora para falar sobre isso.
― Não estou pensando nisso no momento. ― respondeu Will fugindo do assunto.
― Deveria, não vai ser bonito assim pra sempre. Tem várias mulheres lindas por aqui, e você é um doutor renomado, não vai ser difícil achar alguma. ― Ela tinha um ponto, mas era o mesmo argumento que Silena e Charles usaram com ele para o fiasco que foi com a Lou Ellen.
Wil bufou incomodado com o assunto. Não queria se casar, não queria pensar nisso e nem falar sobre. Não agora, não na frente dele.
― Vou ao mercado, vejo você daqui a pouco. ― avisou Nico saindo pela porta da cozinha. Will xingou internamente.
― Bom, onde está o Dylan? ― perguntou mudando de assunto. Kayla suspirou:
― Está chegando. Precisou passar no escritório do Capitão Mozetti antes de vir. ― respondeu cansada sentando-se na cadeira. Pegou Lorenzo o colocando no chão: ― Vai brincar querido, mas cuidado as coisas do tio Will.
Ele aquiesceu correndo para fora, Will sentou na frente da irmã, tenso. Não sabia o que aquele homem poderia dizer deles. Ainda não estava convencido de que a mentira deles duraria muito.
Resolveu por fim iniciar conversas costumeiras:
― Como está a vida com o Dylan? Ele te trata bem?
― Sim, muito bem. ― respondeu orgulhosa: ― É um ótimo marido. O emprego dele também é excelente, consegue dar uma boa vida para Lorenzo e eu.
Will sorriu: ― Fico feliz com isso. Então ele ainda trabalha no Ducado?
― Sim. Atualmente ele é o Capitão do exército do Ducado. Não ganha tanto quanto antes com toda a crise que os senhores estão passando, mas ele é bem respeitado por lá. ― Will concordou, mas ao mesmo tempo ficou curioso:
― Crise? O Conde está passando por algum problema?
Kayla aquiesceu ficando ligeiramente tensa: ― Você sabe da história toda?
― Sei que o Duque adoeceu e que o Conde Castellan assumiu seus deveres até ele melhorar. ― respondeu dando de ombros. Não se importava muito com isso.
Ela olhou para os lados esticando o pescoço para ver além da porta de entrada da cozinha antes de se aproximar de Will. O doutor arqueou a sobrancelha.
― Vou te contar um segredo, mas precisa me prometer que não vai contar nem ao senhor Levesque. Mesmo sendo amigos. ― pediu a moça seria.
Will concordou meio relutante.
― Se é um segredo não deveria me contar.
― Você é confiável. ― assegurou a moça depositando os braços em cima da mesa: ― Bem, Dylan trabalhava como guarda costas da filha mais nova do Duque até cinco anos atrás. Ficou quase três anos trabalhando dentro da mansão enquanto treinava para ser soldado no Ducado.
― Pelo que ele havia me dito, houve um golpe aplicado pelo Conde para retirar o Duque do poder. ― falou a moça deixando Will tenso.
― Golpe?
― Sim. ― ela confirmou tristonha: ― Parece que muitos soldados apoiaram o Conde achando que poderiam tirar vantagem disso, mas Dylan me disse que a maioria deles se arrependeram quando o Duque recém nomeado e sua irmãzinha desapareceram.
― Desapareceram? Espera, o Duque? ― Will estava confuso e chocado ao mesmo tempo: ― O mesmo que disseram estar doente?
― Sim. ― Will deu um pulo ao ouvir a resposta vinda da porta da cozinha. Dylan estava fardado, encostado no batente da porta.
Sua roupa era em um tom vinho com uma faixa na diagonal que ia de seu ombro direito até sua cintura; a espada no lado esquerdo de seu quadril estava pendurada no cinto marrom com sua mão que descansava na bainha.
― Dylan, nos assustou. ― avisou Kayla com a mão no peito respirando fundo. Seu marido desculpou-se.
― Gostaria de ouvir a história toda, William? ― perguntou Dylan sombriamente. Will imaginou que talvez devesse dizer não, pelo tom que seu cunhado usara provavelmente não era assunto para se contar, além de que tecnicamente era um segredo.
― Depende de você poder contar ou não. ― comentou não insistindo na história. Estava curioso, mas sabia quando deveria recusar.
Dylan suspirou sentando-se ao lado da esposa: ― Sinceramente, considerando tudo acho que merece saber. ― disse cansado. Will franziu o cenho, mas Dylan começou a falar antes que pudesse perguntar:
― Bem, eu fui designado entre os vários soldados recrutados naquele ano para ser o guarda costas da filha mais nova do Duque. Ela devia ter em torno de oito anos na época.
― Lembro que o meu Senhor havia me chamado no dia. Mas ao invés do próprio Duque me contratar, quem o fez foi seu filho herdeiro. Tinha a minha idade praticamente, mas era muito sério para alguém de dezesseis anos. ― comentou cruzando os braços: ― Ele me pediu para estar sempre acompanhando a menina, seja nos arredores da mansão até passeios na cidade.
― Lembro-me de conversar poucas vezes com ele no começo, mas com o passar do tempo a garotinha nos fez nos aproximar. Hazel era o nome dela, se não me falha a memória. ― Disse nostálgico. Will assustou-se com a familiaridade do nome, já havia o escutado, mas aonde?
― Ele sempre passava a maior parte do tempo estudando para assumir o Ducado, e naquela época sua irmã mais velha havia se casado com o Conde Castellan, então ele parecia sempre sozinho a maior parte do tempo, com exceção de quando passava um tempo com a irmã, principalmente depois de seus quinze anos. ― disse suspirando: ― Disseram que ele ficou estranho, mas não sei muito sobre isso.
― Uns dois anos depois, sua irmã mais velha pediu para fazer um chá em comemoração aos oito meses que seu filho estava fazendo. O Duque chamou vários nobres e o jardim ficou lotado. ― Dylan ajeitou-se na cadeira parecendo desconfortável com o assunto: ― Mas o Conde estava estranho. Olhava o Duque com ódio. Ele havia acabado de completar seus dezoito anos, e o Imperador o havia nomeado como novo Duque uma semana antes.
― Então esse garoto já era Duque na época desse golpe? ― Will perguntou interessado.
Dylan concordou: ― Na madrugada do dia seguinte ouvimos tiros e barulho de espadas. Eu estava na cozinha com alguns soldados de ronda. Corremos para o andar de nossos senhores, mas quando fui até o Duque ele e Hazel haviam sumido. Sua irmã mais velha chorava no quarto em agonia com o Conde ao seu lado.
― Ele avisou que daquele momento em diante seria o novo senhorio da casa até Nicolà retornar e lhe entregar oficialmente o título de Duque. ― Dylan resmungou cruzando os braços: ― Eu continuei lá por ser um bom emprego, mas não sirvo ao Conde, e sim aos Di Angelo, ao Duque que desapareceu há cinco anos.
Depois disso o silêncio se instalou. Will pode ligar a crise com o golpe, afinal de contas o que um Conde faz mal chega a ser dez por cento do trabalho de um Duque, não lhe surpreendeu o Ducado passar por dificuldades.
Ele não se lembrava muito sobre o que acontecera cinco anos antes, mas se lembrava de vários nobres reclamando do mandato do Conde.
Provavelmente nenhum deles tinham noção da gravidade do problema. Will não entendia muito de assuntos do tipo, mas não era tolo de imaginar que as coisas se acertariam sem uma guerra interna.
As chances de resolverem o problema com espadas era enorme.
Will ouviu barulho na porta o fazendo ver Nico entrar tenso enquanto deixava o que havia comprado no mobiliário da cozinha.
― Voltei. ― disse com a voz morta sem tirar os olhos de Dylan. Olhou dele para o cunhado vendo Dylan ficar pálido.
― Querido? ― chamou Kayla colocando sua mão na dele. Ele se levantou abruptamente fazendo Will e Kayla se assustarem com o movimento.
― Duque? ― sussurrou Dylan incrédulo enquanto Nico confirmava com a cabeça. Olhar duro em seu rosto.
― Oi Dylan. ― respondeu somente dando de ombros. Will gelou levantando-se também. Nico o encarou nos olhos e Will soube naquele momento de onde ouvira o nome daquela garotinha.
Hazel era o nome da irmã caçula de Nico.
Dylan foi até ele segurando em seus braços de forma brusca: ― Por onde você andou? Tem noção de como ficaram as coisas no Ducado depois que foi embora?
Nico gemeu de dor pelo movimento que repuxou seu machucado. Todo e qualquer movimento brusco doía.
― Ele está machucado Dylan, para com isso. ― bradou Will irritado. Dylan afrouxou o aperto se afastando.
― Me desculpe senhor. Esqueci de que estava ferido.
Nico negou: ― Tudo bem. Não sou mais um Duque então não precisa de formalidades comigo, mas tudo tem limites, e o primeiro deles é meu espaço pessoal. ― grunhiu o rapaz massageando os braços.
― Nico? ― Will o chamou antes mesmo que percebesse. O rapaz o encarou suavizando o olhar formando um sorriso doloroso.
― Onde você esteve todo esse tempo? ― insistiu Dylan nervoso. Nico suspirou:
― Tentando sobreviver, Dylan. ― respondeu sem dar muita importância.
Will não soube como reagir àquela informação. Nico era um Duque todo aquele tempo? Um rapaz da nobreza? Mordeu o lábio evitando contato visual com Nico. O que ele diria para ele?
Quando ele pensou que estava conseguindo chegar em algum lugar com seus pensamentos mais coisa aparecia.
Se sentiu um idiota.
― Solace? ― Nico o chamou encostando sua mão em seu antebraço. Will instintivamente o retirou.
Nico o encarou dolorosamente. Não parecia esperar aquela reação brusca do doutor.
― Pode contar o que aconteceu naquele dia? ― perguntou Dylan.
Nico arqueou a sobrancelha: ― Você parecia saber bastante enquanto contava sobre minha desgraça à poucos minutos.
― Will foi atacado por culpa sua, senhor. Ele merecia saber. ― Dylan falou mordaz.
― Dylan! ― Kayla o repreendeu olhando aterrorizada para o Duque.
Will fechou os olhos engolindo a mágoa que começou a borbulhar.
Aquela era a mais pura verdade.
Nico inspirou fundo concordando: ― Acho que é o mínimo.
Todos voltaram para a mesa, e Will faz questão de se sentar ao lado de Kayla, distante do pirata.
Se Nico se incomodou com isso não demonstrou. Ele suspirou passando a mão pelos cabelos antes de começar.
― Como deve saber os barulhos me acordaram aquela noite. Se queriam uma ataque surpresa falharam terrivelmente.― comentou lentamente. Como se ele próprio tentasse acompanhar seu ritmo: ― Eu peguei a Hazel que estava dormindo comigo e corri ao quarto de Bianca. ― continuou com as mãos entrelaçadas em cima da mesa: ― Quando cheguei lá ela chorava desesperada com a criança no colo.
Dylan estremeceu: ― Então foi nessa hora...
Nico o olhou sem entender, mas continuou: ― Eu corri até Bianca pra ajudar ela com a criança e sairmos dali, mas me virei assim que ouvi Hazel gritar. Um dos soldados do Conde a havia pego. ― explicou cerrando os olhos: ― Tentei reagir, mas fui apunhalado no ombro por trás.
― Pelo Conde? ― perguntou Dylan.
― Bianca. ― cuspiu Nico o mais venenoso que pode. O rancor em cada letra de seu nome.
Os três ficaram chocados. Will prendeu a respiração pela surpresa e compreensão. Agora fazia sentido do porque Nico odiar falar da irmã mais velha. Sempre dizendo que não se deve confiar em todos. Ele foi traído pela própria irmã.
Mordeu o lábio guardando para si seus pensamentos.
― Quando me virei ela chorava ― continuou, o tom de voz sombrio e mórbido: ―, mas não parecia arrependida. Não lembro bem, mas sei que a joguei longe o bastante para conseguir correr até Hazel e matar o soldado antes que fizesse mal para ela.
― Não voltei para verificar Bianca, somente corri pelos corredores enquanto ela gritava e me chamava de assassino. ― ele riu, sua voz saiu áspera: ― Nada demais pra quem viu o irmão caçula matar alguém, não é?
Dylan fechou os olhos absorvendo a informação:
― Fomos até a cozinha onde a Senhora Dodds nos esperava com um cavalo aprontado para fugirmos. O fiz, mas não ousei olhar para trás, me arrependeria. Hazel chorava muito, queria tirar ela dali o mais rápido que podia. ― Nico respirou fundo olhando para Dylan: ― Satisfeito?
― O que fez durante todos esses anos? ― O soldado continuou perguntando.
― Chegamos até o porto onde consegui pagar por duas passagens até a Holanda. Estupidez, eu sei, mas precisava ficar o mais distante possível da Itália. ― afirmou sério: ― Mas não havia percebido que o preconceito com estrangeiros era tão forte, mas a gente aprende quando se torna um. Ficamos seis meses morando nas ruas, pois não conseguia nenhum emprego, nada, nem os mais simples.
Suspirou apoiando o rosto em sua mão por um momento como que para suportar a história. Will quis se aproximar, mas era orgulhoso o bastante para não o fazer.
― Eu não conseguia nada mais do que esmolas e restos. ― retomou a história levantando a cabeça: ― Foram os piores meses da minha vida, não por não ter o que comer, mas por ter Hazel reclamando para mim de fome e não conseguir nada pra ela. ― Nico desviou o olhar envergonhado: ― Por isso eu comecei a roubar para conseguir dinheiro para nós.
― O que? ― exasperou-se Dylan: ― Se rebaixou a isso?
― Se fosse você no meu lugar, e seu filho chorasse de fome não faria o mesmo? ― cuspiu Nico com raiva na voz. Dylan acabou cedendo passando nervosamente a mão pelos cabelos.
― Faria sim.
E a cozinha caiu no silêncio.
Will tentou absorver as informações da forma mais positiva que achou, mas aquilo era cruel. A forma como foi retirado de sua família, os sacrifícios que teve de fazer e que nem todos suportariam, era terrível. Mordeu o interior da bochecha conflitante.
Entre o sentimento de piedade e a mágoa que sentia pela mentira.
― Giovanni me disse que você quer voltar para o Ducado e parar o Conde. ― disse Dylan respirando profundamente: ― Se importa de explicar como pretende fazer isso?
Will arregalou os olhos. Olhou para Nico de forma acusadora, mas o rapaz somente evitou seu olhar.
― Antes de toda a confusão eu já tinha começado a criar alguns contatos e aliados caso meu pai tivesse a estúpida ideia de tomar o Ducado de volta. Claro que um golpe feito pelo Castellan não estava em meus planos, mas o pouco de nobres que consegui ao meu lado devem ser suficientes. ― comentou gesticulando com as mãos: ― Cada um deles tem um exército particular e terras com fronteiras ao terreno da mansão. Fácil acesso.
― Não tão fácil assim. ― rebateu Dylan: ― A maioria dos soldados do Ducado servem ao Conde.
Nico concordou:
― Sei disso, mas sei também que pelo menos parte desse grupo deve ter se arrependido. ― comentou tediosamente: ― É óbvio que nem todo tipo de golpe gera frutos. Suponho que as promessas do Castellan não se cumpriram.
Dylan negou:
― Nenhuma delas, mas depois que o golpe foi dado não tinham como voltar atrás. ― complementou: ― Posso montar um grupo de homens que ainda são leais a você. Contando comigo, conheço pelo menos mais uns dez que não participaram do golpe, mas conseguiram permanecer no Ducado.
― Pois bem. ― concordou Nico encostando na cadeira: ― Vou escrever uma carta de convocação para os nobres. Não vão acreditar em suas palavras, mas no selo da família sim.
Nico afrouxou a gravata tirando de dentro de sua roupa o colar com uma chave e seu anel de caveira. Will se lembrava deles nos primeiros dias que Nico esteve em sua casa. Depois disso não o pegou mexendo neles.
― Você manteve o anel. ― afirmou Dylan, um sorriso se formando em seu rosto: ― Esperto. Não tem como o Castellan enviar mensagens se passando por você sem o selo, e não tem como pedir outro anel sem que você o faça.
Nico retribuiu o sorriso maldoso:
― Exato. Tenho aqui o que pode nos garantir apoio, mas vou precisar que envie um mensageiro. ― disse: ― Não me atrevo a aparecer na casa de um nobre sem as vestimentas e escolta adequadas.
― Concordo.
― Quanto antes melhor. ― falou Nico o dispensando. Dylan aquiesceu se levantando da mesa.
― Quer ir para a hospedagem que paguei para nós? ― sugeriu para Kayla.
A moça olhou dele para Will e do Will para Nico. Ela concordou suspirando exageradamente.
― Creio que seja o melhor. Voltamos amanhã Will. ― disse ela o beijando na bochecha e se despedindo de Nico se curvando ligeiramente antes de ir atrás de Lorenzo.
Dylan apertou levemente o ombro de Will numa despedida silenciosa para depois seguir a esposa para fora da casa. A porta fechou e ambos se encontraram sozinhos. Will ficou subitamente nervoso de ficar sozinho com ele.
Seu coração começou a disparar de ansiedade e a única coisa que pensou em fazer foi se levantar e sair da cozinha. O ar estava sufocante, iria explodir a qualquer minuto.
― Solace! ― Nico o chamou o seguindo até a sala.
Will parou respirando profundamente.
― Me deixa explicar, por favor. ― pediu o Duque se aproximando. Will se virou para ele.
― Eu te dei uma chance de se explicar, lembra? ― falou doutor com ressentimento na voz. Nico se calou: ― Dois dias atrás eu te perguntei o que acontecia, porque eu tinha o direito de entender o que diabos acontecia para sempre te terem como alvo.
― Solace…
― Sabe todo esse tempo, todas essas coisas acontecendo e em nenhum momento você pensou que parar de mentir para mim poderia ajudar? ― Will continuou, não dando chances para Nico falar: ― Se tivesse dito antes você já saberia da minha ligação com o Dylan, eu entenderia quando você poderia ou não sair e se tinha riscos à você ou a mim. Não seria tão insistente em te entender.
Tomou ar antes de continuar:
― Três meses Nico! ― esbravejou Will passando a mão pelos cabelos, possesso: ― Me enganar desse jeito é tão baixo.
― Eu não menti pra você Will! ― Nico se defendeu o segurando pelo braço: ― Me escuta. Eu não poderia te envolver nisso. Entende onde minha cabeça foi colocada? Sou um alvo ambulante.
Will riu incrédulo:
― E mesmo assim me deixou no escuro podendo ser atacado sem nem pensar em talvez me defender, porque você sabe que eu não iria reagir sem motivo. ― explicou Will se soltando de Nico: ― Minha cabeça tem estado confusa todos esses dias Nico. Eu não tenho conseguido colocar meus pensamentos em ordem, mas por um instante pensei que talvez estivesse chegando em algum lugar.
― Ai você me vem com mais segredos. Quando isso vai acabar? ― pediu ele traído: ― Quando você vai confiar em mim?
― Eu confio em você Will, mas tem coisas que não precisam ser ditas. ― Nico tentou falar mais uma vez, mas Will negou não querendo ouvir.
― Sabe eu realmente pensei que depois de tudo eu te conhecia. Te defendi contra o Charles aquele dia. ― comentou ele desolado: ― Eu falei coisas terríveis pra ele porque pensei que conhecesse você. O que mais eu não sei Nico?
O Duque abriu e fechou a boca, sem ter o que dizer.
Will respirou fundo engolindo o bolo em sua garganta que já ardia. Não iria chorar, nem morto.
― Você conhecia aquele Capitão que apareceu aqui. ― continuou Will não esperando por uma resposta: ― Sabia que ele ia nos acobertar e mesmo assim me fez perder noites de sono por causa disso. Acha mesmo que foi sua melhor escolha omitir tudo isso de mim?
Nico engoliu em seco desviando o olhar.
― Nunca fui bom em fazer escolhas certas. ― admitiu cruzando os braços.
Will riu fraco:
― Nisso concordamos.
Respirou fundo encostando o quadril no encosto do sofá. Passou a mão pelo rosto tentando se acalmar.
― Eu não ligo de você ser um pirata. ― Will sussurrou encarando Nico mais uma vez. O Duque retribuiu o olhar, brilhando como se mergulhados em água, à beira das lágrimas: ― Não teria ligado de você ser um Duque fugitivo. Não me importava o que você era, porque pelo menos não era mentiroso. Não tentava me enganar como fazia com todos.
Nico resfolegou com dificuldades de manter o olhar em Will, mas não desviou:
― Pensei que… Talvez eu fosse diferente pra você. ― concluiu quebrando o contato visual: ― Eu… não consigo colocar meus pensamentos em ordem.
Soltou o ar mordendo o lábio frustrado. Doía muito.
― Vai embora. ― pediu Will: ― Só me deixa quieto Nico.
Se desencostou do sofá e caminhou até o escritório não sabendo mais o que fazer. Se ele esperava que Nico o impedisse de se afastar então mais uma vez ele se frustrou com falsas ideias.
Nico não o impediu.
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