Pit-a-Pat

21 Capítulo XXI


Notas iniciais
NÃO MORRI! Estou aqui com o cap e hoje e me desculpem por essa demora toda. Nem sei quanto tempo demorei, to evitando ver datas e ficar chateada comigo mesma, mas é aquela coisa de escritor que as vezes fica dias/meses sem conseguir escrever um "A" e foi o que aconteceu comigo. Peço desculpas das mais sinceras que eu puder. E espero que não estejam muito bravos comigo ;-; A fanfic não esta em hiatus e nem vai entrar.NUM PERMITIREI! Então relaxem reuhruhruehrue Está tão perto do momento que vocês queriam, acreditem em mim u-u Bom, os comentários vou responder tudo hoje SEM FALTA! Isso eu posso prometer urehurhuehrue enfim, Boa leitura!

Will

~Capítulo XXI~

:: 45º dia na Itália — Semana 6 ::

[...]

O dia passou mais rápido do que Will gostaria chegando a hora da bendita quermesse. Diferente do que Silena havia prometido a moça não apareceu para ajuda-lo no vestuário resultando em um doutor perdido e confuso no meio de todo aquele pano sem sentido. Normalmente para esses tipos de ocasiões Silena sempre o aconselhava no que vestir já que se dependesse do doutor as mesmas roupas de trabalho serviriam bem à ocasião.

Claro que isso não era verdade.

Lou Ellen não era de uma família nobre – se fosse não estaria ali num encontro com um doutor de Vila – mas não era de uma família que não impunha respeito. Sua família vivia um pouco mais para o centro. Ainda distante da região de nobreza, mas não misturados aos mais precários.

Se quisesse algo com a moça teria que estar apresentável e no mínimo representar um pouco do status social que sua família um dia teve. Will suspirou em frente ao espelho arrumando aqueles panos espalhafatosos de sua camisa branca.

Todo o conjunto da roupa o fazia se sentir sufocado. Todo vestido em tons de bege excerto pelo paletó o qual que se recusou a colocar enquanto não se sentisse menos tolo naquelas roupas.

Arrumou mais uma vez a gola torcendo o lábio para o reflexo nervoso que o encarava.

― Dificuldades? ― Perguntou Nico da porta do quarto. Tinha um sorriso divertido no rosto trajado em roupas semelhantes às de Will, mas estas devidamente arrumadas.

Will bufou:

― Como você consegue? ― Perguntou ele decepcionado consigo mesmo: ― Estou tentando me arrumar a uma década. ― Comentou exasperado.

Nico balançou a cabeça ainda rindo e caminhou ate ele. Desabotoou sua camisa e abotoou novamente arrumando o acúmulo de pano que ficava amostra quando o paletó vinha por cima. Um charme em conjunto da manga.

Os dedos frios de Nico em sua pele o arrepiou um pouco fazendo Will desviar o olhar involuntariamente. Nico não pareceu perceber pegando o paletó e o forçando a vestir. Will o fez rindo um pouco da situação. Era como se tivesse voltado a ser criança e precisasse de alguém pra vesti-lo.

― Ok, vira! ― pediu virando Will forçadamente. O rapaz protestou, mas Nico nem ligou pra isso.

Ajeitou a roupa engomada da forma certa antes de se afastar e olhar o resultado com a mão esquerda no queixo apreciando a vista.

Will olhou-se no espelho em choque com o que via.

“Então é pra isso que serve esse monte de pano?” pensou rindo brevemente antes de se virar para o pirata.

― Ok como diabos você sabe arrumar isso? ― indagou William intrigado.

Nico soltou um som exasperado com a mão apoiada no peito de forma exagerada: ― Você dizendo diabo? Que errado.

Will rolou os olhos: ― Muita convivência com você, mas não foi o que perguntei.

Nico riu sentando-se na cama com os braços para trás apoiando seu peso neles. Cruzou as pernas examinando-o minuciosamente.

― Usava muito esse tipo de roupa quando ainda era considerado um ser humano. ― Zombou dando de ombros: ― Diferente de você eu estava acostumado com esse tipo de coisa. Não incomodava, mas atualmente prefiro mais minhas roupas largas.

― Eu vejo. ― comentou Will olhando-o com curiosidade: ― Enfim, vamos? ― Sugeriu saindo do quarto. Esperou por Nico no batente da porta. O pirata se espreguiçou antes de segui-lo pelo corredor.

Saíram da casa caminhando lado a lado até a quermesse. As ruas estavam um pouco mais lotadas que o habitual com pessoas vestidas mais pomposas e arrumadas. Algumas carroças passaram por eles durante o caminho em direção à pequena reunião na Igreja.

Durante o trajeto várias pessoas cumprimentaram Will com acenos a distância e outras mais atrevidas vindo falar diretamente com ele. Normalmente eram conversas simples e inofensivas, mas Will sentia um pouco de ironia na voz deles quando perguntavam sobre seus pacientes.

O doutor sabia que nunca perguntariam diretamente a ele, mas entendia as entrelinhas. Era sempre sobre Harley. Todas as vezes que saia recebia perguntas camufladas e mascaradas sobre o garoto. Jogando em sua cara sua falha grotesca.

A ferida era fresca, mas isso nada importava pras pessoas que sentiam um pequeno prazer em jogar sal na ferida. Ele estava cansado de dizer a si mesmo que precisava superar, mas com constante reafirmação de seu fracasso dificultava o trabalho.

Não demorou muito pra divagar na conversa com um homem adulto que o parara na rua, mas também não demorou para Nico puxa-lo pelo braço lançando olhares assustadores ao homem que se encolhia disfarçadamente. Will não soube dizer se foi por vergonha de ser pego ou por medo de Nico.

Sorriu pra esse pequeno fato. Nico não era assustador, não quando não se tinha a informação dele ser um pirata. Ele era tranquilo, na dele, mas tinha aquela pressão esmagadora como pessoas importantes sempre tinham.

Um olhar simples que impunha mais respeito do que medo.

Will já pensara em perguntar mais uma vez sobre seu passado, mas parecia ainda ser uma ferida aberta. Sempre que perguntava Nico abaixava o olhar sôfrego antes de se recompor e contar uma história pirata.

Evitando todas às vezes sobre seu passado antes da pirataria. Como ser não houvesse nada antes de sua decadência. Nada de bom pra contar.

Quando despertou novamente pra realidade Nico o segurava delicadamente pelos ombros em uma ruela mais afastava da rua principal. Tinha um olhar preocupado enquanto o chamava delicadamente.

Will sorriu passando a mão pelo rosto:

― Estou bem, só dei uma distraída. ― Admitiu apertando os olhos entre os dedos antes de voltar a encarar o pirata.

Nico tinha o olhar mais severo agora causando calafrios no maior.

― Solace você pode ate se fazer de bobo, mas sei bem que não é. ― Rebateu retirando as mãos de seus ombros: ― Até eu peguei a pequena indireta-bem-direta daquele cara.

O doutor soltou um suspiro cansado: ― Isso vai acontecer um tempo, acredite.

― E vai simplesmente aceitar? ― Bradou o pirata irritado: ― Não pode deixar que pisem em você porque vão se acostumar.

― Não estão. Eles só tem muito medo e desconfiança. ― Respondeu Will encarando o chão: ― Medo da morte e desconfiança das pessoas, principalmente aquelas que tem a obrigação de salva-los.

― Você não é Deus. ― Rebateu Nico sério aproximando-se significantemente do doutor. Colocou ambas as mãos em seu rosto com a barba pra fazer: ― Olha pra mim e escute bem o que eu vou dizer agora.

Will encarou seus olhos caramelo um pouco incerto, mas não desviou o olhar mesmo quando sentiu um choque em sua espinha arrepiando todo seu corpo.

― Você não cometeu nenhum erro porque Harley iria morrer, quer fosse você o médico ou não. Essas pessoas aqui não tem direito de te questionar a menos que saibam pelo menos o mesmo que você. ― afirmou Nico passando o polegar por sua bochecha: ― Não deixe que elas façam de você o culpado, porque você não é Solace. Não deixe dizerem coisas que não quer ouvir. Tenha um pouco mais de controle sobre sua vida.

Will respirou fundo segurando as mãos de Nico com as suas, mas não disse nada. Ele sabia bem que Nico estava certo e aquela não era a primeira vez que ouvia isso do pirata e provavelmente não seria a ultima, mas ele nunca questionou ninguém antes e não se sentia bem fazendo aquilo agora.

Contudo Nico não parecia estar esperando nenhuma resposta verbal, pois se afastou colocando ambas mãos na cintura medindo Will de forma desafiadora.

― Já que o senhor doutor está meio depressivo vamos fazer uma pequena brincadeira. ― sugeriu Nico fazendo Will arquear a sobrancelha desconfiado. O pirata sorriu: ― Eu fazia isso com minha irmã de vez em quando então certeza que vai gostar.

Nico o puxou pelo pulso para o lado de fora da ruela apontando para algumas pessoas de forma discreta.

― Vamos ver quem consegue achar coisas ou pessoas estranhas durante o dia todo. ― falou indicando um homem com um chapéu enorme de cor verde.

Will viu Nico franzindo o nariz para o chapéu e murmurando um “que brega” antes de olhar pro doutor novamente com aquele sorriso sapeca nos lábios. O Solace sorriu de volta automaticamente sentindo seu rosto arder.

― Quem vir coisas mais bizarras durante todo o dia ganha e pode obrigar o perdedor a fazer qualquer coisa. ― falou terminando a breve explicação daquela brincadeira infantil.

― Hm, interessante. ― murmurou Will verdadeiramente interessado: ― E quais são essas coisas?

Nico deu de ombros: ― Ah, sei lá, qualquer coisa. Hazel normalmente me obrigava a fazer algumas de suas tarefas ou carregar ela nas costas, brincar. Enfim, você quem decide. ― explicou brevemente.

Will sorriu: ― Eu topo.

― Maravilha. ― balbuciou Nico voltando a andar. Will o seguiu um pouco mais descontraído que minutos antes: ― E só pra constar nunca use um chapéu verde.

― Eu sei, é ridículo demais. ― emendou o doutor dando de ombros.

― Pessoas inseguras usam verde. ― explicou parando de andar. Will olhou para trás curioso: ― Pessoas que precisam ser vistas pela sociedade a qualquer custo e nada melhor que cores chamativas para mostrar que tem poder, pois alguém precisa saber.

Will apertou os olhos. Mais uma vez quis perguntar sobre seu passado e como ele poderia saber sobre isso, mas resolveu se calar quando a esse assunto. Ao invés disso rolou os olhos:

― É só uma cor.

Nico riu:

― Claro. A maioria das pessoas “não-ricas” não pensam em cores dessa forma.

E assim ele voltou a andar deixando no ar aquela ideia que fez Will travar por uns instantes... Pessoas não-ricas? Então ele era da alta sociedade antes de se tornar pirata?

― Nico esper―

― Vamos ou você vai se atrasar pro encontro. ― avisou ele um pouco distante. Sem ter como rebater a isso ele o seguiu ainda com a mente confusa.

Ele iria descobrir sobre isso mais cedo ou mais tarde.

Durante todo o resto do trajeto Nico começou com a brincadeira sempre fazendo comentários enfadonhos sobre cada roupa, cada acessório, cada coisa ridícula que fazia o estômago de Will doer de tanto rir.

Ele estava perdendo, mas não ligava muito.

Chegaram à quermesse se vendo rodeados de barracas com várias das comidas típicas e mercadorias. Muitos dos mercadores eram da feira diária que haviam achado um pequeno espaço para eles naquela festa de arrecadação.

Caminharam olhando as especiarias com curiosidade. Nico passou os olhos pelas barracas de forma voraz como se estivesse atrás de algo. Puxava Will de tempos em tempos para mostrar algumas pessoas espalhafatosas no caminho.

Entrando na brincadeira o doutor também o fez sendo obrigado a segurar o riso quando as pessoas os pegavam olhando e pensavam estar arrasando naquela roupa brega.

Nico é claro não disfarçava nem um fio de cabelo.

Andaram mais um pouco até Nico achar o que procurava com um sorriso que ia de orelha a orelha.

― Café! ― bradou andando até a barraca sentido o aroma das sementes. Will o seguiu sendo atingido pelo mesmo cheiro da semente.

― Era isso que estava procurando? ― comentou pegando um punhado em mãos. Eram realmente bem cheirosos.

― Sim e vou fazer pra nós. Estou necessitando de um pouco de café pra me manter acordado. ― admitiu pedindo uma certa quantidade ao homem enquanto retirava algumas moedas do bolso para pagar.

Will mordeu o lábio nervoso ao lembrar-se de como e onde conseguira aquele dinheiro.

― Aqui está a bebida dos deuses. ― gesticulou Nico de forma exagerada recebendo um rolar de olhos do loiro: ― Sabe essa sua cara de deboche me irrita às vezes.

― Bom, agora precisamos achar a Silena. ― admitiu mesmo que a contragosto.

Queria poder ficar o dia todo daquele jeito com risadas e conversas vergonhosas com o pirata, mas tinha um compromisso e seria ruim faltar mesmo desejando poder puxar Nico pra algum canto e fingir que não tinha nenhuma Lou Ellen pra conhecer.

O moreno concordou:

― Vamos então.

Andaram mais um pouco na feira lotada antes de acharem Silena e as crianças perto da fonte. Ao lado da moça Charles conversava com um casal, uma moça e sua acompanhante de forma bem séria.

Will respirou fundo. Dali não tinha volta.

― Parece até que estão te jogando dentro de uma jaula com um urso. ― comentou Nico cruzando os braços.

Will resmungou: ― É exatamente como me sinto.

Soltando o ar Nico encostou a mão no antebraço do medico fazendo-o estremecer um pouco.

― Vai ficar tudo bem, você vai ver.

Seguiram caminho até eles que pararam a conversa ao avistarem os dois se aproximando.

― Achei que não fosse mais aparecer. ― admitiu Charles negando com a cabeça.

― Desculpe, nos distraímos com as barracas. ― comentou recebendo um abraço de Silena bem apertado.

― Já estava aqui pensando que tinha nos dado um bolo. ― zombou a moça em seu ouvido. Will riu:

― Você quem me deu o bolo. Nico teve de me ajudar a me arrumar. ― admitiu envergonhado.

O pirata soltou uma risada debochada, mas Will não quis saber se foi por conta da conversa dos dois. Já era humilhante o bastante daquela forma.

― Desculpe. ― pediu ela sorrindo tristonha: ― Henry não estava muito bem hoje, mas deixemos isso para depois, deixe-me apresenta-lo.

Empurrando-o delicadamente pela lombar Silena o guiou até a família de Lou Ellen. Will curvou-se respeitosamente ao homem beijando a mão da Senhora educadamente na sequência.

― Prazer em conhece-los. Sou William Solace. Perdão pelo meu atraso.

― Encantada. ― cumprimentou a mulher recolhendo sua mão enluvada: ― Sou Miranda Backstone, mãe da Lou Ellen. ― gesticulando em direção à sua filha, Will a encarou.

A moça era muito bela. Tinha olhos verdes contrastando com a trança negra em seu ombro com delicados adornos. O vestido de um tom de lilás de mangas longas chamava a atenção juntamente da pequena sombrinha em suas mãos privando-a dos raios de sol.

Will ficou tentado em lhe dar uma bronca por evitar o sol.

― Está atrasado rapaz! ― bradou o homem fazendo Will estremecer ligeiramente encarando-o: ― Sou Giovanni Backstone. Na próxima tenha um pouco mais e compromisso.

― Perdão senhor. ― pediu envergonhado. Olhou novamente para a moça sorrindo minimamente: ― Prazer em conhece-la, senhorita.

― Muito gosto. ― Lou sorriu mostrando as covinhas uma em cada bochecha. Oh! Os mesmos buraquinhos que Nico tinha.

Não era comum ver pessoas com esse detalhe, mas deixava o sorriso mais fofo e delicado. Will nunca poderia dizer isso, claro. Ai dele se chamasse o pirata de fofo.

― Gostaria de dar uma volta pela quermesse? ― sugeriu educado. Lou olhou para seu pai buscando aprovação.

O mais belho aquiesceu permitindo o passeio:

― Nana será sua acompanhante. Não os perca de vista! ― ordenou o homem à mulher ao lado de Lou. A acompanhante curvou-se em sinal de respeito.

― Como desejar senhor.

Will ofereceu seu braço à moça que aceitou de bom grado. Começaram a caminhada em direção as barracas. Por reflexo olhou para Nico no fundo da praça que o assistia de longe com o olhar vazio. Will segurou a respiração nervoso.

Entretanto estava nervoso pelo que?

Passaram por várias barracas antes de Will começar a se irritar com a companhia. Lou Ellen era bela ― isso sem duvida alguma ―, bem dotada, educada, mas infelizmente mais do que Will gostaria. Afinal ela nada dizia a menos que fosse exigido.

Will tinha de manter a conversa todo o tempo, e ela não falava nada que contrariasse suas ideias sempre concordando e não dispondo de opinião própria. Parecia que conversava com seu próprio reflexo. Bufou discretamente olhando em volta atrás de Nico para resgatá-lo. Por que o pirata não poderia servir de acompanhante para ele?

Seria bem melhor pra conversar.

Lou Ellen parou de andar pedindo licença antes de aproximar-se mais da acompanhante conversando algo com ela. Will ficou tentado em fugir nesse meio tempo, mas ela voltou antes:

― O que acha de comermos algo? ― sugeriu a moça segurando em seu braço delicadamente.

Oh! Opinião própria? Isso era novo.

― Claro, se é o que quer. ― respondeu ele voltando a andar com a acompanhante sempre no encalço deles, olhos atentos e ligeiros.

― Só cumprindo minha função, senhor Solace. ― disse educadamente.

É, estava bom demais para ser verdade. Se fosse o Nico no lugar dela estaria resmungando de fome enquanto contava alguma história pirata vergonhosa. Sorriu com o pensamento. Ele era uma companhia bem melhor. Arregalou os olhos sacudindo a cabeça. Droga, por que estava pensando no pirata de novo?

Sentiu suas bochechas esquentarem e o coração acelerar. Fechou os olhos com força e os abriu novamente com temor.

― Algo o aflige?

Will olhou para a moça com curiosidade negando na sequencia:

― Nada de importante. ― admitiu crispando os lábios. Ah, que grande mentira.

Aquilo era mais importante do que deveria ser em circunstancias normais. Will sabia que Nico estava interessando nele, mas por algum motivo que o confundia não estava exatamente irritado nem ofendido, só aflito.

Só não sabia bem com o que.

Will comprou algo pra Lou Ellen, mas não sustentou nenhuma conversa forçada. Não valia a pena.

Will definitivamente não estava interessado.

Nico

Nico viu Will se afastando não muito empolgado. Abaixou o olhar suspirando antes de se aproximar dos Beckendorf. Silena sorriu para ele enquanto Charles grunhiu incomodado com sua presença. Nico o xingou mentalmente ficando feliz ao fazê-lo chorar em sua cabeça.

― Senhor Levesque, venha. ― chamou Silena olhando para os Backstone: ― Estes são Giovanni e Miranda Backstone.

Nico curvou-se minimamente respirando fundo. Fechou os olhos brevemente buscando no fundo de sua memória seus dezoito anos de etiqueta e convívio social.

Apoiou o braço esquerdo nas costas e com o direito tomou a mão de Miranda beijando de forma breve e educada.

― Encantado em conhecê-la, Senhora. ― cumprimentou afastando-se. Com a mão direita em seu peito curvou-se a Giovanni: ― Tens uma esposa muito bela, senhor.

O homem sorriu minimamente:

― Concordo. ― disse cumprimentando-o com o mesmo gesto educado: ― Parece ser um conhecedor das etiquetas, muito bom. ― falou com orgulho e uma pitada de surpresa na voz.

Nico apertou os olhos sério, mas mantendo a compostura:

― Fui criado desta forma. ― admitiu em um meio sorriso que contrastava com seus olhos afiados: ― Grande parte de minha infância foi dedicada aos princípios morais e éticos da alta corte.

Giovanni arregalou os olhos. Nico levantou o queixo levemente de forma desafiadora.

― Perdoe-me por minha falta de modos, senhor. ― desculpou-se rapidamente: ― Não imaginei que o senhor Solace andasse com pessoas de sua graça.

Nico ouviu Charles arfar atrás de si. Suprimiu uma risada debochada:

― Perdoado. Agora se me der licença tenho promessas a cumprir. ― Nico afastou-se: ― Silena onde estão as crianças?

― N-na fonte. ― respondeu a moça embasbacada.

Foi para onde lhe mandaram respirando fundo. Se fossem espertos se tocariam logo de quem ele era, mas isso seria um grande problema com o que lidar. Nico não se lembrava dos Backstone em nenhuma das festas a qual compareceu em sua adolescência, portanto ele não era ninguém importante.

Só mais um cinza no meio do preto e branco que o mundo não reconhecia. Seu segredo estava seguro.

Por enquanto.

Nico achou as crianças perto da fonte e como prometido brincou com elas durante um tempo. Recebeu vários olhares feios durante as brincadeiras de pega-pega ou esconde-esconde que o pirata se sujeitava a fazer. Afinal ele era um homem adulto correndo e zombando com as crianças em volta da fonte.

Em uma das vezes acabou arrastando mais crianças onde ele teve de contar até vinte e procurar cerca de quinze crianças que entraram na brincadeira. Claro que Milena e Henry eram sua prioridade, então não tirava os olhos deles nem por um instante, sempre deixando que ganhassem a brincadeira no final.

Evitou ter mais conversas com os Backstones ou Beckendorf durante todo o tempo que brincou com as crianças, mas não demorou muito para elas reclamarem de fome e voltarem para os quatro adultos sentados nas mesas de madeira do parque.

Nico as seguiu:

― Já cansaram? ― perguntou Silena pegando Henry no colo. Nico ajudou Milena a se sentar ao lado da mãe já que o banco era um pouco alto pra ela.

― Estamos com fome. ― disse a pequena: ― Tio Nico disse que ia comprar algo pra gente.

― Oh, ele disse? ― a moça sorriu amorosa: ― Muito gentil da sua parte senhor Levesque.

― Sem problemas. ― respondeu o pirata dando de ombros. Charles rolou os olhos:

― Onde foi parar sua educação toda? ― zombou o moreno recebendo um olhar severo de Giovanni.

― No mesmo lugar que a sua. ― rebateu Nico tirando uma risada de Silena e consequentemente de Charles, mas a dele um pouco discreta.

― Ok idiota, eu vou comprar coisas pra eles. Vai ver como está o Will. ― pediu Charles levantando-se.

Nico não precisou que lhe dissessem duas vezes. Despediu-se deles e entrou na bagunça da feira com o Beckendorf ao seu lado.

― O Giovanni acha que você é algum nobre. ― disse Charles olhando Nico de soslaio.

O pirata soltou uma risada debochada:

― Ah é? Contou pra ele que na verdade sou um pirata?

― Pensei nisso, mas não. ― respondeu cruzando os braços: ― Você realmente parecia muito familiar com esse tipo de encontros.

Nico ficou calado. Não tinha porque responder as perguntas de Charles, pois se respondesse ou cairia na mentira descarada ou na meia verdade que o levaria para a verdade concreta bem mais rápido que ele gostaria.

Sua melhor opção foi o silencio. Charles respeitou isso.

― Bom eu vou ficar por aqui. ― disse o moreno em frente a uma barraca de doces: ― Will deve estar mais adiante.

Num pequeno aceno Nico se afastou buscando com olhos ligeiros a cabeleira loira e alta do Solace. Aquela altura eles provavelmente já teriam andado por toda a feira e estariam, no máximo, comendo algo em algum canto isolado.

Apostado nisso ele seguiu caminho por toda a feira encarando com olhos vorazes qualquer sinal do doutor surtando ou se escondendo da moça. Não que Nico achasse que ele não conseguiria ficar com a moça ― longe disso ―, mas ele parecia desconfortável o suficiente pra Nico imaginar a cara de tédio que ele provavelmente estaria fazendo.

Empolgado com o pensamento acelerou o passo.

Não demorou muito para achar o rapaz com as duas moças perto da Igreja, cada um deles com uma comida diferente em mãos. Respirando fundo Nico se aproximou. De longe ele não conseguia ver o que faziam, mas assim que se aproximou viu o desconforto do doutor e um silencio nada comum para uma saída entre um possível casal.

Torcendo o lábio para segurar o riso vitorioso Nico entrou no campo de visão de Will que sorriu alegremente ao ver o pirata.

― Nico! ― chamou acenando sem disfarçar nada. O pirata riu da reação das moças que pularam pelo repentino grito.

― Me pediram para checar vocês. Como estão? ― perguntou cortês acenando para as moças com a cabeça.

― Muito agradável. ― respondeu Lou Ellen convicta. Will bufou murmurando algo que Nico não compreendeu: ― Paramos um pouco para comer. Nos acompanha?

― Claro, mas pra isso preciso roubar sua companhia por alguns minutos. Se importa? ― perguntou torcendo para ela dizer um “sim, me importo” e ele somente rir, agarrar Will e sair correndo para o sol poente.

Ah, livros! O que fazem com uma mente apaixonada?

Will o acompanhou até a feira novamente. Nico buscou algo para comer enquanto o doutor dizia algo sobre “a dieta ainda está de pé, nada de doces” e coisas do tipo, mas Nico fingiu não ouvir e agraciou-se com um doce bem convidativo.

― Isso não deve fazer bem a ninguém. ― comentou Will decepcionado.

― Ah vamos, um doce não vai me matar, acredite. ― zombou o pirata aproximando-se além do que precisava do doutor: ― Mas então como está o seu encontro?

― Preciso mesmo responder isso?

― Não sou advinha. ― rebateu irônico. Will o empurrou com o ombro recomeçando a andar:

― Terrível. Ela não fala nada, e quando fala é para concordar comigo em tudo! Como se eu tivesse um papagaio no meu ombro treinado pra dizer o que quero ouvir. ― resumiu terminando o que estava comendo e descartando o papel.

― Não se fazem mais mulheres como antigamente. ― ralhou Nico recebendo um olhar fulminante do doutor. Ele ergueu as mãos em rendição: ― Ok, entendi. Escuta as mulheres que foram criadas para casar serão todas assim, salvo uma ou outra que conhece seu noivo desde seu nascimento e eles tem um relacionamento diferente. De resto são mulheres que concordam com você mesmo estando errado. A sociedade pensa que é dessa forma que uma boa família vive.

Nico lembrou-se vagamente da sua mãe. Era uma mulher doce e amável, mas submissa ao marido mesmo que tivesse de ficar contra os filhos. Na maior parte do tempo, claro. No final de sua vida, dos últimos momentos que tivera com sua mãe a viu levantar a voz contra seu pai e impor-se em favor de seus três filhos algumas vezes.

Isso lhe custou uma corda no pescoço e uma criança traumatizada.

― Casamento nunca esteve na minha lista. ― disse Will acordando Nico dos devaneios. O pirata arqueou a sobrancelha:

― Nunca?

― Não. Eu simplesmente estou ocupado demais com trabalho pra sair com alguém e conversar, ou ter um tempo pra tomar chá ou parecido. ― falou o doutor convicto. Nico riu disso: ― Qual a graça?

― Você faz isso comigo.

Will parou encarando o pirata com incerteza no olhar que para Nico era uma abertura. Uma brecha em seu muro rachado. Virou-se de frente para ele.

― É diferente. ― a voz de Will saiu baixa e fraca, não fazendo jus a resposta. Ele parecia confuso.

― Diferente como?

Will abriu a boca para responder, mas a fechou na sequencia. Ele não tinha a resposta, mas Nico tinha. O pirata depositou uma mão em seu ombro delicadamente:

― Solace, eu acho―

― Ah, vocês estão aqui. ― A acompanhante de Lou Ellen apareceu com olhos nervosos: ― A jovem senhorita estava aflita que tivessem se perdido.

Nico desejou que ela tivesse se perdido, talvez pra dentro do mar e devorada por um tubarão! Qual era do universo que o estava interrompendo? Em dois dias seguidos?

― Já estamos indo. ― dito isso Will retomou a caminhada deixando Nico momentaneamente para trás.

Se o pirata estava frustrado? Bem isso era visível em seu rosto a quilómetros. Fechou os olhos respirando profundamente. Passos pequenos, pensou ele voltando a andar.

Então parou, um gelo tomando conta de seu estomago ao ver com desespero duas figuras que ele imaginou nunca mais precisar ver. Prendeu a respiração crispando os lábios. Foi como se o mundo tivesse parado naquele segundo e somente ele e aqueles dois homens em pauta. A feira barulhenta tornou-se assustadoramente silenciosa.

Soltou o ar de uma vez sentindo uma leve tontura enquanto seus pulmões tentavam trazer o ar de volta. Ficou ofegante dando passos em falso para trás sem tirar os olhos dos homens altos e trajados como soldados.

Como Nico aprendera a odiar aquela insígnia no peito deles.

Deu outro passo para trás, e mais outro, e mais outro, até que se viu distanciando-se da feira numa semi corrida desesperada. Não podia ser visto, não podia ser visto! Não.Podia.Ser.Visto!

Não agora!

Sentiu um aperto no peito que não sentia há cinco anos. Uma aflição, um medo, um sentimento de pavor. Ele ia ter outro ataque.

Nico não sabia como tinha chego à casa de Will, mas quando viu estava de joelhos um pouco distante da porta de entrada fechada. Os braços em torno de si próprio em um abraço desesperado enquanto seu corpo tremia e uma bomba de memórias voltava.

Uma a uma arrancando um desespero ensurdecedor. Ele nada via ou ouvia além das memórias, do som dos tiros, dos gritos, do desespero e da dor. Muita dor.

NICO!

Corram, eles estão chegando! Eu vou segurá-los!

Bianca!?

Jovem mestre, por aqui!

A MAMÃE SE MATOU POR SUA CAUSA!!

IRMÃO!!!

Não se aproxime de mim!

Solte essa arma!!

ASSASSINO!

O fundo de sua garganta trancou sentindo-se a beira das lágrimas. Não conseguia respirar. Estava sufocando aos poucos com as memórias dolorosas.

Não queria lembrar, não queria ouvir tudo de novo! Por que? Por que foram aparecer logo agora? O que eles estavam fazendo ali? Tinham o descoberto? Iriam atrás ele? Matá-lo para compensar a falha de cinco anos atrás?

Não conseguiram. Ele os mataria antes.

Malditos traidores!

Nico estava tão absorto que não ouviu a porta ser aberta e um Will chamando por seu nome de forma desesperada segurando-o pelos ombros. Quando Nico recobrou a consciência novamente estava sentado no sofá com Will segurando um copo de água com açúcar.

O ajudou a beber. Ainda tremia e a dor continuava ali. O atormentando e zombando de seu fracasso. Tapou o rosto envergonhado. Não queria que Will o tivesse visto quebrar daquela forma. Isso não lhe acontecia há anos!

Respirou profundamente tentando controlar a respiração e os batimentos cardíacos, mas parecia em vão. Sentiu os braços de Will o envolvendo e puxando-o contra ele. Acariciou seus cabelos sussurrando palavras em grego, como uma canção de ninar, o acalmando pouco a pouco.

Retirou as mãos do rosto abraçando Will com força. Era vergonhoso, mas estava necessitando de carinho, um pouco de calor humano era tudo o que pedia. Um tempo depois, o qual Nico não soube dizer quanto, a tremedeira passou, mas não se afastou de Will.

Seu coração se aliviou e acabou relaxando mais do que deveria. Dormiu abraçado a Will uma segunda vez, mas desta ele mal poderia aproveitar.

Porque a dor não queria ir embora.

Notas finais
Então? O que acharam? reuhreuhruer O cap ficou um pouco maior que o de costume, provável que siga isso um tempo, eu sempre gostei de caps grandes ruehrhrue A Lou Ellen não é uma mulher má, só o esteriótipo de garota perfeita pra casar do século XVII. Mas bem, Will não é muito fã de garotas né? *cofcof* Nico tendo ataque de panico? Sim, Nico tendo ataque de pânico. Quem são esses caras? Vou ser sincera, eles são má coisa. Obrigada por lerem e não desistirem de mim ♥ Vocês são os melhores!!! até o próximo! beijinhos~