Pit-a-Pat
17 Capítulo XVII
Notas iniciais

Nico
~Capítulo XVII~
:: 33º dia na Itália — Semana 4 ::
[...]
Will o encarou sem reconhecer o nome em questão. Nico bufou. Teria de explicar mais coisas do que imaginou.
― Perseu Jackson é um pirata muito conhecido. Ele navega o Argos II que foi construído pelo meu Bossun. ― explicou Nico calmamente: ― Alguns piratas tem mais famas que outros, e Perseu é um desses.
― Você também certo? ― perguntou Will. Nico arqueou a sobrancelha: ― Você disse que era o Rei Fantasma. Não deve ser qualquer um que tenha apelidos macabros.
― Ta engraçadinho hoje em. ― reparou Nico rolando os olhos. Will deu de ombros esboçando um sorriso tímido: ― Enfim, sim eu também sou bem “popular” e com a cabeça alta no mercado. O que significa que ser conhecido tem mais contras que prós.
― Entendi, continue.
― Como eu dizia, eu tive de servir ao Jackson no navio. Como eu era novo muitos dos trabalhos mais cansativos e tediosos vinham para mim. ― ressaltou ele: ― Nesse dia em questão Jason estava com eles.
― Ele navegava com o Perseu? ― perguntou Will curiosamente.
― Não, ele estava lá por motivos “diplomáticos.” ― falou Nico fazendo aspas com as mãos: ― Basicamente Jason estava examinando o terreno, e se valeria a pena extinguir o Argos II da face da Terra.
Will ficou tenso, mas nada disse. Nico então continuou:
― Um tempo antes disso acontecer um dos tripulantes do Percy, que atualmente é meu Bossun, acidentalmente atirou uma bala de canhão no navio de Reyna que passava por ali. ― explicou ele seriamente: ― Eles levaram semanas pra caírem nas graças de Reyna novamente, mas para isso Jason precisava ver se as intenções eram mesmo boas e aquilo tinha sido de fato um acidente.
― Não corria o risco deles matarem o Jason? ― a pergunta de Will pegou Nico de surpresa.
― Oh! ― exclamou meneando a cabeça: ― Sim tinha essa possibilidade, mas só se quisessem realmente começar uma guerra contra Reyna. ― emendou ajeitando-se na cama: ― Foi por causa disso que o conheci.
― Eu fiquei semanas a bordo do navio do Jackson fazendo mil e um serviços escravos. Eles dão comida, roupa e um canto do navio para você dormir, normalmente nas celas no compartimento de carga. Boa parte do tempo fiquei acorrentado. ― respirou fundo passando a mão pelo pescoço.
Will mexeu-se desconfortável com a ideia. Nico compreendeu isso:
― Foi bem complicado o tempo que fiquei com eles, e durante todas essas semanas Jason sequer falou comigo, até um evento em específico. ― Nico então travou o maxilar fechando os olhos com força à medida que as memórias começaram a voltar.
― Nico? ― chamou Will preocupado tocando seu braço: ― Tudo bem, não precisa falar se não quiser.
Ele negou com a cabeça: ― Vou falar o que preciso, mas omitirei partes.
― Justo. ― concordou Will.
Nico respirou profundamente antes de voltar a falar:
― Ele era violento o tempo todo, era literalmente um trabalho escravo com direito a todo tipo de agressão. ― mordeu o lábio encarando os olhos azuis tão calmos e diferentes dos de Jason.
Essa calmaria que Will transmitia lhe incomodou demais no começo, mas depois dessas semanas aprendeu a se acostumar. Estava lhe fazendo bem sua presença ali, não conseguia falar sobre Percy sem surtar.
“― Me solta, por favor! ― Pediu Nico suplicante. Percy segurava seus braços para trás enquanto beijava-lhe o pescoço indecentemente. Apertou seus pulsos algemados tirando-lhe um grunhido pela dor.
Não o respondendo só continuou com as carícias passando suas mãos por debaixo da camisa imunda do garoto. As lágrimas começaram a se alojar em seus olhos desesperadamente.
― por favor, para. ― pediu mais uma vez tentando se afastar dele, mas Percy não permitiu puxando as correntes de seu braço com mais força o fazendo gritar.
― Não perca seu fôlego, não vai adiantar. ― respondeu o Jackson beijando-lhe o rosto: ― Você é meu.
Desceu os lábios por seu pescoço lambendo por todo o caminho.
― Você é muito bonito, Nico. Tentador demais. ― falou acariciando seu rosto com os dedos: ― Tenho vontade de devorá-lo sempre que te vejo. E pretendo.
O sorriso foi macabro arrepiando Nico inteiramente. Ele chorava e tremia descontroladamente. Estava em pânico. Queria ir embora.
Queria desesperadamente morrer.”
― Nico?
Sentiu o aperto em seu braço olhando diretamente para Will que havia se aproximado dele. Piscou repetidas vezes:
― Sim?
― Nada, é que você dispersou. ― falou com seu tom preocupado de sempre. Nico abaixou o olhar:
― Desculpe, acontece com frequência. ― admitiu pigarreando: ― Enfim, ele era violento. Depois de um tempo Jason interviu. Lembro que na época eu não havia entendido porque ele havia invadido a cabine do Jackson e me tirado de perto dele. Achei que ele estava... Bem... Querendo fazer a mesma coisa. Fiquei apavorado.
― Mas na verdade ele disse que simplesmente não gostava de ver aquele tipo de coisa, mesmo sendo um pirata. ― disse sorrindo na sequência: ― Foi o primeiro pirata de verdade que vi demonstrar algum tipo de compaixão genuína com alguém.
― O Jackson ficou possesso, claro. Contudo Jason disse que se pudesse ficar comigo não contaria pra Reyna que ele havia atirado de propósito contra ela e colocado à culpa no Valdez para despistar sua traição.
Will apertou os olhos absorvendo a informação. Nico segurou a coberta ente seus dedos curiosamente voltando a falar:
― É claro que ele aceitou a oferta. Depois disso houve um ataque da marinha contra o Navio e fui resgatado. Jason havia fugido em um bote quando avistou a marinha se aproximando. ― encerrou voltando a encarar o doutor: ― Foi meu primeiro contato com piratas, e mesmo eu desejando que fosse o ultimo acabei no final das contas me tornando um.
Will soltou uma risada compreensiva. Nico inspirou lembrando-se da conversa que teve com Jason quando ele o resgatou:
“Nico sentou-se na cama do quarto reservado para ser uma possível enfermaria, mas que no final nunca era usada e sequer tinham um médico a bordo. Assim sendo Jason apossou-se dela para ficar durante as semanas a bordo.
Jason pegou uma caixa de ferro com alguns panos. Tinha uma bacia com água no quarto que ele usou para limpar as mãos calejadas de Nico. Jason havia retirado às algemas e as feridas cortavam seus pulsos sangrando constantemente.
Nico sentia-se mais anêmico a cada dia que passava.
Jason pegou a mão do garoto e delicadamente começou a limpá-la.
― Por que? ― sussurrou sem forças enquanto sentia o gelado da água contra suas feridas doer um pouco.
― Odeio o que ele estava fazendo. Você é só uma criança. ― rebateu sem olhá-lo: ― Além disso estou fazendo exatamente o que minha namorada faria no meu lugar. Salvando uma criança de um abusador.
Nico aquiesceu agradecendo. Depois de um tempo e com as mãos enfaixadas voltou a falar:
― Quero ir embora. ― pediu tristonho. Jason o encarou por longos minutos antes de concordar:
― Aqui não é lugar pra você. ― admitiu: ― A pirataria é a ultima das alternativas. Não precisa se perder agora garoto.
― Nico. ― falou ele automaticamente.
Jason sorriu: ― Nico.”
Nico voltou a si novamente, desta vez Will encarava o chão pensativo. Via um rastro de raiva em seu rosto e não gostou nem um pouco disso.
― Anos depois ― retomou chamando a atenção de Will novamente: ― quando virei pirata entrei para a tripulação de Reyna por causa do Jason. Quando virei capitão acabei precisando de contatos, e com Reyna mantive um tipo de relação mais intima. ― falou dando de ombros como se não fosse grande coisa: ― Por isso tive de manter uma relação de interesses com Jackson, mas com ele bem longe de mim na maior parte do tempo.
― O que? ― exasperou-se Will em choque: ― Manteve contato com seu agressor?
― Necessidade Solace. ― respondeu: ― Tinha de fazer. Mas diferente da outra vez ele estava mais tranquilo e começou a me tratar como um irmão caçula. ― Nico estremeceu com o pensamento. Odiava ser comparado ao irmão caçula do Jackson: ― Mas acho que Jason o ameaçou minutos antes de conversarmos quando virei Capitão.
― Ótimo. ― resmungou Will nervoso: ― Não sei se eu levaria isso tranquilamente como você.
Nico trincou os dentes, mas resolveu não dizer nada. Will não precisava saber o que ele realmente sentia toda vez que o Jackson aparecia. Por sorte sempre tinha Jason para ampará-lo.
Eles ficaram em silêncio por longos minutos. Nico quem quebrou ele:
― Posso pergunta algo?
Will aquiesceu: ― Claro nada mais justo certo?
Nico o encarou sério:
― Quem é Austin?
Will ficou tenso. Desviou o olhar sério. Nico respirou fundo: ― Não precisa falar. Tem coisas que não conseguimos contar.
― Não tem nada demais com o Austin, é que falar dele é uma das coisas que eu mais evito. ― respondeu o doutor cabisbaixo: ― Ninguém se interessa por ouvir, ninguém se importa se ele está bem ou não. Então eu sempre fico quieto.
Nico compreendeu. Pelo pouco que ouviu sobre esse Austin conseguia imaginar algum tipo de homem tão perdido quanto Nico. As pessoas não aceitam o diferente, e esse talvez seja o maior problema da sociedade.
Eles se importam demais com pares e esquecem que as pessoas ímpares existem.
― Eu me interesso. ― respondeu Nico automaticamente. Will o encarou incerto: ― Eu vou escutar o que tiver a dizer.
Will manteve o olhar fixo no seu por longos segundos examinando suas palavras. Por fim respirou fundo ajeitando-se na cadeira desconfortável. Nico esperou.
― Austin é meu irmão mais velho. ― começou Will entrelaçando seus dedos em seu colo em um aperto forte: ― Ele se perdeu para a pirataria quando tinha dezesseis anos “desgraçando” a família Solace por anos. Lembro que na época meu pai insistiu em deserda-lo, em renegar sua existência por tamanha humilhação. Eu não entendia, era muito novo pra isso.
― Austin era um bom irmão, mas eles questionava demais as coisas. Sempre tinha ideias estranhas sobre o mundo. ― falou sorrindo pra isso: ― Eu adorava escutar sobre elas. Na verdade ele ainda me escreve com frequência. Ele apareceu aqui ano passado, escondido claro, mas ele não mudou, não é uma pessoa ruim como eles dizem. Ele só não se sentia bem em casa.
Nico assentiu.
― Muitos não se sentem confortáveis onde estão. Se ele teve a opção de sair e ir atrás do que queria bom pra ele. ― comentou Nico.
― Sim. ― concordou Will ajeitando-se na cadeira: ― Todo mundo sabe que ainda amo muito meu irmão e que não abri mão dele, e nunca o farei. Charles não gosta dele, como deu pra perceber.
Nico rolou os olhos:
― Ficou meio obvio.
Will coçou a cabeça sem graça: ― Desculpe pelo Charles, de verdade. Não era para ter sido daquele jeito.
― Já disse que não precisa disso Solace. ― falou Nico negando: ― A reação dele foi bem esperada. Só ver se ele não vai surtar ao ponto de chamar a marinha.
Will arregalou os olhos: ― Não! Ele não pode!
Nico respirou fundo, mas não rebateu. O doutor então levantou-se.
― Eu preciso Descer. Tenho uma paciente que está perto de dar a luz e preciso me preparar. ― avisou ele sorrindo: ― Vejo você daqui a pouco. Não levanta dessa cama. ― falou sério no final apontando-lhe o dedo autoritário.
Nico chacoalhou a mão não dando importância.
Rolando os olhos dramaticamente, Will saiu do quarto deixando Nico sozinho com seus pensamentos. Respirou fundo passando a mão pelos cabelos emaranhados. Percy com certeza era uma parte do seu passado que ele odiava lembrar, e sempre que ele aparecia Nico estremecia com o mesmo medo de quando tinha quinze anos.
Medo de um dia Jason sumir e ele não conseguir fugir do Jackson. Medo de um dia ele perder o respeito que tanto demorou a conquistar e ser penalizado por isso. Mordeu o lábio com força afundando o rosto em suas mãos trêmulas.
As memórias voltaram com força. Pois Jason interferiu uma vez.
Não quer dizer que não tiveram outras antes.
☠
Will
Respirando fundo, Will parou em frente a estante separando algumas das ervas que usaria junto da parteira ainda naquela semana. A moça já estava com nove meses e a qualquer momento entraria em trabalho de parto. Precisava estar preparado.
Deixou de canto o necessário e encostou-se na mesa por um tempo. Apoiou a mão em seus olhos cansados. Era muita informação para um dia só. Não era a toa que Nico não confiava muito nele no começo, era até compreensível.
Ele sabia que piratas eram ruins, claro que em sua maioria eram compostos por assassinos sem escrúpulos, mas esse tal de Jackson ia contra todas as coisas que ele imaginava. Will não estava errado no final das contas, piratas eram perversos.
Poucos se salvavam disso.
Will não era de odiar pessoas, na verdade ele tinha mais facilidade para perdoar e confiar nas pessoas do que demonstrar algum tipo de ódio, mas pela primeira vez ele fervia de raiva. Respirou fundo controlando o nervoso que sentia.
A vontade de Will era de abraçar Nico ali mesmo no quarto, mas sentiu que ele não gostaria muito do contato excessivo, mesmo que para Will abraços ajudassem muito na tristeza. Ele sempre fazia isso com Kayla quando ela tinha algum pesadelo ou um dia ruim. Um abraço sempre resolvia.
Austin fazia isso. Sua mãe, seu pai. Talvez fosse algo da família deles, mas subir novamente naquele quarto, embalá-lo em um abraço apertado e dizer que tudo estava bem agora era tudo que queria fazer.
Bateram em sua porta repetidas vezes. Will foi até ela sem pressa abrindo. Lá viu a moça que cuida da floricultura da rua. A mesma tinha um olhar pesaroso enquanto segurava uma cesta com Lírios bem arrumados nela. O doutor mordeu o lábio.
Flores para funerais.
― Doutor Solace, bom dia. ― cumprimentou ela tristonha. Will devolveu o cumprimento: ― Estamos todos nos reunindo na igreja pra nos despedirmos de Harley. O Padre vai fazer uma oração em uma hora.
Will prendeu a respiração nervoso. Harley ia ser velado, e ele não estava pronto pra isso.
― Obrigado por me avisar. ― agradeceu ele: ― Estarei lá.
A moça despediu-se indo à próxima casa. Will fechou a porta encostando-se nela com um súbito cansaço em seus ombros. Escorregou pela porta de madeira até encontrar-se com o chão frio do Hall.
Escondeu o rosto em seus joelhos e chorou.
Will sempre fora chamado por Austin de bebê chorão quando novo. Infelizmente ele ainda era. Respirou fundo controlando o soluço, não queria que Nico o ouvisse. Não daquela forma tão vergonhosa, não de novo.
Apertou os braços em torno de suas pernas ficando naquela posição por um tempo. A vida era impiedosa como sempre. Sempre tirando e tirando e tirando. E no final deixando para trás só migalha do que um dia já foi algo.
Will sentia aquela dor. O peito ardia como brasa. Porque ele não foi suficiente. Ele não teve capacidade de salvar uma criança com pneumonia. Ele não foi habilidoso o bastante para conseguir curá-lo.
Ele estava perdido.
Respirou fundo entrecortado pelo choro e se levantou. Limpou grosseiramente as lágrimas voltando para o escritório. Apagou a vela que estava usando e voltou para o andar de cima, mais necessariamente para seu quarto.
Trocou a roupa por um terno em tons de marrom, sendo o casaco e a calça em tom mais escuro. Prendeu os cabelos em um rabo de cavalo baixo, apoiou as mãos na mesa soltando um ultimo suspiro derrotado.
― Chega de lágrimas. ― recriminou-se olhando no espelho: ― Você é um médico, cresça William.
Apertou as laterais da mesa saindo na sequência do quarto. Parou no corredor vendo Nico encostado na parede do lado de fora de seu quarto. Olhos fechados e braços cruzados como que o esperando.
― Nico?
― Consegue ir sozinho? ― perguntou ele em seu tom mais sério. Ainda não o olhava deixando Will tenso.
― Sim. ― respondeu sem muita firmeza na voz.
Nico enfim levantou o olhar. Will arrepiou-se com a intensidade de seus olhos.
― Certeza? Não parece. ― rebateu desencostando-se da parede. Will virou o rosto.
Então havia escutado seu choro, novamente estava sendo fraco. Mordeu o lábio com força evitando olhá-lo. Nico parou na sua frente levantando seu rosto para encará-lo. Ele não era muito mais alto que o pirata, mas ainda assim tinha de olhar para baixo.
O pirata estava sério, até nervoso se reparasse bem.
― Não tem nada de errado em chorar, Solace. ― falou Nico bravo. Will estremeceu: ― Não tem nada de errado em sentir pela morte do garoto. Você ainda é novo, não tem a frieza de um médico e sinceramente falando espero que nunca tenha.
Will prendeu a respiração sentindo as lágrimas querendo voltar.
― Chore, grite, faça tudo o que precisa, mas quando sair por aquela porta vai ter de guardar. Esconder. ― falou abaixando o tom de voz gradativamente. Desceu a mão do queixo de Will para seu peito sentindo o batimento rápido do doutor contra seus dedos: ― Eles não precisam saber que está quebrado.
O doutor puxou Nico para um abraço sem aviso. Ouviu o pirata arfar de susto enquanto o apertava sem muita força contra seus braços trêmulos. As lágrimas voltaram com força, desta vez caindo contra os ombros largos do pirata.
Will o sentiu afagar suas costas com carinho, mas Nico nada disse, somente ficou ali com ele o tempo que o doutor precisou para ficar mais calmo. O afastou delicadamente limpando o rosto com as costas das mãos.
― Droga, pareço uma criança desse jeito. ― resmungou soltando uma risada forçada. Nico riu:
― Parece um ser humano. ― respondeu fazendo Will olhá-lo curioso: ― Quem disse que adultos não choram?
― Você chora? ― perguntou baixo, quase que esperando que Nico não o ouvisse.
― Atualmente não. ― admitiu cruzando os braços: ― Ainda não me deram motivo suficiente pra isso.
― Espero que não deem. ― falou Will respirando fundo: ― Eu tenho que ir. Vai ficar bem sozinho?
― Sempre. ― respondeu voltando pro quarto, Will foi atrás.
Nico sentou-se na cama soltando uma lufada de ar cansada. Will sorriu:
― Obrigado. ― agradeceu sincero. Nico aquiesceu:
― Acho que sou o único que tem a agradecer aqui, mas vamos parar com a melação. ― falou ele mudando o tom para algo mais zombeteiro: ― Você tem uma despedida pra fazer.
Sem dizer mais nada Will saiu, diretamente para a igreja um pouco mais leve.
Abraços resolvem muita coisa.
☠
Não tinham muitas pessoas na igreja, mas o pouco encheu bem os bancos dispostos nela. Os Barteles estavam em cima do caixão do garotinho enquanto o Padre fazia a oração padrão. Will não ouviu uma palavra do que ele disse. Somente ficou ali, do lado de fora da igreja encostado no batente da porta junto a outras várias pessoas que não se sentiam confortáveis lá dentro.
Respirou fundo mantendo a compostura que um médico deveria ter. Estava melhor depois de ter chorado um pouco em sua casa, e talvez depois de todo o tormento passar melhorasse ainda mais.
Olhou para a senhora Barteles sentindo compaixão pela mulher. Estava toda de preto segurando as mãos pequeninas do rapazinho com um lenço pressionado contra seus olhos úmidos e avermelhados.
Não teve coragem de aparecer para ela.
Olhou para o senhor Barteles que já tinha os olhos em Will. Estremeceu levemente com a troca de olhares, mas o homem não tardou muito em desviá-lo um tanto quanto apavorado demais pro gosto de Will.
Sentiu uma mão em seu ombro o fazendo olhar para trás. Silena estava lá. Um vestido preto em respeito ao luto. Sozinha.
― Venha comigo. ― pediu ela. Will a seguiu sem contestar.
Ficaram um pouco distantes da igreja enquanto a moça mexia nos babados de seu vestido freneticamente. Will arqueou a sobrancelha curioso:
― Tudo bem Silena? ― perguntou.
Respirou fundo: ― Não muito, o clima de hoje não é um dos melhores. ― admitiu olhando brevemente para a capela antes de voltar para Will: ― O que vai fazer de agora em diante?
― Como assim? ― indagou confuso.
― Charles não vai aceitar o senhor Levesque e você sabe disso. ― falou Silena séria: ― Vai precisar de mais do que algumas palavras pra convencer Charles de que ele é... Bom.
― Ele ver não é o bastante? ― falou o doutor apertando os olhos: ― Eu sei julgar uma pessoa, Silena. Se querem acreditar nele então precisam ver. Conviver, ouvir.
― Eu sei meu amor. ― respondeu a moça acariciando seu braço instintivamente. Como o toque de uma mãe preocupada: ― E eu estou apta a ouvir. Por mais que eu não acredite que tudo que ele diga seja verdade vou lhe dar o direito da duvida. Mas não funciona assim com Charles.
Will soltou uma lufada de ar: ― Vale a pena tentar. Ele vai ficar uns bons seis meses comigo.
Silena arregalou os olhos:
― Seis meses?
― Sim, é quando ele vai poder ir embora. ― falou ele passando a mão nos cabelos sem graça: ― Bom, foi o que ele me disse.
― Ok, machucado do jeito que ele está não me surpreende. ― admitiu a moça balançando a cabeça descrente: ― Venha, Charles e as crianças estão na praça.
Will olhou para trás, na Capela, com o olhar pesaroso. Soltou um suspiro dando um braço para a amiga. Ela o aceitou e assim foram em direção as crianças que corriam atrás das pombas no parque com Charles as observando carinhosamente.
Will sorriu com a cena. Ele poderia ser bruto em alguns pontos, mas se tratando de sua família ele era bem carinhoso. E Will sentia-se especial por fazer parte disso. Charles levantou o olhar fechando um pouco o rosto quando viu o doutor se aproximando.
― Will. ― cumprimentou ele.
― Tio Will! ― chamaram as crianças correndo para ele. Will agachou afagando suas cabeças afetuosamente.
― Estão se divertindo não?
― Sim! ― gritou Milena alegre.
― As pombas são r-rápidas. ― falou Henry voltando a correr atrás delas.
― Espera por mim! Henry! ― esbravejou Milena o seguindo atrás das aves que alçavam voo desesperadas para longe das crianças eufóricas.
― Então você veio. ― comentou Charles sério: ― Achei que não fosse vir.
― Claro que eu vim. ― rebateu Will ofendido: ― Por que acha que eu não viria?
Charles soltou uma risada maldosa:
― Ora, está tão devoto ao Levesque. Achei que ele tivesse te mandado ficar em casa. ― zombou o ferreiro.
Will ficou tenso.
― Charles! ― repreendeu Silena horrorizada: ― Por favor, não faça isso.
― Fazer o que Silena? Dizer a verdade? ― cuspiu Charles olhando para as crianças: ― Ele prefere acreditar nele, então pra que perder tempo dizendo algo pra ele se não vai nos ouvir?
― Não vamos começar com isso Charles! ― pediu a esposa segurando a mão de Will: ― Querido, se não quiser ver o Harley ser enterrado podemos ir a biblioteca. Você disse que precisava de livros medicinais novos, certo?
Will a olhou um pouco perdido, mas concordou.
― Prefiro. ― respondeu com a voz arrastada. A moça sorriu afagando seu braço, mas Will se manteve tenso.
Charles não fez mais nenhum contato visual, mas calado foi algo que ele não se manteve:
― E onde ele está agora?
― Em casa. ― respondeu direto.
― Não é a casa dele. ― rebateu Charles respirando fundo.
Will trincou os dentes, mas não disse nada. Não era mentira no final das contas. Não era a casa dele, mas era aonde ele estava morando de toda forma. Will afastou-se da família se sentando em um dos bancos de madeira próximo à igreja.
Viu então, um tempo depois, saírem com Harley em um caixão para enterrá-lo. Viu os Barteles passarem com o homem mal olhando para os lados. Viu Silena fazendo menção de ir até Will, mas Charles a puxando para o outro lado com as crianças.
Vários olhos e cochichos pra todos os lados. Sempre as mesmas coisas que Will começou a duvidar do que escutava. Eram sempre palavras de ódio.
Respirou fundo resolvendo ir até a biblioteca pesquisar alguns livros que pudessem ser úteis em relação à Diabetes de Nico. Ele perdeu Harley, mas não perderia Nico. Nem em seu pior pesadelo.
A biblioteca da cidade não era grande, visto a quantidade de pessoas alfabetizadas bem inferior a não-alfabetizadas. Normalmente escribas eram os que mais frequentavam a biblioteca, salvando um ou outro nobre ou mercador interessado em literatura.
Foi diretamente para a sessão de ervas medicinais. Pegou alguns livros e sentou-se em uma das mesas de madeira dispostas na biblioteca. Abriu o primeiro e começou a ler. Falava sobre plantas e suas propriedades. Um diferente do da sua biblioteca particular.
Deu uma boa pesquisada sobre plantas que auxiliavam na diabetes ou mesmo em má cicatrização. Viu então informações sobre Alcachofra. Era cara, mas se ajudasse já estava de bom tamanho.
Pegou papel e pena que tinham dispostas nas mesas pra uso anotando as informações necessárias sobre algumas outras que achou em mais dois livros. Os devolveu para a prateleira e foi diretamente para a feira.
Comprou as plantas e um pouco de massa pra fazer a janta.
Quando chegou a casa foi diretamente para a cozinha deixar a cesta com as compras e subiu para ver Nico. Estranhou não o ver no Hall, então a ferida deveria estar mais dolorida do que ele pensava.
Entrou no quarto encontrando o pirata dormindo. Não parecia um sono muito tranquilo, no entanto. Estava tenso. Colocou uma mão em sua testa checando sua temperatura, mas seu braço foi puxado pra frente ficando cara a cara com os olhos escuros de Nico.
Will teve de apoiar o braço livre no travesseiro para não cair em cima do pirata, mas a pequena distância entre eles o fez prender o ar e arregalar os olhos pelo susto. Nico soltou uma risada o largando na sequência.
― Desculpe. ― falou ele ajeitando-se na cama: ― Como foi lá?
O doutor soltou uma lufada de ar acalmando o coração descompassado.
― Foi... Tenso. ― respondeu desviando o olhar. Tenso em mais sentidos do que um funeral poderia ser.
― O Barteles tentou algo? ― o tom de voz de Nico fez Will estremecer. Olhou o pirata que mantinha o semblante sério. Ele negou.
Sentou-se na beirada da cama: ― Eu trouxe algumas plantas que vão ajudar na cicatrização e na diabetes. ― falou ele um pouco mais animado: ― Vi num livro na biblioteca. Acredito que vá ajudar bastante.
Nico confirmou bocejando na sequência. Will se conteve em imitá-lo. O segurou pelo ombro empurrando-o contra o travesseiro delicadamente.
― Volte a dormir. Esta cansado do esforço de ontem. ― ordenou Will: ― Amanhã você pode voltar a perambular por ai, mas hoje durma.
O pirata balançou a cabeça fechando os olhos e dormindo quase que instantaneamente. O doutor sorriu afastando alguns fios de cabelo de seu rosto. O cobriu adequadamente e saiu do quarto mantendo a porta aberta.
Voltou pra a cozinha e começou a preparar algo pra janta e também o chá de alcachofras. Retirou as coisas da cesta e a deixou em um canto da cozinha. Encarou a pequena planta mais semelhante a uma flor por um longo tempo.
Temia por Nico, bem mais do que somente pela doença. Charles parecia disposto a fazer qualquer coisa pra se livrar dele e Will não sabia como impedir o amigo.
Nico não estava mais tão seguro quanto ele pensava.
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