Pit-a-Pat
18 Capítulo XVIII
Notas iniciais

Will
~Capítulo XVIII~
:: 34º dia na Itália — Semana 4 ::
[...]
Nico acabou não acordando para o jantar e Will resolveu deixa-lo descansar o quanto precisasse. No dia seguinte preparou um pouco do chá de alcachofras ― o qual ele admitia ser terrível ― e pão sovado que comprara um pouco mais cedo.
Estendeu os braços para cima esticando o corpo para aliviar a tensão. Soltou um suspiro tomando um gole de leite. Olhou para fora vendo o balanço mexer-se vagorosamente com a brisa da manhã. As cordas tão escuras quanto deveriam estar mal suportavam o peso da tabua em sua ponta.
O nó mal conseguia ser diferenciado do restante da corda de tão gasto que estava. Sem dúvida alguma derrubaria qualquer um que sentasse nele, nem que fosse uma criança. Torceu o lábio pensativo.
Lembrou-se do outro dia quanto Nico encarou o balanço. Ele parecia bem intrigado com ele, talvez até mesmo nostálgico? Will tomou outro gole do leite quente e levantou-se decidido. Voltou para seu quarto pegando um casaco e luvas e saiu para a feira uma segunda vez naquela manhã.
Iria arrumar o balanço. Pelo menos Nico teria algo para fazer quando estivesse fora assim que as coisas se acalmassem novamente. Entrou na feira movimentada e barulhenta. Olhou em volta procurando alguma barraca onde venderia cordas de boa qualidade e resistentes à chuva.
Parou em uma delas encarando com curiosidade uma adaga com pedras encrustadas. Lembrava vagamente a faca que Nico carregava consigo. Continuou sua busca por mais algumas delas até ser parado por mãos delicadas em seu ombro.
Olhou para trás vendo Ariadne com um sorriso no rosto e duas moças carregando cestas com alimentos e vestimentas. Will abriu um sorriso:
― Ariadne! ― exclamou ele segurando sua mão: ― Bom dia. ― cumprimentou ele beijando-lhe a mão brevemente. A moça soltou um risinho:
― Bom dia. ― falou ela sorrindo de volta: ― Como tem passado? Tem um tempo que não aparece em casa.
O sorriso de Will diminui um pouco:
― Muita coisa aconteceu nesses últimos dias, não tive tempo de visitar o Senhor D. ― desculpou-se: ― Como ele tem passado?
― Muito bem na verdade. ― respondeu ela continuando o caminho até uma banca de tecidos persas. Will a acompanhou: ― As ervas que você passou estão funcionando muito bem. Melhor que antes eu diria. Não tem reclamado muito de dor como sempre faz, só o normal.
Will meneou: ― Entendo. Fico feliz em saber da melhora dele. ― admitiu o doutor: ― Vou ver se consigo passar lá hoje mais tarde.
― Não há a necessidade, Doutor. ― negou a moça segurando um tecido vermelho em mãos passando os dedos por sua extensão. Sorriu: ― Ele está bem, caso piore lhe chamamos. Mas então, eu soube da confusão desses dias.
Will abaixou o olhar: ― Sim, foi bem... Agitado.
― Você ficou bem famoso William. Mais do que antes. ― falou a moça virando-se para ele. Seus olhos caramelos intrigados: ― A história dos Barteles virou fofoca rápido.
― Não gosto desse tipo de fama. ― respondeu ele um pouco alterado: ― Preferiria ser reconhecido pelo meu sucesso no trabalho, não fracassos.
Ariadne o encarou séria, seu sorriso sumindo completamente de seu rosto alvo.
― O mundo não se importa com suas vitórias, William. ― falou ela: ― A intenção dele é de te quebrar sempre que tiver a oportunidade. Ninguém se importa com seu sucesso.
Will a encarou intrigado imaginando pelo que ela havia passado para ter um pensamento tão pessimista da vida? Lembrava um pouco Nico. Pensamentos onde ele sempre é o vilão, e onde o mundo simplesmente lhe deu as coisas.
Respirou fundo abrindo um sorriso triste:
― Preciso ir Ariadne. ― disse ele: ― Estou ocupado no momento, mas apreciei nossa conversa.
― Igualmente. Tenha um bom dia.
Will virou-se fazendo caminho para as barracas mais externas da feira. Achou uma boa quantidade de corda, talvez o necessário para conseguir arrumar o balanço e ainda sobrar um pouco como reserva. Voltou para casa indo direto para o jardim.
Deixou as cordas perto do balanço e arregaçou as mangas.
― Mãos à obra.
☠
Nico
“Nico corria pelos corredores enormes da casa. Segurava em seus braços curtos um desenho que havia feito de sua mãe e Bianca sentadas perto da árvore lendo um livro de contos de fadas.
Sentia-se vitorioso, pois para ele era de longe seu melhor desenho. Virou em um dos corredores abrindo a porta do quarto de sua mãe:
― Mama! ― chamou o pequenino olhando pelo quarto. Estava vazio com somente a brisa quente do verão entrando pela sacada aberta. Voltou para o corredor parando duas empregadas que carregavam roupas limpas.
― Ah! Jovem mestre. ― falou uma delas se abaixando um pouco para ficar na mesma altura que ele. Nico aproximou-se: ― Procurando a Madame?
― Sim! ― respondeu ele sorridente.
― Eu a ouvi tocando na sua sala de musica. ― respondeu a empregada: ― Acredito que ainda esteja lá!
― Obrigado! ― agradeceu correndo para o lado oposto ao delas.
Olhava o desenho de tempos em tempos para ver se não estava amassado nem nada do tipo. Virou em outro corredor vendo a porta da sala de musica fechada e não parecia em uso, mas ainda assim acreditava que sua mãe estava lá. Não tinha outro lugar pra procurar. Parou um pouco antes da porta respirando fundo pelo cansaço da corrida.
Apoiou as mãos nos joelhos olhando novamente o desenho. Havia usado tinta colorida que seu tio havia lhe dado de presente. Ficando ereto abriu a porta da sala de musica.
― Mama! ― chamou ele olhando para os lados. Mais uma vez nem sinal de sua mãe. Ele apertou os olhos.
A sala estava bem escura com as cortinas fechadas, mas dava pra ver o piano com a tampa levantada e o banco derrubado grosseiramente no chão. Andou lentamente até ele levantando-o e fechando a tampa do piano.
― Mama? ― chamou uma segunda vez virando para o lado.
Bateu o rosto em algo soltando o desenho pelo impacto. Massageou a testa olhando melhor para frente. Franziu o cenho passando a mão naquilo. Era macio e fofo, parecia um tecido bem feito.
Apertou os olhos tentando ver o que era, mas as cortinas grossas deixavam a sala em um breu quase total. Segurou com mais força o tecido puxando de um lado para o outro tentando identificar pelo toque o que era aquilo.
De repente ouviu o barulho de algo se soltando e um peso caiu em cima de si o derrubando ruidosamente no chão. Segurou o braço com força. A dor do impacto no chão lhe encheu os olhos de lágrimas.
Tocou naquilo para empurrar, mas sentiu suas mãos ficarem úmidas e algo liso como fios de cabelo embrenharem em seus dedos finos. Soltou um gritinho afastando-se com brusquidão daquilo.
Andou aos tropeços até a janela abrindo as cortinas com grosseria. Virou-se para ver o que era e um grito prendeu-se em sua garganta.
Era muito sangue.
O corpo imóvel no chão pairava sem vida em uma poça de sangue fresco e ainda quente. Os olhos de sua mãe não tinham brilho. Seu pescoço em uma posição assustadora para o lado manchava sua roupa verde oliva de um vermelho ardente.
Seu desenho agora tinha uma nova cor à coleção.
Nico caiu de joelhos no chão. Sujo com o próprio sangue da mãe.
― Ma...ma?
A moça não respondeu e Nico então gritou.”
Nico sentou-se na cama ofegante.
Respirou descompassado segurando a camisa entre seus dedos trêmulos. Fechou os olhos com força revivendo uma segunda, terceira, quarta vez aquela cena terrível de sua infância. Controlando um pouco a respiração, passou a mão pelos cabelos segurando os fios com força o bastante para aliviar as memórias.
― Por isso que nunca fico sóbrio. ― resmungou pra si mesmo. Num tom baixo e rouco, cansado: ― Penso demais quando estou limpo.
Sentiu a visão ficar turva repentinamente pra, na sequência, ouvir seu estomago uivando de fome ao ponto de doer em leves pontadas. Nico suspirou esfregando os olhos e esticando os braços para o alto alongando a coluna dolorida.
Soltou um resmungo enquanto se levantava. A visão escureceu em uma vertigem leve precisando se segurar no pé da cama. Parou um tempo esperando a visão voltar na mesma posição. Assim que melhorou caminhou cansado até a bacia com água perto do guarda-roupa.
Apoiou-se na beiradas do aparador enchendo a mão com a água fria e jogando no rosto sem dó. Arrepiou-se inteiramente:
― Droga, que gelada. ― resmungou passando a mão em sua nuca aliviando o mal estar matutino.
Respirou profundamente agora mais desperto. Ao lado da bacia havia uma janela com as cortinas fechadas, mas finas o bastante para a passagem da luz da manhã. Abriu ela com delicadeza vendo o sol ainda baixo, um pouco antes do meio dia.
Assustou-se com isso. Quando fora dormir era de tarde, sendo assim dormira por meio dia. Não era de se espantar a dor imensa em suas juntas. Fazia muito tempo que não dormia tanto e profundamente. Talvez por ser o primeiro lugar em anos que considerava seguro para fechar os olhos e dormir sem ter de prestar atenção ao arredor.
Abriu o guarda-roupa atrás de um casaco. Além do seu preto viu o de Will enganchado no cabide ao lado do seu. Sorriu com isso pegando-o em mãos. Ainda tinha o mesmo cheiro de colônia barata de Will.
Vestiu ela, mesmo sabendo que ficaria grande para ele.
― Acho que é meu agora. ― resmungou para si mesmo abraçando afetuosamente o tecido. Sacudiu a cabeça e saiu do quarto aos tropeços.
Nico desceu lentamente as escadas até o Hall. Ainda doía com certa força o machucado ― fora o resto do corpo pelo cansaço ―, mas aos poucos conseguia se locomover sem parecer um bêbado a maior parte do tempo. Apoiou-se na parede que dava pra cozinha esperando ver o Solace ali dentro fazendo algo.
No caso a viu vazia e a porta do jardim aberta. Foi até a mesa vendo o chá de Alcachofras. Ele torceu o nariz:
― Aposto que isso é pra mim. ― resmungou desgostoso: ― Que cheiro terrível.
Pegou um pedaço do pão da mesa colocando na boca. Sentou-se nela para comer um pouco antes de ver o que o Solace fazia no jardim. Tomou um pouco de leite da mesa ― passando bem longe do chá ― adoçando com um pouco de açúcar.
Depois do dejejum andou até a porta para o jardim ouvindo o som da grama mexendo-se com o vento. Aquele dia estava absurdamente frio e com ventos fortes de primavera.
Abraçou-se olhando para Will que mexia no balanço. Nico caminhou até ele:
―Solace? ― chamou assim que ficou de frente para o balanço.
Do lado de Will havia dois montes de cordas apodrecidas e no lugar delas um par de cordas novas e aparentemente bem firmes. O doutor se virou para o pirata com um sorriso no rosto. Foi para o lado dando uma visão melhor do balanço.
― Concertei ele. ― disse orgulhoso de si mesmo: ― mesmo que só precisasse trocar as cordas. ― falou segurando uma delas: ― Vem, senta. Não é bom ficar muito de pé com o seu machucado.
Nico arqueou a sobrancelha, mas sentou-se mesmo assim. Parecia bem firme e por ironia do destino não conseguia encostar os pés no chão. Torceu o lábio para o fato. O universo estava de brincadeira com ele? Balançou as pernas indignado.
Ouviu uma risada abafada de Will ao seu lado. Nico grunhiu segurando as duas cordas.
― Eu estou sendo sua cobaia pra ver se está firme? ― perguntou o pirata curioso. Will negou:
― Eu testei antes, é totalmente seguro. ― afirmou indo para trás de Nico. O rapaz tentou segui-lo com os olhos, mas assim que Will o puxou para trás e empurrou não conseguiu dizer mais nada.
Sentiu um frio na espinha na mesma hora. Fazia quantos anos que não sentava em um balanço? Quase dez? Normalmente ele era quem empurrava as meninas e nas vezes que decidia se balançar ele alcançava a porcaria do chão.
Se permitiu sorrir com o momento. Will não poderia ver daquele ângulo, então por que não aproveitar?
― Aquele dia você parecia intrigado com o balanço. ― comentou Will ainda o empurrando. Nico prestou atenção, mas evitou olhar para trás e ficar enjoado: ― Achei que talvez fosse gostar de algo além de livros.
Nico meneou:
― Normalmente minhas irmãs quem adoravam o balanço. Eu só empurrava. ― admitiu segurando as cordas com força.
― Fala da Hazel? ― perguntou Will curioso.
― Sim. ― respondeu sorrindo: ― Ela adorava desde pequena.
― E sua outra irmã?
Ele baixou o olhar demorando um pouco para responder. Falar de Bianca era uma das coisas que mais odiava fazer.
― Não gosto de falar da Bianca, mas era a mais velha. ― respondeu o pirata.
Will segurou as cordas parando o balanço bruscamente. Nico agradeceu por isso. Virou-se para o doutor que o analisava pensativo.
― E você? Por que tem um balanço na casa? ― perguntou mudando de assunto: ― Com certeza não era pra você.
Will riu: ― Não. Minha mãe adorava balanços. Quando ela se casou com meu pai ela ainda era bem nova, uns quinze anos mais ou menos, criança de tudo. ― começou ele sorrindo nostálgico: ― A esposa antiga de meu pai era uma mulher sombria e minha mãe foi incumbida de trazer vida de volta a casa.
― Minha mãe sempre amou balanços, e como a casa não tinha muita coisa meu pai fez um pra ela. ― continuou ele: ― Foi a única distração da minha mãe já que tínhamos serviçais e ela só foi me ter aos vinte.
― Demorou bastante. ― observou Nico intrigado com a história dele.
― Sim, mas depois de seis anos veio minha irmã caçula. ― falou Will nostálgico: ― A casa ficou bem mais animada desse jeito.
― Tínhamos empregados nessa época. Não éramos nobres, mas o dinheiro nunca nos fez falta em nenhum momento. ― Will disse voltando a balançar Nico levemente.
O pirata encostou a cabeça em sua mão que segurava a corda, prestando atenção na história do doutor.
― Então, o Austin é seu meio irmão? ― perguntou Nico. Ouviu Will soltar uma risada baixa e indignada:
― Como sabe?
― Você disse que sua mãe te teve aos vinte, só cinco anos depois de casar. Deu a entender que é o primeiro dela. ― explicou Nico fechando os olhos momentaneamente.
O barulho do vento era confortável, mesmo que arrepiasse seu corpo sempre que alguma brisa passava pelo casaco grosso.
― Sim ele era filho da primeira esposa. ― falou Will continuando a balança-lo: ― Ele tinha dois anos quando sua mãe morreu, e três quando meu pai se casou de novo. Minha mãe quem o criou.
―Hm. ― resmungou Nico.
― Hey, está ouvindo? ― perguntou Will chacoalhando o balanço. Nico soltou uma risada segurando na corda pra não cair.
― Estou, estou! ― falou ele abrindo os olhos: ― Vamos, pare de drama Solace.
― Ok, desce dai que tenho de diminuir o balanço. ― falou enxotando Nico para fora dele.
O pirata rolou os olhos ficando de pé em frente ao doutor que desfazia um pouco do nó abaixando o balanço para ficar fácil de Nico usar. Cruzou os braços sorrindo minimamente para Will.
― O que aconteceu depois? ― perguntou Nico curioso. Will o olhou sobre os ombros.
― Depois do que?
― A casa é bem silenciosa agora. ―disse arqueando a sobrancelha. Will abaixou o olhar voltando a mexer no balanço.
― A vida. ― murmurou indo para o outro lado de balanço ficando de frente para Nico: ― Ela veio depois. ― Soltou um longo e exagerado suspiro: ― Minha mãe morreu de tuberculose quando eu tinha oito anos. No mesmo ano Austin foi embora e ficamos sozinhos com meu pai.
― Dois socos no mesmo ano. ― concluiu Nico sério. Will confirmou:
― Foi. Meu pai considerou o Austin como morto pra ele aquele tempo, então era como se ele também tivesse morrido sabe? ― comentou chacoalhando a cabeça incrédulo: ― Quem faz isso com o próprio filho.
― Muita gente, Solace. ― afirmou Nico. Viu o doutor ficar tenso com sua resposta: ― São poucas as famílias que realmente passam por cima de tudo e todos pra se manterem unidas.
Will nada disse, somente terminou de dar outro nó no balanço e sentou-se nele balançando-se um pouco. Fez uma careta infeliz:
― Deveriam ser. ― resmungou encarando o chão: ― Vem cá, vê se ficou melhor.
Levantou dando espaço para Nico sentar no balanço. Desta vez seus pés alcançavam o chão. Balançou-se levemente, mas ficou parado segurando a corda pensativo. Nem todas as pessoas tentam de tudo por sua família, as vezes eles simplesmente desistem de tudo porque não conseguem arcar com as consequências.
Nico tinha um passado terrível quando a isso. Era como se tivesse sido acariciado pela sorte em um ponto e chutado na bunda em outro. Era como se fosse testado todo santo dia, cada dia uma provação nova de dor para ver o quão resistente ele conseguia ser.
Will, diferente dele, não parecia ter passado por coisas tão difíceis, ainda que Nico soubesse que a medicina fosse uma faca de dois gumes. Ele salva, mas ele perde. Um assassinato indireto. Uma dor lasciva. Os dois estavam um pouco quebrados pelo passado, mas isso não o assustava, de modo algum.
Contudo Will parecia apavorado com o rumo a vida.
― Nico, tudo bem? ― perguntou o doutor agachando-se em sua frente. Apoiou seus braços nos joelhos do pirata. Nico assentiu ruborizando um pouco pela aproximação repentina. O toque dele fazia seu corpo reagir inesperadamente:
―Sim, estou bem. Só pensando. ― falou em um folego só evitando olhá-lo.
― Não parece. Certeza? ― insistiu Will esticando seu braço para tocar o rosto gelado de Nico pelo vento da manhã. Afastou alguns fios de cabelos respirando fundo: ― Bom, se quiser contar to aqui.
Avisou afastando-se e se levantando. Nico voltou a respirar normal.
― E depois? ― perguntou o pirata tentando voltar ao assunto: ― O que aconteceu?
O sorriso de Will foi triste:
― Depois que Austin foi embora eu fui automaticamente obrigado a estudar para exercer a profissão de meu pai. Sem escolha, sem opinião. ― falou em tom ressentido: ― Perdi minha infância aos oito anos basicamente. Não digo que odiei, amo o que eu faço, mas as coisas se complicaram demais por conta disso.
― Se não fosse médico seria o que? ― perguntou Nico interrompendo novamente: ― Afinal não existe uma variedade de empregos por aqui.
Will ficou pensativo. Nico sorriu voltando a balançar-se sem retirar os pés firmes no chão. A ferida doía um pouco por estar sendo repuxada, mas evitou de comentar sobre ela e estragar a conversa.
― Honestamente nem sei. Nunca tinha pensado nisso. Meu destino foi escolhido quando eu era muito novo, não lembro o que eu queria antes. ― admitiu dando de ombros: ― Mas a medicina foi o que salvou a mim e Kayla anos depois.
― Meu pai morreu de tuberculose igual minha mãe quando eu tinha quinze. ― falou abraçando o próprio corpo olhando pro céu acinzentado. O olhar triste em seus olhos claros: ― Deixou Kayla e eu sozinhos para cuidar de uma casa sem alguém pra nos sustentar. Eu não era médico ainda, só auxiliava ele nas consultas.
― Caíram ladeira abaixo. ― concluiu Nico olhando-o diretamente em seus olhos. Will aquiesceu tristonho, mas um sorriso lapidou seu rosto:
― Demiti todos os empregados da casa, exceto o cozinheiro, a governanta e a criada de Kayla. Não saberia resolver alguns problemas de mulher, admito. ― falou dando de ombros. Nico sorriu compreensivo.
― Eu tive de cuidar da Hazel muito nova. Não fui muito presente depois de seus dez anos, mas todo e qualquer problema feminino que ela tinha, no tempo que eu ficava a visitando era bombardeado por isso. ― comentou sorrindo nostálgico: ― Não que eu me irritasse, mas não entendia nada do que ela falava, mas depois compreendia com seu humor maravilhoso.
Will gargalhou:
― A gente acaba aprendendo. ― falou o doutor: ― Bom, o quão bem disposto você está hoje?
Nico franziu o cenho desconfiado:
― Depende do que você está planejando fazer. ― rebateu. Will rolou os olhos.
― Só planejando ir ao Alfaiate. Está precisando de roupas. ― Falou o puxando pelo pulso com delicadeza: ― Vou olhar seu ferimento primeiro antes de mais nada.
Nico concordou seguindo o médico para dentro da casa, do quente e confortável clima que ela tinha. Subiram conversando até o quarto de Nico com Will carregando emplasto e panos limpos.
Will o desenfaixou deitado. Nico o viu encarar o ferimento com curiosidade antes de soltar um suspiro aliviado.
― Parou de sangrar. ― constatou ele apoiando o rosto nas mãos. Nico piscou repetidas vezes tentando absorver a informação.
― Então não está tão ruim?
― Não! ― exclamou o doutor alegre: ― Não está como eu queria ainda, mas parou de sangrar e está dando espaço pra cicatrização. O primeiro bom sinal é esse. ― avisou radiante, mais do que o normal e Nico ficou feliz de ver esse sorriso depois daqueles dias infernais.
― Não vou dizer que não estou surpreso. Tinha certeza que não iria melhorar. ― o comentário de Nico foi sincero, ele realmente não sabia se iria melhorar nas condições atuais, mas pelo visto o Solace sabia exatamente o que fazia.
― Não seja tão pessimista Nico! ― repreendeu Will: ― Está melhor e vai continuar assim. Só você parar de sair brigando por ai.
― Eu te defendi! ― vociferou falsamente ofendido. Will rolou os olhos dramaticamente, mas nada respondeu. Estava tão feliz que nada parecia que iria estragar seu dia.
Passou um pouco de emplasto na ferida antes de enfaixar e ajudar Nico a se sentar.
― Bom, acho que sapato vai ficar por sua conta, mas consigo uma camisa mais limpa. ― falou saindo do quarto na sequência. Nico passou a mão pela faixa em seu abdômen de forma curiosa.
Talvez tenha se curado por que desta vez tinha alguém cuidando? Ele tinha plena certeza de que não conseguiria melhorar, que acabaria morrendo de infecção de alguma forma, mas pelo visto não era bem assim.
Deixou um sorriso escapar por seus lábios rachados de frio.
― Agora já da pra escrever algo pra Hazel. ― sussurrou pra si mesmo levantando-se com cautela. Calçou seu sapato preto e sua calça.
A camisa foi providenciada por Will ― branca como sempre ― e o casaco continuava o mesmo marrom que Nico vestia. Saíram da casa e em pouco tempo já estavam mergulhados na corriqueira Ravenna.
Nico olhava o arredor com curiosidade, já que nas poucas vezes que realmente saiu ou era de noite ou precisava passar sem ser notado. Em ambas não reparou muito no ambiente. Will acenava e respondia as pessoas na rua e Nico queria poder sair de perto do holofote que era William Solace.
O alfaiate ficava a uma quadra de distancia da casa, então não andaram tanto quanto Nico reclamou. Will ria a cada bufada do pirata quando alguém os parava, principalmente pra perguntar quem era o rapaz moreno com ele.
Nico tinha vontade de dizer que tinha ouvidos, boca e que poderiam perguntar diretamente para ele, mas seria desperdício de tempo e paciência pelo visto. Entraram na loja e o Alfaiate os recebeu alegremente.
Assim que Will pediu algumas peças de roupas para Nico o homem logo providenciou uma quantidade absurda de roupas e de cores que Nico recusava-se a usar.
― Não adianta Solace, não vou andar por ai parecendo um arco-íris. ― resmungou cruzando os braços decidido.
― Vai no que? Preto? ― resmungou o doutor.
― Otima ideia. ― falou ele virando-se pro alfaiate: ― Preto é a cor do sucesso.
O homem murmurou algo que Nico não entendeu e trouxe roupas sob medida na cor preto e cinza. Um pouco mais a vontade com a roupa Nico vestiu algumas delas. Teve um pouco de dificuldade, mas no final conseguiu se colocar naquelas roupas pomposas que ele não sentia falta.
Olhou-se no espelho por um tempo. Era nostálgico e ao mesmo tempo um pouco irritante. Aquelas roupas eram desconfortáveis, bem mais que suas roupas piratas poderiam ser depois de uma noite daquelas.
Eram apertadas nos lugares errados, babados em excesso e ainda por cima sempre vinham em cores berrantes. Se pudesse escolher alguma coisa com certeza seria semelhante à suas roupas piratas.
Will o encarava de cima abaixo constrangendo Nico imensamente. Sentiu se rosto arder e mais uma vez ― como todas as outras ― repreendeu-se por isso. Não tinha problemas quanto a sua sexualidade e isso era fato, a questão é que mesmo entre os piratas as coisas não eram tão simples.
Sentir atração pelo Solace seria deixar sua estadia na casa dele estranha, desconfortável. Nico não era tolo, claro que sabia onde esses sorrisos, toques e risadas iam leva-lo e com certeza não teriam um final agradável.
Ele sabia disso, sabia que era uma batalha perdida pra alguém que respirava as regras Católicas, mas ainda assim seu peito parecia que iria explodir e seu rosto queimava tanto que a sua única vontade era de escondê-lo em suas mãos e torcer pra ninguém perceber.
Nico sabia que poderia tentar. Não mataria, não seria o fim do mundo se flertasse com o Solace mais do que já fazia, contudo Só havia dois finais pra essa brincadeira: Will corresponder à sua investida ou afastá-lo bruscamente. Sinceramente falando? Era obvio que vindo dele seria a segunda.
― Você fica muito bem desse jeito. ― comentou Will sorrindo pra ele abertamente. Nico travou o maxilar praguejando o Solace.
Valeria o risco?
― Oh! Mal me arrumei e já está me cantando Solace? Você é rápido. ― zombou piscando o olho sapeca.
Will ficou vermelho desviando o olhar encabulado. Nico sorriu.
Valeria sim.
― Não seja idiota. ― resmungou cruzando os braços ainda sem olhá-lo. Nico não retirou o sorriso do rosto:
― Quem dera. ― resmungou baixo: ― Lerdo como é.
O alfaiate retornou com mais algumas peças de roupas separadas. Todas em tons escuros ― Will até mesmo o convenceu de comprar algo azul, cor que não usava desde seus dezoito ― e voltaram para casa. Esperariam as entregas do alfaiate mais tarde naquele dia, mas Nico já veio vestindo algo que coubesse nele pelo menos.
Nico se joga no Hall resmungando um “estou exausto” vendo Will seguir caminho ao escritório. Voltou logo depois com sua maleta deixando-a perto da porta.
― Tenho de visitar a moça grávida hoje. Está para dar a luz e precisamos ficar atentos. ― falou ele espreguiçando-se: ― Tem comida de ontem que você não comeu, então consegue almoçar tranquilo.
― Ok! ― falou Nico desinteressado.
― Volto de tarde. Se comporta. ― falou ele em tom falso de repreensão.
― Você quem manda. ― resmungou Nico acenando um “tchauzinho” pro doutor.
Não precisou olhar pra ele pra prever uma revirada dramática de olhos. O ouviu abrir a porta e sair deixando o pirata sozinho deitado folgadamente no sofá do Hall. Respirou fundo sentando-se.
Esticou os braços ao alto se espreguiçando com cuidado. Olhou melhor para si. Estava com roupas novas, bem mais disposto, uma ferida cicatrizando. Então por que não explorar um pouco a cidade?
Soltou uma risada indo até a porta. Saiu por ela, respirou fundo e andou sem rumo para a cidade beira-mar.
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