Pit-a-Pat
50 Capítulo XLVIII
Notas iniciais

Will
~Capítulo XLVIII~
:: 93º dia na Itália — Semana 13 ::
[...]
Will virou mais uma página do livro, absorto nas descrições médicas detalhadas na folha amarelada.
Havia começado uma leitura sobre doenças cutâneas há alguns dias por conta do surto de catapora que estava tendo na cidade. William a conhecia como uma doença quase inofensiva, algo comumente transmissível entre crianças pequenas. Mas após o contágio em um adulto naquela semana, William decidiu tomar algumas precauções a mais.
Já era o segundo livro que falava sobre a doença, ressaltando sua preferência por crianças e sua baixa frequência de mortes. Claro, de acordo com suas pesquisas recentes, a doença se torna agressiva em crianças mais debilitadas, e bem mais letal em adultos e idosos. O motivo ainda não era claro, mas a primeira precaução seria a de isolar as crianças de adultos e idosos que nunca contraíram a doença.
Seria trabalhoso convencer as mães de deixar suas crianças presas dentro de suas casas, ainda mais em épocas mais quentes do começo de Junho. O verão estava batendo à porta, afinal. As ruas lotavam de crianças correndo de lá para cá, em brincadeiras e risadas largas e contagiantes.
É uma das épocas mais animadas do ano, não podia negar isso.
Will respirou profundamente, passando os olhos cansados pelas páginas do livro, absorvendo cada vez menos informações à medida que o braço em sua cintura se tornava mais firme. Desceu o olhar para a cabeleira solta de Nico em seu peito, espalhada em mechas fartas e volumosas. Soltou uma risada curta, acariciando seus cabelos com devoção branda.
Conversaram por boa parte da noite antes de Nico começar a demonstrar sinais de cansaço. Normalmente era William o primeiro a dormir em suas conversas noturnas, mas o último mês havia sido cruel para o pirata, e não era surpreendente que dormisse ao primeiro sinal de calmaria.
Por isso o levou para cama cedo naquela noite, e os dois desfrutaram de uma longa noite de sono, a primeira que teve tranquila desde que Nico partiu para o Ducado.
Desceu os dedos por sua pele quente, acariciando sua nuca com a ponta dos dedos, em movimentos circulares e suaves. Subiu a mão para o topo de sua cabeça repetindo o gesto outras vezes. Nico soltou um suspiro confortável, puxando Will para mais perto, no aperto inquebrável de seu abraço.
A conversa que tiveram naquela noite voltou à sua mente.
Ainda não conseguia responder Nico com convicção, por mais que soubesse exatamente qual era sua decisão final, não sobre abandonar seu lar ou sua irmã que já foi deixada de lado por Austin quando ainda era muito nova. Ainda se recordava das noites em que ouvia o choro baixo de Kayla escondida no quarto de Austin, convencendo a si mesma de que ele voltaria em breve. Ela era nova demais para entender o porquê dele ter partido, mas velha o bastante para sentir sua falta.
Foram meses de muita dedicação para que William a fizesse superar aquela perda tão próxima da morte de seus pais e um pouco antes do falecimento de seu avô. Não foram anos fáceis para nenhum dos dois, e as visitas esporádicas de Austin não ajudavam em nada além de deixar a menina confusa e angustiada.
Rejeitada pelo irmão que ela tanto idolatrava.
Will sabia que aconteceria a mesma coisa se ele partisse, o mesmo coração partido; outro luto que sua irmã teria de superar. Era cruel pensar assim, o fazia querer desistir de todo e qualquer pensamento que envolvesse sua ida ao Caribe.
Era egoísmo não pensar nisso e um egoísmo ainda maior em pensar em abandonar sua irmã e toda a comunidade que dependia dele como médico. Ele sabia que a região não ficaria sem um doutor por muito tempo, mas ser aquele que os abandonaria seria cruel e pesado, mais peso do que ele talvez conseguisse aguentar.
Nico respirou contra sua pele, sereno e calmo, tirando-o do pequeno turbilhão que estava se enfiando. Will suspirou. Ainda tinha mais alguns dias para pensar nisso, no momento manteria sua mente longe da decisão e bem próxima de seus olhos caramelos favoritos.
Deixou o livro na mesa de cabeceira deslizando o corpo para baixo, próximo de Nico. Virou o corpo para ele, envolvendo-o em seus braços num abraço quente e seguro por sob a coberta grossa. A luz do dia ainda era fraca, o som da cidade distante em uma manhã tão calma quanto William se sentia naquele momento.
Depositou um beijo em seus cabelos negros, retomando as carícias em suas costas, apreciando a presença cálida do pirata. Não demorou para que o sono voltasse a embalá-lo, convidativo e tentador. Já era tarde para voltar a dormir, mas o conforto daquela manhã o estava tentando em níveis alarmantes.
Pensou em se levantar e começar o dia, mas não conseguiria sair do aperto de Nico sem acordá-lo. Era uma batalha perdida, ele sabia disso.
Estremeceu da cabeça aos pés, soltando um suspiro assustado ao sentir os lábios de Nico em sua clavícula, a parte de sua pele exposta pela camisa semi-aberta. O sentiu sorrir contra sua pele, apertando sua cintura. Will riu:
— Pensei que estivesse dormindo. — comentou baixo, um sussurro delicado contra seus cabelos.
Nico o beijou outra vez, casto.
— Estava.
Sentiu a ponta de seu nariz roçar contra seu pescoço, traçando uma linha imaginária até seu peito onde retomou os beijos pontuais e carinhosos. Will suspirou, fechando os olhos para a sensação formigante em sua pele, o calor correndo por suas veias.
Não tinha noção do quanto sentia falta daqueles pequenos e singelos toques até senti-los novamente. Desceu seus dedos pela lombar de Nico, acariciando sua pele por cima da camisa, percorrendo o caminho de sua coluna do topo até a base, letárgico, apreciando cada estremecer do pirata contra ele.
Segurou a respiração ao sentir os dedos de Nico em seu quadril, delineando o contorno da ceroula. Pequenos arrepios percorreram seu corpo, libertando sua respiração em um ofego longo e baixo, contemplativo. Sentiu o sorriso de Nico se alargar, seus lábios se entreabrirem em um beijo úmido; o roçar de seus dentes em sua pele aumentou os arrepios, instigando-o a morder os próprios lábios.
As provocações continuaram por longos minutos, angustiantes e sôfregos, deixando o doutor entre ofegos e suspiros pontuados. Fechou seu punho nos cabelos de Nico, focando no desbravar suave de sua mão em seu abdômen, da forma como brincava com o contorno de seus ossos, os pelos em seu baixo ventre, seguindo-os até a linha da ceroula antes de subir, provocativo.
Will sabia que ele não passaria daquilo, que os beijos se manteriam castos e os toques gentis e suaves. Nico não pegaria mais do que Will tinha a oferecer.
O doutor engoliu em seco, recordando-se da última vez que se tocaram daquela forma, do sentimento de despedida, do calor em seu corpo quase insuportável. Will queria sentir isso de novo, entender como pequenos gestos podiam significar tanto; como podiam significar tudo.
Segurou o pulso de Nico com delicadeza, forçando-o a parar com os pequenos toques. Nico se afastou minimamente, parando com suas investidas. Will guiou a mão do pirata até estar entre suas pernas, soltando seu pulso devagar; um leve tremor percorreu seu corpo pelo medo que sentia naquele instante.
O pulsar do sangue em seus ouvidos o ensurdeceu, o ritmo rápido de seu coração avaliando a forma rígida de Nico contra ele. Manteve os olhos fechados, entre medo e antecipação, entre o desejo e o pavor queimando em suas veias.
Nico se afastou completamente, e por um instante Will pensou que havia saído da cama, afugentado pelo gesto de Will.
Sentiu seus pulsos serem tomados por suas mãos, presos no topo do travesseiro. Abriu os olhos em choque, tendo seus lábios pressionados pelos do pirata, num beijo menos casto e mais territorialista; devorando ofegos surpresos que escapavam de sua boca.
Nico o prensou contra a cama, o peso de seu corpo afundando-o na névoa que sua mente criou, no toque entorpecido dos lábios febris de Nico, de sua exploração devota.
A mão do pirata desceu por seu corpo, tocando-o onde havia desejado pelos últimos minutos — talvez pelo último mês inteiro —, arquejando o corpo em contato com seu toque calejado, quente e firme.
Afundou-se na forma como Nico mantinha o gesto calmo, ao mesmo tempo em que tomava de William qualquer pensamento que não fosse seu corpo, seus toques, seu gosto, os suspiros graves do fundo de sua garganta.
Nada além de Nico, Nico, Nico.
Sentia tanto. Cada toque, cada sílaba de seu nome proferida por Nico em seu ouvido, como encorajamento ou um mantra próprio.
Lágrimas irromperam por seu rosto, o nome de Nico ressoando em sua garganta, um beijo suave na base de seu pescoço e Will se permitiu ser tomado pelo pirata naquele pequeno frenesi de toques.
Não tinha coragem de lhe contar sua decisão, mas ela gritava em sua mente, alta, ecoante, tenra como o toque suave de uma mão calejada e brutal.
Fique.
E pelos próximos dias era em seus braços que ele gostaria de estar.
☠
Nico
Nico nunca acreditou nas lendas dos mares.
Por mais que usasse do nome dos deuses e gozasse dos contos e histórias proferidas por bardos em bares insalubres e clandestinos, nunca realmente acreditou na existência dos seres místicos que encantam piratas e devoram de sua carne e entranhas.
São contos épicos, narrados por homens que sequer navegaram além do porto e das áreas de pescas; que jamais sobreviveram ao ataque de um Kraken ou a fúria de um deus. Mas eles juram que as histórias são reais, que o oceano carrega sua própria fúria e amores em suas águas escuras e turvas.
O mesmo tipo de conto se repetia entre seus homens no Caronte: o romance de Leo com uma sereia jamais vista; uma besta marítima avistada por Connor e somente ele em uma tempestade entre ondas altas e perversas; o silvo de alerta dos ventos do leste, guiando Malcom em trajetos mais seguros.
Nico ria, divertindo-se com cada uma de suas histórias, jogando a cabeça para trás numa gargalhada espalhafatosa, incrédula e cética.
E ainda assim, depois daquela manhã no quarto de Will, com seu nome sendo proferido como um mantra entre toques e resvalares, Nico questionava se a existência de bestas que conquistam e devoram homens em alto mar não era real.
Se Nico não havia se tornado uma destas bestas de tom suave e voz adocicada da noite para o dia.
Êxtase era pouco, era tão inadequado. Não sabia como descrever a leveza em seu peito, o nó que foi desfeito pelas mãos gentis de William em sua pele febril; na incerteza sendo dissolvida de seus músculos e ossos.
Na forma como pode tocá-lo como sempre quis sem arrependimentos ou medos. Tremia seus ossos, esquentava seu sangue.
Ali, sentado na cama com Will entre suas pernas, a cabeça deitada em seu ombro enquanto Nico lia Don Quixote em tom brando, sentia como se nada mais faltasse em sua vida; o ciclo de uma busca vitoriosamente encerrada.
Nico sorriu para a figura sonolenta de Will contra seu corpo, olhos cerrados e confortáveis.
Talvez fosse Will quem terminasse por devorar seu coração, afinal.
☠
— Vossa Graça. — Giovanni o cumprimentou quando Nico entrou em seu escritório, o caminhar solene enquanto corria o olhar pela sala perfeitamente arrumada.
Nico gesticulou com a mão, dispensando o título.
— Não sou mais um Duque, Giovanni. Não precisa me chamar assim. — relembrou o pirata, sentando-se de frente para a mesa do Capitão.
— Claro, Vossa Graça.
Nico sorriu, divertido.
— De todo modo, finalizei meus deveres pendentes no Ducado e o deixei em mãos mais competentes. Ao menos essa culpa posso tirar de meus ombros.
Giovanni o encarou longamente, absorvendo suas palavras com cautela.
— Vossa Graça fez o que precisava ser feito. Não há culpa a ser carregada. — admitiu o Capitão, apoiando os braços na mesa de madeira: — Me alegra ver Vossa Graça bem e a salvo. Que tenha conseguido manter seu segredo para si, mesmo que tenha lhe custado seu título.
Ah, lhe custou muito mais que um simples título, mas não entraria em detalhes no momento.
Nico arqueou a sobrancelha, apoiando as costas na cadeira estofada.
— Achou que eu fosse ser pego?
— Vossa Graça não é tão sutil quanto acredita ser. — Giovanni devolveu, um sorriso repuxando seus lábios para cima.
Nico estalou a língua, contrariado.
Giovanni parecia se divertir com a conversa enquanto se levantava, caminhando até o armário de bebidas.
— Ouvi sobre a morte do Grão-Duque há algumas semanas. Pegou a todos de surpresa. — comentou Giovanni enquanto servia Nico um copo.
Não precisou tomar para identificar o aroma.
— Rum? Bebida pirata?
— Não é minha culpa que foi patenteada por eles. É boa e forte. — explicou-se, voltando a se sentar: — Vossa Graça, posso perguntar como foi a emboscada?
Nico virou o copo, ingerindo três goles generosos do rum. Passou a língua pelos lábios umedecidos enquanto pensava numa resposta.
Giovanni era confiável, mas nem todos os segredos precisam ser dissecados.
— Foi difícil. — admitiu Nico, girando a bebida no copo, pensativo: — Muitas coisas acontecendo, muitos homens para controlar. Não se tem controle total em situações como essas, não com soldados tão despreparados.
Giovanni assentiu com a cabeça, encorajando-o a continuar.
— Eu me separei dos meus homens para lidar com o Castellan nos meus termos. Sem testemunhas, sem julgamentos. Depositei minha raiva na minha lâmina e descarreguei toda a frustração no homem que destruiu minha vida há tantos anos. — seu tom diminuiu, enfatizando o assassinato em palavras pontuais e ambíguas.
Giovanni crispou os lábios, compreensivo. Não havia julgamento em seu rosto, ainda que mantivesse a expressão dura durante a conversa.
— E o Grão-Duque?
— Morto pelo Castellan. — respondeu de imediato, dando de ombros: — Nem todos os homens conseguem brandir uma espada. O Castellan era bom. Howard não era habilidoso o bastante. Pagou um preço alto por isso.
A sala ficou em silêncio.
Nico ingeriu o restante do álcool, depositando o copo na mesa de Giovanni. Cruzou as pernas confortavelmente, encarando-o com severidade.
— Sanei suas perguntas?
Giovanni suspirou: — As que Vossa Graça quis responder apropriadamente, sim.
Nico sorriu, mas não negou.
— Imagino que eu ainda tenha carta branca para mais um favor. — sugeriu por fim, mudando de assunto.
Giovanni assentiu.
— Quantos favores eu puder realizar.
Nico ergueu ambas as sobrancelhas, surpreso. Giovanni sorriu, orgulhoso por surpreendê-lo.
— Vossa Graça pode não ser mais um Duque, mas sempre será meu senhor. Nada irá mudar isso.
— Oh? Giovanni, não me dê tanto poder, irá se arrepender. — ralhou Nico, batucando a ponta dos dedos no braço da cadeira.
— Não vou permitir que roube nada. — alertou o Capitão, sério: — Não farei parte de sua vida pirata.
Nico gargalhou alto, pego de surpresa pela afronta do Capitão.
— Acredite, não preciso de sua ajuda para pilhagens, mas agradeço o alerta. — o sorriso de Nico era largo, um brilho diferente em sua feição suavizada.
Parecia quase impossível chateá-lo naquele começo de tarde.
— Então, do que precisa?
Nico ergueu os ombros, como se fosse um pedido dos mais simplórios.
— Preciso de um navio.
E, claramente, não era.
Giovanni alargou os olhos, levemente surpreso.
— Um navio?
— Sim, um navio. Grande, com três mastros, um timão.
— Eu sei o que é um navio, Vossa Graça. — Giovanni o interrompeu, apertando os olhos com a ponta dos dedos. Nico se limitou a sorrir, descarado: — Mas eu não posso lhe dar um navio. Gostaria de poder ajudar, mas…
Nico observou o Capitão por longos instantes, os ombros tensos do homem do outro lado da mesa; seu copo de rum intocado.
Sabia que existia em Giovanni uma espécie de devoção latente para com ele, o suficiente para guardar um segredo que poderia comprometê-lo caso descobrissem que Giovanni o acobertava. Remorso, culpa, fosse qual fosse a razão pela qual arriscava tudo que tinha por um homem que sequer era digno de tamanha devoção, Giovanni ansiava por agradá-lo em cada pequeno detalhe e pedido egoísta.
Talvez Nico devesse se sentir culpado por usá-lo dessa forma descarada, mas não havia integridade em Nico que o impedisse de subir degraus e escalar montanhas às custas de trapaças e mentiras.
Sua cota de bondade havia terminado no Ducado, afinal.
Nico descruzou e cruzou as pernas outra vez, enfático. Giovanni encarou o movimento, subindo o olhar para o pirata. Nico tombou a cabeça levemente para o lado, endurecendo sua expressão.
— Pensei que sua dívida comigo fosse o bastante para me ajudar, Giovanni. — seu tom ácido reverberou pelas paredes de tijolos, arrepiando o Capitão à cada sílaba enunciada.
— Vossa Graça…
— Mas acredito que não seja má vontade, mas talvez uma falta de compreensão. — Nico continuou, ignorando o Capitão. Ergueu sua mão esquerda, gesticulando com os dedos enluvados: — Veja bem, eu lhe pedi um navio, mas em nenhum momento exigi que me desse um.
Giovanni franziu a tez, confuso.
— Se eu quisesse realmente roubar um navio da marinha, Giovanni, eu definitivamente não te deixaria ciente disso. — Nico ergueu a lapela de seu paletó, retirando do bolso interno uma bolsinha de tecido cheia e pesada. A jogou para cima uma, duas, três vezes em sua palma antes de deixá-la cair na mesa de mogno, o tilintar das moedas em um eco baixo: — Eu preciso de um navio, mas não posso comprar por conta própria.
Giovanni olhou da bolsa de dinheiro para Nico, tentando decifrar suas palavras confusas.
— Vossa Graça… Quer que eu lhe compre um navio?
Nico sorriu: — O que pensou que eu queria, meu amigo? Que me deixasse roubar um?
Giovanni desviou o olhar, envergonhado. Nico riu. Claro que ele pensou que fosse roubá-lo. A pirataria não era um ramo dos mais virtuosos.
Giovanni tossiu, desconcertado.
— Pois bem. Posso procurar algo na região, mas a compra de um navio não é simples. Vossa Graça não é mais um Duque, esse tipo de compra não acontecerá da noite para o dia. Demanda tempo. — o Capitão relembrou, abrindo uma de suas gavetas na mesa, retirando um caderno grosso e com folhas soltas: — Vou ver o que posso fazer.
Nico concordou com a cabeça, respirando fundo.
— Ótimo, não preciso do navio para amanhã! — garantiu Nico se levantando: — Uma semana já basta.
Giovanni estremeceu.
— Vossa Graça!
— Aguardo boas novas na semana que vem. — comentou o pirata, caminhando solene até a porta do escritório.
— Uma semana é pouco tempo!
Nico parou de andar, olhando-o por cima do ombro. Apertou os olhos, enfático.
— Oh não, Giovanni, é o suficiente. — sem nada mais para dizer, Nico abriu a porta do escritório.
— Vossa Graça!
Nico suspirou pesado, cansado de ouvir esse título tantas e tantas vezes seguidas.
— Eu preciso reportar algo. — Giovanni comentou, pegando Nico desprevenido com a mudança no assunto.
Curioso, Nico se virou para o Capitão. O homem estava apoiado na mesa um tanto exasperado, com o rosto vermelho. Nico cruzou os braços, se apoiando no batente.
— Diga.
O Capitão se recompôs, ajeitando sua gravata mecanicamente. Nico esperou paciente.
— Alguém tentou invadir a casa do doutor Solace na sua ausência. — disse o Capitão, se aproximando alguns passos do pirata.
Nico tensionou os ombros, seu sorriso paralisado em seu rosto. Puxou o ar profundamente antes de soltar, apertando os olhos para o Capitão.
— Quando?
— Na semana em que Vossa Graça partiu. Parecia que esse homem sabia que iria deixar a casa do doutor Solace. — respondeu Giovanni, o tom de sua voz mais sério e pesado: — Conseguimos interceptá-lo antes que entrasse na casa. Está preso nas celas inferiores há semanas.
Nico se sentiu esfriar, trazido de volta à sua realidade com brutalidade. Passou os últimos dois dias desde que retornou para Ravenna na casa do Will, aproveitando da calmaria e da companhia morna do doutor, que havia esquecido brevemente de sua condição como pirata.
Sempre terá alguém atentando contra sua vida ou de seu amante.
Endireitou a coluna, erguendo o rosto em um desafio velado. Encarou Giovanni nos olhos, sua raiva ganhando cores e sons.
— Por que não o matou?
Giovanni negou com a cabeça.
— Imaginei que pudesse querer interrogá-lo o senhor mesmo.
Nico concordou brevemente, se virando para a porta, sua respiração pesada e alta contra seus ouvidos sensíveis.
— Sim, achou certo.
Nico saiu do escritório, caminhando pesado pelos corredores de pedras úmidas pela maresia. Se olhasse além das janelas, veria a baía e o canal. Poderia ouvir o mar e o som das gaivotas em voos circulares no céu azul e límpido. Mas não conseguia fixar seu olhar no oceano. Sua raiva era fria, quase oposta à tudo que sentiu no ataque à mansão, em sua luta com o Castellan.
Não havia fúria ou fogo, nem inferno ou céu como testemunhas de um uma ira cáustica e incontrolável. Não, sua raiva era branda, como o prelúdio de uma tempestade, com ventos e o aroma doce da chuva por vir.
Giovanni tomou a dianteira e o guiou até as celas inferiores abaixo do nível do mar, com janelas altas e gradeadas; respingos de água salgada despencavam por elas em movimentos mais bruscos da quebra do mar na baía.
Seus passos ecoavam pelo piso de pedra molhada. Nico ouvia o gotejar nas paredes, o som de poças sendo formadas, de tosses e o barulho das chaves do carcereiro que caminhava nos corredores em sua ronda diária. Nico sentiu seus pelos se arrepiarem, um sentimento de deja vu retornando para ele, de dias encarcerado em uma cela na Britânia, há dias de ser enforcado por roubo e contrabando.
Numa época onde ser pirata nunca lhe passaria pela cabeça.
Crispou os lábios, tentando se livrar das memórias sensitivas daquele lugar, dos odores e dos sons; das vozes suplicantes e das músicas entoadas em idiomas que Nico desconhecia; do cheiro da morte que impregnava as paredes em dias de execução acima das celas.
Havia dias, quando Nico começou a enlouquecer nas semanas aprisionado naquele fim de mundo, que jurava poder ver o sangue que havia escorrido do cadafalso na superfície, gotejando nas poças da cela imunda e sufocante.
Nesses dias, Nico gargalhava para si mesmo, imaginando quando seria sua vez de verter e sangrar, de ser consumido pelo odor ferroso de seu próprio sangue quente.
Não o admirava que tivesse aceitado a oferta de Jason naquele dia, de se tornar aquilo que jurou jamais ser. Um homem insano não teme a insensatez suicida de homens mais desesperados do que ele.
— Vossa Graça?
Nico piscou os olhos várias vezes, retornando para a cela beira-mar. Olhou para o Capitão, a tez franzida.
— Sim?
— Está bem?
Nico estalou a língua: — Não faça perguntas imbecis. — repreendeu se aproximando de Giovanni e do carcereiro: — O prisioneiro tem nome?
O carcereiro respondeu:
— Barteles, Vossa Graça.
Nico soltou uma risada chocada, surpreendendo os dois homens e a ele próprio. Oh, que ironia.
— Barteles? O mesmo Barteles que o filho morreu meses atrás e tentou matar o doutor Solace? — Nico enunciou cada palavra com uma acidez diferente, uma indignação mortal.
Havia lhe dado a chance de viver naquele dia, uma oportunidade de deixar Ravenna com sua esposa e nunca mais voltar. Havia poupado sua vida por respeito à uma família ruída e um luto árduo. Ainda assim, lá estava o homem que havia jurado matar William, rastejando por sua vingança tola.
Se fosse uma ameaça contra sua própria vida, Nico aceitaria. Até acharia cômico que tivesse sido capturado antes de conseguir chegar próximo do pirata. Mas a jura não era para ele.
Nico não se sentia mais tão frio quanto antes.
— Sim, Vossa Graça.
— Me leve até ele.
Sendo guiado por Giovanni e o carcereiro, Nico caminhou vagarosamente até o fundo do cárcere, provavelmente uma cela separada das demais. Bom, muito bom.
Uma porta de ferro foi aberta mostrando uma antessala com uma mesa, velas já gastas e apagadas, uma fornalha na lateral e uma cela particular ao fundo, as grades de aço separando eles do homem deitado de costas para a porta. Ele sequer se mexeu quando entraram.
Nico travou o maxilar, irritado.
— Giovanni. — Nico estendeu a mão para o Capitão: — Me dê a chave e saiam.
— Vossa Graça…?
— Tenho assuntos pendentes com esse homem, não quero ser ouvido ou interrompido. — alertou devagar, gesticulando com seus dedos mais uma vez.
Sem opções, Giovanni entregou para ele as chaves e saiu com o carcereiro, fechando a porta de ferro atrás deles. Nico respirou fundo, retirando as luvas uma à uma, depositando-as na mesa de ferro na parede. Caminhou até a cela, as costas do Barteles ainda para ele.
Nico repuxou os lábios, desgostoso, batendo com a chave no ferro das grades, ecoando no pequeno espaço privado. O homem estremeceu levemente, dando sinais de que podia ouvi-lo.
— Barteles, Barteles. Já vi tantos homens desperdiçarem suas vidas antes, mas você parece ainda mais entusiástico em morrer. Curioso. — comentou Nico, girando a chave em seu indicador.
O homem virou devagar, o olhar temeroso e aflito se encontrando com o do pirata. Nico suspirou destrancando a cela. Deixou a porta escancarada, a chave pendurada na fechadura. O Barteles se afastou do pirata, colando as costas na parede de pedra.
— Vossa Graça… Eu…
— Você tentou matar o Will enquanto eu estava longe. — Nico acusou, andando devagar pela cela consideravelmente espaçosa. Bem mais confortável que a sua na Britânia.
O homem tremia.
— Eu estava no meu direito como pai… — sussurrou baixo, sua voz um fio imperceptível na sala silenciosa, quase sem ecos.
Nico travou o maxilar, ouvindo-o estalar ruidosamente.
Por mais fria que a cela estivesse, Nico ardia e borbulhava; seu sangue correndo aflito por suas veias efervecidas. Ah, como ele desejava pular o interrogatório e desferir a frustração que sentia em seu peito.
— Eu também estou no meu como amante, Barteles. — Nico rosnou baixo, cuspindo seu nome como a peste: — Eu o poupei uma vez, acha eu o farei de novo? Me considera benevolente?
O Barteles empalideceu, erguendo-se com dificuldades. Nico permitiu, vendo até onde ele iria. O homem fechou as mãos em punho, o medo e a raiva misturados ao luto de um pai perdido e derrotado.
— Não quero benevolência, quero justiça! Alguém matou meu filho, e alguém irá pagar por isso!
— Não há justiça aqui, Barteles! — Nico vociferou, silenciando o homem acuado: — Você foi capturado pelos soldados do Ducado por tentar invadir a propriedade alheia. Por tentar invadir minha propriedade. Pensou que eu não saberia? Que não teriam homens o protegendo na minha ausência? Que eu não voltaria?
O homem abaixou a cabeça, negando ávido.
— Não era pra você voltar, não era… — resmungou inconformado, abraçando o próprio corpo. Nico endureceu o olhar.
— Oh? Não era para eu voltar? Curioso que você soubesse que eu iria partir.
O Barteles ergueu o olhar, uma raiva covarde em seus olhos. Nico se manteve impassível. Precisava de algumas respostas, mas cada segundo a mais se tornava sufocante estar em uma realidade onde não o espancava até a morte.
Mais um pouco, só um pouco mais.
— Eles me prometeram que você morreria, que você não estaria mais lá! Que eu teria minha vingança! O que faz aqui?! Por que ainda está vivo?! — o homem gritou, exasperado, ensandecido: — Contei o que eles precisavam saber, não era pra você estar aqui!
Nico ergueu o maxilar, compreendendo.
Enfim, encontrara a quinta pessoa misteriosa. O último número de sua equação quebrada.
Um sorriso vil rasgou seu rosto, desfigurando sua aparência em algo grotesco e aterrorizante; a besta profana que vivia no fundo de sua alma amaldiçoada. Uma gargalhava irrompeu de seu peito, alta, amarga, um toque animalesco no rouco de sua voz.
O Barteles recuou novamente, olhando desesperado para os lados, para uma fuga da forma que se curvava pra frente, que enunciava uma risada gutural e ímpia. O homem disparou para a porta aberta, a adrenalina correndo e correndo e correndo em suas veias.
Nico puxou a adaga de sua bota lançando-a às costas do Barteles, perfurando seu ombro, atravessando até o outro lado. O homem cambaleou para frente, agarrando-se à porta de ferro. Nico se aproximou dele em três passadas largas, sua mão presa nos cabelos fartos do homem.
O puxou para trás, arrastando-o pelo feno no chão da cela, jogando-o do outro lado, distante da porta escancarada. Nico estalou a língua em desagrado, sequer um rastro de sua risada permanecia em seu rosto raivoso.
De seu bolso Nico tirou um uma faixa de couro, mantida em suas vestes por motivos óbvios. Enrolou a faixa em seu punho, protegendo sua pele do contato com o homem à sua frente.
— Você entrou em contato com os homens do Condado. — Nico sibilou, seu olhar fixo no Barteles: — Contou para eles do meu ferimento. — Se aproximou do homem, segurando a lâmina de sua adaga com a mão enfaixada, virando-a no lugar. O homem urrou: — Espancaram o William por sua causa.
Nico desferiu um soco em seu rosto, rasgando sua pele pelo contato com o couro. Com a perna oposta, desferiu um chute em sua lateral jogando-o na parede. O Barteles caiu ao chão, se arrastando pelo chão para longe. Nico sorriu sem emoção alguma, uma deformação em seu rosto, um câncer em metástase.
Outro chute em sua lateral o fez parar de rastejar, encolhendo-se no chão. Nico estalou a língua, raivoso.
— Levante.
O Barteles encolheu-se ainda mais, apavorado, os soluços se formando em sua garganta. Nico se afastou dele indo ao lado de fora da cela. De lá, retirou da parede o machado que enganchado para a lenha da fornalha empoeirada.
— Recomendo que se levante, Barteles. — Nico alertou, entrando na cela com o machado em mãos: — Ou me enfrenta como homem, ou o tratarei como animal.
O pânico nos olhos do Barteles era cômico. As lágrimas desciam e se mesclavam ao sangue em seu rosto, o tremor de seu corpo tornando-o menor, um infante perante uma besta ensandecida.
— So-Socorro! Guardas! Guardas! — o homem gritou em prantos, desejando que alguém, qualquer um, aparecesse para ele.
Nico sorriu, divertido.
— Oh? Acha que eu entrei sem que eles soubessem? — a diversão em suas voz o aterrorizou ainda mais: — Todos sabem que não irá sair desta cela com vida.
Nico ergueu o machado, acertando o Barteles na lateral de seu corpo, rasgando a pele e quebrando costelas. O homem gritou de dor, tendo o machado retirado de dentro dele com a mesma grosseria. Nico ergueu o machado outra vez, desferindo a lâmina em seu ombro já lesionado, abrindo a ferida, arrancando a adaga de sua pele. O Barteles caiu de joelhos ao chão, vomitando sangue e vísceras.
Nico soltou o cabo do machado, desferindo um chute em seu rosto, derrubando o Barteles ao chão, o sangue vertendo e pintando as pedras e fenos com o rubro de seu sangue espesso.
Nico respirou fundo, acalmando a raiva em seu peito. Se abaixou reavendo sua adaga do chão, contaminada.
Soltou a faixa de seus dedos, caminhando solene até a bacia d’água fora da cela, lavando suas mãos, a adaga a faixa. Guardou cada uma delas em seu respectivo lugar, recolocando as luvas.
— Sabe, Barteles, você teve toda a sorte do mundo do seu lado quando o deixei ir embora meses atrás. — comentou Nico, voltando para o lado do homem no chão. Ainda vivo, ainda conseguia ouvi-lo: — Eu nunca deixo alguém potencialmente perigoso para mim ou para os meus vivo e solto por aí. O fiz em respeito à sua esposa, mas acredito que ela ficará melhor sem você.
Como uma despedida final, Nico arrancou o machado de seu ombro, jogando-o aos seus pés. O Barteles chorou baixo, desolado.
Com a outra mão jogou uma de suas adagas em frente à seus olhos.
— Mantenha sua dignidade intacta. Corte sua própria garganta antes de morrer.
Dando as costas para ele, e sequer se dignando a fechar a cela, Nico saiu da antessala, abrindo a porta de aço para o restante da prisão. Giovanni e o carcereiro o esperavam um de cada lado da porta. Suas feições sérias e silenciosas.
Nico continuou a andar para longe daquele lugar, um alívio repentino tomando conta de seu corpo em espasmos, estremecendo seus músculos num tremor quase imperceptível.
Se Will decidisse ficar ao invés de partir com ele para o Caribe, não haveria ninguém que pudesse machucá-lo ou traumatizá-lo. Estava livre de qualquer medo que pudesse ter; de qualquer vingança que pudesse acontecer.
E, como um bônus em sua viagem atrás de um barco, Nico pode concluir o último mistério sobre os soldados do Condado, fechando definitivamente aquela narrativa da sua vida.
☠
Will
— Tio Will! — Milena gritou ao ver o doutor na porta de sua casa.
Will sorriu para a pequena a pegando no colo, aceitando um beijo no rosto e o abraço apertado. Carregou ela do Hall até a sala onde Charles lia um livro pro Henry em uma das poltronas. No sofá costurando calmamente estava Silena.
Ela ergueu o olhar sorrindo para Will amorosamente, deixando a peça de roupa de lado.
— William! — exclamou animada, indo até o doutor atrás de um abraço: — Já faz um tempo que não te vemos, como tem passado?
— Muito bem. — respondeu animado, depositando um beijo em seu rosto: — Senti saudades de vocês.
— Então deveria ter vindo antes. — Charles comentou fechando o livro. Havia certa fragilidade em seu olhar, observando William com cautela: — Vai ficar pro almoço?
Will concordou com a cabeça. Havia avisado Nico que iria sair, então comeram um café mais reforçado antes de cada um sair para seu compromisso. Não sabia exatamente o que Nico tinha programado, mas não era como se tivesse contado sobre sua visita aos Benkendorf. Respirou fundo colocando Milena no chão.
Se aproximou de Charles lhe dando um abraço apertado. Sentia falta do amigo, ainda que estivesse magoado com ele. Charles era duro e complicado de lidar, mas Will ainda tinha certa esperança na amizade deles, mesmo que bem pouca.
O amigo o abraçou de volta por um tempo antes de afastá-lo, a feição tranquila e animada.
— Vamos comer? — sugeriu Charles guiando todos para a cozinha.
Silena esquentava as panelas enquanto Milena e Will colocavam a mesa. Charles tentava fazer Henry ficar sentado na cadeira, mas o garotinho escorregava para baixo da mesa, fugindo das mãos do pai que já perdia a paciência. Will ria da cena, vendo o pequeno emergir do outro lado da mesa, rindo gostosamente da brincadeira.
Milena sentou no seu lugar enquanto esperava a comida ficar pronta. Will sentou ao seu lado perguntando sobre sua semana. A menininha começou uma conversa animada sobre as flores que colheu no dia anterior; falou da corrida no parque com Henry até os dois se cansarem e comerem um bolo cada (aparentemente ela vomitou, mas foi um comentário baixo e Will fingiu não ter ouvido).
Olhando de esgueio para sua mãe, Milena comentou sobre a briga de seus pais nos últimos dias. As gritarias e várias ofensas proferidas de lá pra cá. Will prensou os lábios, preocupado. Silena e Charles não eram de brigar com frequência, não o suficiente para uma criança da idade de Milena perceber.
Ergueu o olhar para a amiga que corria de um lado para o outro da cozinha, terminando o almoço o mais rápido e alegre que podia. Nada parecia errado, mesmo o sorriso largo da amiga parecia sincero e gentil, detendo a mais pura delicadeza que sempre esteve acostumado.
Will respirou fundo, preocupado.
— Silena. — Charles chamou, entrando na cozinha com Henry debaixo do braço que ria divertidamente: — O que acha de abrirmos um vinho?
— Seria ótimo! — exclamou a mulher, o sorriso divertido no rosto ao retirar as panelas do fogo: — Vou colocar a comida na mesa, se apresse.
Charles deixou Henry sentado na cadeira e saiu da cozinha, abrindo a porta da adega no corredor. Henry desceu da cadeira escalando as pernas de William e se sentando em seu colo, confortável. Will afagou seus cabelos escuros, observando Silena colocando as panelas no centro da mesa.
Milena tentou pegar uma das carnes da panela com a mão, mas Silena a espantou com o pano de prato, o olhar repreendedor e ao mesmo tempo sapeca. Milena riu, mas permaneceu quieta no lugar.
Charles retornou depois de algum tempo, duas garrafas de vinho nas mãos. Se sentaram à mesa e começaram as conversas paralelas. Silena alugou William e falou sobre a visita da Ariadne depois da consulta de William, pedindo ajuda para cuidar do marido adoecido. Silena havia aceitado o serviço na parte da manhã, enquanto a esposa do Senhor D estava ocupada com os afazeres da casa.
Will concordou com a cabeça, uma parte da tristeza da conversa o embalando. O Senhor D era alguém que fez parte de sua vida desde sua infância. Acompanhava seu pai nas consultas na mansão, já cuidando de seus problemas com o álcool desde aquela época. William brincava em sua sala de estudos com seus outros dois filhos, entre risadas e doces ofertados por Ariadne.
Recebia presentes em todos os seus aniversários, e foi acolhido pela Ariadne quando seu pai morreu e precisou de ajuda para manter a casa nos primeiros meses.
Era uma família que tinha um lugar especial em seu coração.
A presença dele era tão intrínseca em sua vida, tão preciosa que ter que dar o ultimato foi uma das coisas mais dolorosas que já fez em toda sua vida. Para sua sorte, Nico estava com ele naquele dia, o impedindo de ter qualquer pensamento culposo; Nico cuidou dele, garantindo que Will havia feito tudo que pode e que não haveria ressentimentos.
Saber que Silena ajudaria a cuidar do Senhor D o tranquilizava.
— Ele não podia simplesmente ter parado de beber? — Charles resmungou, claramente irritado.
Will negou: — O vício é difícil de cortar, Charles. Por algum motivo o álcool torna as pessoas dependentes, mas elas estão cientes de que estão morrendo aos poucos. Só não se importam o suficiente para parar.
Charles murmurou atento, mas ainda descontente.
— Seja mais solidário, Charles. O Senhor D sempre foi um homem incrível, com ou sem seu hábito de bebida. — repreendeu Silena, sua mão sobre a do marido. Charles sorriu para ela.
— Espero que consiga tranquilizar a Senhora Ariadne pelo tempo que ficar lá.
— Também espero. — comentou a mulher voltando a atenção para Will, seus olhos espertos e curiosos: — Falando em ficar… Ouvi falar que o senhor Levesque havia retornado.
Will parou de comer, sentindo o clima pesar na cozinha. Respirou fundo, concordando.
— Há dois dias. — Will respondeu, levemente desconfortável com o olhar de Charles.
— E para onde ele havia ido? — indagou Charles, o tom agridoce: — Ficamos sabendo de pessoas entrando e saindo da sua casa, até mesmo soldados e carruagens da nobreza. O que aconteceu nas últimas semanas?
Will não deveria se surpreender por seus amigos saberem do ir e vir dos nobres em sua casa. Agradecia que ninguém sabia quem eles eram ou quem Nico realmente era, já que poderia comprometer a fuga de Nico da alta sociedade italiana.
Ele não podia contar, então se manteve em silêncio, tomando vinho em pequenos goles.
Charles estalou a língua.
— Como sempre acobertando o Pirata. — reclamou o amigo deixando a comida de lado, escondendo o rosto em sua palma: — Você realmente não consegue ver no que está se metendo, William? Não vê que acobertá-lo só vai te desgraçar?
Will apoiou as costas na cadeira, repentinamente sem fome. Silena olhou de Charles para o Will antes de se virar para as crianças.
— Por que não vão brincar no quintal? Os adultos precisam conversar. — pediu Silena calmamente.
Milena encarou a mãe contrariada, não querendo sair de perto de William, mas Henry desceu da cadeira sem pensar duas vezes, correndo para o lado de fora da casa. Milena, sem muita escolha, foi atrás do menor em um trotar nada gracioso. Will os seguiu com o olhar antes de focar sua total atenção no casal de amigos à sua frente.
— Quantas vezes vai me perguntar isso? — Will rebateu, definitivamente sem paciência.
— Quantas vezes eu precisar até entrar algum juízo na sua cabeça oca! — exclamou o amigo, revoltado.
— Charles! — Silena o repreendeu, mas Charles continuou a falar:
— Não entendo o que você ganha protegendo ele, guardando seus segredos. Ele é um pirata. Ele não se importa com você de verdade, só está te usando! Como não consegue ver? — Havia uma certa angústia em sua voz, uma agonia misturada à sua raiva e indignação.
Will entendia, mesmo que suas palavras o magoassem. Will sabia que a ótica de Charles era diferente da sua. Seu amigo só via o lado pirata de Nico, o lado comumente conhecido de bêbados, assassinos e ladrões; viam a pintura que a sociedade criou para a pirataria com medo de que mais pessoas aderissem ao estilo de vida boêmio do alto-mar.
Mas William conhecia mais, viu muito além do muro que Nico vestia quando chegou em Ravenna, quando fingia ser um homem cruel e maldoso, quando criticava William pelo simples prazer de irritá-lo. Will aprendeu a conhecer a parte humana de Nico, uma parte que o próprio pirata havia esquecido.
Viu seus momentos frágeis, suas lágrimas angustiadas, sua dor, sua culpa, seu amor. Viu a pessoa que Nico era completamente, as partes belas e grotescas.
Se apaixonou pelo homem por detrás do muro de ofensas e boatos; se apaixonou por todas as partes de Nicollà di Angelo.
Ele era um assassino, ladrão, mentiroso; Nico era tudo que a pirataria exigia dele, mas não era somente isso que o definia e William aprendeu a aceitar ambos lados como um só. E essa decisão foi o que o fez compreender o que desejava fazer quando Nico partisse.
Will balançou a cabeça, tomando o último gole do vinho antes de se levantar.
— Eu conheço ele mais do que vocês. Ele não está me usando e nem mentindo para mim. Ele é sincero em cada pequeno ato e palavra. — William enunciou devagar, saboreando cada palavra e sentença como se fossem sacras: — Ele compartilha comigo seus pensamentos e segredos, e eu os aceito e cuido.
Silena pôs a mão sobre a boca, a confusão em seu rosto se intensificou.
Charles aprumou-se: — Não seja tolo William--
— Você quem está sendo tolo, Charles! — esbravejou Will, sua paciência nula. Não aceitaria que falassem mal de Nico na sua frente. Não mais: — Eu não lhe devo nenhuma satisfação sobre o Nico, ele não lhe diz respeito.
Will se virou para a porta da cozinha, esfregando o rosto, resignado. Silena havia se levantado.
— Will, não vai, por favor. Vamos mudar de assunto, sim? — sugeriu a amiga aflita, intermediando entre o marido e o amigo de infância. Entre o errado e o certo.
Will se virou para o casal, olhando de um para o outro, imaginando como chegaram naquela situação catastrófica. Imaginava quando começou a ver seus amigos de forma diferente, considerando sua amizade sufocante e controladora.
— Nico vai voltar para o Caribe em alguns dias. — respondeu William, observando a feição esperançosa de Charles ainda sentado à mesa: — Ele me chamou para ir junto.
O silêncio na cozinha o asfixiava. Silena abaixou o olhar, seu rosto franzido em confusão e conflito. Charles bateu ambas as mãos na mesa, erguendo-se com brusquidão.
— E você vai embora, é isso?! — gritou o amigo, seu rosto vermelho de raiva e frustração. Will engoliu em seco, assustado pela reação do ferreiro: — Vai seguir esse homem pelos mares, se tornar um renegado, um pecador como seu irmão?! Vai seguir os passos do Austin?!
— Charles, por favor--
— Calada! — Charles esbravejou, andando até William em passos estrondosos. Will estufou o peito, a raiva do amigo passando para ele aos poucos, como uma doença contagiosa: — Vai abandonar a gente? Seu trabalho, as pessoas que dependem de você? Vai abandonar sua irmã?
Will respirou fundo, cruzando os braços.
— Ela está bem casada, não estou abandonando ela. — William rebateu, irritado.
Charles riu, incrédulo: — Então você vai? Vai se deixar ser enganado e iludido pelas mentiras do pirata? Seja lá o que ele te contou, William, é mentira. Nada do que ele lhe disse é verdade! Não confunda com amizade! Ele não é seu amigo!
Will tensionou a mandíbula, irritado. Teve o suficiente daquela conversa.
— Tem razão, ele não é meu amigo. Não é isso que ele é. — Will deu as costas aos amigos, reavendo seu chapéu.
Charles o seguiu até o Hall.
— E o que ele é, William?
Will se virou para Charles, correndo seu olhar para Silena na cozinha e as duas crianças escondidas atrás das pernas da mesa, assistindo à gritaria de seu pai.
—Alguém por quem eu abandonaria tudo. — respondeu solene, um sorriso gentil no rosto: — Eu não tinha uma resposta totalmente definida quando vim. Ainda estava angustiado, em dúvida. Obrigado por me ajudar a decidir.
— Will, o que você decidiu? — Silena questionou, seus olhos aquosos e angustiados. Will quis ir até ela, mas não queria ficar um minuto a mais naquela casa, na presença da raiva de seu amigo direcionada para ele.
— Que nada me prende à Ravenna. — admitiu virando seu olhar para o amigo: — Não mais.
Com uma tristeza dolorosa, William abandonou a casa dos Benkendorf, caminhando a passos rápidos em direção à sua casa. Ele sabia que Charles não o apoiaria, mas ele precisava ver aquilo, ouvir das últimas pessoas em sua vida que poderiam ter segurado Will no continente.
O peso em seu peito diminuiu ao se aproximar de sua casa, uma leveza diferente embalando seu coração aflito e frenético, tirando dele a amargura de seus amigos ao avistar Nico subindo a rua em direção a sua casa. Will acelerou o passo, acenando para o amante.
Nico parou na frente da porta, observando a forma do doutor. Um sorriso estampou seu rosto bronzeado, estonteante e belo. Will corou levemente, pegando a chave de sua casa e abrindo a porta.
Entraram juntos, retirando os paletós e os deixando no cabideiro.
— Não achei que fossemos chegar juntos. — zombou Nico divertido, retirando as luvas despretensiosamente.
Will sorriu amorosamente, se inclinando em sua direção, afagando seu rosto com o polegar. Nico fechou os olhos, a expressão suave e afável.
— Está com fome? — Will perguntou, atraindo a atenção de Nico para o estômago do pirata que reclamou alto, como se esperasse aquela pergunta.
Nico desviou o olhar, envergonhado, enquanto Will ria.
— Acho que isso é um sim. — Nico respondeu, encarando o doutor de soslaio, observando a risada de William se dissipar. Will estremeceu sob o olhar devoto do pirata, pigarreando.
— Eu comi um pouco na casa do Charles, mas não muito. Podemos fazer alguma coisa. — sugeriu puxando Nico pela mão em direção à cozinha.
— Não acho que sobrou muita coisa de ontem, mas podemos comer pão. — Nico foi até o armário, retirando dela os pães que havia comprado de manhã. Will concordou com a cabeça.
— Vinho? — sugeriu, o gosto do álcool ainda em seus lábios o fez ter vontade de compartilhar um pouco com o amante.
Nico concordou, intrigado.
— Alguma ocasião especial? — questionou o pirata enquanto arrumava a mesa com o pão e as geleias. Will colocou uma garrafa de vinho e as taças na mesa.
Will sentiu o rubor em seu rosto se espalhar por seu pescoço gradualmente enquanto a resposta se formava em sua cabeça. Desviou o olhar de Nico para a barra de seu colete, falsamente entretido.
— Eu tomei um pouco com a Silena e o Charles, e quis experimentar com você. Parece algo especial… — comentou envergonhado, mantendo a distância de Nico.
Ouviu o pirata rir baixo, seus passos leves enquanto andava pela cozinha; o barulho da rolha estourando ao seu lado o assustou. Will pulou no lugar, observando Nico encher uma das taças com o vinho tinto até mais da metade.
Nico manteve contato visual com William, tomando do vinho vagarosamente. Will engoliu em seco, observando o leve tombar de sua cabeça enquanto ingeria o álcool, seus olhos semicerrados presos aos seus.
Nico passou a língua pelos lábios úmidos, oferecendo a taça para o doutor. Will encarou o objeto sem entender.
— Não precisa me oferecer a sua, posso pegar a outra.
Nico negou: — Pra que precisamos sujar duas taças? — inquiriu em baixo tom, o rouco de sua voz estremecendo sua pele.
Will pegou a taça, tomando vinho no mesmo lugar onde Nico havia bebido antes. Sentiu seu rosto arder junto do vinho em sua garganta. Tapou a boca com as costas da mão, constrangido.
Nico riu, colocando um de seus cachos atrás de sua orelha, acariciando com a ponta dos dedos. Will estremeceu, observando o pirata com curiosidade. Nico retirou a taça de sua mão, tomando um gole generoso antes de colocá-la na mesa ao lado deles.
Segurou o rosto de Will entre suas mãos, acariciando a pele com ternura. Will envolveu sua cintura, puxando-o para perto, sentindo a respiração quente contra seu rosto; o aroma do vinho se misturando entre eles.
— Tudo que fizermos juntos será especial, Will. Tudo que você faz fica gravado na minha memória, no meu coração. — sussurrou Nico contra seus lábios, depositando um beijo no canto de sua boca. Will suspirou: — O que você quiser é só me dizer, que eu farei como seu mais devoto servo.
Will arfou beijando-o afoito, envolvendo-o em seus braços o mais próximo que podia. Nico ofegou contra seus lábios, emaranhando seus dedos nos cachos de Will agora soltos e bagunçados.
O gosto do vinho consumia seu paladar, seus sentidos anuviados no sabor doce dos lábios do pirata, dos músculos rígidos contra seu corpo, as mãos gentis em seu cabelo. Seu coração perdeu o compasso quando Nico aprofundou o beijo, sorvendo do vinho em sua boca, arrancando um suspiro longo de William; estremecendo suas pernas; arrepiando sua pele.
Will desceu as mãos pela cintura de Nico, erguendo-o na mesa, inclinando-se sobre a forma esguia do pirata, se deixando ser consumido pelo ardor em seu peito, os toques de Nico em seu pescoço, suas pernas envolvendo a cintura de William, mantendo-o por cima dele. Nico mordeu seu lábio inferior gentilmente, separando-se de William por alguns instantes.
O doutor estava ofegante, seus olhos presos na feição lasciva do amante, nas pupilas dilatadas, nos lábios avermelhados e entreabertos num sorriso divertido. Passou a ponta de sua língua vagarosamente pelos lábios sensíveis, tirando um suspirar de William.
— Will… — Nico chamou baixo, fazendo contato visual com o doutor: — Posso te tocar?
Um arrepio desceu por sua coluna, arrepiando cada um de seus pêlos pelo caminho. Will soltou sua respiração devagar, um sentimento ardente em sua pele o consumindo aos poucos.
— Sim… — concedeu o doutor, voltando a tomar seus lábios desejosamente.
Sentiu as mãos do pirata abrirem seu colete, adentrando por baixo da camisa branca. Will estremeceu com o contato com sua pele, arfando baixo, entorpecido. Nico sorriu contra seus lábios controlando o beijo, traçando a ponta de seus dedos pela pele lisa de William.
Will segurou seu rosto, gemendo baixo ao sentir o toque de Nico em suas costas, traçando linhas imaginárias.
A porta da frente bateu com força fazendo ambos pararem com o ato, atentos. Nico olhou por cima do ombro de William, o olhar severo e preocupado. Will se afastou do pirata, caminhando até a porta.
Não havia nada no Hall, nem uma única pessoa. Will ouviu com atenção, mas só escutava o silêncio da casa e o barulho abafado da cidade do lado de fora. Caminhou até a porta da frente, abrindo uma pequena fresta.
— Oh, está aberta. — comentou baixo, fechando e trancando novamente. Talvez o vento tenha fechado ela já que esqueceram de trancar.
Will deu de ombros voltando para a cozinha. Nico o encarava da mesa, sua mão no cabo de sua adaga, o olhar severo e atento.
— Não é nada, não se preocupe. — garantiu William, ajeitando seus cachos atrás da orelha.
— Certo… — Nico comentou devagar, como se duvidasse disso, devolvendo a arma para seu lugar. Esticou a mão para William, convidativo: — O que acha de continuarmos lá em cima?
O doutor sorriu timidamente, concordando com a cabeça. Nico sorriu largo, pegando a garrafa de vinho em uma mão, a mão de Will na outra e os guiando até o andar de cima.
Will sentia como se suas frustrações do dia tivessem sido apagadas pela simples presença de Nico e seus sorrisos ordinários por cima do ombro enquanto entravam em seu quarto.
Seu peito se libertou da pequena indecisão, se permitindo deitar de costas na cama, abraçando a devoção do pirata sobre ele, cada pequeno toque e sussurro destruindo elos de uma corrente antiga e corroída.
Aceitando a verdade absoluta que havia depositado em seu peito da forma mais sincera possível.
De que amava Nicollà di Angelo do fundo de seu coração.
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