Pit-a-Pat
51 Capítulo XLIX
Notas iniciais

Nico
~Capítulo XLIX~
:: 97º dia na Itália — Semana 13 ::
[...]
Os dias passavam mais rápido do que Nico podia acompanhar.
Não recebeu nenhuma mensagem de Giovanni após sua visita conturbada há dois dias, o mantendo no escuro até que completasse o último serviço que lhe pediu. Esperava poder ter um retorno do Capitão no final da semana, mas se manteria em silêncio, no aguardo pelos próximos dias.
Depois do que aconteceu na prisão, talvez devesse manter uma certa distância do Capitão da marinha por um tempo.
Enquanto isso, aproveitava o pouco tempo que ainda tinha com William. Não teve coragem de perguntar uma segunda vez se havia a mínima possibilidade dele abandonar Ravenna e ir para o Caribe com Nico. Queria evitar pressioná-lo, de tornar a decisão uma obrigação e não uma escolha.
Por isso, decidiu que manteria suas dúvidas para si, aproveitando dos momentos caseiros com Will o máximo que seu egoísmo permitisse. Assim, acompanhava William em todas as suas consultas diárias, ajudando com as crianças quando necessário e intimidando adultos secretamente por trás das cenas.
Will nunca perceberia.
Enquanto brincava com uma das crianças da consulta — que estranhamente se tornaram três em questão de minutos —, William explicava para a mãe sobre as ervas que deveriam passar na pele da criança.
Nico havia observado de perto a vermelhidão no corpo do pequeno. Não era nada parecido com o surto de catapora que as crianças pareciam ter desenvolvido nos últimos dias, mas algo grosseiro, como se tivesse rolado na grama o dia inteiro.
Pelo olhar travesso do menino correndo em volta de suas pernas, Nico diria que era uma opção válida. Enquanto terminava a última dobradura de papel e entregava para a menininha ao seu lado, observou com mais atenção a postura rígida do doutor ao lado das mães reunidas, entre risadas e conversas sigilosas.
Qualquer que fosse o assunto, William parecia incomodado de estar próximo a elas, ouvindo de suas conversas privadas. Nico afagou o cabelo do menino se erguendo da cadeira. Ao se aproximar das senhoras o assunto se encerrou de forma abrupta, causando olhares compartilhados entre elas; em conversas silenciosas que só as mulheres sabem como compreender.
Abriu um sorriso gentil:
— Senhoras. — as cumprimentou, seguindo caminho até William que fechava o último dos pacotes de ervas: — Terminou?
Will concordou com a cabeça.
— Terminamos. — corrigiu o doutor, um sorriso gentil em seu rosto: — Podemos ir.
Ao entregar os últimos pacotes para a mãe do menino, se despediram das senhoras e das crianças que balançavam os origamis em suas mãozinhas pequenas, criando brincadeiras e vozes para os pequenos animais de papel em suas mãos.
Seguiram caminho para casa, o sol alto no céu lhe informando as horas religiosamente. Ergueu o olhar, tapando os raios de sol com a mão.
— É quase meio-dia, quer passar para comprar alguma coisa na feira? — sugeriu Nico, empurrando William levemente para o lado enquanto uma carroça fazia seu caminho na direção oposta à deles.
O doutor concordou.
— Ou poderíamos comer no restaurante do senhor Giuseppe. As massas que ele prepara são maravilhosas. — comentou distante, o olhar distraído enquanto ajeitava a manga de seu paletó.
Nico balançou a cabeça, entrelaçando os dedos atrás do corpo. Empurrou Will pelo ombro, de leve, chamando sua atenção. O doutor franziu a testa, inquisitivo.
— Qual o motivo do mau humor?
— Nenhum.
— Hm — Nico continuou olhando para frente, mas sentia o olhar do amante sobre ele: — As senhoras disseram alguma coisa que te incomodou?
Will suspirou, soltando as mangas do paletó.
— O mesmo que sempre escuto desde que você me acompanhou pela primeira vez nas consultas. Só me incomoda mais agora que estamos juntos — respondeu simplesmente, não disfarçando a acidez em sua voz.
Nico parou de andar, encarando o amante com espanto. Um sorriso crescendo gradualmente em seu rosto.
— Você está com ciúmes? — ele poderia ter perguntado sem todo o entusiasmo que demonstrou, mas ter o William enciumado por ele era bom demais para não se aproveitar da situação.
O rosto do doutor ganhou tons leves de vermelho enquanto desviava o olhar para a rua, sem responder a pergunta. Nico solta uma pequena risada, um calor se espalhando por seu peito descompassado.
Segurou seu braço ao entrarem na feira, um sentimento leve ao guiar seus passos por entre as pessoas. Se virou para William, observando o mesmo sorriso no rosto do doutor.
— Não sabia que isso era algo recorrente. — comentou com curiosidade, tentando manter o assunto enquanto o arrastava pela viela movimentada.
— Você virou assunto depois que começou a sair de casa. — respondeu envergonhado, acompanhando as passadas largas do amante com um pouco de dificuldade: — Você chama a atenção. Se ficasse por aqui permanentemente, receberia convites para conhecer as damas solteiras do bairro.
Nico gargalhou alto, despudorado.
— Aparentemente, ninguém sabe para onde vou ou o que faço quando saio de casa — zombou divertido, se virando de frente para William ao entrarem em uma viela vazia e longe de olhares curiosos. Envolveu o pescoço do amante com ambos os braços, pendendo a cabeça para trás, levemente: — Não tenha ciúmes. Não tenho interesse em ninguém desde que te conheci e não é agora que irei começar.
Will suavizou o olhar, envolvendo sua cintura.
— Eu sei. Só me irrita, mas vou ter que me acostumar.
O sorriso do pirata esmoreceu aos poucos, umedecendo os lábios repentinamente secos. Se afastou do doutor, apontando com a cabeça para o outro lado da viela vazia.
— Acho que eu nos trouxe certo. —comentou ao ler o nome do dono no letreiro do restaurante.
Will concordou com a cabeça, o guiando até a entrada decorada de flores e mesinhas de madeira; toalhas alabastrinas e vasos coloridos entre tulipas e petúnias dando vida à fachada calorosa. Como William conhecia o dono e tinha cuidado do tratamento de sua neta algumas semanas atrás, tiveram o prato principal por conta da casa.
Pelo que Will lhe contou quando sentaram à mesa, esse tipo de tratamento era bem comum. Raras eram as vezes em que precisava pagar por algum serviço na cidade, fosse um almoço num restaurante ou um pedido numa relojoaria. Uma das pequenas vantagens de ser médico numa cidade pequena onde nem todos têm acesso ao dinheiro bruto. A troca de favores era um pagamento mais do que justo.
Aproveitaram a tarde tranquila para conversarem um pouco. Nico não podia compartilhar suas histórias pessoais com tantas pessoas que poderiam ouvir, mas se dispôs a escutar histórias do William criança, das brincadeiras que Austin inventava quando tinha tempo livre dos estudos.
Contou das noites em que dormia na sua cama de Austin em dias de chuva; comentou sobre a marca de poseidon na parede de seu quarto, a história fantasiosa que Austin lhe contou aquele dia, lhe entregando uma cópia de The New Atlantis para que pudesse compreender melhor a história do país perdido e da fúria dos deuses.
William só leu o livro bem mais velho, muito depois de Austin ter trocado Ravenna pelos mares caribenhos. Ainda dizia não compreender o fascínio do irmão pelos deuses gregos, mas começou a compreender um pouco o fascínio dele pelo mar quando conheceu Nico.
William abaixou o olhar ao admitir ter visto a saudade no rosto de Nico quando visitaram a praia, a forma como ansiava pelo oceano tão vasto e livre. Nico se sentiu levemente envergonhado de ter se exposto desta forma, mas apreciou a atenção cuidadosa de William ao reparar em pequenos detalhes que nem mesmo Nico conhecia.
Um sentimento de pertencimento invadia seu peito a cada pequeno detalhe de Nico que William percebia, simples e singelo, como se fossem óbvios e claros. Nico sabia que não eram. Nada em Nico era óbvio, e mesmo assim o doutor o lia como um livro aberto; um mistério à muito desvendado por ele.
O pirata ouvia suas histórias com atenção devota, apoiado nos cotovelos ao terminarem o macarrão, apreciando os gestos das mãos do doutor ao contá-las. Fechou os olhos, absorvendo sua voz doce do outro lado da mesa, imerso em uma tranquilidade infinita.
Mesmo com o ar pacífico do dia, precisaram deixar o restaurante às pressas com a notícia de que uma das pacientes de William, a mesma que estava tendo convulsões há um mês, havia vomitado sangue.
Will o dispensou dessa visita ao retirar sua máscara médica da mala e prendê-la no pescoço. Nico ficou tenso, observando o bico de pássaro curvado, pendurado em seu pescoço.
— Você não precisa vestir mais roupas? — inquiriu, preocupado. Will negou.
— Ela não está com a peste. Foi a primeira coisa que eu descartei. — garantiu Will, uma mão gentil em seu ombro: — Mas acredito que seja tuberculose.
Nico anuiu. Se lembrava vagamente do doutor comentando de algum paciente com tuberculose antes de partir, mas não tinha certeza.
— Tudo bem, mas tome cuidado. — pediu severamente, segurando seu braço num aperto firme. Will retribuiu o gesto, acariciando seu pescoço com o polegar.
— Irei tomar.
Se despediram na frente de casa. Nico ficou observando o doutor desaparecendo pelas ruas com algumas pessoas ao redor, uma multidão de curiosos e familiares. Suspirou pesado, a cabeça latejando.
Claro que iria se preocupar, não tinha como não o fazer.
Se jogou no sofá do hall, observando o teto. O lustre pendurado lançava luzes e sombras pelo sol que entrava das janelas externas, criando desenhos nas ripas de madeira gastas pela maresia. Fechou os olhos, escondendo-os sob a dobra do braço enquanto ouvia o tic-tac do relógio ao fundo.
Sem o Will por perto não tinha bem uma rotina a seguir. Não precisava manter as visitas ao bar clandestino, ou ir atrás de informações com Francis. Partiria dali alguns dias, não havia necessidade para buscar informações quando sua primeira parada seria em Siracusa.
Sem suas saídas elucidativas, a casa se tornava assombrosamente mais silenciosa. A presença de William havia se tornado intrínseca em sua vida, tão essencial que um simples momento sem ele o deixava à deriva.
Pensou em dormir um pouco, mas a preocupação com o Will era genuína e não conseguiria cochilar enquanto não retornasse.
Estalou a língua, irritado. Era acostumado a passar suas tardes sozinho no Caronte, sem nunca se sentir verdadeiramente sozinho. Gostava de estar em sua própria companhia; ironicamente a única pessoa em quem se pode confiar totalmente no mar. Sentou no sofá, olhando ao redor da casa. Um suspiro escapou de seus lábios ao se levantar do móvel.
Subiu as escadas até seu quarto, atrás de um dos livros que havia empilhado aos pés da cama. Se agachou em frente a pilha, pegando o primeiro título que achou meramente interessante. Folheou as páginas amareladas antes de se erguer outra vez, correndo os olhos pelas palavras gastas.
Saiu do quarto na intenção de descer e terminar a leitura no Hall, mas ao passar na frente do banheiro precisou parar e observá-lo. Não havia nada de extraordinário no cômodo em si, mas uma promessa antiga lhe veio à mente, desfocando-o de sua tarefa principal.
Sorriu, resignado.
— O Will pode gostar de um banheiro funcional quando eu for embora. — comentou baixo, num sussurro ao tentar enganar a pequena dúvida em seu peito.
Deu as costas ao cômodo, decidido.
Iria arrumar o fogão a lenha do banheiro.
☠
Talvez tenha subestimado um pouco seus conhecimentos mundanos.
Nico estava acostumado a trabalhos manuais da época em que viveu na Holanda, antes de entrar para a tripulação do navio mercante — por mais que, no final, não fosse de fato mercante. Precisou resgatar conhecimentos de anos para empregá-los no forno à sua frente.
As mangas estavam dobradas até o cotovelo, as mãos sujas de pó e terra pelo serviço manual. Os joelhos estavam apoiados no chão, os tijolos empilhados para que começasse a montá-lo apropriadamente. Se demorou um pouco ao montar a estrutura, assegurando que ficariam no lugar apropriado antes de fixá-las.
Se recordava dos serviços prestados nas casas próximas ao convento. Serviços ofertados e sugeridos pelas próprias freiras num ato gentil ao ajudá-lo com suas dívidas. Foram diversos trabalhos, muitos feitos em nome do convento, outros por conta própria. Experiência adquirida aos poucos, no decorrer dos oito meses que passou na Holanda.
Ter aprendido cada um dos ofícios básicos da sociedade lhe serviu como alavanca ao ingressar na tripulação de Reyna, iniciando como um garoto faz tudo e terminando como Segundo Imediato.
Sorriu, nostálgico. Não foi uma das melhores épocas de sua vida, mas foi a tripulação que lhe deu a base sólida para ascender como um ceifador dos mares no ano que se seguiu.
Nunca mais precisou limpar um convés ou consertar assoalhos, mas o conhecimento permaneceu, sempre à espreita, com a ciência de que sempre há a possibilidade de regressão e queda.
Soube que havia se perdido em pensamentos e lembranças ao ouvir passos entrarem no banheiro, cautelosos, parando logo atrás dele. Não evitou de sorrir, virando o rosto para o amante que o observava de cima, os braços cruzados e uma expressão divertida no rosto. Uma pergunta não feita entre eles brilhava em seus olhos azuis.
— Estava entediado. — foi a resposta de Nico, sorrindo culposo.
— Eu notei. — William comentou, olhando ao redor com curiosidade: — Por que o forno?
— Porque carregar baldes d’água da cozinha até aqui em cima é o que nos desmotiva a tomar banho, William. — respondeu ironicamente, enfatizando com as mãos.
Will riu, se afastando de Nico ao sentar na penteadeira, observando-o enquanto Nico continuava a montar o restante do forno. A presença do doutor no ambiente incentivou seu foco, terminando a disposição dos tijolos em pouco tempo.
Ergueu-se devagar, esticando as pernas doloridas pela posição agachada por tempo demais. Estalou o pescoço, se virando para William que ainda o observava, seus olhos percorrendo a linha de seus braços descobertos.
Um repuxar de lábios astutos foi a única resposta de Nico ao olhar fixo de William enquanto caminhava até a bacia d’água lavar as mãos, devagar. Bem devagar. Respirou fundo, apreciando a atenção que estava recebendo. Iniciou uma conversa simples enquanto retirava o pó de seus braços.
— Como foi na consulta? — sua voz soou baixa e suave, quase imperceptível aos seus ouvidos se o ambiente não estivesse silencioso.
Will demorou um pouco para responder, mantendo o banheiro submerso no som da água e da respiração alta de Nico.
— Foi complicado — admitiu por fim, tomando para ele a total atenção de Nico que se virou, secando os braços com a toalha azul que Andrea deixava ao lado da bacia: — A senhorita com tuberculose não tem mais muito tempo. Mal lhe dou uma semana. Os sintomas agravaram.
Nico balançou a cabeça, deixando-o falar sem interrupções.
— Tuberculose é uma doença maldita, Nico. Não há nada que eu possa fazer, mesmo com anos de estudo. Não há relatos de tratamentos de nenhum tipo. — seu tom de voz era baixo ao constatar fatos imutáveis: — Tive que deixar a família com uma notícia trágica, infelizmente.
— Você não pode fazer nada, William. Como disse, é uma doença maldita. — replicou Nico, jogando a toalha na beirada da banheira. Will ficou de pé, se aproximando do pirata.
Nico se deixou ser puxado pelo doutor, envolto pela cintura. Descansou os braços nos ombros de Will, acariciando sua pele exposta pela gola dobrada. Will o beijou casto, um roçar de lábios sutil.
— Neste caso é de conhecimento geral, não serei culpado pelo que acontecer.
— Mesmo que não fosse. Você faz o que está ao seu alcance. Não pode salvar a todos. — a voz de Nico pairou entre eles, uma verdade dita diversas vezes na intenção de torná-la um versículo a ser seguido: — Foi em outra consulta? Você demorou um pouco.
Will anuiu:
— Um instrutor de dança se machucou e quebrou a perna. — respondeu, balançando a cabeça: — Vai levar meses para que possa voltar a dançar, o que é uma pena.
— Dependendo do ferimento nunca irá voltar. Eu sei o tipo de danças que ele ensina. Com ambas as pernas boas já é um desafio. — comentou sarcástico, recebendo um beliscão de Will em sua cintura.
— Não conheço das suas danças, mas vou acreditar.
— Oh! — Nico exclamou, um sorriso crescendo em seu rosto com a memória retornando: — Acabei de me lembrar do que me disse na praia, que você sabe dançar.
Will enrubesceu levemente, desviando o olhar, sem graça.
— Eu não sei dançar, sei mexer o corpo. É o máximo que eu consigo.
— Sabe mais que muitos — admitiu Nico descendo sua mão pela extensão do braço esquerdo de Will, correndo a ponta dos dedos com suavidade.
Will se arrepiou, tendo sua mão envolta pela palma fria de Nico. Ajustou a outra mão de William em sua cintura antes de apoiar a sua esquerda no ombro do doutor. Will o encarou, ansioso.
— Irei te ensinar.
Sem ter como rebatê-lo, William permitiu que Nico o guiasse pelo banheiro. Um passo para frente, outro para trás. Dois para a esquerda e dois para a direita. Nico riu pelo nervosismo do amante, que focava sua total atenção em seus pés com medo de machucá-lo.
Nico soltou seu ombro, tocando seu maxilar com a ponta dos dedos, erguendo seu rosto. Encarou seus olhos azuis, as orbes claras e calmantes o embalando na dança suave e doce. Sorriu para William, acariciando sua pele áspera pela barba por fazer; seu lábio farto em seu polegar.
Will suspirou, fechando os olhos, afetuoso. Nico os guiou devagar, numa dança agradável e gentil. Apoiou o rosto em seu ombro, soltando sua mão, envolvendo seu pescoço com ambos os braços. O doutor o abraçou pela cintura, mantendo seus corpos em um movimento pêndulo.
O pirata sentiu a respiração de William em sua pele, arrepiando-se pela antecipação dos lábios quentes e curiosos do doutor. Suspirou, lhe dando mais espaço para suas explorações, puxando seus cachos loiros entre seus dedos.
Dentes roçaram sua pele, enviando arrepios por seu corpo em espasmos; a mordida em seu pescoço fez Nico arquejar nos sentimentos formigantes e desejosos. William aprendia rápido, recordando-se das ações de Nico como um estudioso devoto.
A mão do doutor espalmou em sua lombar, traçando linhas em sua pele por baixo do tecido branco. A curiosidade e o receio compartilhavam os mesmos gestos sutis e febris; o desejo e a hesitação.
Nico sorriu contra sua pele, fechando seus olhos para o carinho que recebia. William ainda se sentia tímido, mesmo após a intimidade que compartilharam nos últimos dias. Era adorável. O tornava tão gentil e devoto em cada pequeno ato que aprendia e replicava.
Seria lento, mas Nico não se importava de ser o guia de toques e prazeres.
Não havia nenhum sacrifício em ser amado aos poucos.
Nenhum anseio por aquilo que já lhe pertencia em carne e alma.
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Uma das situações mais perigosas no oceano é a quietude. Sem animais, sem vento, sem um singelo mover das velhas gastas e negras. À deriva no meio do oceano, a pele queimada, a garganta ressequida, o navio imóvel.
Sem vento, não há como navegar. Não há fuga da morte que sussurra em seus ouvidos e lhes afaga a pele. Não há esperança de sobrevivência num trecho d’água abandonado por Poseidon e atormentado por Apolo.
Duas foram as vezes em que Nico se deparou com uma situação como aquela. Em ambas as vezes, perdeu tripulantes e mantimentos pela letargia do mar.
Em ambas as vezes, foi confrontado pela quase morte por sua ignorância, por não saber ler o ambiente e enxergar além da água e das nuvens no céu azul.; não ler os sinais que os deuses lhes enviaram dias antes, às vezes semanas, de que os ventos seguiriam uma rota oposta à deles.
Conhecia os perigos do silêncio, e mesmo assim se deixou ser pego na armadilha da natureza pela terceira vez. Deveria ter aprendido, erguido suas barreiras outra vez. Nunca poderia ter se acomodado demais.
A morte não descansa na busca por seus amantes mais devotos.
William estava ao seu lado, comprando legumes para o almoço. Era meio-dia, o sol escaldante da Itália devorando sua pele impiedosamente. O vento parou, os sons ao redor diminuíram e Nico sentiu o arrepio fantasma na base de sua coluna subir até os ombros, irradiando para seus músculos agora tensionados.
Era uma premonição, um sentimento ruim que jamais deveria ser ignorado.
Estava sendo observado.
Olhou ao redor, prestando atenção nos sussurros, nos olhares atravessados das pessoas na feira. Havia dúvidas e incertezas entre os rostos aquilinos; entre a dúvida havia a curiosidade, os gestos de cabeça em sua direção e dedos apontando.
Há outros, entretanto, que vestem em suas expressões o torcer de lábios asquerosos de quem odeia e abomina; uma amostra de dentes e presas. Nico inflou o peito, esticando o braço para puxar William para perto.
Algo estava errado.
Alguém passou bruscamente ao seu lado, trombando em seu ombro no processo. Nico não se moveu com o ataque proposital, fazendo contato visual com o dono de olhos negros e presas à mostra.
— Sai do caminho, sodomita.
Não, Nico estava enganado. O silêncio no mar não era perigoso.
Aquilo era.
Seu sangue congelou, deixando de correr por suas veias, agora ocas e vazias. Arfou pesado, seguindo a silhueta do homem ao desaparecer entre as pessoas na feira. Nico não perdeu nenhum segundo antes de agarrar William pelo braço e puxá-lo para longe dos olhares de nojo ao seu redor.
Nico os identificava agora. Era o mesmo olhar que recebeu em toda sua vida quando mais novo. De empregados mais velhos, de nobres curiosos; de seu pai.
A raiva fervia ao seu redor, como o vesúvio dando seu alerta piedoso, anunciando sua explosão antes de atingir Pompéia.
Pelos deuses, Nico não estava preparado para aquilo.
— Nico?! O que foi?
William tentou perguntar entre ofegos pela pequena corrida, mas Nico não diminuiu o passo, sequer respondeu a sua pergunta. Como poderia respondê-la?
Entraram na casa apressados, com Nico trancando a porta ao escorar seu corpo contra ela. Escondeu o rosto em suas palmas frias e úmidas. Se sentiu tremer, num pânico que nunca pensou que viveria antes. Já sentia o sabor ferroso em seus lábios, o aperto da corda em seu pescoço ao parti-lo ruidosamente.
Já conseguia imaginar a dor visceral de ver William ao seu lado no cadafalso.
Will o segurou pelos ombros, firme, o forçando a encará-lo. Seus olhos emanavam preocupação e medo. Não pelo que acontecia do lado de fora, Nico sabia que ele não havia percebido, mas sim pelo tremor de Nico sempre tão seguro de si.
— Nico, o que aconteceu? Me conte, viu alguma coisa? — questionou preocupado, subindo suas mãos até seu pescoço, acariciando devagar. Nico soltou o ar, negando.
— Preciso sair. — anunciou, afastando William: — Eu volto logo, não abra essa porta para ninguém, William. Ninguém, mesmo que seja uma criança com o braço decepado. Não me interessa! Fique com ela fechada e trancada, por favor.
Will alargou os olhos, a boca ligeiramente aberta em uma surpresa quase cômica se não fossem as circunstâncias. Nada parecia verdadeiramente divertido naquele momento.
Nico avançou poucos passos, depositando um beijo em seus lábios antes de sair definitivamente, aguardando o som da tranca da porta antes de partir para as docas.
Não estava preocupado em chamar a atenção ao realocar sua arma para a cintura, deixando-a à mostra, nem mesmo se incomodou com a forma como algumas pessoas se afastaram dele ao passar apressado entre elas. Precisava de respostas, mesmo que conseguisse imaginar de onde aquele boato poderia ter surgido.
Aquele bater de portas dois dias antes não era coincidência. Alguém tinha visto os dois na cozinha, consumando um pecado nefasto aos olhos do divino que reina nas terras européias.
Caminhou de forma contínua até o bar, entrando ruidosamente pelo piso de madeira pegajoso e molhado.
Não perdeu tempo com os protestos ao seu redor ao agarrar Francis pela gola da camisa e arrastá-lo para fora, sequer hesitou em mostrar-lhes o cano da arma ao jogar o informante pela porta, a ameaça destravada sobre a pólvora seca e desejosa.
As passadas de Francis eram inconstantes ao ser empurrado no beco do bar, as costas colidindo contra a construção de madeira, a arma apontada entre seus olhos apavorados. Nico sequer precisou perguntar o porquê de estar ali. Nem uma única ameaça escapou de seus lábios para que Francis lhe contasse o que precisava saber.
— Você e o doutor foram entregues como sodomitas à igreja alguns dias atrás. — respondeu o homem, seus olhos presos no cano da pederneira: — Não sei o porquê, mas sei que vão chegar na sua casa ainda hoje. Fizeram um anúncio público de manhã. Serão executados no final do mês na praça central.
Nico travou a mandíbula, descendo a pistola para o chão entre seus pés, atirando sem desviar o olhar do informante. Francis pulou no lugar, um grito escapando de seus lábios sem cor. Voltou a pistola para cima, a fumaça subindo pelo cano ao puxar a trava outra vez. Nico já havia gasto a pólvora do disparo, mas pela expressão de Francis e a firmeza com a qual lhe apontava a pistola, o informante não conhecia o suficiente de armas para compreender seu blefe.
— Quem?
Francis ofegou, o pânico devorando suas sílabas fragmentadas e confusas.
— Charles Beckendorf. — o nome foi sussurrado, ambas palavras venenosas e pungentes ao deixarem seus lábios.
Nico puxou o ar com força, sua vista desfocada com a intensidade de sua ira. Uma risada gutural rasgou sua garganta, explodindo sardonicamente no beco silencioso e escuro.
Sempre soube que o Beckendorf não era um homem confiável. Seu segredo nunca esteve seguro nas mãos do ferreiro, tão acostumado a quebrar e destruir tudo ao seu alcance com martelos e uma fornalha ardente. Um homem de mente pequena, devoto aos princípios religiosos mais tolos, exibindo suas presas ao pequeno sinal de sacrilégio.
Charles Beckendorf não era confiável, mas Nico nunca imaginou que isso se aplicaria ao William. Imaginava que houvesse uma irmandade entre eles, um sentimento de apreço e carinho; um espaço preenchido por Charles quando Austin deixou Ravenna há tantos anos.
Ele entregou o amigo de infância, seu irmão, sem pensar duas vezes no que aconteceria com William no processo.
Ao se deitar numa cela suja e escura, esperando sua morte entre sangue e insanidade, rindo de seu próprio azar e penitência.
Se afastou de Francis, enchendo a pederneira com mais pólvora antes de dar as costas ao informante. Não sabia se iria precisar de outro tiro antes de chegar em casa.
— Levesque!
Nico parou de andar. Puxou a trava da pistola, atento.
— Vá embora, agora. Eles irão buscá-los a qualquer momento.
Sem lhe agradecer, o pirata deixou o beco em passadas rápidas e pesadas, desta vez usando das sombras que há muito o receberam como parte dos seus, mesclando-o entre o negro e o nada da escuridão fria das sombras.
Abaixou-se nas penumbras dos prédios, usando caminhos diferentes do usual, pulando o muro do quintal em um simples movimento. Abriu a porta da cozinha, devagar, atento aos sons do médico ou qualquer barulho suspeito no Hall.
Caminhou a passos silenciosos, observando William sentado no sofá, a cabeça entre ambas mãos, as pernas balançando pelo nervosismo que Nico lhe infligiu. Suspirou alto, assustando-o no silêncio taciturno do ambiente.
William ergueu a cabeça, indo até Nico no mesmo instante, o olhar preocupado. Nico teve seus braços tomados pelas mãos do doutor que percorria com o olhar todo seu corpo, analisando-o nervosamente.
— Onde esteve? O que aconteceu?
Com essa simples frase, o tom preocupado e gentil do doutor em cada palavra proferida, Nico saiu de seu torpor inicial, sentindo o peso da situação cair em seus ombros rijos. O tremor em seu corpo voltou, soltando a arma ruidosamente ao chão, as mãos bobas e sem forças.
Não sabia o que lhe dizer, o que prometer para que as coisas pudessem ser concertadas com suas influências e trapaças.
Não podia prometer nada.
Nico não era nada.
Uma risada nervosa escapou de seus lábios, angustiada. Sua incompetência gritando em sua mente caótica e desesperada. William o segurou firmemente, chamando seu nome outra vez, mas Nico se afundou naquele medo aterrorizante, ao estar de frente com uma situação irreversível, causada por ele mesmo e seu egoísmo desprezível.
Não tinham aonde ir, para onde fugir. Não deixariam a cidade, mesmo que tentassem escapar durante a noite. Estavam sendo vigiados. Nico soube disso em sua jornada até as docas. Também sabia que Francis sofreria as consequências por ter interagido com Nico, mas importava-se pouco com o que aconteceria com o informante.
Estavam encurralados na casa, e Nico não conseguia pensar.
— Nico, por favor, o que houve? — William implorou, sua voz embargou enquanto Nico tremia em seus braços.
Nico negou com a cabeça, arfando:
— Sabem sobre nós. — respondeu baixo, deixando que o doutor absorvesse as palavras aos poucos, que sentisse o peso e o veneno nelas.
Que se contaminasse com a verdade.
Sentiu o aperto de William intensificar em seus braços, a compreensão se alastrando por seu rosto. O doutor respirou fundo, puxando Nico para o sofá, segurando suas mãos, apertadas.
William abriu a boca e a fechou diversas vezes antes de realmente conseguir falar algo, tão perdido quanto Nico se sentia.
— E agora…? — sua pergunta saiu baixa, assustada, num fio de voz que rasgou o peito de Nico em dois.
O pirata ansiava por respostas para que pudesse acalmá-lo, confortá-lo com palavras dóceis e gentis. Contudo, não haveria verdade nelas, e já bastavam de mentiras entre os dois. Nico negou com a cabeça outra vez.
— Eu não sei — admitiu, encarando as mãos de Will sobre as suas. Sentia o leve tremor do doutor sobre sua palma fria: — Nos viram juntos, provavelmente no dia em que ouvimos a porta bater. Tinha alguém. Só decidimos ignorá-lo. Foi um erro.
Will puxou o ar com força, desviando o olhar do pirata. Nico se sentiu aliviado por não ser mais alvo de seu olhar perdido. A situação toda lhe caiu pesada, uma realidade a qual poderia ter evitado se tivesse ido embora assim que teve a chance.
Não precisava ter libertado o Ducado do Castellan, sequer trazido Hazel da Holanda onde estava sendo bem cuidada; nada daquilo era uma necessidade. Ficar não deveria ter se tornado uma necessidade, e ainda assim arriscou a vida do doutor por alguns momentos de calmaria que nunca teve; uma felicidade que lhe foi negada em seu nascimento.
William deveria odiá-lo, mas era bom demais para sentimentos tão viscerais.
— Me desculpe. — não conseguiu dizer nada além dessas duas palavras, nenhuma outra forma de colocar para fora o peso que corroia seu peito: — Isso é minha culpa, sinto muito, William.
O doutor voltou a encará-lo, um misto de choque e confusão em seu rosto abatido.
— Como seria sua culpa?
A sombra de um sorriso se formou nos lábios de Nico.
— Por ter insistido tanto, por ter te colocado em uma situação como essa. — respondeu, soltando suas mãos reflexivamente: — Por te privar de uma vida normal, por te forçar a isso, quando eu poderia ter ido embora sem destruir sua vida no processo. Nunca quis te forçar a escolher, mas agora que escolha você tem?
O silêncio no Hall o sufocava. O som do relógio ao fundo eclodia pesado no ambiente, o pêndulo contando os segundos submerso naquele ambiente, calculando quantos segundos mais seriam necessários para se afogar.
William puxou Nico pela lapela do paletó, ambas mãos deformando o tecido em seu aperto. Nico arregalou os olhos, surpreso com a violência de William; com o olhar raivoso que nunca viu antes em seu rosto.
Mesmo quando mentiu sobre quem era meses atrás, quando viu a decepção em seu rosto, não havia tanta ira; tanta raiva. Se sentiu estremecer ao ser alvo daqueles olhos azuis repentinamente ferozes.
— Não se atreva, Nicollá! — bradou William, o tom baixo e imperativo: — Não se atreva a dizer isso, não agora! Não depois de tudo que passamos! Não pense por um segundo que irei aceitar isso!
Nico ficou em silêncio, ouvindo a explosão do doutor ganhando forças e vogais. William respirou fundo, seus olhos cravados no pirata.
— Eu já tinha tomado minha decisão no instante em que me disse que iria para o Caribe — confessou duramente, o aperto na lapela intensificando: — Sabe como era minha vida no passado, antes de você aparecer? Eu tinha uma rotina, todos os dias, semanas e meses do ano. Consultas, refeições que eu perdia, visitas ao Charles e a Silena, adormecer lendo algum livro para continuar a mesma rotina no dia seguinte. Era agonizante.
Will mordeu o lábio inferior, abaixando um pouco o rosto. As mechas loiras escapando do laço, criando sombras em seu rosto retorcido em uma angústia diferente. Nico segurou seus pulsos, seu peito pulsando descontroladamente, uma preocupação diferente.
Parecia uma conversa que William ansiava em ter, algo que ensaiou por dias. Talvez por anos. O doutor voltou a falar:
— Eu sempre desejei encontrar alguém com quem pudesse me confidenciar. Uma pessoa que ouviria meus problemas, me ajudaria a solucioná-los quando necessário. — o tom altivo diminuiu aos poucos, se tornando um mero sussurro: — Charles me ouvia, era meu irmão, mas eu lhe contava apenas trivialidades. Nunca lhe contei sobre mim. Meus pensamentos, minha solidão… Nada.
Will soltou uma risada dolorida, quase ofendida. Afrouxou suas mãos na lapela de Nico, mas o pirata segurou seus pulsos com firmeza, a garganta seca e contraída.
— Com você? Ah, Nico, você trouxe vida pra mim. Sempre sonhei em alguém com quem pudesse tomar chá nas manhãs, conversar trivialidades, caminhar comigo na praia. — outra risada, úmida, embebida de sentimentos até então fechados e lacrados: — Minha vida ganhou cores desde que você chegou. Eu passei a viver a partir do instante em que apareceu em minha vida e não me arrependo, Nico. Jamais.
William chorava. As lágrimas riscavam sua pele, livres da prisão daquela verdade que escondeu por tanto tempo. Nico arfou, abaixando as mãos do doutor para seu colo, acariciou seu rosto com sua esquerda, limpando as lágrimas teimosas. Seus olhos ardiam, no prelúdio de lágrimas que sabia que não conseguiria segurar por mais tempo.
O doutor deitou o rosto em sua palma, fechando os olhos para o toque, depositando um beijo úmido em sua pele. Nico respirou fundo, a adoração em seu rosto o destruiu.
— Eu irei com você, mas não por terem nos descoberto, mas porque eu irei me arrepender se não for. Porque eu sei que não é um sentimento momentâneo. Se eu não for, irei perder a única constante que desejo na minha vida. Irei perder a única pessoa que me salvou da vala que eu mesmo havia cavado para mim — Will confidenciou, retirando a mão de Nico de seu rosto, colocando-a em seu peito, as batidas tão descompassadas quanto as de Nico.
— Eu amo você. Por Deus, eu amo tanto que sinto ter perdido uma parte de mim ao me doar com tanta devoção.
Nico arfou. O choque de suas palavras lhe tomou o ar. William sorria, um sorriso fraco, mas sincero, carregando com ele toda a adoração que demonstrava nos olhares mais gentis e suaves.
Qualquer esforço que fazia até aquele instante foi perdido. As lágrimas desceram por seu rosto, traçando cicatrizes e marcas de sol, percorrendo caminhos outrora cheios de dor e traições. Nunca antes se sentiu vivo e bem ao derramar lágrimas tão cálidas.
Não sabia que chorar podia ser algo tão confortável e suave.
William riu, segurando o rosto do pirata em ambas as mãos, afagando-o com gentileza.
— Não diga que se arrepende, não quando a escolha também foi minha. Não se arrependa do que somos, de mim. Por favor…
Nico o puxou para um abraço, envolvendo-o firmemente em seus braços. Will suspirou, se afundando no pirata. Nico escondeu seu rosto no ombro de Will, deixando as lágrimas levarem embora o desespero que sentia até pouco tempo, permitindo um sorriso eclodir de seu rosto, o mais sincero que já conseguiu expor.
Se surpreendia com a forma como William sempre extraia tudo que havia de mais genuíno em sua vida; mesmo quando Nico não conseguia ver nenhuma sinceridade em seus próprios atos. Afastou William o suficiente para encará-lo nos olhos, observando a feição aberta de seu amante. Nico acariciou seu rosto.
— Não me arrependo de ter te escolhido, não foi isso que eu disse. — Nico garantiu, descendo o polegar de sua têmpora até seus lábios: — Como eu poderia me arrepender de te amar, William?
O doutor riu, nenhum rastro de raiva ou tristeza em sua expressão tão aberta. Will o beijou, envolvendo-o com seus braços. Nico o puxou pela cintura, devolvendo o ímpeto de William no beijo suave e cheio de nuances. Um toque de lábios entre sorrisos que Nico se viu submerso.
No final das coisas, aprendeu a respirar embaixo d’água ao invés de se afogar.
Nico se permitiu alguns momentos na bolha singular que haviam criado antes de precisar retorná-los à cruel realidade.
Will encarava o tapete com a informação sobre Charles, a traição de um amigo-irmão que não hesitou um momento sequer antes de entregá-lo às autoridades. Will escondeu o rosto em suas mãos, lidando com mais uma verdade cruel. Nico acariciou suas costas, compreensivo.
— Não sei o que sentir — admitiu, erguendo o rosto de suas palmas: — Não é uma surpresa, mas me sinto traído da mesma forma.
— E está certo em se sentir assim — Nico suspirou, encarando o relógio no fundo do Hall. Ainda era cedo, um quarto de hora antes das duas. Daria tempo: — Precisamos ir.
Will se ergueu por completo, atento.
— Ir? Para onde?
— Ainda não sei, mas podemos descobrir enquanto fugimos. — Nico ficou de pé, estendendo a mão para Will.
Havia desistido rápido demais. Não era do seu feitio surtar daquela forma vergonhosa, desistir antes mesmo de tentar. Desta vez, não seria somente sua vida em jogo e precisava usar até o último de seus recursos para tirar William de Ravenna, ou melhor, da Itália.
— Eu sei que parece impossível, mas vou tirar a gente daqui, William. — Nico prometeu, com a convicção que lhe faltava antes.
Will concordou com a cabeça, a expressão temerosa.
— Vá organizar suas coisas. Só o essencial, não vamos poder carregar muito peso. Não sei o que vamos encontrar lá fora — Nico apertou sua mão, encorajador, antes de soltá-lo e seguir para o segundo andar.
Will foi para o escritório recolher seus itens importantes. Nico foi diretamente para seus pertences no baú do seu quarto. Retirou as roupas piratas que há muito tempo não usava. As colocou na cama, caminhando até o assoalho solto no canto do quarto, reavendo sua espada, coldre e o colar com a chave da caixa de tesouros.
Retirou o paletó, vestindo a camisa preta gasta e o sobretudo que há meses não vestia. O peso da roupa em seus ombros lhe deu o restante da coragem que precisava para escapar daquela situação. Não era o Rei Fantasma por pequenos feitos. Fugiu de monstros muito piores que a igreja e seus devotos.
Prendeu o coldre, guardou a pistola, a espada, vestiu seu chapéu e as botas, e seguiu para o quarto que compartilhava com William. Não haviam muitas coisas para guardar. Algumas mudas de roupas que trouxe do Ducado, dinheiro, jóias para trocas futuras e alguns livros de sua coleção particular. Os colocou em uma bolsa que sua irmã havia dado de presente para ele.
William chegou no quarto com sua bolsa de trabalho, provavelmente com tudo de essencial que precisaria dentro dela. Parou no lugar ao encarar a vestimenta de Nico, do chapéu às botas, se demorando na espada em sua cintura. Nico sorriu, retirando o chapéu num cumprimento formal.
William rolou os olhos, um sorriso em seu rosto ao abrir seu armário, retirando uma bolsa de couro de dentro, a enchendo com as roupas que precisaria. Se desfez do paletó, mantendo sua camisa branca e o colete mostarda abotoados. Em pouco tempo, Nico fechou as cortinas da casa uma à uma, vedando qualquer contato com o exterior.
Desceram as escadas, deixando as malas no Hall enquanto Nico repetia o processo nas janelas da sala e cozinha, espantando curiosos que passavam em frente à casa. Não se importou com a vestimenta pirata reluzindo na luz do dia, já estariam longe quando as autoridades fossem acionadas.
— Tudo pronto? — Nico perguntou ao retornar para o Hall.
Will concordou com a cabeça enquanto prendia o cabelo em um rabo de cavalo, a fita azul pendente em seus lábios. Nico se aproximou para pegar as malas quando a porta da cozinha se abriu.
O doutor abaixou os braços, os cachos fartos despencaram sobre seus ombros rijos. Havia choque em seu olhar e um princípio de pânico em sua feição pálida. Nico se virou para a cozinha, desembainhando a espada silenciosamente.
Caminhou devagar, seguindo o assoalho de madeira, lâmina em riste. O sangue correu quente em suas veias, a adrenalina pulsante com a energia necessária para desferir o golpe na figura que emergiu da cozinha. Lâminas se chocaram ruidosamente, forçando Nico a investir uma segunda vez, afastando o intruso com um chute baixo o forçando contra a mesa.
Nico rosnou, descendo a espada na vertical, prensando a lâmina com força enquanto sua outra mão buscava a pistola no coldre.
— Sua Graça!
Nico parou, encarando a vestimenta da marinha encurralada na mesa de madeira maciça. Giovanni o encarava com severidade, a mandíbula travada junto de seu braço segurando a espada horizontalmente. O pirata apoiou o peso de seu corpo na lâmina, forçando Giovanni a se calar outra vez.
—Veio buscar minha cabeça, velho amigo?
Giovanni grunhiu, balançando a cabeça em negação. Nico olhou do Capitão para a porta fechada da cozinha, para o vazio silencioso que seguiu o Capitão até ali.
— Se eu fosse te prender, não viria sozinho.
Nico aliviou a pressão, se afastando de Giovanni uns bons passos. Olhou brevemente por cima do ombro. Will estava exatamente na mesma posição, observando a conversa entre eles. Voltou a encarar Giovanni, espada em riste. O corpo em posição defensiva.
O Capitão embainhou sua, ajeitando suas roupas amassadas. Observou as malas aos pés de William, assentindo.
— Bom, já estão prontos para partir.
Nico ergueu a espada em sua direção, desconfiado.
— Você sabe o que aconteceu, então me diga o que faz aqui? Por que entrou pela cozinha se não veio nos caçar?
Giovanni suspirou:
— Eu poderia ser um Rei, e mesmo assim seria condenado a forca se me envolvesse com sodomitas. — sua resposta saiu pesada, provocando um grunhido raivoso do pirata. Giovanni ergueu as mãos: — Não os considero desta forma, Vossa Graça, mas é como são vistos do lado de fora, e como eu seria julgado caso entrasse como convidado pela porta da frente. Esta farda de nada me serve. Não agora.
Nico respirou fundo, embainhando a espada. Conhecia o sentimento de invalidez, afinal. Giovanni cumprimentou William, num breve curvar.
— Um prazer revê-lo, doutor. Gostaria, porém, que fosse em melhores circunstâncias.
Will concordou, aliviando a tensão em seu corpo.
— Digo o mesmo, Capitão.
— Você ainda não me disse o que faz aqui, Giovanni. — Nico bradou, entrando na frente de Will, bloqueando a visão do Capitão.
— Que eu me recorde, Vossa Graça solicitou um navio há alguns dias. — respondeu sincero, um sorriso divertido em seu rosto. Nico franziu a testa, confuso.
— Faltam três dias para o final da semana.
— Bom, alguém me disse que uma semana era mais do que suficiente. — Giovanni retirou duas capas de sua bolsa lateral, jogando para Nico: — Vistam isso. Não podemos chamar atenção.
Nico olhou das roupas em suas mãos para o Capitão. Notou naquele instante a capa marrom cobrindo seus ombros, o capuz abaixado, quase escondido pelo cabelo solto do soldado. Nunca o viu com a aparência tão descuidada antes.
Soltou um longo suspiro, quase se arrependendo por aceitar a ajuda de Giovanni. Entregou a capa para Will, ajudando-o a prendê-la e erguendo o capuz. Seu cabelo ainda estava solto, descendo em cachos por seus ombros, escapando da capa. Nico ajeitou uma mecha de cabelo antes de se afastar e colocar a sua.
Jogou o capuz por cima do chapéu, pegando as malas do chão. Will as retirou de sua mão, negando com a cabeça, enfático.
— Se precisar se defender vai precisar das duas mãos. — garantiu William, colocando a bolsa médica no ombro pela alça transversalmente, erguendo ambas malas de couro, uma em cada mão.
Nico sorriu, concordando.
Seguiu Giovanni até o jardim dos Solace, observando o Capitão se esconder atrás do capuz.
— Tem certeza de que consegue nos tirar da cidade sem sermos vistos? — seu ceticismo era evidente em cada uma das sílabas ofensivas que proferiu. Não acreditava que Giovanni pudesse realmente fazer isso.
O Capitão sorriu.
— Eu não nasci em berço de ouro, Vossa Graça. Cresci nos becos de Ravenna. Conheço todos os lugares, passagens ou esconderijos. — respondeu, se virando para Nico. O sorriso esperto em seu rosto: — Por isso consegui encontrá-lo no bar nas docas meses atrás. Irei tirá-los daqui, é uma promessa.
Com a resposta dada, Giovanni os guiou pela cidade movimentada.
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Diferente do que Nico imaginava, não foi para as docas principais que Giovanni os guiou, mas sim para uma região isolada, com barcos ancorados que pareciam abandonados. Uma doca fantasma.
Encarou o arredor. Todos os galpões vazios, sem pessoas deitadas nas ruas ou becos. Era uma região completamente isolada, atiçando a curiosidade de Nico.
Ergueu o olhar para o céu tingido de laranja. Já era final de tarde, próximo das seis. Andaram por muito tempo, em vielas que sequer sabia da existência. Despistaram não só oficiais da igreja, como civis curiosos por todo o trajeto até o braço de mar.
Will ofegava atrás dele, deixando as malas caírem ao chão. Nico soltou uma risada contida, se aproximando do amante. Will retirou o capuz, respirando o ar puro da maresia. Seu rosto estava vermelho pelo cansaço, mas tinha um sorriso tranquilo no rosto. Aquele lugar lhe passava a mesma tranquilidade que Nico sentia.
Acariciou seu rosto antes de voltar a atenção para Giovanni que se mantinha prostrado de pé, ambos braços para trás, aguardando.
— Então, você me prometeu um navio. — comentou devagar, observando os navios antigos da marinha.
— Prometi, e cumpri minha palavra. — gesticulou para o único barco em bom estado, escondido entre dois mais antigos e gastos.
Era um navio escuro de velas brancas, dois mastros principais no centro, outros dois em cada extremo do navio, na popa e proa; a bandeira da Itália hasteada no alto se movia com o vento médio do entardecer. Nico encarou o navio por longos instantes, surpreso.
— É uma Caravela. — Will comentou ao seu lado, admirado.
— Uma Caravela? — Nico replicou para Giovanni.
Giovanni ergueu os ombros, modestamente.
— Vossa Graça é um nobre, mesmo que tenha renunciado ao título. — respondeu solene, gesticulando para o navio: — Merece o melhor que possa ofertar, e este é o melhor navio da marinha.
Nico arregalou os olhos, chocado. Aquilo teria consequências futuras. Nem todo dinheiro do mundo compraria um navio da marinha italiana. Nem mesmo o título de nobreza teria acesso ao arsenal dado pelo Imperador aos soldados do Império.
E, ainda assim, Giovanni lhe ofertava tudo que tinha sem sombra alguma de arrependimento. Nico relaxou, reconhecendo seu feito.
— Você faz com que eu me arrependa de quase matá-lo na cozinha. — um sorriso pintou seu rosto, encarando o navio mais uma vez antes de apoiar a mão na lombar de William: — Por que não entra e se acomoda?
O doutor o encarou por um momento, sorrindo ao compreender seu pedido. Ergueu as malas do chão e seguiu caminho até a prancha acoplada ao navio, o olhar apreensivo para a passagem perigosa. Nico sorriu, avançando na intenção de ajudá-lo.
— Doutor. — Giovanni o chamou, fazendo Will parar para encará-lo. Giovanni se curvou: — Sinto muito por não ter conseguido aplacar os boatos. Depois de todos os seus esforços pela comunidade, foi o maior dos desserviços prestados à uma figura médica. Espero que possa me perdoar.
Will o observou, um sorriso sincero em seu rosto ao rir. Sua risada ecoando pela doca, aquecendo o peito de Nico.
— Por favor, parem de me pedir desculpas. Vou começar a pensar que vocês armaram tudo isso. — William brincou, tentando soar relaxado, mas Nico sentia o medo em sua frase. Não de Giovanni, mas da situação num todo.
Pensar demais nisso o fez imaginar o que teria acontecido com Will se Nico tivesse ido embora mais cedo, sem ele. Se Will acabaria lidando com a ira da cidade mesmo que não estivesse por perto.
No final, eram todos ingratos e odiosos.
Assim que Will entrou no navio — com muita dificuldade, deveria ressaltar —, Nico se aproximou de Giovanni, o rosto severo.
— O que vai lhe custar tudo isso?
— Uma dívida paga, Vossa graça.
— Não me deve nada, Giovanni.
— Pelo contrário. — Giovanni comentou, respirando fundo: — Te devo minha vida, Vossa Graça. Por vossa benevolência pude ver minha filha crescer, cuidar da minha esposa doente e voltar a viver em Ravenna. Estou onde sempre sonhei, mas se não fosse por Vossa Graça, estaria compartilhando o túmulo de meus antepassados sob o solo italiano.
Nico anuiu. Se recordava do Capitão preso no Ducado, torturado pelo Duque insano e violento por perder Nico em Malta. Nunca aceitou isso. A violência e o descaso. Nico se recordava de Giovanni tentando salvá-lo, protegê-lo com sua vida e sendo ferido ao doar tudo que tinha para garantir que sobrevivesse.
Se tinha uma pessoa que devia a vida a alguém era Nico, e sua dívida estava mais do que paga. Ambas estavam.
Num último ato de gentileza, apoiou a mão em seu ombro, sorrindo sincero para seu antigo guardião.
— Seja qual for a dívida que tenha comigo, está paga. Completamente. Tanto a sua quanto a minha. — apertou o tecido de seu uniforme, feroz: — Viva, Giovanni. Desejei que vivesse antes, e o desejo agora. Não deixe a igreja descobrir que me ajudou e volte para casa.
Giovanni sorriu, grato.
— A igreja não pode me machucar, Vossa Graça. Ela perdeu poder, e perderá ainda mais com o poder que o Império nos dá. — com isso dito, Giovanni se afastou de Nico, ajoelhando-se ao chão: — Faça uma boa viagem, Vossa Graça e, por favor, não volte mais.
Nico gargalhou, acenando para o Capitão enquanto subia para o navio. Ergueu a passarela, colocando-a no convés de qualquer jeito. Com um último aceno para Giovanni, deu as costas para o porto e seu país natal pela última vez, subindo as escadas da popa num andar pesado e brutal.
O Rei Fantasma assumindo mais um navio abandonado.
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