Pit-a-Pat
59 Capítulo XLVII
Notas iniciais

Jason
~Capítulo XLVII~
:: 30º dia em Tortuga — Semana 18 ::
[...]
Com o final da batalha, veio o amanhecer.
Havia um silêncio pesado que permeava o navio ao enfatizar a certeza de uma vitória absoluta, de uma vingança perfeitamente executada no coração do Caribe, à vista de bardos que tornam mentiras em realidade.
Lendas em história.
Entretanto, a batalha no Argos foi cruel para ambos os lados. Jason não conseguia sentir a ponta de seus dedos, o ferimento em seu braço formigava sua pele fria. Sentado nos degraus que davam para a popa, observava o convés que havia se tornado em uma enfermaria ao ar livre. Seus homens feridos, espalhados por todo o assoalho manchado do Caronte, estavam sendo tratados um a um sob o olhar analítico de William Solace, o Consorte recém apresentado.
O silêncio de antes, Jason percebeu, era apenas a serenidade em sua mente após uma vitória brutal, amortecida pela violência e não a realidade do navio. O cansaço que o envolveu nublou sua percepção do arredor, dando a ele um falso sentimento de paz. Se permitiu voltar ao presente, aos choramingos e resmungos de dor, as súplicas que se erguiam em um ir e vir de gritos dos tripulantes em pior estado.
Durante toda a noite e começo do amanhecer, Jason não viu o Consorte parar um momento sequer, cuidando dos homens como se já fossem parte de suas prioridades, mesmo sem nunca terem sido apresentados. Mantinha sorrisos gentis no rosto, conversas brandas sobre tudo e nada, uma habilidade cautelosa em suas mãos ágeis e estáveis nos ferimentos diversos. Uma risada baixa, um toque gentil em ombros e William deu aos homens um conforto em meio ao caos.
Ao se afastarem do Argos em chamas, horas antes, Nico permitiu-se despencar nos degraus da popa, suas mãos trêmulas numa euforia que carregou seu corpo para longe do Argos, mas que se desfez no instante em que tudo terminou.
Viu o doutor se aproximar de Nico, entrar em sua bolha sem avisos ou sons de alerta. O tocou em seu rosto, trazendo a atenção do Capitão para o atual presente do Caronte, para os feridos espalhados pelo navio no escuro da noite caribenha. Nico inclinou-se na direção do doutor, deitando sua cabeça em seu ombro, numa demonstração rara de fraqueza que jamais o viu exibir antes.
Isso, de alguma forma, tranquilizou Jason para a presença repentina do doutor no navio.
Um pouco depois, com o arfar pesado de Malcolm ao acudir Sherman próximo ao timão, Nico afastou-se do doutor, trocando um olhar firme com ele antes de virar-se para Jason. Ergueu-se dos degraus e proferiu:
— Vencemos a batalha, mas ainda temos muito o que fazer — bradou Nico altivo, respirando fundo: — Não tenho tempo para apresentações eloquentes, então aqui está a verdade bruta: William Solace é o doutor do Caronte e meu Consorte. Parabéns, ganharam outra pessoa pra mandar em vocês.
Jason tossiu engasgado, o choque do anúncio o pegou de surpresa. Piper e Leo, um pouco mais ao longe, exibiram sorrisos curiosos junto de arfares surpresos por todo navio. Sherman, no entanto, gargalhou. Distante, mas completamente escarnecido com a notícia repentina.
Jason sorriu para a feição divertida do Capitão, para o impacto que suas palavras deixaram no convés.
Nico se virou para seu Consorte, gesticulando ao redor.
— São todos seus.
Sem precisar de mais incentivo, William bateu suas palmas juntas, assumindo sua posição sem hesitar, como se o navio já lhe pertencesse. Talvez o tempo que passou no Delfos lhe deu a confiança que precisaria para coordenar os homens do Caronte.
— Preciso que se separem em dois grupos: os com ferimentos severos e aqueles que podem esperar pelo tratamento. Tragam os feridos graves para o centro do convés. Os com ferimentos leves, permaneçam por perto — Will ordenou, observando Nico brevemente antes de continuar: — Aqueles que estão bem irão me ajudar com os feridos.
Austin foi o primeiro a se aproximar do Consorte. A expressão em seu rosto era complexa, como se houvesse questões demais a serem respondidas e pouco tempo para perguntá-las. William lhe esboçou um sorriso gentil, uma promessa em seus olhos azuis, um mais tarde sussurrado em baixo tom.
Ignorando a conversa entre eles, Jason se aproximou, dando o estímulo necessário para o restante da tripulação seguir as ordens do Consorte, a aprovação do Primeiro Imediato essencial naquela circunstância única. William observou seu ferimento no braço antes de aceitar a oferta de ajuda, considerando seu machucado como algo leve.
Com isso, Jason correu para Malcolm no timão, acudindo Sherman que se encontrava sentado no chão, o ferimento em sua perna numa exibição de carne e ossos dilacerados. Não sabia o que havia acontecido durante a batalha, concentrado em sua disputa com Groover e seu chicote de armas, mas alguém do Argos havia tirado um pedaço do artilheiro antes de sofrer com uma morte cruel.
Junto de Malcolm, conseguiram descer Sherman para o convés, sendo priorizado por William no mesmo instante. Nico ficou por perto um tempo, indo de um tripulante para outro, ajudando a organizar aqueles que precisariam de mais atenção antes de descer para o convés inferior.
Jason fechou os olhos, sabendo bem o que aguardava o Capitão em sua missão pela noite toda.
Durante toda a madrugada, William recebeu ajuda de diversos tripulantes, e outros além de Sherman tiveram sua própria experiência com o doutor gentil em suas palavras e hábil em seus gestos.
Após um tempo, William obrigou Jason a se sentar e descansar, entregando um cantil com água e uma porção de pão velho. Sem coragem para reclamar, sentou-se nos degraus e por lá ficou até a alvorada.
Jason suspirou, o cansaço embalando seu corpo, pesando-o para baixo. Fechou os olhos, se deixando levar pelo sono que implorava por alguns instantes, minutos apenas, para descansar o corpo exaurido.
Antes que percebesse, já havia adormecido.
Sentiu um leve repuxar em seu braço, forçando-se a abrir os olhos. O sol estava mais forte sobre sua cabeça. Os minutos tornaram-se horas sem seu consentimento. Abaixou o olhar para o rabo de cavalo alto de William que observava o ferimento de Jason com atenção devota. Ao perceber que estava acordado, sorriu para o Imediato.
— Posso dar uma examinada? — perguntou o doutor, esperando por permissão.
Jason concordou, sonolento.
— Já terminou com os outros?
Will anuiu, dobrando a manga ensanguentada de Jason. O sangue endureceu o tecido, dificultando o trabalho de William. Pensou em ajudá-lo, mas percebeu que não se viu disposto a se mexer por mais algum tempo, cansado.
A adrenalina havia drenado suas energias.
— Os pacientes mais instáveis foram levados para o Convés inferior. Arrumamos um espaço para que possam ser mantidos sem que precisem ser movidos de lugar — respondeu William, jogando água do mar em seu ferimento. Jason puxou o ar entredentes, a dor despertando-o do torpor do sono: — Além de estarem mais bem protegidos dentro do navio.
Jason balançou a cabeça, concordando.
— Quem está lá embaixo?
— Tem poucos tripulantes por lá. Sherman Yang. O ferimento em sua perna é grave. Seu fêmur se partiu em pedaços — comentou o doutor, conflitante. Podia ver a agonia em seu olhar ao relembrar do ferimento brutal do artilheiro: — Fiz o que pude, mas… talvez precise amputar.
Jason fechou os olhos, uma notícia chocante que o fez estremecer. Sherman era o melhor deles, a força bruta e a linha de frente contra navios mais bem armados que o Caronte. Não era uma informação fácil de engolir.
— Como ele lidou com isso?
Will riu, cansado e sem emoção alguma em sua voz.
— Ele xingou bastante — foi sua resposta. Jason só pode rir, imaginando a feição revoltada de Sherman, a apreensão de ter sua perna cortada e o que isso implicava.
— Ele vai morrer. — Jason afirmou.
Todos morrem. É a sina daqueles que passam por amputações no mar. Uma morte cruel com dores pungentes e sem as honrarias que a pirataria possui. Não uma morte em combate, não uma morte que seria lembrada dentro da tripulação, mas uma presa na cama, cativo de suas próprias dores e falhas.
Um fim cruel para o artilheiro do Caronte.
Will arfou, resignado.
— Por que vocês sempre falam isso? — sua pergunta pareceu genuína, como se não fosse a primeira vez que ouvia essa afirmação.
Jason deu de ombros.
— É a verdade, todos sabem.
O Consorte estalou a língua no céu da boca, repentinamente irritado. Terminou de limpar a ferida de Jason, envolvendo seu braço em ataduras brancas e limpas. Doeu um pouco, mas resolveu não reclamar com o doutor irado na sua frente.
— Ele não vai morrer — afirmou William, severo. Jason apertou os olhos, brutalmente ciente da posição em que estavam, do Consorte do navio de joelhos na sua frente, vestindo uma máscara de raiva contida direcionada ao Primeiro Imediato.
Pressionou os lábios com força. Não sabia como conversar com aquele homem com mais poder que ele no navio, que mal conhecia seu nome e o que o fez digno de estar ali. William possuía mais autoridade que Jason, e apenas isso o fez segurar a urgência de puxar sua adaga e defender-se.
— Não sei porque todos vocês pensam assim, mas ele não vai morrer por conta de uma amputação! — bradou altivo, sem margens para argumentos. Jason permaneceu calado: — Pode haver infecção ou outros problemas, mas manter a perna seria pior. Falei isso pro parceiro dele e vou falar para você também: Sherman Yang não vai morrer.
Com isso, William se levantou, esticando os braços e aliviando a tensão em seus músculos.
— Fora ele temos Piper McLean — William continuou a lista de pacientes, como se a breve altercação não tivesse acontecido. No entanto, a rigidez em seus ombros o denunciava: — Perdeu o olho esquerdo e as sensações na mão direita — respondeu, ganhando total atenção de Jason que se levantou, preocupado.
— Ela está bem?
William paralisou no lugar, seu olhar repentinamente mais suave e gentil. A raiva de antes completamente esquecida. Sorriu para Jason, aquiescendo.
— Sim, está. Mas o olho pode infeccionar, prefiro mantê-la onde vou estar mais presente, por garantia — afirmou William, seu tom suave, mas firme, como o de quem fala com entes queridos de pacientes enfermos. Se aproximou de Jason, depositando sua mão no ombro do Imediato: — Pode ir falar com ela, não estou proibindo visitas. É sua parceira, não é?
Jason concordou, respirando fundo.
— Eu irei, mas preciso saber do restante da tripulação.
William sorriu, concordando.
— Bom, tenho mais dois pacientes severos: Atallah e Paul. Ambos tiveram um de seus braços mutilados na última batalha. Atallah com queimaduras severas e Paul com lacerações profundas. — respondeu o doutor, gesticulando para que Jason o seguisse: — O restante são ferimentos leves como o seu. Uma torção, um corte ou uma laceração leve. Repouso por hoje, vida normal amanhã.
O Imediato balançou a cabeça, cômico.
— Faremos o possível, mas a paz não é exatamente algo que acontece com frequência por aqui.
Will sorriu, compreensivo.
— Faremos o possível, então — repetiu o Consorte, virando-se para as escadas que davam ao andar inferior: — Eu terminei por aqui, se precisar de mim estarei lá embaixo com os feridos. Mas antes, preciso ver o meu Capitão.
Jason abriu um sorriso resignado, indicando a escada com um menear.
— Boa sorte, ele odeia ser examinado — comentou, guiando o Consorte escada abaixo.
William riu:
— Ele não tem muita escolha. Minha palavra é sempre a última quando se trata da sua saúde.
Jason parou de andar, erguendo ambas as sobrancelhas, incrédulo.
— Então vai ser realmente muito bom ter você à bordo, Consorte.
O doutor desviou o olhar, seu rosto em um leve tom carmesim. Hm, interessante.
— Bom, espero que sim. Não sei bem o que fazer com esse título, sendo completamente franco.
O Imediato anuiu. Não esperava que Nico tivesse explicado algo para ele além da simplicidade do poder e hierarquia pirata. Jason o guiou até algumas caixas no primeiro compartimento de carga. Sentou-se nela, gesticulando para que William o fizesse também. Curioso, Will sentou-se ao seu lado.
— Um Consorte é o companheiro do Capitão — começou Jason: — O segundo no comando e aquele que ganhará o controle do navio caso algo aconteça com o Capitão — explicou, gesticulando levemente com a mão não-lesionada: — Mas isso é apenas o básico, uma hierarquia que conhecemos, mas pouco respeitada.
— O que realmente importa é que você é a conexão da tripulação com o Capitão — disse Jason, observando cautelosamente o choque no rosto de William com o fato: — A ponte que une todos ao Nico. Para os homens mais novos na tripulação, Nico é inalcançável e sempre será. Não é minha função garantir que ele tenha um bom relacionamento com todos. Nico se reserva a ser comunicativo apenas com alguns poucos, e tem sido desta forma por anos. Ele provavelmente não sabe o nome de todos os homens a bordo e não é obrigação dele saber.
Will balançou a cabeça, absorvendo aos poucos. Havia um vinco entre suas sobrancelhas, um conflito que Jason não saberia pontuar.
— O Consorte torna o relacionamento no navio mais harmonioso. Não é algo obrigatório, não é um serviço que será cobrado de você, é instintivo. Você é a parte humanizada do Capitão, William, a pessoa para quem os homens irão estender suas mãos quando precisarem.
— Mas — Will o interrompeu, claramente confuso: —, e você? É o Primeiro Imediato, certo? Eu basicamente tomei a sua posição no navio?
Jason soltou uma risada, negando ávido.
— Eu nunca tive essa função. Eu sou o braço direito do Nico. Eu dou ordens e controlo esses homens da forma como Nico me ordena — respondeu Jason, apoiando as costas no casco do navio, relaxado: — O Nico não te ordena. Você não recebe ordens porque você é o senhor desse navio, William. Eu nunca fui.
O doutor ficou em silêncio.
Jason permaneceu ao seu lado pelos minutos que se seguiram, esperando que as informações ganhassem raízes na mente do doutor. Era muito para processar, não só pelo que era esperado de William, mas com todos os acontecimentos do dia, das batalhas e dos feridos pela noite, esperar que sua mente estivesse fresca para aceitar tudo aquilo era pedir mais do que o Consorte poderia ofertar.
O doutor manteve o olhar preso nos degraus à frente, sua expressão severa e atenta. Parecia menos surpreso e mais resignado com as informações dadas por Jason.
Um homem astuto, ao que aparentava.
Sorriu, satisfeito. Não teve muito tempo para conhecê-lo, mas para uma primeira impressão, William Solace estava se saindo bem.
O Consorte suspirou antes de se levantar, virando-se para Jason brevemente ao gesticular para os fundos.
— Montamos uma área naquela direção. Tem alguns panos separando a área comum das cargas dos feridos. Sua parceira está lá, descansando — William sorriu então, apontando para as escadas que desciam para os andares mais abaixo: — Nico está com Connor, vou dar uma olhadinha neles antes de me juntar a vocês.
O bom humor de Jason se foi tão rápido quanto veio. Connor. Não conseguia imaginar pelo que o garoto estava passando, e por mais que desejasse poder se juntar a eles no andar inferior, de dar a Connor o conforto que lhe foi negado no dia anterior, sabia que não seria bem recebido depois das atitudes que teve de tomar no dia anterior.
Com um aperto no peito, balançou a cabeça, compreensivo. Will não se demorou ali, descendo os degraus do convés inferior até sumir de vista, o som de suas botas desaparecendo gradualmente.
Jason suspirou, escondendo o rosto em ambas palmas, um arrepio percorrendo seu corpo em espasmos desconfortáveis de fatiga. De tudo que já teve de enfrentar em sua vida, de todos os tipos de batalhas e desavenças, o dia anterior foi o pior dos piores, dos mais violentos e cansativos; psicologicamente desgastante.
Sentia que suas pernas se separariam de seu corpo, seus braços cairiam e sua cabeça explodiria com cada pulsar em sua têmpora. As poucas horas de sono fizeram mais mal do que bem para seu cansaço.
Se levantou por fim, arrastando-se pelo assoalho de madeira grudento, apoiando-se nas paredes do navio para aplacar o balançar singelo. Com o desconforto em suas pernas, não tinha muita firmeza para andar nos convés inferiores sem apoio adequado.
Já conseguia ver o espaço que William havia falado, o tecido encardido separando a área de carga dos feridos atrás dela. Havia uma fenda separando dois pedaços de pano, a entrada para o que seria uma enfermaria improvisada. Dentro dela estavam os quatro feridos e dois outros como acompanhantes.
Notou a presença de Austin primeiro ao passar pela abertura. Encostado entre dois caixotes de madeira, com os braços cruzados frente ao corpo num sono perturbado. Sua tez franzida lhe passava um ar preocupado, como quem dorme sem conseguir descansar. Havia manchas de sangue em seus braços e nas roupas, mas na penumbra da lamparina era quase impossível separar o que era seu ou dos homens que ajudou a tratar ao lado de William.
O sobrenome dos dois era o mesmo, havia percebido durante a madrugada, mas confirmaria em outro momento o parentesco que havia entre eles, não era sua prioridade atual.
Ao lado dele, quatro paletes foram improvisados como camas. Nas duas camas à direita estavam Atallah e Paul, ambos em um diálogo baixo em um idioma que Jason não conseguiu identificar. Dali, podia ver a falta dos membros que William havia comentado, as queimaduras severas no corpo bronzeado de Atallah, e as lacerações na pele negra de Paul. Havia emplastro e ataduras em ambos homens, mas nenhum deles parecia se importar realmente com a dor que deveriam sentir.
Fortes ou tolos, Jason não saberia dizer.
Nas outras duas camas estavam Piper e Sherman. Piper dormia profundamente, exausta e completamente entregue ao sono merecido. Possuía faixas em seu rosto, cobrindo seu olho esquerdo completamente. Sua mão direita estava presa ao seu tronco firmemente. Não sabia a causa da falta de sensação em seu braço, mas confiaria no que os dois estavam fazendo.
Por hora, claro.
Sherman, no entanto, estava acordado. Tinha sua perna completamente enfaixada com emplastro e ripas de madeira presas à ela, mantendo-a reta e no lugar. Não conseguia mais ver a ferida, mas as manchas de sangue que foram absorvidas pela faixa contavam tudo que Jason precisava saber.
Ao seu lado, com a cabeça deitada em seu estômago estava Malcolm, adormecido. Sherman mantinha o olhar em seu parceiro, acariciando seu cabelo com a ponta dos dedos gentilmente. Jason se manteve em silêncio, preocupado em quebrar aquela paz rara, um dos poucos momentos onde Sherman se tornava gentil.
Com Malcolm e apenas ele.
Sherman respirou fundo, erguendo o olhar para Jason num julgamento silencioso. Suas mãos ainda nos cabelos negros do parceiro, mas seus olhos continham uma revolta clara.
A vitória não apaziguou seu luto.
Jason negou com a cabeça, incapaz de dizer qualquer coisa. Também não se sentia satisfeito, não com Travis no andar de baixo. Parecia injusto, completamente errado, mas era a única justiça que tiveram.
O artilheiro voltou a olhar para Malcolm, considerando Jason irrelevante. Sem se deixar ofender, Jason foi até Piper, deitando-se ao seu lado. Sua parceira acomodou-se ao seu corpo, encolhendo-se contra o calor de Jason imediatamente, suspirando contente. Jason envolveu sua cintura com seu braço bom, fechando os olhos por alguns minutos de paz.
Antes de se deixar levar completamente pelo sono, ouviu Sherman comentar:
— Acha que ele vai ficar satisfeito com o resultado?
A voz do amigo era baixa, mas retumbante e grave o suficiente para o trazer para a lucidez por breves instantes. No entanto, não foi ele quem respondeu:
— O Nico ou o Connor? — Malcolm murmurou baixo, quase inaudível.
Oh, aquela conversa não era com Jason.
— Connor.
— Hm… — Malcolm resmungou, o som de tecido sendo movido invadiu sua mente: — Não, acho que nunca vai ficar. Eu não ficaria.
Sem conseguir manter-se focado, Jason acabou adormecendo, mantendo essa mesma questão de Sherman em sua mente durante o descanso:
Connor conseguiria aceitar a vingança e se satisfazer com ela?
☠
Will
O silêncio no navio causava em Will um sentimento desconfortante de derrota. Por mais que tenham vencido a batalha contra dois Capitães no dia anterior, não houve comemoração ou satisfação em nenhum dos tripulantes do Caronte.
O ar pesava como chumbo, envenenado pelo luto e pelos feridos, pelo fracasso antes da vitória. Will entendia o sentimento tão bem quanto aqueles homens, o sentimento de impotência e inutilidade. A morte que escorre por entre seus dedos sem piedade ou cadência, o atingindo inesperadamente, levando com ela todas as suas barreiras que lutavam para se manterem erguidas.
Após uma vitória, o luto ganha garras e vinhas.
Desceu as escadas para o segundo convés silenciosamente. Deixou Jason para trás na enfermaria improvisada, a conversa entre eles ainda fresca em sua cabeça, o peso de um dever que não saberia ser capaz de cumprir ou exercer, mas que almejava, mais do que tudo, poder ser aquilo que as pessoas precisavam dele.
Aquilo que Nico precisava dele.
Poderia ser uma ponte e faria o seu melhor para isso, mas, até lá, havia outro desafio a vencer antes de hastearem a bandeira e seguirem em frente.
O convés estava vazio, o silêncio no ambiente envolveu William como uma mortalha ao se aproximar de Nico no final do convés. O Capitão estava sentado em um dos caixotes, as costas apoiadas na parede do navio. Tinha os olhos fixos no chão de madeira, sua mão esquerda em movimentos automáticos nos cabelos castanhos de Connor, adormecido em seu ombro.
Will observou a cena por um tempo, a ternura que Nico exibia de forma tão aberta e devota, dando conforto ao luto de um irmão; compreendendo a dor de perder alguém de seu próprio sangue.
A morte de Bianca era recente, pungente, e parte da dor nos olhos de Nico refletiam a mesma dor do amante ao contar-lhe sobre sua irmã e sua morte por envenenamento.
De ter chegado tão perto, mas tarde demais.
Nico ergueu o olhar para William, cruzando-os rapidamente. Um pouco da tensão em seus ombros se dissipou, apoiando a cabeça na madeira úmida do navio, o cansaço evidente em seus olhos caramelo. Will se aproximou, depositando um beijo em seus cabelos, demorado, cálido.
Ouviu um suspirar do amante, abraçando-o brevemente. O braço direito de Nico envolveu sua cintura, apoiando sua cabeça em seu peitoral, esgotado. William acariciou seus cabelos, dando à Nico o mesmo conforto que entregava ao pequeno Stoll.
Nico suspirou.
— Não sei se ele vai conseguir superar — confessou Nico em baixo tom, um sopro de ar quente contra sua pele exposta: — Temo que não consiga.
— Ainda é recente — Will relembrou, gentilmente: — Ele tem o direito de não aceitar até aprender que a dor um dia passa. Ele é jovem.
Nico negou, apertando seu braço em Will, puxando-o para mais perto.
— Ele era apegado ao Travis como eu era com Hazel, com Bianca. — o medo em sua voz quebrantou o peito de William, compreendendo sua aflição.
Beijou o topo de sua cabeça, tenro.
— Ele não é sua irmã — garantiu William: — Bianca perdeu um filho, Nico. O peso é diferente, a perda é diferente. Podemos superar a morte de um pai ou de um irmão, mas quase nunca a de um filho. Ele vai ficar bem, eventualmente. Dê tempo a ele.
Com um suspirar pesado, Nico concordou, beijando sua clavícula exposta. Will abriu um pequeno sorriso, apoiando seus lábios contra os cabelos de Nico, fechando os olhos para o pequeno momento.
Prestou atenção nos sons do navio, no estalar das vigas de madeira ao subir e descer nas águas do Caribe; do tilintar de metal contra madeira, de ganchos e arpões, de roldanas e lamparinas apagadas; a respiração cansada de Connor adormecido ao lado em breves resfolegares de quem passou horas em prantos; a palpitação de Nico contra seu corpo, o ritmo gentil e calmante.
Relutante, Will se afastou de Nico. O aperto do Capitão se intensificou antes de soltá-lo, resistente, mas compreensivo. Envolveu seu rosto em ambas as mãos, observando seus olhos caramelos cansados, pintados de vermelho nas extremidades. Sorriu para ele, beijando-lhe os lábios.
— Preciso ver meus pacientes, mas volto logo.
Nico inclinou-se para frente, tomando para si outro beijo casto.
— Vá para a cabine e descanse. Vou demorar por aqui — orientou Nico, beijando-lhe a palma de sua esquerda: — Preciso fazer ele subir pro convés. Não será fácil.
Will concordou, afastando-se por completo.
— Boa sorte.
Nico sorriu:
— Bons sonhos.
Will deu as costas para Nico, lançando um último olhar sobre seus ombros. Nico ainda o observava, o sorriso melancólico em seus lábios lhe dando um adeus sutil. Sabia que aquela situação era pessoal, afetando-o mais do que normalmente afetaria. Will precisaria cuidar de Nico quando o luto imediato passasse.
E faria isso com devoção e afeto.
Subiu ao primeiro convés inferior, caminhando solene até a enfermaria improvisada. Ao entrar, encontrou Jason adormecido com Piper no palete. Ao seu lado, Sherman e Malcolm estavam em silêncio, não dormindo, mas numa pequena bolha deles, isolados do restante das pessoas ao redor. Atallah e Paul mantinham uma conversa baixa, como se a dor da amputação fosse menos que um incômodo.
Estava impressionado, não negava.
No canto extremo, fez contato visual com seu irmão mais velho. Sentiu suas pernas pesarem com a intensidade do olhar de Austin. Gesticou com a cabeça para fora, convidando-o a conversarem privadamente. Austin respirou fundo, mas seguiu William para longe dos feridos, caminhando até próximo das escadas.
Will se virou para o irmão, não sabendo como reagir à feição complicada em seu rosto. Optou por esperar uma reação. Austin apoiou o corpo em uma das pilastras, avaliando-o de cima a baixo, para, enfim, suspirar.
— Este é literalmente o último lugar que imaginei te encontrar.
Will concordou. Era algo novo até mesmo para ele.
— Decepcionado?
Austin franziu a tez, pensativo, mas negou com a cabeça.
— Não, só… confuso. O que aconteceu pra você terminar… aqui? — “Terminar como eu”, era como ele teria terminado a frase. Will apertou os lábios, conflitante.
Muitas coisas o levaram ao mar, e não sabia qual delas citar primeiro. Qual causaria menos preocupação no irmão mais velho. Optou por sua razão ao invés da fuga às pressas, aquilo poderia esperar um pouco mais.
— Eu não me sentia feliz — confessou, cruzando os braços contra sua cintura, num abraço próprio: — Era uma prisão, nada mais era satisfatório. Eu vivia estagnado, Austin. Não sei quando parei de ver alegria no meu dia-a-dia, mas já estava assim há alguns anos.
Austin abaixou o olhar, a semelhança com sua situação era gritante e óbvia. Will umedeceu os lábios.
— Quando o Nico apareceu na minha porta, ferido e indefeso, um pirata em fuga, não pensei duas vezes — continuou, levando seu olhar para a escada ao convés inferior ao deles, onde Nico estava com Connor, em seu próprio luto: — Ajudá-lo foi a melhor coisa que eu já fiz, Austin. — voltou a observá-lo, firme: — Sair de Ravenna não foi uma escolha, mas um momento, quando eu percebi que ficar não era uma opção. Não mais.
Seu irmão aquiesceu, um sorriso se formando em seu rosto.
— Pelo menos eu não te corrompi como todos falaram que eu iria.
Will soltou uma risada surpresa, tapando a boca com seu punho direito.
— Você ajudou sim. Eu vi você no Nico quando ele apareceu pra mim. Fiz o que esperava que fizessem por você caso os papéis se invertessem.
Austin arqueou a sobrancelha, divertido.
— Não conheço muitos médicos, mas os poucos que tive contato definitivamente me entregariam pra marinha.
Will rolou os olhos.
— Eu sei. Por isso que eu não o entreguei. Alguém tinha que ser diferente.
Austin sorriu, suave nas extremidades de seus lábios.
— Fico feliz de te ver de novo, irmãozinho.
Will imitou o sorriso, se permitindo ser puxado pelo irmão mais velho num abraço desejado por anos. Se afundou no calor de Austin, na proteção que seu abraço lhe causava. Fechou os olhos, escondendo o rosto em seu ombro, o cansaço do dia finalmente alcançando-o, a tensão em seus músculos desaparecendo.
Austin apertou o abraço, acariciando seus cabelos.
— Eu fico de olho neles, vai descansar.
Will anuiu devagar, mas não se moveu. Sentia falta de Austin, da segurança que seu irmão sempre lhe causou, na forma como o protegia de tudo e todos, envolvendo-o em seus braços protetoramente. Mesmo que agora fosse um homem, Will ainda sentia a necessidade de ser acolhido, e ter isso tanto em Austin quanto em Nico lhe dava a paz que faltou em sua rotina por tanto tempo.
De se deixar ruir, sabendo que alguém irá ajudá-lo a recolher os pedaços.
Austin o guiou para a escada que dava ao convés, incentivando-o a descansar.
— Continuamos a conversa depois. Durma um pouco, eu fico com aqueles dois lunáticos — comentou o irmão, insinuando sobre Atallah e Paul. Will sorriu.
— Alguns homens têm alta tolerância a dor.
— Do meu ponto de vista, não tem como.
Soltando uma risada, Will se despediu do irmão, subindo o restante do caminho até o convés. O silêncio ainda reinava no navio, entre os homens adormecidos no convés sob a luz amena da manhã. Ergueu o olhar para o céu límpido. Sem nuvens, navios ao longe ou terras à vista, apenas a imensidão do mar e o celeste do céu em pinceladas sutis de laranja e carmim.
Abriu a porta para a cabine do Capitão, fechando-a com o peso de seu corpo. Respirou fundo, trancando a porta com a chave que estava encaixada na fechadura, caminhando vagarosamente pelo ambiente ainda desconhecido por ele.
Passou o olhar pelo corredor estreito, para à porta à esquerda que dava à um escritório abarrotado de livros. No fundo havia uma janela circular, uma mesa de madeira com papéis espalhados e alguns livros empilhados. Ao lado, uma estante repleta de livros antigos, alguns gastos pela maresia, outros ainda tinham suas cores gritantes e vivas. Pelo restante do ambiente, pilhas de livros caídas configuravam o escritório de Nico exatamente como havia imaginado.
Bagunçado e caótico.
Seguiu caminho até a sala comunal. A mesa de madeira no centro da sala, um conjunto de sofás no extremo esquerdo e um bar simples no lado direito. Não sabia como explicar, mas aquele ambiente tinha a caracterização de Nico em cada pequeno espaço. Na cor dos móveis, na disposição dos ambientes, no sobretudo apoiado em uma das cadeiras da mesa de seis lugares. Sorriu para aquele lugar, para a familiaridade que sentia.
Entrou na última porta que ali tinha, dando para o quarto de Nico, privativo. Passou a ponta dos dedos pelo batente enquanto observava o ambiente, a cama larga e espaçosa em um local quase vazio. Duas mesas de cabeceira, um armário e um livro em sua cama.
O pegou em mãos. Macbeth estava escrito em letras florais em tons de preto na capa escura, que, outrora, compunham tons de vermelho. Fechou a porta do quarto, trancando-a mais uma vez antes de guardar o livro em uma das gavetas da mesa. Jogou-se na cama, sentindo o sacolejar do mar embalando-o suavemente em um sono mais do que merecido.
A tensão de seu corpo se dissipou ao encolher-se nas cobertas frias da cama. Na certeza de uma tarde conturbada entre pacientes graves e um luto para ser vivido.
Adormeceu, inquieto.
O anoitecer daquele dia e o início do seguinte foram o suficiente para erguer o ânimo do navio. Will nunca o viu em sua época de ouro, quando as histórias sobre o Caronte foram contadas e escritas em tinta e pena, mas ao vislumbrar os homens feridos se reerguerem após uma batalha árdua, Will não precisou se esforçar para imaginar como deveria ser; como um dia de dor se tornava em mais um momento passageiro.
Não existe num navio pirata o luxo de um luto, de uma tristeza que se mantenha constante por dias. Havia percebido isso ainda dentro do Delfos, ao notar a forma como as perdas eram processadas, rápidas e passageiras como o próprio mar. Constante, sempre em frente.
Nada nunca fica parado no mesmo lugar sobre as ondas.
Respirou fundo, absorvendo o cenário tranquilo de um dia seguinte agridoce.
Jason foi o primeiro a cumprimentá-lo quando saiu da cabine e pisou no convés lotado.
— Consorte no convés! — gritou o Imediato, acenando para Will do timão ao lado de Malcolm.
Todos no convés acenaram para ele, trocando palavras cálidas de bom-dia, outros questionando sobre seus próprios ferimentos enquanto o doutor fazia seu caminho até o Imediato. Will sorria para cada um deles, observando suas feridas com atenção, os liberando para o serviço assim que terminava.
— Bom dia, Jason, Malcolm. — cumprimentou Will, parando ao seu lado no timão. Inclinou a cabeça ao saudar Malcolm que entregou-lhe um cantil de metal aberto.
Will recusou, imaginando o tipo de bebida forte dentro dele. Pela feição cansada de Malcolm, podia imaginar as tentativas de se abster da realidade por algumas horas. Sem questioná-lo, direcionou sua pergunta ao Jason:
— Conseguiu descansar?
— Sim, por toda a tarde e um pouco da noite. — garantiu o Imediato, o olhar preso no horizonte: — Estou aqui em cima desde antes do amanhecer. Muita coisa pra consertar.
Gesticulou ao redor, aos homens consertando remendos no casco interno, no assoalho queimado e lascado. No topo dos mastros, podia ouvir o som de cordas se desamarrando, de velas tornando-se frouxas e soltas, mas ainda úteis num momento de necessidade.
Will anuiu, compreensivo.
— O dia começou agitado.
Malcolm concordou:
— Sempre começam — soltou um suspiro, cansado: — São raros os dias silenciosos, vai se acostumar.
Will sorriu para ele, mas não respondeu.
— Austin ainda está na enfermaria?
— Sim — Jason respondeu: — Na última vez que chequei estava fazendo companhia pra Atallah. Está ardendo em febre.
Will arregalou os olhos, concordando com a cabeça ao se virar em direção às escadas.
— Obrigado, eu volto logo!
Descendo as escadas agilmente, caminhou direto para o arranjo no convés inferior, nervoso. Austin não o acordou durante a noite para uma emergência, e por mais que acreditasse na capacidade do irmão de cuidar dos seus pacientes, também conhecia sua superproteção excessiva. Se desejasse que William dormisse por toda a noite, então o faria sem empecilhos.
Não sabia há quantas horas Atallah estava lutando contra uma infecção, mas esperava que não fosse o prelúdio de notícias ruins.
Nos paletes, Will notou apenas Piper acordada. Ela estava sentada com o olhar fixo em Atallah enquanto Austin trocava as compressas de água em sua testa. Atallah respirava pesado, o rosto vermelho e retorcido em dor e agonia. Toda a coragem que demonstrou no dia anterior, de repente, desapareceu.
— Austin, o que houve?
Piper se virou para William, dando um aceno de cabeça breve. Will o devolveu. Austin não o observou, mas começou a explicar metodicamente.
— Seu ferimento infeccionou durante a noite, começou a alucinar — Austin devolveu o pano úmido à sua testa, a feição nublada: — A infecção está escapando pelo ferimento há horas.
Will inclinou-se na direção do ferimento, da parte de seu braço onde o membro foi brutalmente cortado. Pus escorria das queimaduras brutais, o inchaço avermelhado e pulsante. Não foi um corte médico — e mesmo estes não há garantias de que não vá infeccionar —, e portanto Will não conseguia imaginar o tipo de arma que foi usada e contra quantas pessoas antes de Atallah ela teve contato. Era impossível dizer. A infecção era esperada.
— Não temos o que fazer. É esperar e torcer para que seu corpo consiga combater a infecção. — Will concluiu, fechando o ferimento outra vez: — E o Paul?
— Ele cauterizou o próprio ferimento. Levando o Atallah como exemplo, devemos esperar pelo pior — explicou Austin, observando Paul do outro lado de Atallah, em sono profundo, mas irrequieto: — Mas até agora sem sinal de infecção.
Will anuiu, erguendo-se do palete. Caminhou em direção ao Sherman do outro lado do arranjo. Sua perna ainda estava envolta no emplasto que havia aplicado pessoalmente no dia anterior. Um pouco de sangue havia manchado as faixas e o inchado parecia igual ao simples olhar. Aproximou-se do ferimento, tocando a pele sensível.
Retirou todas as faixas, decidido a limpar e trocá-las. Virou-se para Piper, um olhar rápido em seu ombro antes de prender o cabelo em um coque.
— Como está hoje, Piper?
A mulher sorriu. Um sorriso fraco, mas sincero.
— Meu olho lateja um pouco, mas não sinto dor exatamente. Difícil de explicar a sensação — comentou baixo, seu olhar fixo nas mãos ágeis de William ao limpar o ferimento de Sherman com água potável. O artilheiro resmungou, remexendo-se na cama: — Mas ainda não sinto minha mão.
Will parou o que fazia por alguns instantes antes de retomar a limpeza, a informação armazenada para mais tarde. Ergueu o olhar para Sherman que dava sinais de acordar.
— Pode fazer companhia para ele? Vai doer um pouco — pediu suavemente enquanto buscava o cantil com água do mar.
Piper foi até o artilheiro, sentando-se ao seu lado. Sua mão livre acariciando seus cabelos úmidos pela dor. Aproveitando que estava distraído, despejou a água salgada no ferimento.
Os xingamentos de Sherman se seguiram por longos e intermitentes minutos.
Will finalizou a limpeza com a ajuda de Austin. Precisou que o irmão segurasse o artilheiro enquanto terminava de enfaixá-lo. Respirou fundo, aliviando a tensão dos ombros.
— Está feito — garantiu, um sorriso paciente no rosto: — Torturante, mas está bom.
Sherman bufou, a cabeça deitada no ombro de Piper, esgotado.
— Fala isso só porque não é você sentado no meu lugar.
— Eu já quebrei um osso — rebateu, piscando o olho de forma divertida, na intenção de suavizar a tensão no ar: — E foi ainda pior porque eu quem tive que colocar o meu próprio osso no lugar.
Piper estremeceu. Sherman rolou os olhos, como se não acreditasse na história.
— É, eu lembro disso. — comentou Austin, seu tom pesado e desgostoso: — Nosso avô era extremista, pra dizer o mínimo.
— Ele tinha suas peculiaridades.
Austin fechou o cantil de água com força, lançando um olhar agressivo contra o irmão caçula. Will ergueu ambas mãos, pacífico.
— Então, o Will é o “famoso” caçula? — comentou Piper, um sorriso divertido no rosto ao chamar a atenção dos Solace: — Que mundo pequeno.
Will ergueu o olhar para Austin, arqueando a sobrancelha. O irmão deu de ombros, como se a história não fosse importante. Will bufou. Iria descobrir mais cedo ou mais tarde.
Sherman respirou fundo, gesticulando com sua esquerda.
— Pirataria é pequena demais. Ou você conhece todos ou já matou pelo menos metade. — Sherman apontou para o Austin, enfático: — No seu caso, deu sorte do Jason proibir que eu te matasse, porque era uma vontade forte.
Austin sorriu inocentemente, jogando as tranças em seu ombro para trás, enfático.
— Bom, espero que a vontade tenha passado.
— Isso vai depender do quanto de dor eu ainda vou sentir hoje.
— Ei, o médico é ele! — Austin apontou para o Will, ultrajado.
Sherman rolou os olhos.
— É, mas ele eu não quero matar.
Will riu, entrando na brincadeira.
— Diz isso porque é só o primeiro dia. Espere pela reabilitação dessa perna.
Sherman fixou seu olhar em William, inclinando o rosto levemente para o lado. Havia um peso em seus olhos, na forma como observava William limpar as mãos cobertas por seu próprio sangue. O doutor remexeu-se, desconfortável com a atenção intensa.
— Malcolm estava em pânico ontem. Ele nunca perde a razão — explicou o artilheiro, sua voz reverberando com força no ambiente silencioso no convés inferior: — Você o acalmou.
William desviou o olhar. Se recordava da feição preocupada do navegador, da forma como empalideceu ao ouvir sobre uma possível amputação, ao agarrar o braço de Sherman na enfermaria, como se aquele fosse o último toque; o último contato entre eles.
Foi difícil tranquilizá-lo, explicar as chances de sobrevivência que uma amputação pode causar, mas que ainda havia naquela situação a possibilidade de manter a perna. Com dor constante, talvez para sempre, mas a amputação seria a última opção de todas as opções disponíveis que tinham.
Olhou para Atallah momentaneamente, imaginando se sobreviveria e o quanto sua morte por conta de uma amputação brutal durante uma batalha impactaria na pequena paz mental do navegador.
Respirou fundo, voltando o olhar para Sherman. O artilheiro ainda o encarava, a feição dura e compreensiva, como se soubesse onde seus pensamentos vaguearam; como se aquela possibilidade também tivesse passado por sua mente.
— Talvez você tenha mentido, dado a ele alguma forma de esperança fútil ou seja lá como queira chamar isso — continuou Sherman, inspirando profundamente. Seu rosto se repuxando com a dor latente de sua perna: — Mas ainda assim… obrigado.
William surpreendeu-se, sorrindo largo para o artilheiro.
— Não me agradeça ainda.
Sherman rolou os olhos, quebrando o contato visual ao ajeitar-se na cama, sua cabeça apoiada no ombro de Piper, aconchegando-se.
— Então, você vai ser o Consorte do navio? Boa sorte com isso.
Will arqueou a sobrancelha, curioso.
— Vai ser tão complicado assim?
O artilheiro mostrou os dentes num sorriso ácido.
— Você não viu nada ainda, Consorte.
O doutor riu, erguendo-se do palete. Se virou para Austin, gesticulando com a cabeça na direção do corredor.
— Vai descansar, eu fico por aqui hoje.
Seu irmão suspirou, espreguiçando por longos segundos antes de se afastar. Bagunçou os cabelos de William no seu trajeto, sorrindo largo ao ter sua mão estapeada pelo caçula.
Will permaneceu na enfermaria pelo restante daquela tarde, cuidando da febre de Atallah que se manteve alta por todo o tempo que esteve ao seu lado. Paul despertou pouco tempo depois, a dor fantasma em seu braço amputado o levou às lágrimas enquanto William tentava acalmá-lo sem sucesso. Acabou adormecendo novamente pelo cansaço.
Malcolm ficou algum tempo com Sherman, forçando-o a comer um pouco antes de precisar subir para o convés. Piper foi liberada para o andar de cima por algumas horas, mas precisaria passar mais uma noite na enfermaria. Precisaria examinar sua mão e o ferimento no olho.
Ao final da tarde, quando Austin resolveu expulsá-lo da enfermaria, Will retornou para a cabine do Capitão, apoiando as costas na porta fechada. Esfregou o rosto com a palma, cansado de toda a adrenalina dos últimos dois dias. Por mais que tenha tido uma boa noite de sono, cada pequeno contratempo com seus pacientes esgotava sua disposição.
Suspirou, dando as costas para a cabine. Precisava ver como o Nico estava antes de pensar em descansar. Abriu a porta para sair, mas parou no lugar ao ouvir seu nome ser chamado.
— Will? É você? — a voz de Nico ressoou na área comunal, fazendo o doutor virar o rosto em sua direção.
Fechou a porta e caminhou até Nico, encontrando-o sentado no sofá, seu sobretudo e chapéu jogados ao chão aos seus pés. Abriu os braços para Will, convidativo. O doutor sorriu, sentando ao seu lado, deitando a cabeça em seu ombro. Os braços de Nico se fecharam ao seu redor, soltando um suspiro pesado. Fechou os olhos para a caricia em seu cabelo, os dedos de Nico gentis nas mechas loiras.
— Já almoçou? — questionou Nico em baixo tom.
— Não. Estou sem fome.
— Hm… — Nico respirou fundo, ficando em silêncio.
Will aproveitou desse momento para aconchegar-se melhor, abraçando a cintura de Nico com força moderada, permanecendo em seu toque pelo tempo que Nico permitisse. Se deixou levar pelo conforto do amante, embalado em um sono leve no silêncio da cabine, no sobe e desce tranquilo do peito de Nico.
Poucos minutos se passaram antes que despertasse para o som de risadas do lado de fora da cabine, para a vida que se seguia no convés. Os dedos de Nico ainda brincavam com seu cabelo, o calor de seu corpo dando à Will a calmaria necessária para perguntar:
— Conseguiu tirar o Connor do convés inferior?
A mão de Nico paralisou em seus cabelos, absorvendo a pergunta difícil. Suspirou então, retomando o carinho gentil.
— Consegui. O levei para os aposentos do Jason, para dormir em paz — comentou, esfregando o rosto com sua mão livre. Will o apertou contra ele: — Mas isso não vai ter fim até que Travis tenha o descanso merecido.
Will ergueu a cabeça, observando a feição dolorosa de Nico.
— Onde farão isso?
— Temos um ponto de ancoragem distante do Caribe, uma ilha protegida por rochedos e quebras-d´água violentas — respondeu Nico, um sussurro grave ao enunciar um segredo em sílabas suaves: — Nunca falamos sobre ela, nunca vamos até lá a menos que seja uma necessidade.
Will ergueu o rosto, encontrando o olhar úmido de Nico, a feição dolorosa que Nico reservava apenas em sua companhia, a fragilidade de um líder sem permissão para quebrar.
— Ou enterrar nossos mortos.
O tom sussurrado de Nico fez William ajeitar-se no sofá, abraçando-o em um aperto firme. Nico tremia em seus braços, se deixando afundar no conforto que o doutor lhe passava, deixando transbordar as lágrimas que guardou por longas horas. Acariciou seus cabelos negros, beijou-lhe a têmpora, dando ao amante o conforto que precisava naquele momento de dor e agonia.
O choro baixo do Capitão se estendeu por longos minutos, contrastando com o som agridoce das risadas no convés, da vida seguindo seu curso do lado de fora da cabine; a perda de um tripulante querido, mas a vitória de uma guerra histórica.
O luto sempre foi uma das partes mais dolorosas de um ente querido, de suportar a dor de nunca mais ver aqueles que um dia foram importantes e amados — da verdade brutal de que o que os separavam não eram mares e oceanos, mas a vida e a morte.
Não há “algum dia” ou a chance de um reencontro futuro e surpresa. Os caminhos se separaram: um deles seguiu uma jornada longa enquanto o outro caminho despencou em queda livre, longe do sol. Até a próxima queda, os caminhos jamais hão de se cruzar.
Travis jamais veria o sol outra vez.
Frente àquele fato, Will apertou Nico contra seu corpo, ciente de seus demônios e do peso da morte. Retornou a Ravenna, para a dificuldade que teve em aceitar a morte como passageira e inevitável, como o simples ato de informar uma morte o destruía completamente. Fechou os olhos, grato pela presença de Nico em sua vida, pela forma como o ajudou a enxergar dias ensolarados após uma tempestade intensa.
A morte é passageira, principalmente na pirataria onde o dia-a-dia de um tripulante é desafiado por perdas e batalhas. A dor se esvai, e William conseguia ver essa verdade amarga nas risadas no convés, na feição resignada dos tripulantes; na relutância de Nico em abraçar seu luto por tempo demais, não só com Travis mas com Bianca semanas antes.
O dia de ontem passou, o de hoje se completa com feridos que William sequer pode imaginar se sobreviverão ou não. O dia de amanhã, no entanto, não deve ser desbravado com pesar.
Num suspirar resignado, William deu a Nico todo suporte que precisava para encarar o mundo sem o garoto que ajudou a cuidar; que viu crescer e se tornar de um menino em um homem. Naquelas poucas horas que teriam solitude na cabine, se deixaram quebrar e remontar; aceitar a dor do presente como uma dádiva gentil.
No dia seguinte, seguiriam a jornada pelo restante da trilha.
Um batimento por vez.
FIM
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