Pit-a-Pat

60 Capítulo XLVIII


Notas iniciais
E chegamos no final da jornada onde eu marco Pit-a-Pat como finalizada. Conseguem acreditar nisso? Depois de quase 6 anos de história chegamos ao final da jornada com um salto temporal de 5 anos! Eu tenho TANTO pra falar que não caberia em apenas uma nota, mas primeiro de tudo preciso agradecer imensamente à minha marida e a Mitty por me ajudarem à dar forma pra essa história e não me deixar abandonar na metade do caminho, sempre me apoiando em tudo Um agradecimento MAIS do que especial ao @arielfhitz por ter sido um leitor antigo e uma âncora enorme para mim durante o começo de PaP. Sinceramente, se não fossem seus comentários quando a fanfic mal conseguia gerar 4 comentários por capítulo eu teria abandonado a ideia de aprofundar a história e encerrado ela com o roteiro inicial. Então, você virou o Padrinho oficial de PaP, meus parabéns E ao restante dos meus leitores, irei agradecê-los nos comentários finais, vocês são tantos, mas cada um com seu espaço no meu coração Vamos ler a última jornada deles em PaP? Um pequeno adendo: Will é o único que pode chamar o Malcolm por apelido, da mesma forma que o apelido que o Malcolm usa com o Will é EXCLUSIVAMENTE dele. Mais ninguém os chama dessa fora ;) Boa leitura!

EPÍLOGO

~Capítulo LVIII~

:: 5 Anos depois — Caribe, Agosto de 1687 ::

[...]

Nico desviou o corpo para a esquerda, erguendo sua espada horizontalmente ao receber o ataque inimigo contra sua lâmina. O pirata investiu outra vez, forçando Nico a recuar alguns passos, a vantagem muscular do homem à sua frente gozando do Capitão do Caronte. Nico trincou o maxilar, mudando a posição de seu pulso, a espada agora em histe.

Avançou na direção do homem, descendo um ataque diagonal em seu ombro exposto. A lâmina passou rente à pele queimada pelo sol, forçando Nico a erguer seu braço direito, defendendo-se do impacto de um soco de seu oponente. Mais uma vez, Nico precisou recuar.

Soltou o ar, frustrado, limpando o suor de seu rosto tenso.

O homem abriu um sorriso nojento, erguendo os ombros em uma posição de superioridade, vangloriando-se de uma vitória certa. Nico arqueou a sobrancelha, descendo sua mão direita na direção de sua pederneira. Ele poderia ter a desvantagem em uma batalha corporal, mas perder? Oh, isso sequer era uma opção.

Inclinou o rosto para o lado, esperando seu inimigo avançar em sua direção.

O som de um disparo ecoou ao seu redor, o sangue escorrendo por entre os olhos de seu oponente fez Nico erguer o olhar na direção do disparo, ignorando o estrondo do corpo atingindo o assoalho ruidosamente.

No topo da popa, com a pederneira ainda apontada em sua direção e a fumaça subindo pelo cano, estava William. Os cabelos desciam soltos por seus ombros, emoldurando a feição severa em seu rosto. William fez contato visual com Nico, abrindo um sorriso lateral, quase arrogante.

Abaixou sua arma, girando os calcanhares para a esquerda, descendo com sua espada diagonalmente, atingindo o pirata que o atacava na surdina. Will afastou-se alguns passos, acertando um chute no centro gravitacional do pirata, o fazendo cair ao chão, sumindo do campo de visão de Nico. Will acenou para o marido antes de engajar-se em outra batalha.

Nico sorriu, dando as costas ao seu Consorte, passando por cima do corpo no convés. Avançou pela na lateral do navio em direção à embarcação inimiga.

A batalha já havia se estendido por tempo demais.

Sob o horizonte ardente de um navio em chamas, o Caronte deu as costas a mais uma batalha travada nas águas caribenhas, aproveitando-se do começo do poente para cuidarem dos feridos em combate.

Austin preferia tratar dos feridos imediatamente, dando um tratamento inicial antes que William se ocupasse de ferimentos mais severos.

Cecil permanecia por perto nesses momentos, auxiliando onde podia antes de descer para a cozinha do navio, separando algumas das ervas que Will costumava dar aos feridos como uma forma de prevenir infecções à longo prazo.

Nico passou por Cecil nas escadas antes de erguer seu olhar aos estragos do navio. A maioria de seus homens encontravam-se no convés superior, auxiliando nos reparos da embarcação, fosse a limpeza do assoalho ou as velas rasgadas durante as trocas de tiros de canhão.

Jason estava no centro do convés, conversando com Sherman ao apontar levianamente na direção do navio em chamas à leste. O artilheiro cruzou os braços, apoiando todo o peso em sua perna de pau. Parecia frustrado, como se algo no ataque o tivesse irritado. Nico abriu um pequeno sorriso, aproximando-se da dupla.

— … Paul não fazia a menor ideia de que iria morrer naquele inferno que vocês dois fizeram! — Sherman reclamou, apontando para Nico ao notar sua aproximação: — Na próxima, avisem! Só deu tempo de eu puxar o idiota pra longe antes que morresse queimado.

Nico rolou os olhos, indiferente.

— Na próxima, mande ele prestar atenção nas minhas ordens.

Sherman ergueu as mãos ao alto, exasperado. Jason soltou uma risada, se divertindo.

— Esse porra está com a gente há anos e ainda não faz questão de falar nenhum dos idiomas que a gente fala na porra desse navio. Nenhum! — Sherman enfatizou, gesticulando de forma incrédula: — Eu já tentei ensinar, mas quando ele tá lutando ele só pensa em português e não escuta mais ninguém.

— Alguém aqui fala português? — Nico perguntou, desfocando do assunto principal. Jason pressionou os lábios, reprimindo um sorriso: — Talvez eu devesse tentar, mas não parece lá muito útil.

O artilheiro bufou:

— Eu falo, e é por isso que ele está vivo até hoje — Sherman deu as costas para Nico, andando na direção da popa: — Malcolm me fez aprender. O Will também. Um inferno esses dois juntos, pior coisa que você já fez foi apresentar eles.

Nico riu, orgulhoso.

— A culpa não é minha que você não consegue dizer não para eles.

Sherman apertou os olhos, irritado.

— A culpa é sempre sua, Capitão.

O artilheiro subiu até onde Malcolm e Leo estavam, deixando ambos Capitão e Primeiro Imediato no centro do convés. Nico se virou para o amigo, mudando o peso da conversa para algo mais sério. Jason, parecendo perceber a mudança em sua postura, respondeu as perguntas ainda não feitas.

— Tivemos poucos feridos e nenhuma casualidade. Com exceção da “quase morte” do Paul, o que acontece pelo menos duas vezes na semana, nada que precise de atenção imediata.

Nico assentiu com a cabeça, levando seu olhar para o chão ensanguentado, os corpos sendo atirados ao mar impiedosamente. Água com sabão inundou o convés, levando o sangue para longe de sua vista. Nico afastou-se da água coagulada, gesticulando para Jason o seguir para a proa.

— Vamos fazer uma parada em Port Royal assim que Piper conversar com Wiki. Soube que há alguns rostos novos no Caribe, precisamos ficar em alerta e informar o Delfos, se possível — Nico comentou altivo, sua feição difícil de decifrar.

Após a batalha que travaram cinco anos atrás, os mares do Caribe receberam uma quantidade assustadora de navios piratas, dos mais inexperientes aqueles que Nico precisava manter sua atenção redobrada.

Nomes como Capitão Kidd, Thomas Paine, William Knight e Pierre Bot eram sussurrados ao vento, trazendo com eles maus agouros de uma era de violência e soberania; uma era a qual o Caronte precisaria manter-se vigilante e agressivo, uma vez que tornou-se mais que uma lenda a ser temida e evitada.

Havia cruzado caminhos com Kidd certa vez, ambos capitães em seus convés, e o entendimento de uma batalha que resultaria em mortes que se propagariam por todo o Caribe. Em um momento breve de tensão em ambos navios, os Capitães deram as costas um ao outro, negando-se a começar um embate mortal.

No entanto, aquela seria a única vez que uma batalha entre eles seria negada. Nico não recuaria uma segunda vez, e pela crescente aparição de templários e bucaneiros à serviço das coroas europeias, as águas do Caribe se tornariam rubras pelo sangue derramado e pela tão temida era de ouro sussurrada nos arredores de Tortuga.

Um legado criado pelo Caronte que seria carregado por décadas adiante.

Por isso, o que antes eram embates de gigantes, tornaram-se em uma competição brutal de espólios e recompensas pesadas por navios piratas e a execução de seus tripulantes em praças europeias.

O destino final de homens condenados ao exílio nas águas.

A feição de Jason endureceu ao lado de Nico, como se seus pensamentos houvessem tomado um rumo similar aos do Capitão. Levou seu olhar ao horizonte, tornando-se alaranjado à medida que o sol começava a se pôr. Chegariam aos portos de Tortuga na madrugada, desembarcando para os bares de Wikolia apenas ao amanhecer do dia seguinte. Não lhes tomaria muito tempo antes de poderem atracar em Port Royal em dois dias, uma cidade tão controlada pela pirataria e perdida em seu próprio pecado quanto Tortuga.

Nico abriu um sorriso ao chegar no topo da proa, observando seu marido ajoelhado em frente à Piper, examinando sua mão lesionada. Ainda com os cabelos soltos, bem abaixo dos ombros e fartos em seus tons de dourado, Will parecia brilhar na luz do poente, o sorriso resplandecente em seu rosto bronzeado causava em Nico a mesma reação de cinco anos atrás, quando vislumbrou esta mesma expressão em situações menos calorosas.

Will amarrou novamente a luva que mantinha a mão de Piper menos trêmula, uma sequela da batalha contra o Jackson anos atrás. Uma de muitas, infelizmente. Will ergueu o olhar na direção de Nico, seu sorriso tornou-se ainda mais brilhante. Piper se virou para eles, seu olhar num tom vibrante de caramelo e verde ao se erguer. Seu tapa-olho, no entanto, dava a ela um ar de perigo e atenção.

Era possível sentir a ameaça escapando por seu sorriso felino, sempre alerta, dissecando a mais breve das situações sob seu olhar falsamente jovial.

— Olha só quem precisou ser resgatado pelo nosso Consorte durante uma batalha, de novo. — Piper zombou, saltitando na direção de Jason ao provocar Nico.

O Capitão rolou os olhos, exasperado.

— Não foi um resgate, mas eu aprecio a ajuda — garantiu Nico, aproximando-se de William em passadas lentas e meticulosas, se deixando ser envolto pela cintura. Will arqueou a sobrancelha, cético.

— Não? Parecia que ele tinha a vantagem.

— Nunca ouviu o ditado? Quanto maior o tamanho, maior a queda — comentou Nico, beijando-lhe o rosto brevemente. Will sorriu, mas o brilho divertido se manteve em seus olhos.

— Está desconversando, amor.

— Talvez.

— Não foi uma pergunta, Nico. Eu afirmei — Will negou com a cabeça, beijando sua têmpora afetuosamente: — Não pode esperar que eu esteja sempre do seu lado para te proteger.

Nico soltou uma risada, quase incrédula. Não saberia pontuar quando inverteram os papéis, mas Nico não seria aquele a relembrar os longos anos de treino que William precisou enfrentar antes de se prostrar como igual ao lado de Nico em combate. Talvez tenha se tornado relapso em relação a algumas batalhas, mas era apenas uma mudança sutil de táticas.

Nico Solace exultava em seu auge, seus vinte e oito anos de maturidade lhe deram a margem que precisava para enfrentar homens bem maiores que ele. Levou um tempo, mas finalmente travava batalhas como igual na multidão de vigários no auge de seus corpos.

Ainda que alguns fossem ridiculamente imensos e fora do comum, como Sherman.

Ou ágeis e perspicazes, como William.

— Não posso? — Nico questionou, retórico: — Você é meu Consorte, Will, por quê não estaria por perto em uma batalha para me ajudar?

Will suspirou, deitando o rosto no ombro de Nico, resignado. Os cachos de Will obstruíam a visão de Nico completamente, soltos propositalmente para atrapalhá-lo. William sempre negava quando Nico o acusava, mas ele tinha certeza. Ergueu sua mão esquerda, acariciando seus cachos distraidamente, afastando-os de seu rosto.

— Certo vocês dois, estamos descendo pro convés. — a voz de Malcolm chamou a atenção de Nico que se virou para as escadas da proa: — Vamos atracar em Tortuga na madrugada, levem o romance de vocês pra cabine — Malcolm comentou ao subir os degraus da proa com Sherman ao seu lado, o sorriso vicioso em seu rosto anunciava problemas.

Will apertou os braços em volta de Nico, forçando um bico completamente falso ao erguer seu rosto.

Cole, não seja cruel comigo — resmungou William, manhoso, arrancando uma risada descrente de Nico. William não possuía um rastro sequer de senso comum em seu corpo e Nico tinha quase certeza que era sua culpa.

Havia criado um monstro ao apresentá-lo à pirataria.

Malcolm abriu um sorriso largo e assustadoramente amigável. Sua expressão, nessas horas, causava calafrios em Nico e no restante da tripulação.

A amizade entre Malcolm e William era inconvencional, quase impossível, considerando a forma como Malcolm violentamente atacou William com a notícia de que Sherman teria que amputar sua perna, poucos dias após a morte de Atallah.

Ninguém no navio imaginaria o quão próximos o Navegador e o Consorte se tornariam após uma situação complicada como aquela, ou após a maneira como Nico precisou imobilizar Malcolm em uma ameaça grotesca de morte no mar sobre a prancha caso o tocasse novamente.

Por muitos dias, Malcolm desapareceu do navio, visto em raras ocasiões onde William se mantinha ausente na enfermaria. Em sua maioria, o Consorte permanecia no convés inferior, muitas das vezes na presença assombrosa de um Capitão colérico.

Nico exalava fúria, e Malcolm era esperto o bastante para evitá-lo enquanto podia.

Após a amputação da perna de Sherman, e os dias tensos que se seguiram do prelúdio de uma batalha violenta entre Navegador e Capitão, William conseguiu apaziguar os ânimos com o colega tripulante.

Em uma madrugada fria, com apenas William e Malcolm cuidando do ferimento de Sherman na enfermaria — numa noite onde Nico se ausentou nos portos de Tortuga —, uma conversa impossível entre os dois gerou uma amizade inseparável entre eles, entre trocas de histórias de vida e apelidos desconcertantes.

Ninguém saberia dizer exatamente como a conversa entre eles começou, mas talvez Sherman tenha sido o principal catalisador do que se tornou a dupla mais assustadora dentro do navio.

Nico gostaria de poder ter o crédito de uma parceria intensa com William da mesma forma, mas Nico era o tipo de Capitão inalcançável que usava da violência como dialeto universal; William, no entanto, usava de conversas gentis e uma manipulação sutil.

Malcolm era similar.

Ter ambos controlando cada pequena sombra dos tripulantes do navio lhes dava um poder que Nico sequer poderia imaginar. No final, decidiu que saber seria mais perigoso que a ignorância seletiva.

Willy, eu te adoro, mas seu marido não tem escrúpulos e eu quero ele longe da minha vista se isso — Malcolm gesticulou para os dois, ainda abraçados: — Escalar e eu sei que vai.

— Você está sendo ridículo, Cole! Nem anoiteceu ainda, não vamos entrar pra cabine — Will debateu, soltando Nico para começar uma discussão amigável com o navegador.

Nico negou com a cabeça, afastando-se da dupla enquanto observava o cenário à sua frente, o sorriso divertido no rosto de seu marido ao enunciar mentiras de veludo. Era impossível não se deixar levar pelas memórias, pela jornada árdua de um doutor de cidade pequena ao Consorte de um navio de lendas.

Não havia muita diferença entre ambos, mas algumas sutilezas em seus trejeitos davam ao Nico um sentimento de mudança. Ele via isso na linguagem corporal de William ao apoiar-se em sua perna esquerda, a postura relaxada e o rosto tombado levemente para o lado, despreocupado ao olhar de muitos, mas alerta o suficiente para Nico perceber a tensão sutil em seus braços.

Ou a forma como William conversava era similar, mansa, gentil, sempre disposto a ajudar com palavras de conforto e ordens rígidas. O seu tom, no entanto, não abria margens para questionamentos, exalando confiança em cada sílaba que proferia. Era sutil, mas lá estava.

No passado, havia temido que a pirataria se tornasse um mártir para William, o golpe final que tornaria seu marido em uma pessoa amargurada ao precisar viver em um cenário de violência que jamais havia desejado.

No final, William ainda conseguiu surpreendê-lo.

O Consorte se virou em sua direção, abrindo um sorriso ao gesticular para que se aproximasse da conversa. Nico sorriu, caminhando na direção de seu marido, capturando o final de uma conversa leviana sobre relacionamentos à bordo, notando a forma como Sherman fazia caretas atrás de Malcolm, exasperado.

Malcolm o acertou com um soco sem precisar ver o que fazia.

Will gargalhou e Nico inclinou-se em sua direção, como os planetas em torno do sol.

Nico devolveu a garrafa de vinho para a mesa de centro na cabine. Terminava de ler Paraíso Perdido pela terceira vez, reclinado no sofá ao virar a página do livro. Estavam ancorados em Tortuga, aguardando pela aurora no porto antes de negociarem informações com Wikolia. Havia aprendido da pior maneira que buscá-la antes do amanhecer ocasionaria em informações vazadas sobre sua tripulação, um luxo que Nico se negava a entregar para Wiki de bandeja.

Após três erros como esse, o Caronte aprendeu sua lição.

Já era noite quando se recolheu, deixando William e Malcolm no convés enquanto organizavam os homens que permaneceriam de vigília durante a noite. Will não havia retornado para a cabine, e Nico preferia esperar o marido antes de se deitar. Alguns hábitos eram difíceis de mudar, e a insegurança de ter William distante durante a noite era uma delas.

Esticou o braço atrás da garrafa outra vez quando ouviu a porta destrancar e Will entrar por ela. Virou o rosto na direção do corredor escuro, a figura altiva de William se fazendo presente na meia luz da cabine na madrugada.

O Consorte abriu um sorriso cansado, o corpo finalmente relaxado ao se aproximar do sofá. Sentou-se ao lado de Nico, depositando um beijo em seus lábios úmidos pelo vinho. Will passou a ponta da língua pelos lábios, um sorriso divertido no rosto.

— Esse não é aquele vinho doce do sul?

— É sim. Estou aproveitando um pouco de paz pra ler — respondeu o Capitão, deixando o livro solto em seu colo. Will desceu o olhar para o título, arqueando a sobrancelha de forma curiosa, mas nada comentou.

— Então, avisou o Connor que vamos estar em Port Royal nos próximos dias? — questionou William em tom gentil, erguendo-se para retirar a camisa usada do dia, caminhando em direção ao quarto privativo.

Nico meneou com a cabeça, um sorriso tranquilo em seu rosto ao lembrar do garoto. Mantinham um pequeno cronograma de visitas, na chance de lembrar ao mais novo que ainda fazia parte da tripulação, mesmo que tivesse abandonado o Caronte após o enterro de Travis e Atallah.

Eram visitas mensais, uma pequena pausa nas batalhas contra bucaneiros para uma tarde menos complicada.

Connor sempre os recebia de braços abertos, mas seus humores variavam frequentemente, tornando algumas visitas agridoces com acusações e demandas. Nico o adorava, mas sabia o quanto o luto podia transformar uma pessoa, e ver Connor em uma situação a qual não poderia alterar era desconcertante.

Uma falha que nunca conseguiu se perdoar.

— Mandei uma carta quando atracamos em Tortuga semana passada — garantiu Nico, deixando o livro na mesa de cabeceira, levantando-se preguiçosamente.

Will já estava de ceroulas, sentado no pé da cama o observando. Era evidente a forma como Will cresceu nos últimos anos entre massa e músculos nos tons de dourado que Nico adorava. Às vezes, se perdia em pensamentos ao traçar as entradas em seu abdômen, o caminho em seu ventre. Era novo, mas um novo que Nico se via no direito de explorar.

Em seu abdômen do lado direito estava a mesma tatuagem do Cérbero que categorizava o Caronte e seus tripulantes. Mais escura e recente que a de Nico, mas com pequenas falhas da maresia. Recordava-se do olhar intenso do Consorte ao sugerir que fosse marcado, na certeza de uma decisão mesmo com a dor intensa da tatuagem ao ser cravada em sua pele.

Havia um sorriso em seu rosto quando se olhou no espelho ao terminar, como se fosse o último passo para que pertencesse oficialmente ao Caronte.

Aquela foi a primeira de muitas tatuagens em seu corpo.

Nico se aproximou do marido, traçando as marcas pretas com a ponta de seus dedos, vidrado nas curvas do sol caricato em seu peitoral, nos desenhos tribais que subiam por seu ombro e desciam pelo braço; o ano de 1684 desenhado em cursiva em seu pescoço, no mesmo lugar onde Nico havia colocado a sua versão da data.

Sentou-se em seu colo, descendo suas mãos por suas omoplatas, se deixando ser abraçado pelos braços fortes de William. Com a ponta de seu nariz fez um breve trajeto por seu rosto, num formigar gentil ao depositar um beijo em seu rosto.

Will riu comedido, um quê envergonhado mesmo após tantos anos juntos.

— O que foi?

Nico deitou a cabeça em seu ombro, suspirando profundamente, um sorriso se formou em seu rosto, mesmo que a pergunta em sua mente o deixasse ansioso.

— Will… Você sente falta de Ravenna?

Sentiu seu marido enrijecer, tenso. O aperto em sua cintura intensificou, o impedindo de se afastar. Will respirou fundo antes de responder:

— Às vezes. De algumas coisas — respondeu sincero, afastando Nico de seu abraço o suficiente para uma troca de olhar franca.

Will tentou identificar algo em seus olhos, algum motivo para uma pergunta que não fazia desde que se casaram três anos atrás. Não havia motivos para insegurança, mas William sabia o receio de Nico e seus pensamentos sobre trazê-lo à bordo.

Nico apenas sorria para ele, sua expressão neutra de qualquer sentimento que Will conseguisse ler.

Isso o frustrou um pouco.

Nico voltou a perguntar, algo diferente dessa vez.

— Se você pudesse escolher voltar a morar em terra firme, faria essa escolha?

Will negou a cabeça, sem entender.

— De onde saíram essas perguntas?

— São só perguntas.

— Não são — Will rebateu, desgostoso da indiferença no tom do marido.

Will ergueu ambas as mãos, envolvendo o rosto de Nico em suas palmas quentes. O Capitão fechou os olhos, aproveitando-se do afeto no pequeno gesto.

— Por que está perguntando sobre escolhas? Sabe o que eu escolhi.

Nico assentiu: — Eu sei, não tenho medo que desapareça como no começo. Não é insegurança, é apenas curiosidade.

— Que diferença faria se eu respondesse?

Nico respirou fundo, pensativo. Segurou ambos os pulsos de Will afetuosamente, seu polegar acariciando os pontos de pressão em seu pulso.

— Vamos, me entretenha.

Will suspirou, mas resolveu responder. Se era uma resposta honesta que ele queria, então lhe daria uma.

— Eu só não sugeri que ficássemos em terra firme porque você escolheu o mar, o escolheu muito antes de eu nos dar uma chance — respondeu Will, acariciando seu rosto gentilmente, vendo a feição de Nico começar a mudar: — Eu amo navegar, não me entenda mal, mas sinto falta da rotina em terra, da privacidade que tínhamos em casa. De acordar com o aroma do café na cozinha ou de caminhar pelas ruas com você ao meu lado. Sem compromissos, batalhas ou riscos de morte.

Nico desviou o olhar, algo pesado em sua expressão a qual Will se recusava a ignorar. Inclinou o rosto em sua direção, buscando seus olhos. Âmbar encontrou com lazuli e Nico sorriu delicadamente, mas uma fragilidade rara repuxava seus lábios.

— Eu não precisava escolher o mar — admitiu em baixo tom, fechando os olhos ao explicar-se: — O escolhi por egoísmo, mas eu poderia ter ficado em terra.

O Consorte negou com a cabeça, franzindo a testa em desagrado.

— Você tinha pessoas para voltar, não foi egoísmo.

Outro suspiro e Nico continuou:

— Sempre teve apenas uma única pessoa como prioridade na minha mente quando eu navegava antes de te conhecer, e ela não era uma pirata — confessou Nico, focando seu olhar em William. Havia um peso no ar, uma eletricidade que arrepiou a pele de William em uma antecipação nervosa: — Eu voltei para a pirataria por escolha. É sempre uma escolha. Mas se eu pudesse escolher diferente, só por um momento, eu teria escolhido ficar em terra com você.

Will perdeu o ar, alojando-o em seus pulmões. Essa não era a resposta que esperava ouvir.

— Você… Ficaria?

Nico abriu um sorriso doloroso, uma culpa se alastrando por seu rosto. Will queria poder arrancar esse sentimento de Nico, mas estava paralisado. Era a primeira vez que falavam daquele assunto em anos.

A primeira vez que Nico respondia essas perguntas ao invés de fazê-las.

— Eu também sinto falta da calmaria da nossa casa, mesmo que tenha durado tão pouco — a voz de Nico era baixa, um tom rouco e tímido de quem conta um segredo antigo, em desuso: — Não me arrependo das escolhas que fiz, mas me culpo por não ter sido completamente honesto, de não ter lhe dado mais escolhas. Na época, eu tinha medo de não conseguir te proteger em um lugar onde eu não comandasse. Você era tão… gentil. E essa gentileza seria destruída pelas pessoas se ficássemos nas cidades.

Will apertou os lábios, um amargor instalando-se em sua boca.

— Se tivéssemos deixado a Itália, ido para qualquer outro lugar… Teria ido comigo?

Nico inclinou a cabeça para o lado, seu olhar suavizando ao sorrir em resposta. Will sentiu seu peito apertar, uma angústia pesada ao lidar com uma verdade antiga.

Era apaixonado pelo mar, mas nunca criou uma conexão com as águas como Nico tinha, ou Austin ou Jason, até mesmo Malcolm. Era apenas um local de passagem, nunca de permanência. O único vislumbre que William tinha de casa era sua cabine privativa. Fora dela, era apenas o desconhecido, sem saber quando o mar se tornaria agitado ou violento; quando as nuvens trariam chuvas ou furacões; quando um tiro de canhão se tornaria de um aviso a um ataque iminente.

Não era um lar, mas William não sabia o que era um há muito tempo, desde antes de Austin partir para o mar. Aceitou o que recebeu, e não se arrependia de suas escolhas, mas… talvez teria insistido mais se soubesse que ficar era uma possibilidade, ainda que em outro país.

Respirou profundamente, puxando Nico pela cintura com gentileza, girando seus corpos na direção da cama, deitando lateralmente por cima das cobertas bagunçadas. Nico soltou uma risada surpresa, se deixando ser puxado de lá pra cá. Will os aninhou nos travesseiros, abraçando-o com mais força do que antes.

Escondeu seu rosto nos cabelos escuros, o cheiro de maresia que nunca o abandonava lhe trazendo um pouco de calmaria.

— Gostaria que tivesse me contado antes que tínhamos mais escolhas do que esta, mas eu preciso que você entenda que não me arrependo e que não teria escolhido diferente naquele dia — Will ergueu seu rosto gentilmente, observando o âmbar de Nico brilhar suave na meia-luz da cabine, a vela na área comunal quase se apagando: — Eu iria para onde você fosse e se o mar foi sua escolha, então também foi a minha.

Nico manteve a troca de olhar por longos segundos, sem desviar a atenção no silêncio da cabine, do som gentil das ondas batendo no casco do navio, do sacolejar da cama sob seus corpos quentes. Um sorriso aflorou em seu rosto, o mesmo olhar confiante que Nico sempre carregava em suas feições; o mesmo olhar que fez William se perder no meio do caminho e usá-lo como luz guia.

Era tão cheio de certezas que William sentia-se gigante em sua presença.

— Bom. Era essa a resposta que estava buscando.

Will arqueou a sobrancelha, aninhando-se mais contra seu corpo.

— Por que?

Nico negou com a cabeça, leviano.

— Uma curiosidade que me bateu hoje, acho que foi culpa do livro… talvez do vinho — zombou o Capitão, depositando um beijo na clavícula exposta de William, despudorado: — Desculpe te deixar desconfortável.

O Consorte sorriu, empurrando Nico contra o colchão. Posicionou-se por cima de seu corpo, traçando o contorno de seu pescoço com os olhos.

— Não fiquei, só foi uma surpresa — garantiu, descendo o rosto contra seu pescoço, depositando um beijo molhado em sua pele ardente. Nico suspirou, completamente entregue: — Mas eu só sou o que sou hoje por sua causa, então não vejo nenhum problema em estar aqui, agora. Posso cuidar de você como cuidou de mim nos primeiros anos, e nada me deixa mais satisfeito com minha escolha do que isso.

A risada de Nico reverberou contra seus lábios, sentindo-a subir por sua garganta. Will estremeceu com a sensação.

— Sempre vou cuidar de você, mesmo que tenha aprendido a dar alguns socos.

Eu sei — Will traçou uma linha imaginária com a ponta de sua língua, sentindo Nico se arrepiar sob seu toque: — Mas gosto de ser seu parceiro e não um peso ao seu lado — Desceu com sua mão esquerda pela lateral do corpo de Nico, apertando a carne de sua coxa, forte: — No mar ou em terra, pra você será sempre sim.

Nico grunhiu pesado, puxando o rosto de William para um beijo ávido, uma troca violenta de afeto e vulnerabilidade, a tensão no ar entre seus corpos na cama, sob as mãos ágeis de William em sua pele quente; nos dedos finos nos botões de suas roupas.

William não saberia dizer de onde aquele assunto realmente surgiu, mas logo se distraiu com o calor de sua presença, o sabor do mar em sua pele.

Por fim, se tornou alheio à conversa que tiveram na madrugada e qualquer ressentimento que teria aflorado em seu peito foi esquecido e descartado. Não havia culpa ou arrependimento, e apenas esse fato era o suficiente para que Will esquecesse tudo aquilo.

Nico, por outro lado.

Após a parada em Tortuga e as informações sobre as novas tripulações recolhidas por Piper, seguiram jornada em direção à Port Royal. Will estava recostado na amurada do navio, ouvindo o som dos coros dos tripulantes em seus afazeres, no erguer das velas, da limpeza convés, o som ritmado da cantoria invadia sua mente, fechando os olhos para o a letra.

Our boots an' our clothes boys are all in the pawn, Timme rollickin' randy dandy O!

Heave a pawl, oh, heave away, Way, ay, roll an' go!

The anchor's on board an' the cable's all stored, Timme rollickin' randy dandy O!

Soon we'll be warping her out through the locks, Way, ay, roll an' go!

Where the pretty young gals all come down in their flocks, Timme rollickin' randy dandy O!

Heave a pawl, oh, heave away, Way, ay, roll an' go!

Will inclinou a cabeça para trás, observando o céu limpo em tons de azul celeste. Nenhuma nuvem no céu para obstruir a visão e a brisa quente que soprava do oeste aconchegava seu corpo naquele dia gentil e tranquilo.

Malcolm estava ao seu lado com um mapa em seu colo enquanto criava uma trajetória para o Caronte após a pequena pausa em Port Royal. Iriam atacar um agrupamento de navios europeus, vindo do continente em uma caçada pirata. Se aliaram ao Delfos para o ataque, dividindo as pilhagens igualmente entre os navios.

Desceu o olhar para o mapa, observando as linhas feitas em carvão. Nada comentou, não querendo quebrar a pequena paz no momento, no cântico entoado pelos tripulantes, no som gentil das ondas do mar.

Dali, podia avistar a orla de Port Royal, a silhueta de Nico na proa ao observar a ilha se aproximando, Jason e Sherman um de cada lado em uma conversa baixa entre os três. Abriu um sorriso, desta vez mais comedido.

Outra visita ao Connor, mais uma jornada ao desconhecido que o garoto havia se tornado. William entendia sobre o luto, mas, em alguns casos, ele parecia permanecer e envenenar a alma.

Gostaria de ter feito mais por Connor, mas ele não ficou na tripulação tempo o suficiente para que conversassem.

Uma semana foi o tempo que Connor precisou para decidir abandonar o Caronte, ao fazer a escolha de deixar o navio onde Jason ainda era parte crucial da tripulação. Todos sabiam, mesmo que não fosse explicitamente dito, que Jason carregava a culpa da morte de Travis em seus ombros, não apenas por arrependimento, mas pelo apontar de dedos do mais novo, pela forma como gritou, exasperado, no enterro de Travis.

Recordava-se do tremor violento em seu corpo, das lágrimas grosseiras em seu rosto ao enunciar fatos e verdades; ao acusar Jason de crimes que não cometeu. Nico tentou apaziguar, manter os ânimos de um navio à beira da ruptura, mas sem sucesso.

A morte de Travis trouxe a raiva de Connor à tona. A notícia da morte de Atallah e a luta entre Malcolm e Nico na enfermaria do navio tornaram a presença do Navegador e do Capitão em um peso ameaçador no enterro. A relutância de Jason em se defender tornava a situação toda em uma em um infortúnio cruel num momento que deveria ser reservado à lembranças e saudades.

O enterro terminou em brigas e lágrimas com cada um seguindo um caminho diferente.

E mais ninguém falou sobre os mortos enterrados na ilha.

Will voltou o olhar para a tripulação cantante, preparando-se para o pior.

Daquela vez, Piper e Leo não desembarcaram com o Capitão e o Consorte. Com a desculpa de estarem ocupados com os preparativos do ataque, Nico e Will seguiram viagem sozinhos em direção ao bar de Port Royal, na Queen Street.

Como sempre, as ruelas estavam movimentadas entre o ir e vir dos moradores e viajantes, de mercados ambulantes e danças de pés descalços em terra batida. Port Royal possuía mais crianças correndo por suas ruas do que Tortuga, criando o sentimento de aconchego que a outra cidade desconhecia.

Apoiou a mão na lombar de Nico, guiando-o na direção do bar por entre a movimentação intensa do mercado. Não demoraram para entrar no estabelecimento, sendo envoltos pelo cheiro do álcool, as risadas nas mesas e os acenos daqueles que consideravam Nico e Will como da casa.

Nico caminhou à sua frente, sentando-se na mesa onde Connor estava, no fundo do bar. O rapaz já era um homem, seu rosto angular estava apoiado no punho de sua mão enquanto a outra segurava uma caneca pela metade. Will observou a feição nublada de Connor e sabia, sabia, que a conversa não seria das mais agradáveis.

Ao seu lado, Nico enrijeceu, como se também tivesse percebido.

— Oi, Connor.

O rapaz ergueu o olhar, acenando brevemente com a cabeça.

— Capitão.

Nico sorriu, comedido.

— Sabe que pode me chamar só de Nico, não é?

Connor deu de ombros, balançando o conteúdo de sua caneca com desinteresse. O ar ao redor de Connor era pesado, o cheiro de bebida e descuido com a sua saúde eram evidentes. Will se absteve da conversa.

— Como tem passado? Algo de novo?

Um suspiro e Connor aprumou-se na cadeira.

— Devagar. Estou trabalhando com o ferreiro na rua de trás. Faço espadas, é bem devagar — enunciou, abrindo um breve sorriso: — Estou morando em um dos quartos da senhora Akanni, é bem agradável.

Nico soltou o ar, aliviado.

— Fico contente, da última vez que visitei as coisas estavam tensas entre você e o dono da mercearia.

Connor escarneceu, despreocupado.

— Já resolvi o problema, está tudo bem — garantiu, inclinando-se para frente em uma curiosidade quase viciosa. Will tensionou o corpo, esperando pela pergunta que parecia escorrer de seus lábios: — E como está a tripulação? Ainda viva?

E, como sempre, a conversa ruiu antes de realmente começar.

Nico ergueu o queixo, irritado.

— Enquanto estiverem sob meus cuidados, sim.

O sorriso amargo expandiu no rosto do rapaz, apoiando o braço no encosto de sua cadeira, levando o olhar para William.

— Entendo — comentou, voltando a observar Nico. Will levou a mão sutilmente ao coldre, desconfortável: — Uma pena que não saiba escolher bem quem você coloca como braço direito no seu navio. Parece que as pessoas sempre morrem ou perdem alguma parte do corpo quando outros tomam a dianteira.

Connor… — o tom de Nico soou como uma ameaça, inclinando o rosto vagarosamente, calculando o que fazer.

Will retirou a pederneira do coldre, mantendo-a em seu colo. Connor voltou a encarar o Consorte, uma raiva pesada ao observá-lo.

— Primeiro Jason, depois você — cuspiu, escarnecido, uma raiva que nunca pode combater, fincando raízes em suas palavras: — O Caronte não tem um momento de paz.

Já chega, Connor — repreendeu Nico, puxando a atenção do garoto de volta para ele. O rapaz bufou, desviando o olhar para longe da mesa. Nico suspirou, cansado: — Precisa nos atacar sempre que aparecemos aqui?

— Se não gosta, pare de vir.

— Não farei isso.

— Então pare de reclamar — dito isso, Connor se levantou, afastando-se do casal: — Vou indo nessa, aproveitem o passeio ou seja lá o que vieram fazer aqui.

Sem nada mais a ser dito, Connor deixou o bar.

Nico suspirou pesado, apoiando o rosto em ambas as mãos, exausto. Will guardou a arma, envolvendo os ombros de Nico em um abraço lateral, passando ao marido um pouco de conforto. As conversas com Connor quase sempre terminavam daquela forma, agridoce e ácida.

O luto para ele era difícil, nunca abandonando o estágio da raiva.

— Vem, vamos sair daqui.

Will o guiou para fora, para longe das risadas do bar e do ambiente opressivo que se instaurou ao redor deles.

Odiava as visitas ao Connor, mas jamais deixaria Nico sozinho com ele. Não que temesse algum ato violento ou um ataque, mas Nico o via como uma criança e isso tornava toda a interação entre eles mais complicada. Ao menos com Will do seu lado ele não seria acusado de abandono, como aconteceu outras vezes. Dessa forma, não teria que lidar com a devastação no rosto de Nico por dias, culpando-se por algo que sequer estava presente no momento.

Entrelaçou seus dedos aos do Capitão, respirando o ar puro da maresia nas ruas do mercado, misturados às frutas e ervas fortes. Nico pareceu revigorar-se, olhando o arredor com curiosidade. Se virou para William, um sorriso travado em seu rosto.

— Sinto muito. Ele sempre fala o que não deveria.

Will negou, indiferente.

— Eu sei das minhas falhas. Não me afeta em nada ser relembrado delas.

Nico anuiu, pensativo, mas nada disse. Caminharam por algum tempo na Queen Street, observando as mercadorias novas, os tecidos vindos do continente em seus diversos tons e estampas que agradavam Nico imensamente. Will o puxou até uma das vendas com grãos de café moídos. Will comprou uma porção, colocando-a em sua bolsa lateral, enquanto Nico discutia com o vendedor sobre a origem dos grãos.

Não demoraram para se afastar da movimentação pesada, com Nico guiando o caminhar a esmo do casal. Ainda tinham as mãos juntas, dedos entrelaçados, o sorriso calmo em seus rostos após uma batalha no mar poucos dias atrás. Havia uma calmaria quase inexplicável nesses caminhares que William regozijava-se.

Nico parou de andar por um momento, vasculhando o arredor antes de sorrir, apontando para uma casa ao lado. Era um conjunto de casas de dois andares, com o andar inferior aberto para comércio. Ao lado um do outro estava a mercearia, uma loja de sapatos e uma clínica médica. Will pairou o olhar na clínica fechada, imaginando os tipos de tratamentos oferecidos em cidades que recebiam um enorme número de piratas como aquela.

Provavelmente uma demanda muito maior do que Ravenna jamais teve.

— Vem, quero te mostrar uma coisa — Nico pediu, levando-os em direção à clínica médica.

Will o seguiu, levemente confuso.

— Você conhece o médico?

Nico anuiu:

— Sim. O nome dele é Quirion. Tem estado na região por um bom tempo — respondeu Nico ao abrir a porta da clínica, estava destrancada: — Queria ter apresentado vocês antes que ele saísse da cidade.

— Oh… — Will observou o interior da clínica, correndo o olhar pela mesa no fundo do salão, as cadeiras de espera na lateral e uma escada no fundo que dava ao andar superior.

Ao lado esquerdo havia um salão com duas portas largas e entreabertas. Pela fresta, pode-se ver uma área rudimentar para atendimento de casos graves, provavelmente onde a maioria dos pacientes piratas se instalavam entre cortes profundos, amputações de emergência e cirurgias experimentais. Parecia bem equipada, ao seu ver.

— Podemos entrar dessa forma? Ele vai ficar muito tempo longe? — Gostaria de conhecê-lo. Seria interessante ter uma conversa com outro médico que trabalhasse com piratas assim como Will.

Nico negou.

— Ele não vai voltar, foi embora definitivamente — explicou brevemente, gesticulando ao redor: — Mas Port Royal precisa de um médico urgentemente, já que são poucos os doutores que se aventuram por aqui e Quirion era o único que fazia amputações sem perder seus pacientes, assim como você.

Will se virou para o marido, o choque em seu rosto ao compreender a insinuação naquela afirmativa. Puxou o ar com força, observando na feição branda de Nico na penumbra do salão fechado.

— Nico…?

— Não precisa decidir agora, vamos ficar ancorados por alguns dias, mas eu quero que você tenha uma escolha. Desta vez, sem soldados nos perseguindo pelo caminho — Nico se aproximou de Will, acariciando seu rosto com uma ternura que doía o peito de Will, quebrando-o em pedaços: — Seja qual for sua escolha, eu vou ser parte dela. Eu fiz a minha escolha, cinco anos atrás. Agora é sua vez.

Will estava sem palavras, sua mente vasculhando as possibilidades daquele lugar, criando ideias e situações; momentos de paz e lazer. Era tentador, mas era ao mesmo tempo aterrorizante.

Mais uma vez, Nico o tomou pela mão, subindo as escadas até o andar de cima, onde Will presumia serem os quartos. Assim que subiram, deram de frente com uma porta de madeira branca trancada, a qual Nico abriu sem dificuldades. Era uma casa simples. Pequena, mas agradável. E já mobiliada, Will notou.

Ao entrarem caíram dentro da sala de estar, com uma cozinha pequena ao lado. Uma mesa de madeira separava os dois ambientes com algumas caixas empilhadas em cima. Na parte de trás da sala um corredor com duas portas os levaria para os quartos da casa. A pintura da casa era em tons claros de amarelo, com móveis em tons de verde. Não havia quadros nas paredes ou cortina nas janelas, mas isso poderia ser alterado.

Will caminhou até os quartos, abrindo a primeira porta que tinha uma sacada para a rua. Dentro do quarto havia uma cama de casal, um guarda-roupa no canto ao lado de uma mesa de madeira, do outro lado do cômodo uma banheira se separava do quarto por um biombo de madeira gasto pela maresia.

A janela estava aberta, o cheiro do oceano entrava no quarto, criando em Will uma nostalgia gritante de sua casa em Ravenna, de acordar com a maresia invadindo seu quarto no silêncio da manhã.

Um bolo formou-se em sua garganta, olhando o arredor do quarto com curiosidade, seus olhos parando nas caixas em cima da cama, nos seus pertences dentro delas. Will se aproximou devagar, abrindo sua pequena caixa de tesouros.

Dentro dela tinha tudo que Will considerava importante para ele: a caixa que Nico lhe deu com as cartas; um livro que seu avô havia lhe dado quando pequeno; uma pintura de sua mãe e outra de Kayla e Lorenzo; o arranjo de flores secas que usou em seu casamento e um diário de bordo, o mesmo que Nico o convenceu a começar a escrever como forma de manter suas lembranças em cheque; para se distrair em momentos de angústia.

Pegou o pequeno diário, acariciando a capa de couro com ternura. Parou de escrever nele há uns dois anos, quando as páginas acabaram e seu apego àquele diário o impediu de começar outro. Abriu o caderno, passando as folhas diretamente para o final, para onde sabia estar seu dia favorito.

O mesmo dia em que estavam, agora.

Will soltou uma risada incrédula, se virando para Nico ainda no batente da porta. Ele parecia nervoso, como se não soubesse exatamente o que esperar de Will, quais reações e respostas receberia ao sugerir algo como aquilo. Era um presente, mesmo que William sentisse dificuldades em aceitá-lo.

— Foi por isso que fez aquelas perguntas? — questionou Will, a curiosidade ganhou forças ao apertar o diário contra seu corpo.

Nico concordou, focando seu olhar devotamente em Will.

— Eu tinha essa ideia há algum tempo, mas não sabia se poderia te dar algo significante caso voltássemos pra terra firme. Pensei que se tivesse algo que o ligasse à cidade seria uma adaptação mais fácil — explicou, gesticulando ao redor: — Quirion estava de partida e quando sugeri comprar sua casa… Bom, ele sequer questionou.

Will arregalou os olhos, surpreso.

— Você comprou essa casa?

Nico sorriu, inocentemente.

— Bom, é um investimento. Mesmo que a gente não more aqui de verdade é um lugar para passarmos alguns dias longe do navio. Um lugar só nosso, longe de olhos e ouvidos. Pensei que, mesmo que sua escolha não seja esta, ainda pode ser um refúgio.

Nico se aproximou alguns passos, mas manteve certa distância de William. O Consorte prensou os lábios, segurando o impulso de puxá-lo para perto.

— Seja qual for sua escolha, isso aqui já é seu, Will. Não tem nada a perder.

Com essa afirmativa, Will retornou o olhar para o diário em suas mãos, para a data escrita em cursiva no topo.

— Sabe que dia é hoje? — Will questionou, a voz macia e emocionada escapando por seus lábios.

Nico assentiu, passando a ponta de seus dedos na tatuagem em seu pescoço, no ano de seu casamento marcada em preto.

— Claro que sei. Nunca poderia esquecer.

Will fechou os olhos, voltando ao ano de 1864, ao dia trinta de agosto quando Nico o surpreendeu com um pedido em uma das praias que o Caronte havia ancorado. Era poente, a tripulação toda reunia em volta de fogueiras com muitas bebidas e comida à vontade.

Sempre teve um pensamento único sobre casamento, uma indiferença quando se tratava de encontrar uma parceira ideal. Nunca acreditou precisar de companhia para a vida, de alguém que estivesse ao seu lado na saúde e na doença, como bem diziam. Era médico, sabia se cuidar sem que alguém o auxiliasse.

E, por esse motivo, nunca pensou demais sobre esse fato. Não até ser pedido em casamento por Nico, para o sussurrar de uma vida juntos na orla da praia. Ainda conseguia sentir o gosto do álcool em seus lábios, o aroma da maresia e o calor dos braços de Nico em sua cintura, aninhado contra seu corpo ao proferir juras de amor que jamais imaginou receber.

Will disse sim pela primeira vez sem pensar demais nas consequências de um futuro entre eles. Se casaram na mesma noite com troca de votos e uma Piper emocionada ao sugerir as tatuagens como compromisso.

Will levou a ponta de seus dedos para a data em seu pescoço, sentindo uma certeza absoluta, tal qual a que sentiu três anos atrás. A possibilidade de dizer outro sim sem precisar se preocupar com nada além de sua própria vontade.

Deixou o diário de bordo na cama, puxando Nico pela distância que o Capitão havia colocado entre eles, beijando-o nos lábios em meio a um sorriso imenso e completamente rendido. Sentiu Nico relaxar o corpo em seu abraço, a tensão nervosa desaparecendo ao aceitar o beijo do marido.

Will o empurrou em direção a parede, envolvendo seu rosto com ambas mãos, depositando vários beijos por toda a extensão do seu rosto, castos e eufóricos. Nico começou a rir, fechando os olhos ao ser atacado.

— Podemos ficar? — pediu Will, a possibilidade de estar ao lado de Nico em um ambiente tão… caseiro preenchia um espaço em seu peito que sequer imaginava estar vazio: — Não precisamos mudar de imediato, mas eu quero ficar aqui, eventualmente.

Nico apoiou a cabeça na parede, umedecendo os lábios com a ponta de sua língua ao acariciar o rosto de William com uma ternura gentil; o brilho em seus olhos carregando uma adoração tenra. Desceu o polegar pela maçã de seu rosto, traçando o contorno de seus lábios fartos e levemente avermelhados.

Nico sorriu, com a leveza de quem alcançou uma paz beirando o nirvana.

— Então vamos ficar.

Will o abraçou mais uma vez, se deixando levar pela euforia de finalmente — finalmente! — poder criar um lar com Nico e ter a certeza de que, mesmo que as viagens pelos mares ainda se tornassem frequentes, teriam um lugar para voltar, para chamar de lar.

O mar os levava para longe, para aventuras e descobertas.

E Port Royal os trazia pra casa.

No final, levaram quase um ano para finalmente darem adeus ao Caronte.

Foram longos dias de despedidas, de festas que perduraram por toda a semana num adeus caloroso por seus antigos tripulantes. Piper e Leo mal se afastaram de Nico, exigindo sua presença no menor dos problemas no navio, enquanto Jason passava longas horas em conversas na calada da noite no convés, somente os dois em uma despedida após mais de uma década de amizade.

Seria difícil dizer adeus, mas Will sabia que não seria uma despedida definitiva, não com o recém-nomeado Capitão do Caronte decidido a manter as principais ancoragens do Caronte em Port Royal com visitas estratégicas e curtas em Tortuga.

Como Capitão, Malcolm fez questão de modificar as rotas do navio, tornando as visitas frequentes. Nico ainda estava decidido a fazer parte de algumas viagens para outros lados do mundo, na intenção de levar William com ele e desbravar lugares novos, mas dessa vez não como Capitão e Consorte do Caronte, não.

Apenas como Nicollá e William Solace.

Will abriu um sorriso largo, acenando para a silhueta do Caronte que se afastava da orla, o entardecer encerrando uma jornada longa de intensa de violência e conflitos na vida de ambos amantes. Se virou para Nico, vendo a expressão suave e pacífica em seu rosto, o sorriso em seu rosto similar ao de William.

Seu coração se aqueceu, transbordando amor por aquele homem tão intenso em tudo que se dedicava a fazer.

Nico lhe estendeu a mão, um convite esperançoso em sua palma aberta.

— Vamos pra casa?

Will segurou sua mão, o sorriso confiante em seu rosto.

— Mostre o caminho.

Notas finais
E fim. No final, Nico deu ao Will a chance de uma escolha de verdade, sem a pressão da marinha os perseguindo. Afinal, mesmo com 5 anos como pirata, Will ainda é o Will. No final, os dois vão continuar juntos não importa o que escolham fazer!! Ah, final feliz gente EU DISSE!!! KKKKKKKK Povo duvidando das minhas promessas, hunf! Agora, por onde começar? Tenho tantos leitores pra agradecer, pra dar um abraço apertado e nunca mais soltar é uma despedida, mas não um adeus, espero que saibam disso. Não foi o último de mim que eu tenho PLANOS solangelo pro ano que vem, me aguardem! E claro, a todos que leram também, todos tem um espaço especial no meu coração Por fim, é isso, vamos agora ao prometido de 1k, as cenas não usadas/deletadas: https://docs.google.com/document/d/1shbNPXffMGiwBWcw15Xig6JzItGZQNeZgOW9LgRv6u8/edit?usp=sharing Aqui tenho um formulário que eu gostaria que respondessem, é sobre a publicação de pap com livro: https://forms.gle/wtt5ngWox7qyb5Zg7 E por fim, o link do canal do telegram: https://t.me/+4QPKvHPE4U02NTk5 Twitter: https://twitter.com/Babswings Até uma próxima! (E talvez um extra, hoho quem sabe?) Beijinhos~
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