Pit-a-Pat
43 Capítulo XLII
Notas iniciais

Matteo
~Capítulo XLII~
:: 73º dia na Itália — Semana 10 ::
[...]
A explosão aos fundos da mansão desestabilizou os homens do Castellan que vieram ao encontro do exército coordenado pelo Conde. Era visível, em suas feições aterrorizadas, a insegurança e o pânico pela desvantagem na empreitada e ataques simultâneos. Apesar disso, avançaram com ímpeto, o símbolo do Condado do Castellan ofuscante em seus peitos pelo sol do verão.
Matteo puxou as rédeas de seu cavalo, se afastando da intensidade de colisão de seus homens nos jardins da mansão, massacrando soldados leais ao Castellan.
Pode ver em vários pontos da entrada, soldados fardados com o uniforme do Ducado trocando de lado ou imobilizando colegas ao invés de erguerem suas armas contra o exército inimigo. Matteo não confiava totalmente nas informações de Dylan — principalmente sobre lealdade de soldados outrora desleais —, mas ver homens do Ducado ainda fiéis à Nico mesmo após tantos anos, o deixou menos desconfortável na presença deles.
Avançou com o cavalo por entre os soldados, espada empunhada em riste, desferindo golpes quando necessário. Ao longe pode ver a fumaça se erguendo do pequeno show de poder de Pietro, juntamente com a marcha de mais soldados desnorteados abandonando seus postos anteriores.
Matteo não entendia a dinâmica familiar entre Nico e Pietro. Para aqueles que viam de fora, não era nada além de uma relação forçada entre familiares distantes, com ataques de ambos lados; sequer havia o respeito que Pietro deveria mostrar à Nico pela hierarquia previamente imposta. Ainda assim, durante todo o tempo em que residiram no acampamento, logo após o pronunciamento de Augustus sobre os feitos do Castellan, algo na interação deles mudou drasticamente.
A forma como se portavam, trocavam olhares e até mesmo conversas amenas que outrora seriam inimagináveis. Assemelhava-se muito com um cessar fogo, uma bandeira branca hasteada durante o curto período de tempo onde possuem um inimigo em comum. Talvez, quando tudo terminasse, voltariam a se estranhar como antes, mas durante aquela invasão Pietro estava sendo o reforço que Matteo tanto havia desejado incluir nos planos de Nico, e finalmente pode com a trégua temporária.
Sorriu satisfeito, seus olhos varrendo o jardim frontal, analisando a situação atual. Nicollà era um homem de muitas faces, sabia bem. Alguém que perdeu tudo em uma única noite estava reavendo o que era seu por direito e consolidando seu poder sob olhares de centenas de testemunhas. Deixou aquele lugar como um menino, e retornou como um homem com um exército e aliados poderosos.
Comandar batalhões fazia parte do que Matteo era, desde guerras entre nações à cívicas, e portanto, a única forma de respeito que demonstrava era através de inteligência e compostura diante situações de extremo cuidado. Durante aquela semana no acampamento, junto da execução de um plano bem formulado, foi a primeira vez que finalmente reconheceu Nicollà di Angelo como um nobre.
E mal podia esperar para ver a mesma constatação horrorizada no rosto de Luke Castellan.
Invadiram a área central do jardim, aproximando-se da mansão nublada pela fumaça dos mosquetes. Ao longe, pode ver um grupo de soldados sob o serviço do Duque, e no centro do corredor enevoado viu a figura imponente de Nico observando os avanços do fronte. Matteo franziu a tez, conflitante. Não era para ele estar ali e sim na saída dos funcionários na área Leste da mansão, mas por algum motivo a figura do Duque se fez presente à sua frente, calma e elegante como sempre se portou.
Dylan se virou para Matteo fazendo contato visual, uma breve troca de olhares tão confusos quanto o próprio Conde naquele instante. No momento seguinte, quando ambos retornaram ao Duque, ele já havia desaparecido na fumaça do corredor.
Pode ver o pânico de Dylan ao perder Nico de vista, e mesmo o seu próprio começar a borbulhar em seu peito em uma ânsia que não sentia há algum tempo. Nico era discreto, e dizia somente o necessário para que as coisas funcionassem da forma que gostaria, mas nunca escondeu que possuía segredos. Matteo engoliu a frustração de ser enganado tão facilmente por um nobre tão novo.
Havia muito mais naquele plano do que Nico lhes contou.
☠
Dylan
O momento em que houve a explosão no outro lado da mansão, três coisas aconteceram simultaneamente. Os soldados do Duque foram ordenados a lutar contra os homens do Castellan; seus homens foram pegos em uma emboscada em maior número do que Dylan antecipara; e a mão firme de Nico o puxando para longe dos tiros de mosquete e a fumaça densa que se criou.
Olhou para Nico consternado, prestes a lhe encher de palavras graves, mas um simples olhar do Duque foi o suficiente para calá-lo. Foi puxado para a lateral da mansão, um pouco distante do embate. Nico parou entre duas estátuas Romanas, empurrou uma delas para o lado, mais leve do que deveria ser, abrindo uma passagem secreta.
— Essa não é a passagem que o Conde iria usar? — Dylan questionou ainda confuso, atento ao redor enquanto tentava achar Romeu naquela confusão toda.
Nico lhe sorriu.
— Não é. — confirmou entrando pela passagem, o convidando com um leve menear de sua cabeça.
Nico caminhou para dentro da passagem, e Dylan se manteve na batalha interna por alguns segundos antes de seguir o Duque. Nico puxou uma alavanca e a entrava se fechou atrás do soldado. Dylan se virou para trás e logo voltou a seguir Nico que caminhava naquele estreito corredor escuro e empoeirado.
— Com todo respeito, Vossa Graça, mas não deveríamos nos separar dos outros. — insistiu Dylan incomodado com aquela situação. Não foi aquilo que haviam planejado.
A risada de Nico ecoou seca na passagem.
— Se acalme, Dylan, eu tenho você comigo para me proteger, não tenho? — comentou o Duque dando de ombros: — Mas sinta-se livre para voltar por onde viemos.
Dylan bufou, permanecendo calado enquanto analisava onde estavam. Conhecia as passagens dos empregados muito bem, sempre a usava quando precisava atravessar de um lado para o outro da Mansão de forma rápida, mas nunca esteve naquela. No começo parecia estreita como a que conhecia, mas assim que a claridade de uma claraboia invadiu o lugar percebeu o quão tola aquela afirmação era.
A passagem era larga, comportando até cinco pessoas lado à lado de uma vez. Vários móveis antigos cobertos por panos brancos ocupavam espaços encostados nas paredes escuras e úmidas. De tempos em tempos, encontravam-se em bifurcações e escadas que davam para andares superiores. Sentiu como se estivesse nas artérias da mansão, fluindo de um ponto ao outro por dentro de sua estrutura, percorrendo caminhos para onde quisesse ir com a mansão de guia.
— A passagem Real. — Nico respondeu à sua pergunta não feita. Dylan se aproximou mais, atento às suas palavras: — É como foi chamada. Ela dá acesso aos quartos principais, todos interligados. Há várias passagens dentro da mansão, mas quando foi projetada, decidiram que o Duque e sua família deveriam ter saídas de emergência singulares. Nossas passagens dão acesso à todos os cômodos, com saída para os jardins, mas nenhuma outra tem acesso à esta.
Dylan concordou com a cabeça, absorvendo a informação dada.
— Então, por que não usou ela quando foi emboscado pelo Castellan, cinco anos atrás? — questionou Dylan em baixo tom, temendo ser uma pergunta insolente.
Nico respirou fundo, respondendo com um longo silêncio. Dylan se lembrava daquele dia com amargura, de tudo que aconteceu naquela noite e da repercussão entre seus homens sobre a traição que fizeram; o arrependimento logo em seguida. Lembrava-se dos soldados tomando liberdades para fechar os quartos do Duque e da Hazel para acesso restrito à limpeza, e os cuidados dos jardineiros em manter o labirinto da falecida Duquesa resplandescente.
Se Dylan soubesse dessas passagens pessoais poderia ter chego em Nico antes que deixasse o quarto de Hazel e fosse até o andar inferior, no quarto de hóspedes onde Bianca estava com Castellan, sem acesso nenhum às saídas de emergência. Talvez o convencesse a deixar a mansão antes de ver Bianca, antes do ferimento, da traição e do assassinato.
Suspirou aflito, angustiado com a demora da travessia. Nico parou em frente à uma saída. Se virou para Dylan, seus olhos duros e severos na luminosidade precária.
— Eu não ia fugir naquela noite, Dylan. — confessou Nico comprimindo os lábios: — Ia guiar Bianca e Hazel para fora, mas eu não planejava ir com elas.
Puxou outra alavanca abrindo a passagem que se encheu da fumaça do combate intenso do jardim frontal. Dylan saiu na frente de Nico, usando seu corpo como escudo, espada em sua mão firme.
— Por que estamos aqui?! — indagou Dylan em alto som na tentativa de passar pelo barulho dos tiros: — Estamos no meio do fogo cruzado, e longe da área de treino!
— Não vamos para a área de treino. — confirmou Nico observando o cenário caótico que se formava à sua frente.
Nico se apoiou em sua bengala, sério sob o piso frio pintado de rubro. Dylan o observou, a vista surreal como uma pintura a óleo nas paredes da mansão. Nico de pé, imóvel e intocável em meio à guerra irrompendo ao seu redor de forma impiedosa; a fumaça dos mosquetes envolvendo seu corpo em um véu funesto de alguém habituado com a batalha.
Dylan se lembrou então de uma conversa com Giovanni, semanas atrás, onde lhe foi questionado o quão leal ele seria à Nico se soubesse o que ele fez e fazia para sobreviver; se aceitaria as partes de Nico, fosse qual fosse. Não o respondeu no dia, e pensou que nunca precisaria oferecer seu coração em uma bandeja; exposto desta forma.
A resposta era sim, mas talvez devesse pensar no não. Nicollà di Angelo não era mais um garoto nobre, inocente e sonhador que conheceu oito anos atrás, e Dylan não sabia dizer o que ele realmente era como adulto. Naquele cenário, na imparcial e inabalável figura do Duque de Veneza frente às mortes causadas por sua emboscada, Dylan temia achar uma resposta que o obrigaria a dizer não ao seu senhor.
À frente ouviu a aproximação da cavalaria comandada por Matteo. Desviou o olhar de Nico para encontrar com o do Conde, tão chocado quanto Dylan por estar ali, frente à um dos batalhões de distração. A confusão do Conde fez com que o soldado voltasse o olhar para o Duque, para talvez entender o que iriam fazer dali por diante, mas Nico não se encontrava mais de pé ao seu lado.
Foi então que Dylan entendeu o que Giovanni quis dizer com sua lealdade ser testada. Respirou fundo tentando controlar o pânico em seu peito. Nicollà di Angelo trabalhava sozinho, usando tudo e todos à seu bel prazer, e mais uma vez Dylan seria deixado de lado pelo Duque.
Se iria atrás de Nico ou não, dependeria de sua total lealdade à um líder obscurecido por segredos.
E Dylan não sabia mais o que responder.
☠
Nico
Assim que Nico entrou na passagem sozinho, soltou o ar mais aliviado.
Ser observado o tempo todo por seus soldados, julgado e questionado, era algo que estava desacostumado. A pirataria não era feita por observações ou avaliação de caráter, mas sim de suas capacidades em sobreviver. Por isso, preferia a calmaria de sua mente e o silêncio das passagens até o jardim.
Respirou fundo voltando a desbravar aqueles túneis que há anos não usava. Diferente de quando seu pai ainda morava na mansão, estavam totalmente abandonadas e juntando poeira, provavelmente mantidas em segredo por Romeo e Alessandro para a segurança de Nico caso um dia precisasse voltar.
Sorriu divertido. Deveria recompensá-los quando tudo terminasse, e talvez lhes oferecer algum aumento por terem se mantido leais durante o ataque. Virou em uma das bifurcações atravessando alguns móveis mais largos e espaçosos — sofás e estantes tão antigas quanto a própria casa — parando para observá-los por alguns momentos.
As recordações vieram sem sua permissão, e aos poucos podia ouvir os ecos de um passado distante, de passos pequenos e sorrateiros atravessando as passagens até o quarto de Bianca, enrolado em cobertas e sujo de poeira; a risada gostosa e aguda reverberando nas paredes ocas. Conseguia sentir a mão quente de Bianca na sua, o puxando pelas passagens até os jardins, lhe contando segredos que ouviu de empregadas; histórias que crianças nobres nunca entenderiam.
Passou a mão pelo móvel levantando poeira grossa e seca, se deixando afundar nas memórias quentes e dolorosas ao mesmo tempo. Apertou a mão em punho voltando a caminhar pela passagem, trincando os dentes com os sons das vozes infantis o seguindo.
“Nico, sabia que a mamãe dorme tarde porque fica lendo no jardim de inverno?”
Apertou o passo, irritado com sua mente traidora.
“Ouvi uma das empregadas falando que nunca comeu pêssego! Disseram que é uma fruta nobre e cara, mas eu amo pêssego. Deve ser horrível ser um camponês.”
“Eu prefiro Figo, Bia.”
“Haha! Eu sei, por isso peguei um pouco pra você. Vem pra baixo das cobertas que te dou um pouco, ninguém precisa saber que comeu de noite.”
Parou de andar olhando em volta, seu peito apertado com a memória tão vívida em sua mente, como se realmente a ouvisse. Soltou uma risada amarga.
— Se camponeses se preocupassem somente com frutas não teríamos tantas revoluções, Bianca. — cuspiu Nico enojado, voltando a andar, se aproximando do jardim de inverno.
Havia contado aos nobres sobre as saídas de emergência, e a que o Castellan usaria iria terminar no salão de treino, escapando pelo mesmo lugar que Nico cinco anos atrás. Isso, claro, se ele pudesse usar aquela passagem. Aquela pela qual entraram não era acessível por ninguém além da família do Duque, e caso o Castellan usasse alguma para fugir, não seria a passagem Real.
No escritório só há uma saída, sem bifurcações ou passagens conectadas à área de treino, precisando de uma segunda passagem para deixar a mansão, mas para isso precisaria sair da segurança da passagem e entrar em outra.
A saída do escritório terminava no jardim de inverno, deserto e escondido da vista de muitos. Para Nico, era o melhor cenário de batalha, um conflito com seu passado; aquele que lutaria contra, e outro que desejava esquecer.
Apoiou a mão na alavanca, respirando fundo. Soltou o laço de seu cabelo, libertando-o sobre seus ombros largos. Puxou a alavanca saindo para o jardim deserto. Se apoiou na estátua ao lado da passagem que se fechou gradualmente, o deixando no silêncio ensurdecedor do jardim inóspito e longe das batalhas.
Olhou ao redor, a nostalgia daquele ambiente gelou seu sangue. Se manteve nas sombras, deixando os olhos vaguearem pelas árvores, os arbustos coloridos, o conjunto de móveis no centro do jardim para chás e reuniões privadas; podia ver dali o rastro de uma memória se formando, a risada doce e agradável de Maria invadindo seu corpo, estremecendo seus ossos.
“Nico, querido, não coma tão rápido, vai te enjoar.” pediu Maria afagando os cabelos de Nico que lhe sorriu largo e alegre. Estavam sentados na grama, o vestido imenso de Maria ocupando um bom espaço ao redor deles, com Nico sentado em cima do tecido verde, despreocupado.
“Eu gosto de torta!” respondeu o pequeno enquanto a mãe limpava seu rosto sujo de calda de pêssego. “E o papai não gosta quando como doces…”
“Eu sei, querido, mas um pouco não lhe fará mal.” garantiu a Duquesa, sorrindo amorosa para seu filho menor.
“O papai disse que ele pode morrer se comer doces.” Bianca comentou do balanço, indo para frente e para trás, os pés suspensos no ar.
Maria suspirou “Querida, ele não vai morrer. Seu irmão é saudável.” o tom de Maria era absoluto, encerrando a conversa que Bianca insistia em trazer à tona. “Agora, o que acham de eu ler um livro para vocês? Trouxe alguns contos.”
“Quais?!” exclamou Nico subindo nas pernas de Maria, se acomodando em seu colo acolhedor. Maria beijou sua testa pegando o livro em mãos.
“Que tal lermos para descobrir?” sugeriu a Duquesa de forma travessa, mostrando a capa vermelha sem título, mas tão bem conhecida pelas crianças.
Bianca se aproximou correndo, sentando-se ao lado da mãe com curiosidade. Ela começou a leitura tão calma e melodiosa, ninando Nico e Bianca para um torpor confortável nos braços da mãe. Um conto comum entre as crianças que ouviam todas as vezes com a mesma alegria e surpresa da primeira.
Não demorou para os dois adormecerem ao lado de Maria, com a história inacabada e o sorriso da Duquesa radiante e cheio de amor.
Nico sorriu dolorosamente para a situação, como se ainda conseguisse ver a cena de quase vinte anos atrás. A risada de Maria tão fundida em sua mente se replicava em ecos enquanto andava pelo jardim, se aproximado da saída que Castellan usaria.
Ainda conseguia ouvir o som distante dos disparos, dissipados antes de conseguirem avançar na mansão. Respirou fundo se apoiando entre dois pilares, seus olhos vidrados no balanço que se mexia pela brisa sob a sombra da árvore alta e cheia.
A última vez que esteve naquele balanço foi com Hazel em uns poucos momentos em que podia se dedicar à ela sem prejudicar seus estudos. Se lembrava dela empolgada, pedindo para que a empurra-se mais alto, mais forte. Ela gargalhava tão alto, tão doce, que as empregadas riam junto de Nico e Dylan enquanto passavam nos corredores.
Se lembrava também de quando Bianca o visitou depois de casada, como Condessa Castellan, com um bebê de colo sentada no balanço, o colocando para ninar na brisa doce do verão. Nico se sentou ao seu lado na grama, ouvindo a música de ninar que sua irmã cantarolava enquanto organizava algumas informações em seus livros de contas.
Tinha um tom doce, remetente a Maria, que causava em Nico o sentimento nostálgico que tanto sentia falta em sua adolescência. Mesmo em suas memórias, a voz de Bianca o acalentava. A traição dela o fez odiá-la, mas não da forma como odiava o Castellan.
Nunca conseguiria odiá-la de verdade, no final.
Porquanto, Nico continuou a observar o jardim imutável. Não demorou para que ouvisse o estalo baixo de uma passagem sendo aberta.
Todas as lembranças e memórias se desfizeram como neblina, desaparecendo na mente de Nico. Enquanto a passagem se abria, distante de onde Nico estava, uma parte dele começava a ferver numa ânsia desesperada; cólera fundida se apossava de seus sentidos, o guiando pelo instinto da caça.
O Rei Fantasma que ceifa nas sombras, na escuridão dos mares, carregando os cadáveres sob seu nome no barco dos mortos. O pirata que ganhou a confiança de Reyna Ramírez como Capitão emergente. Aquele que detém controle das rotas piratas caribenhas ao norte. Sem rosto, sem nome, sem corpo.
Uma alma ceifadora que pune e castiga; enquanto peca e mata.
Nico puxou o ar pesado em seus pulmões. Os soltou, forte, inebriante. Sentiu seu corpo vibrar quando viu a feição assustada do Castellan deixando a passagem. Sozinho. Sem soldados, sem escolta, sem Bianca.
Somente ele e o diabo.
Desembainhou sua espada, caminhando vagarosamente nas sombras do corredor, oculto dos olhos temerosos do Conde. Passou a ponta de sua lâmina no piso frio do corredor, arrancando um esganiçar do atrito, agudo e angustiante. Um som que fez o Castellan parar no lugar, assustado.
Nico esperou que ele se virasse, saboreando o leve tremor nos ombros do Conde. Castellan se virou, a mão no pomo de sua espada. Se encararam por longos segundos, no silêncio assassino de um jardim morto. Luke estava igual se lembrava em sua comemoração cinco anos antes, o mesmo cabelo loiro penteado para trás, a cicatriz grotesca em seu rosto, as roupas de linho fino em tons de azul pastel.
Seus olhos, no entanto, eram diferentes. Olhos que antes exalavam tanto poder e magnitude diante seu pai e irmã; olhos que amedrontavam homens e cativavam nobres. Mas olhando-os de perto, Nico percebeu o exato momento em que Luke o reconheceu. Viu o medo alastrar-se por seu rosto, as pupilas contraídas, quase desaparecendo nas íris azuis ciano.
Olhos odiosos, não os azuis calorosos que admirava com esmero. Eram olhos de um homem ciente de seus feitos, culpado e condenado. Nico sorriu funesto, deliciando-se com o momento que pode ter somente para ele.
A vingança de um homem em ira.
— Parece que o coelho finalmente saiu da toca. — Nico murmurou, o sorriso deplorável enquanto sua voz ecoava no corredor.
Luke estremeceu, mas logo em seguida se recompôs, vestindo sua máscara mais uma vez. Ele sorriu, convidativo e radiante, os braços estendidos em boas-vindas calorosas.
— Nico, meu cunhado amado. Estávamos tão preocupados com seu desaparecimento, seja bem-vindo de volta. — disse o Conde, curvando-se educadamente ao Duque: — Fiz o meu possível para cuidar de seus afazeres enquanto esteve fora, tanto da mansão quanto de Bianca, não se preocupe.
Nico não respondeu.
Deu dois passos adiante, saindo totalmente das sombras do corredor. Nico imaginava que tipo de imagem Luke Castellan tinha dele naquele instante. Não era o mesmo adolescente de dezoito anos, franzino e amedrontado que fugiu. Talvez fosse a visão cômica de um garoto fingindo ser um homem, diante de um nobre que conseguiu o que queria com pouco esforço. Não conseguia reproduzir o que Luke estava vendo, mas o silêncio respondeu por ele.
— Pare de latir, Luke. — Nico rosnou, a voz baixa e rasgada, andando para o lado em passos letárgicos, o analisando antes do abate: — Preferia quando se escondia na saia de Bianca, com o rabo entre as pernas. Não finja que pode sair desta situação da forma que planeja. — garantiu Nico, girando o punho da espada, o fio da lâmina rasgando o ar em um chiado agudo: — Não vivo, isso lhe prometo.
Luke suspirou, parecendo desistir de persuadi-lo. Fechou a expressão, deixando que Nico visse a pessoa grotesca que o Castellan era. Retirou a espada da bainha, ficando em posição de combate.
— Eu luto há mais tempo que você, pequeno Duque. — relembrou Luke, confiante em suas habilidades: — Não tem como me vencer.
A risada que escapou da garganta de Nico foi grotesca e medonha, tornando-se maníaca a medida que se estendia em uma gargalhada alta, seu corpo tremendo com a afirmação tola de um homem simplório. Luke estremeceu, assustado.
— Ah, caro cunhado, perdi as contas de quantas pessoas matei ao longo destes cinco anos. — comentou entre o resquício do riso, seu sorriso quebrando a confiança de Castellan como cristal: — Não lutou tempo o bastante, deveria ter treinado mais. Treinado para me matar.
No momento seguinte Nico avançou, descendo a espada em riste contra a lâmina inclinada de Luke, colidindo com força e habilidade. Luke se inclinou para trás, recebendo o impacto. Nico não lhe deu tempo para reagir, empurrou com a espada para o lado, abrindo distância entre as lâminas e investiu pela lateral, colidindo com a guarda-mão da espada.
Luke estalou a língua, empurrando Nico e se afastando dois passos que foram preenchidos por Nico numa terceira investida, desta vez horizontal, forçando Luke a erguer a espada. Pior posição e jogo de pés.
Afastou as lâminas e investiu de novo, encurralando Luke contra um dos pilares do corredor. Levantou o joelho, chutando o espaço entre as pernas de Luke, desestabilizando-o. Ergueu a espada e a investiu para baixo. Luke saiu da frente da lâmina, o corte arranhando o pilar de mármore.
Nico ofegou, sorrindo para o calor em seus membros sob a adrenalina, o suor em sua nuca se mesclando com seus cabelos soltos. Se virou para Luke, suas batinas em frenesi. Alargou o sorriso e começou a rodeá-lo.
— Não ia me matar, Nico? — provocou o Castellan, num resfolegar pesado. Nico riu, divertido.
— Qual a graça na morte rápida, quando se pode machucar e assistir uma tentativa tola de fuga. Rastejando pelo chão, esperando pela morte. — seu comentário fez Luke soltar o ar, raivoso, e avançar contra Nico.
Um sorriso foi tudo que o pirata esboçou. Girou o punho da espada, pegando impulso de baixo para cima, acertando novamente o guarda-mão da espada de Luke. Deixou sua espada inclinar-se para trás, a lâmina do Castellan escorregou para baixo pelo fio da espada, tirando o equilíbrio do Conde.
Nico girou com a espada, o fio da lâmina rasgando a parte frontal da roupa do Castellan, arrancando sangue no processo. O Conde ofegou se afastando, usando a mão para parar o sangramento.
Nico estalou a língua, irritado. Superficial demais. Mas assustador o bastante para fazer Luke dar mais dois passos para trás.
Nico inclinou a cabeça para o lado, curioso.
— Não me pediu para matá-lo, Castellan? Parece chocado que eu possa.
Luke arfou, e num ato insano puxou a arma de seu coldre. Apertou o gatilho e a fumaça da pólvora nublou sua vista por breves momentos. Era bom de mira, sabia que era, nunca errou um único tiro nos eventos de caças em toda sua vida. Aquele tiro deveria matá-lo, cravado bem entre os olhos.
A risada cortante de Nico o fez estremecer.
Havia um corte no rosto de Nico que escorria sangue. Um fio grosso e letárgico em seu caminho até a mandíbula. Sua cabeça levemente inclinada, as pernas firmes no chão, um simples virar de sua cabeça bastou para desviar da mira péssima do Conde.
— Diga-me, Castellan. — Nico falou, o tom baixo e tranquilo, eriçando os pelos de seu corpo um-a-um: — Quando se tornou previsível?
O som de um segundo disparo ecoou no corredor, mas diferente de Luke, a mira de Nico era impecável. Sorria convencido, arrogante. O filete de sangue estourando em seu rosto, manchando sua pele.
Luke cambaleou para trás. Desceu o olhar para a mancha em sua roupa, na lateral do abdômen, observando a poça de sangue se alastrando rápido em sua camisa clara. Foi nesse momento em que tremeu, o horror finalmente o acometendo. Nico não mirou para matá-lo, não era um ponto letal. Mirou para desestabilizá-lo, para brincar de cão e gato.
O riso de Nico invadiu sua mente como o sibilar um demônio; o próprio Lúcifer se vingando por sua queda do céu.
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