Pit-a-Pat

41 Capítulo XL


Notas iniciais
Boa noite amores ♥ Ah, ta tarde eu sei, mas eu estava enrolada hoje ai acabei demorando pra postar. Obrigada pelo carinho de vocês e pela compreensão da minha demora em postar capítulos ano passado ♥ Eu estava revisando os capítulos para a questão das duas guerras parecerem lentas, mas não estão realmente lentas, é que eu só postei 4 capítulos ano passado e deu esse sentimento de lentidão urehurehreu mas não está, não realmente. Vou fazer o seguinte, vou colocar no começo de cada capítulo qual a semana que a história está se passando. Se não me falha a memória já está na 15º semana desde que Nico chegou em Ravenna, ou seja três meses e meio, quase 4. E nisso um mês desde que a tripulação do Caronte chegou em Tortuga. Então a lentidão é culpa da pouca atualização kkkkkkk mas vou escrever o tempo que se passa já que pode estar ficando confuso, mas a partir do próximo (essa ideia me ocorreu hoje e preciso reler tudo). Enfim, vamos ao Nico? Boa leitura!

Nico

~Capítulo XLIII~

:: 67º dia na Itália — Semana 9 ::

[...]

A reunião que tiveram na noite anterior causou nos nobres uma determinação a qual Nico não esperava ver. Além de estarem focados unicamente no plano, argumentavam e discutiam com os Generais as melhores rotas de invasão e fuga pelo mapa aberto de sua mansão.

Era surpreendente como um boato bem colocado na mesa poderia mudar algumas opiniões tão drasticamente.

Augustus permanecia ao lado de Nico, olhos frios sobre o papel na mesa.

— Deixou que obtivessem cópias da planta de sua casa? — comentou Howard em claro reproche.

— Não realmente. — admitiu no mesmo tom: — Já estavam dispostas à mesa quando cheguei. Foram fornecidas por Dylan para um melhor entendimento do plano.

— Não se esqueça de se livrar delas. — ordenou Howard. Nico travou o maxilar, evitando a resposta grave presa em sua garganta.

— Já foi ordenado. — garantiu aproximando-se da mesa: — Alguma dúvida quando ao que discutimos há uma semana?

— Se iremos invadir pela entrada frontal, não há a necessidade de todos os homens no ataque. — garantiu Matteo apontando no mapa: — Há mais do que uma entrada além da principal e a de serviço que usaremos. — apontou para outros pontos marcados no mapa: — Fragmentaremos as tropas para ataques múltiplos. Limitará a quantidade de opções de fuga.

Nico ponderou, os dedos novamente a mexer no anel de caveira.

— Ataques de várias direções são úteis numa emboscada. — admitiu: — Mas não acho que se aplicaria para o Castellan. Temos que fazê-lo sentir que pode fugir, caso contrário será mais difícil achá-lo enquanto se esconde pela mansão atrás de brechas.

— Não tem como ele fugir. — garantiu Mogliezzi: — É só questão de tempo até ele desistir e acabar se mostrando. Cercar as saídas e deixarmos somente uma é promissor.

— E óbvio. — o General Pamparoni refutou: — Ele vai perceber que é uma emboscada, e evitar sair por ali. Tentará qualquer outro lugar.

— Não creio que seja tão inteligente à esse ponto. — debateu Pietro, a expressão ainda severa da conversa de mais cedo: — Não irá perceber nada.

— Ele conseguiu armar e colocar meus homens contra mim. — relembrou Nico, seu tom manso, mas gélido: — Acha que não é ardiloso?

— Concordo. — Augustus interviu, chamando a atenção de todos da mesa: — Manter a formação original e dar a ele a sensação de ainda estar no poder vai garantir que siga o plano traçado por Nicollà. Quanto mais limitadas forem suas opções, mais desconfiado ele vai se tornar.

Matteo suspirou: — Pois bem, se vocês dizem. Temos setecentos homens para o ataque por fora, mais duzentos no interno. É o bastante para dominar a Mansão.

— Uma parte tem que ficar para trás no acampamento. — relembrou Enrico, sentado na cadeira: — Um pouco de cada nobre, por garantias.

Nico endureceu o olhar, entendendo onde Enrico queria chegar. Deixar homens de um único grupo pode gerar desconfiança, principalmente com várias tendas e pertences de outros espalhados pelo acampamento.

Teria também seu atendente que precisaria de redobrada atenção. O encarou de soslaio, perto de outros mapas, os braços para trás em decoro; o rosto sério. Deixá-lo para trás era assegurar que ficaria bem. Precisaria de um soldado confiável para garantir sua segurança, e de seus pertences.

— Nisso devo concordar. — Nico expressou-se, cruzando os braços: — Evitará problemas futuros, principalmente contra soldados em índole duvidosa.

— Suspeita dos homens que trouxe? — Augustus perguntou ameaçador. Nico riu, deboche nítido em sua voz.

— Não confio em ninguém, Augustus, principalmente soldados de baixa patente. — respondeu severo, voltando-se aos nobres e Generais: — Deixemos uma coisa clara, estamos todos aqui com um objetivo em comum, mas não temos que sentar à mesa e tomar chá como velhos amigos. Passamos desse ponto de socialização há muito tempo. — os nobres concordaram brevemente: — Cada um de nós precisa cuidar dos seus, organizar seus batalhões e reunir-se para discutir a integração dos homens.

Nico comentou dando a volta na mesa, observando.

— Além disso, confiança demais gera conforto. Não tenha isso numa guerra. — relembrou com severidade. Matteo estalou a língua.

— Sabemos disso, Duque.

— Então melhor começar a demonstrar. — rebateu sem paciência: — Honestamente, este acampamento tem homens demais para controlar. Só tenho vinte homens à meu serviço direto que vieram do grupo de segurança do Duque, que não fizeram parte do ataque e não devem submissão à ninguém além de mim. Jurados à sangue.

Os homens tensionaram. Augustus arqueou a sobrancelha, surpreso. Era algo que seu pai fez há muito tempo, quando ainda criança. Hades nunca confiou em ninguém, e ensinou Nico a desconfiar e manter-se alerta. Ainda que tenha sofrido com a emboscada de Castellan pela confiança em Bianca, o grupo de escolta era jurado à sangue por Hades, garantindo seu serviço e vida.

Fez com que jurassem proteção à Nico quando ele tinha quinze anos, logo após o incidente com Jackson. Aqueles homens eram o que mais tinha de confiáveis no momento.

— Algo que meu pai, o antigo Duque, fez há muitos anos. — disse sem dar importância ao fato que lhes contou propositalmente. Pactos de sangue são úteis, afinal: — E portanto, são poucos os quais preciso manter as rédeas firmes. Conseguem fazer o mesmo com duzentos?

Os nobres ficaram em silêncio, enquanto Howard o media, pensativo.

— Iremos ajudar a conter os soldados. — o General Mogliezzi afirmou: — Estamos aqui como apoio bélico, e como superiores de todo o batalhão no acampamento. É nossa obrigação mantê-los na linha, não de Vossas Graças.

Nico arqueou a sobrancelha, mas nada disse.

Que se virassem ao controlá-los.

— De todo modo, os mantenham na linha, deixem soldados de prontidão em suas tendas, e não teremos problemas futuros. — resumiu o Duque, encerrando o assunto.

Augustus suspirou:

— De acordo. — respondeu por fim, levantando-se: — Irei alertar meu Capitão sobre a escalação de homens para ficaram no acampamento.

— Haverá um treinamento de cooperação entre eles amanhã cedo. — revelou o Pamparoni: — Avise-o, Vossa Graça.

Augustus meneou com a cabeça partindo da tenda. Nico o seguiu com o olhar, mas nada disse enquanto os outros nobres retomavam a conversa anterior.

— Temos menos de uma semana para organizá-los, precisamos nos estruturar. — alertou Matteo se ajeitando para partir: — Irei me recolher pela noite. Amanhã cedo precisaremos reuni-los e repassar o plano de ataque. Quanto antes os deixarmos confiantes do ataque, melhor.

Pietro concordou: — Antes que eu me esqueça. — comentou se virando para Nico: — Não pretende deixar Dylan para trás, certo primo? Concordamos que ele iria o acompanhar quando atacasse o Castellan como suporte.

Nico torceu o lábio desgostoso.

— Me lembro disso. — Enrico falou, o olhar preocupado: — Não pode ir sozinho, e Dylan é o melhor dos seus soldados.

O Duque suspirou: — Nisso devo concordar. Mas sim, ele irá me acompanhar no ataque, deixarei alguns dos meus homens para trás, não Dylan.

Matteo anuiu com a cabeça, satisfeito.

— Bom. Não precisamos de mais problemas do que já temos de lidar. — concluiu meneando com a cabeça: — Se os senhores me dão licença.

Os Generais se curvaram, enquanto os nobres somente lhe cumprimentaram com acenos comedidos.

— Façam o mesmo. Iremos nos reunir pouco depois do nascer do sol. — sugeriu Nico mais cortês, colocando um sorriso calmo no rosto: — Descansem.

Enrico sorriu para ele, enquanto Pietro suspirou.

— Certo, primo. O vejo logo mais. — se despediu o Visconde, saindo da tenda.

Os Generais saíram logo depois, ficando somente Enrico, Nico e Christiano para trás.

— Apague os Lampiões Chris, exceto o nosso. — pediu Nico enquanto o garoto começou a organizar a tenda, assoprando o fogo das velas acesas. Nico se virou para Enrico ainda sentado na poltrona: — Algo que queira discutir?

O Marquês sorriu para Nico, um sorriso que o Duque conhecia bem. Sentiu um arrepio em sua espinha, dando um passo para o lado, incomodado. Não queria ter nenhum tipo de conversa com o antigo amigo, principalmente por não serem somente amigos, afinal.

— O que acha de um chá? — sugeriu Enrico, levantando-se.

— Acho meio tarde para isso. — refutou Nico, mantendo-se frígido.

— Ora, eu insisto. — pediu apoiando uma de suas mãos no ombro de Nico que enrijeceu: — Não conversamos há tantos anos, senti sua falta.

Nico bufou: — A última vez que o vi foi com quinze, Enrico. Se sentisse teria aparecido no chá que gerenciei em meu jardim quando assumi o título de Duque.

Afastou a mão de Enrico observando Christiano terminar seu serviço, o olhar dele em alerta.

— Desculpe por isso, não tive muito tempo para confraternização depois que assumi o meu título. Levei muitos anos para organizar meus domínios. — confessou visivelmente perturbado: — Sabe o estrago que meu pai fez, quase falindo nossa família, jogando nosso nome para o fundo do poço.

— Acho que entendo. — compreendeu seguindo para fora guiado pela luz do lampião na mão de Chris.

Deixaram a tenda para o barulho dos homens se ajeitando para se recolher. Próximo dali, havia um fogo aceso e uma mesa repleta de soldados rindo e comendo do que serviram mais cedo.

As risadas eram altas, e Nico sentiu falta do tempo do Caronte, quando sentava-se junto de Piper e Jason ao redor dos lampiões, os homens todos contando histórias mentirosas, fazendo apostas e bebendo até todos acordarem com ressaca no piso do navio.

Aquela liberdade, a certeza de que poderiam ir e vir quando quisessem sem se preocupar com homens para cuidar, domínios para manter; pessoas para enganar.

Era só matar quem o atrapalhasse, pilhagem para manter seus homens satisfeitos, e muito sangue para alimentar o desejo compulsivo de Sherman. Suspirou em clara nostalgia.

Sempre que pensava sobre o navio, sobre seus homens, desejava voltar. Não pertencia mais à terra firme, o mar era seu novo domínio. A liberdade salgada que a pirataria lhe trouxe nunca se equiparia àquilo. Aquele cheiro de pólvora, comida fresca e incenso. Nenhuma bebida, nenhum barulho de tiro; nem risada subsequentes.

Enrico lhe tocou o ombro outra vez, pegando-o de surpresa. Afastou-se dele rapidamente, pressionando a ponta de metal de sua bengala contra seu pomo-de-adão, adrenalina correndo em suas veias. Ouviu Christiano arfar, suas mãos enluvadas o segurando pelo cotovelo, pedindo silenciosamente para que abaixasse a bengala.

Enrico o encarava em choque, olhos arregalados, congelado no lugar. Nico praguejou voltando-a para o chão. Checou brevemente em volta, notando olhares em sua direção. Respirou fundo pegando Enrico pelo braço e o puxando para longe dos olhos curiosos.

Christiano os seguiu todo o caminho até a tenda. Nico o jogou lá dentro.

— Feche a tenda, Chris! — ordenou jogando a bengala em um canto qualquer. Apontou para Enrico, raiva clara em suas feições: — Não me toque, Enrico. O que tínhamos no passado acabou, preciso que entenda isso.

O Marquês tencionou, olhando para Christiano que andava pela tenda, ajeitando as coisas para Nico se sentir confortável.

— Nico, agora não é hora--

— Eu decido quando é hora para conversas como esta. — interrompeu arrancando a gravata, caminhando à passos pesados para a cama. Christiano o seguiu, pegando-a de suas mãos.

Deixou que o garoto retirasse seu paletó, o deixando com a camisa e o colete. Respirou profundamente, virando-se para Enrico novamente.

— Você sumiu. — repetiu Nico: — Eu precisei de você, e você desapareceu, Enrico. — frisou aproximando-se: — Você era meu único amigo na época, diabos! Éramos mais que isso!

— Me desculpe ok, mas eu realmente não tinha como--

— Eu te mandei cartas, Enrico. — falou Nico grave, baixo e ofensivo: — Pedindo para vir me ver, mas nunca veio.

Nico não sentia ressentimento nem tristeza ao lembrar-se de tal fato. Era fácil fingir que Enrico nunca existiu em sua vida nem fora importante. Ainda que fosse mentira. Sentia raiva por todos que deveriam tê-lo ajudado, mas viraram as costas.

Era cólera pura.

— Não me venha com desculpas, não me venha com toques nem muita intimidade. — ordenou severamente: — Não somos amigos, não somos amantes. Somos nada.

Enrico soltou o ar, resignado.

— Não queria que “fossemos nada”. — negou se aproximando: — Queria sua amizade de volta. Me deixe ajudá-lo, por favor. Você me chamou até aqui, depois e cinco anos desaparecido.

Nico franziu o cenho.

— Você sabia?

— Claro que eu sabia! — exclamou ofendido: — Eu sabia que você havia sumido. Fui até a mansão e consegui conversar com Dylan. Ele me contou o que aconteceu, me pediu para guardar segredo. Tenho te esperado desde então! Receber sua carta depois de cinco anos, como acha que eu me senti?

— Não sei, e sinceramente não me interessa. — confessou esfregando a testa, consternado: — Olha, agradeço a preocupação Enrico, mas não sei como retomar uma amizade se não me der satisfações. Por que sumiu? Por que não respondeu nenhuma de minhas cartas?

Enrico umedeceu os lábios, desviando o olhar. Nico riu.

— Que surpresa. — ridicularizou: — Saia.

— Sabe que eu sou casado, não sabe? — indagou fraco, sem fazer contato visual.

— Sim, me lembro bem. Você se casou antes que me tornasse Duque. — reafirmou: — E?

— Eu fiquei com medo de suas cartas. — respondeu suspirando: — Não li nenhuma delas quando chegaram, somente as guardei. Tive medo de continuar sentindo o mesmo por você, depois de casar.

Nico permaneceu em silêncio, nada impressionado.

— Típico. Ter medo do nosso relacionamento que nunca foi nada além de brincadeira, eu sempre soube. Você sempre foi um daqueles que saia correndo com medo quando as coisas pareciam ficar sérias. Nunca esperei muita coisa de você. — cuspiu venenoso, passando por Enrico até onde Christiano depositava uma xícara de chá.

O olhar do atendente era severo. Parecia querer enxotar Enrico da tenda. Nico ficou tentado em vê-lo tentar.

— Eu te chamei como parceria, não amante. Não pense que sinto algo por você além do respeito por termos sido próximos. — relembrou por fim, encostando o quadril na borda da mesa, desinteressado: — Irei me repetir pela última vez, então preste atenção. Não me toque, não aja como se fossemos íntimos. Não somos. Fui claro?

Enrico endireitou a postura, o rosto tornando-se duro.

— Você realmente mudou. — disse por fim, não gostando o rumo da conversa: — Não sei o que aconteceu com você nesses cinco anos, mas não vou aceitar suas ordens. Não enquanto estamos neste desentendimento.

— Saia. — disse mais uma vez.

— Nico--

Retirou sua pistola engatada e escondida debaixo da mesa, onde a deixou para emergências. Apontou para Enrico que deu vários passos para trás, em terror. Christiano somente os observou, sem se importar com a arma nas mãos do Duque; já tinha visto pior vindo dele.

Nico sorriu: — Tem razão. Você não sabe pelo que passei, então não abuse de minha paciência, pois eu não tenho medo de puxar o gatilho.

Enrico respirou fundo, saindo da tenda antes que Nico resolvesse se livrar dele definitivamente. Abaixou a pistola devolvendo-a ao seu lugar. Virou-se para a mesa tomando um gole do chá.

— Hm, muito bom. — elogiou o Duque recebendo um sorriso do atendente: — Curioso?

Christiano concordou.

— Quer saber da história?

O rapaz puxou o caderno na mesa, escrevendo sua resposta.

“Me contaria se eu perguntasse?”

Nico sorriu: — Você me prometeu silêncio no meu relacionamento com o Will, é a única coisa que importa para mim é que ele fique bem, Chris. Nada mais. Se quiser saber, irei te contar.

O atendente concordou apoiando-se no encosto do sofá de frente para Nico, o caderno no colo.

Nico riu do garoto. Ele era tão familiar com Connor e seu jeitinho curioso, que foi inundado pela saudade dos seus garotos.

Não via problemas em contar sobre sua vida quando Duque, mas falar sobre o tempo na pirataria era algo destinado somente ao Will. Suspirou cansado, a saudade o atingindo com força naquele instante.

Ter a presença de Enrico, principalmente na intenção que o Marquês tinha, o deixou desconfortável. Estava estável com William, e pretendia permanecer assim. Não imaginou que teria que lidar com antigos namorados durante sua guerra contra o Castellan.

Sentia-se patético.

— Certo, acho que deu para compreender um pouco do que aconteceu entre nós. — começou Nico, tentando montar a história em sua cabeça: — Eu sofri um ataque aos meus quinze anos que me traumatizou. Não gosto de toques de estranhos por conta disso, admito. E na época estava tendo com caso com Enrico.

— Ele tem praticamente minha idade, crescemos juntos nas festas da nobreza, sempre presentes em aniversários e bailes. Éramos inseparáveis. — comentou com amargura. Não foram tempos fáceis.

Não era sempre que saía de casa por conta de sua saúde, mas era obrigado a frequentar as festividades da nobreza. Eram os únicos momentos em que sentia-se livre de verdade, fora da prisão de seu quarto.

Ainda que não pudesse ter a presença constante das pessoas ao seu lado, Enrico era um dos poucos que seu pai deixou que se envolvesse em sua infância solitária. Conheceu o Marquês em uma festa comemorando o nascimento de sua irmã caçula, quando tinha seus oito anos. Enrico era pouco mais velho, e lhe fez companhia o tempo todo.

Brincaram com as outras crianças pela tarde, mas foi com Enrico que ficou de mãos dadas boa parte do tempo. Se tornou um amigo muito rápido, e em todos os eventos da nobreza, os dois ficavam lado à lado, já sendo considerado futuros aliados por seus pais.

A adolescência, porém, dificultou as coisas entre eles quando Nico lhe deu um beijo escondido no labirinto de sua mãe. Estavam somente os dois, escondidos do resto da festa monótona. Parte de Nico não gostava de se afastar da casa nesses eventos por causa de Hazel, mas a paixonite que sentia por Enrico era o bastante pra afastar um pouco de sua culpa.

Quando o beijou, porém, não havia esperado nenhuma retribuição, ainda assim, Enrico permitiu sua proximidade, tendo as costas prensadas na grama e as mãos entrelaçadas. Nico sorriu largo naquele dia, mesmo que tenham decidido pelo silêncio.

Não ficou surpreso quando descobriu sobre o noivado de Enrico, e o rapaz também não parecia se importar com os casos que Nico tinha com outros rapazes e garotas da nobreza — as vezes mesmo dos serviçais da mansão. Nunca amou Enrico, e disso sequer tinha dúvidas, mas que ele foi sua primeira paixonite ele com certeza foi.

Ter o Marquês de novo em sua vida durante o ataque à mansão seria complicado, não somente pelo fato de Enrico aparentar desejos para com o Duque, mas porque acabou lhe apontando uma arma de fogo.

Não seria descoberto a menos que Enrico assumisse seu desejo por homens, portanto seu segredo estava em boas mãos. Entretanto, sentia que o Marquês não desistiria tão fácil.

Precisaria ficar de olho.

— Eu lhe mandei cartas pedindo para que ficasse comigo durante aquele tempo difícil, mas não recebi nenhuma resposta. — disse ao atendente, mantendo-se impassível: — Eu o via nas festas, conversava comigo, mas depois dos meus quinze ele parou de aparecer nos bailes e perdemos contato definitivamente.

— Foi um relacionamento curto, mas o meu mais intenso naquela época. — admitiu leviano. Foi o mais intenso, sem dúvidas, mas ele conseguia pontuar as eventuais diferenças entre o que teve com Enrico e o que tem com William.

É uma intensidade diferente, porque desta vez há sentimentos, não só desejo ou volúpia. Tem carinho nos toques, nos beijos, na forma como Will lhe sorri sincero, se preocupa com seu bem estar.

Havia sido a primeira vez que dividira uma cama com alguém que ficou do anoitecer ao amanhecer, sem precisar sair as pressas pela passagem de emergência. Que se deitou com uma pessoa por querer sua presença, não saciar desejos adormecidos.

Existem diferentes tipos de intensidades, e Nico sentia-se bem em saber que não desejava nada que o Marquês poderia oferecer. Nada do que lhe ofereceram no passado equiparava-se ao que tinha atualmente.

Sorriu para Christiano.

— Ainda que tenha sido realmente intenso, e uma das coisas que formou meu caráter e autoconfiança na época, ele não faz mais parte de minha vida. Foi um passado que já se apagou há muitos anos. — respondeu calmo: — Mas ele não vai deixar as coisas como estão.

Christiano franziu o cenho escrevendo no papel.

“Acha que ele vai contar alguma coisa? Ou tentar alguma coisa?”

— Agora não. Durante o planejamento e o ataque ele vai ficar quieto. Mas depois, quando as coisas se acalmarem e eu ficar vivo quando falar com o Imperador, então sim ele vai tentar algo. — confessou dando de ombros, tomando um gole de seu chá já frio.

Se ele permanecesse vivo com a audiência com o Imperador, explicando o que aconteceu naquele meio tempo, ele iria sim insistir em retomarem o que tinham. Iria insistir em adultério como se fosse leviano.

Nico estava acostumado com essas coisas dentro da pirataria. Não diria não há uma pessoa comprometida dentro do antro pirata, mas na nobreza e principalmente agora que tinha alguém de verdade, a ideia lhe embrulhava o estômago.

— Mas não se preocupe. Sei lidar com o tipo dele. Conheço de monte. — confessou espreguiçando-se: — Bem, montaram um canto para você?

Christiano concordou apontando para um ponto mais distante do Duque, perto da área de banho.

— Certo, pode se retirar. Eu estou bem aqui, posso me deitar por conta própria. — disse dispensando-o: — Boa noite.

O garoto sorriu para ele, curvando-se educado se afastando do Duque que lhe acenou distante.

Deixou a xícara de lado e voltou para seu quarto improvisado, trocando suas roupas de forma letárgica, imerso em pensamentos longes, bem longes. Sentou-se confortável de ceroulas e camisa branca na beirada da cama. Passou a mão pelos cabelos soltos antes de se jogar para trás, observando o teto iluminado por seu lampião em cima do baú ao seus pés.

Estava muito quente ali dentro, mas não poderia arriscar revelar sua tatuagem para Christiano, não quando ele desconhecia sua vida pirata. Desabotoou ela de leve para poder ver a ferida.

Estava bem, cicatrizando de uma forma saudável como nenhum de seus ferimentos mais graves no passado. Respirou fundo abotoando novamente. Apagou o lampião deitando-se entre as cobertas de linho, grossas e confortáveis como não sentia há anos.

Diferente do que tinha na pirataria ou com Will. Era a mostra do dinheiro, a riqueza de onde veio. Cobriu-se até a cabeça, escondendo-se dentro das cobertas, tentando sumir daquele lugar.

Tinha compromissos, obrigações e várias coisas responsáveis no dia seguinte. Mas não queria lidar com Enrico, não queria ter que agir como a pessoa que havia desistido de ser há tanto tempo.

Tornar-se um nobre depois de já ter adaptado-se ao mundo de fora era quase impossível. Iriam perceber, principalmente durante a luta.

Pois Nico não lutaria como um nobre.

Lutaria para matar.

O dia seguinte foi silencioso em sua tenda.

Christiano lhe preparou um bom desjejum com o auxílio de sua empregada. Comeu sozinho na mesa de forma letárgica saindo então para a tenda dos generais com Chris ao seu lado.

O lado de fora estava lotado de homens ajeitando-se para o primeiro dia de treino, e Nico conseguia ver em seus olhares a ansiedade pela batalha, a seriedade com a qual levavam aquele ataque à mansão.

Aos poucos viu mais cinco soldados aparecendo ao seu lado, três atrás e dois na frente, sua pequena escolta particular. Identificou Alessandro e Romeu na dianteira, os atuais líderes de seu grupo privado.

— Bom dia, Vossa Graça. — cumpirmentou Alessandro, curvando-se até a metade durante o caminhar, sem falhar o passo: — Seremos sua escolta por esta semana e durante o ataque. Qualquer coisa que necessitar, saiba que estaremos à vosso serviço como sempre.

— Agradeço, soldado. — disse complacente: — Quantos de vocês me acompanharão diariamente?

— Sempre quatro, Vossa Graça. — explicou Romeu, sorriso moderado: — Revezaremos em turnos para não sobrecarregar nenhum dos soldados, mas sempre terá em vossa presença Alessandro ou eu na escolta.

Nico anuiu: — Ótimo. Vocês são os homens a quem mais confio tirando Dylan. Espero contar com vocês nesses dias. Tem homens demais juntos neste acampamento.

O olhar de Alessandro endureceu: — Nisso eu concordo, Vossa Graça. Deixamos alguns soldados de prontidão em sua tenda, enquanto outra parte faz uma ronda nos arredores. Nada que aconteça à menos de cem metros de vossa tenda passará sem que percebamos.

— Preciso que alguém fique de olho em meu atendente também. — frisou Nico ignorando o olhar chocado de Christiano: — Ele é só um garoto, garanta sua proteção quando estiver longe de minha presença.

— Como ordenar, Vossa Graça. — responderam os dois em uníssono.

— Se me permite, irei reformular as rondas, achar alguém para permanecer com o jovem atendente daqui por diante. — Alessandro informou, fazendo outra curta reverência e desaparecendo entre as tendas altas.

Romeu continuou a guiá-lo até a tenda dos generais. Os quatro dispersaram de sua vista enquanto entrava com Christiano na presença dos outros nobres e generais .

— Bom dia, senhores. — cumprimentou ao avistá-los. Howard estava sentado, uma xícara de chá em mãos. Pietro e Matteo estavam um pouco mais isolados perto de alguns papéis conversando em baixo tom.

Enrico manteve-se longe evitando seu olhar. Os Generais, porém, tinham a mesa com o mapa montado com os soldados em alto relevo posicionados no ataque.

— Bom dia, Vossa Graça. — os Generais o cumprimentaram com reverência.

— Nico. — disse o Grão-Duque. Os outros nobres menearam com a cabeça, educados.

— Temos uma formação de ataque, Vossa Graça. Gostaria que a explicássemos? — inquiriu Pamparoni. Nico concordou indo até eles, recusando a xícara de chá lhe oferecia no caminho até a mesa.

Cruzou os braços e ouviu sobre a estratégia. Howard inclinou-se em direção à mesa, parcialmente ouvindo. Os outros nobres apareceram em volta dela, observando atentos enquanto a explicação se prolongava.

Seriam três grupos frontais de ataque que aconteceriam em intervalos longos. Cada um deles com cento homens. Outra parte atacaria os fundos da mansão, com duzentos soldados, deixando as laterais livres para uma fuga.

Entretanto, caso o Castellan usasse de outra passagem para desaparecer durante a confusão, teriam soldados de prontidão nas florestas leste e oeste escondidos, prontos para abordar e derrubar qualquer um que atravesse aquelas fronteiras.

Os outros cem ficariam nas tendas, garantindo a segurança de seus pertences e evitando qualquer ataque surpresa que venha a acontecer.

Nico concordou com as divisões. Teriam mais duzentos homens dentro da mansão à seu favor para assustar o Castellan. Se tudo der certo conseguirá acertar suas contas com o Conde sem o envolvimento de muitas pessoas.

— Para mim é promissor. — admitiu, aquiescendo com a cabeça, satisfeito.

— Concordo. Uma boa organização. — Howard expressou-se, ainda sentado na cadeira: — Devo, porém, ressaltar um pequeno detalhe que não me foi informado até o momento.

Nico se virou para ele, sobrancelha arqueada.

— E o que seria?

— Por que você precisa entrar?

Nico tencionou, encarando o rosto frígido do Grão-Duque ao questioná-lo sobre sua participação direta. Não o respondeu, deixando que complementasse o que tinha em mente.

— Teremos vários homens no ataque, dentro e fora da mansão. Qual a necessidade do seu envolvimento direto se nenhum de nós estará lá contigo? — respondeu por fim, rindo em reproche: — Está arriscando sua vida à toda. Se está atrás de vingança, pode fazer isso quando ele for capturado. Decapitá-lo em seu carpete se assim o quiser, mas não há motivo para que vá com os soldados.

Nico travou o maxilar antes de respondê-lo.

— Eu sou o responsável por esse ataque e por todos esses homens no acampamento, Augustus. — Relembrou severo: — Não sei como encara as coisas, mas ao meu ver minha presença é obrigatória. Eu devo estar lá quando o Castellan cair, para que os homens que me traíram na mansão sabiam que estou lá. Que obtive de volta o que me foi tomado. Não é vingança, Augustus, é dever. É poder.

O clima na tenda era intenso. Pietro o tocou no ombro, em um breve alerta, mas Nico o ignorou encarando o Grão-Duque da mesma gravidade que fazia com seus homens no Caronte; a mesma intensidade de quanto ordenou a morte por fuzilamento em seu deck.

Augustus estremeceu na cadeira, e Nico sorriu satisfeito.

Era um jogo de poder estar presente na mansão, mostrando aos homens que o traíram o quanto mudou, o quanto sua presença ali era importante.

Mas colocar Augustus em seu lugar era prazeroso demais para não regozijar-se de seu nervosismo.

Demonstração de poder era algo que Nico sabia fazer de melhor.

E respeito ele conquistava até dos mais desleais.

E os fazia tombar diante seus pés.

Notas finais
Quem apostou que Nico e Enrico tinham algo ganhou na loteria em reurheuhrue tava na cara, mas nosso Nico já tem um boy magia, então não vai rolar nada com o Marquês, mas não deixa de ter uma história por detrás disso. Não vai ser abordado durante a guerra, mas depois, quando a poeira abaixar, ele vai causar alguns problemas. O que acharam do capítulo? Espero que tenham gostado. Quando tiver a próxima att (não sei quanto) já vai vir com a cronologia exata de semana/mês que se passa o capítulo. Assim ficam menos confusos. Obrigada por ler, vocês são uns amores! Beijinhos~