Pit-a-Pat

42 Capítulo XLI


Notas iniciais
Hey meus amores ♥ Como estão? Se protegendo? Voltei depois de 3 meses, mas voltei reuhruehrue Nossa, demorei muito, e ao invés de fazer algo nessa quarentena eu to o que? Relendo fanfic e moscando, urgh! Bom, devo dizer que eu acabei perdendo um pouco do entusiasmo de escrever PaP enquanto eu relia a história para pegar a cronologia (agora tem a data nos capítulos para não deixá-los confusos), e ao reler a gente acha furos e esses furos acabaram me deixando incomodada. Nada que influencie no enredo, nenhuma pergunta sem resposta, mas alguns detalhes aqui ou ali, cronologia não batendo muito bem, coisas assim que podem ser corrigidas futuramente. Mas acabou me deixando bem chateada. Consegui escrever esse capítulo e espero que os outros venham com facilidade. Não vou abandonar, longe disso, mas estou tentando voltar ao ritmo da história. Boa leitura!

Nico

~Capítulo XLIV~

:: 70º dia na Itália — Semana 10 ::

[...]

Durante os dias que se seguiram todos os soldados no acampamento participaram da reunião com seus superiores. Foram repassados detalhes do ataque discutidos em privado entre os nobres, e definido aqueles que fariam parte dele e os que ficariam para trás.

Pelos poucos dias antes do ataque, os Generais organizaram treinamentos para manter os soldados em alerta, o corpo aquecido e em forma. As manhãs começavam com treinamentos intensivos monitorados por Pamparoni, separando os soldados em grupos de cinquenta homens.

A tarde, Mogliezzi cuidava do estudo sobre o terreno onde invadiriam, e seu conhecimento sobre táticas de emboscada. Sua forma de explicar as estratégias que seriam usadas, de forma convincente, dava aos soldados a confiança que precisavam para crer na vitória no ataque — por mais que derrota não fosse algo esperado pelos nobres —, lhes dando ânimo para continuar os treinos e manter a auto-estima elevada.

Ao entardecer, porém, tinham de encarar as habilidades insanas com espadas e punhais de Artiaggli. Em alguns momentos, quando Nico não estava em reunião com os nobres, assistia de longe o treinamento árduo e doloroso do General veterano.

Sua forma de conduzir a espada era magistral, a coordenação de seu pulso, o jogo de pés, a postura hirsuta. Tudo nele demonstrava seu enorme controle físico e mental ao derrubar homem atrás de homem, todos soldados treinados; precisando de mais dedicação no final do dia.

Os únicos que sustentavam uma luta contra Artiaggli eram os outros generais, Dylan e seus homens. Viu Romeu divertir-se no um-a-um contra o General, ambos em um bom embate antes de ser desarmado. Recebeu um elogio do veterano e mais tarde Nico foi abordado por ele parabenizando-o pela dedicação de seus soldados na esgrima, sem as falhas de principiantes as quais Artiaggli se irritava.

Nico sorriu para ele, mas não aceitou o elogio. Esses homens foram treinados por seu pai, e somente ele sabia o que acontecia em seus pátios de treinamento para aqueles homens estarem no nível que estavam.

O sangue que pintava o chão do jardim no final do dia era rotineiro e intenso, uma de suas piores lembranças. Recordava-se com clareza de quando era mais novo, de vê-los sucumbindo ao cansaço, à exaustão da esgrima, dos ferimentos recém-cicatrizados.

Romeu era novo quando entrou para a guarda privada, e Nico sempre gostava de observá-lo lutar, mas foi cruel ver aquele adolescente dedicado passar horas na enfermaria com faixas pelo corpo e um sorriso plástico no rosto.

Alessandro já estava na guarda desde quando Nico se lembrava, nunca o viu realmente ferido nos treinamentos, mas sabia que havia passado pelo mesmo tratamento insano que seu pai os forçava dia após dia. O único motivo pelo qual Nico não possuía nenhuma dessas cicatrizes em seu corpo era por ser filho de um Duque e tratado com cautela.

Os ferimentos que possui são de um mundo onde nomes e títulos de nada lhe servem.

Ficou encostado perto das tendas da cozinha enquanto observava o desenrolar dos homens no chão, ofegantes, e o olhar reprovador do General. Nico riu comedido, virando-se para Christiano que lia um pequeno livro da coleção que Dylan trouxe para seu conforto na tenda.

Mesmo durante o clima de guerra, Nico preferia deixá-lo longe de tudo o que aquele lugar representava. Ele sorria, mostrava algum trecho para o Duque quando o achava intrigante, e Nico concordava e comentava sobre lhe deixando à vontade enquanto assistia aos homens serem massacrados pelo veterano.

— Ele é cruel. — comentou Romeu aproximando-se do Duque, era o encarregado de sua escolta naquela manhã: — Não permite que nenhum soldado vença uma única batalha.

Nico escarneou: — Se deixasse não seria um bom professor.

— De fato, mas está desmotivando os homens. — ressaltou Romeu apontando com a cabeça os soldados ao chão, aquele olhar que Nico conhecia bem.

— Tem só três dias que os embates começaram. Não podem ter sido desmotivados por tão pouco. — comentou frustrado, por mais que soubesse não precisar de muito para tirar a convicção e segurança das pessoas durante uma guerra.

— Nossos homens não terão problemas com isso, são de elite, mas os outros são soldados ordinários, alguns novos pelo que andei ouvindo pelas tendas. — explicou o soldado sombrio: — Ouso dizer que são mais novos que o garoto.

Apontou sutilmente para Christiano. Nico travou o maxilar, impelindo-se de dizer o que pensava. Soldados começavam cedo, principalmente aqueles que tinham uma posição hereditária dependendo do nome e poder de sua família. Não era surpresa ver adolescentes, até mesmo crianças, no meio de homens fardados e marcados pelas guerras.

Não viu nenhum jovem demais para entrar no combate, mas Romeu era um soldado escolhido a dedo por seu pai. O melhor na esgrima, o melhor em espionagem e barganha. Todos os seus homens naquele acampamento estavam preparados para usar tudo o que ouviam e viam à favor do Duque.

E ele faria questão de deixar esses jovens longe do embate.

— Liste-os pra mim. Vamos mantê-los no acampamento quando partirmos para a mansão. — ordenou Nico. Romeu se curvou para ele, passando as ordens à diante.

Outro dos soldados foi derrubado ao chão, causando em Artiaggli uma careta decepcionada. Nico riu, ponderando se deveria ou não lutar contra ele e talvez ver se conseguiria segurar o tranco. Ou ele perderia para o General, ou ele deixaria Nico ganhar.

Sem suas trapaças que desenvolveu na pirataria, vencer de um homem mestre na esgrima que exerce tal habilidade há décadas seria trabalhoso, mas se manteria de pé por mais tempo, claro.

— Deem uma pausa. — pediu Nico aproximando-se do General: — Preciso do General emprestado.

Os soldados pareceram aliviados quando Nico retirou Artiaggli do descampado.

— Como lhe posso ser útil, Vossa Graça? — inquiriu o homem devoto. Nico cruzou os braços.

— Pegue mais leve. Não os desmotive, General. — pediu sereno. O homem respirou fundo olhando para os soldados mais distantes, alongando-se das dores musculares.

— Com todo o respeito, Vossa Graça, mas não posso tratá-los como infantes. São soldados treinados, e o mínimo que espero deles é acompanhar meu ritmo. — respondeu negando: — Temo não poder fazer o que me pede.

Nico arqueou a sobrancelha, mas concordou compreensivo.

— Sabe que nem mesmo eu consigo lutar contra o General, certo?

Artiaggli riu: — Isso, Vossa Graça, eu duvido. — comentou divertido: — O senhor é um homem treinado na arte da esgrima desde o nascimento. Me daria trabalho.

Nico sorriu traiçoeiro: — Oh? Acha que consigo durar mais do que dez segundos nas suas mãos?

— Claro que sim. — confirmou o general.

— Certo, façamos assim. Se eu durar um minuto contra você, vai pegar leve com os soldados. Erguer seus espíritos. Não posso ir para um combate com seus homens inseguros de suas habilidades, ou desistindo no caminho. — argumentou erguendo a mão quando o General tentou protestar: — Não pegue leve comigo, pois se o fizer eu cancelo suas horas de treinamento e ficará de babá do Enrico.

A feição do General escureceu, analisando suas opções. Suspirou por fim concordando.

— Certo, Vossa Graça, façamos como queira. O primeiro a ir ao chão perde o duelo, o que acha? — sugeriu então. Nico sorriu.

— Parece ótimo.

— Podemos deixar o duelo para depois do almoço perto da floresta, assim evitamos olhares curiosos. — disse o General trocando o peso das pernas. Nico seguiu o movimento com o olhar.

— Não, daremos um show. Aqui e agora. — respondeu convicto marchando para o centro de combate.

— Meu Lorde! — exclamou o General atraindo a atenção de Romeu que apareceu ao lado de Nico, mão no coldre de sua espada: — Não acho sensato.

— Talvez não seja, mas sensatez não combina com minha pessoa. — admitiu dando de ombros: — Chris!

O rapaz deixou o livro de lado se aproximando do Duque. O ajudou à retirar seu paletó ficando somente com o colete. Levou consigo a bengala de volta para a tenda, o olhar preocupado. Nico sorriu reconfortante para ele.

Ajeitou os pés na areia batida analisando o terreno. Os homens começaram a se juntar para o duelo e Nico pretendia começar antes que Dylan aparecesse para estragar sua diversão naquele antro de nobres.

— Vamos Artiaggli, vai ser divertido. — confessou indo até Romeu: — Me dê sua espada.

O soldado o fez, segurando o punho do Duque antes de entregá-la.

— Tem certeza disso? Dylan me disse que Vossa Graça está ferido. — relembrou Romeu severo: — Pode agravar.

Nico ponderou levemente.

— Sim, pode. Mas acredite quando digo que as chances de piorar não são grandes. Está praticamente cicatrizado. Não vai reabrir, caso contrário meu médico não iria me liberar para um ataque como este. — disse sincero.

Will havia analisado o ferimento e garantiu que não abriria a menos que houvesse um ataque direto, como um soco ou similar. Movimentos bruscos não eram problema.

Romeu suspirou.

— Confiarei, Vossa Graça, mas me vejo no direito de intervir se o vir demonstrar qualquer reação à dor. — avisou sem esperar que Nico rebatesse, se afastando.

O Duque riu da atitude ousada do mais velho, mas permitiria que apartasse se necessário. Não era um duelo por honra ou similar, somente um embate entre dois homens para medir suas habilidades em combate. Durante seus anos na pirataria lutou inúmeras vezes com Jason e Sherman para testarem um ao outro. Estava acostumado com a rotina da batalha em sua vida, e talvez este fato lhe desse uma vantagem contra o veterano.

— Faça como quiser. — afirmou Nico rodando a espada em sua mão, se aproximando de Artiaggli com serenidade: — Vamos, sim?

Ajeitou sua postura aguardando Artiaggli posicionar-se. Ajustou os pés na terra encarando o Duque, feição séria e precisa. Nico respirou fundo, sentindo sua adaga presa em sua cintura e outra no interior de sua bota, prontas para serem usadas se necessário.

Não precisaria delas, mas velhos hábitos não mudam e a segurança que elas lhe passavam era o bastante. Se encararam por um longo tempo antes de Nico rir.

— Quer que eu avance primeiro, General?

O mais velho sorriu convencido: — Hierarquia, Vossa Graça.

— Oh? — exclamou Nico andando para o lado, rodeando Artiaggli com curiosidade: — Péssima ideia.

Nico manteve o sorriso no rosto, mas seu olhar o analisava, observando a posição de pés, o ângulo da espada do General apontada para frente, o olhar concentrado de alguém que não seria enganado por uma distração amadora. Ajeitou a posição de seus pés e então atacou pela esquerda, uma investida rápida.

A defesa de Artiaggli foi perfeita, evitando a lâmina. Nico a puxou para baixo colidindo o outro lado da espada, a força no pulso a girando para dentro. Artiaggli franziu a sobrancelha, ficando na defensiva. A esquerda de Nico afastou-se da lâmina e investiu outra vez, cima, baixo, baixo, cima, esquerda e esquerda.

Jogo de pés para frente, impulsionando seu corpo, não dando brechas. Afastou-se então, descendo a espada em riste, defendida prontamente pelo General que investiu contra o ombro direito de Nico. O Duque desviou erguendo a lâmina verticalmente, recebendo o impacto. Inclinou a espada a puxando com força para a esquerda. Artiaggli afastou-se rápido, evitando o corte transversal e seu torso.

Nico distanciou-se dois passos, o sorriso longe de seu rosto severo. A quantidade de homens o assistindo aumentou observando Dylan se aproximar no canto de sua visão. Precisava terminar a luta o quanto antes. Respirou fundo, alterou a posição da espada em sua mão, dobrou os joelhos, mantendo a lâmina horizontal frente ao corpo. O General firmou os pés no chão e Nico investiu.

Acertou três vezes antes de afastar-se e investir novamente, por baixo, nas laterais. Girou o corpo, jogo de pés em sincronia, colidindo sua espada contra de Artiaggli com força, o desequilibrando o suficiente para investir em sua esquerda outra vez, outro golpe forte e agressivo, certeiro em seu quadril. Foi defendido com dificuldades, mas uma abertura se fez.

Nico virou-se, ergueu sua perna colidindo seu calcanhar na dobra do joelho do General que despencou ao chão, surpreso, a lâmina de Nico na lateral de seu pescoço.

Resfolegaram rapidamente, o silêncio ao redor deles ensurdecedor. Nico então sorriu de canto, girando a lâmina em seu pulso, arrancando um filete do sangue do General derrotado.

— Não demonstre fraqueza, ou ela será usado contra você. — comentou Nico num sorriso ardiloso. Artiaggli soltou uma risada, o semblante orgulhoso no rosto do veterano de guerra.

Nico se afastou o permitindo se levantar com dificuldades. A perna atingida trêmula, mas não ferida.

— Como havia lhe dito antes, Vossa Graça, me daria trabalho. — admitiu o General embainhando a espada: — Nunca vi movimentos fluidos como os seus, e ouso dizer que não foram ensinados quando ainda menino, estou certo?

Nico não pode deixar de arquear a sobrancelha, nada surpreso com a suposição do General. Esgrima tem regras a se seguirem, formas corretas de se segurar uma espada sem perder o controle de seu pulso. Mas fora das aulas, na vida nos mares, Nico aprendeu que técnica e experiência são coisas diferentes, e que é preciso mais do que simples jogo de pés para vencer.

Às vezes precisa de alguns chutes.

— Não, General. Não aprendi quando novo, mas sim ao longo desses cinco anos vivendo como civil. Devo dizer, muito do que sabemos não sobreviveria nas ruas afora. — admitiu Nico gesticulando para Romeu que se aproximou, retirando a espada das mãos trêmulas de Nico.

O olhar do mais velho não era dos melhores, e provavelmente seria escoltado para sua tenda e lá ficaria pelo resto do dia. Dylan se aproximou junto de Romeu, igualmente perturbado.

— De acordo. Foi uma boa tática, Vossa Graça. Me sinto honrado em ter sido seu adversário, mas por favor não se exceda além disso. — pediu o General, o olhar preocupado nas mãos instáveis de Nico.

O Duque as escondeu, cruzando os braços. Não estava com dor, mas não havia tomado café da manhã e estava começando a sentir os efeitos da falta de açúcar no sangue. Sorriu compreensivo, não iria abusar de sua saúde.

— Pois bem. Faça o que lhe pedi, Artiaggli. Irei me retirar por hora, mas aguardo por uma oportunidade de duelarmos quando decidir não pegar leve contra mim, General. — salientou Nico.

Estava ciente de que havia pego o homem de surpresa com o chute desonroso, e que em uma luta honesta teria perdido contra o General mais experiente. Mas não poderia rebaixá-lo frente aos homens que o viam como o melhor dos melhores.

O rosto do General suavizou, um misto de agradecimento e devoção. Os soldados ao redor pareciam animados, empolgados pela luta que presenciaram há poucos minutos. Sabia que se dedicariam ainda mais dali por diante, e talvez tenha conseguido para si alguns pontos a mais com soldados que o viam como um nobre inapto e doente como fora rotulado por anos.

Nico se afastou da multidão com seus soldados ao seu lado, Christiano com sua bengala e paletó nas mãos. Ajeitou suas luvas, puxando-as para baixo com força moderada perdido em pensamentos. Sem sua experiência como pirata não teria dado conta de Artiaggli, nem com o ataque surpresa muito menos sobre usar ferimentos antigos contra ele.

A cada dia que passava Nico percebia não pertencer àquele meio. Não sobreviveria sem suas trapaças, suas manipulações ou controle sobre os homens dedicados à seu título. Era fora daquele grupo e não merecia reconhecimento por uma atitude desonrosa, mas era como aprendeu a se defender; a proteger-se de ataques traiçoeiros.

Matar ou ser morto; ferir ou ser ferido. Tudo no mundo pirata era a ferro e fogo, e por muito tempo imaginou que conseguiria se adaptar novamente à vida nobiliária se houvesse um pouco de esforço por sua parte.

Nunca se sentiu tão estúpido em toda sua vida. Não fazia mais parte daquele mundo, já fora corrompido, desvirtuado do que a sociedade italiana tinha para lhe oferecer. E isso ficou estampado em sua luta para todos verem.

Entrou na tenda com um gosto amargo na boca, sentindo-se repentinamente incapaz de organizar aquele ataque. Sua cabeça girou, sentindo as mãos firmes de Romeu em seu antebraço, e a presença de Dylan ao seu outro lado. Agitou as mãos, espantando seus temores.

— Não me alimentei esta manhã, somente isso. Não estou ferido. — confessou sendo guiado para o sofá, sentando-se com a cabeça entre as mãos, suspirando profundamente enquanto ouvia Christiano ir atrás de água com açúcar para segurar um pouco de sua glicemia enquanto lhe preparavam o desjejum.

— Não deveria ter lutado, Nico! — exclamou Dylan irritado, gesticulando com as mãos: — Foi estupidez! Está ferido, e ainda por cima sequer se alimentou? Tem noção do quanto é perigoso deixar de comer em sua situação?!

Nico somente ouvia sem dar atenção ao escândalo do soldado. Chris lhe entregou o copo, o olhar preocupado suavizou a irritação do Duque enquanto ingeria a água adocicada. Dylan bufou, incomodado pela falta de resposta de Nico.

— Realmente, de onde tira tanta estupidez. — resmungou para si mesmo, esquecendo-se por longos minutos contra quem estava gritando naquela sala, mas Nico não precisou lembrá-lo de quem era.

Romeu se aproximou de Dylan o retirando de perto de Nico. O Duque ergueu o olhar assistindo a comoção entre os soldados. Os homens de elite ainda estavam em sua tenda, Nico percebeu, todos eles com as mãos no pomo das espadas. A tensão no ar incomodando-o.

— Dylan Ferrarezi, se não colocar sua cabeça no lugar o faremos por você, mas não garanto que continuará entre seus ombros. — ameaçou Romeu severo: — Não me importo qual seja o nível de intimidade que possua com o Duque, mas nunca erga sua voz contra Vossa Graça novamente, ou haverá consequências que não estará disposto a pagar.

Dylan pareceu ter despertado do pequeno acesso de fúria, empalidecendo. Nico não poderia defendê-lo naquele momento, por mais que não se importasse com a irritação do soldado pela intimidade que possuíam. Se ficasse ao lado de Dylan anularia a autoridade de seus homens de Elite, rebaixando Romeu em seu serviço.

Nico respirou fundo, devolvendo o copo para Christiano paralisado ao seu lado. O garoto se afastou da comoção atrás da porção de comida para seu almoço. Dylan se curvou diante Romeu que mantinha a postura rija em frente a Nico, protetor.

— Peço desculpas, Vossa Graça. Me exaltei sem motivo e aceito qualquer punição que decida contra mim. — Dylan proferiu, sério.

Romeu se manteve em posição aguardando a resposta de Nico igualmente os outros soldados na sala. Nico suspirou.

— Não há necessidade para punições, mas que não volte a se repetir. Não foi a primeira vez que me repreendeu nessas últimas semanas. Não torne disto um hábito. — ordenou Nico os dispensando com um gesto de mãos: — Podem ir. Romeu, fique.

Todos se curvaram ao Duque e saíram em marcha da tenda, fechando-a para maior privacidade. Romeu se virou para o Duque, a postura mais relaxada, ainda que expressasse desagrado.

— Com todo respeito, Vossa Graça, mas esta não foi a primeira vez? — inquiriu Romeu avaliando a situação com olhar diferente. Nico suspirou.

— Não foi, mas não levo sua atitude como desacato, Romeu, e sim preocupação. Ele me servia pessoalmente no início junto de minha irmã. Isto gerou entre nós uma intimidade para segredos e comunicação, mas claro que não aceito que gritem comigo, e isso não pode se repetir. — admitiu Nico massageando os olhos trêmulos. Estava melhor depois do açúcar, mas ainda necessitava de alimentação decente: — Não seja duro demais com Dylan, mas o deixe ciente de meu desagrado.

Romeu concordou, mais suave.

— Como queira, Vossa Graça.

— Outra coisa, preciso da lista dos soldados jovens o quanto antes para apresentar minha queixa aos nobres. — relembrou leviano apoiando o rosto em sua palma aberta: — E gostaria que não se preocupasse desta forma, não me feri, é minha doença a qual você conhece tão bem.

O soldado de elite suspirou, deixando a tensão de seus ombros ir embora. Nico sorriu disfarçado para o quão aberto Romeu ainda era.

— Isso me tranquiliza, Vossa Graça, mas peço para que evite combate direto entre os Generais e nobres. — pediu encarecido, as mãos nas costas: — Não podemos intervir livremente contra oficiais de maior patente, mas não confie que Alessandro ou eu ficaríamos somente observando.

Nico sorriu: — Agradeço sua dedicação, Romeu. Pode se retirar, irei descansar um pouco.

Romeu se curvou deixando a tenda. Nico relaxou no sofá, fechando os olhos por breves momentos adequando-se à calmaria de sua sala. A suavidade do momento era tamanha que a mão de Chris em seu ombro o assustou, havia pego no sono. O rapaz ergueu as mãos, arrependido em tê-lo acordado.

Nico sacudiu a cabeça chiando baixo. Observou a bandeja de comida na mesinha à sua frente e não pode deixar de se sentir agradecido pela forma como Christiano parecia ter se adaptado ao jeito de Nico naquelas semanas.

Se serviu da porção de cordeiro e condimentos que Nico não via desde seus dezoito anos. Mostarda? Mel? Tais guarnições eram impossíveis de se conseguir em mercados comuns, e ainda mais raros de se encontrar no mar aberto. No que parecia séculos, Nico provou de uma refeição saborosa em sua totalidade, e desejava poder dividir um pouco com William.

Suspirou, sentindo a distância do amante se tornar sufocante. Não era para se sentir tão solitário com somente alguns dias de afastamento, mas Nico já havia suspirado pela décima vez desde que recebeu a comida e começou a se sentir idiota por conta disso.

Passou a mão pelos cabelos amarrados, desatando os fios sob seus dedos enluvados. A saudade era enorme e Nico estava começando a ficar para baixo. Retirou a gravata, entornou a taça de vinho e foi para sua cama se jogando por cima das cobertas. Estava cansado e um pouco de sossego na cama ajudaria.

Ao menos, acreditava que sim.

A mansão estava exatamente como Nico se lembrava, menos organizada e cuidada, mas em sua essência era a mesma casa e as mesmas lembranças. Era como retornar de um sonho ruim, acordar de um marasmo inebriante e se ver dentro de seu passado, de volta ao princípio de tudo.

No entanto, Nico não sabia dizer se acordou de um pesadelo ou retornou para ele.

Seu peito apertou, angustiado com o gosto amargo em seus lábios. Sentiu a presença de Dylan ao seu lado e de Romeu ao outro, dois pilares de força bruta o guardando com suas vidas. Atrás dele estavam Howard, Enrico e seus guardas os protegendo enquanto aguardavam o sinal de Matteo e Pietro para começarem o ataque.

Os últimos três dias correram como o vento, se perdendo no meio do caminho. Durante esse tempo, ambos Conde e o Visconde decidiram auxiliar os Generais nos ataques de distração, fragmentando os nobres. Em poucos dias várias mudanças, e Nico não conseguia assimilar com clareza onde estava e como havia parado ali tão rápido, mas seu corpo já respondia aos estímulos da adrenalina, do anseio pela luta.

Suas mãos pediam por sua arma de fogo e sua espada, ambas em seu coldre, sabendo bem que não as usaria tão logo com ambos soldados ao seu lado. O resto de sua guarda ficou para trás, cuidando de seus pertences e de Christiano na segurança do acampamento. Com muito custo convenceu Romeu à acompanhá-lo ao invés de Alessandro. Para o que tinha em mente, um soldado muito experiente o interceptaria antes que agisse por impulso.

Precisava de homens mais novos para manipular com facilidade.

Puxou o ar com força entre os dentes, concentrando-se, ouvindo a movimentação leve no corredor de serviço, a vegetação onde se escondiam farfalhar com a brisa da manhã, os camuflando na sombra da floresta densa.

Manteve-se à frente, postura hirsuta, olhos afiados no horizonte, mãos resvalando em suas armas; a adaga em sua bota roçando em sua perna, implorando para ser usada. Nico não sabia o que iria acontecer quando tudo estourasse, quando finalmente tivessem permissão para invadir a mansão em meio ao fogo cruzado.

Iria lutar ou seria escoltado por todo o trajeto? Sua mente ficaria em branco e agiria pelo instinto que desenvolveu ao longo dos anos como um pirata fugitivo? Mordeu o interior de sua bochecha, sangue invadindo seu paladar; se controle, di Angelo.

Apertou os olhos com raiva. Não.

“Não sou um di Angelo.”

A explosão ecoou pelos quatro quantos da floresta, o farfalhar das árvores intensificando. Nico paralisou, um arrepio correndo por seu corpo enquanto um sorriso delineava seus lábios viciosos. O Conde havia atacado.

Ouviu exclamações dos soldados à suas costas, assustados. Observou enquanto soldados do Castellan corriam em direção ao portão principal, as empregadas para o interior do da mansão esvaziando a passagem. Homens pararam, fardados com o uniforme negro do Ducado, enfileirados no corredor dos empregados.

Nico ajeitou a postura saindo do esconderijo com ambos soldados à seu lado.

— Pelo visto sua fama o precede, Conde de Baltimore. — comentou Nico leviano em baixo tom.

Seus homens o saudaram em respeito. Nico os cumprimentou se virando para o Grão-Duque e os soldados restantes.

— Homens, vamos conquistar este lugar.

Gesticulou com a cabeça e os soldados se dispersaram em sincronia imobilizando todos aqueles que serviam ao Castellan. Nico se manteve no lugar, observando a comoção, ouvindo os gritos e os tiros; a exibição que Matteo executava com maestria.

Logo depois outro som de explosão ao Sul, nos fundos da mansão agora cercada; a invasão liderada por Pietro às sombras. Mais gritos de terror e comoção inundando os jardins, maculando seu solo com sangue e pólvora.

Nico estremeceu, o princípio de uma risada se formando em seu diafragma, a excitação da batalha formigando sua pele ardente. Sorriu largo, torto e macabro.

Nico era um pirata, e iria retaliar.

Notas finais
E enfim temos a resposta do que o Nico é realmente, Nobre ou Pirata. Ele se ver como um pirata faz muito mais sentido do que todo aquele luxo e atenção que não está mais acostumado. Ler ele nos capítulos nas tendas parecia outro personagem, né?Isso porque ele estava tentando voltar a ser o que era... Bom, não vai e portanto teremos nosso Rei Fantasma atuando nos próximos capítulos. Ai ai, gosto de concluir arcos de personagens, faz um bem danado. Enfim, como faz tempo que eu não posto vou responder perguntas que sei que vocês provavelmente tem: Esse grupo de Elite, o Nico só teve contado com eles durante o mês que foi condecorado Duque (antes disso era só um menino assistindo aos treinos dos soldados), e depois disso ele sumiu para o mar. É o tipo de exército privado que mata e faz serviços de espionagem, são esses homens. O Romeu e o Alessandro são superiores do Dylan. O Dylan é comandante do exército do Duque que está abaixo da Elite, porém, como a Elite é privada ele é considerado o mais forte entre os soldados. Ai levou esporro por esquecer que não é mais o de maior patente abaixo do Nico. Ok, acho que é isso! Agora só saber o que o Nico ta planejando, pq não se confia nesse sorriso dele, nem um pouco. Até a próxima, meus amores ♥ Beijinhos~