Pit-a-Pat
19 Capítulo XIX
Notas iniciais

Nico
~Capítulo XIX~
:: 37º dia na Itália — Semana 5 ::
[...]
O dia estava nublado e Nico aproveitou a pouca movimentação nas ruas para dar uma pequena explorada. Não estava tão bem disposto, mas ficar mais um dia enfurnado naquela casa o deixaria insano.
Foi devagar observando cada detalhe daquele lugar. Prestando atenção pra ir sempre ao lado oposto ao do Solace ― evitando da brincadeira acabar antes da hora ― seguiu caminho por algumas vielas bem decoradas com vasos de flores das mais variadas cores.
Nico havia se esquecido da paixão desenfreada dos italianos por decoração com flores. Casas, jardins, lojas, todas elas tinham pelo menos alguma jardineira com Jasmins, dálias e violetas das mais variadas cores. Ele admitia que isso dava vida à cidade.
Se lembrou na mesma hora de sua casa na Holanda toda decorada com flores coloridas escolhidas por Hazel. Não sabia dizer se era um costume que ela pegou por ser Italiana ou pelos Holandeses adorarem flores tanto quanto eles.
Soltou uma risada passando o dedo pelas pétalas da flor de jasmim azul na jardineira da floricultura. Talvez o estabelecimento mais cheio de vida naquele quarteirão. Suspirou nostálgico voltando a caminhar por entre as pessoas, vez ou outra saindo do caminho para carruagens ou carroças passarem. O clima não era um dos melhores, mas pelo menos pode evitar de andar sob o sol em sua cabeça.
Colocou as mãos nos bolsos da calça e passou desinteressado por um amontoado de ferro perto de uma das lojas, uma ferraria a seu ver. Deu dois passos e foi atacado por pequenos braços e gritos animados de crianças. Levou alguns segundos pra identificar Milena e Henry agarrados a sua perna.
Sorriu pra eles agachando-se:
― Hey pequenos. ― falou ele afagando seus cabelos. Milena fez um bico.
― Não somos mais crianças, somos grandes já! ― falou ela brava: ― Olha só como sou grande! ― falou ficando na ponta dos pés e se esticando para cima.
Henry riu: ― Eu sou grande, grande também!
― Eu to vendo, estão enormes já! ― admitiu levantando-se. Viu Silena se aproximando com um sorriso tímido. Ele a cumprimentou com a cabeça.
― Está passeando? ― perguntou ela curiosa.
― Conhecendo a cidade. ― respondeu direto. A moça então aproximou-se dele segurando sua mão com firmeza. Nico ficou tenso com o toque:
― Peço desculpas pela forma que meu marido reagiu. ― falou ela séria de tal forma que obrigou Nico a engolir sua resposta padrão: ― Ele fica preocupado quando as coisas não funcionam da forma que deveriam, e a fama dos piratas não ajuda muito.
Nico franziu o cenho antes de suspirar pesadamente. Soltou sua mão aproximando-se ligeiramente da moça.
― Escute Silena. ― falou ele forte: ― Eu não ligo pra opinião do seu marido. Atualmente a única opinião que me importa é a do Solace. Contanto que ele não tente se livrar de mim arrastando o doutor pra lama comigo então estamos bem.
― Ele nunca faria isso! ― exclamou ela convicta.
― Se está tão certa então não temos problemas aqui. ― falou Nico acenando um adeus para ela e continuando seu caminho.
Afagou os cabelos das crianças e seguiu pela rua movimentada.
Ele não acreditava nas palavras de Silena. Ela própria parecia tão iludida sobre o marido quanto o Will era antes de toda a confusão. A diferença era que o Solace havia compreendido um pouco de como funciona o termo amizade:
Ele funciona bem até á primeira pagina. Depois disso não tem mais nada que se possa usar de base. Uma vez que escorregue cabe a essa amizade se mostrar forte o bastante pra aguentar as consequências.
Nico não queria ser pessimista, mas Charles parecia ser bem ilhado. Ancorado com profundidade e sem nenhuma brecha a “coisas novas”. Arfou passando a mão pelo pescoço tenso.
Porcaria de Ferreiro.
Andou por mais um tempo na cidade chegando perto do Cais. Ali os bares se tornaram mais frequentes e as pessoas de baixa classe mais visíveis nas ruas. O cheiro da maresia, bebida e pessoas imundas invadiu suas narinas com força. A nostalgia do cais de Tortuga o atingiu.
Respirou fundo e continuou o caminho desviando de algumas pessoas cambaleando aqui, carregando caixas ali, e animais perdidos pela rua. De súbito ele parou e um gosto amargo subiu por sua garganta.
Um pouco mais a frente, abraçados um no outro estavam duas crianças de rua. Imundas, tremendo e com a mais velha afagando os cabelos do menor que chorava baixinho. Crispou os lábios sendo atingido por memórias das mais desagradáveis.
“O choro era tão falho e doloroso que Nico segurava-se ao máximo para não desabar junto do som. O corpinho pequenino de sua irmã tremendo em seus braços apertando a roupa do mais velho enquanto as lágrimas desciam com força.
― Eu estou com fome Nico. ― choramingou ela apertando-se contra ele pressionando o estomago que doía.
Nico mordeu o lábio com força. O desespero tomando conta de seu corpo. Àquela altura não tinha mais nada a perder, certo?
Afastou-se da irmã e se levantou cambaleante sentindo as pontadas agudas em seu estômago. Também estava faminto.
― Eu vou conseguir algo pra você. ― respondeu ele ao encarar aqueles olhos caramelos inchados e desesperados: ― Custe o que custar.
Então ele saiu com as ideias em mente. Ele sempre foi bom em agir sorrateiro, então por que não fazer isso com intenções diferentes?
De fato não tinha mais nada a perder.”
Engoliu em seco afastando-se apressadamente das crianças e as memórias que as mesmas lhe davam. Subitamente não se sentia mais muito bem. Abraçou o próprio corpo rindo baixo sem emoção.
― A que ponto eu cheguei. ― resmungou pra si mesmo parando de andar. Fechou os olhos com força e depois os abriu: ― Não tem mais como voltar.
Recomeçou então a caminhada sem rumo que estava tendo, com toda sua animação deixando seu corpo. Entre um dos becos do Cais sentiu o familiar cheio da bebida proibida e movimentação estranha nas sombras.
Apertando os olhos encarou mais atentamente o beco e sorriu largo para a porta de madeira escondida estrategicamente perto de entulhos.
Um bar clandestino.
Estalou a língua e decidido entrou no bar. Claro que não estava vestido de acordo com o lugar, mas não chamou atenção quando sentou-se no balcão e pediu uma caneca de Rum mesmo sem um tostão no bolso e começou a ouvir.
Ouvir as fofocas do submundo.
Perto do balcão onde estava tinha um pequeno grupo de homens com canecas de Rum cheias, cigarro nos lábios e cicatrizes não pertencentes a pescadores honestos. Eram piratas, ou no mínimo ladrões.
Um deles tragou o cigarro antes de voltar a falar e Nico fez questão de prestar atenção em cada palavra:
― O Caribe está perigoso nesses últimos tempos. ― resmungou um homem pardo irritado: ― Ouvi dizer por fontes duvidosas que a Ramires teve problemas com um de seus tenentes da sua enorme frota de navios.
― Foi motim. ― outro deles vestindo um colete preto e um chapéu de abas largas bradou socando a mesa com força: ― Malditos piratas mal agradecidos. Motim é algo maldito.
O mulato riu debochado: ― Por que acha que isso é coisa de piratas? Ninguém está nem ai pra moral ou ética. Ela é mulher, tem mesmo de perder o trono no Caribe.
― Ela complica o trafego de escravos, o mercado abaixou muito nas águas dela. Temos de ir exportar nossa “mercadoria” na Ásia, do outro lado do mundo! ― resmungou o amigo troncudo deles. Nico riu imaginando ele sendo o carcereiro do navio negreiro.
Nico tomou outro gole da bebida sem tirar os olhos da caneca, mas atento totalmente na conversa. Mercadores de escravos eram fáceis de lidar, uma vantagem se pudesse usar de informações e dinheiro.
― Ouvi dizer que ela tem a ajuda do Caronte e do Argos II. ― a voz do mulato saiu baixa, como se não quisesse que mais ninguém ouvisse, mas Nico ouviu.
Estremeceu com a ideia. Não, ele não ia ajudar a Reyna e Percy estava com Templários em sua cola, não tinha como ele conseguir ajudar ela pelos próximos meses, nem mesmo o Caronte estava nas águas Caribenhas.
No máximo no meio do caminho entre o Caribe e a Europa, mas não tinha como estar no meio do fogo cruzado, não ainda. Respirou fundo apertando a caneca com força. Maldito Octavian!
― Como sabe disso? O Caronte nunca se mete em guerras. ― resmungou o de chapéu apoiando os braços na mesa: ― Ninguém sabe quem é o Capitão ou a tripulação. Nem como é o maldito navio. ― bradou ele raivoso: ― Só que é um navio preto, e navios pretos tem igual peixe no mar.
― São boatos, não sei com certeza. ― defendeu-se tomando outro gole.
― Precisamos de certezas. ― o carcereiro bradou: ― Escutem, temos que levar mercadoria pro Caribe, e a menos que a gente entenda o que está acontecendo não tem como conseguirmos navegar para lá.
― Do que adianta saber? Não faz diferença.
― Faz se soubermos barganhar. Precisamos saber de que lado ficar. ― O pardo disse em tom sério, mas um tanto embriagado pelo álcool fazendo efeito.
― Com certeza não com o maldito tenente traidor. ― trovejou o de chapéu nervosamente.
― E se ele vencer a guerra? ― cogitou o Carcereiro.
― Contra a Ramires? ― o mulato riu em deboche: ― Nem em sonhos. Ela tem uma frota de dez navios. Um debandar não balança aquele demônio de saia.
Nico soltou uma risada baixa. Reyna de saia? Isso ele pagava pra ver.
― Então o que sugere? Essa cidade de merda não tem informantes! ― resmungou o carcereiro virando o copo na garganta batendo a caneca na mesa: ― Outra!
Nico levantou-se caminhando até os homens com postura malandra e olhar ameaçador. Puxou uma cadeira sentando-se entre eles. Os três o encararam prontos para expulsá-lo, mas Nico se pronunciou antes:
― Tenho as informações que precisam. ― disse ele e tom baixo olhando para os lados encenando falsa desconfiança: ― Mas pelo preço certo, claro.
― Quem é você? ― O Carcereiro bradou nervoso. Nico sorriu maldosamente:
― Aquele que tem as informações que você procura. ― respondeu tomando outro gole de Rum: ― Não tenho o dia todo rapazes, afinal a guerra que vai começar no Caribe é muito mais séria do que estão pensando.
Os três se entreolharam:
― É um informante?
Nico rolou os olhos não dignando-se a responder. O mulato apertou os olhos desconfiado:
― Como saberemos que dá pra confiar?
Uma risada de escárnio escapou dos lábios de Nico:
― Sou um informante, não sou confiável até ter o dinheiro em mãos. ― respondeu levantando-se: ― Mas se não estão dispostos posso simplesmente ir embora. Bom dia cavalheiros.
Fez menção de voltar par ao balcão, mas os homens o chamaram de volta:
― Qual seu preço?
Nico riu sentando-se novamente deixando a caneca de lado:
― Estou disposto a negociar.
☠
Will
Will estava na casa da moça grávida acompanhado da parteira. Fazia algumas avaliações na moça, principalmente da parte da alimentação enquanto a parteira fazia treinos de respiração com ela ― treinos os quais Will ficara tonto somente em ver.
Preparou um pouco de chá de folhas de framboesa que auxiliam no trabalho de parto. Diziam as moças que facilitava e doía menos, mas Will não podia concordar ou discordar desse fato, mas como se tornou algo comum entre as mulheres grávidas ele sempre fazia.
A parteira, Heloise Agnini, era uma moça de meia idade com pequenas ruguinhas no canto dos olhos que se repuxavam sempre que sorria animadamente para a moça gravida. Will gostava da companhia da moça, uma companheira de trabalho amigável. Claro, quando o marido ciumento não estava por perto.
Por sorte ele nunca teve problemas com o homem de fato.
Heloise levantou-se da cadeira começando a guardar suas coisas. Will entregou o chá nas mãos mornas da moça que tomou com gosto e numa felicidade imensa. Ele sorriu para ela, afinal era sempre emocionante ver a expressão de pura alegria quando as moças chegavam perto do momento de dar a luz.
Eram feições que faziam todo o trabalho do Will valer a pena. Aqueles sorrisos que aqueciam seu coração e alma. Voltou-se para Heloise que fechava sua bolsa ajeitando as mangas 3/4 do vestido creme que usava.
― Acha que ela está preparada? ― perguntou Will curiosamente.
― Com certeza. ― respondeu a moça em sua voz melodiosa e um pouco arranhada: ― É uma mulher guerreira, vai ter um filho forte e saudável.
Will riu: ― Não é pra mim que tem de dizer isso.
― Ora senhor Solace todos gostam de notícias boas. ― respondeu ela endireitando o corpo olhando para o doutor amigavelmente: ― Principalmente o senhor.
Ele desviou o olhar envergonhado.
E então a moça gravida soltou um grito de dor e o barulho da xicara quebrando-se no chão de madeira. Will e Heloise viraram-se para ela assustados.
O vestido dela estava molhado na parte de baixo. Ela segurava sua barriga com força fechando os olhos dolorosamente. Os dois foram até ela.
― Mellie, querida olhe pra mim. ― pediu Heloise terna, mas com um tom um pouco urgente na voz. A moça a encarou assustada: ― Seu bebe vai nascer, preciso que você se acalme e respire do jeito que treinamos mais cedo, tudo bem?
Ela aquiesceu mordendo o lábio. Will correu para a cozinha atrás de água morna e panos limpos. Esquentou a água no pequeno caldeirão e levou para a parteira que se encontrava de joelhos no pé da cama com as mãos na parte de dentro da coxa de Mellie.
Will deixou o caldeirão com água morna e alguns panos perto. Auxiliou Heloise no que pode, mas aquele serviço cabia a ela fazer, Will só precisava garantir que ela estaria bem durante o processo.
De momento em momento Heloise pedia para ela respirar quando Mellie parecia esquecer-se desse detalhe pela dor aguda. E então Will percebeu o rosto tenso de Heloise e o medo instaurou-se em seu peito.
As mãos dela estavam cobertas de sangue e pela sua feição não era uma quantidade comum. Trocaram olhares rápidos antes dela pegar os panos e começar a limpar a moça. Entendendo o recado Will segurou a mão de Mellie:
― Mellie preciso que você se concentre, não force demais. ― falou ele tentando manter o tom desesperado longe: ― Respire, force e depois respire novamente. Nessa ordem, ok?
Ela concordou:
― Vamos respire comigo. ― e então Will fez o mesmo tipo de respiração rápida e de pequenos intervalos: ― Agora empurre.
E ela fez.
O processo demorou bastante. Heloise ainda parecia tensa, mas quando ouviu o choro da criança um alívio percorreu o corpo dos dois profissionais. Will apertou a mão de Mellie num sorriso acolhedor.
Afastou-se deixando Heloise entregar o pequeno rapazinho para os braços da mãe chorosa e risonha. Will respirou fundo encarando o caldeirão rubro dos panos imundos do sangue. Muito sangue.
Engoliu em seco levando os olhos para Heloise que já o encarava. Chamou ele para um canto do quarto:
― Estou preocupada. ― falou a parteira: ― Ela perdeu sangue demais. Vamos ficar aqui por um tempo até termos certeza de que está bem.
Will concordou olhando a moça que sorria e beijava seu filho com amor e carinho, mas parecia muito cansada. Ficou tenso durante toda uma hora de observação. Heloise limpou a moça enquanto a mesma amamentava a criança faminta e corada. O sorriso em seu rosto era tão genuíno que Will começou a rezar por misericórdia.
Depois de um tempo a moça adormeceu com a criança do lado, a respiração tranquila e calma. Heloise sentou-se ao lado de Will na cozinha passando a mão pela testa aliviando a pequena tensão de seu corpo.
― Ela está estável. ― falou a parteira: ― Foi bastante sangue, mas não o suficiente para... Bem... ― respirou fundo evitando falar isso.
Morte era um termo que eles não gostavam muito. Sempre que podiam evitavam dizer esta palavra, evitavam pensar nisso a menos que realmente se tornasse inevitável. No caso de Mellie era um medo sem fundamento. Ela estava bem e isso aquecia o coração frágil do Solace.
― Que bom. ― respondeu sorrindo terno: ― Acha que está tudo bem deixar ela sozinha?
― Sim, mas vou esperar um pouco mais, pode ir doutor. Sei que é um homem ocupado. ― respondeu a moça sincera: ― Está com um paciente grave em sua casa não?
Will concordou: ― Ele está melhorando, mas não gosto de deixar ele sozinho demais. É muito inconsequente.
― Oh, eu imagino. ― falou ela entrelaçando seus dedos em cima da mesa: ― Ouvi dizer que tem a sua idade, com certeza é cabeça dura.
O doutor rolou os olhos dramaticamente: ― Eu não sou.
― Há, era uma piada isso? ― zombou a moça levantando-se da mesa: ― Vou ficar mais um pouco, obrigada pela ajuda William.
― Sempre que precisar Heloise. ― respondeu ele acenando com a cabeça e saindo da casa de Mellie.
Respirou o ar fresco daquela tarde e seguiu caminho para sua casa tranquilamente. Estava mais relaxado depois de todos aqueles problemas anteriores, ainda que sentisse um peso em seu peito sempre que pensava em Harley, mas isso era algo que passaria com tempo, era somente saber ser paciente.
Agora Charles realmente o preocupava. Estava agindo infantilmente e Will não sabia reagir aquilo. Estava tão acostumado com o amigo sempre ao seu lado independente de qualquer coisa, mas pela primeira vez em vinte e quatro anos se viu duvidando desse fato.
Ainda confiava sua vida em Charles, mas não confiava a do Nico, não como antes. Respirou fundo entrando em sua casa silenciosa. Olhou o arredor curioso por não ver o pirata no Hall e nem na sala.
Deu de ombros imaginando o mesmo dormindo e sentou-se no sofá do Hall esboçando um pequeno sorriso vitorioso. O garotinho estava bem e era isso que importava. Forçou-se a lembrar do nome do pequeno, mas parecia não conseguir resgatá-lo de sua memória.
Franziu o cenho inconformado com isso. Como pode esquecer o nome da criança? Recostou-se no sofá forçando-se a lembrar. Sentiu um sopro em seu pescoço o fazendo arrepiar-se instintivamente. Levou uma mão para o local afastando-se do sofá em um pulo para somente ver Nico gargalhando.
Abriu a boca para falar algo, mas resolveu ficar quieto. Não era sempre que via Nico rindo daquela forma tão aberta. Sentiu seu rosto esquentar rapidamente o fazendo resmungar com falsa irritação.
― Como é fácil te assustar Solace. ― comentou Nico segurando a barriga fazendo pequenas caretas de dor como se se arrependesse de ter rido daquela forma.
Provavelmente a ferida não dava tantas liberdades assim.
― Da onde você veio? Não o vi descendo as escadas. ― perguntou antes de franzir o cenho ao sentir o cheiro forte da bebida em Nico. Arregalou os olhos: ― Você estava no bar?
O pirata deu de ombros: ― Aparentemente sim.
― O que? Mas você não pode sair assim desse jeito sem acompanhante depois de um machucado desses ainda mais bebendo sabendo que influencia na cicatrização e levando em conta o seu ferimento cheio de graça―
― Solace já entendi, respira. ― pediu Nico bufando apertando os olhos. Will o fez respirando profundamente pronto para mais uma rodada: ― Não, sem sermão eu precisava de informações sobre o que está acontecendo no Caribe.
― E precisava ir no bar? ― insistiu Will.
― Er... Sim? ― respondeu Nico como se fosse obvio: ― É de lá que vem as informações sobre piratas, rotas mercantes, informantes da marinha e coisas normalmente ilegais. Não vou conseguir elas indo ao posto da marinha e pedindo com educação.
Will rolou os olhos, mas deixou o pirata falar.
― Além do que tem uma guerra explodindo no Caribe Will, meus amigos estão navegando diretamente para o olho do furacão e o máximo de informação que eu conseguir melhor. Até trocar por várias que eu tenho também funciona.
― Então o que? Vai fazer de novo? ― perguntou ainda desgostoso com a ideia. Nico respirou profundamente trocando o peso de suas pernas.
― Sim, vou começar a agir como informante. Além da troca de informações consigo um dinheiro que me será útil quando tiver que ir embora. ― justificou-se cruzando os braços. Will abaixou o olhar.
Estava preocupado, claro. Se Nico estivesse em sua melhor forma talvez, só talvez ele se saísse bem no meio de um bando de trogloditas, mas ferido como estava Will se sentia desconfortável. Viu Nico sentar-se ao seu lado resmungando pelo esforço de caminhar à tarde.
― Se não tem jeito. ― emendou Will ganhando a atenção de Nico que o encarou seriamente: ― Só tenta não se meter em problemas ok?
Nico sorriu de canto: ― Pode deixar comigo Raio de Sol.
Will rolou os olhos, mas ainda sentindo seu rosto esquentar consideravelmente. Resolveu então contar a Nico sobre o parto e como Mellie conseguiu aguentar bem todo o processo, mas também o pequeno medo deles quando ela começou a sangrar mais que o ideal.
Comentou sobre Heloise contando um pouco da amizade profissional deles; o pequenino que mamava como um bezerro que deixava todo o cenário hilário. Nico se manteve calado todo o momento concordando com a cabeça algumas vezes outras soltando um “Jura?”.
Will só foi perceber que ele não o ouvia mais quando sentiu o peso de sua cabeça em seu ombro. Olhou para o pirata que dormia serenamente em si. Sorriu para ele afagando seus cabelos negros com carinho.
Ajeitou-se no sofá não disposto a levantar e acordar Nico. Assim sendo ficou ali um tempo com ele antes de dormir também depois de finalmente lembrar-se do nome do garoto.
O pequeno e sortudo Chuck.
☠
Will acordou algumas horas depois sentindo uma dor incômoda em seu ombro e pescoço. Remexeu-se desconfortável parando abruptamente ao sentir Nico resmungar algo contra seu pescoço. Olhou para o pirata que o abraçava pela cintura sem pudor algum.
Mantinha o rosto sereno indicando que fizera isso involuntariamente durante o sono. Deu uma esticada no pescoço vendo o céu escuro do lado de fora. Mordeu o lábio pensando em como sair daquele abraço assustadoramente confortável.
Franzindo o cenho para o pensamento impróprio segurou o pulso de Nico delicadamente retirando seu braço de sua cintura, mas ele prontamente o colocou de volta apertando-se mais ainda no doutor. Will nunca sentiu tanta vergonha na vida. Para ser sincero não tinha mais ideia de que cor estava seu rosto, se ainda vermelho ou já ficando roxo.
Respirou fundo decidido a chamar o pirata. Passou o dedo por seus cabelos abaixando a cabeça contra o menor:
― Nico? ― chamou ele fazendo carinho em sua cabeça igual fazia com as crianças de Charles: ― Preciso levantar pra esquentar a comida.
Ouviu um murmúrio que imaginou ser um “mais alguns minutos” e o aperto aumentar. Dali a pouco lhe faltaria o ar. O chacoalhou levemente desta vez conseguindo fazer ele abrir os olhos forçadamente.
― Will...? ― chamou ele com a voz rouca pelo sono.
Will puxou o ar entre os dentes sentindo seu coração bater com uma força incomum. Aquela era a primeira vez que o chamava pelo nome desde que apareceu em sua porta quase dois meses atrás. E, por algum motivo, o fez sentir aquecido.
Aquilo era estranho.
― E-Eu preciso fazer a janta. ― explicou novamente repreendendo-se por gaguejar. Por que diabos estava gaguejando?
― Então vai Solace, não tem porque me acordar por isso. ― resmungou ele ainda sonolento, mas parecendo mais desperto voltando a chama-lo pelo sobrenome.
Será que foi algo inconsciente?
― Da pra me soltar então? ― perguntou delicadamente tentando deixar a situação menos constrangedora, mas quando viu o rosto de Nico adquirindo tons fortes de vermelho decidiu que tinha acabado de piorar.
Ia ter um ataque cardíaco a qualquer momento!
Nico o soltou bruscamente afastando-se envergonhado. Will respirou aliviado por se ver livre do aperto, mas no fundo sentindo falta do calor do abraço. Arregalando os olhos sacudiu a cabeça inconformado.
Chega de pensamentos estranhos, isso era desrespeitoso com Nico e com ele mesmo! Onde já se viu? Pigarreou levantando-se e indo até a cozinha sem olhar para trás. Já havia dado de momentos constrangedores por um dia inteiro.
Começou a esquentar a comida. Um pouco de macarrão ainda e suco de pêssego. Esquentou o que pode no fogo e colocou a mesa. Não precisou chamar Nico, pois o mesmo apareceu assim que terminou de arrumar as coisas com um cara sapeca.
Oh não!
Will fingiu não ver nada e sentou-se na mesa ao lado do Pirata que mexia na comida com um sorriso no rosto que Will não soube identificar.
― Então na próxima poderia ter me chamado pra um jantar primeiro sabe, não teria problema. ― comentou ele na lata encarando com aquele sorriso debochado.
Will engasgou com a massa horrorizado: ― O que? Não! Não foi nada disso!
Nico soltou uma risada balançando a cabeça: ― Então como paramos naquela situação bem aconchegante?
Engolindo um pouco da massa Will desviou o olhar: ― Eu estava te falando sobre o parto quando você dormiu no meu ombro. Não quis te acordar e acabei dormindo. Quando acordei estávamos assim.
Explicou por cima tentando fugir do assunto. Pensou em falar sobre Nico chamando-o pelo primeiro nome, mas imaginou o pirata desviando da conversa como sempre fazia quando algo o incomodava. Não que Will estivesse fazendo diferente agora.
― Entendi. ― afirmou ele tomando um gole do suco: ― Não dormia bem assim em anos. Deveríamos repedir a dose, talvez na cama dessa vez. ― falou ele piscando sem pudor algum.
Will corou terrivelmente.
― O-o que... e-eu... mas... urgh! ― resmungou escondendo o rosto nas mãos: ― Não faz isso caramba! Qual o seu problema? Isso é estranho. ― falou irritado voltando a encarar o pirata de cenho franzido, mas ainda vermelho.
Naquela fração de segundos várias expressões passaram pelo rosto de Nico, dentre elas tristeza e choque antes de recolocar o sorriso nos lábios rachados.
― Eu sou estranho, acostume-se com isso. ― admitiu voltando para a comida.
Will arqueou a sobrancelha, mas não disse nada aliviado por terem encerrado o assunto. Depois disso Nico ficou calado. Por mais pensativo que ele parecesse o doutor resolveu não puxar conversa, afinal não tinha nada de bom para falar com o pirata.
Assim que acabaram Nico subiu diretamente para seu quarto dizendo um “Boa noite” e sumindo da vista de Will rapidamente. O doutor respirou fundo tapando a boca com a mão segurando o jantar em seu estômago. Subitamente não se sentia muito bem.
Era impressão do Will ou Nico estava dando em cima dele?
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