Pit-a-Pat
20 Capítulo XX
Notas iniciais

Will
~Capítulo XX ~
:: 44º dia na Itália — Semana 6 ::
[...]
Will começou a notar um comportamento estranho em Nico depois daquele dia. Ele não era alheio as coisas como muitos pensavam, então ele percebeu logo depois disso o que o pirata estava fazendo, e isso não o alegrou nem um pouco. Nico às vezes vinha com piadas infames cheias de segundas intenções; outras simplesmente jogava elas sem filtro ou pudor algum.
Da ultima vez Will sentiu um desejo enorme de se enfiar debaixo da terra com tanta insistência em algo que o doutor não entendia de fato. Ele não tinha esse tipo de interesse por ele. Na verdade esse tipo de interesse sequer era permitido.
Sim, Nico era um pirata e piratas adoravam pegar as regras, rasgar e ainda jogar em você feito confete, então isso não era um problema pra ele, mas tinha um porém naquilo tudo o qual Will ainda não compreendia: toda vez que Nico vinha com alguma ação ou fala diferente sentia seu coração bater de uma forma que fazia seu corpo esquentar consideravelmente.
Um simples toque.
Era isso que bastava pra fazer o corpo do doutor se ascender, e Nico parecia ter percebido isso logo de inicio já que os esbarrões se tornaram frequentes. Will não admitiria isso em voz alta, mas gostava dos toques e só percebia que estava tendo a reação errada depois de abrir um sorriso largo nos lábios ou soltar uma risada baixa e amorosa.
Por Deus o que aquele pirata estava fazendo com ele?
― Solace o chá está pronto! ― gritou Nico da cozinha. O doutor respirou fundo levantando-se de sua mesa.
Fez o caminho até o pirata que enchia sua xícara de chá quente e fresco. Sentou-se com ela em mãos apreciando o morno contra sua pele. Will riu fazendo o mesmo. Aquele dia em especial estava bem fresco e um pouco de chá quente desceu muito bem recebido.
― O que tanto faz naquela sala? ― indagou Nico curiosamente.
― Estava lendo alguns livros. Sempre é bom se manter informado. ― relembrou Will tomando outro gole generoso do chá.
― E o que tanto achou de útil? ― continuou perguntando mantendo contato visual. Seus olhos estavam relaxados deixando Will confortável perto dele.
Essa foi uma das coisas que percebeu que o intrigou bastante.
― Utilidades de ervas medicinais diferentes e técnicas de amputação. ― comentou abrindo um sorriso sapeca pro rosto enojado de Nico ao imaginar a ultima parte.
― Vi mais do que o suficiente de amputações pra uma vida toda Solace. ― admitiu estremecendo.
― Ah foi? ― desta vez Will se encontrou curioso. Nico aquiesceu:
― Resumindo bastante nós piratas entramos em muitas lutas, e todas são matar ou morrer. Às vezes os ferimentos são terríveis demais. Ou uma lâmina envenenada, ou gangrena, ou mesmo durante a própria batalha. ― explicou: ― Não sei como não perdi nenhum membro nisso.
― Um pouco tenso. ― disse desconfortável: ― Já fiz algumas amputações de marinheiros e todas às vezes é uma coisa horrível. O som do osso se partindo e os gritos quando as ervas não tem a eficácia necessária.
― Não conheço nenhuma erva que faça uma amputação suportável. ― comentou Nico sincero: ― Se tiver me avise, porque todas que eu presenciei foram a sangue frio.
― Fico te devendo essa. ― serviu-se de mais um pouco de chá sentindo-se consideravelmente aquecido.
Nico levantou-se deixando a xícara na pia vazia. Bocejou preguiçosamente contagiando Will na sequência.
― Vou dormir um pouco, virei à noite lendo um livro. ― falou caminhando para fora da cozinha.
― Não deveria fazer isso. Noites de sono são importantes! ― repreendeu Will olhando-o severo. Nico sorriu aproximando-se dele.
― Às vezes vale a pena gastar uma noite inteira acordado. ― sussurrou ao pé de seu ouvido passando a ponta dos dedos pela extensão de seu braço enquanto se afastava.
Will puxou o ar entre os dentes sentindo um arrepio percorrer sua espinha. Viu Nico deixar a cozinha na sequência. Soltou o ar mordendo o lábio nervoso. Seu rosto esquentou consideravelmente e praguejou mais um pouco.
Dobrou os braços na mesa afundando a cabeça entre eles grunhindo baixo. Will não entendia, de verdade.
Por que ele não podia simplesmente agir normal?
☠
Will terminou de limpar o ferimento de Nico sorrindo orgulhoso para o resultado. A ferida só mostrava melhora atrás de melhora tirando um peso imenso dos ombros do doutor. Ainda estava bem ruim, mas o simples fato de ter parado de sangrar desenfreadamente e começar a cicatrizar apropriadamente era um começo.
Um maravilhoso começo.
Respirou fundo separando mais faixas para colocar em seu torso. Nico se manteve quieto todo o processo, vez ou outra resmungando de dor, mas fora isso mais nada. Estava com um livro em mãos sem título na capa. Ficou tentado em perguntar o que era, já que não lia livros diferentes dos medicinais há muito tempo e não se lembrava de todos os títulos que tinha.
Boa parte deles talvez nunca tenham sido lidos por Will já que suas estantes repletas de livros estavam na casa a mais tempo que que ele próprio. Nico virou mais uma página levantando o olhar do livro encarando Will diretamente.
― Algum problema? ― perguntou arqueando ao sobrancelha.
Will negou ruborizando de leve. Voltou a enfaixa-lo delicadamente fazendo questão e tampar bem a tatuagem já que sempre que Nico tinha a oportunidade saia de casa para suas aventuras nos bares afora.
Deixou apertado, mas não tanto a ponto prejudicar o machucado, e levantou-se levando consigo as coisas que usara.
― Solace? ― chamou Nico deixando o livro de lado: ― Tudo bem?
Will franziu o cenho: ― Sim, por que a pergunta?
― Só parece avoado. ―admitiu dando de ombros. Ele negou dando um pequeno sorriso.
― Estou bem, só cansado. ― falou abrindo a porta saindo por ela: ― Descansa.
― Você também. ― rebateu Nico rolando os olhos ajeitando-se na cama delicadamente: ― Boa noite Solace.
― Ainda é de tarde. ― apontou Will soltando uma risada no final.
Nico gesticulou com a mão para que Will saísse e assim o doutor o fez. Fechou a porta trás de si e desceu as escadas vagarosamente. Parou na metade delas soltando uma lufada de ar pesada.
Repuxou o tecido de sua roupa na altura de seu peito com força. Seu coração batia tão rápido que parecia querer sair de seu corpo a qualquer custo. Crispou os lábios voltando a descer as escadas.
Aquela semana estava sendo cruel para ele.
☠
Will pediu para Nico ir até a feira comprar algumas coisas para o almoço enquanto adiantava o que podia já que o pirata era um desastre na cozinha. Acendeu a lenha para a agua e começou a picar alguns legumes e verduras.
Tinha um pouco de cenoura, batatas e cebola, o bastante para um ensopado encorpado. Deixou a escolha da mistura pra Nico na feira de acordo com o preso dela. Não era época de caça, então o preço das coisas aumentavam naquela época do ano.
Não demorou muito pra ouvir os resmungos de Nico ao entrar na cozinha com a cesta cheia das coisas que ele pediu, dentre elas um frango recém abatido. Will deu uma analisada antes de assentir para si mesmo.
― Pode limpar o frango pra mim? ― pediu Will voltando para os legumes.
Nico aquiesceu lavando as mãos na água congelante antes de puxar as mangas até o cotovelo e começar a limpar a ave. Will continuou a picar as coisas enquanto a água fervia no fogo.
Ficaram boa parte da manhã fazendo isso antes de finalmente poderem degustar do ensopado. Fazia um bom tempo que Will não comia de um ensopado de frango. Dava trabalho, e na maior parte das vezes mal tinha tempo para comer alguma besteirinha antes de sua próxima consulta.
Ter um ajudante era bom, ainda que ele soubesse fazer poucas coisas para ser considerado de alguma ajuda. Saboreou do ensopado com deleite.
― Nico. ― chamou ele encarando o pirata que o olhou curiosamente.
― O que?
― Você nunca me falou muito sobre sua vida como pirata. ― comentou ele curiosamente: ― Além daquela história de como encontrou o Jason.
Nico o encarou pensativo com a colher entre os lábios.
― Não sei bem por onde começar a contar as coisas. ― admitiu dando de ombros.
― Você disse que navegava com a Reyna certo? ― perguntou Will. Nico confirmou: ― Então como que você se tornou Capitão depois?
Nico ficou sério depois disso o que fez Will arrepender-se brevemente pela pergunta. Sabia que Nico detestava falar sobre seu passado, talvez mais algum assunto delicado como foi com o Jackson.
Will trincou os dentes ao lembrar aquele homem. Nico pode não ter dito nada, mas Will sabia. Simplesmente sabia.
― Eu desde o começo sempre soube usar uma arma e espadas. ― começou ele deixando o ensopado de lado. Will lhe deu toda a atenção: ― Por isso quando entrei pra tripulação de Reyna chamei muita atenção. Era novo demais pra saber fazer o que um pirata aprendia na marra.
― Lembro que um dia um dos homens me desafiou para um duelo de espadas. O desarmei rapidamente e só depois disso soube que ele era um veterano no navio. ― Nico apertou os olhos estalando a língua: ― Seu nome era Octavian, o mesmo idiota que começou um motim contra Reyna e essa guerra no Caribe. Se eu soubesse que algo assim aconteceria teria matado ele.
Will torceu o lábio para a ideia, mas não disse nada.
― Por ser o “protegidinho” de Jason acabei me aproximando de Reyna durante meu tempo no navio. Ela pareceu gostar de mim logo no início e sempre acabava participando de reuniões de ataque e estratégias.
― Dei muitas opiniões, construí uma reputação no ano que fiquei com ela. Muitos homens seguiam mais o que eu dizia do que ela e isso criou uma discórdia entre nós, afinal ela era a Capitã e eu somente o Segundo Imediato. ― explicou seriamente.
Tomou um gole do suco quase intocado na mesa antes de voltar a falar. Will permaneceu em silêncio curioso:
― Eu tentei me manter o mais neutro possível depois de um alerta de Jason sobre isso. Não tinha reparado que era por ela ser mulher. O que é ridículo porque não faz diferença quem segura à arma e puxa o gatilho. Se a pessoa é perigosa e tem uma reputação o que tem entre as pernas não muda muita coisa. ― comentou rolando os olhos: ― Mas isso não espantava os comentários.
― Teve uma época em que queriam fazer motim e colocar Jason de Capitão, mas ele foi contra isso totalmente. ―falou gesticulando com as mãos exasperado, mergulhando fundo nas lembranças: ― Eles se davam bem, mas por terem gênios fortes acabavam sempre por discutirem sobre coisas fúteis.
― Um dia, depois de um ataque da marinha um dos navios de Reyna começou a afundar. Jason, Reyna e eu estávamos a bordo, mas eu estava de um lado totalmente oposto a eles do navio que iria afundar a qualquer momento. ― ele parou de falar apertando as mãos juntas na mesa.
Will o encarou preocupado, mas não o forçou a dizer nada. Tomou um gole do suco depositando sua mão no braço de Nico delicadamente para não assustá-lo. O pirata estremeceu com o toque olhando-o com curiosidade.
― Não precisa falar se não quiser. ― relembrou Will convicto. Nico sorriu pra ele colocando sua mão livre sobre a de Will.
O doutor prendeu o ar quando Nico aproximou-se de seu rosto:
― Agradeço a consideração, mas não é nada que eu não queira contar, é só... ― respirou fundo afastando-se de Will permitindo-o voltar a respirar: ― ...É justamente por esse motivo que eles se odeiam até hoje e com toda razão.
Torceu o lábio, mas voltou a falar apertando a mão de Will antes de afastar a sua própria da dele. Will também o fez.
― A marinha estava chegando para nos abordar e Jason havia ficado preso no compartimento de Carga quando houve uma explosão no Convés. ― seu tom de voz mudou e a raiva era palpável: ― Reyna estava com ele, mas decidiu deixar seu Primeiro Imediato para morrer sem sequer dizer a ninguém sobre ele.
― Quando ela subiu e perguntei sobre Jason ela me disse que ele já tinha voltando. ― falou olhando Will nos olhos: ― Pra minha sorte eu não confiava nela o bastante pra acreditar nisso. Jason não voltaria sem mim, não do jeito super protetor dele.
― Eu desci e o vi preso entre os escombros do compartimento de Carga. Lembro que fiquei sem saber o que fazer. Se demorássemos muito a marinha nos pegaria, isso se os explosivos que Reyna havia mandado colocar não nos matasse antes. ― respirou fundo controlando a raiva.
― Eu voltei para o Convés, peguei explosivos e os coloquei em lugares estratégicos pra explosão abrir caminho no casco do navio para nós dois. ― dito isso ele sorriu: ― Saímos nadando sem ninguém ver e o navio explodiu atrás de nós.
― Quando subimos a bordo pelo casco do Aurum e fomos abordados por uma Piper chorona e um Leo assustado que entendemos. Nós tínhamos sido deixados para trás e todos estavam cientes disso. Ninguém ali parecia se importar de verdade além de Piper e Leo.
― Reyna teve a cara de pau de sorrir e agradecer por estarmos vivos e não ter perdidos suas “cabeças pensantes”. ― falou Nico fazendo aspas com os dedos: ― Nunca vi o Jason mover-se tão rápido e acertar um soco em alguém como fez com Reyna.
― Eu fiquei sem ação. Estava possesso sim, mas não pensei rápido. Talvez se tivesse teria impedido que ele fosse expulso do Aurum e nisso Leo, Piper e seu fomos com ele. ― Nico ajeitou-se na cadeira desconfortável: ― Eu já estava pra sair mesmo para começar uma tripulação. Jason ser expulso só acelerou o processo.
― Tínhamos dinheiro para um navio e o que precisamos depois foi de pessoas e pra isso não é preciso muito esforço. ― suspirou olhando mais uma vez para Will: ― E é isso. Gostou da história?
Will arqueou a sobrancelha:
― A história é boa, mas essa Reyna não é minha pessoa favorita. ― admitiu cruzando os braços: ― O que ela fez foi ridículo.
― Sim, pra nós. ― respondeu Nico sério: ― Ela fez o que precisava fazer, por isso não tenho ódio por ela e Jason entende isso. Eu sou capitão, eu sei que às vezes sacrifícios são necessários. Claro, se fosse eu no lugar da Reyna não deixaria Jason ou nenhum dos meus homens mais fiéis para trás, mas isso vai de cada Capitão.
― É uma realidade cruel. ― concluiu Will desgostoso: ― É como se não tivessem em quem confiar, em quem se apoiar. É uma guerra pra ver quem vive por mais tempo com um passando por cima do outro.
― Exato. ― afirmou Nico: ― É exatamente isso. Não existe uma “família grande e feliz” entre piratas. Não é comum! Meus homens e eu somos assim porque eu quis assim. Não conheço nenhum outro navio que funcione dessa forma.
― Mas isso é bom. ― comentou Will: ― Isso significa que tem em quem confiar.
― Sim, mas também significa que a morte deles será muito mais sentida do que se fosse algum homem qualquer a bordo do Caronte.
O doutor aquiesceu:
― Já é diferente dela e isso basta. ― Will abriu um sorriso grande.
Estava contente por saber um pouco mais de Nico, e que diferente dos outros piratas ele ficou para trás para ajudar um amigo, mesmo que ninguém mais o fizesse. Ele fez. Will já tinha percebido que Nico não era como qualquer um dos piratas que Austin lhe contava. Não tinha nada a ver com eles. Ele ainda tinha algo de bom dentro de si, não havia sido totalmente corrompido.
Ainda dava para resgatá-lo daquele mundo. Ele ainda era ele.
― Solace? ― chamou Nico tirando Will de seu pequeno transe. Tinha as sobrancelhas franzidas: ― Tudo bem por ai?
― Sim, tudo. Só estava pensando que você é diferente do que imaginei que piratas pudessem ser. ― admitiu envergonhado.
Nico franziu o cenho:
― Como assim?
― Não foi totalmente corrompido. Não concorda com todos os seus ideais. ― explicou melhor. Nico concordou:
― Ainda tenho um pouco de sanidade mental. Isso é bom. ― afirmou sorrindo: ― Mas pra que tanta curiosidade sobre mim de repente?
― Não é de repente. Faz tempo que quero saber, mas você nunca fala nada. ― defendeu-se cruzando os braços.
Nico sorriu: ― Não sou um livro aberto Solace, entenda isso. ― ratificou afastando a cadeira para ter mais liberdade.
― Mesmo assim, estou interessado. ― respondeu sucinto. Nico arqueou a sobrancelha antes de sorrir maldosamente.
― Interessado é? ― comentou levantando-se da cadeira.
Will o seguiu com os olhos quando o mesmo parou a sua frente puxando sua cadeira para o lado lhe dando livre acesso a doutor. Will arregalou os olhos na intenção de questionar o que estava fazendo, mas quando Nico apoiou uma mão no encosto da cadeira do doutor e a outra na mesa ficando semi curvado sobre Will ele prendeu a respiração nervoso.
― Interesse é algo que temos em comum. ― admitiu aproximando seus rostos gradativamente.
Will mordeu o lábio sem reação. Seu rosto ardendo e pinicando pela respiração morna de Nico contra ele.
― Sabe o que é mais curioso? ― perguntou roçando seus narizes de forma delicada tirando um arfar dos lábios do doutor: ― Que você parece genuinamente interessado, e isso me choca um pouco.
Will tentou absorver aquilo, mas sua mente não estava funcionando. Só sentia aquela desordem no estômago e um sentimento desconcertante dentro das calças. Nico aproximou-se fechando os olhos gradativamente.
Antes que percebesse Will também o fez ansiando por algo, por mais um passo, por algo além da respiração morna de Nico em seus lábios.
Contudo as batidas na porta da sua casa fizeram Nico se afastar abruptamente trazendo Will de volta a realidade. Respirou fundo desconcertado piscando os olhos repetidamente. Levantou caminhando diretamente para a porta um tanto desnorteado. Abriu ela sem sequer perguntar quem era e o olhar severo de Charles o fez estremecer.
― Por que está vermelho? ― perguntou curioso. Will prendeu a respiração brevemente.
― Er... Eu... Eu estava cozinhando. ― respondeu a primeira coisa que lhe veio à mente, pois o que realmente era para ter acontecido ainda estava sendo processado por seu cérebro confuso.
O rosto sério de Charles fez algumas sirene tocarem em sua cabeça.
― Ok. ― respondeu cruzando os braços: ― Amanhã temos uma quermesse pra ir lembra?
Will franziu o cenho sem entender:
― Vai se encontrar com a Lou Ellen. ― relembrou o amigo em um tom de “espero que não tenha esquecido de verdade ou te dou um tapa”.
― Ah! Sim, claro! Lou. ―respondeu ele coçando a cabeça sem graça: ― Já é amanhã? O tempo voa né?
Charles arqueou a sobrancelha: ― Sim, amanhã. Vá pelo menos decente, ela é boa moça.
― Eu sempre estou decente. ― rebateu de braços cruzados. Charles riu olhando-o de cima a baixo.
― Não sei se concordo com isso. ― zombou fazendo Will olhar para si mesmo constatando a bagunça que estava.
Torceu o lábio desgostoso: ― Estou em casa, não conta.
― Conta sim. ― respondeu rindo verdadeiramente fazendo o coração de Will amolecer: ― Bom tenho de ir, só vim aqui te avisar disso. Milena, Henry, vam― Charles parou olhando para os lados em busca dos filhos: ― Ué, mas estavam aqui agora pouco.
― Passaram para dentro não tem nem um minuto. ― respondeu Will com um sorriso mais calmo: ― Vem. Devem ter achado o Nico.
Subitamente Charles fechou a cara, mas entrou mesmo assim. Will suspirou tentando evitar mais problemas.
Entraram na cozinha vendo Nico de pé conversando com Milena enquanto Henry estava em seu colo. Ele sorriu pra menina amorosamente respondendo algo que a mesma perguntou. Charles aproximou-se deles.
― Levesque. ― cumprimentou o moreno um pouco contra sua vontade, mas ao menos o fez. Nico o encarou:
― Beckendorf. ― devolveu o cumprimento ajeitando Henry em seu colo: ― Eles querem um pouco de ensopado, posso dar?
― Eles acabaram de almoçar! ― comentou Charles olhando Milena exasperado. A mesma cruzou os braços como se aquilo não fizesse diferença.
― Mas eu já to com fome de novo. ― resmungou a mesma olhando pro pai: ― Deixa!!
Will riu colocando uma mão sobre o ombro do amigo.
― Não regule comida pras crianças Charles. ― zombou Will recebendo um rolar de olhos de Charles que respirou fundo concordando.
Milena sorriu puxando Nico pela calça.
― Calma, calma! ― comentou ele rindo colocando Henry sentado na cadeira. Foi até o fogo encher dois pratos de sopa pras crianças.
Charles sentou-se na cadeira de cabeceira e Will ao seu lado.
― Provavelmente Silena vai vir amanhã pra te ajudar a se arrumar. Ela faz muita questão desse encontro. ― comentou o amigo passando e mão pelo pescoço tenso: ― Nunca conversei com ela, mas dê uma chance ok?
― Vou tentar, mas casamento não era algo que eu estava atrás agora. ― admitiu sem graça: ― Não tenho muito tempo disponível.
Nico olhou pra ele com um olhar inquisidor dizendo um “Você nem sai de casa direito”. Will o ignorou.
― Eu entendo isso, mas não vai matar ok! ― insistiu o amigo. Will meneou:
― Certo, eu vou. Mas ele vai também. ― falou o doutor firme apontando para Nico.
O pirata colocou o prato de Milena olhando pra Will um pouco chocado.
― Vou? ― questionou um pouco fora do assunto.
― Vai.
― Fazer o que numa quermesse? ― resmungou Charles desgostoso com a ideia.
― O tio Nico vai também? ― Henry perguntou feliz: ― Ele pode brincar comigo no parque!
― Aaaah! Mas eu quero que ele brinque comigo também! ― resmungou Milena: ― Vai brincar comigo né?
― Vou brincar com os dois, relaxem. ― respondeu sentando-se na cadeira ao lado de Will vendo as crianças comerem: ― Mas o bom de quermesse são as comidas.
― Isso eu concordo. ― Charles falou desfazendo um pouco da carranca.
― Ah vamos, sem desânimo Charlie. ― pediu Will.
― Urgh! Não me chama assim. ― resmungou ele olhando para outro lado.
― Qual o problema? ― perguntou Nico com falso interesse.
― A avó dele o chama assim. É fofo. ― resmungou piscando o olho pro amigo moreno que soltou um arfar.
― Não me chama de fofo! E o nome está errado. É Charles. ― explicou ele devagar como se estivesse falando com seus filhos: ― Ela fala assim porque ela não escuta direito.
― Fofo. ― sussurrou Will pra Nico que sorriu cumplice.
― Ok, você está passando tempo demais com o Levesque, está ficando irritante. ― ralhou revirando os olhos.
― Eu concordo. ― comentou Nico zombeteiro.
― Engraçado vocês. ― disse com falsa irritação.
― Papai não aguento mais. ― falou Henry olhando para o prato desgostosamente. Will riu da cara nervosa de Charles.
― Eu disse que vocês tinham acabado de almoçar! ― bronqueou ele sério.
― Mas eu comi tudo. ― Milena mostrou o prato limpo com um sorriso no rosto. Charles encarou a menina por um tempo.
― Pra onde vai toda essa comida? ― perguntou indignado. Ela somente riu descendo da cadeira para colocar o prato na pia.
Henry acabou deixando a comida de lado abrindo brecha pra Charles poder ir embora e voltar pra ferraria. Se despediram dos três antes de voltarem a seus afazeres. Nico foi diretamente para o Hall atrás de um livro novo para ler e Will o seguiu.
― Você vai amanhã certo? ― insistiu o doutor para Nico.
O pirata o encarou curioso:
― Por que quer tanto que eu vá? ― perguntou desconfiado.
― Caso essa ideia de sair com a Lou Ellen não dê certo posso usar você como desculpa para cair fora. ― admitiu sem graça.
― Oh! Sou seu bode expiatório. ― comentou com uma risada: ― Certo, eu vou. Prometi brincar com as crianças lembra?
― Vão te pegar pra Cristo. ― zombou Will virando-se para voltar pra cozinha.
― Mais? Já não tive sofrimento demais nessa vida? ― ralhou abrindo o livro descontraidamente, mas Will precisou encará-lo naquela hora.
O sorriso no rosto era falso. Will o conhecia há um tempo para entender quando ele estava zombando de si mesmo de verdade ou quando estava questionando. Questionando Deus por seus problemas. Mordeu o lábio tentado a perguntar, mas Nico foi mais rápido que suas intenções:
― Mas parece que a gente nunca aprende. ― comentou ele em tom baixo, o sorriso morrendo em seu rosto: ― Sempre atrás de coisas que provavelmente nunca poderá ter, aumentando o sofrimento. ― respirou fundo olhando para Will: ― Eu sei que eu vou quebrar a cara, mas vale a pena tentar pelo talvez.
Will crispou os lábios e saiu do cômodo sem dizer nada. Apoiou a mão na mesa encarando seu prato ainda intocado na mesa. O ensopado frio e nada convidativo. Arfou colocando a mão nos olhos com um cansaço repentino.
Queria voltar lá e perguntar sobre mais cedo. Perguntar o que tinha acontecido e o que realmente iria acontecer se Charles não tivesse aparecido. Will pensou, de verdade, no que teria acontecido se tivessem continuado, e por mais que a simples lembrança lhe tomasse o ar sua mente continuava o julgando.
Isso é errado.
Corte pela raiz.
Não dê corda, coloque ele pra fora.
Os dois serão enforcados.
Will queria poder dizer algo. Joga-lo contra a parede e mandar que parasse com aquelas investidas sem sentindo, mas outra parte de si queria que ele tivesse continuado. Queria que tivesse aumentado o contato. Queria sentir aquele formigamento mais uma vez.
Arregalou os olhos surpreso. Por Deus o que ele estava pensando?
Repreendeu-se virando no intuito de acabar com a brincadeira, mas parou no lugar. Será que seria assim tão ruim se ele fingisse não ver nada?
Se ele fingisse que Nico não estava dando em cima dele? Seria tão errado ele não pará-lo?
Afinal de contas o que poderia acontecer demais?
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