Pit-a-Pat

12 Capítulo XII


Notas iniciais
Olá amores tudo bom? Domingo não consegui postar pois o capítulo ainda estava incompleto, mas consegui ver hoje. Não sei como serão as atualizações daqui por diante, mas sempre será ou de quarta ou de domingo, não nos dois como no começo. Então quanto chegar de quarta se eu não postar nada aguarde pelo domingo, e se mesmo assim eu não postar nada espere pela outra quarta, ok? As vezes alguns assuntos enroscam pra sair como esse capítulo enroscou uns três dias a mais. Enfim, quero agradecer pelos comentários de vocês, amo ler cada um deles ♥ Ah, e obrigada também quem deu uma passada na minha Oneshot Solangelo também, muito amor vocês e corajosos ruehurheu 16k é uma aventura. Bom, sem mais delongas! Explicações importantes sobre o cap abaixo. Boa leitura!

Will

~Capítulo XII~

:: 6º dia na Itália — Semana 1 ::

[...]

Will voltou pra casa cansado no final do dia. Assim que passou pela porta num resmungo sentiu o cheiro de comida fresca invadir suas narinas. Sorriu para isso deixando sua bolsa no sofá e indo até a cozinha. Silena estava em frente a pia lavando alguns pratos. Os cabelos presos em um coque quase solto pelo esforço que fazia. Cantarolava uma musica de ninar que Will não lembrava qual era mesmo conhecendo.

Caminhou até ela afagando seus cabelos. A moça riu:

― Está lavando louça nesse frio? ― perguntou Will imaginando o quão gelada aquela água deveria estar. Por mais que a primavera estivesse começando ainda estava bem fresco.

― Se eu não lavar ninguém lava. ― respondeu ela zombando: ― Aliás nem está tão gelada assim. ― disse desligando a torneira e espirrando água em Will.

O rapaz recuou pelo susto e o gelado da água. Silena começou a rir da feição traída de Will.

― Maldosa! ― bradou ele sorrindo depois: ― Então, como foi a tarde com o N... Levesque?

A moça ficou séria por alguns momentos antes abrir um sorriso largo. Will arqueou a sobrancelha:

― Aconteceu algo?

― Não. Ele é bem quieto. ― respondeu ela indo até a panela no fogo mexendo a comida dentro. Parecia ser uma sopa bem reforçada: ― De toda forma eu tenho de ir, já está ficando tarde e preciso fazer a janta em casa.

― Tudo bem, obrigado pela ajuda. ― agradeceu acompanhando ela até a porta. Silena soltou os cabelos se virando pra Will.

― Ah, não se esqueça de deixar o Levesque escrever pra irmã dele, ouviu? ― disse apontando-lhe o dedo ameaçadoramente.

Will revirou os olhos. Nico não tinha uma irmã, isso era muito óbvio.

― Pode deixar. ― disse levantando as mãos rendido: ― Agora vai, anda!

― Ok, estou indo. ― saiu pela porta respirando o ar puro: ― Eu volto sempre que precisar de mim. Não hesite em pedir. Boa noite Will!

― Boa noite Silena. ― despediu-se fechando a porta e passando uma tranca. Respirou fundo encostando a testa nela.

Preocupação encheu o peito de Will ao ver a feição de Silena momentos antes. Claro que ela não diria nada e perguntar para Nico esperando uma resposta sincera também não era algo que ele poderia fazer.

Estalou a língua pegando sua mala e levando para seu escritório. Deixou seus medicamentos e papéis na mesa, recolheu um pouco de ataduras e um pote com emplasto e subiu para ver Nico.

Saiu para a sala de espera com Nico o encarando do segundo andar apoiado no corrimão. Parou abruptamente. O rapaz o encarava com o rosto sério. Will ficou tenso por uns instantes.

― Ela vai vir sempre pra ser minha babá? ― perguntou desgostosamente. Will deu de ombros:

― Não é como se eu pudesse dizer pra ela não vir. A Silena faz o que quer. ― respondeu Will voltando a andar em direção à escada. Nico bufou: ― Por que? Aconteceu algo?

Nico virou-se voltando para o quarto: ― Não.

Will resmungou seguindo-o: ― Pensei que não conseguisse sair andando por ai.

Nico sentou novamente na cama soltando um gemido de dor pela posição. Respirou fundo olhando Will desinteressadamente:

― Não consigo.

― Mas... Ah, quer saber? Esquece. ― deixou as ataduras e o emplasto na mesa ao lado e foi até Nico: ― Ok, vamos ver esse machucado. ― falou levantando a camisa de Nico.

Wil fez uma careta para o sangue nas ataduras. Há quanto tempo Nico já estava com ele? Uma semana provavelmente? Respirou fundo balançando a cabeça. Provavelmente era pelos esforços desnecessários que ele estava fazendo, nada sério.

Foi até a mesa pegando um pano úmido e voltando. Nico fez uma careta:

― Eu sei que arde, mas preciso limpar. ― falou Will sério: ― Se parasse de andar pela casa quando não estou o ferimento já estaria mostrando melhoras, mas ele continua sangrando como no primeiro dia. ― comentou ele soltando as ataduras delicadamente, principalmente aquelas em cima do machucado repuxando a pele.

Nico soltou um gemido mordendo o lábio pela dor. Will continuou o processo delicadamente limpando o ferimento na sequência. Nico ficou calado durante todo ele, soltando vez ou outra alguns resmungos.

― O que aconteceu entre você e Silena enquanto eu estava fora? ― perguntou Will desinteressadamente enfaixando-o.

Nico o encarou arqueando a sobrancelha:

― Nada. ― respondeu ele com ar questionador, como se perguntasse se ela disse algo. Will grunhiu irritado.

― Eu sei que aconteceu algo, mas ok. Se estão de segredinhos já significa que estão se dando bem. ― rebateu o doutor.

Nico soltou um som de indignação:

― Não estamos de segredinho!

― Tudo bem. ― respondeu Will sentando-se ereto na cadeira: ― Prontinho. Vou pegar a porção de comida que a Silena deixou pronta.

Nico anuiu ajeitando-se na cama cuidadosamente. Will se levantou arrumando as ataduras sujas em um pequeno bolo nas mãos colocando-o em cima da bandeja. Antes de sair lembrou-se do ultimato de Silena. Soltou um longo e pesado suspiro virando-se ao rapaz.

― Silena me pediu pra te trazer coisas pra escrever para sua irmã imaginária. ― Will falou chamando a atenção e Nico que o encarou curioso.

― Imaginária? ― indagou confuso.

― Ora vamos, eu sei que você inventou tudo aquilo. ― disse Will rolando os olhos: ― Mas pra eu não ficar como o ruim da história, vou deixar você escrever algo pra ela.

Nico ficou calado o encarando um pouco surpreso. Desceu o olhar para suas cobertas:

― Eu não inventei ela, Solace. ― rebateu Nico: ― A Hazel existe, e gostaria sim de escrever para ela, mas não agora.

Will arqueou a sobrancelha: ― Por que não?

― Se eu conseguir sair daqui não tem porque eu enviar uma carta a preocupando a toa. ― respondeu Nico num sussurro: ― Caso eu fique por aqui, ai sim mandarei uma mensagem pra ela.

Will concordou:

― Bom, quando quiser é só avisar. ― disse saindo do quarto na sequência.

Will não queria parecer frio ou incompreensivo, mas ele não conseguia acreditar que Hazel realmente existia. Era como se forçar a acreditar em um assassino que nunca matou ninguém. Piratas são um pouco de cada coisa, ruim ou não.

Assassinos, ladrões, enganadores e mentirosos, principalmente. Will temia acreditar demais em suas palavras e acabar sendo enganado, já sabia como as coisas funcionavam. Das poucas vezes que Austin retornou escondido para visita-lo e trazer presentes lhe contou sobre os piratas.

Disse para não confiar cegamente neles, mas também não os destratar. Will tentava não destrata-lo, ofende-lo ou qualquer coisa do tipo e sabia que não estava fazendo o melhor trabalho do mundo, mas não é como se Nico ajudasse no processo.

Soltou uma lufada de ar cansado. Depositou a bandeja em sua mesa de trabalho encarando as faixas ensanguentadas. Apertou os olhos para as manchas segurando o pano em mãos. O ferimento de Nico era bem sério, sem dúvida alguma, mas já era para seu sistema começar a coagular o sangue do local e cessar o sangramento aos poucos.

Uma semana é tempo o bastante pra pessoa melhorar consideravelmente, mas Nico não estava mostrando nenhum nível de melhora, exceto alguns movimentos a mais que os três primeiros dias.

Respirou fundo deixando as ataduras de lado e voltando para a cozinha. Lavou as mãos na água gelada da pia estremecendo consideravelmente, levando em conta a temperatura elevada de suas mãos.

Foi até a panela de sopa que Silena havia deixado preparado. Inalou o cheiro adocicado da sopa servindo uma tigela cheia e subiu para o quarto de Nico. O rapaz o observou entrando e deixando a tigela na mesa ao lado. O vapor que saia da sopa era espesso. Nico torceu o lábio.

― Não estou com fome, Solace.

Will respirou fundo abaixando os ombros:

― Nico, escuta. ― pediu ele com a voz mais calma que pode. Sentou-se ao lado dele na cama. Nico não tirou os olhos dos seus por nenhum segundo: ― Eu sei que é difícil comer quando estamos com dor, mas se você não comer não vai melhor, ok?

Ele desviou o olhar, mas concordou minimamente. Will crispou os lábios encarando a sopa.

― Precisa que eu dê pra você? ― perguntou ele sério. Nico o encarou um pouco em choque.

― O que? Não!

― Não encare isso como invalidez Nico. ― explicou o médico: ― Preciso que você coma, e se pra isso eu precisar te dar, nem que eu fique aqui uma hora eu ficarei, mas preciso que coma um pouco.

Nico abriu a boca pra retrucar, mas respirou fundo na sequência.

― Você me servindo ou não não fará diferença. ― respondeu baixo: ― Mas eu gostaria que ficasse por aqui, se não se importar.

Will ficou surpreso:

― Quer que eu fique?

Nico aquiesceu não o encarando diretamente. Will piscou duas vezes soltando uma risada meiga.

― Tudo bem, eu fico Nico. ― respondeu ele levantando-se: ― Vou pegar minha porção, mas tem que comer, ok?

― ‘kay. ― respondeu olhando para a sopa.

Will sorriu minimamente saindo do quarto para pegar sua porção. Em alguns momentos ele definitivamente não entendia o Nico.

Quando voltou o rapaz soprava a colher com um pouco de sopa levando a boca. Ele comia a contra gosto, e dava para reparar bem nisso. Fechou a porta atrás de si sentando-se na cadeira ao seu lado se servindo da sopa de Silena.

Nico parou naquela colherada encarando a sopa por um tempo.

― Odeio ficar aqui, Solace. ― sussurrou ele fechando os olhos com força. Will ficou tenso encarando o pirata.

Ele parecia frágil daquele ângulo. Apertava a tigela com força. Parecia imerso em pensamentos.

― Por que? ― ousou perguntar mantendo o tom no mesmo de Nico. Temeu que ele não o escutasse, mas ele o fez.

― Meu problema não é você, se quer saber. ― respondeu ainda de olhos fechados. Respirou fundo encostando a cabeça na parede: ― É justamente eu estar preso em uma cama de novo. ― mordeu o lábio sussurrando: ― Odeio isso.

Will puxou o ar tenso. Desviou o olhar do rapaz torcendo o lábio.

― Você não está preso na cama, Nico. ― rebateu Will convicto: ― Você pode sair se é o que quer. ― afirmou ele o mais firme que pode.

O pirata estremeceu abrindo os olhos encarando-o. Will não soube ler sua expressão, mas algo em seus olhos brilhava quando disse isso. Um sorriso mínimo brotou em seu rosto, um que Will ainda não havia visto, sem malícia ou tristeza por detrás.

― Obrigado. ― disse ele abaixando o olhar pra sopa tomando um pouco mais: ― Eu posso até não ser um cara confiável a maior parte do tempo ― começou ele sem encarar Will: ―, mas não vou ganhar nada fazendo mal a você, acredite.

Will queria acreditar nisso, então somente assentiu e terminou sua sopa. Se eles conseguissem lidar um com o outro pelos próximos dias, provavelmente conseguiriam passar dessa fase de ressentimentos.

O que lhe custaria tentar?

Depois de quase mais uma semana Nico começou a ficar cada vez mais irritado. Will percebia pelas suas respostas curtas que com certeza o prazo estava apertando, e até aquele momento nada dos seus tripulantes.

Nico não falou muito deles pra Will, mas sabia que um homem loiro com uma cicatriz no lábio aparecia atrás dele e que deveria deixa-lo entrar. Era a única coisa que ele realmente sabia sobre seus amigos piratas.

Depois daquela noite e da conversa com Nico, Will sugeriu que ele descesse para o Hall onde havia os sofás e algumas estantes com livros, mas Nico disse não conseguir descer as escadas ainda, mas saber que poderia descer o deixou satisfeito.

Quando deu dez dias que estava tratando de Nico o rapaz mal falava com ele. Era como se todo o nervosismo e a raiva estivessem acumulados dentro dele esperando para explodir em algum momento.

Além disso, o ferimento não dava sinais de melhora e depois de quase duas semanas começou a preocupar Will de uma forma alarmante. O sangramento continuava, e cada vez mais Nico parecia pálido e fraco. Mesmo com as sopas reforçadas de Silena ele não melhorava.

Era como se seu machucado não cicatrizasse normalmente.

Quando foi perguntar sobre isso pra Nico o rapaz somente deu de ombros como se não soubesse do que estava falando, mas não respondeu com palavras. Will respeitou seu silêncio.

Devido ao seu ferimento não mostrar melhoras começou a alterar sua dieta para frutas mais nutritivas, cortou a carne de sua dieta ― mesmo que não tivesse muita ― e pediu para que ele dormisse em posições diferentes das habituais.

― Olha preciso que você durma de lado, seu corpo está ficando exausto e a ferida não está ventilando apropriadamente. ― avisou Will enquanto Nico encarava a janela irritado: ― Andar um pouco seria bom. No meu quarto tem alguns livros, pode ler eles se quiser. Ah, falando nisso tive de mudar a sua dieta.

Nico nem mesmo se dignou a olhá-lo.

― Consegui algumas frutas aquosas no mercado por um bom preço, vamos ver se seu machucado vai melhorar agora, porque ele estranhamente não está cicatrizando. ― falou torcendo o lábio em desagrado: ― Mas de toda forma se puder dormir em outra posição seria melhor.

Nico mais uma vez não respondeu, somente respirou fundo soltando um grunhido. Will arqueou a sobrancelha.

― Nico? Ei! Está me ouvindo? ― perguntou ele aproximando-se dele: ― Nico?

O pirata grunhiu puxando de seu colchão uma adaga bem escondida entre as vigas de madeira da cama avançando contra Will o derrubando no chão com um baque alto. Will mal teve tempo de raciocinar o que estava acontecendo até sentir a lâmina gélida da adaga em sua garganta.

Arregalou os olhos aterrorizado. Nico mantinha o olhar mortal trincando os dentes sem tirar seus olhos dos azuis mortificados. Estava sentado em cima de Will com as pernas em seus ambos lados o segurando no chão.

Will sentiu sua garganta arder enquanto respirava descompassadamente. Diferente do que se passava em sua mente, Nico não deixou que a adaga o cortasse. De forma alguma.

― Pare de me dar ordens Solace, a menos que queira morrer. ― ameaçou ele com a voz baixa e grave. Will sentiu-se arrepiar pelo medo: ― Se continuar vai se arrepender.

Com um ultimo aviso retirou a adaga de seu pescoço e que permitiu Will respirasse fundo tossindo algumas vezes. Nico se levantou voltando para a cama. O doutor continuou o chão estático. Não teve coragem de olhar para o pirata, só precisava sair dali o mais rápido que conseguia.

Saiu do quarto de Nico entrando no seu na sequência. Encostou-se na porta respirando descompassadamente sendo interrompido por soluços altos e as lágrimas grossas descendo por seu rosto.

O choro veio com tudo o derrubando no chão. Tremia de medo e pavor, e só de pensar na adaga em seu pescoço o fez estremecer.

Aquilo foi aterrorizante.

Respirou fundo puxando seus joelhos e afundando seu rosto neles. Não tentou mascarar o choro, nem mesmo quis saber se Nico poderia ouvir. Não se importava mais àquela altura. Só queria que ele fosse embora.

Nos dias seguintes Will ficou cada vez mais calado nas consultas. O máximo que ele dizia era sobre o estado do ferimento, e perguntando se sentia dor, fora isso se manteve o mais longe possível de Nico e sua maldita adaga.

Silena apareceu oferecendo ajuda, mas Will recusou dizendo estar tudo sobre controle. Grande mentira é claro. Saiu para atender o Senhor D. e na sequência passou para ver Harley.

Chegou temerosamente na casa, mas assim que a Senhora Barteles o recebeu dizendo que seu marido estava em uma viagem de negócios ele se permitiu relaxar. Imaginou o que poderia ser essa tal “viagem de negócios”, mas concluiu que não gostaria de saber.

Foi até Harley pousando sua mão em sua testa molhada pelo suor. Ofegava demasiadamente puxando as cobertas com força. Will mordeu o lábio. O quadro dele estava péssimo. Não queria ser pessimista, mas a única coisa que ele fazia nessas visitas era ver como ele estava, pois nada mais poderia ser feito.

Olhou para a mãe encostada no batente da porta com o olhar fundo, com bolsas negras sob os olhos de tão cansada. O cabelo uma bagunça e para piorar parecia não se alimentar bem há dias.

Com um suspiro pesado Will aproximou-se dela tristonho. Encostou-se na parede ao lado da porta imerso em pensamentos. Harley já estava doente há três semanas e seu quadro piorava a cada dia; vez ou outra uma melhora mínima para depois ter uma queda drástica.

A febre ia e vinha com frequência, e o apetite não voltava. O rapaz estava bem mais magro que Will recomendaria para sua idade, sem contar é claro na palidez de sua pele. Mordeu o interior de seu lábio sentindo o gosto ferroso do sangue.

Estava temeroso demais pela vida do pequeno, e não conseguir fazer nada além de ficar ali o vendo definhar dia após dia. Era o pior dos sentimentos.

― Eu tenho rezado todos os dias desde que ele adoeceu. ― a mulher disse. A voz cansada e arrastada. Will a encarou: ― Todos os dias tenho colocado os joelhos no chão pedindo por misericórdia pelo Harley. ― complementou abraçando-se: ― Não vejo melhora.

Will abaixou o olhar.

― Às vezes não é pra ser. ― respondeu arrastado. Engoliu em seco ficando ereto: ― Às vezes tentamos impedir algo que não pode ser impedido.

Falou ele não tirando os olhos do pequeno que ofegava na cama. A senhora Barteles colocou uma mão em seu ombro solidária.

― Às vezes gostaria de saber se está tentando me consolar, ou consolar a si mesmo, doutor. ― comentou a moça num sorriso triste: ― Aprecio o que tem feito pelo Harley até aqui, mas é melhor ir descansar.

Will a encarou tenso, mas concordou com ela. Se despediu da senhora e saiu da casa sem dizer mais nada ou olhar para trás. Respirou fundo e voltou para casa.

Entrou sem fazer barulho e foi diretamente para seu escritório. Como retornou mais cedo que o normal resolveu passar no quarto do Nico para dar uma olhada nele antes de descansar um pouco da semana turbulenta.

Passou a mão pelos cabelos soltando o rabo de cavalo. Pegou as ataduras nas mãos. Mordeu o lábio incerto quanto ao que fazer com Nico dali por diante. Não sabia o que causava esse problema de cicatrização. Duas semanas e o machucado não mostrava querer fechar?

No momento estava inchado como se tivesse infeccionado o que ele não duvidava nem um pouco. Contudo Nico parou de reclamar depois do incidente com a adaga, mas Will sabia que ele sentia dor, já que sempre que mexia na feria ele se repuxava de dor, bem mais do que antes.

Respirou fundo exausto:

― Não vou perder outro paciente. ― murmurou pra si mesmo colocando as ataduras na bandeja junto do emplasto de sempre e subiu para o segundo andar.

Chegou à frente da porta pronto para entrar, mas não o fez. Um barulho baixo dentro do quarto o fez parar e ficar tenso. Parecia uma espécie de ofego, e o que ele supôs ser um choro?

Encostou o ouvido a porta escutando os ofegos que com certeza eram de dor. Eram entrecortados pela respiração falha e soluços baixos. Crispou os lábios tentando não fazer barulho.

― Droga. ― o ouviu resmungar fungando na sequência: ― Se o Jason estivesse aqui me daria um xingo, certeza. ― zombou de si mesmo respirando fundo: ― Péssima hora pra ameaçar o Solace.

Will rolou os olhos afastando-se da porta. Não era um bom momento para se aproximar. Voltou ao andar de baixo sentando-se em um dos sofás do Hall. Passou a mão pela testa preocupado ao extremo. Ele estava com dor. Muita dor.

O ferimento era para ter melhorado àquela altura, mas ele parecia piorar cada vez mais. A dor talvez fosse daquele dia da adaga, mas e se não fosse? Will engoliu em seco se levantando.

― Preciso resolver isso. ― murmurou indo até a estante do seu escritório puxando alguns livros grossos para a mesa organizada.

Abriu um enorme de capa marrom falando sobre anatomia humana e começou a ler pulando algumas páginas grosseiramente. Sentou-se na cadeira passando os olhos vorazes pelas palavras no livro.

Pulou para as partes de cicatrização, como o corpo funcionava e o que ajudava. Falou sobre a camomila, a qual Will já usara, além do açúcar que ajuda a cicatrizar, mas que é terrível de limpar da ferida depois, assim sendo Will sempre evitava usar.

Outro falava sobre problemas nutritivos, que falta de algumas vitaminas dificultava na cicatrização, mas Will negou esse fato afinal estava cuidando de sua alimentação tinha duas semanas, impossível estar com alguma deficiência de vitaminas.

Respirou fundo descartando outro livro. Voltou para a estante atrás de outro. Este dizendo a mesma coisa sobre medicamentos, ervas e vitaminas para se usar. Trincou os dentes irritado depositando o livro junto dos outros dois.

Tinha de ter algo falando sobre má cicatrização, certo? Inspirou fundo e pegou outros dois livros, um deles totalmente escrito em Inglês. Will sabia pouco sobre o idioma, mas alguns termos conseguia discernir bem.

Contudo, exatamente como os outros tudo o que os livros forneciam era como tratar e deficiência de vitaminas. O livro em Inglês falava de algumas doenças que impediam a cicatrização como bebidas em excesso, cigarros e doenças crônicas.

Will estremeceu.

Nico com certeza bebia e fumava o tempo todo, mas durante toda sua reabilitação com Will ficou longe de bebidas e cigarros. Talvez a abstinência o impeça de cicatrizar direito? Nunca leu algo sobre isso nos livros.

A idade também interfere, dizia o livro, mas ele era novo demais pra ter problemas que vem com a idade. Apoiou o rosto nas mãos, exausto. Respirou fundo e lentamente tentando organizar a cabeça.

Já estava escurecendo, os livros se glomerando em um canto de seu escritório, e a única coisa que ele concluiu é que não tinha a menor ideia do que se passava com ele. O cigarro impede a cicatrização, e isso ele sabia; a bebida também afeita o organismo, mas ele estava em abstinência então o corpo já estaria se renovando a essa altura.

―O único jeito de saber é perguntando. ― resmungou ele levantando-se da cama: ― Ele com certeza deve saber, mas não conta.

Voltou para a sala do Hall pegando a bandeja que deixou no sofá e subiu para o quarto. Respirou fundo entrando. Nico estava ofegante deitado na cama com um dos braços sobre os olhos eepuxava a coberta com a outra mão.

Will deixou a bandeja de lado e foi até ele preocupado.

― Nico? Hey! ― chamou ele colocando sua mão sobre ele. Esperou que o pirata fosse afastá-lo, mas sequer reagiu ao toque: ― Nico?

Ele tremia sobre sua mão fora os ofegos aumentando. Retirou o braço de seu rosto encarando Will curiosamente.

― O que você está sentindo? ― perguntou ele avaliando o ferimento. Estava avermelhado e um pouco inchado.

― Dor. ― respondeu simplesmente.

Will meneou:

― Vou te dar uma erva calmante, mas vou ter de limpar o ferimento, ok? ― perguntou já se levantando e indo atrás das ataduras desenrolando-as.

Nico aquiesceu fechando os olhos.

Will saiu do quarto atrás da erva que não havia trazido junto. Não se demorou muito na cozinha retornando. Nico estava virado de lado respirando descompassadamente. Will tocou-lhe o ombro lhe dando a erva calmante.

Nico tomou dois goles antes de negar a bebida, mas já era algo. Assim Will o ajeitou melhor e fez a limpeza do machucado. Os gemidos de dor do rapaz o fazia ficar tenso, mas precisava limpar aquele ferimento.

Na verdade precisava saber exatamente o que se passava com o machucado que não fechava, mas não tinha tempo para isso. Levou quase uma hora pra conseguir limpar e enfaixa-lo novamente.

Nisso Nico já estava melhor, a erva o havia acalmado um pouco. Os olhos ainda estavam vermelhos do choro de antes, mas em nenhum momento durante o tempo em que limpou a ferida viu Nico derramar uma lágrima sequer.

Ele não era do tipo de chorar na frente das pessoas.

Will soltou um suspiro pesado saindo de perto de Nico.

― Solace? ― chamou ele. O doutor se virou curioso. Nico sentou-se na cama um pouco desconcertado: ― Desculpe.

Will arqueou a sobrancelha: ― Por?

― Por ter te ameaçado. ― explicou-se: ― Eu estou desesperado com a ideia de ficar por aqui e acabei descontando em você.

― Não acho que vão conseguir vir. ― admitiu Will em tom baixo. Ainda temeroso de dizer algo que Nico não gostasse.

O pirata aquiesceu:

― Eu sei. ― admitiu olhando nos olhos: ― Eu não iria machuca-lo, se é o que pensou. Só queria assustá-lo. ― falou por fim desviando o olhar.

Will respirou fundo:

― Eu entendo que esteja pirando com a ideia de ficar os seis meses por aqui, mas tenta não me matar na próxima. ― disse ele ironicamente. Nico arqueou a sobrancelha curioso:

― Então... Você me perdoa?

― Sim, te perdoo. ― respondeu com um sorriso pequeno que o pirata retribuiu minimamente: ― Mas só se fizer uma coisa por mim.

― O que seria? ― Will sentou-se novamente na cadeira, agora com o ar sério. Nico endireitou-se: ― O que houve, Solace?

― Seu ferimento não cicatriza. O que você tem? ― perguntou de vez mantendo contado com os olhos opacos de Nico.

O pirata estremeceu desviando o olhar prontamente. Mordeu o lábio como se pensasse bem no que responder.

― Não conseguiu pensar em nada? ― zombou ele. Will negou ainda sério. Nico suspirou: ― A minha má cicatrização é algo que tenho desde criança. Um dos motivos de eu viver acamado.

― E sabe o motivo? ― insistiu Will preocupado.

Nico assentiu: ― uma doença maldita, se quer saber. ― falou respirando fundo. Virou-se novamente para ele o encarando: ― Tenho diabetes, Will.

O doutor retesou-se. Diabetes era uma doença terrível que matava pessoas com mais facilidade que qualquer outra enfermidade. Normalmente é difícil de se diagnosticar, tanto que ainda não consta em livros sobre a doença ou como trata-la.

Contudo Will sabia um pouco sobre diabetes, e talvez soubesse como ajudar na cicatrização.

― Você... mas....

― Nunca contei pra ninguém. Nem mesmo meus tripulantes sabem disso. ― admitiu ele num sorriso forçado: ― Sempre desviava do assunto dizendo não saber, mas a maresia sempre ajudou na cicatrização. Aqui estou muito longe do mar.

― Deveria ter me contado antes. ― falou Will ligeiramente irritado: ― Eu poderia ter cuidado de você de outro jeito.

― Não tem outro jeito. ― cuspiu o pirata ajeitando-se na cama: ― Eu preciso sair dessa cama, não aguento mais.

Will torceu o lábio incerto, mas levantou-se lhe estendendo a mão.

― Vamos descer então? ― perguntou o doutor.

Nico encarou sua mão estendida com curiosidade. Voltou a encará-lo antes de aceitar a ajuda para levantar. O machucado doía, mas não tanto quando antes.

― Vai mesmo me deixar descer? ― perguntou Nico um pouco incerto.

― Sim. Preciso ficar por lá, e é bom você voltar a se mexer, mas no começo ande comigo porque vai sentir muita fraqueza. ― explicou o doutor o ajudando a andar: ― Já aproveita e come na cozinha. Vou ver o que posso te fazer hoje.

― ok.

― E vamos falar do banho. ― ressaltou Will recendo um olhar cômico de Nico: ― É sério, está precisando.

― E você, por acaso, tem uma banheira? ― zombou o pirata.

― Sim. Meu pai consultava o Marquês, e meio que ele nos presenteou com uma. ― admitiu Will num sorriso envergonhado.

Normalmente nessa época somente pessoas da alta classe possuíam banheiras, e mesmo assim nem todos eram adeptos a banhos.

― Hm, entendo.

― Mas se não tivesse era só você ir no rio. ― relembrou Will. Nico soltou uma risada cômica.

― Eu? Nesse frio? Me erra Solace.

― Ah, vamos! Não estou falando pra você submergir na água tá! ― relembrou ele: ― Afinal nem pode.

― Não morre tá! Isso é mito, eu já comprovei isso. ― rebateu Nico rolando os olhos.

Desceram as escadas calmamente com Will sustentando seu corpo.

― Tanto faz, mas vou te ajudar pra não se machucar mais. ― comentou guiando-o pelo ultimo degrau. Assim que chegaram ao térreo Nico olhou em volta curioso antes de soltar um sorriso de deboche.

― Esse era seu plano desde o começo? Me ver como vim ao mundo? Que doutor pervertido. ― zombou.

Will sentiu seu rosto arder abrindo a boca chocado. Nico pôs-se a rir gostosamente perdendo um pouco do equilíbrio e tendo de ser mantido pelo doutor ainda em choque. Que tipos de pensamentos se passam pela mente do pirata?

O doutor lhe mostrou a língua ultrajado. Nico rolou os olhos dramaticamente. Sentou-se no sofá admirando o Hall.

― Quando entrei estava tudo escuro, mal vi nada. ― admitiu Nico dando de ombros. Correu os olhos pelas estantes: ― posso?

― À vontade.

Nico aquiesceu deitando-se no sofá respirando um pouco mais pesado pelo esforço. Will somente sorriu do pirata. Se dirigiu até a cozinha um pouco mais tranquilo pelo pedido de desculpas e mil vezes mais preocupado pelo que descobrira.

Nico tinha diabetes, e ali era onde morava o real perigo:

Como se trata um diabético?

Notas finais
O que acharam do cap? Respondi a pergunta que todos queriam saber rueruehrue A resposta veio bem rápido né? Mas não tinha como eu "prolongar o suspense" porque machucado que não fecha é pedir pra dar complicações u-u Bom, vamos explicar um pouco as coisas: 1- Diabetes foi diagnosticada a uns bons 4 séculos atrás, contudo ninguém entendia as causas da morte muito bem ou tratamento, porque naquela época não sabia de diabetes tipo 1 e tipo 2, e sequer tinham insulina. Ou seja, aqueles que morriam mesmo com uma boa dieta eram diabéticos tipo 1 que necessitavam de medicamentos que ainda não haviam sido inventados. Na época em que Nico se encontra não temos insulina, por isso ela é mortal. 2- Não se deixem levar pelo Nico, ele tem motivos pra fazer o que faz, desde ser amoroso à rude ;) 3- Não se esqueçam que se passa na Itália, e naquela época você falava somente a sua lingua, as outras eram praticamente desnecessárias. Bom, acho que respondi tudo. Espero que tenham gostado. Até o próximo!! beijinhos~