Pit-a-Pat

8 Capítulo VIII


Notas iniciais
CHEGUEI!!! ia postar mais cedo, mas estava atarefada na cozinha hoje ruheureureu Quero agradecer aos comentários e favoritos ♥ São tão amorzinhos vocês!!! AAAAAAAA QUE FELICIDADE! Saber que vocês estão curtindo é a melhor parte!! Bom, sem mais delongas né? Um cap do Will fresquinho! Boa leitura!

Will

~Capítulo VIII~

:: 4º dia na Itália — Semana 1 ::

[...]

Will pegou a bacia vazia em cima da mesa da cozinha enchendo-a com um pouco de água. Ele sabia que seria complicado ficar com aquele homem ali com ele. Sabia muito bem também que não poderia confiar nele. Era um pirata, e piratas são enganadores e mentirosos.

Quando ele desmaiou em seus braços dois dias antes Will o levou para o quarto vago em sua casa para tratar da ferida que havia deixado um pequeno rastro em sua casa. Era profunda e parecia estar começando a inflamar.

Toda a sua roupa estava repleta de sangue, mas somente com a luz do lampião não conseguia ver bem o ferimento. Então somente o limpou, enfaixou e esperou pelo amanhecer.

Não deveria ter ficado surpreso no dia seguinte quando o desenfaixou e viu a tatuagem de um cachorro de três cabeças um pouco acima da ferida inflamada. Também não deveria ter ficado mais surpreso quando bateram a sua porta perguntando sobre o rastro de sangue que ia até sua casa e teve de se explicar convincentemente.

Ele seria um problema, e Will não entendeu porque decidira cuidar dele depois de descobrir ser um pirata. Talvez fosse curiosidade, ou simplesmente porque aquele homem não parecia ser tão ruim enquanto dormia.

Respirou fundo fechando a torneira e voltando ao andar de cima. Will entrou no quarto com a bacia deixando-a na cadeira observando Nico que o encarava curiosamente.

― Vou precisar limpar o ferimento. ― avisou aproximando-se de Nico. O mesmo o evitou: ― Eu preciso olhar.

― Para olhar não precisa tocar. ― resmungou incomodado.

Will suspirou: ― Olha, eu sou médico. Vou cuidar e olhar somente o seu ferimento. Tenho integridade. ― afirmou sério. O moreno o olhou com deboche fazendo o sangue de Will ferver: ― Se eu quisesse machuca-lo teria o feito enquanto estava desmaiado.

Nico o encarou com mais atenção, mas somente afirmou com a cabeça um pouco relutante dando liberdades a ele. Talvez a dor tivesse o vencido de alguma forma, mas Will não soube dizer. Somente inspirou fundo desabotoando sua camisa.

Seria uma longa jornada.

Teria de fazer várias trocas de ataduras até desinflamar, fora as ervas que teria de colocar nele constantemente para tentar aliviar a dor que ele sentiria nos próximos dias. Não havia perguntado sobre como havia conseguido aquele ferimento, mas provavelmente fora apunhalado por algum marinheiro na briga.

Não queria mais contato que o necessário, e por isso evitaria aparecer por lá a não ser que fosse para ver a ferida ou levar um pouco de comida para ele. Teria uma consulta naquele dia com o Senhor D. mas resolveu que passaria a consulta para o dia seguinte alegando ter outro paciente ― o que não era mentira ― já que num primeiro momento não poderia deixa-lo sozinho com um arrombo no abdômen.

Resolveu ir até o mercado comprar um pouco de Camomila para ajudar na cicatrização do ferimento. Sabia que ele não conseguiria se levantar da cama mesmo se quisesse, então uma ida rápida ao mercado não teria problema.

Saiu pela porta e andou por entre algumas carroças na rua até o mercado lotado. O cheiro das especiarias era inebriante. Will adorava passar o dia no mercado vendo cada nova erva, fruta ou sementes que os mercadores traziam de outros países.

Conversou com alguns dos mercadores além de algumas pessoas que ali compravam. Naquele horário sempre se encontravam as mesmas pessoas conversando, comprando ou mesmo simplesmente andando pelo mercado. Fazer isso dava uma cor à vida diária dos moradores de Ravenna.

Will não se demorou muito retornando a casa. Deixou a cesta de comida na mesa e aprontou os utensílios médicos para trocar as ataduras do pirata. Pegou uma pequena vasilha de metal e começou a preparar a camomila para passar no ferimento, separando uma porção para fazer um chá; misturou um pouco de Calêndula para ajudar na desinflamação.

Depois de tudo pronto subiu para o quarto. Nico estava deitado encarando a janela aberta. A cortina não mais obstruía a visão do mar, a qual provavelmente tinha sido afastada pelo vento forte já que Nico não conseguiria se levantar sozinho para fazê-lo.

Andou até seu lado ajeitando as coisas para a troca das ataduras. Contudo Nico o afastou antes que chegasse perto do machucado. Will arqueou a sobrancelha para o rapaz que só o olhava sério. Tentou uma segunda vez, mas novamente foi afastado.

Will suspirou: ― Eu pensei que já tínhamos superado essa etapa. ― resmungou cansado.

― Pensou errado. ― rebateu Nico convicto cruzando os braços o encarando.

Você é impossível. ― disse Will soltando os utensílios em mãos as levando ao alto.

― Ouvi falar. ― comentou rolando os olhos ajeitando-se na cama.

― Estou tentando te ajudar aqui, e pra isso preciso desinfetar a ferida antes que ela piore. ― explicou tentando manter a serenidade.

― Desculpe se não gosto das pessoas me tocando sem meu consentimento. ― Nico respirou fundo evitando contado com o loiro. Will balançou a cabeça.

― O que quer? Que eu chegue e peça permissão toda vez que eu for trocar suas ataduras?

― É o mínimo. ― resmungou tirando um suspiro pesado do loiro.

― Certo. Eu posso fazer isso. ― disse por fim: ― Posso mexer no seu ferimento? ― pediu cortês encarando as orbes negras do garoto. Ele assentiu e assim permitindo Will de mexer nela.

O problema nem era pedir permissão, ou mesmo ter de aguentar a teimosia dele, o problema é que Will não estava com muita paciência naquele dia para as frescuras de um pirata que já deveria ter sido entregue à marinha, mas que ELE, Will, havia resolvido poupar de sua vida. E como era agradecido? Com ingratidão!

O afastando pela terceira vez seguida naquele dia foi sua gota:

― Ah! Não acredito nisso! ― ridicularizou soltando as coisas e ficando em pé: ― Vai fazer isso todas às vezes? ― perguntou estupefato. Nico riu:

― Talvez.

― Preciso trocar suas ataduras cinco vezes ao dia! ― complementou descrente com a resistência do pirata.

Nico deu de ombros não respondendo o que tirou um gemido irritado de Will.

― Que pecado eu cometi para merecer tal castigo? ― resmungou pra si mesmo andando de um lado para o outro. Nico achou cômico:

― Seja qual for é melhor se confessar logo. ― zombou vendo o loiro parar de andar o encarando sério.

― Sabe que não funciona assim. Não posso aparecer na igreja, só quem a frequenta são os hereges. Sou um médico renomado, não posso fazer isso. ― respondeu mesmo sem Nico ter pedido uma resposta. E por incrível que pareça o moreno gargalhou:

― Cômico não? A casa de Deus não pode ser frequentada pelos fiéis, somente pecadores. Isso nos dá a entender que quem não frequenta a igreja não peca. Se for assim nós piratas somos todos santos.

Will balançou a cabeça voltando para a cadeira: ― Isso é blasfêmia. ― falou: ― Preferia quando ficava calado.

― Posso dar um jeito nisso, raio de sol. ― zombou o moreno deixando Will tenso.

― Do que me chamou? ― perguntou surpreso.

― Nada, Solace. ― rebateu: ― Pode mexer, prometo não dizer mais nada. ― disse por fim levando o olhar ao mar novamente. O tempo estava claro, sequer parecia que um ciclone havia passado por ali dois dias atrás.

Will nada disse, somente começou a trocar as ataduras passando um pouco da mistura de Camomila e Calêndula para acelerar o processo de cicatrização. Fez todo o processo quieto ouvindo vez ou outra um choramingo de Nico pela dor que sentia.

Depois que terminou o enfaixou mais uma vez:

― Vou te trazer a comida, pirata. ― disse levantando-se para sair o quarto.

― Nico.

― O que? ― perguntou virando-se. O rapaz o encarou de canto.

― Meu nome. É Nico. ― respondeu simplesmente voltando olhar para a janela. Will aquiesceu saindo do quarto.

Will cuidava do ferimento de Nico periodicamente. A ferida o atravessava de fora a fora, tornando mais difícil sua cicatrização. Por isso, para acelerar o processo, Will passava vários minutos limpando e aplicando ervas medicinais na ferida.

Nico de vez em quando relutava um pouco, mas depois de resmungar pelo que pareceram ser cinco vezes no mesmo dia ― nas contas de Will claro ―, no dia seguinte resolveu parar de reclamar. Will desenfaixou seu torso limpando a ferida ensanguentada. Nico gemeu de dor virando o rosto par ao lado oposto ao rapaz.

Ele suava pelo possível esforço em evitar transparecer a dor que sentia. Will sabia que aquele tipo de ferimento era terrível, e por isso limpava com paciência e calma, parando periodicamente ajudando a aliviar a tensão do rapaz.

Limpou todo o sangue seco do ferimento indo até a mesinha ao lado da cama e pegando um pouco das ervas em uma tigela preparada. Misturadas com um pouco de água, Will fez um pequeno emplasto. Voltou a sentar-se na cadeira perto da cama e a aplicar suavemente as ervas.

Nico trincou os dentes fechando os olhos com certa força. Will parou encarando suas feições contorcidas pela dor. Assim que o viu relaxar aplicou um pouco mais do emplasto de forma bem generosa. Esticou o braço pegando as faixas para cobrir a ferida aberta. Ajudou Nico a se sentar para assim poder enfaixar seu torso.

Nico ofegava apoiando-se nos ombros de Will depositando boa parte de seu peso nele. Will não se importava com isso, mas conseguia ver a fadiga estampada no rosto pálido do Pirata. Respirou fundo dando um nó levemente apertado o deitando novamente.

Assim que encostou sua cabeça no travesseiro caiu no mundo dos sonhos. Will riu balançando a cabeça. Deu uma ultima conferida no ferimento antes de examiná-lo apropriadamente.

Parecia bem desnutrido. Provavelmente precisaria de refeições encorpadas para sua pele voltar a ter uma cor saudável. Encostou sua mão na testa do moreno medindo a temperatura, mas com a aproximação percebeu mais nitidamente o colar pendurado em seu pescoço.

Quando o havia trazido na madrugada não conseguira ver em detalhes nada do que Nico trazia consigo, somente ficara preocupado em cuidar da ferida que parecia mortal num primeiro momento. Mas naquela hora o colar brilhava contra a luz do dia.

Desceu a mão até ele. Era um cordão negro com um anel de caveira pendurado e ao lado dele uma pequena chave. A base do anel era de ferro, a caveira era feita de ossos enquanto os olhos se destacavam com uma cor vermelha berrante; possivelmente uma pedra preciosa.

Will a admirou passando os dedos pela saliência dos olhos. Realmente uma joia. Pensou de quem ele poderia ter roubado. Algum nobre, talvez, ou mesmo roubado de outro pirata. De toda forma não parecia lhe pertencer.

Soltou o colar afastando-se de Nico cautelosamente. Recolheu suas coisas e saiu do quarto antes mesmo de ver o moreno abrir os olhos analítico e segui-lo porta a fora.

Precisaria de coisas bem fortes para evitar uma anemia por conta da falta de sangue. Pensou em fazer algum tipo de sopa, talvez de batata por ser mais encorpada. Precisaria de uma lista de alimentos bons para começar com a dieta dele.

Desde a ultima conversa deles no dia em que acordou Nico parou de sustentar qualquer tipo de diálogo. Will não soube dizer se ele havia ficado ofendido com algo, mas por algum motivo ficava incomodado por ele o evitar.

Depois do almoço iria até a mansão do Senhor D. já que havia adiado no dia anterior e não poderia mais fugir. O único problema era deixar Nico sozinho durante uma hora, talvez duas. Ele sabia que Nico não conseguiria fazer nada além de gemer e dormir o dia todo, mas chegou a cogitar a hipótese de pedir para alguém ficar com ele, mudando de ideia em seguida. Seria perigoso se descobrissem que ele era um pirata e que Will o estava escondendo.

Portanto resolveu somente avisar que sairia e torcer para ele não morrer nesse meio tempo. Entrou no quarto com Nico semiconsciente na cama. Ficou com um pouco de pena em ter de acordá-lo, mas seria melhor avisar de qualquer modo.

― Nico. ― chamou ainda parado no batente da porta. Nico levantou os olhos sonolento.

― Diga. ― falou com a voz rouca e baixa pelo sono.

― Vou sair por algumas horas, tenho um paciente para atender. ― avisou esperando alguma resposta pertinente vindo dele, mas o máximo que recebeu foi um aceno e uma pergunta simples:

― Quem?

Will riu: ― Faz diferença?

Nico não respondeu desviando o olhar para o teto. Will suspirou cedendo:

― Senhor D. É meu paciente de rotina. ― pegou a maçaneta da porta fechando-a gradativamente enquanto terminava de falar: ― Tem uma bandeja com água e comida na mesa ai do lado caso tenha fome. Tente não se levantar, senão o ferimento vai piorar ainda mais.

Nico aquiesceu e assim Will fechou a porta e saiu para a casa de Dionísio.

Foram às mesmas coisas de sempre. Perguntas sobre esposas, o porquê de ele não poder beber vinho com frequência, mas que mesmo perguntando ele continuaria a beber, sobre como estava seu comércio de vinhos e que as crianças continuavam a roubar uvas de seu jardim.

Exatamente o mesmo de sempre e isso cansava Will todas às vezes. Pelo menos uma vez ele poderia ser diferente? Talvez falar sobre o clima, mas não, sempre as mesmas conversas. Era nessas horas que ele entendia porque os outros médicos desistiram de cuidar dele.

Refez o caminho para sua casa parando vez ou outra para conversar com as pessoas na rua. Um deles sendo Charles que não o deixou dar nenhum passo sequer para longe da Oficina.

― Você tem evitado falar comigo tem uns três dias. ― ressaltou o amigo cruzando os braços: ― Você é muito teimoso sabia?

Will riu: ― Eu estava ocupado esses dias, não é como se estivesse fugindo.

Charles suspirou pousando a mão em seu ombro.

― Vou fazer a pergunta e vamos ver se isso é verdade ou não. ― comentou por fim olhando-o desafiador: ― Como está o Harley?

Ele definitivamente queria poder dar um tapa em Charles. O sorriso em seu rosto murchou desviando o olhar para o outro lado da rua. Ouviu Charles suspirar.

― Escute eu sei que ele piorou muito, mas como eu te falei antes não é sua culpa. ― disse o moreno puxando Will para que o olhasse: ― Eu acredito que ele vá ficar bem, mas você não pode se afundar por causa disso. Ele não morreu Will.

― Ainda. ― resmungou baixo passando a mão pelos cabelos nervosamente: ― Eu não sei o que fazer. A pneumonia piorou muito e eu sequer pude ir vê-lo nesses dois dias, só fiquei sabendo do seu estado por causa da mãe dele e...

Respirou fundo recusando-se a continuar falando. Por Deus como era patético. Charles cruzou os braços olhando Will repreendedor.

― Vou te dizer isso mais uma vez, não é sua culpa se um paciente morre ou não. Chame de destino se quiser, mas não é sua culpa. ― explicou ele, mas Will ainda evitava de olhá-lo: ― Mas então, o que ficou fazendo esses três dias?

Will retesou-se. Não poderia falar de Nico para ele... Poderia? Não tinha como fingir que ninguém estava na sua casa, já que as pessoas iriam perceber mais luzes acesas, ou o Will ficando mais tempo em casa coisa que ele nunca fez antes.

Contudo, naquele momento ele não tinha uma boa resposta para dar, então seria torcer para Charles não descobrir a mentira antes.

― Estou cuidando de um paciente. ― respondeu tentando aliviar a tensão: ― Ele apareceu na frente da minha casa três dias atrás sangrando e machucado depois de ser assaltado no caminho para cá.

Charles arqueou a sobrancelha duvidosamente. Will praguejou internamente. Maldito sexto sentido de pai!

― E ele convenientemente apareceu na frente da sua casa que, por ironia do destino, é um médico e agora está tratando dele? ― resumiu Charles com a mesma expressão facial de "não acredito, mas vamos fingir que sim."

― Sim?

― Está me perguntando? ― zombou Charles. Will resmungou.

―Quero dizer, claro. Ele está muito machucado, mal consegue sair da cama. Então tenho ficado muito em casa. ― explicou sucintamente. Essa parte não era mentira.

Charles assentiu: ― Vou passar na sua casa depois então, vamos ser se esse seu paciente não é nenhum louco querendo te matar.

― O que? ― bradou Will pelo susto subindo uma oitava no tom de voz. Pigarreou desviando o olhar: ― Não precisa, como eu disse ele não consegue sair da cama, não vai me matar ou coisa do tipo.

― Sei.

― Charles eu não sou criança. ― rebateu Will cruzando os braços lhe batendo levemente com sua maleta. O amigo riu:

― Não, mas é comum alguns pacientes quererem se aproveitar de você. Tem essa cara de moça.

Will corou consideravelmente: ― Moça!??!

Charles gargalhou: ― As pessoas pensam que podem se aproveitar de você, por isso é bom eu estar por perto e quebrar algumas caras, certo?

Will rolou os olhos ainda envergonhado.

― Enfim, tenho de ir. ― disse Will começando a caminhar: ― Mande lembranças para a Silena, mas eu não posso mesmo comer na sua casa por esses dias.

Charles negou com a cabeça, mas não escondendo o riso.

― Pode deixar.

Eles se despediram com um aceno e Will continuou sua caminhada respirando profundamente. Precisava aprender a mentir melhor, ou pelo menos achar um caminho para casa que não passe pela oficina dos Beckendorf.

Depois de duas horas fora, retornou a casa cansado e honestamente faminto. Agradeceu mentalmente à suas lombrigas por terem o feito comprar uma porção de Figo no dia anterior no mercado.

Por breves momentos esqueceu-se da presença de Nico indo até seu escritório e fazendo algumas anotações sobre o estado do Senhor D, além de um pequeno inventário de seus medicamentos e ervas no estoque.

Não viu o tempo passar, e somente percebeu ser tarde quando precisou acender o lampião para enxergar os papéis em mãos. Massageou as têmporas cansado. Teria de sair para reabastecer o estoque com ataduras novas e álcool que estavam faltando em seu estoque. Tinha no máximo umas cinco de cada, e com Nico hospedado em sua casa usando de quase dois montes por dia teria mesmo de se reabastecer com certa frequência.

Um barulho no andar de cima lhe tirou a concentração dos papéis e o fez se lembrar do rapaz ferido hospedado em sua casa. Praguejou baixo por ter se esquecido dele saindo às pressas do escritório. Assim que chegou ao pé da escada viu Nico apoiado no corrimão do corredor encarando-o com curiosidade.

― O que faz de pé? ― Will perguntou acelerando o passo. Nico não respondeu tentando manter-se equilibrado nas pernas que pareciam não responder ao seu comando.

Will o pegou segurando-o pelo ombro sustentando quase todo seu peso. O guiou de volta ao seu quarto deitando-o na cama. A janela estava aberta permitindo a forte corrente de ar entrar no cômodo fazendo a cortina esvoaçar-se ruidosamente.

Andou até ela fechando-a. Virou-se a Nico caminhando calmamente até ele.

― Por que estava no corredor? ― perguntou novamente com a voz mais calma que pode.

Nico encarou a porta: ― Você disse que voltaria em poucas horas, mas já anoiteceu. ― comentou ignorando a pergunta de Will.

― Bem eu cheguei já tem um tempo, mas acabei ficando ocupado com minhas coisas. ― respondeu evitando comentar sobre ter se esquecido brevemente dele. Nico o encarou:

― Parece que ter um homem semimorto na sua casa não é tão interessante assim. ― zombou soltando uma risada sem humor: ― Eu acharia no mínimo curioso.

Will suspirou: ― Está com fome? Vou preparar alguma coisa pra nós.

Não esperou pela resposta, somente deixou o cômodo e foi preparar algo. Não havia muita coisa em sua casa para fazer um jantar saudável para alguém quase anêmico, mas uma comida simples já ajudaria bastante.

Não se demorou muito e subiu para o quarto com uma bandeja em mãos. Dois pratos e uma jarra com suco estavam dispostos nela. Entrou no quarto colocando-a na mesa ao lado da cama. Nico estava sentado mexendo em seu colar de caveira. Assim que o viu entrar o guardou por dentro da camisa.

Will achou curioso, mas não comentou nada.

― Consegue comer sozinho? ― perguntou ajeitando a coberta em seu corpo.

― Não me perguntou isso ontem. ― comentou zombeteiro. Will balançou a cabeça:

― Estava com raiva de você ontem. ― respondeu: ― Mas hoje vou relevar seus comentários idiotas.

Nico rolou os olhos: ― O que ocasionou essa mudança de pensamento?

“Eu me esqueci de você por horas!”

― Sou uma pessoa boa e caridosa. ― brincou sorrindo sentando-se na beirada da cama: ― Ainda não me respondeu.

― Consigo segurar o prato, mas não estou com fome. ― disse simplesmente encostando a cabeça na parede fria. Will suspirou.

― Pode pelo menos tentar? ― pediu esperançoso: ― Posso dar pra você se quiser. ― propôs recebendo um olhar mortal de Nico.

― Nem se atreva. ― trovejou: ― Me passe o prato logo.

Will riu com a vitória pegando o prato e entregando nas mãos de Nico com o talher. Encheu o copo com o suco colocando na mesinha ao seu lado. Puxou a cadeira sentando-se nela e se servido do segundo prato.

― Vai comer aqui?

Will levantou o olhar a Nico que o encarava um pouco surpreso.

― Não posso fazer companhia ao meu paciente? ― respondeu com outra pergunta. Nico bufou.

― Quer garantir que eu coma, não é isso? ― grunhiu Nico.

― Não é que você sabe das coisas? ― zombou Will levando o garfo à boca ingerindo da comida quente.

Ficou encarando Nico brincar com a comida sem muito interesse. Fez uma nota mental sobre sua falta de apetite e a pele cada vez mais pálida. Talvez fosse a luz da vela, mas ele parecia bem mais abatido que antes.

Tomou um gole do suco sem tirar os olhos do rapaz que depois de um logo tempo brincando com o garfo resolveu comer. Comeram praticamente em silêncio por todo o tempo, um silêncio um tanto incômodo.

Queria quebrar aquela monotonia, mas não conseguia. Ele era um pirata. Provavelmente não era confiável, e contar sobre sua vida talvez não fosse correto. Contudo ele poderia estar se precipitando sobre Nico? E se na verdade fosse uma pessoa boa?

Era difícil de acreditar nessa hipótese, então resolveu não pensar nisso e comer o resto de sua comida já fria.

― Como está lá fora?

Will o encarou surpreso por ter sido o primeiro a falar algo. O rapaz tinha o olhar vidrado no prato quase intacto. Seu rosto era neutro, não transparecendo nenhuma expressão, mas ele podia jurar ter visto um pouco de tristeza em seus olhos.

― Barulhento. Um pouco fresco pela primavera, mas as pessoas estão encantadas com as novas mercadorias da estação. ― respondeu feliz por poder falar algo. Nico aquiesceu:

― É estranho não poder sair da cama quando quero. Me trás recordações ruins. ― comentou baixo deixando o prato de lado. Realmente não havia comido mais que dois ou três bocados.

Will se controlou para não perguntar o motivo, então somente se ajeitou na cadeira resolvendo manter uma conversa com ele:

― Bem, já que não pode sair vou descrever como está lá fora. ― Nico o encarou neutro: ― Como está bem no começo da primavera ainda está fresco, mas agradável. As árvores começaram a florescer tem uma semana e estão lindas. ― comentou Will lembrando-se da paisagem como se fosse uma pintura a óleo: ― As roseiras começaram a desabrochar, além das ameixeiras terem começado a florescer. Já as viu alguma vez? As folhas são brancas e belas, mesmo sem as frutas ela é uma das árvores mais linda que já vi florescer.

Olhou para Nico o vendo de olhos fechados. Tinha um sorriso no rosto, leve, mas bem tímido. Continuou a narração.

― Está na época das frutas, e por isso as crianças começam a roubá-las das árvores, mesmo à dos quintais dos vizinhos. Elas fazem muito isso com as uvas do Senhor D. ― comentou Will rindo: ― Tinha que ver o desespero delas quando eram apanhadas, correm como se não houvesse amanhã.

― As aves voltaram para Ravenna. Parece que elas trouxeram a vida de volta para a cidade. ― Seus olhos não desgrudavam das feições de Nico que pareciam mudar de nostalgia para dor em frações de segundos, mas não parou de falar: ― Fora o mar. Parece sempre mais brilhante e com vida nessa época do ano. Dá para se apaixonar por ele só de olhar sua serenidade.

Will parou permitindo-se encarar Nico. O rapaz estava quieto, mas seu rosto parecia, pela primeira vez para Will, triste e desamparado. Como se tivesse sido estapeado por algo. Ele abriu os olhos desviando prontamente para a parede oposta.

― Não imaginei que sentiria falta disso. ― resmungou baixo, mas alto o suficiente para Will o ouvir:

― Já esteve aqui antes? ― perguntou inocentemente. Nico respirou fundo:

― Já saqueei vários locais. ― respondeu evitando encará-lo. Will bufou:

― Típico. ― resmungou cruzando os braços. O ouviu rir, mas se recusou a olhá-lo.

― Já estive em vários lugares. ― comentou encarando suas mãos em seu colo: ― Talvez a Holanda, nessa época do ano, seja o local mais belo em que já estive. A primavera os favorece.

Os olhos de Will se iluminaram: ― Como é lá?

Nico riu: ― Parece criança. ― Zombou fazendo Will sorrir: ― É muito lindo. Na primavera, os jardins de Keukenhof florescem com tulipas das mais variadas cores. Elas criam desenhos no chão te deixando extasiado. Você se sente em outro mundo andando por ele, é como se você se libertasse dos seus problemas só por olhá-las. Eu nunca me canso de passar por lá, mesmo que seja só para sentar e apreciar a vista.

― Em algumas partes do jardim um pequeno córrego a corta no meio. Parece uma pintura. É tão surreal que às vezes eu me perguntava o que era verdade e o que não era. Pois pra mim aquele lugar parecia um sonho. ― comentou olhando Will com os olhos calorosos: ― Às vezes gostaria de poder ficar lá definitivamente, não só fazendo visitas rotineiras.

Will se sentiu encantado. Nico poderia ser muitas coisas, mas com certeza não era ruim em contar histórias. Ele sorriu abertamente pela primeira vez desde que Nico aparecera em sua casa. Resolveu por breves momentos esquecer que aquele homem a sua frente era um pirata, trapaceiro e provavelmente um assassino a sangue frio e se permitiu mergulhar no mundo que acabara de narrar.

Que se danem os estereótipos.

― Que outros locais você visitou?

E aquele foi o começo de uma longa noite.

Notas finais
SE EU AMO O CHARLES? SIMM!!! uhruehrue Ah! Não se enganem, o Will não confia nele tá reuhruehreu Não vai ser assim tão fácil ganhar a confiança do nosso loirinho lindo :v O que acharam do cap? O Nico irrita né? EU JÁ TINHA DADO UM TAPA FORTE NA CARA DELE PRA VER SE CRIA VERGONHA! Hunf' "TO CUIDADO DE VOCÊ, SEU MERDA. ME RESPEITA" Obrigada quem leu até aqui!! Até quarta lindos do meu core ♥ beijinhos~