Pit-a-Pat
5 Capítulo V
Notas iniciais

Nico
Capítulo V
[...]
“A lua estava alta no céu. Era uma noite quase sem nuvens; o vento era calmo, mas gélido arrepiando Nico a cada brisa que colidia consigo. Bem, o pouco dela que passava pelas grades da janela.
Estava sentado no banco de madeira com a cabeça encostada na parede de pedra. Gelada e parte dela úmida pela maresia tão próxima da prisão. As grades para o corredor eram grossas e negras, mas parte das barras um pouco enferrujadas.
Suas roupas sujas o incomodavam; seu cabelo estava preso em um rabo de cavalo baixo deixando alguns fios de cabelo cair por seu rosto. Fechou os olhos quando outra das brisas sacudiu seus cabelos com força. Sentiu um arrepio subir-lhe pela espinha, e cansado desceu para o chão deitando na palha espalhada por ele.
Fechou os olhos colocando o braço sobre eles. Estava cansado, com fome, e muito preocupado com Hazel e o que poderia lhe acontecer dali por diante. Respirou fundo tentando acalmar-se, mas a tremedeira não passou, o que o fez perceber que não era o frio de fato.
Ouviu explosões e tiros. Abriu os olhos momentaneamente levantando metade do corpo e se apoiando nos cotovelos. O lado de fora era consumido por gritos, tiros e o barulho de espadas se colidindo.
Apertou os olhos para a porta de entrada da prisão que num tranco foi lançada longe. Sentou-se normalmente pelo susto olhando para as figuras que entraram por ela. Piratas em sua maior parte. Os prisioneiros a seu lado bradaram ansiosos enquanto começavam a ser soltos.
Nico não deixou de ficar aterrorizado. Eles não os estavam soltando para saírem por ai andando, iam ser pegos como servos ou pior. Pela porta um rapaz se fez presente. E Nico não deixou de reparar naquele par de olhos azuis tempestuosos que o encaravam surpresos.
Que coincidência dos deuses”.
Duas semanas em Alto mar.
Já estavam perto de Moçambique e não haviam feito nenhuma parada até o momento. Os suprimentos que conseguiram de Reyna foram mais úteis do que Nico imaginou. Só precisariam parar na Cidade do Cabo para reabastecer dali mais duas semanas, o que adiantou bastante na viagem.
Nesse meio tempo os homens novos na tripulação começaram a ser marcados com as tatuagens que pertenciam à sua tripulação. Normalmente você só é marcado quando não pretende deixar a pirataria ou mesmo o pirata a quem você segue. Então ver quase todos os homens tatuarem o Cérbero em seus corpos deixou Nico surpreso.
Ele sempre pensou muito nisso de tatuagem. Quando estava a bordo do navio de Reyna todos os seus homens possuíam uma tatuagem com SPQR escrito no braço e riscas que representavam há quantos anos serviam à Ramirez. Exceto por Jason.
De todos ele era o único que não possuía essa marca, mesmo que fosse o Primeiro Imediato de Reyna, e que estivesse com ela a mais anos do que todos ali presentes ― exceto talvez por Octavian. Havia lhe perguntado uma vez o porquê de não ter a tatuagem, e ele simplesmente disse que não sentia que fosse ficar sempre com ela, ou que não abandonaria a pirataria um dia.
Contudo ele tinha a tatuagem de Cérbero em seu antebraço, e mesmo que Reyna tentasse não se sentir ofendida, ele sabia que ela com certeza havia levado isso como algo pessoal. E desde então eles se ofendem sempre que se veem e somente em poucos momentos eles tem uma conversa mais civilizada.
Se um dia perguntarem a Nico o porquê de Jason ter aceitado uma tatuagem do Cérbero, ele com certeza não saberia responder. Jason era transparente em alguns aspectos, mas em outros não conseguia entender o que se passava em sua cabeça.
Durante a viagem a tripulação cantava, faziam piadas de mau gosto, apostas ― as quais Nico fez questão de ficar bem longe ―, e competição para ver quem bebia mais. Essa ultima resultou em um dia inteiro com homens enjoados e com dores de cabeça para todos os lados.
Leo havia feito amizade com Atallah, e desde então tentava aprender o seu idioma, ou mesmo ensinar o Inglês para ele. A ave vez ou outra soltava algumas frases em Malásio e algumas em Inglês que Leo havia ensinado como “Me traga mais rum” ou “terra à vista”.
Essa ultima criou o maior reboliço quando o pássaro começou a gritar “terra à vista” e os tripulantes tentando ver onde e quem dizia isso. Foram reclamar com Nico, mas ele não deu importância mandando não prestarem atenção em uma ave.
O Irlandês ― Que Nico descobriu se chamar Liam ― competia quedas de braço com Sherman quase todo dia. Depois da segunda semana o Yang começou a ter dificuldades de bater o Irlandês, e as apostas começaram a ficar meio a meio. Claro que isso não prejudicou os Stoll, pois cada irmão fica com um lado da aposta. Saem ganhando de toda forma.
Em uma das noites os homens se reuniram em volta de um lampião e começaram a contar histórias; algumas de terror, outras lendas. Havia aqueles que começaram a contar histórias de suas próprias aventuras onde muitas delas acabavam sendo grandiosamente tediosas aos ouvidos de Nico, e maravilhosas aos homens que não sentiam o cheiro da mentira.
Jason e Nico estavam sentados distantes do grupo. Nico navegava no lugar de Malcom que estava no meio dos homens no Convés. Piper estava com eles junto de Leo contando sobre a fuga deles dos Templários cinco anos atrás.
Leo fazia movimentos com as mãos demonstrando o que queria dizer tirando risadas dos homens. Jason riu ao lado de Nico tomando um gole do rum em suas mãos.
― Cinco anos. ― resmungou Jason. O Capitão o encarou sem entender: ― Já faz cinco anos que navegamos juntos, e tenho mais histórias para contar do que quando navegava com a Reyna.
― Deve ser porque eu era um iniciante e fiz muita merda no passado? ― comentou Nico dando de ombros. Jason riu se virando para ele.
Apoiou os cotovelos na amurada ficando de costas para o Convés e de frente para o Timão e Nico. Tomou outro gole do rum limpando a boca com a manga da camisa.
― Faz parte. Todos começam de algum lugar. ― respondeu Jason estendendo o cantil pra Nico que pegou e tomou um gole: ― Lembra de quando nos encontramos na prisão? Você parecia um cão perdido no meio daquele monte de assassinos brutais.
O moreno sorriu: ― Agora faço parte deles.
― Não necessariamente. ― rebateu levando os olhos para o céu estrelado: ― Você não mata porque gosta, mata por necessidade.
― Quem rouba por necessidade não deixa de ser ladrão. ― implicou devolvendo o cantil do Grace. Ele o pegou voltando a olhar Nico.
― Gosta de complicar as coisas, né? ― bradou o loiro rolando os olhos. Nico riu:
― Não, só sou realista. ― deu de ombros descendo o olhar para os homens que riam alto: ― Por que não vai com eles? Deve ter várias histórias mirabolantes para contar.
― Palavras difíceis. ― relembrou ele. Nico deu de ombros sem se importar: ― Bem prefiro ficar aqui. Se for para relembrar as coisas vai ser mais divertido com você podendo argumentar e dizer que estou “aumentando os fatos”.
― Você sempre faz isso. ― disse Nico. Jason concordou: ― Aliás, você disse que eu parecia um cão perdido. Como assim? No sentido de eu não me encaixar na paisagem?
― No sentido de que estava se borrando inteiro de medo. ― zombou. Nico lhe deu um chute na perna esticada do Imediato. Jason gargalhou.
― Aumentando os fatos!
― Não estou não! ― defendeu-se: ― E você mesmo admitiu que estava com medo aquele dia.
O moreno torceu o lábio escondendo o riso: ― Pode até ser que eu estivesse com medo, afinal vocês eram piratas. Na época eu não.
― Se fosse teria medo mesmo assim? ― insistiu Jason.
― Se eu fosse pirata teria ido para a forca antes de vocês me acharem. ― respondeu em tom baixo: ― Eu estava lá há duas semanas.
― Eles não seguram piratas por tanto tempo. ― concordou Jason negando com a cabeça: ― Mas você sabia quem eu era desde o começo, então não devia estar com tanto medo assim.
― Sim e não. ― respondeu virando o timão pra esquerda: ― É complicado.
Ele aquiesceu voltando a atenção para o mar atrás de si. Nico suspirou lembrando-se da noite quem que Jason o achou na cela:
“― Você não está meio deslocado aqui? ― zombou Jason ficando de frente para a cela. Passou os braços pelas grades de metal cruzando seus olhos com os negros do garoto: ― Não deveria estar confortável na sua cama de cetim?
― O que fazem aqui? ― indagou ignorando as perguntas de Jason. O rapaz deu de ombros:
― O básico. ― respondeu simplesmente: ― Qual era seu nome mesmo?
― Nico. ― disse em voz baixa. Ainda tremia, e recriminou-se assim que viu que Jason havia percebido isso. Ele sorriu:
― Tenho certeza que tinha mais coisa no seu nome do que Nico. ― insistiu curioso. Nico se irritou um pouco com a curiosidade. Em parte por não ser obrigado a dizer quem era, e outra por ele lembra-lo sobre um passado que nunca mais voltaria; jamais.
― Nicolà. ― complementou olhando desafiadoramente. Jason riu:
― Não tem um sobrenome? ― continuou, mantendo o olhar fixo.
― Já tive. ― disse somente isso desviando o olhar para os homens que saiam de suas celas e seguiam os piratas em questão.
Sentiu um frio subir-lhe a espinha imaginando para onde iriam aqueles homens. Um dos piratas passou por Jason deixando com ele as chaves das celas. Nesse momento Nico percebeu que havia restado somente ele na prisão.
― Eu também. ― respondeu Jason depois de um tempo destrancando a cela de Nico: ― O que acha de vir comigo?
Ofereceu a mão a ele. Nico a olhou receoso.
― Não sei o que é mais perigoso: ficar aqui ou ir com você. ― anunciou cruzando os braços. Jason arqueou a sobrancelha: ― O que vai acontecer comigo se eu for? Virar um servo de novo? Escravo?
― Por que acha isso? ― perguntou Jason. Nico o encarou debochadamente e o loiro pareceu se lembrar do evento de anos atrás: ― Oh!
― O que vai acontecer com eles?
― São assassinos, vão continuar fazendo o que fazem de melhor. Vão servir no navio, ou serão deixados em Tortuga. ― respondeu recostando-se na grade: ― Mas pode ser diferente com você.
― E por que seria?
―Por que não seria?
Nico grunhiu passando a mão pelos cabelos nervoso. Seria uma péssima decisão não ir, afinal de contas à condenação dele era a forca, mas se saísse talvez fizesse coisas que não se perdoaria depois.
Era um dilema.
Um dilema que ele já tinha a resposta.
Deu um passo para frente passando por Jason e saindo da prisão. O loiro o seguiu entregando-lhe uma arma.
― Espero que saiba usar. ― avisou disparando para a cidade que era consumida pelo fogo e fumaça.
Dali não tinha mais volta.”
Nico balançou a cabeça espantando as memórias percebendo que estava sozinho na Polpa. Jason havia descido e estava abraçado com Piper ao lado dos homens. Nico esboçou um sorriso levantando o olhar para as estrelas.
O destino é uma coisa engraçada.
― Então Jason, tem algo de bom pra contar? ― perguntou Leo cutucando-o de lado. O loiro sorriu dando de ombros.
― Nada que vocês já não tenham ouvido. ― respondeu bebendo da água forte de seu copo.
― Fale das missões. Como foi com o Capitão. ― perguntou um dos homens novos. Jason arqueou a sobrancelha.
― O que quer saber dele?
― Como o conheceu? Não se sabe muito do Rei dos Fantasmas além do básico. ― complementou ele dando de ombros.
― E qual é o básico? ― perguntou Nico do timão. Todos os homens olharam para ele. Sherman riu balançando a cabeça.
― Achei que estava navegando. ― zombou ele.
― Estou. Não tenho culpa se tenho ouvidos. ― rosnou Nico arqueando a sobrancelha. Leo engasgou-se com a bebida.
― Ninguém sabe muito. Nem mesmo o seu nome. ― respondeu o mesmo homem com admiração: ― As histórias dos navios que você afundou sem deixar sobreviventes.
Nico arqueou a sobrancelha: ― Se não tem sobreviventes como sabe que afundo navios?
O homem abriu a boca para responder, mas não tinha uma resposta boa o bastante. Connor pigarreou:
― Talvez seja em parte nossa culpa. ― disse apontando para si mesmo e o Travis: ― Gostamos de engrandecer nosso Capitão.
Nico rolou os olhos, mas não disse nada. Leo ficou de pé:
― Eu tenho uma história para vocês novatos. ― zombou o rapaz limpando a garganta: ― Um dia eu estava construindo minhas coisas na no nosso esconderijo―
― Vocês tem um esconderijo? ― perguntou um dos homens recém chegados.
― Shh! Não me atrapalhe! ― resmungou: ― Então, estava no nosso esconderijo e precisava de mais materiais para meus equipamentos secretos.
Jason rolou os olhos: ― Secretos, aquelas coi―
Leo o cortou lhe dando um chute na perna: ― Se-cre-tos!
Nico riu rolando os olhos.
― Pedras a bombordo Capitão! ― bradou um dos homens que estavam na cesta no alto do mastro principal. Nico assentiu virando o timão para a direita desviando delas. Voltou à atenção para Leo que já estava no meio da história:
―... Ela era encantadora. Tinha os olhos mais lindos que eu já vi, mas era muito esperta. ― murmurou ele apaixonadamente.
― Sereia? Jura? ― resmungou incrédulo. Malcom subiu trocando de lugar com Nico que desceu pelas escadas da Polpa.
― Estava mais para uma deusa grega. ― continuou Leo divagando: ― Nos conversamos sempre que eu volto para lá, ela sempre me espera.
― Sereias não existem. Isso é história de piratas bêbados. ― disse o mesmo homem.
― Sereias são reais, marujo. ― respondeu Nico ao lado do homem que assustou-se num solavanco: ― Eu mesmo já as vi. Elas só aparecem para quem acredita nelas de verdade.
― Tipo as fadas? ― perguntou Piper sorrindo. Nico aquiesceu:
― Todos os seres mitológicos precisam que acreditemos neles para continuarem a existir. Nunca se esqueça disso. ― falou Nico pegando da mão do homem a caneca de Rum: ― Elas são tão reais... ― derramou o liquido no lampião deixando todos no completo escuro.
― Nico?
―... Quanto aquelas velas brancas.
Os homens pararam e olharam o horizonte. De lá passava um navio de velas brancas, com vários lampiões espalhados pelo Convés, mas não possuía a bandeira da marinha Espanhola ou Inglesa.
― Rapazes. Ao trabalho. ― Jason e Leo sorriram entre si levantando e saindo em direção a seus postos assim como todos os homens. Nico passou pelo mesmo que havia o questionado antes: ― Não acreditar em sereias é o mesmo que acreditar que Poseidon governa os peixes.
Cuspiu caminho de volta para sua cabine.
―Estamos lotados, não precisamos de mais homens. ― disse parando na soleira de sua porta. Virou a cabeça para Jason: ― Matem todos.
― Sim Capitão! ― responderam e começaram a se aproximar do navio.
Nico entrou em sua cabine respirando fundo. Caminhou até sua cama jogando-se nela cansado. Ouviu ao longe “Joguem os ganchos” e os sinos de emergência sendo tocados em vão; não havia ninguém para socorrê-los.
☠
Cidade do Cabo – Duas semanas depois
― Eu odeio esse lugar. ― Resmungou Leo abraçando o próprio corpo. A temperatura estava baixa no litoral, menor ainda pra quem estava no mar. Leo não vestia nada além de camisa branca com suspensórios. Nico rolou os olhos:
― Você odeia o frio talvez. ― respondeu o rapaz olhando para as árvores no litoral. Inspirou o ar puro: ― Vamos parar aqui por alguns dias. Reabasteçam e façam o que fazem de melhor.
Os homens concordaram e desceram para o cais. O vento estava gélido e o céu nublado e carregado. Provavelmente choveria no tempo que passariam ali. Jason passou ao seu lado parando por uns instantes:
― Vai descer um pouco? ― perguntou curiosamente. Nico negou.
― Vou terminar meu livro, Connor roubou vários para mim, vou colocar eles em ordem. ― respondeu debruçado contra a amurada: ― Vai aproveitar um tempo com a McLean.
Jason sorriu: ― Sim Capitão. ― respondeu lhe dando um tapa no ombro amigável e descendo. Piper o esperava no cais com um casaco vermelho fechado até o pescoço.
Passou o braço por sua cintura e saíram para a cidade. Nico dispensou todos, mesmo Malcom que saiu atrás de bebidas de verdade, já que no barco somente havia água forte. Ficou sozinho lá dentro com três outros homens que guardavam o navio.
Entrou em sua cabine novamente deitando-se na cama. Retirou de seu pescoço o colar de caveira que tanto o amaldiçoava. Queria poder se desfazer dele, mas era como um lembrete de seu passado; de como tudo se tornou cinzas.
Respirou fundo pegando um pequeno baú em seu quarto fechado a cadeado. A chave estava presa em seu colar junto do anel de osso. Destrancou o pequeno baú retirando dele alguns objetos que recebia de Hazel. No meio das cartas sempre vinham desenhos ou presentes. Na ultima delas veio uma abotoadura de caveira de ouro puro. Dois ossos atravessavam-na formando um ‘x’ muito conhecido pelo mundo a fora.
Sorriu passando o dedo pelo metal gélido. Deixou-o de lado pegando outro presente, este mais antigo: o desenho deles dois brincando no jardim com um rapaz com eles que ele identificou prontamente como sendo o Dylan. As figueiras cheias de flores e um cachorro correndo entre eles.
O desenho era de quando ela tinha doze anos, provavelmente. Feita com caneta e tinta preta, mas ainda sim era fácil de identificar quem é quem ― principalmente pelas roupas. No verso tinha escrito em Inglês: "Never make a defense or apology before you be accused." – King Charles I. (Nunca se defenda ou peça desculpas antes de ser acusado.)
Nico riu contra o papel lembrando-se de quando disse isso à sua irmã. Haviam acabado de roubar figos de uma das casas vizinhas com Dylan atrás protestando incessantemente. Depois de o fazerem Hazel pareceu sentir-se culpada e Nico lhe disse a mesma coisa. Pode parecer algo errado de dizer a uma criança, mas uma das coisas que Nico aprendeu ao longo de sua vida ― por mais que ainda não tenha vivido tanto assim ― é que as pessoas vão sempre tentar te atacar. Nunca dê brechas a elas.
Principalmente se eles sempre ganham algo te derrubando. Se fizer algo errado não se desculpe a menos que te acusem e tenham provas contra. Essa provavelmente sempre foi à desculpa dos países Colonizadores para conseguir ocupar outros lugares: “Estamos ocupando esse lugar, já que ninguém reclamou estamos certos, ninguém nunca reclama, então continuem! Daqui em diante é sucesso”.
Nico sorriu fechando os olhos se deixando entrar na memória quase vívida, mas um pouco perdida no tempo. Esse dia aconteceu há tantos anos atrás que seria quase impossível lembrar com nitidez. O sorriso radiante de sua irmã invadiu a sua memória.
“― Nico! Olha eu fiz uma borboleta. ― disse a irmã de olhos caramelados. Ela sorria quanto Nico pegava o desenho em mãos.
― Que linda. ― respondeu afagando-lhe os cabelos cacheados: ― Ela tem nome?
― Maria. ― respondeu a garota. Nico ficou tenso por alguns instantes, mas tentou relaxar:
― Por que esse nome? ― Hazel pegou o desenho de volta abraçando-o.
― Segredo.”
Antes que Nico percebesse havia caído no sono com a memória de sua irmã e a infame borboleta chamada Maria.
Acordou com o barulho de seus homens no Convés entrando com os mantimentos. As caixas sendo depositadas com brusquidão no chão de madeira e as risadas altas entre os homens. Nico resmungou virando para o outro lado.
― Escandalosos. ― resmungou passando a mão pelos cabelos enquanto bocejava. Desceu os dedos para o pescoço sentindo o colar. Sentou-se o guardando novamente dentro de sua roupa.
Recolheu os seus pequenos “tesouros” dentro do baú trancando-o e deixando perto da cama onde estava antes. Trancou a porta e deitou-se novamente se permitindo dormir profundamente.
☠
Nico navegava novamente rumo a Siracusa, a próxima parada deles. Haviam passado por Marrocos há pouco tempo e seguiam rumo aos mares europeus. Nico não gostava de parar por lá. Siracusa se encontrava na Itália, e quanto mais longe ficasse daquele lugar menos memórias ruins o invadiam.
Contudo Siracusa era o único lugar possível onde Piratas poderiam ancorar sem tantos mandatos de morte, perseguição, forca ou coisas parecidas. Ainda sim precisavam ficar atentos a qualquer vela branca no horizonte.
A marinha espanhola não era piedosa com piratas nos mares europeus, devido a isso muitos evitavam navegar por suas águas com velas negras içadas; muitos como Nico já que o barco era todo negro. Nem se içassem as velas poderiam passar despercebidos.
Os homens no convés trabalhavam arduamente de um lado ao outro ajeitando cordas, limpando o chão, arrumando os canhões e as caixas espalhadas pelos cantos. O vento estava forte e mudava de direção constantemente, obrigando-os a afrouxarem ou apertarem as amarras das velas evitando que se rasgassem.
Liam e Sherman estavam na Proa arrumando as cordas reservas para o caso de necessitarem trocas durante a travessia. Nico respirou fundo afundando-se no sobretudo negro e grosso. O vento estava gélido fazendo jus ao inverno europeu com força. Soltou um longo suspiro vendo a respiração condensada sair por seus lábios rachados.
Viu Liam levantar-se do chão carregando as cordas amarradas e organizadas em seu ombro prontas para serem substituídas já com os nós nos pontos certos; Sherman ao longe acendeu um cigarro dando um longo e demorado trago antes de soltar lentamente.
No Convés viu Jason dando algumas ordens sobre os rapazes que limpavam o chão enquanto Piper acariciava Rudy com delicadeza sentada na amurada. O mar estava bem agitado, então de tempo em tempo levava os olhos à amiga, quase mandando que ela descesse dali.
Malcom estava atrás de si fazendo alguns cálculos de rota que Nico não soube identificar bem o que seria, mas confiava plenamente no que quer que fosse. Debruçou-se sobre o timão e encarou as ondas quebrando ao lado do casco do navio.
― A marinha! ― gritou uma voz aguda do Convés. Todos pararam o que estavam fazendo, inclusive Nico que levantou a cabeça para olhar o horizonte, e correram para as amuradas olharem em busca das tão temidas bandeiras brancas.
Nico deu uma olhada rápida nas águas passando os olhos pela ave e, como um clique, percebeu que havia sido ela a alarmar. Torceu o lábio para Piper que somente deu de ombros enquanto ria muda no lugar.
Nico rolou os olhos voltando o olhar para os homens nas amuradas.
― Valdez! ― chamou Nico em voz alta. O latino o olhou de longe com um sorriso amarelo: ― Deixa eu adivinhar, você quem ensinou o pássaro a falar isso.
Ele deu de ombros: ― Talvez.
Todos os homens viraram-se para ele fumegantes. Leo deu dois passos para trás levantando as mãos em sinal de rendição.
― Ah vamos, foi divertido. ― respondeu ele: ― Ensinei ele a falar várias coisas legais.
― Claro, porque ensinar uma ave a gritar “Terra à vista” com certeza foi a coisa mais inteligente. ― bradou Connor rolando os olhos.
Sherman gargalhou dando um tapa forte no ombro direito de Leo: ― Boa jogada, esse pássaro serve pra algo.
― Para nos fazer andar que nem tontos por ai? ― insinuou Travis.
Ele riu concordando. Os homens bradaram soltando lamúrias enquanto voltavam para seus afazeres ―, mas não antes de lançarem olhares assassinos à ave. Nico negou com a cabeça encarando a ave que fechava os olhos com as carícias da McLean.
Se ele jogasse a ave no mar Leo ficaria aborrecido?
☠
Pararam em Siracusa por um dia e meio. Foi o máximo que Nico os permitiu ficar ancorados perto da costa, não poderia arriscar perder seu navio e tripulantes pra marinha Italiana. Da ultima vez que esteve no país ― ou ouviu sobre ― ele estava com um forte movimento anti-piratas, e sinceramente não valeria a pena ficar para comprovar isso.
Conseguiram sair sem muitas complicações, fora o de sempre com roubos e brigas que não passaram despercebidas pelo exercito local. Seguiram rumo a Atenas onde encontrariam um mercador local e vários tesouros para roubar.
O tempo começou a escurecer à medida que entravam mais pelo mar Mediterrâneo. Os ventos ficaram mais fortes, e as nuvens mais carregadas deixando Nico tenso. Aquele tempo não era bom para navegar e qualquer iniciante saberia disso.
Contudo algumas regras não se aplicam a piratas.
Talvez seja por isso que afundam.
Nico respirou fundo sem desgrudar os olhos do horizonte. Quando os primeiros pingos colidiram com o chão do navio que ele percebeu a força da tempestade. A rajada de vento passou por entre os homens sacudindo as velas com força desgovernando o navio momentaneamente.
Segurou o timão impedindo-o de ir para a esquerda com o vento.
― ICEM AS VELAS! ― bradou em alto tom tentando competir com a forte tempestade. Aos poucos os homens foram puxando as velas amarrando-as nos mastros no topo.
As ondas estavam altas, e as colisões da proa com elas eram fortes o bastante para entrar mais água do que deveria. Segurou-se no timão tentando manter a estabilidade de suas pernas.
Sentiu seu chapéu voar para algum canto e seu sobretudo escorregar por seus braços. Malcom parou a seu lado lhe dando indicações de caminho pela bússola, mas o vento não ajudava nas manobras.
O navio subia e descia, e com força sendo puxado para a esquerda. Os ventos se juntavam em um único ponto onde na escuridão do mar mal se podia ver, e esse era o real problema.
― Ciclone. ― bradou Malcom segurando-se na amurada da Polpa: ― E dos grandes.
Nico mordeu o lábio:
― Mierda.
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