Pit-a-Pat
2 Capítulo II
Notas iniciais

Nico
Capítulo II
[...]
A pena desenhava as palavras com maestria. A letra curvada de Nico decorava o papel com seus sentimentos e histórias as quais Hazel amava ouvir. Fazia perguntas sobre seu bem estar, a estadia na casa, e várias outras coisas.
Vez ou outra soltava pequenos risos enquanto relia a carta que ela havia mandado. Respondia algumas perguntas que ela havia feito, como “Quantas vezes o Jason e a Piper haviam brigado?” ou “Quando a Piper vem me visitar de novo?” e até mesmo perguntas sobre as cidades que havia saqueado e se havia alguma lembrança para ela.
Encerrou a carta com sua assinatura guardando-a no envelope. Colocou-o dentro de seu casaco, retirou seu chapéu do encosto da cadeira e saiu porta a fora passando pela cesta de frutas em seu quarto antes de subir ao Convés.
Desta vez não viu Leo e nem mesmo a moça pelas redondezas. Resolveu assumir que havia sido morto pelo marido dela e cogitou a ideia de ir atrás de um novo Bossun. Malcom acenou para ele sentado nas escadas que davam ao andar de navegação. Nico assentiu continuando caminho.
Nas mão de Malcom havia um livro sobre mitologias nórdicas. O tecido da capa era em vermelho vivo, com detalhes em branco. Nico ficou intrigado em perguntar sobre o que se tratava, mas sabendo que ficaria preso ao rapaz por horas enquanto ele explicava sobre mitologia ― coisa que aconteceu tempos atrás ― resolveu somente cumprimentar.
Nico andou a passos lentos até o bar de sempre. Reyna estava recrutando piratas desde a noite do dia anterior. Nico a ajudou em alguns momentos, mas não tardou em debandar do posto e sumir com Reyna para um dos quartos do local. Contudo, depois disso não sabe bem o que aconteceu.
Ele estava a par do que as pessoas pensavam dele e de seu “relacionamento” com a Ramirez. Um dos motivos para ter se tornado tão conhecido em pouco tempo foi justamente ela. Manter uma relação com uma das piratas mais assustadoras da atualidade não era pouca coisa.
Além disso, Nico era conhecido como Rei dos Fantasmas. Ganhando a fama de carregar os mortos em seu navio todo preto e de velas tão negras quanto.
Seu navio possuía o nome de Caronte. Na mitologia grega, Caronte era o barqueiro que conduzia os mortos pelo Submundo. Já em sua bandeira possuía a imagem de Cérbero ― um cachorro de três cabeças. Na mitologia Cérbero era o cão guardião do Mundo Inferior, impedindo a saída de qualquer um que ousasse escapar da morte irrefutável. Isso criou para ele e sua tripulação uma reputação assustadora, e que eles zelavam sempre que podiam.
Atacavam sempre na escuridão, escondidos nas sombras da noite. Os barcos que afundavam nunca deixavam sobreviventes, a menos que entrassem para sua tripulação. E boatos de que seu navio era mal assombrado corria mares a fora.
E era por esse tipo de coisa que Nico continuava a fazer o que fazia. Sentia prazer em ser temido.
Entrou no bar sendo agredido pelo alto som de risadas e xingamentos que eclodiam de todos os lados. Aquela manhã estava particularmente lotada, tanto que precisou estapear-se com alguns homens enquanto passava; era um inferno. Assim que entrou definitivamente parou para analisar o ambiente.
Em um canto viu os irmãos Stoll apostando com alguns pobres homens que sequer sabiam onde estavam se metendo, isso o fez imaginar que o carregamento havia sido finalizado ― mesmo sendo obvio, já que não os viu no navio mais cedo. No andar de cima conseguiu ver Reyna, Jason e Piper conversando animadamente.
Andou até o centro do bar onde viu a mesma mesa com dois homens de Reyna anotando nomes dos piratas que queriam participar da guerra em nome dela. A fila era extensa, com homens dos mais variados tipos; muitos deles pareciam tão bêbados que mal conseguiam dizer seus nomes sem se enrolarem.
Aquilo explicava a superlotação aquela hora da manhã. Andou até eles parando ao lado dos dois homens observando os papéis de anotação. Estavam lotados de nomes garrafais e quase ilegíveis, mas conseguiu contar em uma página mais de trinta. Com sorte Reyna conseguiria juntar vários homens em apenas dois dias de recrutamento.
Saiu de perto deles e subiu para onde havia avistado Reyna parando ao seu lado. A mulher levantou o olhar sorrindo animadamente.
― Então? Por onde andou? ― perguntou ela curiosa enquanto dava espaço para o rapaz sentar-se a seu lado. Assim que ele o fez aconchegou-se em seu ombro.
― Estava escrevendo para Hazel. ― respondeu retirando de seu sobretudo a carta branca e delicada. Reyna sorriu:
― Deixe comigo, entregarei ao Frank. Ele estava planejando passar por lá ultimamente. ― respondeu ela pegando a carta das mãos do rapaz e guardando em sua bolsa de tecido marrom: ― Vai deixar dinheiro com ela?
― Vou sim, mas te entrego em outro momento, está a bordo de meu navio. ― respondeu ele fazendo um singelo cafuné na moça. Ela fechou os olhos aceitando o carinho: ― Dessa vez ele levará mais do que o de costume.
― Por que isso? ― Piper perguntou curiosamente.
― Ela me mandou em outra carta que havia tido vontade de comprar algumas coisas e não pode. ― disse ele mantendo contato com os olhos caleidoscópicos da moça: ― Sei que ela não diz por mal, pois ela me escreve quase que detalhadamente tudo que ela fez nos últimos meses. Da ultima vez foram mais de dez folhas. ― Piper riu acompanhada de Jason: ― Então vou mandar um pouco a mais.
― Não quer ver ela passar vontade é? ― Zombou Reyna.
― Na verdade não. Se eu pudesse dava tudo pra ela. ― respondeu firmemente. Jason abriu um largo sorriso.
― Que irmão coruja. ― ralhou o loiro. Nico rolou os olhos: ― A vamos, é bonitinho até.
― Imagina se ele for pai um dia? Vai ser um melo com a criança. ― Reyna entrou na brincadeira enquanto mexia em um dos botões do sobretudo de Nico.
― Não pretendo ser pai. E não sou irmão coruja. ― rebateu ajeitando-se na cadeira. Reyna se afastou segurando sua mão.
― Só um rapaz teimoso. ― retrucou Jason que recebeu um chute por debaixo da mesa: ― E infantil!
Reyna riu: ― Bem, se me dão licença vou roubar o Nico para mim hoje. Ontem o Jason fez questão de levá-lo para longe. ― comentou fingindo estar ressentida.
― Ah! Então foi você que me levou pro meu quarto? ― comentou Nico: ― Estava me perguntando como cheguei ao meu navio sem cair no mar.
Jason sorriu afirmando: ― Se tivesse te deixado sozinho, essa draga teria te sugado pra algum canto.
― Não seja impertinente, Jason. ― bradou Reyna crispando os lábios.
O loiro deu de ombros sem se importar.
― Ele é meu capitão. Dou preferência a ele e não à sua amante. ― trovejou bebericando de seu Rum: ― Mas divirtam-se!
Nico respirou fundo levantando-se puxando Reyna pela mão antes que ela voasse na garganta de seu primeiro Imediato.
― Vamos estar no navio. Eu vi os Stoll ali embaixo, veja se eles não roubam ninguém perigoso, são meio inconsequentes.
Jason concordou e voltou a conversar com Piper. Nico e Reyna saíram do bar em direção ao píer. Durante o trajeto conversaram sobre as ultimas viagens de Reyna e sua travessia pela África do Sul. Desafiaram as correntezas mortais da área por pura diversão, e isso deixou Nico extasiado.
Ao longo de seus cinco anos como Pirata ele descobrira várias coisas fascinantes sobre o mundo. Visitou tantos lugares e mares que ele poderia escrever um livro de histórias. Na ultima vez que visitara Hazel pessoalmente ― o que Nico sequer saberia dizer quando fora isso ― lhe contou várias histórias de suas pequenas aventuras.
Ele se lembrava dos olhos caramelos tão fascinados e curiosos a cada palavra que ele dizia. Vez ou outra o interrompia para perguntar algo. Houve uma vez em que ela perguntara sobre sereias, e Nico infelizmente não pode dizer nenhuma história sua sobre elas, mas contara um pouco das aventuras de outros piratas que as encontraram. Durante um tempo essa foi sua meta, até que depois de alguns meses Nico conseguiu contar a Hazel uma história sua sobre elas.
Nico sentia falta da irmã caçula. Estava sempre fora e isso o deixava um tanto triste. Eram muito próximos quando mais novos, e ter de deixa-la para trás foi doloroso.
Chegaram até o navio entrando nele. Estava bem silencioso, mas na polpa perto do leme se podia ver Malcom lendo aquele mesmo livro de mais cedo. Dois homens estavam junto dele guardando o navio. Não precisou perguntar para saber que Leo deveria estar nos andares abaixo se escondendo do marido daquela moça de branco.
Entrou com Reyna em sua cabine. Nico sentou em sua grande mesa recostando-se em uma das cadeiras. Reyna sorriu para ele andando até o rapaz sentando-se em seu colo apoiando ambas mãos em seus ombros.
Nico a segurou pela cintura selando seus lábios ao da mulher. O beijo era urgente matando a saudade que sentiam um do outro. O gosto de Rum e cigarro era forte, mas inebriante aos dois amantes. Nico aprofundou o beijo arrancando gemidos baixos da moça. Os dedos finos dela repuxavam os cabelos negros de Nico lançando longe seu chapéu negro.
Cessaram o beijo com Nico descendo seus lábios para seu pescoço mordendo com vontade. Reyna arfou alto descendo as mãos pelo torso do rapaz.
― Às vezes eu fico chocada com o tempo em que fazemos isso. ― comentou com a respiração entrecortada. Nico riu sobre sua pele. Desatou seu espartilho conseguindo acesso a sua camisa desabotoando-a na sequencia.
O toque frio de Nico na pele de Reyna lhe enviou uma onda de arrepios por todo o corpo quente.
― Fazemos isso há quase quatro anos, estamos quase casados. ― zombou ela entredentes. Nico se levantou com ela em seu colo, as pernas entrelaçadas em sua cintura.
― Nos vemos com pouca frequência, Rey. ― sussurrou o rapaz em seu ouvido a fazendo arrepiar-se: ― Não é nada além de uma relação carnal.
Ela sorriu: ―Nuestro pecado es la carne. ― murmurou apertando-o contra si. Nico a colocou sentada na mesa ficando no meio de suas pernas.
Desceu os beijos novamente por seu colo arrancando longos suspiros da latina.
― Somos pecadores de la carne, y los amantes del placer. ― disse Nico entre os beijos. Seu corpo se arrepiava a cada toque dos lábios do rapaz: ― Su cuerpo pide lo mio. Yo sé que me quieres, Ramírez.
― Nunca he dicho lo contrario. ― Selou seus lábios aos de Nico retirando seu sobretudo. O rapaz esticou seus braços facilitando o serviço. O jogou no chão descendo as mãos até a barra da calça de Reyna. Desabotoou passando seus dedos por sua intimidade. Reyna arqueou para trás suspirando.
Nico levantou sua cintura a fazendo ir de encontro com sua intimidade. Ele arfou junto dela beijando seu pescoço com volúpia.
E aquela manhã se passou com muito prazer para ambos os lados.
☠
― Quantas pessoas já foram recrutadas? ― perguntou Reyna a um de seus marujos. Estavam sentados em grande seu navio, mais precisamente em uma mesa na polpa perto ao timão.
― Cerca de cem homens, Capitã. ― respondeu o homem entregando-lhe quatro papéis contendo vários nomes escritos.
― Muito bem. ― bradou dançando os olhos por eles: ― Mas onde vou enfiar cem homens? ― resmungou colocando os papéis na mesa.
―Você quem quis sair recrutando sem pensar onde coloca-los. ― criticou Jason recebendo um olhar severo da mulher.
― Não poderia ter trazido outro navio vazio? ― perguntou Piper debruçada contra a mesa com um vestido amarelo. Pelo que parecia a aposta ainda estava de pé.
― E comprometer um navio de grande porte desprotegido? Não seja ingênua. ― cuspiu Reyna sacudindo as mãos, indignada.
― Então compre uma porcaria de Navio, porque a menos que você os amarre em cordas e os arraste até os mares do Leste não vai ter outra opção. ― resmungou Jason cruzando os braços.
Reyna também o fez, e a situação se tornou cômica ao ver de Nico, e muito infantil. Balançou a cabeça decepcionado:
― Seu navio é imenso, e tem capacidade para o que? Mais de cem homens? ― comentou Nico ganhando a atenção dos três: ―O resto posso levar no meu navio. Você mesma me disse que passaria pelos mares Europeus. Posso ir até lá, mas não até o Caribe.
Reyna sorriu grande a ele: ― Sabia que alguém aqui tinha cérebro. ― alfinetou a moça olhando de soslaio ao loiro que simplesmente deu de ombros como quem não se importa: ― Pois bem. Eu tenho que passar no Egito e de lá talvez consiga um navio que não esteja caindo aos pedaços ou que precise ganha-lo em uma competição no bar.
Nico arqueou a sobrancelha: ― Vai fazer o que no Egito?
― Comprar escravo, o que você acha? ― ridicularizou bebericando da caneca de metal na mesa. Nico rolou os olhos:
― Deixe de ser idiota. ― bradou: ― É mercadoria roubada? Porque é a única coisa que sai de lá.
― Basicamente. ― respondeu: ― Artefatos roubados, peças do mundo dos mortos. Coisas do tipo.
― Peças do mundo dos mortos? ― perguntou Piper surpresa.
― Ela quis dizer os tesouros enterrados com os faraós que supostamente vão para o outro mundo. ― respondeu Nico de prontidão. Reyna confirmou:
― Mas a frase é longa, então encurtei. ― disse simplesmente: ― Normalmente são todos feitos de ouro. É uma boa grana.
― E vai o que? Comprar? ― zombou Jason. Reyna rolou os olhos:
― De ladrões? Nem morta.
― Faria diferença se fossem mercadores? ― continuou Jason com um sorriso sapeca nos lábios.
― Não, mas pra que ser justa com alguém que rouba dos mortos? ― comentou simplesmente.
― Então só nos resta roubar. ― sugeriu Jason.
― Ladrão que rouba ladrão, tem mil anos de perdão. ― citou Reyna: ― E pretendo ser muito perdoada! ― comentou soltando uma risada. Nico balançou a cabeça.
― Bom, meu navio está quase concertado. Talvez fique pronto amanhã de manhã. ― disse Nico sério: ― Até lá melhor nos dar uma rota boa o bastante para eu não ter de topar com a marinha com o navio lotado de homens desleais a mim.
Reyna suspirou: ― Vamos simplesmente navegar e seja o que Poseidon quiser. ― resmungou espreguiçando-se.
Nico riu, mas nada comentou.
― Capitão.
Nico olhou para a escada. Malcom estava lá com o livro em mãos e uma cara amarrada. Mesmo sem perguntar sabia sobre o que seria.
―O que o Valdez fez dessa vez? ― resmungou tediosamente. Jason rolou os olhos, já Ramirez somente gargalhou dizendo um “Siempre es él”.
― Seu palpite sobre a moça estava certo e o mercador veio atrás da cabeça dele. ― comentou olhando para o horizonte, como se pudesse ver a situação do navio à distância.
Soltou um longo suspiro:
― É alguém importante? ― perguntou encarando os olhos acinzentados de seu navegador.
― Novo na região.
Um sorriso macabro pintou o rosto de Nico. Desenhou com seu dedo indicador uma linha em seu pescoço, movimentando seu rosto na direção contrária. Malcom compreendeu a ordem aquiescendo e saindo de perto dos capitães.
Reyna levantou a caneca:
― Um brinde a mais uma alma arrastada para o inferno. ― falou. Todos levantaram suas canecas.
― Ao rum! ― Gritou Piper batendo a caneca nas deles.
― AO RUM! ― Todos no barco gritaram entornando o líquido enquanto ouviam ao fundo som de tiros, gritos e risadas.
☠
― Da próxima Valdez se encarregue de matar o cara. ― ralhou Sherman a Leo no Convés.
O Latino estava sentado em uma das cadeiras bebendo. Olhou para o homem dando de ombros.
― A ultima vez que matei alguém o Capitão quase me matou. Resolvi evitar desta vez. ― disse por fim esticando a caneca em direção a Nico num brinde silencioso antes de beber novamente.
― Você estava se deitando com a mulher de um nobre. ― comentou Travis: ― Era meio óbvio que era furada.
― Hey, ela quem se jogou para cima de mim. Eu só fiz questão de lhe dar muito prazer. ― zombou rindo alto.
― E quase comprometeu a tripulação toda. ― emendou Piper enquanto escondia o riso com a mão.
― Eu? Imagine. ― respondeu: ― Sabia que o Capitão viria ao resgate.
Nico rolou os olhos: ― Não fui ao seu resgate, eles vieram até o meu navio, que, por ironia do destino foi descoberto pela sua suposta amante. – cuspiu venenosamente: ― Uma dica: quando se deitar com a mulher de um nobre, a mate depois.
Sherman riu: ― Fala por experiência tampinha?
― Touchê. ― respondeu Nico estendendo-lhe a caneca. Sherman bateu a sua na dele para depois tomar do líquido amargo.
― Que horas esse concerto vai ficar pronto Leo? ― perguntou Jason.
― Já está. Prontos para desbravar o mundo! ― disse com voz melodiosa.
― Na verdade o Egito. ― respondeu Nico. Leo o encarou sem entender. O Capitão levantou-se: ― Escutem aqui idiotas, vamos acomodar no convés cerca de trinta homens bêbados e que não tem condição nem pra entrar em uma tripulação. ― disse em alto tom: ― Vamos leva-los ao Egito como um favor a Ramirez.
― E ganhamos o que com isso? ― perguntou Connor seguido por Travis e outros tripulantes.
― Metade do que Reyna roubar no Egito. ― respondeu sugestivo: ― Todos aqui sabem o tipo de mercadoria que é possível se conseguir lá. Ficamos na cola dela, pegamos o que queremos, e como já estaremos nos mares Europeus vai facilitar nosso trabalho.
Os homens se entreolharam:
― E se não conseguirem nada? ― comentou um deles, o qual Nico não lembrava bem o nome.
― Nesse caso pode ficar com tudo. ― zombou Nico. O homem rolou os olhos, soltando algumas blasfémias.
― Ir numa viagem sem resultados? Desperdício de tempo. ― insistiu ele cruzando os braços. Leo e Piper se entreolharam.
― Não foi um pedido, Marujo. Foi uma ordem. ― bradou Nico olhando-o seriamente: ― A menos que se ache mais importante que eu neste navio e queira dar as ordens no meu lugar. ― sugeriu desafiador.
Jason levantou-se em posição de luta, assim como Sherman atrás do homem. Nico os olhou de soslaio, mas nada disse.
― Eu acho sim. Você só tá com gracinha pra poder comer a Ramirez. Vai nos mandar fazer coisas que não vão lucrar nada? Você é somente um pau mandado dela. ― cuspiu o homem apontando para ele: ― E quer saber mais, todos aqui deveri―
Um barulho ecoou pelo navio silenciando por breves instantes o píer repleto de olhos curisos em direção ao Caronte. Não se tardaram, claro, em voltarem a seus afazeres.
O tiro perfurou em cheio o peito do homem que tombou para frente caindo no convés. Um pequeno fio de fumaça saia do cano da pistola de Nico. Seus olhos eram frios e tão pretos quanto à noite em que se encontravam. Levantou o olhar para o resto da tripulação.
― Mais alguém tem algo a comentar? ― perguntou sugestivo.
A tripulação nada disse, somente encararam o Capitão.
― Você me disse pra não sujar o convés de sangue, mas você pode? ― zombou Leo rindo, tirando risada de todo o resto. Nico balançou a cabeça guardando a arma.
― Meu navio. Posso sujá-lo com o que quiser. ― Olhou para Sherman apontando o corpo com a cabeça. Com um aceno o Yang pegou o corpo nos ombros indo até a borda no navio descartando o corpo morto na água calma de Singapura.
― Então, como estão as apostas do braço de ferro? ― perguntou Nico curiosamente.
☠
No dia seguinte encontraram se com a tripulação de Reyna e os trinta homens designados para o navio de Nico. Como que por consideração, Reyna lhe entregou os menos encrenqueiros, o que ele faria questão de agradecer em outro momento.
Jason e Sherman ficaram encarregados de separá-los no Convés de acordo com o espaço, e se preciso alguns seriam mandados para a área das celas. Piper fora até o centro de Singapura junto do médico do navio, chamado comumente de Yew, atrás de medicamentos para a viagem.
Enquanto isso, Nico e Reyna conversavam no píer evitando a bagunça.
― Que pena que não pode ir no meu navio. ― comentou Reyna num falso tom de tristeza, mudando-o logo para algo mais sensual: ― Iriamos nos divertir tanto nessa viagem. ― sugeriu mordendo o lábio.
― Não funciona assim, Ramirez. ― disse Nico acariciando seu rosto: ― Mas vamos precisar parar em vários lugares, já que a viagem vai nos render no mínimo dois meses de navegação. ― comentou: ― Dá pra ter muita diversão.
Ela sorriu: ― Mal posso esperar. ― disse beijando-lhe.
Separaram-se com cada um seguindo por seu caminho. Nico subiu a bordo topando com vários rostos desconhecidos. Ficou desconfortável, mas logo tratou de mascarar.
A passos pesados andou até Jason:
― A Piper já chegou? ― perguntou sério. Jason o encarou por alguns segundos antes de prosseguir:
― Sim. E com uma mensagem do Quíron pra você. ― respondeu com um sorriso no rosto.
Nico revirou os olhos:
― Não me diga o que seria?
― “Caso esteja à beira da morte, se trate com doces.” ― disse Jason imitando a voz do homem. Nico sorriu de canto:
― Ele nunca vai superar isso? ― perguntou Nico para ninguém em particular. Jason concordou:
― Não, mas eu adoraria passar açúcar nas suas feridas pra ver se você fica mais responsável por suas ações. ― resmungou dando de ombros. Nico o acotovelou:
― Deixe de ser idiota. ― Olhou para Malcom que meneou com a cabeça para Nico esperando suas ordens.
Pigarreou enquanto Jason chamava a atenção da multidão naquele navio. Pelos deuses, aquele navio nunca esteve tão cheio.
― Vamos fazer uma longa jornada até o Egito, rapazes. Sessenta dias de viagem, isso se não tivermos contratempos. Então sem mortes ou terão um encontro com Poseidon mais rápido e menos prático do que imaginam. ― bradou adquirindo atenção total dos homens ainda um tanto bêbados: ― Não temos regras no navio, isso aqui não é a marinha ou um passeio de donzelas, porém caso queiram continuar vivos não entrem na minha cabine; não comecem um motim; e principalmente não matem o Bossun.
Leo arfou indignado, como se aquilo fosse uma ofensa.
― Entendidos?
― Sim senhor! ― responderam em uníssono.
― Malcom! ― bradou Nico. O homem assentiu sinalizando para o navio de Reyna. Assim que o Aurum zarpou, Caronte seguiu pelos rastros de espumas no mar.
Os homens se dispersaram cada um para um canto. Nico permaneceu no mesmo lugar de braços cruzados sentindo a brisa do mar em seus cabelos soltos e desgrenhados. Observou os novos homens a bordo com atenção, gravando seus rostos um a um caso precisasse fazer algo a respeito deles.
Jason pôs sua mão esquerda no ombro de Nico:
― Tranque seu quarto quando for dormir. ― ordenou o loiro. Nico assentiu minimamente. O aperto em seu ombro afrouxou, mas a mão continuou lá por um tempo.
Jason era super protetor com Nico, e isso era visível a qualquer um, mesmo os não tripulantes do Caronte. Estavam juntos há cinco anos, e desde então Jason o trata não somente como um Capitão, mas como um irmão mais novo.
Nico podia admitir que odiava isso no começo, mas com o passar dos anos percebeu que sentia falta de alguém que tomasse conta de si, coisa que não acontecia há muito tempo, e ter o Grace a seu lado era reconfortante.
Uma das poucas “regras” piratas é não se apegar as pessoas, mas era impossível não se apegar a Jason. Ele caiu em sua teia, assim como Piper, Leo, os Stroll e todos aqueles que nele confiavam.
Mesmo depois de tudo ele se permitiu confiar em Jason, e até o momento havia sido talvez sua melhor decisão.
Virou sua cabeça para perguntar algo a Jason, mas um papagaio passou voando em sua frente o fazendo dar um salto, igualmente Jason. O animal pousou no ombro de um dos homens sendo acariciado na sequência.
Nico balançou a cabeça:
― Por que é sempre um papagaio? ― resmungou sem tirar os olhos do animal.
― Às vezes são macacos também. ― ressaltou Jason dando de ombros: ― Eles gostam de animais, não é o primeiro e nem o ultimo.
Nico subiu para onde estava Malcom com Jason logo atrás, passou por alguns homens que cochichavam entre si, mas não faziam um bom trabalho em esconder a conversa.
― Ter mulher a bordo dá má sorte. O que eles estão pensando? ― balbuciou um deles enquanto olhava Piper ao lado de Malcom apontando para algo no horizonte enquanto conversavam.
Nico riu: ― Se alistaram para a tripulação da Ramirez e ainda sim pensam desse jeito? ― zombou ele balançando a cabeça e voltando a caminhar.
― RAMIREZ É MULHER? ― bradou ele incrédulo. Nico e Jason pararam no lugar, se olharam por breves instantes antes de rirem e continuarem a subir.
― Se ela escutasse isso teria um ataque. ― comentou Jason: ― Ela ama a sua reputação justamente por ser mulher. ― ressaltou para depois olhá-lo com olhos brilhando: ― Vamos contar?
― Quando vão deixar de se atacar mesmo? ― perguntou Nico provocativo. Jason deu de ombros:
― Quando ela se desculpar comigo, talvez? ― sugeriu: ― Já é um começo.
― Não vai rolar.
― Por isso nos atacamos. ― explicou o óbvio.
Jason foi até Piper e Nico encarou o convés de cima. Eram muitos homens. Muitos deles sequer sabiam onde estavam se metendo ou sequer estavam sóbrios o suficiente pra decidir algo. Contudo eram pessoas demais para vigiar.
Não é qualquer um que tinha acesso ao seu navio, se sentiu vulnerável como não se sentia há anos. Respirou fundo apertando os olhos.
Seria uma longa viagem.
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