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13 Jean
Notas iniciais
Jean era o terceiro no comando. Guiava rapazes da sua idade, e até homens mais velhos para missões suicidas bem sucedidas. Sua sede por vitória lhe rendeu medalhas que deixava guardadas na gaveta, chamar a atenção era a última coisa que queria, sua reputação era boa no seu batalhão, ajudou em planos de ataque, riscou rotas seguras e tinha orgulho de si mesmo ao ver a expressão de seu capitão. Era confiável, sorria mesmo com as mortes ao seu redor, tentava parecer confiante. Seguro de si em meio aos outro.
Eles precisavam de uma base segura para se apoiar, e quem quer que escrevesse ao seu capitão sabia tirar a expressão tristonha em algumas linhas, transformando aquela dor em força. Jean almejou ser assim. Transformar a dor da perda em algo concreto que abalasse o inimigo, que o fizesse ajoelhar em meio aos tiros e explosões. Fez seus próprios sacrifícios ao lado daquele homem, quando seu capitão ia sozinho para as linhas de frente fazia questão de ir juntos, levando consigo homens sobre os desejos de um discurso menos suicida, mas mesmo assim horrível. Aprendeu coisas que jamais imaginou, viu coisas que tinha certeza jamais terem passado por sua mente. Sentiu o medo do primeiro ataque tremer os ossos de tal maneira que apenas um choque de realidade vindo aos gritos por seu capitão o fez despertar; aquela manhã ficou marcada na mente jovem de Jean. Não teria conseguido sozinho. As noites insones o pegaram por quase um mês depois de matar seu primeiro homem, ainda sonhava com o rosto dele, com o sorriso de quando lhe apontou a arma; se lembrou dos berros de seu capitão em meio aquela lama. “Ou você mata, ou morre”, Jean escolheu viver, voltar para a casa e nunca mais brigar com sua mãe, concertar o telhado, fazer as pazes com um antigo colega de escola, comer direito e tomar coragem de paquerar decentemente aquela garota da lanchonete, e foi pensando nas coisas que queria viver que Jean puxou o gatilho primeiro.
Não ficou orgulhoso de seu feito, se odiou ao ponto de imaginar a vida daquele homem, se tinha família e amigos, se amava alguém. As semanas se seguiram no mesmo ritmo, algumas vezes não havia inimigo, mas isso não significava um dia tranquilo. Tinham que trabalhar, cozinhar e limpar. E quando a lista dos que voltariam chegou Jean achou que estaria nela. Quis estar nela, invejou os homens que voltariam para suas casas e talvez nunca mais voltassem para o inferno que havia escolhido viver. Seu capitão era um dos sortudos; nunca havia visto aquele homem sorrir tanto e fazer as malas tão rápido. Mesmo que fosse só uma mochila, foi rápido de mais. Ele devia ter alguém esperando por ele, alguém que sentia o coração apertar com as noticias do rádio. Sabia pouco de seu capitão, um homem reversado que gritava somente se necessário; escrevia suas cartas em silencio durante as noites frias, e nos dias que o rádio lhes eram concedido gostava de ouvir jazz com os olhos fechados, certa vez o viu chorar com uma música de Marilyn Monroe. Na manhã de sua partida o capitão entregou a Jean novas rotas de invasão, dizendo para entregar ao comandante o mais rápido possível. O homem com o sorriso no rosto não era o mesmo, talvez nunca mais voltasse e mesmo assim estava deixando planos impossíveis de serem feitos. Rotas mais longas e seguras não eram as favoritas do comandante. E mesmo assim, depois que a balsa sumiu na curva do rio Jean correu até a base onde o comandante se escondia e entregou as rotas, os planos silenciosos de ataque.
Três semanas se passaram depois daquilo, e em uma manhã quando fazia seu trabalho “chato” de separar a correspondência Jean viu uma carta de chamada. Seu capitão tinha três dias para voltar a partir da chegada ao endereço. Jean quis esconder aquilo, pelo menos uma coisa boa queria retribuir ao capitão. Mas o comandante o viu, falou coisas que Jean não achou justo como “um bom homem volta para a guerra”. Quatro dias depois das correspondências serem entregues seu capitão voltou. O rosto abatido e olhos vermelhos... Não era o mesmo homem. Estava visivelmente horrível. Na manhã do dia treze de novembro a base foi descoberta pelo inimigo, o terreno ainda era estranho, úmido e cheio de lama. Mas o batalhão comandado pelo capitão seguiu em frente, invadindo as linhas de frente, derrubando os soldados. Matando quem queria matar. Até a bomba.
O zunido no ouvido de Jean demorou a sumir, tirando os sentidos dele por tanto tempo que ele demorou a perceber onde estava, quem era e qual a missão. Corria desesperado em meio aos buracos no chão, sendo engolido até os joelhos pela lama, até que em meio aos corpos ao seu redor ele o viu. Caído no chão perto de uma vala. Seu capitão estava inconsciente, machucado, sangrando. Pela metade.
E agora ali, diante do silêncio do quarto onde seu capitão respirava com dificuldade ele escrevia uma carta para o amante dele com um peso estranho no peito. Nunca pensou que o amor poderia doer tanto. Simplesmente estava pedindo para que ele – quem quer que fosse – desistisse de tudo; descobriu que seu capitão era um sádico quando mencionou a promessa, e mesmo com toda a gentileza nas palavras, seu capitão ainda se sentia culpado. Machucando a si mesmo com as palavras que pensava serem reconfortantes. A pessoa que esperava pelo seu capitão apenas o queria bem, sorrindo como antes. O pobre coitado estava aguentando uma carga imensa nos ombros, se contorcendo no próprio desespero a cada novo dia e mesmo assim conseguia tirar forçar para mandar ao capitão; eles haviam sacrificado coisas demais para o capitão simplesmente mandar tudo pelos ares. Mas Jean entendia o pedido do capitão; a febre não abaixava, os delírios de dor se tornaram constantes. Eram poucos os momentos de lucides de seu capitão.
Jean temeu por ele, pelos sonhos que tinha serem destruídos pela falta de medicamentos. Temeu pelo amante de seu capitão; daria tudo para aquele homem passar os últimos momentos junto dele. Mas Jean não podia fazer nada a não ser esperar, lhe dar água quando lhe pedia, enxugar o suor, refazer o curativo sobre a pele queimada e com longas cicatrizes. O médico não era nada gentil. A pele estava avermelhada, pulsando pela infecção que não tinha mais controle. E enquanto Jean tentava deixar o sono vigiado se seu superior mais confortável leu um sussurro dos lábios secos de seu capitão. Um nome, uma frase.
A promessa não havia sido quebrada pelo amante, mas sim pelo próprio capitão. Jean mordeu os lábios ao sentir o pulsar fraco na jugular. Um aperto fraco segurou a barra de seu uniforme, os olhos de seu capitão estavam sem foco, implorando um último desejo antes de sucumbir.
–Diga a ele... – chorava Erwin entre os tremores da febre – Diga a ele que eu o amo. E que me perdoe por não voltar para a casa. Não voltar... Para ele... E que... – uma tosse forte invadiu o corpo de seu capitão, fazendo-o se inclinar na cama para recuperar o folego enquanto Jean corria para ajuda-lo. – Diga para ele seguir em frente; ele não...
–Senhor. – outra tosse.
–Cuide dele, Jean. Não deixe que ele cair. Não de novo.
–Não vou senhor.
–Implore o perdão dele. – as lágrimas deixaram a voz de Erwin ainda mais arrastada, dolorida em seu desespero – Diga que eu o amo, e sempre vou amar. Nessa e na outra vida.
–Eu direi. Palavra por palavra.
–Eu daria meu outro braço para tê-lo aqui comigo, — Erwin tentou rir – abraça-lo uma última vez. Eu não imaginei minha morte desse jeito.
–O senhor não vai morrer senhor. Ainda tem muito para viver ao lado dele.
–Não. – a respiração de Erwin estava pesada, os olhos sem foco novamente, mão tremula na borda da cama de aço. – Eu não vou voltar para a casa. Nunca mais vou ouvir a voz dele chamando meu nome. Ou cantando, até mesmo dos resmungos eu tenho saudades. Ele não vai aguentar tudo sozinho.
–Senhor.
–Diga para que me perdoe Jean, diga a ele que sinto muito. Eu devia ter ouvido da primeira vez e negado tudo para ficar ao lado dele. Eu devia... Devia ter... Ficado.
–Poupe o ar senhor. Por favor, a febre pode voltar.
–Ela nunca foi embora. – Erwin ficou um tempo em silencio, olhando o vidro fino da janela ser castigado pela neve e chuva forte – Ele odiava esse tempo. Sempre quis uma festa de aniversário em dias quentes para entrar na piscina. Comer frutas. Eu comeria um morango agora, ele adorava morangos. Com chocolate.
Está delirando de novo, pensou Jean, pegando um bloco de folhas sobre a mesinha ao lado, arrastou a cadeira para mais perto da cama e perguntou:
–Senhor – Erwin o olhou cansado, tentando se manter acordado – não gostaria de lhe escrever uma outra carta?
Um sorriso curto quebrou a dor no rosto de Erwin, concordou levemente e enquanto a Jean se controlava para não chorar, escreveu cada último suspiro de seu capitão. Chorou sozinho quando os intensos olhos turquesa se fecharam.
***
Rivaille passou uma última vez à escova de cabelo pela peruca loura antes de conferir a cor do batom, ajeitou as mangas do vestido e calçou um sapato menos apertado para subir no palco e terminar seu número. Cantou a favorita de Erwin, oferecendo para o misterioso “Mr. S”, olhava Ellen concentrada nas notas enquanto se empoleirava na calda do piano, mostrando as pernas e mexendo os ombros para que o decote nas costas caísse de proposito, soltando pequenos gemidos entre os refrões, fazendo flores serem jogadas aos seus pés. Estava feliz, mas algo ainda lhe faltava. Aquele olhos o observando na mesa que ficava de frente para o palco, o gosto do martini com o batom borrado, as mãos de Erwin em seu corpo. Ainda tinha a sensação dos lábios dele no último beijo. De todas as vezes que o abraçou em despedidas, aquela foi a mais dolorosa, não queria solta-lo, temia por algo que não sabia o que era. Chorou mais do que da primeira vez quando voltou para a casa, se encolheu nos travesseiros por dias a fio e mal se alimentava. Até a luz voltar a brilhar com a chegada da carta.
Ficou feliz, mas sentiu um medo, era aquela mesma sensação, porém, mais forte. Dessa vez doía fundo, rasgando seu coração aos poucos, jogando ácido nas rachaduras profundas apenas para que se abrissem mais. Erwin não respondia há três dias e pensou que, assim como da última vez, ele não teve tempo. Devia estar ocupado, com o braço quebrado. Negava todos os pensamentos ruins se distraindo com horas de ensaio que lhe rendiam apresentações perfeitas. E então ali, em frente ao seu espelho ele tirava a maquiagem para outra apresentação. Olhou ao redor em seu camarim e sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha, uma sensação gelada formigando em seu estômago. Algo ruim.
Ouviu três batidas em sua porta e enquanto tentava ignorar para terminar de soltar os grampos no cabelo se irritou ao dizer:
–O que?! O que foi?
–Rivaille Ackerman? – a voz veio um tanto assustada.
–Quem quer saber?
–Meu nome é Jean Kirschstein, senhor. Sou do 104º batalhão guiado pelas ordens de meu capitão, Erwin Smith. – Rivaille tropeçou nos próprios pés ao se levantar e correr até a porta – Estou aqui para... – Jean abaixou o tom quando viu o homem a sua frente. Era exatamente como Erwin havia lhe descrevido, principalmente os olhos – Entregar um aviso.
–Aviso? – aquele aperto no peito de Rivaille se tornou mais intenso. Quase impossível de se aguentar.
–Sim senhor.
–Que tipo de aviso? — Jean puxou de sua jaqueta um envelope verde musgo e entregou a Rivaille com receio. Lembrando-se do que seu capitão havia lhe dito.
–É melhor o senhor se sentar.
Rivaille hiperventilada enquanto abria a carta com as mãos tremulas não se importou de chorar alto e nem de cair ajoelhado ao ler a carta de óbito. Não deixe que ele cair. Não de novo. Jean ficou sem reação nos primeiros segundos, vendo o homem chorar feito uma criança agarrado aquela carta, gritando com a dor em seu coração, tremendo; soluçando.
Gravemente ferido em combate. Infecção no ferimento. Febre alta. Morte por desidratação.
Jean estava agachado ao lado de Rivaille quando ele finalmente teve folego de olhar para cima e tentar respirar. As lágrimas pareciam não ter fim.
–O pai dele... – Rivaille fungou, limpando as lágrimas enquanto Jean lhe oferecia um lenço – já sabe?
–Há um oficial nesse momento na residência dos Smith, senhor.
–O velho vai ter um ataque do coração.
–Eu sinto muito pela sua perda senhor, — disse Jean, ajudando Rivaille a se levantar e o guiando até a cadeira – capitão Smith era um bom homem. E eu tenho certeza que ele era muito importante para o senhor.
–Não faz ideia do quanto garoto. – Rivaille tentava se concentrar em apenas tirar os grampos enquanto chorava. Os soluços baixos se tornaram incontroláveis de novo e Jean tirou uma carta um pouco amassada do bolso e deixou sobre a mesa do camarim – O que...?
–Capitão Smith me pediu para entregar. – Rivaille tocou a carta com se fosse feita de cristal, tinha medo de abri-la e ter os cacos de seu coração destruídos ainda mais.
–Quais... – Rivaille fechou os olhos por um momento, lembrando do último sorriso de Erwin, recuperou fracamente o folego e olhou para Jean – Quais foram as últimas palavras dele?
–Ele disse que o amava, e pediu para que o perdoasse por não ter conseguido voltar para a casa, para você. Disse para seguir em frente, te pediu para não cair, resistir. Ele pediu perdão por não ter lhe ouvido da primeira vez. Disse que o amava, nessa vida...
–E na outra. – soluçou Rivaille.
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