Notas iniciais
eu recomendo um lenço

E lá estava ele, entre a madrasta e o pai de Erwin em um dos bancos da pequena capela ouvindo um discurso realmente longo sobre as perdas recentes na guerra numa época tão próxima às festas de final de ano. Tão próximo de seu aniversário.

Rivaille olhou ao redor, vendo poucos bancos a sua frente à família de um homem idoso de barba espessa com um bebê de colo, tentando acalmá-la enquanto os outros netos daquele homem se mantinham em silêncio. Só a família dele ocupava quase todos os lugares; viu também um jovem casal sem acompanhantes – o casal sem filhos que Erwin havia mencionado – também havia um rapaz magricela junto com uma mulher voluptuosa e jovem demais para ser sua mãe nos bancos da frente. Todos estavam ali, menos ele.

Voltou a olhar o padre, que agora contava de como havia perdido o irmão na guerra, do abalo que sabia que a maioria ali estava sentindo, de como parecia não haver fim para toda essa dor. E de como nenhuma palavra de consolo poderia trazer os entes queridos de volta dos braços do Senhor. Rivaille engoliu o choro por tantas vezes que parou de contar, apenas deixando as lágrimas caírem livremente enquanto o pai de Erwin lhe oferecia, com as mãos trêmulas por estar no mesmo estado, um lenço. Queria ter forças de erguer aquela fortaleza em seu coração novamente, se afastar de tudo aquilo e ignorar a dor que sangrava seu coração profundamente. Queria ignorar as imagens em sua mente com a menção do nome de Erwin, ainda sentia o vento em seu rosto e podia ouvir o ronco do motor da moto, sentia no fundo da garganta o sabor do milk-shake que não tomaram e a dor das bolhas que não se formaram. Se tivesse tido mais tempo... Pensou encolhendo os ombros num novo soluço. Queria que o tempo parasse na noite em que haviam se conhecido, lembrava do sorriso bobo de Erwin ao pegar em suas mãos, do maneira com a qual o olhava. Rivaille se lembrava de cada maldito detalhe.

Mordeu os lábios quando as imagens do primeiro beijo surgiram em sua mente, de como as mãos frias arrumaram seu cachecol e subiram gentilmente até seu rosto, sentindo as pontas do cabelo, olhando-o profundamente nos olhos. Da maneira adolescente que o beijou, do carinho no gesto. Começou a se lembrar de coisas que não queria, como as madrugadas sussurradas no telefone, das brincadeiras que Erwin fazia para sempre assustá-lo com algo, e até de quando contou ao garoto que era um homem. E para sua surpresa o interesse de Erwin só pareceu aumentar com a notícia. Realmente não o entendia, e nem fazia questão; só queria aquela sensação dos braços dele em seu corpo, da voz em eu ouvido e até do cheiro de graxa nas roupas. Daria tudo para sentir aquele cheiro, para tê-lo ali com ele. Seu peito doía, o coração batia rápido e não havia uma maneira de acalmar as lágrimas, queria Erwin ali. Odiou ainda mais a guerra e o que ela o fez sentir, odiou a si mesmo por não ter sido mais duro com Erwin sobre a primeira chamada; odiou o pai dele por permitir isso. Odiou os sentimentos fortes que se permitiu sentir.

E então teve um único medo: de voltar a ser aquele que era antes, da sombra que carregava em seus ombros voltar com o dobro do peso. Rivaille não tinha mais seu apoio emocional, não tinha com quem se importar. Ele não tinha mais nada. E aquilo o deixou mais horrível do que já deveria estar.

O peso do luto era demais para ele, não sabia se aguentaria. Se queria aguentar, não sabia nem se tinha forças para se levantar e seguir na pequena procissão até o cemitério atrás da igreja, não sabia se aguentaria mais chorar. Apertou os joelhos magros com força, respirando fundo – ou tentando – ele se levantou, buscou apoio nas mãos da madrasta, que o acolheu gentilmente enquanto seguiam em silêncio para fora. Ele sabia que não era o único a sofrer, com certeza havia mortes mais trágicas para abalar o estado emocional dos outros ali. Viu uma mulher grávida sendo apoiada pela mãe e pensou no quão egoísta estava sendo, no quão infantil foi ao pensar que o mundo estava sendo injusto em destruir a razão de sua felicidade. De seus sonhos. Todos ali tinham sonhos que queriam concretizar ao lado das pessoas que amavam, a guerra havia tirado algo deles e só o tempo poderia ou não devolver. Rivaille sentiu o peito murchar ainda mais quando a procissão parou. A grama amarelada sob a neve e as árvores secas não faziam jus à época do ano.

Não se dava ao trabalho de repetir as palavras do padre, não queria. A garganta voltou a arder quando viu a sua frente pequenas placas brancas no chão. Olhou longe, não queria ver, não queria saber que a única coisa que tinha de Erwin era seu nome escrito numa lápide. Ouviu distraído alguns familiares fazerem seus discursos curtos e cheios de lembranças, chorou em silencio em seu canto, tentava esquecer das coisas que queria dizer a Erwin quando ele voltasse, ignorou a ânsia do choro quando sentiu algo lhe cutucar os ombros. Era o senhor idoso que Rivaille viu em um dos bancos, ele tinha uma caixa com tampo de vidro nas mãos, dentro dela Rivaille pode ver as estrelas da bandeira.

–Capitão Smith me salvou inúmeras vezes, um velho como eu, com dores nas costas. – Rivaille estava mudo, não conseguia pensar em nada para lhe dizer. – Me desculpe se estiver sendo rude, mas... – o velho manteve as mãos esticadas até que Rivaille pegou a caixa, as mãos tremiam. – Eu... Nós, os homens que o seguiam, queríamos que ficasse com isso. Em memória.

E sem dizer mais nada, o homem saiu a passos curtos para voltar a sua família. Rivaille se perguntou por que o homem não havia entregado a bandeira ao pai de Erwin; respirou fundo pela milésima vez no dia e desejou correr dali, voltar para a camada espessa de seus cobertores e rezar para que tudo fosse um sonho do qual já estava cansado de ter. Rivaille só queria voltar no tempo, reconsiderando o fato absurdo de Erwin pela primeira vez.

No final da cerimônia, houve uma pequena reunião na casa do pai de Erwin, apenas alguns amigos próximos e a pequena família. Rivaille ficou o tempo todo sentado em uma cadeira, encarando a escada como se algo o chamasse para cima. Se sentia enjoado com os olhares, com os cochichos e o olhar desprezível da avó de Erwin. Queria empurrar o glace na cara dela até ele passar pela nuca; segurou o copo com água com força, como se pudesse quebrá-lo com a raiva que começou a sentir. Não conseguia entender como com todo o luto que a família devia estar sentindo, alguns conseguiam comer como se fosse só mais um dia.

Agora entendo porque ele nunca quis que conhecesse a família. Pensou Rivaille; olhou pela janela e desejou ver ao menos um rosto conhecido em meio aqueles olhares, uma expressão triste que não fosse à do pai e da madrasta, queria alguém com quem pudesse conversar e se afogar mais um pouco em suas lágrimas que entendesse sua dor. Engoliu o choro e se levantou, deixando o copo de água sobre a cadeira e olhando uma última vez para o grupo de mulheres reunidas na sala, de repente elas pararam de cochichar quando Rivaille passou por elas na busca do pai de Erwin na cozinha. Ele olhava para o copo em sua mão cansado de todo aquele falatório do homem a sua frente. Viu Jean no outro canto conversando com a madrasta enquanto ela tentava se distrair com os panos de prato. Cada um deles em seu próprio inferno.

–Senhor Smith – chamou baixo e com a voz rouca. Temia chorar na frente de todos. Eles vão saber – se importa se eu... Subir? – eles não podem saber. Não podem falar mais de você.

–Não, você pode subir. – o pai de Erwin deu um sorriso fraco – Você se lembra onde é, certo?

–Sim.

Quis se aproximar do pai de Erwin, dizer que não iria demorar tanto quando o homem com medalhas se colocou na sua frente. Careca e com um bigode sujo, percebeu que era avaliado pelo homem que sequer se importou em saber o nome.

–Meu rapaz, já pensou em servir a guerra? – Rivaille conteve o olhar de desprezo, mordendo o lábio e engolindo o pior palavrão conhecia.

–Não. E nem quero. – o homem de medalhas sorriu, desacreditado – E sabe por quê? Porque, comandante, eu não me importo com a guerra, eu não me importo quem vai perder ou ganhar aquela barbaria. A única coisa que eu queria era que Erwin estivesse aqui; o senhor se lembra dele? O homem que convocou enquanto ele ainda está no “prazo de repouso” – Rivaille fez aspas, avançando um passo para frente – Ele morreu por uma luta que sequer queria participar, ele morreu porque acreditada, de alguma maneira, que poderia fazer a diferença. E veja só o que aconteceu. Nada mudou. E ele não está aqui. O senhor é casado, senhor?

–Sou.

–É. Então tente imaginar o seu filho lá, passando frio e fome em um lugar desconhecido. Sentindo saudades de casa, perdendo a fé a cada novo dia. Então, senhor, um dia o senhor recebe uma carta dizendo que ele morreu porque lhe faltou remédios e um médico com pelo menos um senso humano! Imagine... – Rivaille respirou fundo, sentindo o aglomerado de familiares em suas costas – a dor daquele homem – Rivaille apontou tremulo para o pai de Erwin, que tinha os olhos cheios de lágrimas – é imensa. O buraco no peito dele nunca será coberto.

Rivaille saiu e quase correu ao subir a escada, indo em direção ao quarto de Erwin e batendo a porta com força. Se deixou escorregar pela madeira, sentindo as lágrimas voltarem, não teve coragem de abrir os olhos enquanto se encolhia, preferindo apenas sentir o cheiro no quarto, se lembrar dos dias que praticamente ficavam trancados ali, das juras de amor ao pé da cama. Estava rodeado pelo cheiro de Erwin, pelas coisas dele. Era quase como se pudesse senti-lo ao seu lado.

Já não sabia que horas eram, também não se importou de se levantar do chão quando viu que começava a escurecer. Mas tinha que sair dali, voltar para a casa e tentar dormir com a ajuda de seus velhos amigos: os remédios. Limpou as lágrimas secas e se apoiou na maçaneta, forçando os joelhos a se esticarem e quando finalmente se pôs de pé, respirou fundo. Você consegue ficar o caminho de casa sem chorar, pensou ele ainda com a mão na maçaneta, criando coragem para abri-la. Olhou o quarto atrás de si, o papel de parece desbotado, a cama feita e uma pequena bagunça na escrivaninha de frente para a janela. Caminhou devagar até o guarda roupa onde uma vez se escondeu e abriu as portas. Sentindo os olhos arderem quando avistou uma solitária camisa branca de meia manga em meio às outras. Rivaille levou os dedos até uma mancha no colarinho. Graxa e batom. Passou as mãos pelos ternos e jaquetas até encontrar a de couro de Erwin. A jaqueta que ele estava usando no dia em que entrou no camarim de Rivaille com um buque de lírios nas mãos, e lhe perguntou quando poderia vê-lo de novo. Rivaille ouviu algo cair da jaqueta e se abaixou para pegar um pequeno cartão. Seu cartão, com seu perfume. Quase riu da ironia.

–Rivaille? – era o pai de Erwin na porta, tinha alguns cobertores nas mãos.

–Ah, senhor... Eu já...

–Não. Não se preocupe com isso. Eu fiz a mesma coisa hoje de manhã. – o velho suspirou pesado, deixando os ombros caírem enquanto olhava o quarto. – pode dormir aqui se quiser e voltar para sua casa amanhã cedo. Ou ficar aqui o tempo que achar que precisa.

–Eu não quero atrapalhar, senhor.

–Você não vai atrapalhar. – ele deixou os cobertores sobre o pé da cama, e olhou para Rivaille, ainda parado entre as portas do guarda roupa. — Engraçado. A primeira vez que te vi sem maquiagem você estava exatamente aí.

–O senhor não parecia feliz com minhas... Visitas noturnas.

–Até onde eu saiba, era ele quem te trazia aqui, subiam no telhado e ficavam horas e horas conversando. Eu sei que não é da minha conta, mas, o que tanto conversavam?

–Sobre nossos sonhos, nosso futuro.

–Futuro?

–Estávamos economizando para comprar uma casa no subúrbio, senhor. Íamos contar no natal... Bom, — Rivaille limpou a garganta, brincando com o cartão em suas mãos antes de devolvê-lo para o bolso interno da jaqueta – isso não importa agora.

Rivaille encostou a cabeça na porta do guarda roupa, respirou fundo e quando se virou o pai de Erwin ainda estava ali.

–Eu vou deixar você dormir aqui. Você precisa disso Rivaille.

–Senhor...

–Durma aqui Rivaille, eu estou pedindo. – o velho Smith caminhou até a porta e antes de fecha-la voltou e, com a voz mansa continuou: — Eu nunca te disse isso, mas... Eu aprovava a sua relação com meu filho. Ele era mais feliz com você do que com qualquer outra pessoa Rivaille.

Notas finais
são 1:41 da manhã. Me avisem os erros, por favor. Lembrando que o próximo capitulo será o ultimo