Piltover's Finest
23 Capítulo 21 - Diplomacia de Ferro
Notas iniciais
– Argh! *ARF! ARF!*
A capitã fez força em seus braços para que conseguisse erguer o corpo e subir a bordo do navio, seu marujo amparando-a para que não caísse enquanto o resto a tripulação se acercava dali, amontoando-se em volta para ver o que acontecia, em que tipo de nova cilada entravam... Fantástico. Mal recolheram âncora e a ilha já se perdia de vista ao fundo, engolida aos poucos pelo horizonte de águas que deixava para trás. Podia-se dizer que o navio de Sarah Fortune, apesar de não tão grande nem equipado para batalhas, era um flagelo do mares quando se falava em destreza e velocidade. Mas... quem... quem era aquela pessoa que havia entrado no navio em disparada, junto de Geryon? Uma aparência tão peculiar, com aquele cabelo rosa estranho; as roupas que usava eram ionianas, tinham o estilo das usadas nos templos da lha, porém estavam deveras sujas e rasgadas... Havia lutado? E aquelas... luvas gigantescas? Aquilo definitivamente não era ioniano... E eles tinham agora uma ideia de quem seria aquela forasteira.
Vi percebia os olhares, confusos, passarem rápido daquela mulher para ela. "Uma estranha no ninho", como sempre. Porém, de repente, passado o susto da fuga alucinada, ela começara a digerir aqueles acontecimentos e...
– NÃO, A GENTE NÃO PODE FUGIR; TEMOS QUE VOLTAR!!! A SORAKA FICOU NO PORTO; ELES VÃO MATÁ-LA!!!! — desesperada, Vi levantou-se e correu até o parapeito que cercava o navio com tanta determinação que muitos dos marujos poderiam ter apostado que ela pularia direto na água e voltaria nadando enlouquecidamente até a costa de Ionia. — A SORAKA AINDA ESTÁ EM IONIA! MANDA ALGUÉM DAR A VOLTA!... PELO AMOR DOS DEUSES; DÊEM LOGO A VOLTA NESSA MERDA DESSA BACIA GIGANTE!!!!– ela gritava com os olhos marejados, as maçãs do rosto vermelhas e quentes.... Céus, Soraka tinha a ajudado! A roxa tinha salvado a vida dela; ela não podia fugir e deixar ela na mão daquele jeito!!
– EI, EI, EI, calma aí, mocinha... Não podemos voltar pra lá agora, eles nos receberiam com todos os canhões da costa apontados para o navio... E outra, ela deve saber se cuidar sozinha; não viu aquele poder? — a ruiva disse enquanto ainda levantava-se, limpando uma coisa ou outra em sua roupa.
A imagem de Ionia, aos poucos, ia desaparecendo no fundo da paisagem. Vi observava-a, segurando avidamente o parapeito da embarcação, ansiosa, sentindo um aperto cada vez maior no peito. Não tinha conhecido tanto assim a roxa... Mas ela fora sua amiga. Ela... Ela entendia como era ser diferente e ser tratada diferente no meio de todo o mundo e, mesmo que não fosse capaz de levantar uma saca de grãos sequer... Ela tinha força. Uma força de espírito e um coração surpreendentes. "Ah, não..." A enforcer virou-se de costas para a paisagem quando já não pôde mais ver o contorno da ilha ao fundo, e caiu sentada no chão com as pernas recolhidas e as grandes luvas segurando o rosto... Em silêncio... "Me desculpe..."
– Pra onde esse navio tá indo? — perguntou, séria, tirando as mãos do rosto.
– ...Depende.
– O qu... Depende de quê?
– Depende de uma série de pequenos fatores... O tempo, o vento, uma confusãozinha aqui, um inimigo mortal lá... — suspirou.
Observando a mulher sem entender o que era aquela baboseira que ela falava, a fugitiva chacoalhou a cabeça e levantou-se com ímpeto, relevando tudo aquilo. Tinha pressa.
– Olha, valeu mesmo, você fez um negócio legal, mas agora eu preciso voltar para Piltover o quanto ant...
– Creio que não será possível...
– O QUÊ?!! — a enfocer deu um passo para frente, abismada; apenas um passo e imediatamente ouviu o som dos marujos ao redor,toda a tripulação, sacando armas e espadas facas, qualquer coisa, preparando-se para luta. A própria mulher ruiva, que andava para longe dela, num movimento único e preciso, sacou uma de suas pistolas, virando-se novamente para a lutadora e apontando a arma desnecessariamente grande para a cara dela. QUE BOSTA, a mesma velha história de sempre! Bem familiarizada com aquele tipo de situação na qual se encontrava, ao perceber que sacavam armas, Vi simplesmente congelou como estava, esperando o primeiro impulso dos marujos se acalmar...
–...AAAAAARGH, QUE DROGA QUE SEMPRE COMEÇA COM UMA PORRADA DE GENTE QUERENDO DESCER O CACETE EM MIM! — brava, numa clara mistura quase cômica de raiva e decepção, Vi segurava a cabeça com as mãos, e então gesticulava energicamente, como uma pessoa estressada. Ao redor, os marujos, impassíveis, apenas esperavam uma ordem ou um sinal qualquer de sua capitã enquanto empunhavam ainda convictamente suas armas, prontos para qualquer coisa. Sarah, com o braço estendido, a pistola apontada para sua vítima, empoderando-a por trás daquele metal frio, olhava firmemente para a outra... Silêncio... Hum... afinal, ela não parecia tanto o monstro que pintavam em seu anúncio de "Procurada"...
– Baixem as armas, cavaleiros.
Um tanto surpresos com a ordem da capitã, os marinheiros recolheram-se, mas continuavam ali, a observar. O perigo havia diminuído agora que as armas voltaram a seus coldres, mas a tensão certamente ainda mantinha-se... Vi respirava de uma forma pesada, seu peito visivelmente estufando-se e esvaziando-se em seguida, seu olhar azul como o próprio mar e também frio e impiedoso como tal focando diretamente os olhos de Sarah Fortune, mortais, penetrantes... E, naquele momento em especial, o olhos da capitã analisavam-na de cima a baixo, pensativos... A mulher não se movera um milímetro sequer, firme com a arma estendida apontando para o rosto de Vi... e então baixou-a.
– Nós não vamos para Piltover, pelo menos não agora. Viu como saímos de Ionia com pressa? Eu tinha acabado de ancorar; o navio não está abastecido. Morreríamos de sede e fome se fizéssemos essa viagem direto. — dizia enquanto guardava sua pistola. Sarah estava blefando; havia pensado rápido para responder aquilo, não era nada boba. Se negasse diretamente o pedido da outra e dissesse que estava voltando suas velas para Bilgewater, certamente o menor dos problemas que teria com aquela tal "Vi" seria perder uma poderosa aliada... Voltou a olhar para a fugitiva. — Precisamos passar em alguma ilha das redondezas para reabastecer, e então podemos arriscar uma viagem maior. Humpf... Vai ser bem complicado com Noxus controlando os mares por aqui e nós que acabamos de cutucar o vespeiro...
– Besteira. — Vi soou firme e desconfiada, talvez muito mais por sentir-se como um animal cercado do que por realmente desconfiar de qualquer intenção de Sarah. — Como eu vou saber que você e seu bando vão mesmo fazer isso? Que não vão me vender em qualquer lugar por aí em troca de qualquer coisa? — a ruiva captara algo daquela dúvida que sua cativa expressava. Falou com um toque de indignação bem interpretado, porém com uma firmeza poderosa. "É assim que você gosta de jogar,não é, demolidora? Com oponentes destemidos."
– O que?! Eu salvei sua bunda naquela ilha e dei a cara a tapa abertamente para Noxus, a minha e a dos meus marujos! Se eu quisesse te ferrar era só ter te deixado naquele mercado e tocado a minha vida em frente que eu continuaria bem feliz e contente enquanto você dava uma voltinha interessante pelas masmorras daquele inferno!... — a senhorita Fortune mantinha o olhar focado no dela, esbanjado sinceridade ao não demonstrar medo nenhum em dizer aquilo na cara dela. Vi observou-a por algum tempo, avaliando a situação, ainda com a expressão fechada. De fato, quem era ela para que uma desconhecida, do nada, decidisse se arriscar para salvar sua pele? Aquilo em algum ponto, soava muito estranho... Mas, pensando no caso como uma escolha a ser feita, tudo resumia-se de forma muito simples: seguir com o navio ou voltar nadando para Piltover. Humpf... Não tinha muito o que se fazer ali. Retornando a uma postura mais relaxada, baixando os ombros antes tensos, a rebelde pareceu reconsiderar a proposta. Sarah vira aquilo como se aquele ser titânico à sua frente se dobrasse diante dela. "Isso!" Riu seu riso discreto, estonteante e fatal por dentro, e então suspirou, relaxando os ombros também. Último ato. — ...Eu tenho meus próprios assuntos para resolver. Coisas pessoais e que eu considero importantes. E, mesmo assim, ainda tirei cinco minutos pra "aparecer num cavalo branco" e salvar seu dia. Mas deixa eu te explicar que eu só trabalho de uma forma: ajuda, recompensa. Logo, se eu te ajudei, acho que mereço algo em troca, não? Huhum...
– Claro, "merece algo em troca", claro; prefere deitada ou de quatro? Porque, de qualquer jeito, eu to vendo que vou me foder mesmo...
– Oh, graças aos deuses, uma maruja esperta! Já entendeu o esquema...
– Vai tomar n...
– Uoou, olha essa boca, garota! Ou mando você direto pra casa.
– É o que eu mais gostaria!
– Com um chute na bunda? Hah, acho que você não ia gostar muito das minhas botas de bico fino... — a capitã olhava para ela desafiadoramente, divertindo-se com aquele bate-boca sem finalidade alguma. "Huhum, me mostre o que você tem, lutadora! Hahahaha!". Vi percebeu que responder só alimentava mais o ego daquela...mercenária cachorra irritante, e então, mesmo fuzilando-a de raiva com o olhar enquanto ela subia para o deque superior, apenas calou-se. Sarah virou-se para a tripulação, que assistia àquilo tudo deliciada lá em baixo. — MARUJOS! Deem as boas-vindas para o mais novo membro da tripulação!
Um velho magricela e ranzinza abriu espaço a cotoveladas entre os marinheiros e aproximou-se com um balde e um esfregão, empurrando-os contra Vi violentamente, com aquela cara enrugada e queimada de poucos amigos que tinha.
– Bem-vinda. — falou áspero e sem animação nenhuma, só largando as coisas com ela e já saindo a resmungar da vida.
– Sugiro que tire as luvas, elas podem arranhar o chão! — a mulher ruiva gritou do segundo deque, rindo. Vi revirou os olhos, farta, e então virou-se para ela e dobrou o corpo, mexendo a mão numa reverência exagerada e sarcástica.
– Ó, está bem, sua majestade! Deseja mais o que? Que eu te chame de "Lady-alguma-coisa-rainha-do-mundo-e-dona-dos-mares"?
– Huhum, sabe que seria interessante... Mas não, não... Só "Miss" já está bom. — ela piscou e saiu de vista, caminhando rumo ao timão para guiar seu navio em sua nova jornada. Para "Miss" Fortune, uma nova era se delineava no horizonte...
No piso inferior, Vi vira-a sumir, e então olhara para o balde no chão e o esfregão em suas mãos, parecendo um palito de dente dentro daquela luva gigante. Aff... Suspirou, ainda um tanto brava. Sem ligar, sentindo-se peculiarmente fora de perigo, retirou os cristais das luvas, despiu-as e guardou-os consigo.
"Filha da puta; eu vou esfregar esse chão. Eu vou esfregar esse chão pra caralho. Eu vou esfregar TANTO que vai fazer até um buraco nessa bosta..."
~¨~
O sexto dia já havia raiado finalizando a ordem de reclusão forçada do grande templo de Ionia. As portas já deviam ter perdido o selo mágico que as lacrava, pensou a mulher, sozinha na gigantesca casa. Olhou ao redor, toda a beleza e riqueza que possuía mas que, ultimamente, de forma alguma consolava seu coração repleto de preocupações. Zelos já demorava tempo demais para retornar... E Ionia, mesmo que tivesse resistido bravamente à invasão noxiana sob seu comando — seu e de outros valorosos guerreiros — parecia, então, desfalecer aos poucos, como uma bela rosa asfixiando-se sob a redoma de vidro em que era mantida. Um troféu de guerra... Suspirou. Ela continuava firme em sua posição, provendo sozinha seu povo de toda a confiança e serenidade que necessitavam para seguirem sobrevivendo ali.
"Até quando seremos poupados da extinção?..."
Fechou os olhos e respirou fundo... Calma. Constância. Perseverança. Aos seus olhos, Ionia era como uma mãe: mesmo que ferida, ainda continuaria firme e forte para seus filhos. E não deixaria de acolher nenhum que rogasse ser seu filho. Lembrou de Soraka, quando surgira praticamente dilacerada, beirando a morte, aprisionada numa forma mundana que morria... Ionia a acolheu. Ela própria, mesmo que nunca tivesse verbalizado aquilo, acolheu a Filha das Estrelas como uma boa amiga. Quase que um familiar, uma vez que se vira sozinha com a morte de seu pai e a partida de Zelos para pedir ajuda e evitar a guerra... Ela mesma dançou com a Morte quando Noxus tingiu as areias da costa de vermelho. Girou entre lâminas, fora conduzida pela Morte ao centro da batalha e, no final, quase chegou a abraçar a escuridão de seu fim iminente... Quase, não fosse o esforço de sua boa amiga em recuperar sua alma das mãos da Ceifadora e devolver-lhe a Irelia.
E então, a guardiã de Piltover bateu à sua porta, clamando ajuda.
Quando abriu novamente os olhos, uma série de pequenos objetos flutuava, girando lentamente ao seu redor. Um pequeno baú, uma esfera de pedra adornada com arabescos contendo uma velha cantiga de Ionia gravada em si, uma diminuta estátua de um guerreiro com sua lâmina, réplica de uma imagem de seu pai, uma adaga de pedra que pertencia a Zelos... Calmamente, Irelia juntou as mãos à sua frente, formando um triângulo entre elas. Então afastou-as com cuidado... e os objetos, serenamente, repousaram mais uma vez em seus respectivos lugares.
Retornou ao seu quarto e abriu o grande armário que guardava uma lendária armadura vermelha que pertencia a sua família, e o par de lâminas que usara na luta de resistência a Noxus. Todo o resto de qualquer possível armamento ioniano fora confiscado, e agora, ao menos a ela, só restara isso que a mulher, devota e ousadamente, decidira esconder e manter consigo. Era seu. Era de sua família.E ninguém neste mundo iria levar.
Irelia havia combinado consigo mesma de ir visitar a Escola do Transcendentalismo assim que esta se abrisse novamente, tanto para verificar como ia o trabalho de Soraka quanto para conseguir alguma informação sobre aquela mulher moribunda trazida, para então talvez aplacar um pouco do desespero da mulher de Piltover que sempre ligava-lhe. Entretanto, de alguma forma, naquela manhã que nascera ensolarada porém fora engolida pelo cinza de um dia frio de neblina, Irelia sentia a estranha necessidade, quase sufocante, de vestir aquela armadura. Percebeu, de repente, que ofegava diante dela com o peito tomado por uma sensação estranha... Angústia... Algo que a impelia a tomar a armadura e...
Não.
A governante daquela província fechou o armário imediatamente, virou-se e se apoiou de costas nele, estranhamente tensa. Guerra só traria mais dor e sofrimento a um povo que ainda não se recuperara do horror trazido pelos exércitos de Noxus e as máquinas de Zaun... Faria como o combinado: não portaria consigo arma nem armadura nenhuma, por mais que ansiasse fervorosamente; que fosse enterrado nas sombras do esquecimento qualquer resquício de guerra... inclusive aquela armadura vermelha.
Afastando-se daquele segredo, Irelia deixou o quarto e dirigiu-se aos grandes jardins na entrada da vasta propriedade.
– Alaryn, busque um cavalo em meus estábulos, por favor. Estou indo à Escola do Transcendentalismo.
– Pois bem, minha senhora.
Enquanto cavalgava tranquilamente pelas planícies e colinas em seu caminho ao Templo, a mente de Irelia vagava por outros "pequenos" problemas que, junto aos outros representantes das províncias, tinha que encontrar uma forma de resolver: os estoques de comida se esvaziando aos poucos, as demandas cada vez maiores de Noxus, a reconstrução de vilarejos inteiros, a contagem de mortos e os órfãos que estes deixaram...
...espera.
Puxou as rédeas subitamente,fazendo o cavalo parar com um relinchar assustado.
...Os portões da Escola já estavam abertos.
– Mas o que...
Deteve-se, confusa, e então desceu do cavalo, caminhando até as duas gigantescas folhas de madeira de cedro e ferro antes seladas, mas que agora jaziam separadas, liberando a entrada à imperiosa construção. Sentindo um peculiar desconforto, a governante tocou as portas e olhou para dentro, para a incomum escuridão que dizia que a Escola estava aberta, porém não ativa.
– Soraka? ...Soraka!
Adentrou o vasto salão inicial, pé ante pé, cuidadosamente, ouvindo cada passo seu ecoar solitariamente até perder-se no nada daquela escuridão sombria. Fechou os olhos e respirou fundo; juntou as mãos...
– ...Luz! — exclamou baixo, porém firmemente para si, separando as mãos e esticando os braços para o lado, afastados do corpo, com força. Um pequeno estouro vindo de suas mãos incendiou as velas nos castiçais mais próximos, e o fogo então propagou-se no ar continuando a acendê-las uma a uma, em sequência, ao redor de toda a grande sala, até que todo o salão estivesse debilmente iluminado pelas chamas das velas. Nada ainda. Um peculiar vazio. Uma súbita apreensão começou a tomar-lhe coração e os pensamentos. Ela saiu, agora correndo, disparada para o outro lado do salão, saindo num dos grandes jardins da Escola.
– Soraka!
Correu entre os templos, vasculhando por eles, até chegar na própria morada da Filha das Estrelas e encontrá-la completamente... vazia.
–Céus... O que aconteceu; o que eu direi pra mulher de Piltover?
Irelia preocupava-se com a dessaborosa notícia que teria que transmitir àquela mulher aflita pelo estado da enferma; a xerife de Piltover. Entretanto, bem mais que isso, estava preocupada com o que teria acontecido à sua amiga maga para que sumisse assim do Templo. Seu coração apertava-se. "Deuses, preciso correr!". Em sua mente flamejou a ideia de voltar para casa e transmitir a notícia do desaparecimento a Piltover, e então vestir desafiadoramente aquela armadura vermelha e correr o mais rápido possível para a costa controlada por Noxus, para contestar seus governantes e obter informações. Afobada, ergueu a barra de suas suntuosas vestes e correu em desespero rumo à saída do templo, onde havia deixado seu cavalo, porém logo que seu pé ultrapassou o limite da porta...
– GUARDAS, CONTROLEM ESTE ANIMAL!
– Tragam as estacas para cá!
– As correntes! Onde estão?
Tomada por repentino pavor, a mulher recuou com rapidez, escondendo-se novamente atrás da grande porta do templo ao ver um grupo de soldados noxianos que chegaram com suas armas, correntes, grandes vigas de madeira, estacas e marretas, contendo com violência seu cavalo, que se assustara e estava distribuindo coices com a chegada dos homens... ...Ela não podia simplesmente ficar parada ali!
– COMANDANTE! COMANDANTE, ALTO! — surgiu de dentro da Escola gritando fortemente para chamar a atenção do homem para a centelha de autoridade que ela ainda possuía e que ele teria que respeitar.
– Senhorita Irelia. Bom dia. — disse ríspido o líder daquele grupo de soldados, logo voltando a gritar ordens aos outros, sem prestar a devida atenção nela.
– O que é isso; o que está acontecen...
– Com licença, senhorita. — segurando nos ombros dela, empurrou-a para o lado, livrando seu caminho. — SOLDADO! MAIS FIRMEZA NESSE MARTELO!
– O quê?... O QUE VOCÊS ESTÃO FAZENDO?!!
Os guardas movimentavam-se freneticamente de um lado para o outro, carregando coisas, apressados a cumprir as ordens do comandante, dirigindo-se ao templo e... ESTAVAM MARTELANDO ESTACAS E PRENDENDO CORRENTES NAS PORTAS DA ESCOLA!
– PAREM COM ISSO!!! VOCÊS ESTÃO DESTRUINDO-O!!! — Irelia desesperou-se ao ver as imponentes portas serem fechadas com violência e as marretas dos soldados brutalmente martelarem estacas enormes através delas, abrindo fendas largas na madeira, ferindo sua caprichosa arquitetura, estragando o que os ionianos consideravam sagrado. — PAREM!! VOCÊS... NÃO... PODEM! — precipitando-se para o meio dos soldados sem pensar duas vezes,mesmo sem nada com o que atacar ou defender-se, Irelia furiosamente golpeou com as mãos nuas um dos homens que prendia agora correntes às estacas cravadas nos portões para selá-los, de acordo com a ordem da governante da colônia noxiana em Ionia
Irelia voou para o meio dos homens e desferiu um golpe certeiro na nuca de um deles, fazendo-o imediatamente cair no chão. No mesmo instante os outros já deixavam de trabalhar para ir ao encontro da mulher, contê-la
– PARA TRÁS, IONI... AARGH! UGH!
Girando o corpo com maestria marcial, bateu com as costas do punho na cara do soldado e logo abaixou-se para acertar-lhe o estômago com os nós dos dedos, afundando o punho num ponto desprotegido da barriga do homem. Um som metálico cortou o ar subitamente, porém exatamente quando se aproximava, voraz, do ouvido dela, a mulher desviou-se para o lado, jogando-se no chão para fugir de um segundo golpe de espada que o soldado que a atacava já desferia logo a seguir. Levantava-se ligeiramente do chão lamacento onde caíra, manchando as ricas vestes que trajava, mas então sentiu um puxão derrubá-la novamente quando tencionou colocar-se de pé. Outro silvo metálico cortou o ar.
– AH!
PLEFT!
– O chão é o que você merece, ioniana!
Um soldado pisara na cauda de seu quimono com tal força e inesperadamente, que levou-a novamente à lama, enquanto a espada correu para ela mais uma vez; Irelia, presa, conseguiu apenas desviar-se o suficiente para que não sofresse um corte fatal, mas a lâmina ainda rasgou a longa manga de sua roupa e fez um talho grande e fundo em seu braço. A dor não era nada comparada à guerra travada meses antes na costa de Ionia, mas ainda assim, o ardor, misturado à sujeira lamacenta, era terrível.
Buscando defender-se como podia, o desespero começando a crescer dentro de si e sobrepujar seu autocontrole, ela usou o pano solto da roupa e lançou-o contra o rosto do soldado que a prendia enrolando a longa tira de tecido em sua cara e confundindo-o com aquele ataque surpresa.
– AH! MALDITA! — perdido naquela confusão de panos que lhe acertara, o homem caminhou para trás desequilibrado, libertando a mulher e quase vindo a cair no chão.
Furioso com o frenesi vertiginoso que se formara, o comandante sacou também sua espada, vermelho de ódio, e juntou-se aos seus homens, que também desembainharam imediatamente suas lâminas.
– GUARDAS! PERMISSÃO PARA MATAAAR!!!!
Quando os homens partiram para estraçalhar a mulher que se rebelava, empunhando furiosamente suas espadas, prontos para desferirem-lhe seus golpes finais...
– NÃO!!!!
Num misto de ira e desespero, a mulher gritou e abriu os braços, colocando-se em frente às portas da Escola, pronta para morrer por Ionia... Mas não. Não hoje.
Subitamente, as armas impulsionaram-se brutalmente para o alto, escapando das mãos dos soldados num tranco violento... e então as lâminas começaram a flutuar no ar!
– ...deuses... — foi só o que um jovem dentre o guardas conseguiu dizer antes de ver suas próprias espadas voltarem-se contra os noxianos, num banho de sangue desvairado enquanto a mulher dançava com as lâminas por entre eles, atacando-os e defendendo-se para resistir o máximo que podia defendendo o templo de seu povo.
Despindo-se de todo o controle e serenidade que cultivava consigo, Irelia entregou-se àquele ódio fruto de toda a dor que sentira ao ver pessoalmente Ionia definhar nos campos de batalha sob a frieza do aço trazido pelos centuriões noxianos, e afogava agora toda essa tristeza que a assolava no sangue ainda quente expelido pelos guardas de Noxus, que insistiam em torturar e ofender seu templo... seu povo.
Numa fúria cega, sua arte milenar guiou as lâminas para os corpos dos soldados. Seus braços. Suas pernas. Direto em seus corações. Entretanto, ao mesmo tempo, o medo dessa própria besta incontrolada dentro de si aterrorizava Irelia com um choque ao se deparar com sua própria capacidade de promover uma carnificina sem dó...
ZZZZZZIIIM!
Repentinamente, Irelia desviou-se de uma adaga que ia em sua direção e parou-a no ar, congelada no meio do nada. Virou-se para se deparar com a origem da lâmina: aquela mulher ruiva, outra dentre os carrascos já conhecidos, parada pouco ao longe, com um olhar... pasmo. Só então Irelia percebeu que, de seus próprios olhos, escorria água. Água que se misturara ao sangue dos homens enquanto os matava...
– Irelia. O que está acontecendo? — a administradora da colônia noxiana falou branda e pausadamente.
– Onde. Está. Soraka? E como vocês vêm aqui e decidem fazer isso com um dos lugares mais importantes de Ionia?! Nós fizemos um acord...
– Um acordo que foi quebrado hoje pela sua curandeira extraterrestre traidora, governante.
Ainda assustada e sem saber o que dizer, Irelia apenas sentia a garganta apertar-se em dor e desespero, engolindo as palavras como se fossem bolas de espinhos. Katarina continuou.
– A ordem foi dada para que os guardas lacrassem este templo e eu vim pessoalmente falar disso com você... Mas, definitivamente, não esperava que as coisas corressem dessa maneira. Nossos laços estão ficando complicados de manterem-se atados, governante...
– Onde. Está. Soraka?
Katarina respirou fundo e fez sinal para seus subordinados, dando uma ordem em voz baixa. Um dos soldados, com visível desgosto e quase nojo, desceu de seu cavalo e levou-o até Irelia. A general noxiana olhava em volta. Tanto sangue banhando o chão quanto ela mesma conseguiria derrubar com um único movimento. As paredes externas do templo manchadas. Os portões selados a correntes, como uma cripta. E aquela mulher que aceitava carregar aquele fardo em nome dos seus; suja, ferida, ignorando firmemente as lágrimas que sabia que escorriam e firmando sua posição como uma torre sempre pronta a defender seu povo... mas, ainda, uma ioniana. Desperdício; poderia ter brilhado nas fileiras militares de Noxus...
– Suba depressa. Temos que conversar e eu ainda preciso voltar à costa da ilha. — Katarina virou seu cavalo e disparou já a cavalgar rumo à propriedade da governante daquela província ioniana.
Ao chegarem, uma parte dos soldados ficou do lado de fora da casa, mandando os empregados embora e montando guarda no jardim, nos estábulos e na entrada da casa. Katarina precedeu o grupo, abrindo as portas da casa e convidando sua própria dona a entrar. Poucos soldados seguiram-nas. Entraram para a sala e por ali mesmo a administradora da colônia noxiana decidiu que ficariam. Silêncio.
– Sente-se, governante. — disse a Irelia, vendo-a parada com um olhar altivo frente a ela, mesmo estando completamente suja. A mulher não se moveu ou abaixou a cabeça. Katarina ignorou-a e começou a andar pela sala. — ...Nós havíamos estabelecido um acordo de paz armada...
– Os únicos a portarem armas aqui são vocês. — Irelia retrucou ríspida.
– Não torne as coisas mais difíceis do que já estão, senhorita Irelia... — Katarina fez uma breve pausa, como se organizasse seu discurso, e então prosseguiu. — Desde que foi considerado acabado o conflito entre Noxus e Ionia, temos tentado negociar formas de tornar a convivência possível entre os dois povos, com um mínimo, pelo menos, de civilidade para que, justamente, não pulássemos mais nos pescoços uns dos outros como animais descontrolados... Entretanto, apenas nesta manhã, eu mesma já presenciei dois atos condenáveis que colocam em risco a validade de nosso acordo...
–Se me permite cortar sua fantástica argumentação, "governante": nossa convivência em paz com seu povo já havia sido contestada no exato instante em que o primeiro navio carregando suas tropas aportou em nossa ilha, distribuindo caos e horror gratuitamente ao nosso povo. E desde essa suposta "trégua" na qual teoricamente entramos, seus soldados violam diariamente o direito do meu povo de existir simplesmente. E eu, assim como os outros "governantes", senhorita DuCoteau, mesmo que ansiemos e negociemos pelo bem dos nossos, acabamos sempre tendo que nos calar frente às arbitrariedades de seu estimado Comando. Se hoje as coisas passaram dos limites, tenho que dizer que eu não me desculpo, mas que isso serve de alerta para a situação à qual as coisas estão chegando.
A noxiana ouvia aquilo enquanto acariciava frivolamente uma adaga de pedra que visualizara sobre uma pequena estante, atraída pela forma incomum daquilo, porém perguntando-se qual seria a utilidade de uma arma frágil e pouco precisa como aquela. Porém, quando Irelia terminou, ela prontamente virou-se e caminhou até ela.
– Ousado, Irelia... Muito ousado de sua parte colocar as coisas nestas palavras. Você deveria saber que a língua é tão afiada quanto qualquer lâmina que possamos ter, e eu teria mais cuidado ao manuseá-la... Principalmente quando seu querido unicórnio de estimação abrigou alguém ilegalmente em seus domínios, forjou documentos noxianos, atacou abertamente soldados, causou uma confusão sem tamanho na colônia e colaborou na fuga de alguém que sequer sabemos como adentrou a ilha, uma vez que nada foi passado no registro de imigração do porto. Isso me dá sérios motivos, sérios motivos e preocupantes evidências de que vocês, ionianos, vêm guardando muito mais segredos do que seria saudável guardar. — quando terminou, Katarina já estava próxima demais de Irelia; seu olhar friamente colérico repleto de ameaças veladas buscando no fundo dos olhos da ioniana sua alma torturada, apenas para cravar-lhe mais uma estaca e relembrar àqueles vermes ousados quem ainda estava no comando ali. Irelia senti sutilmente a ponta de uma das adagas de Katarina, disfarçadamente posta entre elas, afundar na pele acima de seu quadril aos poucos, com uma pressão ligeiramente crescente contra ela, enquanto gradualmente a dor se alastrava pelo local. Mas ela se recusava a mover-se, fazer qualquer som ou baixar o olhar. Depois de alguns segundos e julgando suficiente, Katarina displicentemente removeu a adaga dali e guardou-a junto com as outras. — Você se acha forte, ioniana... Muito bem, pois terão que sê-lo. Aquela aberração da sua cidade está presa em nossas masmorras enquanto aguarda o navio que a deportará para seu julgamento em Noxus.
– Masmorras? — as coisas de repente deram uma guinada atemorizante. A general, percebendo aquilo, não disfarçou um sorriso de canto de boca, triunfante.
– Já perderam sua proteção mística uma vez, e perderam a ilha... O que mais estão dispostos a apostar?
"Sua...!!!" Irelia teria igualmente perdido o controle e avançado sobre a general com ódio se não tivesse a frieza de calcular quantos guardas cercavam sua propriedade naquele momento, e, mesmo sabendo ser uma mestra da luta sem igual, reconhecia que a outra mulher não seria uma adversária de pouco risco... "Foco, foco, foco!" Lutava dentro de si contra seus próprios sentimentos e impulsos, como sempre fora ensinada na Escola caso buscasse alcançar o estado sublime do espírito. Porém, naquele momento, naquelas circunstâncias atuais, era difícil se distanciar do mundano. E Irelia, mesmo mantendo sua postura soberana, sofregamente arfava.
Katarina, antes de sair, seguiu até a estante onde encontrara a adaga de pedra. Olhou-a mais um pouco. Tomou-a nas mãos, analisando-a... e então, junto a uma adaga de metal sua, aparentemente igual à de pedra, atirou as duas com violência contra uma das paredes. A adaga de metal cravou-se no plano com força, como se desejasse desfazê-lo, enquanto a pedra, ao atingi-lo, despedaçou-se sem quase deixar um arranhão.
– As circunstâncias determinam se algo que parece forte realmente o é. Veremos quem se crava e quem se quebra, Irelia. — sem precisar chamar seus soldados, a noxiana deixou a casa e foi seguida por eles.
Logo, um perturbador silêncio se abatera sobre toda a grande propriedade novamente vazia, assim como no início daquela manhã. Alaryn, que ao ver o soldados entrarem escondeu-se com os cavalos, notou aquela monotonia sombria onde só se escutava o sopro frio do vento, e, receoso de encontrar sua senhora estirada, morta dentro de sua casa, atravessou amedrontado a porta de entrada.
– ...senhorita Irelia! — exclamou baixo ao encontrá-la parada, imóvel e tensa no centro de sua sala, com os olhos fixos no nada e a respiração estranha. Não sabia se devia aproximar-se, mas o fez com cuidado. — ...Senhorita?
Os olhos inertes de sua senhora, lentamente, começara a marejar. E, como se de repente sua alma retornasse ao corpo, Irelia brandiu o grito mais doloroso de todos o mais forte que poderia dar...
– NÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOO!!!!
...e seu corpo se amoleceu enquanto desmontava, em direção ao chão, a chorar.
~¨~
No abarrotado e caótico prédio do Conselho, Andrès esforçava-se para coordenar as patrulhas que entravam e saíam a todo tempo, ora para ajudar na construção das torres, ora para vasculhar qualquer movimento suspeito nas fronteiras do que uma vez fora Piltover. Não iriam abrir mão de forma alguma de sua casa enquanto ainda houvesse a chance de ser reconstruída, e isso se refletia no fato de que, mesmo que Caitlyn cogitasse mover toda a população para algum outro lugar um tanto mais seguro — fosse Freljord, fosse Demacia, fosse o próprio Deserto -, o próprio povo, ainda que amedrontado, preferia ficar e ajudar no que pudesse a restauração e fortificação da cidade, atraídos quase que inconscientemente pela sutil liderança esperançosa de Barthrax.
Caitlyn retornara com o grande grupo que havia passado o dia erguendo colossais colunas de concreto que envolviam e protegiam os intrincados circuitos construídos por Heimmerdinger e outros cientistas, muitos deles já prontos para receber os cristais arcanos, capazes de emanar pura energia. Os dispositivos que uma vez serviram para canalizar o poder destes cristais provendo a Piltover energia pura e limpa para seu funcionamento seriam usados agora para canalizar esta mesma energia em tiros de laser capazes de aniquilar em pouco tempo qualquer coisa que entrasse em seu campo de proteção. Piltover construía suas defesas enquanto pedia para que Zaun não surgisse no horizonte...
– Andrès, como vão as coisas por aqui? — dizia uma Caitlyn visivelmente exausta e ofegante, porém ainda conseguindo prestar-se a ajudar numa coisa ou outra antes de retirar-se para se limpar, comer algo e descansar um pouco. A cidade e seus cidadão pareciam agora trabalhar a todo fôlego, sem economizar esforços até que tudo estivesse ao menos razoavelmente estável. E isso parecia ter trazido de volta um pouco de ânimo à xerife também, cuja vontade excepcional fazia-a trabalhar incessantemente, porém com gosto e esperança outra vez, e cujos olhos já não perambulavam mais perdidos pelos salões. Mesmo que não tivesse tempo para frivolidades como beleza, Caitlyn, com aquele novo ar muito mais confiante em si mesma que antes, estava aos olhos de todos estonteantemente mais... radiante.
– Turbulento como o usual, querida, mas conseguimos dar conta de tudo. — respirou fundo. — Se tudo puder continuar neste ritmo, podemos talvez nos permitir esperanças maiores do que simplesmente sobreviver...
Caitlyn sorriu levemente. Havia um sutil toque de cansaço nas palavras de Andrès, um cansaço não físico, mas de espírito. Ela sabia como ele se sentia, a perspectiva de um futuro obstruída pela névoa dos acontecimentos... Ela sabia...
– Ei... Andrès. — chamou sua atenção baixo. — ...por mais... ferrado que tudo pareça... vai dar certo. — ela falava fingindo que consertava algo em seu rifle, talvez tivesse ainda vergonha de transparecer seu lado mais emocional. Mas falava com firmeza. — Acredite em mim; eu posso não te assegurar que as coisas vão voltar a ser um dia como foram antes, mas com certeza... desse buraco a gente vai sair. E você pode contar com os seus amigos. — ela finalmente levantou os olhos do rifle e sorriu para o velho amigo. Este observou-a com uma sobrancelha erguida, um ar com resquícios de dúvida... pff, mas então soltou um discreto riso breve.
– Eu vivo essencialmente bem sozinho. Não tenho esposa, nem filhos... Nem nenhum familiar conhecido por perto... Só eu, as coisas que gosto de fazer e as lembranças do tempo em que eu trabalhava para a polícia. Isso, na maioria das vezes, já me é o suficiente; em geral, estes problemas para mim são "tanto faz como tanto fez". Mas então tem esses dias em que a realidade angustia um pouco... Mas não se preocupe, vai passar. Agora, você, senhorita... — com seu charmoso sorriso desafiador, virou-se de frente para a xerife, encarando-a com um tom inquisidor um pouco cômico. — ...uma semanas atrás parecia prestes a se atirar do topo do prédio; ficamos com medo! E hoje... muito mais confiante, disposta. De onde vem essa animação, hã?
– É... E... Ahn... Eu... É que... De... A...
A xerife levantou uma mão e tencionou começar a responder, porém subitamente sentiu-se pega de surpresa e não conseguia vocalizar a resposta em que havia pensado... e então começou a sentir as maçãs do rosto gradualmente ficarem quentes e róseas enquanto se atrapalhava sem palavras. Andrès começou então a gargalhar.
– Hahahahahaha!!! Tudo bem, tudo bem, não precisa falar, foi só pra ver como você reagia... Haha!...
– Besta... — murmurou rindo, com um leve soco no braço do homem. Johan devia ter contado pra ele como ela havia levantado de repente, animada e tirando seu guardião velho e gordinho para dançar do nada, afirmando com uma certeza peculiar vinda sabe-se lá os deuses de onde que... bem... que... Que Vi estava viva. E essa simples certeza fazia seu coração palpitar ligeiramente mais rápido. "Eu vou pegar esse Johan mais tarde... Ele me paga." Ela então vestiu novamente a alça do rife, colocando-o em suas costas, levantou-se e começou a sair. — Está bem então, Andrès. Passo aqui de novo daqui uma hora pra ajudar. Au revoir.
– Au revoir, ma chérie.– acenou já voltando a seus papéis e todo aquele seu trabalho quando...
.. TRRRIIIIIIIIIM...
...o radiocomunicador, cuja função principal vinha sendo manter contato com Ionia e que estivera em completo silêncio havia já alguns dias, inesperadamente tocava. Depois do terceiro ou quarto sinal de que havia alguém chamando, Andrès parou de observar a mesa que portava o aparelho e atendeu-o.
– Andrès, delegacia de Piltover... Irelia, acalme-s... ... ...
Tudo girou diante de seus olhos por um segundo... e o microfone caíra da mão amolecida de Andrès assim que seu corpo tivera um choque e quase desmaiara. Puxou, sem conseguir sentir suas mãos, o fone de ouvido que usava para atender ao rádio e deixou-o cair sobre a mesa; sentia que suava frio e seu corpo parecia anestesiado, incapaz de manter-se firme... A voz no rádio, aflita, continuava a chamá-lo, distantemente...
"...Barthrax... Barthrax... Preciso encontrar o Barthrax..."
Levantou-se ainda sentindo o mundo girar. De repente, era com se tivessem acertado um chute em seu estômago. E ele ainda suava frio...
– Ei, cuidado! — disse Elle, brava, quando o homem esbarrou nela e quase derrubou as amostras que a mulher trazia consigo... Mas então ela o viu. — Andrès? Andrès, está tudo bem? Andrès!
– Barthrax... Eu preciso... — ele balbuciava mecanicamente a mesma frase de forma tão estranha que até a cientista sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha... Céus, fosse o que fosse, algo estava bem ruim...
Subitamente, Andrès disparou a correr sala a fora e através dos corredores, uma expressão espantada como se tivesse ouvido a voz da própria Morte no radiocomunicador, chamando-o. Conforme corria, parecia que as paredes se distorciam e fechavam-se sobre ele, querendo engoli-lo, enquanto os corredores esticavam-se e ficavam mais longos, os rostos se deformavam, e não havia som, apenas um chiado infernal.
– Barthrax... Barthrax!!!
O velho minerador estranhou ouvir seu nome daquela forma, e virou-se justamente a tempo de segurar Andrès antes que o homem se desmanchasse e atingisse o chão.
– DEUSES! HOMEM, O QUE ESTÁ ACONTECENDO?! — pego completamente desprevenido por aquele susto, a voz de trovão ecoava alta e preocupada enquanto Barthrax segurava atrapalhadamente Andrès por debaixo dos braços e tentava chamá-lo. — ANDRÈS! ANDRÈS!!!
– ...V... ...V-Vi... ... ...sumiu... ...d-d... ...Ionia... — e a cabeça do homem pendeu para trás, mole.
– URGENTE! ENCONTREM UM MÉDICO! PRECISAMOS DE UM MÉDICO, O HOMEM DESMAIOU! — desesperado, sem ter tempo de processar o que acontecia e tentando ainda fazer com que o homem acordasse, Barthrax sentiu o coração acelerar descontroladamente. "Vi sumiu de Ionia?". Quando a ajuda chegou, o gigante imediatamente deixou Andrès aos cuidados dos outros e levantou-se pronto para correr... pra algum lugar, tentar entender o que aconteceu, obter informações com mais alguém, sei lá! Já alcançava a metade do corredor quando o rapaz que era médico exclamou.
– Ele está falando! Ele está dizendo algo! — Barthrax parou forçosamente e voltou como um raio, caindo já de joelhos perto do enfermo para conseguir ouvir o que ele dizia.
– ...L... evaram... N... ox... Lev... Levaram... Nox... us...
– Levaram Noxus?... Levaram para Noxus? — o médico tentava decifrar o que o homem balbuciava sem fôlego, sem nem conseguir manter a cabeça firme direito, mas logo o corpo amoleceu mais uma vez e o homem apagou completamente. Era a vez de Barthrax suar frio.
"Vi sumiu de Ionia... Levaram para Noxus... ...Ah não... Não, deuses, não!"
Sentindo o coração apertar-se infinitamente diante da incapacidade de ajudar... Ajudar... sua menina, Barthrax não sabia o que fazer com aquela dor, nem o que fazer com aquela informação maldita! Será que Caitlyn já estava sabendo daquilo? Não, não, certamente não, senão já teria visto uma movimentação colossal da xerife colocando absolutamente todas as suas peças em jogo à procura desesperada dela... Por quê Andrès não havia contado el...
Era isso.
Andrès não conseguiria... Não teria o mesmo entendimento do sentimento de Caitlyn ao receber a notícia e não seria capaz de fazê-la aguentar... "É você, Barthrax. Você entende.É você quem tem que fazê-lo."
Ainda despedaçado com a notícia, o homem tinha ainda que arrumar uma forma de transmiti-la, mas como fazê-lo quando a sua própria preocupação é tão grande que tortura seu peito em brasa e arranha sem dó sua garganta?! Como, deuses, como?! Ele seguiu correndo para fora do prédio do Conselho.
– aaaaaAAAAAAAAAAAA... AAAAAARGHHH!!!!!!!!
Um homem que nunca fora violento, que custava a perder a cabeça, um titã que, embora ameaçador em forma e tamanho, ganhava o respeito dos outros por sua humildade e gentileza...
– AAAAAARRRGGGHHHHH!!!!!!
...com sua gigantesca marreta, correu para fora do prédio do Conselho...
– AAAAAAAAAAAAAARRRRRRRGGGGGHHHHHH!!!!!!!
...e destruiu todas as paredes que estiveram à sua frente, numa fúria descontrolada, brandindo sua marreta e fazendo tremer o chão e as estruturas em volta, despedaçando o que sobrara de casas que ele mesmo juntava os destroços para reconstruir...
– AAAAAARRRRRHHHHAAAAAAAHHHH!!!! ...POR QUÊ, DEUSES?! POR QUÊ, SEUS CRETINOS, NOS DÃO TANTO E NOS TIRAM TUDO E MUITO MAIS EM TROCA?!!! AAAAAARRGHHH!!!!... Hahahahahaa... Por quê?!... Por quê?... – a fúria destrutiva do homem se misturava com a dor e a indignação que se acumulavam passivamente em si ao longo de anos e agora tudo de repente explodia, impossível de ser controlado, como um vulcão que acorda revoltado depois de eras adormecido... Mas então, como a chuva aplaca a lava após a terrível explosão, as lágrimas inevitavelmente tomaram conta de Barthrax, e ele largou a marreta e sua vontade de destruir o mundo à sua frente e levou as mãos ao rosto, a soluçar. — Por quê?... O que eu tenho que fazer pra que essa maldição pare de me seguir, Elora? O quê?– ele passava as mãos desconsoladamente pelos ralos cabelos brancos, caído no meio dos escombros e recostado numa parede semi-destruída...
Mas tinha que se levantar. Tinha que se levantar, tinha que se recompor, tinha que voltar para dentro daquele prédio com toda a coragem e força que tinha e tinha que ser uma rocha de sustentação caso Caitlyn precisasse. Como eu havia prometido pra você, Vi.
Caminhando a passos pesados que faziam o chão estremecer à sua volta, Barthrax retornou ao prédio do Conselho com uma incomum expressão fechada, varando o caminho até o salão principal como um touro, como se não houvesse ninguém entre ele e seu objetivo, implacável.
– Onde está Caitlyn? — ele trovejou como uma tempestade, amedrontando quem o ouvira soar.
– Barthrax?
– Caitlyn! — exclamou, grave, e então caminhou até ela.
– Céus, Barthrax, você não costuma ser assim... O que aconte...
– Precisamos de um lugar para conversar onde não sejamos perturbados. — a gravidade com que o homem falava junto à sua expressão carrancuda chegaram a fazer até a xerife sentir um calafrio percorrer-lhe a espinha, porém ela manteve-se firme como estava. "Isso não está certo... Isso não é normal; definitivamente, não está certo..."
– Venha. — ela começou a atravessar o salão e subir as escadarias adiante, sem olhar para trás em momento algum, uma expressão incomodada e decidida enquanto se distanciavam para aquela mesma varanda onde ela esperara orando para que Vi estivesse bem... — Chegamos. Agora me conte o que é, sem enrolação. — Caitlyn soava muito mais como uma investigadora brava e desconfiada do que uma amiga. Era o receio... Receio de algo que não conseguia ainda explicar. O homem à sua frente puxou um banco de pedra que estava recostado numa das paredes da varanda e colocou o pesado objeto na frente do outro banco na outra parede.
– Sente-se. — sem vontade, olhando-o fixamente, a xerife caminhou até um dos bancos e sentou-se cuidadosamente, ainda focada em cada movimento daquele homem que não conhecia tanto assim. Barthrax sentia o julgamento de Caitlyn sobre si naquele momento e não a culpava, mas era simplesmente impossível tentar manter uma feição minimamente confortável no estado de espírito em que se encontrava. Sentou-se no banco em frente a ela. — Caitlyn, eu sei como você é resistente e que, atualmente, deve ter coisas demais com que se preocupar para ter que ouvir mais isso, e eu gostaria de ter tempo para me acalmar e preparar o terreno antes de contar isso para você... Mas somos todos adultos aqui. E, assim como a notícia chegou de repente até mim, só o que eu posso fazer é contá-la rápido a você para que possamos decidir como sair dessa enrascada. "Sem enrolação". — a mulher olhava firmemente para ele, segurando a respiração, tensa, porém sem expressar qualquer traço de medo. Barthrax teve que tirar um segundo para retomar o ar antes de dizer o resto. — ...Vi não está mais em Ionia. Levaram-na para Noxus e eu não tenho muito mais informação do que isso.
A xerife soltou a respiração num único movimento, fechando os olhos e baixando a cabeça. Tentava afastar qualquer pensamento de si, qualquer um, por menor que fosse. Abriu os olhos, tomou o rifle nas mãos e caminhou duramente até o ponto mais distante da sacada, olhando para o final do continente e o início do mar logo adiante, absolutamente quieta, mas com as mãos tensas segurando o concreto do parapeito como se desejasse destruí-lo com as mãos.
– ...Droga!!! — atirou seu rifle no chão com uma força descomunal, fazendo até com que peças se soltasse e voassem, quebradas, pelo chão. Apoiou os cotovelos no parapeito e afundou o rosto nas mãos, de repente parecendo segurar todo o peso do mundo nas costas. Se ela tivesse pensado mais um pouco e não tivesse disparado aquele tiro contra Dohran... Seus olhos queimavam e em seus pulmões, o ar parecia lava... Ela tirou as mãos dos olhos e levantou a cabeça, firme num novo propósito que surgira. Recolheu as peças do rifle do chão e começou a remontá-lo — As últimas coisas que ela me pediu foram que eu não me arriscasse por ela e que não chorasse também... Você não faz ideia de como isso ficou marcado em mim, Barthrax, enquanto eu via ela caída, quase sem vida, naquele campo de batalha imundo... Mas quer saber de uma coisa? A Vi é uma desobediente. Uma desobediente, inconsequente, idiota e eu a amo de qualquer forma. E eu sou a xerife em cargo aqui. Minha vez de desobedecer as regras. — ela ia saindo sem dar mais nenhuma explicação.
– Espere, Caitlyn! Onde você está indo?
– Noxus, Barthrax, vasculhar a caixa de "achados e perdidos". Já passou da hora da Vi voltar pra casa...
~¨~
No navio, Vi tentava a todo custo terminar de limpar a porcaria do convés pra ver se a deixavam em paz, mas parecia IMPOSSÍVEL fazer aquilo com aquele monte de piratas escrotos pisoteando o chão com as botas sujas EXATAMENTE onde ela tinha ACABDO DE LIMPAR!!! AARGH! Faltava só um pouquinho, só um pedacinho... e aí um deles passou correndo de um lado do convés para o outro, sujando metade do caminho de novo! Aaaah, isso já era demais pra aguentar...
– Aaaaaah, não; VOCÊ VOLTA AQUI AGORA SEU OTÁRIO IMUNDO; PEGA ESSE ESFREGÃO E VAI LIMPAR ESSA PORCARIA TODA ANTES QUE EU ENFIE O CABO DELE NO SEU... Aagh!
– Boa mira, camarãozinho.
– Andei treinando.
Ao perceberem os gritos coléricos de Vi esbravejando por alguma coisa, Sarah e Nami, que conversavam tranquilamente na sala da capitã, decidiram subir para ver o que acontecia... Qual não foi a surpresa das duas ao verem a mulher de cabelos rosa-choque, mesmo sem as luvas intimidadoras, puxando um dos marujos pelo ombro com força e determinação incríveis, empurrando-o com a cara no chão, quase engolindo o esfregão, e verdadeiramente botando medo num homem do mar que já vira muita coisa em sua vida. "Hah! Essa é a minha garota..." Pensou Sarah Fortune ao ver a fúria com que Vi controlava a situação, sem espaço para nenhum contestamento, exatamente a força física e de caráter que ela queria ao seu lado do campo quando fosse fazer sua investida para retomar Bilgewater das mãos tirânicas dos piratas que a invadiram e tornaram-na um inferno anos atrás. Mas já era o suficiente, não precisava de ninguém ferido. "Nami, tem como 'esfriar' um pouco a cabeça deles?" tinha sido seu pedido antes da sereia atirar um jato quase sufocante de água em cima deles. Vi, ensopada, não tinha ficado muito feliz com aquilo... Assim como não estava feliz com muitas coisas na sua atual situação. Mas não se revoltou também. Talvez a água realmente tivesse "acalmado os ânimos". Sarah se aproximou.
– Em primeiro lugar, eu já teria limpado esse convés umas três vezes se esses idi... se eles não continuassem passando com essas botas todas sujas de sabem-se lá os deuses o quê por aqui... — Vi dizia com o cabelo rosa todo molhado e caído na frente do rosto, e com um controle na voz ao explicar a situação que poderia quase se passar por uma diplomata demaciana, não fossem seus dentes que às vezes cerravam-se com força, evidenciando alguns momentos em que um lampejo de raiva passava-lhe pela cabeça. Sarah observava aquilo achando um toque de graça na situação, a ironia daquela calma da demolidora de Piltover. Entretanto, ao mesmo tempo, viu uma oportunidade de começar a colocar seus planos em ação.
– Esqueça. Você precisa de roupas limpas pra não pegar uma gripe ou qualquer coisa que se espalhe pela tripulação. Me siga.
Sem inquirir nada sobre aquela afirmação — era lógico que, num navio em alto mar, não se desejava que a tripulação adoecesse -, Vi seguiu a capitã escadas abaixo, para dentro do navio, atravessando o primeiro andar onde os cômodos mais confortáveis e os tesouros de Sarah Fortune encontravam-se selados atrás de portas de madeira adornadas com o que pareciam ser ondas talhadas em madeira mais escura. A iluminação por velas era débil, mas a luz do sol já era o suficiente para clarear aquele primeiro andar durante o dia. Sarah abriu uma porta onde as duas entraram, e então prosseguiu para um belo móvel, de onde começou a mexer nas gavetas e tirou algumas peças de roupa. Entregou-as para Vi.
– Tome, estão limpas. Essas são minhas, então provavelmente servirão em você. Só não estrague nada. — Vi recebeu as roupas da mulher ruiva, e então olhou em volta.
– ...Ahn... Vestiário? — a capitã, que se dirigia até a estante para buscar sua garrafa de gin, virou-se com um breve riso incrédulo.
– Pff! Pelos céus, somos só garotas aqui...
Ao ouvir aquilo, Vi primeiro ergueu uma sobrancelha; "Sério isso?"; mas então conformou-se. Afinal, precisava trocar de roupa de qualquer jeito e só haviam elas mesmo no aposento, e "Miss" Fortune estava mais preocupada em escolher o ano da garrafa de bebida do que qualquer outra coisa... Começou a despir-se das roupas molhadas que trazia consigo para vestir o que a capitã emprestava. "Hum... Será que a Caitlyn é ciumenta? Haha, nunca vi nada assim dela; como será que a cupcake reagiria se eu contasse isso?..."
Quando a rebelde começou a despir-se, a capitã discretamente lançou um olhar para além da taça que enchia, averiguando a situação... Quem sabe não fosse uma boa forma de começar sua investida para conseguir uma nova aliada como recompensa? Sorriu para si mesma, virando-se com a garrafa e duas taças e caminhando até o divã, onde sentou-se de frente para o local onde a outra se trocava saboreando sua bebida com um olhar... Interessado. Vi, que se distraíra pensando coisas bobas e sorria levemente ao se perguntar sobre Caitlyn, de repente notou o olhar da capitã focado em si, tomando um pequeno susto e desfazendo o sorriso de sua expressão. Desviava o olhar do olhar dela, incomodada.
– Hah, não se acanhe, não estou olhando pra você! ...Bem, na verdade estou. As engrenagens. São interessantes, bem características. Onde você as fez? — Sarah conseguia guiar a conversa e mudar seu rumo para águas mais calmas, assim como fazia com um navio no mar.
– Fronteira de Zaun. Por algum motivo, a galera lá é aficionada por esse tipo de coisa. Máquinas, engrenagens... Na hora pareceu uma boa ideia.
– Você se arrepende de ter tatuado isso?
– Não, na verdade. Como você disse: é bem característico. Acaba sendo parte de mim. Eu gosto.
Aquela conversa durara pouco. Logo um silêncio não muito confortável se abateu enquanto Vi vestia a blusa preta decotada que parecia muito larga na região da cintura. Perguntava-se se havia algum cinto, alguma coisa para prendê-la...
– Ah, isso se veste com um espartilho por cima. Esqueci de pegá-lo. Um minuto. — a mulher deixou sua taça na mesa de centro junto ao mapa de Runeterra e vasculhou um pouco mais as gavetas da cômoda, tirando de lá uma peça em tecido vermelha adornada com uma renda com caprichosas rodas negras bordadas. — Aqui. Precisa de ajuda para vesti-lo?
– Preferia que não, mas... Não me parece que tenha muita escolha, a não ser que eu enxergue nas costas — "Como é que não tem espelho nenhum aqui?"
Sarah passou os braços em volta da cintura da tripulante e puxou o espartilho, ajustando-o na cintura da mulher, abaixo dos seios, e começou a apertar os cordões para amarrá-lo, passando as mãos pela cintura de Vi a cada ajuste para esticar o tecido e não deixar que ficasse dobrado.
– ...Me desculpe pela água lá em cima, mas achei necessário. As coisas se resolvem assim por aqui, não quer dizer que tenhamos algo em especial sobre pegar no seu pé.
– É, entendo... Pelo visto eu sou a novata daqui. Por acaso você tá dando um nó mágico de marinheiro que vai se desfazer quando eu estiver na frente de todos só pra eu passar vergonha?
– Não, nós costumamos jogar ovos nas pessoas, mas você sabe... Você está com as minhas roupas, então o esquema foi cancelado. Amarelo e cheiro de ovo não combinam bem comigo. — ela terminou de puxar a última parte do cordão, pronta para amarrá-lo, mas então segurou-o com uma das mãos e apoiou o queixo no ombro da mulher de cabelo rosa. — Ah, viu só como espartilhos vestem bem? Olha só como eles te valorizam; muito melhor do que aquelas roupas estranhas de monge... — com a mão livre, Sarah tocou levemente as pontas dos dedos no alto do peito da outra, como se mostrasse a ela aquilo que estava dizendo. — Eu sempre mando fazê-los abaixo dos seios, deixa-os mais bonitos, mas às vezes as barbatanas usadas podem machucar... — ela então passou a mão abaixo dos seios de Vi, delineando-os delicadamente enquanto sutilmente abaixava seu tom de voz, seu rosto próximo ao ouvido dela, instigando-a porém sem dar nenhuma evidência suficientemente clara para que se afastasse... Por um segundo, Vi ficara completamente imóvel, sem conseguir imaginar uma forma não desastrosa de lidar com aquilo. Sarah percebeu que ela começava a sentir certo nervosismo por aquilo, e então soube que deveria parar. — ...espero que não esteja desconfortável. Qualquer coisa, podemos arranjar um cinto que sirva para essa roupa se as barbatanas machucarem. — completou, apenas cutucando uma das barbatanas do espartilho para mostrar onde ficavam, e então terminou de amarrar a peça e afastou-se, observando o resultado.
– ...Acho que tá bom. — foi só o que Vi disse ao ver-se pronta. Achara que talvez a capitã tivesse agido com segundas intenções, mas talvez fosse cedo para julgar. Aquilo parecia ser o jeito natural da mulher agir com pessoas, achando-se com direitos demais sobre elas, pelo que pôde ver. — Bem... Obrigada pelas roupas.
– Espere um pouco, eu queria falar com você. — Vi deteve-se antes de começar a andar para fora dos aposentos de Miss Fortune. — Não se sinta obrigada, se achar que precisa ir...
– Do que se trata?
– O acordo que eu mencionei quando conversamos assim que você entrou no navio. Naquele momento estávamos todos agitados demais para conseguir fazer qualquer coisa com clareza... — refletindo por um instante, a enforcer assentiu com a cabeça e decidiu ficar para poder acertar aquilo de uma vez por todas e ver como as coisas seriam até que ela estivesse de volta a Piltover.
– Justo. É bom que essas coisas se resolvam o quanto antes. — ao ouvi-la, Sarah Fortune teve um pequeno pressentimento negativo. "As coisas não vão se resolver assim tão fácil, Vi..."
– Ótimo. — sorriu, voltando para seu divã — Pode se sentar se quiser. Você bebe?
– Vou aceitar um pouco... Eu acho que mereço isso depois dessa confusão toda...
– Sim... Um momento de descanso para todos. Aqui o seu.
Sarah encheu as taças com gin puro de uma garrafa antiga e serviu uma delas a Vi, que apenas tomou o copo nas mãos sem ainda beber nada. Querendo ou não, era melhor desconfiar de tudo até que tivesse alguma certeza de quem eram aquelas pessoas. Miss Fortune, por outro lado, bebia despreocupadamente, porém sem deixar de lado a elegância usual. Vendo que a outra não baixava a guarda por nada, a ruiva sentiu certo incômodo. Costumava ser muito simples aquele jogo. "Ora, foi você mesma que disse que queria um desafio dessa vez, Sarah Fortune. Trate de parar de espernear como uma criança mimada!" dizia a si mesma. Por fim, decidiu que seria melhor primeiro fazer com que a demolidora se sentisse um pouco mais confortável. Talvez assim conseguisse ganhar aos poucos sua confiança...
– ...Afinal, o que você fazia em Ionia quando eu te encontrei no meio daquela confusão toda?
– Isso é uma questão complicada... — ela suspirou discretamente, como se não soubesse por onde começar a contar aquela história toda... — Tivemos problemas em Piltover, e então me trouxeram pra Ionia em segredo... Eu precisava da ajuda da Soraka, e ela... Bom, ela me salvou, realmente. Mas então surgiu outro problema: sair de Ionia, já que tem agora todo aquele rolo com Noxus comandando a costa...
– E vocês iam tentar entrar de gaiato num navio.
– Eu ia. Soraka não precisava fazer isso, mas ela quis ajudar. O problema é que as coisas deram errado e... e agora tá essa merda. — ela concluiu com uma expressão cansada, "a vida como ela é". Silêncio.
– ...Eu sinto muito. Não conheci a maga, mas pelo que você diz, devia ser uma boa pessoa.
– Eu também não a conheci direito, mas com algumas pessoas é simplesmente assim: você não precisa conhecer elas a fundo pra saber quem são... Ou quem vai ser seu amigo ou não... Uma hora você simplesmente sabe.
– Humpf, é uma forma de se ver as coisas...
– Não costuma confiar nas pessoas, Miss Fortune? — Vi pegou-a com um tom sarcástico e um sorriso debochado. Sarah de repente se armou contra aquilo; que é isso? Quem faz as perguntas e constrange as pessoas aqui sou eu!
– E o que você tem a ver com isso, ô, menina do esfregão?
– Haha! Nada... ... ...Só é engraçado pra alguém que parece tão segura de tudo...
– Bah, isso não tem nada a ver com segurança! É só uma questão de bom senso; você teria um pouco mais dele se tivesse que tratar com quem eu trato.
– Aham, tá, ok. Eu nem ganhei uma cicatriz na cara por causa disso.
– "Ui, como ela é durona!"
– Você nem me viu derrubando sozinha metade daqueles caras!... Foi magistral.
– Não vá ficar convencida...
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