Piltover's Finest

24 Capítulo 22 - Espólios de Guerra


Notas iniciais
As forças que suportam ainda a paz instável de Ionia aos poucos desgastam-se enquanto os campos secam, as muralhas caem... Esperança é o bem mais raro e mais cobiçado dentre os ávidos sobreviventes, mas esta apresenta um preço cada dia mais caro e mais aparentemente impossível de ser pago... ...Hora de buscar reforços.

Numa paisagem devastada pela guerra, um campo aberto onde uma vez houvera uma cidadela e vida pulsante e onde agora restara apenas um imenso descampado com ruínas decadentes de casas, dois camponeses caminhavam num silêncio mórbido entre eles. Observavam com atenção a vegetação amarelada, seca, indicando sua morte iminente, e pensavam o quanto ainda durariam se as sementes que plantaram tão esperançosamente não viessem nunca mais a germinar...

A batalha ali fora dura.

Dura não pela violência, mas justamente pela resignação das vítimas.

Quando os primeiros rumores de que Ionia estava sendo atacada chegaram à província mais próxima às florestas, já um sentimento brando de aceitação instalara-se entre as pessoas. "Violência trará apenas mais violência" rogavam os monges, dispostos a morrer se fosse para preservar a paz de Ionia. É claro que imaginavam antes tentar abrir um diálogo com as tropas. "Runeterra é grande o suficiente para abrigar todos que nela habitam. A Natureza, sábia, reserva espaço e recursos para que tudo no mundo possa crescer, se desenvolver e seguir seu fluxo, como deve ser. É preciso apenas saber dividir..."

...Mas as espadas noxianas não têm ouvidos.

Os dois homens vasculhavam um pedaço de terreno próximo dali, onde a terra estava visivelmente revolvida. Procuravam algo. Em meio à busca, alguns dos pertences deixados por aqueles que morreram injustamente na guerra eram encontrados em meio à terra seca, encobertos por poeira e cinzas. Um dos camponeses tomou nas mãos um adorno de cabelo feminino, sujo e quebrado. As manchas de sangue lembravam o terrível dia em que as tropas chegaram à cidade e imediatamente começaram o massacre sangrento sem remorso: o metal frio decapitava quem quer que surgisse em sua frente. Camponeses incautos, preocupados apenas com seu trabalho nos campos, sequer viram os cavalos e tropas chegarem, pisoteando a lavoura, atravessando com lanças o coração dos trabalhadores, espalhando horror independente de idade, sexo... Matavam, torturavam, estrangulavam inocentes absolutamente sem se importar, atearam fogo nas plantações e atearam fogo em pessoas.

Quando o terror alcançou o coração da província, havia quem estivesse pronto. Haviam aqueles que enfrentavam a vontade dos monges de manterem-se inertes; pessoas que compreendiam a injustiça da carnificina e a necessidade de lutar, mesmo que isso ferisse a aura de serenidade ioniana...

Uma jovem monja entendia a vontade dos velhos sábios... Mas não ia deixar que investidas brutais e covardes como aquelas varressem tudo e todos que ela conhecia e amava. Eles não podiam! Então a jovem monja, num último ato de bravura e abnegação, entregou sua vida aos deuses em troca de proteção a Ionia...

Mas não terminaria assim.

Numa explosão de puro poder, a monja voltou a levantar-se com um ímpeto flamejante emanando através das chamas verde-azuladas que crepitavam vigorosamente a partir de seu corpo, envolvendo-a numa aura divina que fora vista desde o altar do templo até o fim dos campos já dizimados.

A monja se sacrificara por proteção. Os deuses são sábios.

Seria ela, então, a força inextinguível que protegeria Ionia.

Liderando com sábias palavras os sobreviventes que se recusavam com todas as forças a morrer sem antes lutar por suas vidas, Karma seguiu diretamente para o centro do fogo da batalha, protegendo os pacíficos ionianos que mal sabiam se defender, arrasando as tropas noxianas que ousavam se aproximar da cidadela, punindo-os por todas as atrocidades que cometeram e dando de volta aos desprezíveis soldados de Noxus apenas justamente aquilo que eles causaram.

"Ninguém pode fugir de Karma."

...Cessada a guerra por aqueles lados, a aura assombrosamente flamejante que envolvia a monja apagou-se. Seus olhos, que emitiam um ofuscante brilho branco, voltaram à sua cor castanha original, e tudo voltara à relativa normalidade... Mas Karma estava viva. E seu nobre sacrifício lhe rendera poderes inimagináveis sob a bênção dos Dragões Gêmeos, símbolo da força espiritual e sabedoria de Ionia. E sua nova missão estava agora marcada sob a forma dos dois dragões que flutuavam em círculo atrás de suas costas, condecorando-a oficialmente com a maior honra que um ioniano poderia alcançar e designando-a como a nova líder daquele povo e daquela região.

– Perthus! — um dos camponeses gritou ao outro, animado. O outro correu até ele com ansiedade, e então observou o que ele mostrava. — Um broto, Perthus! Um broto! Talvez logo consigamos voltar a plantar, meu amigo! — a simplicidade do rapaz ao sorrir, repleto de uma felicidade humilde e tão pura, era ao mesmo tempo um quadro belo e triste...

Os dois homens riram como se tivessem encontrado um tesouro ou o segredo da felicidade, e então um deles tirou da bolsa que levava um pequeno saco de estopa fechado com uma corda fina. Sementes. Ele desfez o nó, enquanto o outro já arregaçava as mangas e começava a sondar a terra, prepará-la para mais uma tentativa de plantio.

Entretanto, enquanto os dois camponeses trabalhavam concentrados num dos poucos pedaços de terra que não havia sofrido tanto com as queimadas durante o ataque, dois soldados noxianos surgiram, fazendo sua ronda pela região a cavalo...

Um dos rapazes viu os cascos negros do cavalo pararem à sua frente, quase pisoteando suas mãos que trabalhavam na terra. Ele olhou para cima; o cavalo com o soldado montado, imponente, olhando-o com superioridade e desprezo... O rapaz ioniano fechou as mãos com força.

– Você, ioniano.

– O que você quer? — o jovem se segurava, mas no fundo desejava socar o soldado.

– O que é que estão fazendo aí? — o rapaz calou-se. -Você não tem língua, seu idiota?! — ele começava a sentir seu rosto quente, mas lembrava-se do que Karma havia ensinado assim que os sobreviventes conseguiram fugir e esconder-se, começando a formar uma nova vila. "Há uma hora certa para levantar-se e lutar. Mas há também o momento de manter-se calado." — RESPONDA, SEU...

– Plantando, senhor! — o outro ioniano respondeu imediatamente, sem pensar duas vezes, antes que o soldado se exaltasse e decidisse fazer algo contra o rapaz.

– Você disse "plantando"?

– Nós... estávamos...

– O que é isso agora?! Essa província havia alegado não conseguir produzir mais nada! Disseram que o povo passava fome, pediram que Noxus suspendesse a demanda de grãos e minério por estes lados, e agora vocês me dizem que estavam PLANTANDO?!

– Vocês não dão espaço sequer pra nossa subsistência!!

– CALADO, MOLEQUE INSOLENTE! — o soldado bateu com o chicote que usava em seu cavalo na boca do rapaz que, indignado, se levantava contra a força opressora de Noxus, fazendo-o cair no chão com um grito de dor e um fio de sangue escorrendo do vergão vermelho que formara-se em seu rosto. O homem mais velho veio a seu socorro.

De longe, uma figura escondida em meio às ruínas de uma construção próxima assistia à cena concentradamente... Estava a vagar pelos campos destruídos até ouvir os passos dos dois camponeses, indo então esconder-se nos escombros do antigo vilarejo, mas o observador percebeu no horizonte algo que os camponeses não haviam visto.

Conhecia bem aquele emblema nas ombreiras das armaduras.

Comando de Noxus.

Decidiu então manter-se em seu esconderijo, porém prestando interessada atenção no que acontecia. Seus dentes se cerraram com força quando o chicote atingiu o rapaz.

O soldado no cavalo continuava a praguejar contra os ionianos , acusando-os de sonegação de impostos e anunciando que o caso seria levado à administração para que toda a província fosse julgada caso não pagassem os devidos tributos à cidade-Estado que se impunha ali.

– BASTARDOS! Noxus estava colaborando com sua província imunda, até mesmo fornecendo suprimentos, E É ASSIM QUE RETRIBUEM?! VOCÊS TERÃO QUE PAGAR O ATRASO DE TODOS OS IMPOSTOS QUE DEVEM, SEUS CÃES MENTIROSOS!

– Senhor, eu juro pela minha própria vida, nossa gente está sufocada! Nós não temos verdadeiramente nada a oferecer para Noxus; com o que vamos pagar?! — o mais velho suplicava, ajoelhado, amparando o rapaz que caíra.

– Hum... — o soldado observou o único broto verdejante que crescia no meio de tanta morte. Bateu as rédeas do cavalo, conduzindo-o até a plântula... POF! POF! POF! POF! POF! POF! ...e o cavalo, furiosamente, pisoteou o único broto de esperança que aquelas pessoas encontraram. — ...considere isso a primeira parcela.

O homem virou-se com o cavalo e, junto ao outro soldado que o esperava, começaram a partir, quando o rapaz, convulso de fúria diante de tamanha demonstração de desrespeito e desprezo, levantou-se com força, pegou a maior pedra que encontrou no chão e atirou contra a cabeça do soldado.

– Prepotentes, MALDITOS!

TAC!

A pedra acertou de raspão o elmo do soldado, fazendo com que levasse a mão à cabeça com a dor do impacto... Mas então, colérico, o soldado girou o cavalo com violência e galopou à toda velocidade em direção ao rapaz, com a espada desembainhada...

– SEU VERME CRETINO FILHO DE UMA...

– RÁÁ!!

Tão rápida quanto o vento, uma figura confusa e esvoaçante surgiu em frente ao rapaz, aparando incrivelmente habilmente o golpe fatal do soldado com algo que parecia ser uma estranha espada.

Fora como se o tempo tivesse parado por alguns instantes e o rapaz conseguisse ver a cena à sua frente em câmera lenta: o estranho, com uma capa longa com capuz, estragada devido ao intenso uso, o tecido esvoaçante devido à velocidade quase impossível de sua investida, uma espada imponente, de folha larga, muito embora não conseguisse observá-la direito, as faíscas saindo como pequenos trovões das lâminas que se encontravam ali, com fúria, o susto do cavalo que se reclinava e a expressão surpresa do soldado ao ser enfrentado por um ser... tão... inexplicavelmente hábil.

– IAAAA! RÁ!

Com rapidez e uma determinação ferrenha, a figura encapuzada avançou sobre o soldado, fazendo com que o mesmo quase tivesse uma fratura óssea ao tentar aparar um golpe de sua brutal lâmina e desequilibrando-o de modo a levá-lo ao chão. Num misto de ódio e receio, o homem levantou-se e colocou-se em posição de luta.

– Ha... HÁ! ...você pensa que vai meter medo em alguém, seu merda?

Sem dizer palavra alguma, o estranho avançou novamente, empurrando o soldado com força descomunal a cada golpe que desferia... Aos poucos, o camponês pôde observar algo interessante... era como se... como se o misterioso lutador começasse a crescer na batalha, enquanto sua espada emitia um fraco, porém crescente brilho esverdeado...

Lutando com toda a garra, porém pressentindo sua perigosa derrota iminente, o homem quase teve seu tronco dividido ao meio se não tivesse sido rápido o suficiente para segurar aquele golpe tão pesado e próximo de si com sua espada. Neste momento, os dois lutadores ficaram extremamente próximos, e então o soldado olhou rapidamente para dentro do capuz...

O estranho percebeu.

– AAAAAAARRRRGHHH!!!

Numa explosão de força, empurrou o homem para longe com sua espada, fazendo-o aterrissar dolorosamente metros adiante. Ao virar-se para se levantar, o soldado viu a figura misteriosa colocar-se em posição de batalha novamente, um ânimo poderoso e incansável. Repleto de medo, tendo visto que seu amigo já fugira há tempos, ele apenas levantou-se atrapalhadamente, já correndo para longe da região até perder-se de vista.

O estranho ficou parado, ainda em posição de combate, mas hesitou em seguir o soldado. Baixou sua guarda e ficou observando-o no horizonte até que sumisse...

– ...M-muito obrigado. Quem é você?

O estranho, saindo do breve devaneio em que se perdera, apenas virou o rosto rapidamente para o lado, dando a ideia de ter ouvido aquilo, porém não se identificou, nem mostrara seu rosto ou qualquer coisa que desse alguma vaga pista de quem era ou o que fazia ali... apenas correu, sumindo de repente da paisagem.

O rapaz observou a tudo aquilo, ainda estarrecido.

– Vamos, temos que voltar à vila... — o mais velho disse, recolhendo o saco de sementes esparramado no chão e colocando-o na bolsa com um olhar entristecido ao observar a muda pisoteada insensivelmente pelo cavalo...

...Quando os dois camponeses saíram finalmente de vista, a pessoa de capuz deixou novamente o esconderijo entre os escombros em que se abrigara. Vendo as sementes espalhadas no solo, afundou uma com o dedo e então cobriu-a com um punhado de terra. E voltou a vagar pelo campo com seus pensamentos.

~¨~

– Desgraçada! — POF! Um soco impiedoso em seu estômago já ferido. Só o que conseguiu, sem nem poder dobrar-se, foi expelir o ar num silvo agonizado. Gotas de sangue de um dos muitos ferimento em sua boca e dos ferimentos que escorriam em seu rosto timidamente saltaram junto. — Achou que pudesse se safar? Haha... ACHOU QUE PUDESSE ZOMBAR DO EXÉRCITO NOXIANO?! — outro soco raivoso, antes mesmo que ela pudesse recuperar a respiração após o último golpe. Aa... AAGH! O... ar... sumia... — Vocês não passam de um bando de parasitas desprezíveis, a MERDA dos vermes que vivem na merda; vocês não são NADA! — ele puxava o cabelo dela para cima e para trás com um ódio imensurável, e gritava em sua cara, muito próximo ao seu rosto, e respingos de saliva em meio àquela tortura iracunda salpicavam seu rosto e misturavam-se ao sangue sem que ela pudesse fazer nada. Perdera o ar... e ele não voltava. — O que é que foi, sua bruxa ioniana de bosta, hein? Não vai responder agora? Não vai dar uma de sabichona e LUTAR AGORA?!! — ele vira o ferimento do lado do corpo dela, um enorme talho aberto a espada, e enfiara o nó dos dedos ali, apertando e revolvendo a carne com força e deliciando-se ao ver a mulher contorcer-se de dor e começar finalmente a gritar, recuperando de repente o ar à sua volta e tentando inutilmente conter os berros tenebrosos de dor que rezava para se extinguir, querendo lutar contra o desprezível soldado da única forma que podia agora: negando-se à rendição.

– ...uugl... uuAAAAARRGH!!!! — ela expelia todo o ar... seu corpo ardia... e ela tentava segurar-se firm...

– As, este éseu único argumento agora, vadia roxa? Onde está toda aquela lábia? Toda aquela "coragem"? — ele pegou um copo de água sobre a mesa. — Você tem sede, cachorra? — ele bebeu a água na frente dela... mas segurou um último gole na boca, bochechou... e então cuspiu tudo no rosto torturado e quase irreconhecível da abandonada Filha das Estrelas. E, então, o homem ria... Ria como o próprio diabo da desgraça de alguém absolutamente impossibilitada de defender-se. ...Aquilo era DEMAIS para ela.

– Voc... vã... pgr... AGH! ...pagr... por... todo...

– O que você disse, verme? Não posso te ouvir com essa boca torta e inchada...

Vocês vão pagar por todo o mal que fizeram.

Ela falou com uma convicção tão notável e ar tão grave que, por um instante, as sombras ao redor daquela masmorra mal iluminada pareceram crescer em direção ao capitão da guarda noxiana, e o homem, de forma sinistra, sentiu um calafrio acometer-lhe subitamente, fazendo eriçar seus pelos da nuca e dos braços. ...bruxa maldita, imunda! Frente àquele terror que subitamente pegara-o de surpresa, ele tinha que ser maior, pior, e mostrar de uma vez por todas quem estava no comando da situação.

O soldado, agora cheio de uma ira definitivamente mais sombria que o mais terrivelmente enlouquecedor dos pesadelos, caminhou rápida e furiosamente até uma mesa no canto da masmorra onde jogara o cetro da feiticeira com desprezo quando chegaram. Ele tomou o bastão com uma meia-lua nas mãos e voltou à prisioneira com um olhar terrivelmente... sádico.

...céus... céus. Ao perceber o olhar doentio do homem e sua intenção horrenda, Soraka começou a desesperar-se e debater-se contra a parede, mas suas mãos inutilmente estavam presas a grilhões fixados por curtas correntes na parede, acima de sua cabeça, de forma que debater-se não ajudasse em absolutamente nada. Olhou ao redor, mas nada dentre aquelas pedras velhas e manchadas de sangue poderiam lhe ajudar. Ela arfava desesperadamente agora, enquanto o capitão se aproximava lentamente, deleitado com aquela agonia sufocante de sua prisioneira. Ao vê-lo aproximar-se, a feiticeira raspou os cascos no chão, tentando, ao máximo, recolher-se para longe dele. Porém, atrás dela, havia só aquela maldita parede, reta e inflexível, impedindo-a de qualquer movimento.

– Sua aberração maldita; é tão estranha que nem pra prostituta serve. — ele cuspiu no chão próximo a ela. — Eu nunca comeria algo como você... mas ainda posso me divertir com o seu sofrimento de algumas formas... — o riso rouco e amarelado que ele deu era nojento, e quando o capitão da guarda noxiana girou o cetro da feiticeira em suas mãos, o estômago desta revirou-se fortemente. — E então, bruxa? Já se divertiu alguma vez com o seu "bastãozinho"? Vamos ver se você adivinha quantos centímetros ele tem, sua...

No momento em que ele agarrou uma das patas da prisioneira com violência e preparando-se para um horrível ato de ódio, recolhendo o braço que segurava o cetro para juntar o máximo de força e destruí-la, uma figura surgiu no meio do lance de escadas e gritou, soberana e... indignada?

– SOLDADO!!!!!

O homem, imediatamente, petrificou-se e seus olhos, pasmos por ter sido pego, arregalaram-se assombrados com aquela voz gritando em toda sua potência.

– O QUE É ISTO?! FORAM ESSAS AS ORDENS QUE EU TE DEI?!! — ela caminhou rapidamente até o capitão da guarda, com fúria. O homem deixara a prisioneira e levantava-se, virando para sua superior.

– General... como... como entrou aqui? — apesar de seu tom surpreso e inquisitivo, o capitão não parecia nada feliz com a intervenção da General no comando da colônia, mademoisele DuCoteau.

– Eu venho à prisão interrogar a feiticeira ioniana e só o que eu ouço são... gritos. Terríveis. E agora isso!

– General, eu sugiro amigavelmente que a senhorita saia daqui...

– Eu acho que você não entendeu direito, capitão... Ou está surdo? QUAIS FORAM AS ORDENS DADAS?!!

– Que a feiticeira capturada fosse trazida à prisão para interrogatório prévio pela representante do governo de Noxus na colônia, de onde seria então levada à capital para aguardar julgamento. — o homem recitara cada uma das palavras da general como se tivesse acabado de ouvi-las, mas o fazia com os dentes cerrados e as mãos fechadas em punho, claramente contrariado. "Dane-se como se sente; ordens foram feitas para serem cumpridas."

– Ótimo, capitão. Que bom que todo seu aparelho auditivo e cognitivo está funcionando apropriadamente. Agora, da próxima vez, cumpra estritamente o que eu te mandar, sem nada mais e definitivamente nada menos, soldado.

Ela falava com propriedade e tal ausência de sentimento além da raiva pela desobediência, fazendo questão de designar o lugar primordial do capitão e de qualquer outro militar noxiano — soldado; com ênfase em cada sílaba­– para que não se esquecesse que, acima de qualquer coisa, era dever deles cumprirem ordens exatamente como foram passadas por seus superiores. Ao menos fora o que ela aprendeu forçada e impiedosamente em seu treinamento no exército, sem espaço para erros ou qualquer humanidade.

– Mande um grupo para transportá-la ao navio assim que eu terminar o interrogatório... Se é que eu conseguirei fazê-lo nesse estado da prisioneira... Dispensado. — o capitão fez uma continência e deixou a masmorra sem mais um piu. Katarina observou bem a feiticeira antes de puxar uma cadeira e começar. — Nós já entendemos o porquê de você ter criado toda aquela confusão desde a entrada da colônia até a beira do porto. Estava tentando ajudar sua amiguinha, que entrou clandestinamente na ilha, a sair dela debaixo do nosso nariz... Sim, ela conseguiu fugir com a ajuda daquela piranha ruiva do mar, mas as duas estão agora dentro de um triângulo de fogo com a costa de Ionia controlada por Noxus, Bilgewater tomada pela escória dos piratas e a própria capital noxiana no meio de seu caminho para o continente... Uma hora cruzarão seu barquinho com nossos galeões de guerra; elas por enquanto me importam menos do que nossa situação aqui na ilha. Agora, me responda, Soraka... Desde que a clandestina entrou na ilha até que a deixasse naquela fuga desastrosa... Algum governante ioniano teve um dedo nisso? — a feiticeira olhava para ela com o único olho que ainda conseguia abrir ao menos pela metade, mas sua boca fechava-se com determinação num arco de pura indignação. — ...Deixa eu reformular a pergunta caso precise ser mais clara: Irelia sabia alguma coisa disso?

Soraka iria responder alguma coisa... Não o que Katarina queria ouvir, mas ia dizer algo. Entretanto, ao tentar o menor esforço para responder-lhe, engasgou-se com algo e começou então a tossir violentamente, primeiro de forma contida, mas depois teve que colocar aquilo que raspava sua garganta, sua boca toda, para fora. Sangue misturado a saliva era borrifado a cada movimento bruto de seu corpo tentando expelir o ar desesperadamente. Seu corpo dobrava-se para a frente com a força de cada contração absurda que seu pulmão forçava... Céus, céus, não, aquilo era o inferno... Todo seu corpo doía terrivelmente, tudo ardia e raspava, machucando... Tudo queimava. "Deuses... Se tudo isto for para que eu não volte mais a Ionia, me matem, por favor!..."

A general noxiana observava aquilo com algum espanto. Já vira milhares de pessoas morrerem na guerra, das mais diversas formas, com os mais diversos requintes de dor... Mas devia admitir que suas missões em nome de Noxus foram sempre em campo e, apesar de demonstrar ser uma soldada e líder formidável, era sua primeira experiência administrativa em nome da cidade-Estado... ...Era a primeira vez que acompanhava de perto o que acontecia numa masmorra antes de um "julgamento noxiano", como era famoso ouvir dizer...

– ...Pelo jeito não há mais nada a ser tirado de você. — constatou friamente, vendo aquele espetáculo de agonia e sangue com repulsa. Chamou pelos guardas que esperavam do lado de fora, para que levassem-na de uma vez por todas ao navio que partiria para Noxus ainda naquele dia.

Após enviar uma mensagem-relâmpago inesperada para Piltover, Irelia viu-se completamente aflita em meio a todos aqueles acontecimentos, absolutamente atordoada e sem conseguir pensar por onde começar a correr atrás para reparar as coisas... Aquilo era... Aquilo era tão desgastante e pavoroso! Dentro de si, contudo, urge uma necessidade irrefreável de cavalgar até a costa de Ionia, o mais rápido possível...

"Soraka... Eles têm a Soraka; o que vão fazer com ela?!"

Não se arrumara, não trocara de roupa ou limpara-se desde que Katarina havia deixado sua casa. Alaryn encontrara-a num estado de completa inércia, remoendo as palavras da general de Noxus num silêncio austero mortal... Mas então o choque com a realidade e o perigo das ameaças latentes que sofria estando sua província tão próxima do território tomado por Noxus, aliados ao fardo de suportar sozinha todas as agruras pelas quais passava seu povo e pela incerteza de se algum dia veria novamente seu irmão, foram, num ponto, demais para que Irelia aguentasse sem expressar nenhum receio... A governanta chorara copiosamente nos braços de Alaryn sem conseguir dizer uma palavra sequer. O nobre empregado, preocupado, tentava imaginar o que teriam feito a sua senhora para que ficasse daquele jeito, para que sucumbisse de uma forma que o homem nem ninguém na província jamais havia visto...

Já gastara tempo demais! Precisava agora era disparar para a costa para tentar ver Soraka.

– Coloquem-na em algum lugar com alguma segurança; eu quero que ela chegue viva ainda em Noxus... — Katarina orientava seus subalternos enquanto carregavam a mulher pela cidadela, da prisão ao porto onde aguardava o navio. Um pequeno grupo de soldados distribuía-se na frente e aos lados do cortejo. "Afastem-se! Abram passagem para a guarda! Prisioneira passando! Afastem-se!" Gritavam com indiferença em sua vozes fortes e inexpressivas, abrindo caminho para que a prisioneira arrastada por dois soldados e junto à administradora da colônia e outro oficial passassem em meio ao público. Sim, pois aquilo não era somente uma procissão da cadeia até o porto... Aquilo era um exemplo aos que atentassem contra a soberania de Noxus naquele lugar. Soraka não conseguia reunir mais força nenhuma. Sua pernas não firmavam-se no chão e seus braços não ofereciam qualquer resistência, e então era arrastada sem nenhum cuidado pelas ruas sujas... A cabeça pendia flácida para baixo, e ela beirava a inconsciência... Talvez já estivesse lá, não fosse o distante sentimento de vergonha e profunda tristeza que sentia ao ser exibida como um troféu de caça... Mais uma vez.

Irelia adentrou a cidade com desespero, quase ignorando a vigia noxiana que guardava a passagem de forasteiros e pisoteando-a com seu cavalo, mas não podia permitir-se falhar mais uma vez principalmente agora, que definitivamente não estava em seu território.

– Aqui meus documentos; Irelia, governante da província... — entregava papeis que levava consigo, afobada, querendo correr logo dali! Rápido liberaram-na e ela imediatamente voou com o cavalo mercado a dentro... Mas o animal era grande demais para aquele espaço e montá-lo apenas atrasaria-a mais ainda. — Com licença! Licença! — desceu do animal e começou a rasgar o caminho entre as pessoas a cotoveladas. À frente, para aumentar sua angústia, ela vira um dos grandes navios que ia para Noxus, pronto para sair do porto...

– CUIDEM PARA QUE A PRISIONEIRA CHEGUE VIVA! ORDENS DA CAPITAL! — a ruiva reforçou aos guardas que já terminavam de subir a rampa que levava ao navio, arrastando a prisioneira exânime, completamente ensanguentada, consigo.

– Não... NÃO, NÃO A LEVEM! PELOS DEUSES, ISSO É UM ERRO! NÃO!!! — Irelia captara no topo da embarcação um ligeiro vislumbre daquela imagem horrível de Soraka quase... quase... ! — SOLTEM-NA! VOCÊS NÃO PODEM LEVÁ-LA DESSE JEITO, NÃO!!

Katarina ouviu os gritos ao longe aproximarem-se com uma velocidade aterradora e sorriu ao reconhecer a voz daquela rival tão soberana agora implorando a Noxus... Virou-se apenas para contemplar o desespero, a aflição pura com que a governanta ioniana vinha, suja e desmazelada, correndo como uma criança perdida em direção ao navio.

Irelia passou por ela direto, sem sequer parecer vê-la. A noxiana continuou seguindo a corrida da outra com o olhar... Não teria tempo... Droga, droga, ELA NÃO TERIA TEMPO!!!! Por mais que corresse com todas as suas forças, Irelia via a rampa de acesso à embarcação ser recolhida... A âncora terminar de ser levantada... O navio começando a distanciar-se do porto aos poucos...

– NÃO!!! NÃO!!!!!!

...Tarde demais.

Parara de repente, ofegante, no último centímetro de terra firme onde poderia ir. ...Não tinha mais como continuar... ...Era isso. Ela parada, derrotada, agora definitivamente incapaz de fazer qualquer coisa que ajudasse sua tão querida amiga, caída ali, ofegante, num porto a ver o navio se distanciar...

Não...– deixou-se cair sobre seus joelhos, exausta.

Ao fundo, Katarina observava aquilo com frieza, mas pôde esboçar um discreto sorriso ao ver a governanta da província vizinha caída ao chão...

"Logo, mais uma vitória para Noxus..."

~¨~

O Sol batia exageradamente quente em seu rosto exposto, mas os respingos gelados da água do mar refrescavam a pele e, junto ao vento, traziam uma sensação impagável da mais pura liberdade que um ser pode experimentar na vida. Ficara desconfiada com o acordo que Miss Fortune havia lhe proposto quando conversaram em seus aposentos no dia anterior: Vi não tinha nascido ontem e manjava das artimanhas dessas pessoas quando queriam alguma coisa, e Miss Fortune tinha feito um daqueles acordos exageradamente gentis que acabam cobrando muito mais do que o suportável no final... "Façamos assim, Vi: eu, por enquanto, não estou precisando de nenhum serviço imediato que você possa cumprir. Você também não tem nada de valor consigo para que eu possa clamar como meu. Então, um acordo entre damas honradas: você fica me devendo um favor e, quando eu precisar, você me ajuda. Justo?"

Não, não era justo, porque o preço final seria muito maior que os juros sobre qualquer dívida que acumulasse. Sempre era. Contudo, um desejo muito maior que si mesma impelia a mulher de Piltover a assumir sozinha os riscos daquele jogo. "Você viveu assim, garota. Não tem canalha com quem você não consiga lidar mais tarde; só pega o teu recibo e some..."

Ela queria estar em Piltover. Não era apenas uma vontade de seu ser; com todas as suas forças, ela sentia que precisava estar em Piltover, o quanto antes. Não podia mais esperar. Mais do que a feição desconsoladamente triste que vira em Caitlyn quando a deixara pela última vez, ela sentia falta daquele sorriso sonolento no sábado de manhã, de dormir toda torta no sofá só para poder aconchegá-la melhor em seu peito, sentia saudade do vestido roxo, de sua pele, e de como ela dizia seu nome quando ia lhe dar uma bronca, toda nervosa, mas depois acabava rindo...

...Sentia falta da conversa no topo daquele prédio, só elas e as estrelas, a cidade minúscula abaixo das duas...

Suspirou enquanto amarrava as cordas no mastro principal, ajudando a tripulação a baixar as velas, e então escorou-se por um momento no parapeito de madeira, observando o oceano. O vento naquele dia quente em alto mar estava perfeito para a navegação, e Vi começara a aprender algumas coisas sobre a rotina do navio já que passaria ainda mais algum tempo ali. Muito melhor que passar o dia todo dormindo em algum canto no porão do navio; detestava se sentir encarcerada. ...Aquela liberdade fazia bem.

– CUIDADO! — uma voz fina bradou, alertando Vi, que ia virar-se para ver o que era aquilo, quando de repente viu uma coluna enorme de água se erguendo tremendamente rápido à sua frente e...

– AAAHH!

Ela gritou, afastando-se cambaleante para trás sem entender nada, quando Nami correu e se atirou em sua direção, caindo sobre ela e levando-a ao chão antes que o tubarão gigantesco que surgira do lado do navio fechasse sua boca enorme numa dentada fatal. De lá de baixo, da água, começaram a ouvir uma risada em tom quase infantil, marota.

– HAHAHAHA!!! Nami, você tinha que ter visto a sua cara e a da sua amiga! Foi HILÁRIO, HAHAHAHAHA!!!! AAI! — o jovenzinho estranho lá em baixo gargalhava com sua traquinagem, deitado e rolando de rir em cima do perigoso tubarão-dragão que encenara o ataque ao navio sob seu comando, mas então Nami, dobrando-se toda por cima do parapeito do navio, brava, esticou seu cajado e bateu com ele na cabeça do moleque, em repreensão.

– Fizz, você quase mata a menina de susto! Ela é nova no navio, não faz ideia de que o tubarão seja seu!

– Gente nova?! — ele deu um salto com uma destreza incomparável, girando no ar e apoiando-se no próprio casco do navio para dar um segundo salto para cima, então prendeu seu cajado numa das vigas de madeira do parapeito e puxou-se para dentro da embarcação. — Considere isso como um desejo de boas vind... BARBATANAS DE BALEIA; EU NUNCA VI UM CABELO ASSIM!

– Eu também não... Quer dizer; FIZZ!! — a sereia deu outra pequena cotovelada no rapazinho azul, para que fosse mais discreto, mas sabia que isso seria impossível. Era o jeito dele.

– Tudo bem, tudo... bem. — Vi dizia enquanto levantava-se, ofegante, os batimentos ainda acelerados e o rosto numa expressão claramente surpresa devido ao susto repentino de quase ser engolida por um tubarão. — Eu só preciso de um pouco de água... e um coração novo, se alguém tiver um sobrando...

– Nami, a MF pediu que eu viesse falar com ela. Onde ela tá?

– No primeiro andar, no quarto dela. Não apareceu no convés hoje, talvez devesse estar te esperando mesmo...

– Sim, talvez... Bem, vou ver o que é então. Até mais, Nami. Amiga da Nami. — despediu-se das duas e foi logo, com seu passinho engraçado meio saltado, tratar com a capitã. A sereia virou-se então para a tripulante do cabelo rosa, para ver como estava.

– Não liga, ele é assim mesmo, mas tem um coração ótimo! Agora pelo menos você sabe que temos um tubarão gigante ao nosso lado, isso é tranquilizante. — a moça meio-peixe dizia com sua voz naturalmente alegre e jovial, sorrindo para a outra que se recobrava. Ajudou-a a se recompor. — A propósito, acho que não nos apresentamos ainda. Eu sou Nami, a Conjuradora das Marés!

– Vi. — disse, apertando a mão da sereia... Engraçado, nunca imaginaria encontrar uma, achava que só existiam em histórias. — Hum... Uma sereia conjuradora de marés e um... ser do mar que tem um tubarão gigante de estimação... Conveniente; Miss Fortune sabe fazer amizades úteis pra ela.

– A capitã pode ser meio rude às vezes... Bom, muitas vezes, no caso, quando se trata de escolher apelidos... Mas eu e Fizz estamos na tripulação faz um tempo considerável e eu posso dizer: a amizade dela é sincera.

– Humpf... Eu sinto o cheiro de segundas intenções de longe, mais forte que peixe podr... — cortou a frase na metade assim que virou-se para a garota e lembrou com quem estava falando. Nami ergueu uma sobrancelha.

– Nós também temos motivos pra desconfiar de você; distribuíram por aí cartazes de procurada pedindo a sua cabeça...

– Sim, eu lembro... Espera. ...Eu lembro disso! É isso que a Miss Fortune quer então; a recompensa por me capturar?!

– Hum, não... Não faria sentido, senão ela já teria te levado pra Piltover. Aliás, retiraram a recompensa sobre você; você não está mais na lista de procurados. Por que fizeram isso, afinal?

– Caitlyn... — Vi sussurrou para si, começando a encontrar algum caminho pelo qual seguir para entender um pouco melhor como as coisas estavam funcionando agora... Voltou para Nami. — Foi um mal-entendido que nós finalmente tínhamos conseguido resolver. Mas aí a situação deu uma guinada... e eu perdi o caminho de casa de novo. — a enforcer riu, fazendo uma pequena piada daquilo. "Encontrar o caminho de casa; a história da minha vida.", riu para si mesma. Contudo, a sereia inesperadamente começou a rir também daquela situação, seu riso baixo e tão meigo... Vi até parou para vê-la rindo, céus, que criatura encantadora!

– Haha! Isso acontece; eu também perdi o caminho de casa quando saí para procurar a pedra lunar do meu povo. Às vezes eu me pergunto se sou mesmo a tal escolhida dos Marai, se vou conseguir mesmo encontrá-la um dia... Acho que eu não me perdi de verdade, eu só não quero voltar pra casa... e decepcioná-los. — neste momento, a menina cessou seu leve riso carismático, sentando-se sobre um barril e apoiando levemente seu cajado sobre o colo, numa expressão reflexiva. — Mas, sabe, Vi... Mesmo se eu não conseguir voltar pro lugar onde eu nasci... Eu sei que eu tenho uma casa. Uma repleta de amigos com quem eu posso contar... Com o tempo a gente descobre algumas coisas que vocês humanos dizem que são bonitas e são verdade: "casa é onde o coração está".

Vendo sua expressão e ouvindo o que a sereia tinha a dizer, Vi era capaz de imaginar aquele sentimento de segurança que a garota tinha ao se referir não ao navio, mas às pessoas que faziam parte dele. De fato, não é nada fácil deixar a segurança de sua casa, enfrentar o mundo, apenas para descobrir que sua jornada está apenas no início e que o caminho adiante até o seu objetivo pode ser muito mais longo do que se sonhava quando começou... Mas encontrar pessoas que te acompanhem neste caminho... Quem esteja a seu lado, te ajudando a lutar suas batalhas, ou simplesmente sorrindo quando você precisa de mais ânimo para continuar... Isso, mesmo que sem território geográfico, é uma casa.

– Bah, não esquenta, peixinha. Você ainda vai ser uma lenda contada por todos esses mares. — Vi deu um leve empurrão com o cotovelo no braço dela, piscando ao terminar de falar para descontrair a conversa e dar confiança à menina. Nami parecia que ia responder algo, quando Sarah surgiu no convés andando rápido, a passos duros, uma expressão fechada como se estivesse prestes a colocar uma bola de ferro num canhão e atirar no que quer que fosse... Subiu as escadas que levavam ao segundo andar do deque com uma determinação ferrenha, andou até um dos lados do navio e parou, segurando o parapeito polido com força, a postura reta, altiva, observando longe no horizonte como se fosse capaz de ver algo além de água por todos os lados... Vi observou aquilo desconfiada; não parecia uma ação muito típica da capitã uma vez que o rapaz do mar azulzinho a seguia em silêncio e que a sereia e alguns marujos também pararam pelo menos para olhar rapidamente o que acontecia... A enforcer então sussurrou para a sereia, sem, no entanto, desviar a atenção da expressão fechada da capitã. — ...O que acontece com ela, Nami?

A garota permaneceu em silêncio ainda alguns instantes, observando também Sarah Fortune como uma estátua séria no topo de seu navio.

– ...Ela não fala muito... Nem gosta que falem muito sobre isso... Mas lembra esse negócio de "casa" que estávamos conversando? ...O problema dela é um pouco maior que isso...

De repente, no meio de toda aquela tensão que instalara-se completamente silenciosamente dentro do navio, Sarah, quase que para espanto de todos, moveu-se e falou algo para Fizz. O rapaz assentiu com a cabeça e então, também inesperadamente, apoiou uma mão no braço de Sarah... E saltou para fora do navio. A capitã respirou fundo... Voltou a descer as escadas, entrou rumo ao seu quarto e novamente sumiu. De repente, era como se o tempo tivesse parado por alguns instantes, e então a vida voltara à sua completa normalidade no navio, como se nada tivesse acontecido.

Contudo, para Vi, algo certamente não havia voltado ao normal...

~¨~

– O soldado veio furioso com a espada pronta para acabar com a minha vida, mas então essa pessoa apareceu do nada! Do nada, como se fosse o vento, ou... ou... uma sombra, não sei. E enfrentou o soldado com uma maestria de luta... inimaginável. — o jovem ioniano parecia encantado com a própria história que contava — ...Se esse cara não tivesse aparecido... Eu não estaria vivo.

A governante da província passava por ali enquanto o rapaz contava o incrível acontecimento que presenciara naquele dia, e ouviu com significante atenção o relato, muito embora tentasse apenas passar despercebida pelo local. Vinha de uma região próxima onde estavam tentando construir um dique para amenizar o problema na dificuldade de obtenção de água em quantidade suficiente para retomarem o plantio. Ajudou-os durante toda a manhã e a tarde e estava exausta, porém, com esforço e a bênção dos deuses, já conseguia imaginá-lo pronto, com mais dois ou três aquedutos construídos. Aos poucos, a província iria retomar sua vida e dela, mais uma vez, iriam desabrochar o conhecimento, a beleza e a sabedoria, assim como as flores de lótus desabrocham nos lagos.

Karma dirigia-se ao templo no alto da colina, onde agora habitava oficialmente, mas também deixava-o aberto a todo o povo. Ionia precisava sentir que algo de si ainda restava de pé, resistindo às adversidades, assim como os ionianos deviam buscar resiliência. E aquele pequeno templo que restara por aqueles lados talvez fosse o único que ainda pudesse acolher às pessoas nos momentos em que precisassem de força e serenidade.

Ao atravessar as colunas esculpidas em mármore branco e adentrar a cúpula com uma sutil iluminação violeta — cor que inspira a calma e a reflexão — e uma grande lótus de contornos dourados desenhada aberta no chão, passando então para um local separado aos fundos onde fizera um espaço de trabalho e meditação somente para si, deparou-se, quase que surpresa, com uma figura sentada no parapeito da enorme janela, as costas apoiadas na pilastra de mármore, uma perna recolhida e a outra pendendo sobre o desfiladeiro do outro lado da janela, e o olhar perdido no céu, vendo a miríade que se formava no horizonte enquanto o Sol se punha...

– Não esperava te ver por aqui tão cedo. — disse a monja, colocando as coisas que trazia consigo sobre uma mesa. — ...Os aldeões têm falado de você. Uma figura misteriosa que surge às vezes do nada e resolve os seus problemas... principalmente quando os problemas forem soldados noxianos. — a mulher falava com um fundo de provocação, esperando que aquele ser talvez dissesse algo.

– O Comando está insistente com essa região. Suspeitam de algo ou conseguiram alguma informação sobre a província; isso deveria preocupá-los. — a pessoa de capuz finalmente se pronunciou, e então uma voz feminina jovial ressoou pelas paredes da sala fechada, embora ainda não mostrasse seu rosto, encoberto pelo capuz e voltado para a luz evanescente do Sol.

– Nós estamos atentos a isso... Quando os vilarejos foram destruídos e a batalha cessou, essa área foi abandonada para morrer sozinha. Mas nós encontramos formas de sobreviver. Construímos outro lar, escondido, onde conseguimos começar a nos reerguer aos poucos. Enquanto Noxus não souber a verdade sobre nós, que estamos aqui, estaremos protegidos. Mas não me surpreende que eles estejam procurando.

– Noxus tem o orgulho como um de seus maiores combustíveis e vocês o feriram onde mais dói: um adversário sem exército dizimando-os no campo de batalha. Não se trata apenas de política ou recursos, Karma; quando eles vierem cobrar seus impostos, não vai ser em grãos ou ouro. Será em sangue. — a mulher falava com veemência e virou-se com uma expressão verdadeiramente preocupada, como se os outros não entendessem a gravidade da situação como ela entendia. Mas Karma compreendia sim, mesmo que por outra óptica, o que ela queria dizer. Respirou fundo... De fato, o espectro agourento da guerra ainda os sondava, ela sentia isso no fundo de seu ser, mas desejava estar errada... "Talvez fora isso que os antigos sábios sentiram quando aconselharam o povo a não se preparar para a luta... Eles também não queriam que fosse real." Naqueles tempos, qualquer decisão a ser tomada era automaticamente uma decisão complicada...

– Estamos contando com a sorte, infelizmente... Quando éramos poucos sobreviventes, esconder-se era fácil. Mas agora vilas estão sendo reconstruídas; naturalmente, uma hora elas ficarão em evidência, não é possível esconder um vilarejo todo. E, por mais que eu tente treiná-los, existe um limite do que eu posso fazer... ...Seria positivo contarmos com a ajuda de alguém com mais experiência em campo.

A mulher ficou num silêncio gélido.

– ...Já tem sangue demais nas minhas mãos... ...Não preciso de mais uma centena de aldeões mortos num campo de batalha. — ela disse, levantando-se da janela e caminhando rumo à porta da sala.

– Sem sua ajuda, não serão centenas, serão milhares...

– E de que adiantaria vocês lutarem? É apenas uma província insistente contra todos os centuriões noxianos, e eles podem continuar enviando mais e mais do continente! Por que vocês simplesmente não fogem e buscam abrigo nas outras províncias, onde eles já têm acordos de cooperação estabelecidos?!

– Isso não os pararia ou faria que deixassem de ferir o nosso povo!

– Mas daria uma sobrevida maior a vocês...

A sala ficou num silêncio tenso, apenas a respiração da estranha, alta, se ouvia. Karma observava-a fixamente, uma presença e uma determinação fortes emanando de si. Precisava levar sua província em frente, mas precisava prepará-los também para os tempos de fogo que pudessem vir, e mesmo tendo sobre si os olhos divinos, queria poder contar também com a ajuda mundana daquela mulher.

A jovem guerreira retribuía aquele olhar perplexa. Eles não iam triunfar gloriosamente e reaver sua tão querida terra e tempos auspiciosos de paz se seguiriam. Não. Haveria apenas a guerra, apenas mais destruição sem sentido, apenas mais sangue, dor e ódio derramados... Não havia o que ganharem ali. Não haveria ideal para manter vivo se todos estivessem mortos. Como se a monja pudesse ler seus pensamentos, Karma falou, sábia e branda.

– Um ideal não é nada... até você lutar por ele.

A estranha respirou fundo... Mas então virou-se de costas para deixar a sala. Contudo, no exato momento em que seus dedos iam tocar a maçaneta para que saísse, esta mesma girou, puxada pelo lado de fora, e a mulher assustou-se; definitivamente ninguém podia saber dela ou de onde estava! Sem tempo para fugir ou de qualquer forma esconder-se, ela apenas correu para o canto onde ficava o altar pessoal de Karma, para sua meditação, jogou-se sobre a almofada, de joelhos, e dobrou-se como se estivesse prostrada, orando, com a capa longa e o capuz cobrindo-a e segredando sua identidade completamente. A porta se abriu.

– Karma, pelos céus... Preciso de sua ajuda.

A pessoa que adentrara a sala vestia uma enorme capa de montaria que cobria toda sua roupa, mas na abertura frontal do tecido, onde era possível ver o que vestia sob a cobertura, via-se a pele clara da mulher suja de lama e sangue, assim como suas vestes, que não tinham mais o luxo de quando as vestira agora que estavam completamente manchadas. Seus cabelos eram negros como uma noite sem lua nem estrelas, lisos e longos, e a estranha vira tudo isso através de um espelho próximo de onde estava.

Irelia chegara solene até a outra governante, entrando com rapidez sem, contudo, perder a compostura que deveria cultivar como líder de todo um povo em Ionia. Porém, em sua voz era perceptível um certo desespero que a tomava e torturava, crescente e constantemente.

– O que houve, Irelia? Suas roupas...

– A Escola do Transcendentalismo foi fechada a estacas e correntes por ordem da Katarina DuCoteau...

– Katarina DuCoteau... — a estranha repetiu inaudivelmente baixo para si mesma ao ouvir o nome.

– ...e Soraka foi capturada na colônia da costa pelo exército noxiano; disseram que vão levá-la para Noxus em julgamento, você sabe o que isso significa!!!

Karma arregalou os olhos levemente, recebendo com certo espanto aquilo que ouvia... A situação estava ficando pior mais rápido do que ela esperava e parecia que seus receios, aos poucos, concretizavam-se. Apoiou uma de suas mãos em sua mesa de madeira, pensando.

– Deuses... Tomaram um dos pontos vitais de Ionia... — passou a outra mão na testa, tentando clarear os pensamentos para conduzir melhor aquilo. — ...E a segurança de sua província, Irelia? Fizeram algo quanto a isso?

– Ainda não... Mas uma tropa esteve em minha casa quando a general veio ter comigo, expulsaram todos os empregados, montaram guarda... Os acordos que fizemos com Noxus não estão se sustentando, Karma; não com Ionia sendo estrangulada dessa forma... — ela parou quando sua voz começou a soar trêmula. Prendeu a respiração até conseguir fazer com que aquilo passasse. — Eu... ...Eu matei todo o grupo de soldados que estava selando as portas da Escola. Vinte homens, creio; com suas próprias espadas. Não pude controlar aquele ímpeto na hora em que vi o que faziam, e Soraka sumida; agora eles certamente virão tomar a província...

– Calma, Irelia... — a governante aproximou-se, colocando uma mão sobre o ombro da outra, tentando fazer com que ela a olhasse nos olhos... Mas então puxou-a para si e abraçou-a, uma vez que seu estado impediria, no momento, que prestasse atenção em qualquer coisa que a monja teria a dizer. Ficou em silêncio, apenas deixando que ela aliviasse aquele peso que trouxera consigo.

– Eu sei que não devia sucumbir assim às coisas que estão acontecendo, há pessoas que confiam em nós, mas minha província está em constante contato com a colônia; os olhos de Noxus que estão sobre Ionia focam-se principalmente em mim e está se tornando insuportável a pressão que fazem todos os dias, as injustiças, as ameaças!!! Não há acordo que vença nem alma que aguente, Karma, não há! — ela chorava o resto de toda aquela angústia que viera guardando consigo para não fraquejar diante das pessoas que governava ou diante dos colonos que desejavam vê-la cair, agora que estava distante de tudo aquilo e podia permitir-se uma trégua. Karma buscava dar apoio a ela para que conseguisse retornar à sua casa e prosseguir depois que aquele primeiro estouro passasse, mas ao mesmo tempo tentava pensar em alternativas para ao menos amenizar todos aqueles problemas até que estivessem razoavelmente preparados para qualquer coisa...

– Irelia, escute; preste atenção em mim agora: nós precisamos convocar os governantes das outras províncias e reunir a todos para transmitir essas últimas informações suas e juntos podermos pensar em como vamos reagir a essa situação, está entendendo? Só então poderemos reivindicar que soltem Soraka. Além disso... Mais do que nunca, precisamos de todos os povos trabalhando em conjunto, como um só, ou então seremos engolidos, um a um, como províncias fragmentadas do que um dia fora Ionia... — afastou-se dela, segurando seus ombros e olhando-a, tentando transmitir à governante sua amiga um pouco mais de tranquilidade. — Você está sobrecarregada. Mandarei imediatamente chamarem os outros líderes para que possamos começar a trabalhar nessas coisas o quanto antes. Enquanto isso, você fica aqui, longe da colônia, para que possa desanuviar sua mente e seu espírito um pouco; tomaremos como se tivesse sido a primeira governante convocada a chegar para a reunião. desfrute de tudo o que precisar, Irelia.

– Obrigada... — respondeu enquanto secava os olhos com a própria manga da roupa, que revelava-se então rasgada. Karma conduzia-a para fora, para indicar a alguém que arrumasse um lugar onde Irelia poderia se hospedar, quando a governante virou-se na direção da pessoa que estivera ali ao fundo o tempo todo e ouvira tudo e inquiriu. — E quem é aquela pessoa?

– Um aprendiz do templo. Não se preocupe. — dito aquilo, as duas saíram por um momento da sala.

A estranha levantou-se do canto em que estivera, finalmente, e sua mente estava tomada por lembranças de seus atos na guerra e pela cena que acabara de presenciar... Aquela mulher... Tão jovem quanto ela, tão bela, entrando desesperada na sala à procura de alguma ajuda, exausta, sofrendo... E ela tinha parte em tudo isso... Apertou os punhos cerrados com força. Mais uma de suas vítimas com quem se reencontrava agora, naquela ressaca infernal após o massacre, mas a primeira que viu chorar...

...o choro de Irelia ecoou em seus ouvidos e a imagem de quando chegara ficou estampada em sua mente...

A porta fechou-se.

Karma caminhou lentamente em direção a sua mesa, onde a mulher se encontrava de pé. Não sentou-se. Foi até ela.

– ...Você vê... Não se trata apenas de uma província desejando lutar à toa... Nós também desejamos, do fundo de nossos corações, que fosse possível que tudo se resolvesse em plena paz, mas esta paz que queremos, infelizmente, teve um custo alto colocado sobre ela... E agora é hora, Riven. Devemos todos tomar nossas decisões...

A lutadora tinha as mãos tensas. Pensava em todas as vítimas que fizera injustamente, todo o horror que liderara, disseminando-o pela ilha, até perceber que não fora pra isso que ela havia sido treinada... E o som das lágrimas daquela mulher de cabelos negros ecoou em sua mente mais uma vez...

Havia uma enorme dívida que ela agora conseguia ver, e que então estava disposta a sanar, se não por sua honra, ao menos para reparar toda a dor que infligira àquelas pessoas. Ionia demandava seu esforço.

"O meu espírito não está perdido..."

...

– ...Eles passaram dos limites.

Notas finais
"Either we heal now, as a team... or we will die as individuals." ~ Al Pacino