Pilares de Areia

14 You're everything I thought you never were


Notas iniciais
- Com mais tempo, escreverei notas dignas.

Naquele mesmo dia, resolvi agir.

Assim que Sasuke chegou da Anbu para ficar com Ichiou, eu já saí. Não dei uma desculpa, e ele também não perguntou. Apressei o passo para chegar ao centro de Konoha, mais especificamente à floricultura.

O sino adjacente à porta anunciou minha chegada. Encontrei Ino debruçada sobre o balcão com um tédio quase tangível. Quando me viu, exibiu um sorriso travesso como o de uma criança que esconde um segredo.

— Você por aqui? — Deu a volta no balcão para me atender.

— Sou uma cidadã de Konoha como qualquer outra que ocasionalmente vem comprar as flores que não cultiva nos próprios jardins — cheirei um lírio que estava próximo à entrada.

— E qual é a ocasião, se me permite saber? — indagou cheia de sarcasmo.

Quando refleti sobre que resposta dar, ela me ajudou:

— Há flores específicas para situações específicas.

— Bom, eu não tinha pensado nisso — admiti.

— Se for para ornamentar o jardim, sugiro girassóis; para a casa, violetas; para a varanda, lavandas; para lápides, crisântemos; para uma noite especial — diminuiu o volume da voz e tapou metade da boca. —, as rosas são um clichê, mas é uma flor infalível.

Ino riu da mesma forma travessa de antes. Suponho que eu tenha corado um pouco, eu não era tão aberta a esses tipos de assunto quanto ela. Além do mais, ela trouxe-me à tona algo que nem se passava pela minha cabeça nos últimos dias: minha vida sexual.

Embora nosso casamento estivesse em ruínas, Sasuke e eu ainda estávamos casados e ainda tínhamos desejo um pelo outro. Eu notava seu olhar demorado no meu corpo quando ele entrava no quarto para pegar alguma coisa, pegava-o acompanhando a trajetória das minhas mãos espalhando um creme hidratante ou vestindo uma camisola. Sasuke era de uma sutileza invejável, porém ineficaz para alguém com quem convive há anos e já conhece todas as suas expressões.

Admitia também que não estava sendo fácil subir as escadas sem olhar para o lado abaixo. Vê-lo afundando no estofado do sofá, o tórax desnudo e a parte inferior, um mistério. Contudo o orgulho era maior, um iceberg duro de derreter. A distância entre a cama e o sofá era um espaço que nenhum dos dois desejava diminuir.

— Se bem que, para o Sasuke, faria mais sentido dar-lhe uma Ibéria, um Lírio-Laranja... — Ino continuou falando com certo desdém. — Um Narciso! Sim, certamente um Narciso seria perfeito para ele.

Salva dos devaneios, focalizei novamente no propósito inicial: contatar Hinata.

— Vou ficar com os crisântemos — decidi.

— Sua cara está péssima, contudo não o bastante para um luto — comentou separando as flores.

— Talvez eu leve para meus falecidos sogros — disse sentindo a maciez das pétalas.

Por algum motivo, a expressão de Ino nublou-se.

— Deve ser muito — Mediu as palavras. — estranho viver no Distrito Uchiha — falou enquanto fazia um belo arranjo

— É mais estranho viver com o Sasuke — admiti com humor.

Ino sorriu amarelo.

— Está tudo bem? — perguntou assim que puxou o laço final. — Quero dizer... com você e com o Sasuke — Fez uma pausa. — Não conversamos há um tempo. Acho que desde aquele dia em que te levei para dar uma repaginada, lembra? — Rimos com a lembrança. — Você está precisando de outra mudança.

— É, eu sei. Bom... Você tem visto Hinata?

— Sim, ela vem aqui com frequência. Também leva crisântemos — comentou. — Para o Neji — especificou. — Por quê?

— Eu precisava falar com ela.

— Bom, posso passar o recado quando ela vier.

— Ino — Aproximei-me mais dela. — Preciso falar ela urgentemente.

— Oh — exclamou em entendimento.

A expressão de Ino mudou novamente para uma espécie de preocupação.

— Ela vem aqui com frequência, mas em horários esporádicos, não tem como eu prever quando ela aparecerá.

— Você tem como ir até ela?

— Sakura, o que você quer afinal?

— Preciso urgentemente que ela cuide do Ichiou para mim, pois o Sasuke vai viajar em um dia que eu tenho uma cirurgia para realizar.

— Eu posso fazer isso para você sem problemas, testuda. Pode deixar o Ichiou aqui e depois que sair do hospital você vem buscá-lo.

— Eu sei, Ino, acontece que preciso de alguém que fique na minha casa, entende?

— Entendo. Mas que desculpa eu vou dar para entrar naquele lugar?

— Leve umas flores. Crisântemos — Apontei. — Diga que Hinata os encomendou e que você quer conversar com ela. Se não puder falar, escreva um bilhete, por via das dúvidas.

Ino suspirou.

— Vou torcer para ela vir aqui — resmungou.

— Eu iria até lá se tivesse intimidade com ela.

— Eu sei. O que eu falo mesmo?

— Diga a ela para estar na minha casa na manhã da terça, bem cedinho.

— Temos uma dívida — advertiu-me dando um beliscão no meu braço.

— Acho que temos — concordei, mesmo não sabendo a consequência de ter uma de ter uma dívida com ela. — Muito obrigada, Ino.

Deixei o dinheiro das minhas flores e mais um pouco de reserva caso Ino levasse mais crisântemos para Hinata. De lá, fui para o hospital com uma certa adrenalina. As coisas de fato estavam progredindo. Já havia arranjado uma forma de falar com a Hinata e alguém para cuidar do Ichiou. Agora só precisava saber o que Naruto estava fazendo para cumprir a parte dele do acordo.

À noite, preparei um jantar mais caprichado, afinal Sasuke ficaria fora de casa por alguns dias, e, mesmo que não estivéssemos nos falando, eu continuava a fazer as tarefas domésticas e os agrados singelos do dia-a-dia. Era uma forma de ocupar meu tempo e minha mente e mostrar, ao mesmo tempo, que não vou mais ficar fazendo birra pelas coisas estúpidas que Sasuke faz.

Quem cedeu a cama foi ele, eu não pedi. Contudo, se ele quiser voltar a dormir ao meu lado, vai ter que fazer por onde. Ele foi o errado e ele tem que se redimir, não eu.

Frango e tomates assados com orégano.

Salada de batata com cream cheese e milho.

Arroz bem temperado.

Frutas descascadas e cortadas em cubículos simétricos.

Vinho tinto.

Um bilhete carinhoso:

Boa viagem. E arranje uma cama para dormir porque você está estragando o estofado do sofá dormindo nele todas as noites.

Ele leu o recado antes de iniciar a refeição. Redobrou, colocou ao lado do prato e juntou as mãos, apoiando a cabeça sobre os dedos trançados para poder me encarar. Encarei de volta sem disfarçar o sorriso debochado ao notar o leve grau de irritação que Sasuke demonstrava no olhar.

Permanecemos assim por mais tempo do que eu julgava suportável, então disse:

— Melhor comer agora senão vai esfriar — Sasuke rolou os olhos pelas travessas postas à mesa com desconfiança. — Pode ficar tranquilo, não coloquei veneno — assegurei.

Incrivelmente, ele riu com o nariz e descruzou as mãos. Arrastou a cadeira para trás pegando seu prato e seus talheres, levantando-se e mudando de cadeira. Sasuke, que antes estava na ponta oposta da mesa, resolveu puxar a cadeira adjacente a qual eu estava sentada. Encarou-me com um meio sorriso mais debochado que o meu anterior. Desafiava, provocava, jogava com os meus sentidos.

Ele pegou o meu prato e começou a colocar uma porção de cada coisa. Depois, serviu o seu próprio com quantidades generosas de cada comida, principalmente dos tomates, encheu ambas as taças até a metade e deu início ao jantar em silêncio, mas sustentando ainda aquela gabolice no sorriso mínimo no canto da boca. Cada olhar me desarmava.

Por fim, tomamos o vinho. Até aquele momento, nossa conversa era a quietude. Surpreendentemente, ele perguntou:

— O que quer que eu diga?

Precisei que ele repetisse para saber se eu tinha escutado mesmo aquilo.

— O que você quer que eu diga, Sakura?

Encarei minha taça vazia. Senti o calor na maçã do rosto. Ele realmente havia me desarmado e eu sabia para o quê.

— Eu quero que você reconheça que foi um idiota. Estúpido, babaca, ridículo. Quero que prometa que nunca mais vai perturbar o Ren ou qualquer outra pessoa por conta da sua insegurança. Quero que diga que sente muito, verdadeiramente, e que se arrepende da vergonha que me fez passar. Quero que diga isso com honestidade, não apenas para dormir na sua cama esta noite.

Sasuke, por uns instantes, encarou o próprio prato também. Respirou fundo e começou:

— Eu fui um idiota. Eu sinto muito...

— Olha para mim — interrompi. — Quero que diga isso olhando nos meus olhos.

Sasuke fechou a cara, mas repetiu:

— Eu fui um idiota. Não vou mais ameaçar o moleque.

— Ren! — corrigi. — Prometa!

— Eu prometo, droga! — Irritou-se. — Eu prometo que não vou importunar o Ren. E eu sinto muito. De verdade — tocou o dorso na minha mão. — E eu quero dormir com você esta noite.

Meus olhos acumularam algumas lágrimas. Eu, rapidamente, tirei minha mão de perto da do Sasuke e virei meu rosto para o outro lado, tentando controlar minha respiração para não chorar.

— Vamos — ele chamou já de pé ao lado da cadeira.

Funguei, olhei para ele. Eu juro que tentei descobrir o que havia ali naqueles olhos que eu amava tanto e ao mesmo tempo detestava. Eu queria saber que feitiço era aquele, que poder, que ambiguidade. Eu não queria ir, mas, ao mesmo tempo, queria. Queria ser resistente, porém nessas horas, eu era submissa. Ele havia me desarmado totalmente.

Quando me levantei e senti sua mão puxar-me pela cintura para mais perto, eu já estava entregue. Quando seu rosto se aproximou do meu, eu implorei por um beijo que não veio.

— Seu cheiro — Desviou para meus cabelos. — Eu sinto falta, Sakura — admitiu descendo para o meu pescoço. — Você sente minha falta?

Minha resposta foi apenas trazê-lo para mais junto de mim.

Finalmente, diminuímos a distância entre o sofá e cama, e foi nela onde fizemos as pazes.

Sasuke me amou por horas, lentamente, carinhosamente, apaixonadamente. Parecia adivinhar o que eu tinha planejado. Parecia adivinhar que corria o risco de me perder.

Enquanto sentia suas mãos percorrerem meu corpo com luxúria e cuidado, eu rezava para estar louca, para estar errada. A mulher... Aquela mulher não poderia existir. Havia sido minha imaginação, ou ao menos ninguém de importante. Eu rezava para que não fosse nada além de um mal-entendido enquanto Sasuke trabalhava com os lábios entre minhas pernas. Eu desejava que fosse tudo mentira, que todas essas crises do nosso casamento fossem frutos dos meus erros. Desejava ser a pessoa que deveria ser desculpada, quem deveria se redimir por um engano tão grande. Desejava rir com ele de pensamentos tão estúpidos. Desejava que aquele toque que eu sentia fosse uma rotina nas nossas noites. Desejava o Sasuke que eu tinha naquele momento para toda a minha vida. Mas eu precisava estar enganada para que isso fosse possível, e eu teria essa resposta dali algumas horas.

Terça-feira

Ao abrir as janelas, senti a brisa deixar a ponta do meu nariz gelado. Brisa que deu uns calafrios, um frescor quase congelante, ainda assim, gostoso. O céu ainda fazia sua transição do escuro para o claro. Cinco horas da manhã.

Sasuke chegou por trás, deu um cheiro no topo da minha cabeça e beijou minha bochecha. Gesto raro, digno de registro. Não posso negar que me senti iluminada, agitada como uma garotinha de dezesseis anos ao ganhar um beijo. Observei-o entrar no banheiro para um banho e, em seguida, fechei as cortinas. Havia algo naquele céu, naquela brisa, que prometia algo de grandioso.

Desci para preparar o desjejum e Sasuke juntou-se a mim pouco depois. Montei uma refeição reforçada com ovos, pães e vitamina, também deixei outros lanches prontos para ele levar e comer no caminho.

Ele ainda não tinha colocado uma blusa e as armaduras, mas era só isso que faltava para poder partir. Deixara a mochila carregada sobre o sofá na noite anterior. Ele abdicou o assento da ponta da mesa, eu não sabia por quanto tempo, porém sentou-se ao meu lado como no jantar da noite anterior.

Sasuke já tinha terminado de comer quando ouvimos batidas na porta. Nos entreolhamos, afinal ninguém vinha ao Distrito Uchiha. Eu sabia que só podia ser a Hinata, contudo preferi não falar nada. Sasuke bebeu o restante da vitamina em um gole e foi abrir a porta, pegando uma adaga no trajeto. Destrancou, puxou a maçaneta e ficou com uma expressão impassível fitando a pessoa do outro lado. Depois de uns segundos, olhou para mim:

— Estava esperando alguém? — perguntou-me.

Corri para a porta, ainda mastigando, só para comprovar quem era a visita, e sim, era Hinata, vermelha como um tomate pelo constrangimento que Sasuke a fizera passar – embora não fosse constrangimento algum. Ainda que, mais tarde, eu tenha imaginado que o motivo da vergonha era o fato de o Sasuke não estar com camisa. Se bem que, nem era um motivo tão plausível, afinal se Hinata estava na minha casa por suspeita de gravidez, era porque já havia visto um homem nu, no caso o Naruto, que deveria ser a visão do inferno. O Sasuke era fichinha para ela.

Ele, por sua vez, estava no meio da porta, bloqueando a passagem com seus ombros que eram quase da mesma largura que a distância entre um batente e outro. Passei por baixo dos seus braços e cumprimentei Hinata com um abraço caloroso.

— Bom dia, Hinata! — Tentei soar animada para a tranquilizar. — Hinata tomará conta do Ichiou já que você está de partida — expliquei a Sasuke o fazendo sair do caminho e guiando Hinata até a cozinha. — Ontem foi um dia corrido, esqueci de te contar.

Na verdade, eu esperava que Hinata chegasse depois que Sasuke já tivesse saído, contudo não era um problema tê-la naquele momento.

Sasuke fechou a porta e nos seguiu. Ouvi o som a adaga sendo recolocada no lugar de origem.

— Você já tomou café? — Hinata negou. — Fiz vitamina, ovos mexidos, há um bolo ali, mas é de ontem, se não se importar — indicava os locais enquanto falava. — Também tem esses pães aqui, estão frescos. Pode servir-se à vontade.

Curiosamente Sasuke nos observava com o olhar de quem examina uma linha desfiada de uma peça de roupa. Ele encostou na pia e, propositalmente, deixou explícita sua análise não só para mim como para Hinata. Cruzou os braços e disse:

— Isso tem a ver com o Naruto.

Hinata engasgou com a vitamina como se tivesse engolido uma pedra.

— Você contou? — indagou-me com um olhar traído. Nem deu tempo de responder.

— Então estou certo — tirou as dúvidas do que havia afirmado por mera intuição, ou perspicácia.

— Ela vai olhar o Ichiou, Sasuke, só isso.

— Eu pedi para o Naruto não nos envolver nos problemas dele — falou para mim, ignorando a existência da Hinata.

— Você não está envolvido em nada, Sasuke. Céus! Seja menos paranoico e tenha mais respeito pela visita — implorei tentando me distrair com alguma coisa para comer.

Sasuke suspirou e descruzou os braços, pegou uma fruta e caminhou em direção a sala.

— Depois não quero nenhum Hyuga fanático no meu distrito.

Eu estava quase no ponto de mandar o Sasuke calar a boca quando ele vestiu a camisa e a armadura e saiu rapidamente, depois de dar um beijo na minha testa e deixar um olhar hostil com Hinata. Ichiou não pode se despedir por motivos de “muito sono”, porém na noite anterior havia deixado um desenho na mochila do pai.

Tive que ficar um bom tempo conversando com Hinata, tentando acalmá-la, para aí sim fazer um exame além do da urina. Hinata era de uma timidez quase irritante, mas ainda fácil de lidar com uma conversa.

— Bom — comecei tirando as luvas descartáveis.

Hinata rapidamente fechou as pernas e abaixou o vestido, estava mais vermelha do que eu imaginava saudável para um ser humano.

— Aparentemente, está tudo bem.

— Tudo bem em que sentido?

— Você não está grávida.

Ela automaticamente ajoelhou-se e juntou as mãos em uma prece de agradecimento. Começou a falar com Kami e eu esperei ela terminar para contar o “mas”:

— Mas preciso saber quando foi sua última relação para afirmar com certeza.

— Eh-É necessário? — perguntou novamente constrangida.

— Se você teve relações há um pouco mais de duas semanas, você pode confiar neste resultado, senão, você terá que voltar daqui um tempo para eu te dar uma certeza.

— Acho que não precisarei voltar — disse no auge do rubor na face.

Sorri simpaticamente e fui ao banheiro ver se o teste de urina caseira tinha funcionado e exibido um resultado.

— Veja, este teste aqui também concorda comigo. Então pode ficar tranquila, você não está grávida — Hinata alegrou-se e fez uma série de reverências em agradecimento. — Por enquanto — acrescentei. — Vou te dar umas pílulas contraceptivas — peguei-as na gaveta do meu criado mudo, eram todas as que eu tinha. — Você deve toma-las diariamente no mesmo horário. Irá evitar sustos.

— Muito obrigada, Sakura-san — Fez outra reverência.

— Disponha — obriguei-a a erguer-se, detestava reverências.

— Eu... Gostaria que me dissesse sua opinião — disse com um tom doce, apaixonado. — Sua opinião sobre Naruto e eu — especificou quando demorei para responder.

Respirei fundo e sentei na borda da cama, ao lado dela, e ponderei um pouco antes de falar:

— Sinceramente, eu não aprovo — disse olhando nos olhos perolados — Eu não aprovo porque não acredito que os fins justificam os meios. É desonesto — Hinata que até então mantinha um contato visual, desviou o rosto para o lado com uma expressão de culpa. — Sentir-se traído é um sentimento terrível — neste ponto, Hinata crispou minimamente os lábios. Será que imaginava que eu estava levando para o pessoal? — Acho que vocês dois deveriam ter mais empatia, é esta minha opinião.

— Eu tentei evitar, eu juro que tentei! Mas eu amo o Naruto demais! Sempre amei — explicava com um desespero contido.

— Eu sei, eu entendo, e desejo que vocês sejam felizes, de verdade. Contudo não em cima da infelicidade de outra pessoa — Hinata começava a chorar — Não posso (e nem quero) induzi-la a nada, porém conversar francamente com o seu noivo e com os seus pais seria uma boa maneira de tentar resolver este grande dilema. Naruto também poderia tomar posição, já que mutuamente sofre com essa situação.

— Sim, eu já tinha pensado nisso, contudo tenho medo de como irão reagir.

— Também tenho, para ser franca. Esta é uma das razões pela qual não aprovo esse romance entre vocês.

Hinata assentiu, agradeceu novamente e perguntou:

— Você me leva até a porta?

— Não, você realmente deve cuidar do Ichiou, não há mais ninguém para me ajudar — a expressão de surpresa na face dela foi indescritível. — Saio em meia hora. Mandarei alguém vir dispensá-la.

.o0o.

A equipe médica era extremamente eficiente, notei isso nas reuniões pré-cirúrgicas e até me senti mais ansiosa para trabalhar. Era uma operação deveras complicada, eu precisava ter uma precisão controlada em cada movimento, pois todo erro naquela situação causaria danos terríveis.

Logo no fim da operação, quando faltava apenas a sutura, um Anbu e mais uma porção de enfermeiras praticamente invadiram a sala. Como líder da equipe médica, rapidamente tomei posição à frente dele. Estava tão confusa e surpreendida quanto os outros, contudo não poderia deixar que meia dúzia de pessoas adentrassem um centro cirúrgico no meio de uma operação.

Antes que eu conseguisse elaborar uma pergunta, ou o homem se apresentasse, as enfermeiras começaram a dar justificativas com um grande alvoroço, tentando explicar que fizeram de tudo para impedir. Completamente atordoada, trovejei:

— Calem-se!

O silêncio perdurou por alguns segundos. As enfermeiras se entreolharam, os médicos se entreolharam, e eu encarei o Anbu com uma fúria contida:

— Quem você acha que é para invadir a minha sala no meio de uma cirurgia?

— Sou da Anbu. Tenho ordens diretas para levar Hyuga Misa agora.

— De quem são essas ordens?

— Não tenho que te explicar nada! Venha, Misa-san!

Quando ele deu um passo na direção da instrumentadora cirúrgica estendendo a mão para puxá-la pelo braço, coloquei-me mais uma vez na sua frente e encarei-o com um bisturi de corte frio apontado para a sua garganta.

— Nem o Senhor Feudal tem poder para tirar um médico da sala de cirurgia no meio da operação, quem é você para vir aqui e me desafiar?

— É melhor você abaixar esse bisturi e sair da minha frente.

— Ou o quê?

Neste momento, Tsunade chegou afobada espantando as enfermeiras e entrando na sala:

— Sakura — olhou-me com um misto de desespero e receio. — Deixe-a ir — suplicou.

— Mas Tsunade-sama... — exclamei tentando convencê-la, mas foi interrompida.

— Eu autorizo. Pode ir, Misa-san — disse com um tom de vencida.

O Anbu saiu com um ar triunfante, guiando a instrumentadora que olhava insistentemente para mim, confusa, como se pedisse minha ajuda. O que eu poderia fazer? A palavra de Tsunade era a palavra final.

Virei as costas para a porta e tentei concentrar-me na sutura.

— Pode deixar que eu termino — disse um dos médicos ao perceber que minhas mãos tremiam. Ao menos o pior da cirurgia já havia passado há horas.

Tsunade-sama continuava na sala com a mesma expressão de derrotada, como uma mãe que briga com o filho sem querer por causa do marido.

— Terminem isso aí e o encaminhem para a Ala de observação. Estão dispensados — falou.

Fiquei escorada na parede, emburrada, de braços cruzados, supervisionando o trabalho do médico que ofereceu ajuda. Tsunade continuava lá, de hora em hora me encarava, e eu só queria entender por que ela não saía da sala, não é como se ela tivesse o que fazer ali.

Terminada a sutura, os médicos transferiram o homem operado para a outra Ala, eu ia sair atrás deles, contudo Tsunade mandou eu ficar:

— Eu só quero tomar um chá — insisti para sair.

— Preciso te explicar por que eu deixei Misa-san sair.

— Não tem que explicar nada. Isso se chama hierarquia, não é mesmo?

— Sakura, não é nada disso! — riu nervosamente. — Você não tem ideia do pandemônio lá fora!

Meu coração no mesmo instante deu um solavanco. Pensei no Ichiou, pensei nas guerras pelas quais passei, pensei em Sasuke, já há muitas milhas de distância para poder ajudar-me a proteger nosso filho.

— O que está acontecendo?

— Os Hyuga estão tirando todos os membros do seu clã dos serviços públicos da vila. Todos os shinobis estão aglomerados em frente a Central de Konoha e o restante está sendo mantido no Distrito Hyuga — explicou rapidamente. — Por isso fui obrigada a liberar a Misa-san. Aquele Anbu não iria sair daqui enquanto não a levasse.

— Mas por quê?

— Estão falando algo sobre traição do Naruto, guerra civil, não sei ao certo.

Imediatamente, eu soube do que se tratava. Alguém havia descoberto o caso dele com Hinata, que estava noiva de um homem do mesmo clã.

— O que eu sei com certeza é que Hinata está desaparecida e eles estão acusando o Naruto.

— Ai, meu Kami-sama — encostei na parede, estava tão nervosa que me via ao ponto de desmaiar. — Hinata não está desaparecida, está na minha casa, com o Ichiou!

— Como assim?

— Chamei-a porque não havia mais ninguém.

— Havia eu, ora essa!

— Tinha assuntos para resolver com ela...

— Você, por acaso, sabe alguma coisa dessa história?

— Na verdade, eu sei, sim. — olhei-a de soslaio, como uma filha esperando uma bronca da mãe. — Há mais de um ano, para ser mais exata.

— Você é louca? — deu-me um cascudo. — Sabe que pode ser considerada cumplice de seja lá o que estava acontecendo?

— Tsunade-sama! — amaciei a cabeça. — Não estou envolvida em nada! É mesmo uma coincidência desgraçada eu tê-la chamado para ir em casa em um dia como este. Também não tinha como imaginar! — comecei a andar de um lado para outro. — Melhor eu mandá-la embora — já ia saindo quando ela me impediu.

— Espere! Preciso te falar mais uma coisa — a maldita expressão receosa apareceu lá novamente. — A sua mãe... Não há mais o que fazer para tratá-la, Sakura. Shizune e eu conversamos e decidimos que agora seria o momento ideal para liberá-la.

— Mas, se ela ainda não está bem...

— Sakura, você trabalha nesse ramo, sabe como funciona.

— Eu sei — fitei o chão, a voz mais saiu.

Mais um choque, mais um tapa na cara. O que mais poderia acontecer em um dia como aquele?

— Ela pede para ir para casa, ela fala de você, sente falta das visitas do Ichiou...

— Tudo bem, Tsunade. Assim que o Sasuke voltar, eu converso com ele, adaptamos um quarto para ela.

— Essa parte é mesmo com vocês. Eu... Eu sinto muito, Sakura.

— Eu vou para casa.

Divisão do capítulo

.o0o.

Nem lembrei de tirar o jaleco antes de sair do hospital. Era região central, então não precisei andar muito para ver a confusão na qual a vila encontrava-se. Quando passei em frente a Central e notei a quantidade de Hyugas que concentravam-se ali gritando infâmias contra o Naruto.

Meu coração apertou de um modo que me deixou paralisada. Eu não sabia se ficava para ajudar o Naruto ou se ia para casa. Depois de muito ponderar, decidi correr até minha casa, deixar Ichiou com uma pessoa segura e voltar para a Central para tentar ajudar o Naruto de alguma forma.

Corri como se estivesse sendo perseguida, corri o máximo que pude em cima de sandálias sociais. A cena deveria ser patética, pois todos pelos quais eu passava me encaravam de uma maneira dúbia, contudo eu continuei correndo sem interrupções. Entrei no Distrito Uchiha sem nem olhar para os lados com medo das almas amaldiçoadas aquele clã infeliz, corri direto para casa. Atravessei o jardim da entrada, coloquei os pés na varanda e senti meu corpo gelar ao reparar que a porta estava apenas encostada. Um leve vento poderia abri-la.

Deixei as sandálias do lado de fora e entrei com a mão envolta e chakra, um pé sobre o outro, vasculhando com o olhar todos os cantos onde minha vista enxergava: a sala; a oficina do Sasuke com a porta trancada; a cozinha; o quintal. Nada.

Subi as escadas chamando pelo Ichiou, porém a casa encontrava-se em um silêncio mórbido. Meu maior temor era dos Hyuga tivessem invadido e levado Hinata com o meu filho. Contudo parecia-me um temor bobo que eu me esforçava para deixar de lado, pois tudo parecia em seu devido lugar, não havia sinais de invasão.

Chegando ao corredor, a visão já não era a mesma. Todos os quartos estavam com as portas escancaradas, inclusive o de Itachi que quase nunca é aberto. O meu quarto ficava no fim do corredor, e a luz que atravessava a janela iluminava não apenas aquele cômodo como também boa parte do corredor. Aquela luz foi como um farol para um afogado, iluminou o assoalho com pegadas sobre uma fina camada de poeira. Pegadas de adulto, criança e de animal.

Antes de raciocinar, entrei em todos os quartos: pareciam remexidos, contudo em ordem; quarto de Ichiou só tinha a cama bagunçada; o meu estava um lixo.

Pelo cheiro no ar, eu sabia que o animal que deixou seu rastro no corredor era um cachorro, inclusive deixara mais pegadas no lençol da cama. O armário de roupas estava todo bagunçado, dezenas de peças estavam espalhadas pelo chão, roupas do Sasuke e minhas. Quanto a dinheiro, joias, pergaminhos, armas, documentos e todas as coisas de valor estavam intactas.

Alguém, com um cão farejador, esteve na minha casa procurando por algo. A questão é: por que no andar superior e especialmente no meu quarto? Não se tratava de um saqueador, pois não roubara nada; não se tratava de um espião porque seria incompetência demais até para um iniciante deixar tão óbvia sua passagem.

Provavelmente tinha sido um Hyuga com um cão farejador à procura de Hinata, que estava “desaparecida”. Contudo vasculharem os quartos e deixar o meu em um pandemônio ainda era um mistério. Ele ou eles esperavam encontrar o quê no meu guarda-roupa?

Analisar a quase integridade da casa deixou-me um pouco aliviada. As entradas intactas e nenhum vestígio de resistência, especialmente sangue, eram sugestões de que quem quer que tivesse invadido a minha casa, havia entrado e saído sem dificuldades. Só poderia ter sido um Hyuga maluco arrastando a Hinata de volta para casa com meu filho e tudo.

Eu os agradeceria, quando os encontrasse, por não terem danificado a minha casa, daria um leve sermão sobre a bagunça no quarto, mas agradeceria imensamente por não terem feito um estrago. Sasuke ficaria endiabrado se descobrisse. Contudo, depois dos agradecimentos, eu seria obrigada a surtar enlouquecidamente porque embora não tenham danificado a minha casa, eles ainda invadiram a minha casa levando meu filho junto.

Pensava tudo isso correndo rapidamente de volta para o centro. Provavelmente os Hyuga ainda estavam lá. Ainda de jaleco, acrescentei as luvas e enquanto saltava de telhado em telhado para evitar as multidões das alamedas. Pouco antes de chegar ao meu destino, ouvi chamarem por mim, só me virei ao ouvir um segundo chamado. Fiquei receosa em parar, porém quando o vi, comecei a ligar os pontos na minha mente:

— Kiba? — eu estava ofegante e provavelmente com uma careta.

— Eu estive te procurando esse tempo todo — ele estava em cima do Akamaru, lá embaixo. Saltei para poder ouvi-lo melhor. — Naruto te contou?

— Se for algo relacionado a você, não.

— Ele disse que eu tinha que achar uma mulher com esse cheiro — estendeu uma gaze usada, suada e ensanguentada —, contudo não está puro, há negócios de hospital misturados ao cheiro natural dela, fica difícil rastrear. Ele pediu para que eu coletasse uma amostra na sua casa, disse que estaria lá, pois trabalha de tarde, contudo encontrei Hinata com o Ichiou. Aproveitei e tomei a liberdade de coletar o que eu precisava e...

— Espere um pouco: você quem esteve em casa e revirou o meu quarto todo?

— Sim. Desculpa — emendou o pedido rapidamente. — Também não gostei nada da ideia, mas eu obedeço às ordens — virou as palmas como se nada pudesse fazer sobre isso. E realmente não podia. — Cheguei a identificar a mulher, só que perdemos o rastro na multidão. Ela deve estar aqui no centro, dentro de algum estabelecimento. Estou fazendo a ronda e qualquer coisa aviso diretamente a você, se manter-se aqui por perto.

Eu mal podia acreditar. Naruto mandou o Kiba rastrear a mulher, cuja todas as informações ele possuía na gaveta do seu escritório e ainda deu alvará para o Inuzuka invadir a minha casa. Eu estava tão preocupada com o meu filho que mal conseguia pensar sobre o quão perto a maldita garota estava do meu alcance.

Kiba não parava de falar, dar explicações e desculpas. Num pico de histeria eu disse num tom um tanto rude:

— Eu só quero saber onde está meu filho!

— O menininho?

— Sim!

— Hinata trouxe ele consigo em cima do Akamaru, mas não quis vir até aqui, mandou eu deixa-la a uns dois quilômetros, dois quilômetros e meio daqui porque estava estranhando a quantidade de Hyugas que estavam concentrados nessa região. Achei estranho, mas não falei nada. A Hinata também não é de falar muito, preferi não contrariar.

— Tá, então Ichiou está com a Hinata?

— É.

— Há dois quilômetros daqui naquela direção?

— É.

— Será que você não pode tentar farejá-la, ou o Akamaru, para ver se talvez ela está por perto?

Ambos se concentraram, trabalhando seu olfato de uma maneira até engraçada. Depois de uns segundos, Kiba informou:

— Sinto o cheiro da Hinata, não do Ichiou.

— Meu Deus — exclamei começando a ficar trêmula.

— Hinata na Central. Pelo menos pode ir até ela e perguntar onde e com quem ela deixou o seu filho.

— Sim, farei isso. Obrigada — Disparei para o sentido que seguia anteriormente com outro alvo em vista.

Ouvi novamente Kiba me chamar, mas desta vez continuei. Ele já havia me informado tudo o que era útil e um pouco mais. Naquele momento, eu só precisava encontra o meu filho.

Chegando a Central, tive a impressão de que Konoha era potencialmente nativa de Hyugas, pois a aglomeração deles na entrada havia se multiplicado demasiadamente em pouco mais de uma hora. Tentei a todo custo enxergar Hinata na multidão, contudo era como procurar uma agulha em um palheiro com tantos indivíduos com a mesma fisionomia que a dela, e também, se aquela confusão era mesmo por sua causa, ela não estaria de boa naquela multidão sem ser notada ou destacada entre eles.

Tentei então entrar, contudo tanto os Hyuga quanto a Anbu me impediram de passar, mesmo argumentando que queria saber onde estava meu filho, que era amiga próxima do Hokage, que eu tinha livre acesso ao escritório dele, que era um assunto de urgência... Nada adiantou. Eu, na situação de uma mãe desesperada, exausta e furiosa, já ia apelas para a força bruta, quando como um anjo do céu Kakashi surgiu para me controlar e me dar uma luz.

Disse que viu Hinata entrando, mas que não estava com Ichiou, e, mesmo que estivesse, eu não deveria me preocupar porque é um local seguro e que aquele não era um momento propício para eu derrubar a vila. Disse também que o hospital deveria estar uma zona e que era melhor eu voltar para ajudar Shizune e ele mesmo se encarregaria de encontrar Ichiou.

Mais calma e mais lúcida, saí do meio daquela confusão e me encaminhei calmamente para o hospital. No caminho, percebi que a confusão era mais na Central, pois os estabelecimentos pareciam funcionar normalmente, mesmo com os burburinhos sobre a confusão instalada e a iminente ameaça de uma guerra civil.

Enquanto minha cabeça girava em torno do meu filho e da atual situação do Naruto, eu mal me dei conta da informação que Kiba havia me dado: a garota estava por perto. Eu tinha quase certeza de que a reconheceria, contudo não sabia se queria passar por aquilo naquele momento, naquele dia tão caótico. Eu realmente não tinha cabeça para isso, e tudo o que eu pensava era que talvez eu estivesse pegando pesado com o Sasuke, que talvez tudo isso fosse culpa minha.

Eu deveria ter perguntado na primeira vez, mesmo que ele mentisse, eu deveria ter perguntado, ido realmente atrás. Desde aquele dia, minha relação com o Sasuke tem sido um clima tropical: hora calorosa, hora tempestuosa. De fato, eu o pus a prova em todos os aspectos, o que foi muito arriscado, afinal, depois de quatro anos dividindo o mesmo teto eu ainda tinha minhas dúvidas se ele me amava.

As dúvidas foram ironicamente sanadas naquele momento de introspecção quando o vi dentro de um restaurante. O vidro do estabelecimento era escuro, mas ainda transparente. Por um acaso, pelo destino, por Kami, eu olhei além os flagrei: Sasuke e a mesma mulher de antes.

Fiquei paralisada fitando incrédula. As pessoas passavam por mim apressadas, uma trombou comigo, xingou, me despertou. Atordoada, me desculpei, contudo não tive muita certeza de que as palavras realmente saíram da minha boca, e logo marchei sentido ao hospital, com o rosto paralisado e com a sensação de que meu sangue estava congelando nas veias.

Sentia-me a mulher mais idiota da face da terra

Há poucos minutos, eu estava me culpando, imaginando que estava pegando pesado com o Sasuke, e ele estava naquele exato momento em um jantar enquanto deveria estar com o nosso filho. Assim que pensei no Ichiou, tive que encostar em um canto para conseguir respirar. Eram tantos sentimentos que meu peito parecia que iria explodir, eu sentia perfeitamente um bolo se formar na minha garganta embora tivesse consciência de que não havia nada físico ali.

Uma onda de fúria me invadiu de uma maneira que eu pensei ser capaz de colocar a vila inteira abaixo com um soco. Onde estava o meu filho enquanto ele jantava com uma vagabunda?

Respirei fundo e me recompus. Eu não poderia agir como da primeira vez, esconder a mágoa no silêncio, dar meia volta e deixá-lo lá. Com essa atitude, eu estava entregando-o para ela, estava dando a chance para eles terminarem a noite romântica de adultério, estava sendo negligente comigo mesma, com o meu filho. Segurei todas as ondas dentro de mim e tomei a minha decisão. Eu só precisava ser rápida.

Dei meia volta e entrei de supetão no restaurante. Havia um recepcionista na porta, mas não dei atenção, indo diretamente para a mesa que eu fuzilava com o olhar. O recepcionista sobressaltou-se e me seguiu entre as mesas, perguntando se eu possuía reservas para a noite. Era completamente ignorado. Meu olhar era exclusivo do Uchiha.

Aquele era um ótimo restaurante da vila, senão o melhor, e obviamente Sasuke nunca me levara a um lugar desses ou a lugar algum.

A mulher foi a primeira a perceber que eu me aproximava e me fitou com estranhamento. Sasuke virou-se em seguida e pareceu perder a cor do rosto, ficando mais pálido do que já era. Ele levantou-se imediatamente e me olhou com as sobrancelhas arqueadas. A mulher permaneceu sentada, nos observando, e o recepcionista me cutucando. Tirei aquele dedo de mim e respondi que não tinha reserva para, assim, ele me deixar em paz.

— O que está fazendo aqui? — Sasuke perguntou, num sussurro.

— O que você está fazendo aqui, com essa mulher?

— Quem é ela? — a sujeita perguntou.

— Sou a mulher dele — respondi encarando Sasuke, que, por sua vez, olhava-me de uma maneira dúbia, expressava tantos sentimentos que eu não conseguia classificar sua expressão com nada. — Onde está o Ichiou?

— Com a Hinata.

— Não, não está — respondi indignada tentando disfarçar minha raiva. Ainda não estava gritando, estava falando no meu tom normal. Nossa guerra era de olhares. — Nosso filho sumido e você jantando em um restaurando de luxo com uma vagabunda.

No mesmo instante, a mulher levantou-se da cadeira dando início ao vexame, alegando que não era nenhuma vagabunda e emendando coisas que eu sequer escutava. Sasuke passou as mãos pelo rosto, vermelho de raiva e vergonha, mas não tomou atitude alguma.

— Te fiz uma pergunta, Uchiha Sasuke — encarei-o mais intensamente, esforçando-me para ignorar a mulher em pé ao meu lado.

— Sakura, as pessoas estão olhando, vamos conversar em casa — Ele estendeu a mão para pegar meu braço, me olhava de um jeito suplicante.

Eu me afastei agilmente e respondi depois de uma risada nervosa:

— Você acredita mesmo que vou voltar para casa?

— Eu te explico tudo...

— Não precisa se dar ao trabalho. Eu estou vendo — indiquei a mesa e a mulher. — De novo — acrescentei. — Aí, quando eu mando você pensar no que fez de tão errado, você diz estar com a consciência limpa — debochei. — Desse jeito? — apontei novamente a mulher, que ameaçou avançar em cima de mim se eu direcionasse meu dedo de novo para ela.

— Para de apontar para mim. Eu pensei que era a única...

— Se ela continuar falando, eu vou destruir tudo isso aqui — avisei.

— Por favor, se acalme, senhora! Não destrua meu restaurante! — o recepcionista implorava.

— Já estou de saída — respondi encarando o Sasuke.

Em nenhum momento, eu deixei de encará-lo, mantive o olhar firme no dele, sem desviar. Meu desejo era matá-lo ali mesmo.

— Sakura, por favor, entenda que...

— Eu entendo que está em um jantar romântico com ela, peço desculpas não vou atrapalhar mais — O recepcionista respirou aliviado. — Só queria saber onde está o meu filho.

— Sakura... — tentou me tocar e eu o repeli automaticamente. As mesmas mãos que tocam nela, tocavam em mim. — Não faça nenhuma besteira, por favor.

— A maior besteira que fiz foi ter confiado em você, não tem como fazer nada pior —Joguei uma gorjeta para o recepcionista. — Bom apetite.

Eu saí tão rápido quanto entrei. Caminhei para o hospital, contendo toda a minha fúria para não chorar. Sasuke saiu do restaurante um pouco depois, me alcançou correndo e tencionava me puxar, mas me esquivei.

— Sakura, deixe eu explicar!

— Vá para o inferno, não fale comigo!

— Sakura! — Me segurou a força, possesso de raiva, porém não mais do que eu. Dei uma joelhada e seu estômago e ele arfou em busca de ar.

As pessoas olhavam, curiosas. Sabiam quem éramos, logo a briga do casal Uchiha se tornaria assunto da vila. Continuei caminhando para o hospital, quase chegando lá, percebi Sasuke tentando me alcançar novamente. Eu não tinha mais rédeas. Virei-me antes que ele me alcançasse e exclamei como um último aviso:

— Se afaste de mim!

— Sakura, deixa de ser teimosa e me ouça — Aproximava-se.

— Se você não ir embora, eu vou te machucar.

Um grande grupo de pessoas já paravam para olhar. Não estávamos mais num restaurante refinado, eu não iria falar baixo ou me controlar para não moer seus ossos.

Quando virei as costas e senti sua mão tocar a minha de novo, não aguentei. Virei-me novamente, desta vez com a mão banhada em chakra, fechei os olhos e dei. Descarreguei tudo. Se o soco acertou o tórax, Sasuke estava morto.

Ele foi lançado a uma distância que eu não conseguia calcular, levou consigo alguns curiosos. Eu só esperava não ter machucado seriamente pessoas inocentes. Não fiquei para olhar.

Entrei no hospital rezando para que ninguém me importunasse. Eu pegaria as minhas coisas e sairia. Não tinha condições de trabalhar. Acreditava que não tinha condições de sequer existir com tamanha infelicidade.

Notas finais
- Com mais tempo, escreverei notas dignas.