Pilares de Areia
15 Why can I not conquer love?
Notas iniciais
Eu andava pelo hospital como se estivesse dopada. Os sons não chegavam claros aos meus ouvidos, e meus olhos não enxergavam nada além do que queriam ver. Ao contrário do que Kakashi presumira, o hospital estava com uma movimentação normal, e meus serviços, embora bem-vindos, não eram tão necessários.
Entrei na minha sala e me sentei à mesa, tentando raciocinar com clareza, tentando sair daquele torpor. As lágrimas logo vieram, e meu corpo começou a tremer. O choro aumentava gradativamente, eu soluçava, eu entrelaçava meus dedos entre os fios de cabelo e abafava o grito no braço. Foram longos minutos de fraqueza para sentir-me lavada. A sensação de letargia e sufocamento tinha sumido, mas o bolo na garganta ainda estava lá. Eu sentia as lágrimas saírem dos meus olhos, contudo não percebia que ainda chorava. Estava imóvel, fitando os quadros que matinha na minha sala, e as gotas desciam independentes, como se meu corpo transbordasse tristeza materializada em lágrima.
Não me lembrava de ter passado um momento pior ou sentido algo tão ruim. E eu me segurava, me segurava como podia para não quebrar, socar, gritar, matar. Eu me segurava, vinha me segurando desde que dei falta de Ichiou. Eu me segurava. Chorar escondida da minha sala, tentando fazer silêncio, era mais uma prova de que eu me segurava. Tinha o peso do mundo nas minhas costas e eu carregava. Minha cabeça doía como se algo vivesse lá dentro e batesse nas paredes do meu crânio querendo sair. Deixava-me à beira da insanidade, mas eu me segurava. Não queria pensar no que tinha visto, bloqueava a cena da memória, chorava e me mordia porque sentia no peito uma angústia inexplicável. Tudo o que eu tinha e tudo o que eu amava estava perdido.
Eu não sabia onde estava meu filho, só sabia que não tinha condições de procurá-lo. Não sabia como iria encará-lo se ele me perguntasse onde estive, por que ele passou tanto tempo com pessoas estranhas; não saberia como responder, como explicar. Sentia que ele estava bem, apesar de não saber onde. Kakashi prometera que o procuraria, e eu confiava em sua palavra, além de ter certeza que Hinata não o deixaria por aí sozinha independente do que fosse. Poucas pessoas conheciam Ichiou, contudo as que conheciam sabiam que ele era um Uchiha e existiam loucos para tudo. A história dos membros do Clã Uchiha era ruim demais para eu deixar meu filho solto por aí.
Batidas na porta me despertaram, e, independente de quem fosse, permiti entrar. Precisava de alguém que me puxasse para longe daqueles pensamentos.
— Eu disse que você estava dispensada. — Tsunade entrou e fechou a porta atrás de si. — Quer conversar? — Neguei com a cabeça. — De qualquer forma, eu vou ficar aqui.
Ela arrastou uma cadeira para ficar ao meu lado. Sua mão pousou no meu joelho, e seu olhar penetrou minha alma. Tsunade não precisou falar nada. Somente aquele olhar detravou todas as trancas que eu decidira colocar no meu peito. Eu, literalmente, desabei em seu colo, ajoelhada entre suas pernas. Desta vez, não me escondi, não abafei o som, não me recriminei por ser tão fraca, tão tola. Tsunade passava as mãos pelos meus cabelos, deixava-me molhar sua barriga com meu choro, deixava-me abracá-la com força, deixava-me ser quem ela fora um dia, destruída pela perda do homem que amava.
Nos últimos anos, Tsunade vinha representando o papel que a minha mãe biológica não podia. Ela sempre soube de tudo, sempre aconselhou-me, e, naquele momento, algo de me dizia que ela já esperava por aquilo.
Aos poucos, acalmei-me, e, então, ela disse:
— Kakashi veio avisar que Ichiou está com Ino, que está bem, e que Ino só irá entregá-lo a você — Respirei aliviada. — Acho melhor você deixá-lo com ela essa noite. — Assenti, concordando. Eu realmente não teria cabeça para lidar com Ichiou. — Você também pode dormir na minha casa. Tirar o tempo que precisar para descansar e pensar no que fazer.
— Não é necessário, eu estou bem — respondi, recompondo-me, limpando as lágrimas e sentando na minha própria cadeira. — Preciso tirar as minhas coisas e as do Ichiou da casa.
— Você não tem que sair de lá.
— Vou voltar para a casa dos meus pais por enquanto. Já que terei que levar minha mãe, será melhor ficar lá, onde ela quer estar, não é mesmo?
Tsunade se levantou e andou pela sala pensativa:
— Sakura, eu não vou falar nada. Não é o momento — respondeu simplesmente. — Não vou dizer o que você deve fazer. Você só precisa saber que o que estiver ao meu alcance, farei por você. É a única coisa que você tem que ouvir: você tem pessoas que te amam e fariam de tudo para vê-la feliz.
— Eu sei. Sou muito grata, Tsunade — falei sinceramente.
— Não é útil ser grata, útil é ser forte. Não só aqui — Cerrou o punho. —, mas aqui também — disse, colocando a mão no peito.
Tsunade saiu sem dizer mais nada. Deixou-me fitando a porta, decidindo o que fazer.
Finalmente, resolvi ir para casa para juntar todas as minhas coisas, pegar o essencial para passar a noite com Ichiou na casa dos meus pais e arrumando o restante para buscar no dia seguinte. Não tinha ideia do estado de Sasuke, porém sabia que ele não demoraria para receber alta e vir atrás de mim. Isso também era algo que eu tinha certeza que ele faria, não por qualquer sentimento, se é que havia, mas pelo seu ego ferido em público. Definitivamente, não queria pensar nele.
Chegando em casa, fui direto para o quarto, que Akamaru e Kiba já tinham bagunçado. Se bem que me fizeram um favor já retirando todas as roupas do armário, eu só teria o trabalho de colocar na mala. Não possuía muitas coisas. Como usava constantemente uniformes, eram poucas as roupas casuais que tinha. Ichiou, mesmo sendo uma criança beirando os quatro anos, tinha mais roupas e sapatos que eu.
Pensava isso subindo as escadas e atravessando o corredor. Quando cheguei na porta, vi Naruto sentado na janela, de costas para mim. O vento sacudia sua capa de Nanadaime Hokage, bagunçava mais os seus cabelos e deixava o quarto mais gelado.
— Você sabia — falei ainda parada na porta, fitando suas costas. Ele virou o rosto para me olhar e voltou sua atenção para algo além da janela, sem dizer uma palavra. — Eu flagrei os dois juntos em um restaurante.
— Você flagrou somente um jantar.
— Naruto, não me provoque — Ele deu os ombros. — Você é a última pessoa que iria me entender, afinal você é o amante, não o traído.
Naruto saltou para dentro do quarto e me encarou. Eu tinha cutucado a ferida assim como ele dera os ombros para o meu problema.
— Um “estranho” contou para os Hyuga que viu Hinata e eu num bosque. Uma fofoca que pode acabar até com o meu posto de hokage.
— Não era com seu posto de hokage que você deveria se preocupar e, sim, com ela.
— É óbvio que eu me preocupo com ela!
— Ela pode ser deserdada, Naruto. Você tem noção da gravidade disso?
— Ela já foi — respondeu sério.
Sentamos na beirada da minha cama e fitamos a estante à frente com fotos minhas, de Sasuke, de Ichiou, dos pais de Sasuke e de pessoas próximas. Eu chorava e nem percebia. Chorava em silêncio, quietinha, olhando uma foto em família, Ichiou no meio e Sasuke emburrado por estar sendo fotografado.
— Hinata não está grávida.
— Pelo menos isso — Virou-se para mim. — Você está chorando? — Ele estava vendo, eu não precisava responder. — Você vai conversar com o Sasuke, ele vai te explicar, vai ficar tudo bem.
— Explicar o quê? Que ele não teve coragem de me dispensar e que tem um caso com uma anbu que trabalha com ele?
— Sakura, pode ser um mal entendido.
— Não é, e, se fosse, eu também não quero mais essa vida — respondi. — Eu pensava que só o fato de estar ao lado dele me faria feliz. Esses anos aqui nessa casa tiveram mais coisas ruins do que boas.
— Não exagera, Sakura. Você tem que dar um chance a ele para vocês se resolverem. Vocês são uma família, vocês se amam, não é assim.
— Naruto, eu não preciso de consolo. Não quero. Se quiser o meu, estou aqui para confortá-lo. Imagino que sua cabeça deve estar mais bagunçada do que o normal por conta do que aconteceu hoje. Eu me ofereço para te ouvir e te apoiar, contudo dispenso a sua ajuda. Quando precisei dela, você me escondeu a verdade, então, agora, não quero mais.
Ele não respondeu nada.
— Eu vim mesmo para pedir conselho — Começou. — Eu estive pensando aqui. Quero ficar com Hinata. E vou! Contudo, vou renunciar meu título de hokage para concretizar isso.
— Você o quê?
— Não serei mais o hokage da vila se não for o marido da mulher que amo. É essa a minha decisão.
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