Pilares de Areia
6 You chewed me up and spit me out like I was poison in your mouth
Notas iniciais
Foi numa quarta-feira ensolarada que Sasuke esqueceu-se de levar uma importantíssima pasta com relatórios e ATA's da Anbu. Estava muito quente de modo que preferi sair mais cedo com Ichiou para não pegar o sol de meio-dia, passaríamos na cede para lhe entregar os papéis esquecidos em casa e, se tivéssemos sorte com o humor dele, tomaríamos um sorvete antes de seguirmos nossa própria rotina. No caminho para o sobrado da Anbu, passamos por algumas ruas de comércio, principalmente tendas de frutos do mar, churrasco e diversos tipos de cozidos leguminosos, estabelecimentos enfeitados que faziam com que os olhos de Ichiou brilhassem como zircônio. Por um acaso, avistei Sasuke numa delas e, o mais estranho, acompanhado.
Segurei a onda de sentimentos que me invadiu naquele momento. Foi preciso um olhar, apenas um olhar para que eu já voltasse para frente. Continuei caminhando, pedindo aos deuses que não deixassem Sasuke me notar. Agradeci mentalmente por Ichiou não ter avistado o pai no meio do povo, do contrário gritaria por ele, estenderia os bracinhos em busca do seu colo. Sasuke não havia sentido minha presença devido a minha mania de ocultar o chakra, mas ele poderia me ver, então eu estava torcendo para que a mulher que estava com ele fosse boa o bastante para distraí-lo por mais alguns minutos até que Ichiou e eu ficássemos homogêneos na multidão.
Minha cabeça parecia uma centrífuga. Eu sentia meu coração bater forte com o Ichiou prensado junto ao meu peito, eu sentia uma coisa ruim no estômago, uma sensação terrivelmente dúbia e dolorosa, ainda assim me mantive firme. Me agarrei mais ao meu filho, e isso ajudou as lágrimas a me obedecerem e se manterem quietas.
Entreguei os papéis na recepção e voltei pelo mesmo caminho sem encontrar o adúltero ou a vadia. Estava tão preocupada em não ser apanhada pelo Sasuke que todo o sentimento de revolta estava reprimido. Eu só queria sair dali e pensar no que fazer, porque definitivamente aquilo não ficaria por menos.
Por onde eu andava, cada olhar que eu cruzava, imaginava se eles sabiam. Todos deviam me olhar e zombar de mim em cochichos. Todos os trabalhos extras, as vezes que ele saía mais cedo ou chegava mais tarde em casa, quem sabe até missões, não passavam de mentiras ridículas que Sasuke dizia para estar com outrem. Eu sempre só, apenas com meu filho e os enfermos, ocupando minha mente com trabalho ao invés de outras mães de família que encostam no conforto da vida sedentária que seus maridos lhes dão. Eu sempre disposta para um jantar diferente, um chá de folhas de limão na madrugada e até para uma transa rápida na escada enquanto Ichiou dormia. Como fui tola, como fui cega... Dei mais do que deveria, criei uma cobra achando que se tratava de um coelho.
O que eu vi na tenda foi uma proximidade incomum que nem mesmo eu tenho com Sasuke em público. A garota bebia no mesmo copo que ele, e os dedos cumpridos de Sasuke colocavam uma mecha dos cabelos longos e castanhos dela atrás da orelha. Enquanto isso, eu era cumprimentada com míseros afagos na cabeça ou beijos secos na testa. Sasuke dormia de costas para mim, fazia quase um mês que não me tocava. No fundo, eu agradecia por ele não me contaminar com os fluídos das vaginas fétidas que deve ter visitado. Contudo era doloroso saber que o que faltava para mim, ele dava para outra.
Não fui para o trabalho naquele dia, fui no hospital apenas para visitar a minha mãe e contar para ela o ocorrido. Ela não estava lúcida, para variar, mas pareceu se preocupar com a minha situação deplorável quando me viu chorar como uma criança. Ichiou andava e tropeçava pelo quarto enquanto eu me desmanchava nos braços da minha mãe que, embora doente e louca, repetia de forma insistente: “Esse é o preço do amor”
Aquele era o preço que eu deveria pagar para ficar com o Sasuke?
Eu recusava a oferta.
Voltei para casa depois de me certificar que meu rosto não estava mais inchado. Mesmo sem ter ideia do que fazer, resolvi fingir que aquela seria mais uma tarde comum com meu marido infiel. Quando ele entrou e me deu um beijo muxoxo na testa, como se fizesse isso para não me deixar mal, eu tive vontade de cuspir em sua cara imunda e gritar injúrias para ele e toda a sua família amaldiçoada. Me segurei, sorri e comecei a requentar a janta enquanto Ichiou brincava na sala.
Pensei em envenená-lo; em dopá-lo para cortar sua garganta enquanto dormia; pensei em dizer o que vi; pensei em abandoná-lo no meio da noite; pensei em atear fogo em todo o Distrito Uchiha.
Me sentei à mesa com aquele homem asqueroso, sentei segurando meu choro, minha repulsa e minha dor. Eu amava aquele cretino. Por que ele fez aquilo comigo?
— Não vai comer? — indagou ao terminar sua refeição e se deparar com o meu prato intacto.
— Não estou fome.
— Então por que se serviu?
— Porque sim.
Sem cabeça para conversar, retirei meu prato da mesa e despejei a comida num pote para comer mais tarde. Aproveitei e dei uma boa olhada na geladeira, tinha comida o suficiente para mais duas semanas, assim como na dispensa. Decidi que este seria o tempo que continuaria cozinhando para o Sasuke. Não acreditei que iria me controlar, cada vez que eu olhava para ele tinha vontade de espancá-lo até que sua pele deixasse de ser branca e se tornasse roxa de tanto sangue pisado.
Uma semana depois da descoberta, parei de jantar com ele, entretanto ainda deixava a comida pronta para ele comer. Dois dias depois, eu passei a deixar a mesa posta no horário em que ele costumava jantar na época que tinha hora para chegar em casa, isso já o deixou transtornado já que às onze horas da noite ele não encontrava comida quente e muito menos mulher para requentar para ele. Mais uns dias se passaram, fritei o último ovo da geladeira e cortei os últimos pepinos e tomates, deixei a dispensa vazia, preparei o último jantar, e nesse eu me sentei à mesa com ele.
Sasuke chegou no horário. Me vendo sentada na mesa, nem subiu para tomar banho, tirou parte do uniforme e sentou-se à minha frente.
— Onde está Ichiou?
— Está brincando lá em cima — respondi colocando os melhores tomates no meu prato. Sasuke começou a se servir também — Como foi o seu dia?
— Como ontem — sorri. Eu poderia perguntar todos os dias, essa sempre seria a resposta.
Já havíamos terminado a comida quando Sasuke resolveu conversar.
— Tem acontecido alguma coisa com você? — a pergunta tinha me pegado desprevenida.
Olhei para aquele belo rosto esbanjando serenidade, fiquei com uma vontade imensa de ignorar sua indagação. Mais de dois anos vivendo o inferno e só agora ele se deu conta de que alguma coisa está acontecendo.
“Está acontecendo que você me traiu!”, minha língua coçou para respondê-lo assim. Eu havia me controlado até ali, não poderia colocar tudo a perder.
— Só estou um pouco cansada — menti. Como esperava, ele não perdeu a brecha para sugerir que eu saísse do trabalho — Tudo bem, eu dou conta. Você faz tantas horas extras e chega em casa bem disposto. Talvez eu esteja sendo egoísta me cansando de trabalhar meio período e cuidar do bebê.
Sua expressão era apática, mas a ausência de uma resposta já significava algo. Será que eu havia atingido uma lasquinha da sua consciência?
Naquela noite ele foi para a cama antes de mim, fiquei escondida no banheiro chorando em silêncio enquanto passava creme hidratante por todo meu corpo. Esperei um tempo até meu rosto perder a vermelhidão e me olhei no espelho. Eu estava um trapo. Penteei os fios secos e opacos do meu cabelo e passei um pouco de óleo reparador. Enfiei meu corpo magro num babydoll branco, o mesmo da minha “noite de núpcias”, e fui para quarto, esperando já encontrar o Sasuke dormindo. Errado.
Ele estava sentado na cama com as costas apoiadas da cabeceira, um dos joelhos dobrados e o braço jogado por cima. Pensativo, calmo, promissor. Sasuke era a caixa de Pandora em forma humana, imaginava se eu também havia fechado a caixa antes da Esperança escapar, como fala o mito. Fiquei parada na porta com meus devaneios, e Sasuke me olhava com um meio sorriso, aquele que me fazia querer devorá-lo.
“E se ainda há esperança ali dentro?”
Meus lábios secos pediam por saliva, mas supus que seria muito sugestivo se eu os umedecesse. E se Sasuke o fizesse por mim? Parecia feitiçaria o modo como ele me hipnotizava, mesmo depois de tudo eu ainda o desejava avidamente, já tinha me esquecido quando fora a última vez que senti meu corpo quente por causa dele.
Já que eu não tinha forças para ir até o Sasuke, ele foi me buscar, há três passos da nossa cama. Ele pegou uma mecha dos meus longos cabelos e cheirou, fechando os olhos e acariciando minha mão com a sua livre. O observei, o senti se aproximar, quando Sasuke encaixou o rosto na curva no meu pescoço, eu não senti mais o chão.
Envolvida com seu beijo, só percebi que estávamos indo para cama quando senti minhas costas baterem nela. Todo aquele embalo, sua mão na minha cintura, guiando-me, parecia uma dança de luxúria entre nossas quatro paredes. Ele abandonou meus lábios e eu quis puxá-lo pelo cabelo de volta para mim, contudo sua boca seguia um caminho sujo que ia abrindo cada porta que eu havia trancado.
Nos meus picos de lucidez eu sussurrava seu nome, entretanto o pedido pare nunca saía, apenas gemidos e suspiros tímidos e espontâneos. Uma voz persistente dentro da minha mente dizia para eu não ceder, para eu acordar, para eu sair dos braços entorpecentes de Sasuke, para eu ser má, para eu ser cruel... Não abra a caixa.
Ichiou chorou no quarto ao lado e toda a áurea libidinosa se dissipou. Obrigada, Ichiou. Sussurrei pra mim mesma quando vi um Sasuke frustrado, mole e atiçado sair do quarto para atender o filho. Era claro que quando ele voltasse eu já estaria dormindo.
— Sakura, não tem nada na geladeira — Sasuke me informou, no dia seguinte, assim que ouviu meus passos na escada.
— Sério?
— Quando foi a última vez que abasteceu a casa?
— Não me lembro, estive ocupada esses dias, não tive tempo — ele me encarou com uma expressão desgostosa.
— O dinheiro está aqui, faça as compras da quinzena — ele ia dando as costas quando eu disse:
— Não. Hoje sairei com a Ino, voltarei tarde. Mas com certeza você poderá ir — me aproximei dele arrumando as dobras da sua roupa — Fez tantas horas extras essa semana... Deixarão você sair mais cedo para ir ao mercado.
— Você pode ir amanhã.
— Posso. Só que sendo assim, só teremos jantar amanhã.
Sasuke parecia desolado, um tanto quanto confuso, afinal, aquela era uma situação inédita. Eu nunca deixava nada pendente na casa, absolutamente nada. Sempre havia comida, lâmpadas, gás e até mesmo tábuas de assoalho reservadas. Sempre garantia a limpeza da casa, das roupas e dos nossos equipamentos. Sempre havia uma garantia. Estranhamente a esposa exemplar havia falhado na missão de abastecer a dispensa e a geladeira, isso não era nada bom. Essa era apenas uma pequena provocação, a primeira de algumas que se seguiriam. Eu não seria mais a Sakura tola, idiota pelo Sasuke. Não mais.
Naquela tarde, depois do trabalho, Ino me acompanhou a um cabeleireiro que ela frequentava. Pediu para eu jurar segredo ao revelar que o brilho do seu cabelo não era inteiramente natural. Apesar do seu gênio difícil, Ino era uma pessoa divertida e um exemplo de mulher do quesito autoestima. Ela se amava, ela sabia seu potencial e suas falhas, ainda assim se colocava em primeiro lugar. Não contei meus problemas domésticos para ela, mas confessei que andava amargurada, e minha aparência me deprimia mais ainda, ela soube me dar um belo conselho.
— Sakura, você só é mãe agora, isso não quer dizer que você tenha que deixar tudo de lado, inclusive você mesma para viver em prol do Ichiou. Você está para cima e para baixo com ele, nem vê mais os seus amigos... Não estou dizendo que as coisas devem ser como antes, afinal você está casada, tem suas responsabilidades, contudo não se enxerga. Eu te chamo de feia, mas é brincadeira, tá? — rimos — Você é uma mulher linda, só está se escondendo sobre essa crosta de maus tratos. Seu cabelo está me entristecendo!
Entre conselhos e dicas de auto valorização e amor próprio, levamos a tarde no cabeleireiro, o que já levou um tempão, depois passeamos um pouco pelo centro da vila e paramos para comer camarões ao molho de milho. Ichiou já estava sonolento e resmungão.
Quando cheguei em casa, o céu já estava escuro, encontrei as luzes da cozinha acesas, Ichiou logo correu para lá procurando pelo pai, e eu o segui. Ichiou pulou nas costas de Sasuke que estava agachado guardando latas de atum em conserva no armário mais baixo. Detalhe: cerca de vinte enlatados, só os de atum, fora os outros.
— Ahm... Sasuke — ele se virou para mim com o rosto vermelho, Ichiou estava o enforcando só com os bracinhos ao redor do seu pescoço — Pretende fazer uma ceia, uma festa, algo do tipo?
— Não — respondeu estranhando a pergunta.
— Pra quê tanto enlatado, tanto tomate, tantos ovos e tanto tudo?
— Pra não faltar mais — tirou Ichiou das suas costas e o colocou sentado ao seu lado. Eu estava me segurando para não rir de Sasuke — Ajuda o papai? — Ichiou respondeu que ajudava, no seu modo bebê de falar, o que arrancou um sorriso de nós dois.
Já que eu não tinha o que fazer, também ajudei Sasuke a guardar as compras, maquinando a próxima coisinha que faria para irritá-lo.
— Poderíamos dar uma festa — Sasuke me olhou com uma expressão que já revelava sua aversão à minha ideia — Não vamos comer essa comida toda, vai acabar estragando. Poderíamos fazer um almoço, para os amigos mais próximos, até mesmo os do trabalho, se quiser.
— Não quero.
— Tudo bem, faço um almoço somente para os meus — Sasuke me olhou incrédulo — O que foi?
— Você ficou louca?
— Não mais do que você que comprou todos os enlatados do mercado. Se não quiser participar do almoço, é uma opção sua, eu farei.
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