Pilares de Areia
23 Where there is desire, there is gonna be a flame
Notas iniciais
Acordei naquela manhã contando quantos dias já se passaram desde que eu tive minha “dose de Sasuke”, e nesse pensamento eu divagava. Meus olhos pairavam o teto, meu corpo não ousava se mover. Em poucos minutos, Ichiou surgiu e me libertou daquele transe. Pulando na cama, gritava:
— Me leva para a casa! Eu quero jogar kunai!
— Sua casa é aqui Ichiou — disse, virando-me de costas a ele.
— Não, mamãe! Quero ver o papai agora! — Ichiou me sacudia.
— Ele deve estar dormindo, durma também, está cedo!
— Ele não tá! Eu sei que ele não tá! Vamos, mamãe! Eu quero jogar kunai! — pedia com mais insistência, dando-me puxões cada vez mais fortes. — Vamos, por favor!
Eu me esforçava demais para manter Sasuke longe da minha mente, então Ichiou vinha e pregava com mais força Sasuke de volta a minha mente. Eu começava a entender o que Shizune queria dizer sobre separações e o quanto isso afetava a criança. Sasuke podia deixar de ser o meu companheiro, mas nunca deixaria de ser pai do Ichiou. Nunca deixaria de ser lembrado e mencionado, Ichiou não era culpado por eu não querer nenhuma das duas coisas. Ele não era culpado por não ter o pai por perto.
Não dava mais para negar a forma prejudicial que nossa relação corrompida atingia Ichiou, eu aceitava aquele fato cada vez mais depois que passei a ficar diariamente com o Ichiou, dando realmente atenção a ele. Essa constante locomoção e mudanças era horrível para o Ichiou. Se pelo menos pudéssemos fingir pelo nosso filho...
— Tudo bem. Escolha uma roupa bem bonita que a mamãe ajuda você a se vestir. — Puxei-o para perto e dei um rápido beijo em sua cabeça.
O que complicou tudo aconteceu nas últimas semanas. Minha rotina mudara significativamente. Eu havia ficado mais de dois meses inerte, trabalhando somente em papéis e auxiliando vez ou outra a Ino na floricultura, serviço informal. Voltar a dar aulas parecia uma coisa muito simples, mas não era. Eu precisava fazer um planejamento prévio dos temas a serem trabalhados e construir uma metodologia para os alunos colocarem-na em prática. Era trabalhoso e consumia um tempo extra do que eu já gastava com eles diariamente.
Resumidamente, na parte da manhã, eu ficava com o Ichiou enquanto trabalhava no projeto do Hospital Infantil de Konoha e/ou montava as aulas que iria dar. Sasuke, quando não estava trabalhando na Anbu, chegava pontualmente às 11h para cuidar do Ichiou durante o tempo que eu dava aula; se ele não chegasse, quem ficava com ele era Ino.
Até às cinco da tarde, quatro dias por semana, eu acompanhava os médicos de Suna. Todas as sextas, saíamos em expedição para aldeias próximas a fim de consultar gratuitamente pessoas com pouco acesso à saúde e aos medicamentos. Essas campanhas que fazíamos foram agregadas ao meu pedido a Naruto sobre me escalar para missões. Aquelas eram consideradas missões de nível D nas quais eu deveria acompanhar e proteger o grupo de Suna para que realizassem suas atividades.
Em poucas semanas, pudemos notar um maior empenho e entusiasmo dos alunos com a parte prática da medicina. Essa evolução também implicava coisas boas para mim, gradualmente eu reconquistava a confiança de Shizune, Tsunade e do Naruto, embora meu contato com os três fosse mínimo desde o dia que eu simplesmente fugi do quarto de hotel da Tsunade.
Toda essa mudança rápida afetou Ichiou, como eu já disse, e, consequentemente, afetou Sasuke também. O jantar que sugeri acabou tornando-se uma reunião de administradores da vida do Ichiou ou qualquer coisa bizarra que pudesse caracterizar a discussão que tivemos.
— Eu não me importo que esteja trabalhando novamente com aquelas pessoas, estou reclamando porque o seu trabalho está prejudicando o meu filho — exclamava em um tom atípico.
— Pergunte para o Ichiou se ele se sente prejudicado de alguma forma.
— Ele é uma criança! Que discernimento ele tem para julgar se a mãe dele está deixando ele de lado por causa de um trabalho?
— Ichiou estar sendo cuidado por diferentes pessoas não é novidade, Sasuke! Nós dois fazemos isso desde sempre; é só precisarmos para corrermos para a Ino, para a Shizune, até para a Tsunade! Eu não sou a única que tem feito isso nos últimos anos e realmente não vejo problema visto que elas adoram o Ichiou.
— Mas nenhuma tem obrigação de cuidar dele! Você pode muito bem cuidar das suas coisas e do seu filho; se não dá conta dos dois, cuide dele!
— Você está dizendo que eu não dou conta, é isso mesmo? Não se lembra dos primeiros anos de vida do Ichiou que eu ia trabalhar com ele pendurado nas minhas costas?
— Talvez você não dê mais conta, é isso que eu quero dizer.
— Sim, talvez eu realmente não dê mais conta de balancear meu trabalho, o Ichiou e essa coisa estranha que eu tenho com você. Acho que esse é o momento perfeito para discutirmos sobre a creche, que, a propósito, é algo que eu vinha tentando convencê-lo há meses e você sempre se manteve irredutível.
— Minha resposta continua sendo a mesma — Sasuke disse com firmeza.
O cenário era um casal separado ziguezagueando por toda a cozinha, discutindo em um tom elevado sobre decisões simples, rodopiando uma mesa de jantar minuciosamente montada e ainda intacta.
— Por que você não consegue apoiar o meu trabalho? — indaguei, carregando na minha voz todo o meu cansaço por ainda insistir naquilo.
— Por que você não consegue apoiar o meu?
Sasuke retrucou em um tom bem mais alto do que já estava usando. Ele quase gritou. Seu rosto estava vermelho, as veias da testa e do pescoço saltando, o maxilar travado, os punhos cerrados. Tive medo de seguir adiante.
Antes que eu desse as costas, ele quem me deu. Uma mão no quadril, a outra esfregando o rosto de forma compulsiva. Talvez a raiva passasse assim...
— Eu vou embora — anunciei, secando as lágrimas que sequer tinha notado que havia chorado.
— Não. — Virou-se para mim de supetão, olhando-me com o olhar baixo. Passou novamente as mãos pela cabeça, suspirou e caminhou para perto da mesa. — Sente aí e coma. — Indicou meu assento, sentando-se ele mesmo no seu.
— Não, Sasuke, não tem mais clima nenhum.
— Não tinha antes de qualquer forma — retorquiu servindo-se de omusubi¹ recheado de salmão frito.
Cogitei a ideia de ir embora por alguns segundos; fiz uma rápida análise do que me levara até ali: fui por um jantar casual com o Sasuke ou com o intuito de discutir as alterações no nosso cronograma? Eu não poderia sair de mãos vazias e o coração cheio de mágoa. Sentei-me e encarei-o. Eu era uma mulher adulta; agora, uma mulher adulta independente e cabeça de um grande projeto que dependia da minha inteligência emocional e lábia para negociar. Eu deveria aprender mais com a Temari sobre esse poder de persuasão. Uma mulher não pode ganhar o mundo se não consegue domar o próprio marido — ex, no caso.
— Durante o último mês, eu estive trabalhando em um grande projeto com a Ino — comecei, logo Sasuke voltou sua atenção para mim. Enquanto eu me servia, continuei: — Tivemos a ideia de fundar um hospital infantil, principalmente focado na psiquiatria, porém atendendo também todas as especialidades clínicas voltadas às crianças. — Fitei-o para confirmar se ele me dava atenção. — Fizemos levantamentos do orçamento da licença, da construção, decoração, da compra e instalação dos equipamentos, da equipe médica necessária...
— Qual a justificativa? — perguntou.
— Você — respondi. — Você, Naruto, Obito, Gaara, Kakashi, Nagato e outras milhares de crianças que cresceram sozinhas. Coisas boas puderam ser aproveitadas de crianças órfãs que receberam ajuda, mas, matematicamente falando, essa não é uma regra. — “Contudo, isso você já deve saber”, quis acrescentar, mas não ousei cutucar o seu passado. — Acreditamos que muitas tragédias poderiam ter sido evitadas se aqueles que a protagonizaram tivessem recebido ajuda, então queremos fazer isso agora pelo futuro das próximas gerações.
— Naruto já construiu um orfanato.
— Você já visitou? Meus alunos e eu fomos lá para fazer uma ação e também uma pesquisa que agreguei aos dados do meu projeto. Falando em números, mais de 60% das crianças, de todas as idades, têm traços depressivos. São órfãos da guerra. Naruto construiu um lugar aconchegante, ainda assim, não é um lar. Eles têm cama, comida, roupa e estudo, mas não têm tratamento e convívio fora daqueles muros. Esses dois fatores reduzem muito a eficácia do plano do Naruto.
— Foi uma das iniciativas mais aclamadas que o Naruto teve desde que assumiu o posto de Hokage, e você critica com muita veemência.
— Exatamente. Para falar à altura de vocês, eu precisei traduzir o “eu acho que esse orfanato não resolve muita coisa” para um dado clínico, números — respondi enchendo minha taça de vinho.
— É um projeto muito grande.
— À primeira vista, sim. Ino achou a mesma coisa, hoje já acredita ser muito possível.
— Então é isso que tem feito — concluiu.
— Além de ajudar a Ino na floricultura e dar aulas, sim. — Dei um gole no vinho. — Preciso conseguir mais dinheiro, não posso depender somente de doações e patrocínio. Demoraria demais.
— Onde Ichiou entra nisso?
— Sei que a pergunta não para por aí, Sasuke. — Sorri triunfante. — Você quer saber como nós ficamos. Bom, depende de você. — Encolhi os ombros, e ele me fitou com irritação, a irritação que não tinha ido embora, mas estava adormecida até então. — Eu sinto muito por ter agido como uma louca, ter tirado conclusões precipitadas, por não ter confiado em você, entretanto, você mentiu para mim. Você fez o meu melhor amigo ter mentido para mim. Eu entenderia seu trabalho se você tivesse o compartilhado comigo, mas você preferiu esconder. Alheio a tudo, trazia vestígios daquela mulher para casa, criou um cenário de desconfiança que não enganou somente o Orochimaru ou seja lá quem for o vilão que queriam capturar, você me enganou. Respondendo a sua pergunta, eu não consegui apoiar o seu trabalho porque eu não sabia que era um trabalho. Você sabe qual é o meu agora.
— Quais são. Supondo que esse projeto seja aprovado...
— Vai ser!
— ... que tempo você terá para ficar com o seu próprio filho?
— Eu vou administrar tudo.
— Eu sei que você é extremamente focada e organizada, eu vivi com você e, por isso, afirmo que você deixará ele de lado como desde já vem deixando. Ichiou tem que ser sua prioridade, não o espaço em branco na sua agenda.
— Ele nunca foi e nem será. Uma creche seria a melhor opção para nós dois. Lá ele estaria em segurança, com profissionais, estaria estudando, e, se escolhermos uma de elite, ele pode ter aulas de taijutsu também. Só meio período, não é tão ruim. Nós dois poderíamos levar ou buscá-lo, poderia tornar-se uma rotina jantarmos juntos e...
— E fingir que somos uma família.
Engoli um seco. Era exatamente aquilo, afinal.
— Por favor, Sasuke, vamos só tentar? — pedi com a voz branda, notoriamente cansada, exausta.
— Podemos tentar — respondeu depois de ponderar alguns minutos.
— Obrigada — agradeci, fitando-o na outra ponta da mesa.
A expressão irritada ainda era possível de ser observada, mas, assim que lhe exibi um sorriso aberto de gratidão, os músculos do seu rosto relaxaram um pouco, e o singelo sorriso torto brotou ali novamente. Aquela batalha eu havia vencido por pouco.
Como Ichiou dormiu durante todo o jantar, Sasuke ofereceu-se para acompanhar-me até a hospedaria levando o garoto no colo. Não tínhamos muito assunto, os comentários giravam em torno do projeto do Hospital Infantil. Ou Sasuke estava tentando manter uma conversa ou estava realmente interessado, chutei ser os dois. Fomos falando sobre isso até chegarmos à hospedaria, ele perguntava, eu respondia.
Chegando lá, ele quis subir. Depois de deixar Ichiou no meio da cama e cobri-lo, ficou observando o quarto impessoal e o movimento da rua pela janela. A pedido dele, mostrei a versão final do projeto que entregaria a Naruto em pouco tempo. Sasuke pareceu impressionado, embora não tenha verbalizado. Tomamos um chá e repassamos pela última vez os horários que seriam testados na creche; terminando, ele disse que iria embora, então eu o acompanhei até a porta do quarto. Péssima ideia.
Quando coloquei a mão na maçaneta e abri, Sasuke empurrou a porta de volta e apoiou seu corpo na madeira, fechando-me de frente a ele.
— Sasuke... — Virei o rosto para o lado, já prevendo o que viria ou poderia vir.
— Eu não sabia que estava sofrendo.
— Do que está falando?
— Eu não sabia que estava pensando que eu tinha te traído ou estivesse te enganando. Se eu soubesse, não teria dado continuidade à missão.
— Sasuke, por favor, deixa isso para lá. Foi uma noite ótima, não vamos estragar.
— Eu não poderia ir embora sem esclarecer isso. Eu nunca quis fazer você sofrer por causa do meu trabalho. Eu também não quero que use o seu trabalho para se vingar de mim.
— O quê? O meu trabalho não tem nada a ver com você, eu sequer estou me vingando.
— Você está e sabe disso — disse, sussurrando, aproximando mais seu o rosto do meu.
— Não estou me vingando, estou me protegendo — expliquei, sentindo o choro querer me dominar novamente. — Eu prometi a mim mesma que nunca mais deixaria um homem me machucar assim. Estou aqui porque quero me tornar forte para não deixar isso acontecer de novo na minha vida.
Sasuke não disse nada, apenas encurtou a distância que nos separava e me beijou. A princípio, não retribuí, mas, aos poucos, fui me rendendo. As lágrimas que eu segurava foram soltas, misturaram-se ao beijo, ao gosto do Sasuke, ao gosto da minha boca... A mão de Sasuke que antes se apoiava na porta me segurou com volúpia na base das costas, e a outra segurava meu rosto, afastava o meu cabelo, acariciava-me. Gradualmente, as mãos foram mudando de rumo, e os beijos se tornaram mais urgentes; eu tentava manter-me sã, contudo, eu queria aquele toque, meu corpo implorava, minha alma gritava, eu simplesmente não conseguia me soltar. Sasuke quem parou, ainda me prensando contra a parede, segurou meu rosto nas duas mãos e me fitou cheio de desejo e urgência, cheio de paixão.
— Vai ser tão difícil tê-la de volta para mim?
Eu não respondi. Virei o rosto e estiquei meu braço até alcançar novamente a maçaneta da porta, girei e abri uma pequena fresta. Sasuke entendeu o recado. Não seria um beijo que me levaria de volta para casa.
Sasuke deu-me um último beijo na testa e saiu.
Aquele jantar complicou tudo. Aquele beijo acendeu a brasa que eu controlar. Por isso, estava sendo difícil lidar com os meus sentimentos nos últimos dias. Quando completou os setenta dias de separação, completaram-se os sete dias do beijo, o que era irônico pela coincidência numérica, mas nada bom visto que a mesma sensação que senti quando o Sasuke saiu por aquela porta perdurou durante os sete dias e parecia não ter fim.
Por conta da burocracia, somente na segunda-feira Ichiou começaria a frequentar a creche, ainda era sexta, então, em tese, a minha rotina e a do Sasuke deveriam ter continuado a mesma, contudo, ele não colaborou. Achou uma fresta e entrou bagunçando tudo de novo, não minha sanidade, mas minhas emoções. Sasuke, que se fingia de louco e não visitara o filho um dia, depois daquela noite, pontualmente às nove horas, ele aparecia na janela e só ia embora quando Ichiou dormia.
Na noite anterior, Ichiou dormiu tarde, e eu também. Estava literalmente terminando o projeto e não queria interromper o surto criativo que havia me atingido, Sasuke parecia ter percebido isso e prolongou o tempo dedicado a entreter Ichiou — que, como eu já havia ressaltado, já vinha exibindo traços de uma criança esperta e cheia de energia. Confesso que não vi o tempo passar e, quando olhei o relógio, tomei um susto por passar das duas da manhã. Ichiou dormia um sono pesado, e Sasuke cochilava.
— Meu Deus! Perdi a noção do tempo — sussurrei uma exclamação.
Arrumei rapidamente a papelada, oficialmente eu havia terminado. Sasuke, que cochilava, acabou acordando imediatamente. Quando voltei o olhar para a cama, ele se espreguiçava e se levantava. Eu poderia ser bonzinha e deixá-lo ficar por ter entretido Ichiou e permanecido ali até tarde, mas deixá-lo ali implicava em um monte de coisas que eu gostaria de evitar, então, deixei a bondade de lado e o dispensei.
— Eu sinto muito por ter perdido a hora, eu estava muito concentrada em terminar logo as últimas páginas.
— Eu vi. Não tem problema.
— Me desculpe mesmo. — Fiz uma reverência e acompanhei-o até porta.
A mesma cena de dias atrás iria se repetir caso eu não tivesse previsto. Segurei os pulsos de Sasuke antes que ele me encurralasse contra a porta e roubasse o que quisesse de mim. Sua reação foi jogar a cabeça para trás e dar uma risada silenciosa, só um sorriso mais aberto e inconformado, como quem não acredita no que acabara de acontecer. Bom, acreditando ou não, eu havia sido mais rápida, estava sonolenta, porém atenta aos seus movimentos. Se antes eu tinha dúvidas sobre deixar Sasuke dormir ali aquela noite, depois daquela investida, eu só tinha certezas.
Sasuke relaxou sob o meu aperto e me encarou, tentando manter a seriedade, mas o singelo sorriso zombeteiro continuava ali a me caçoar. Seus braços pararam ao lado do seu corpo, as mãos no bolso e a postura desafiadora.
— É melhor ir embora agora. Preciso sair cedo daqui amanhã para entregar esses papéis para a Ino.
— Por que está nervosa?
— Não estou nervosa, estou cansada, Sasuke.
— Posso te beijar? — indagou, aproximando-se.
— Agora você me pergunta? Estava prestes a fazer isso à força.
— Sim ou não?
Como eu não respondi de imediato, Sasuke avançou em direção à minha boca, porém tive tempo de desviar para que o beijo morresse no meu rosto.
Segurei a risada, e Sasuke disfarçou a decepção.
— Boa noite, Sasuke — disse sem olhá-lo.
— Boa noite, Sakura — respondeu saindo.
.o0o.
Quando cheguei à casa do Sasuke, bati na porta, e ele me atendeu com surpresa, parecia estar de saída, pois estava uniformizado. Ele deu mais espaço e, então, entrei, Ichiou ficou na entrada pulando em cima dele.
Observando a sala, percebi que havia uma série de armas e pergaminhos distribuídos no tapete; no sofá, uma mochila já preenchida pela metade. Claramente Sasuke estava de saída e ficaria fora por alguns dias.
Percebendo que eu observava aquilo, ele aproximou-se e explicou:
— Recebi uma missão rank-S de última hora e terei que sair daqui algumas horas.
Assenti sem olhá-lo.
— Dá tempo de você fica com o Ichiou só até Ino e eu falarmos com o Naruto?
— Sim. Eu ia passar na hospedaria para ficar um pouco com ele — disse, bagunçando os cabelos escuros do filho.
Depois de alguns segundos em silêncio sem nenhum dos dois fazer ou falar nada, ousei perguntar, mesmo que ele entendesse que eu estava preocupada ou interessada em sua vida, quanto tempo duraria a missão.
— Não recebi uma previsão. De dias a semanas.
Assenti novamente.
Logo Ichiou entraria na creche, e Sasuke não estaria na vila para acompanhar essa mudança de rotina.
— Sobre a creche, acho melhor-
— Eu dou um jeito de manter o que combinamos há uma semana.
Sasuke olhou para cima, respirou fundo e olhou para mim novamente com uma cara de desistência e até mesmo com um pouco de humor.
— Faça como quiser — disse em tom de desistência.
Sorri e agradeci com uma breve reverência. Em seguida, fui em direção à porta, combinando onde ele deixaria o Ichiou quando fosse sair para a missão. Antes que eu terminasse, ele me puxou para perto de si. Por reflexo, tentei me libertar, pois fui pega de surpresa, mas ele me puxou para mais perto ainda. As duas mãos agarrando o meu antebraço, meu corpo colado no dele, sua cabeça encostada na minha.
Eu permaneci de olhos bem abertos o fitando, tentando entender o que era aquilo, contudo, ele ficou de olhos fechados, parecendo se concentrar em algo. Eu pensei em perguntar, mas ele falou primeiro:
— Estou indo para aquela missão — explicou.
Eu sabia que “aquela” missão era a que envolvia a garota. Não havia acabado ainda. Como não entendi muito bem o que ele quis dizer com aquilo, respondi que “tudo bem”, afinal, não era mais problema meu, não era mais segredo, e eu até poderia dizer que não me importava. Era só o trabalho dele.
— Terminando, eu pedirei exoneração da Anbu — informou.
Nossas cabeças ainda estavam coladas, poucos centímetros separavam o nosso olhar que todo o tempo migrava de um olho para o outro.
— Por quê? — sussurrei.
— Quero me dedicar mais a vocês.
— Não precisa deixar de trabalhar para ficar com o Ichiou... Ainda quer discutir o assunto da creche?
— Não é somente sobre Ichiou, é sobre você. Eu quero você de volta, Sakura. Você sabe que não sou uma pessoa de implorar e de confessar o que eu penso, mas eu não aguento mais. — Havia uma triste urgência na sua voz, mesmo sussurrando contra o meu rosto, aquelas afirmações pareciam um grito.
— Eu nunca disse para sair do trabalho, Sasuke. Eu só pedi um tempo para organizar minha cabeça, meus sentimentos...
— Já faz meses, Sakura. Eu nem sei se você ainda gosta de mim.
Assim que ele disse isso, virei o rosto, rompendo o contato visual. Sasuke soltou meus antebraços, que já estavam vermelhos por causa do seu aperto, e levou-me para mais perto ainda, abraçou-me encaixando sua cabeça sobre a minha. Quando comecei a notar as lágrimas formando-se em meus olhos, tratei de tentar repeli-lo, sair daquele aperto.
— Eu preciso ir, Sasuke. Depois conversamos.
— Eu preciso que fique mais um pouco. — Abraçava-me cada vez com mais força como se quisesse que meu corpo se fundisse com o dele. Pela primeira vez, retribuí e senti suas costas largas, agora com pontos ossudos, mas ainda forte como a de um homem. — Dê-me alguma garantia de que você vai voltar para mim — pediu. — Algum dia...
As lágrimas rolaram sem minha permissão, provavelmente Sasuke deve tê-las sentido em seu peito. Respirei fundo, respondendo:
— Algum dia — respondi e, delicadamente, afastei o seu corpo do meu, enxugando as lágrimas na manga da blusa e caminhando até a porta sem olhá-lo.
Pela terceira vez, quando eu estava prestes a abrir a porta, Sasuke me puxou de volta e não hesitou em me beijar. Diferente de uma semana antes, aquele beijo viera livre de luxúria ou desejo, era cheio de pressa, até mesmo um desespero, era como se traduzisse aquele emaranhado de pensamentos que Sasuke vinha tentando expressar.
— Eu ainda estou esperando, Sakura — disse antes de me libertar.
Eu não consegui dizer nenhuma palavra.
Saí dali correndo, fugindo, tentando não repassar aqueles últimos cinco minutos que pareceram horas. Por que Sasuke estava trazendo as coisas à tona? Estava tudo muito bem na minha cabeça, estava muito boa a nossa relação, qual a necessidade de forçar as coisas?
Eu ainda o amava, ainda acreditava que poderíamos ficar juntos, contudo, sabia que não era a hora. Definitivamente, não era a hora. Eu precisava firmar o meu solo, firmar de fato meus dois pés no chão e meu coração em algo que me desse força para continuar vivendo, e essa segurança seria adquirida com a aprovação do meu próprio hospital. Eu queria isso mais do que tudo, eu queria ter algo que dependesse de mim, algo do qual me orgulhasse, algo conquistado por mérito meu. Não queria mais me apoiar em um casamento que parecia mais como um negócio, não queria me contentar com a responsabilidade de ser mãe, queria mais do que isso. Eu queria minha autoconfiança, autossuficiência, independência.
Sasuke só me teria de volta quando ele migrasse do núcleo na minha vida para um detalhe a parte, um detalhe importante, muito amado e estimado, mas um detalhe que não me destruiria caso me magoasse novamente.
Eu voltaria para Sasuke quando meu escudo se tornasse fortaleza, quando a fortaleza dele se tornasse um monte de tijolos. Algo que indicava que isso estava perto era que a fortaleza do Uchiha já estava caindo, tijolo por tijolo, e, a partir dos escombros, poderíamos construir pilares de concreto para sustentar uma nova vida, um novo casamento, uma nova família. Por enquanto, tudo era pilares de areia, inconstantes, frágeis, muitos já caídos, desmoronados. Sasuke teria que esperar e, caso não quisesse, eu saberia como viver minha vida sem ele.
.o0o.
— Problemático — Ino resumiu tudo o que eu lhe contara sobre o acontecido com Sasuke na última semana em um adjetivo. — Como você não me contou isso antes? Com certeza eu teria te dado umas dicas para não derreter o gelo que você instaurou entre o relacionamento dos dois — bronqueava-me enquanto caminhávamos em direção a Central de Konoha. — Fala sério, Sakura! Você está tão bem! Está até indo no salão sem que eu tenha que a levar, olha que evolução. Você está ótima sem ele, só está progredindo, essa cara de boba não acrescentará nada ao nosso projeto. — Deu um peteleco na minha testa.
Sem querer, Ino fez eu me lembrar mais ainda do Sasuke e abobalhar mais a minha expressão. Ele tinha essa mania de “pokear” minha testa, um hábito singelo, porém íntimo.
— Sasuke já apresentou várias mudanças, não acho que eu precise continuar sendo tão rude com ele.
— A minha opinião é a de que você deveria arranjar um homem que esteja a sua altura. Vai ser difícil arranjar um tão bonito e popular quanto Sasuke, mas, se você se esforçar, pode encontrar um homem que te deixe bem mais apaixonada e faça essa sua cara de boba rotina nos seus dias, não provocada somente quando ele quiser se remediar de algum erro grave como o Sasuke está fazendo.
— Você não quer mesmo que eu volte, não é, Ino?
— Eu não quero te ver infeliz de novo. Só isso — disse com o tom mais brando. — Eu me sinto mal em confessar isso, contudo, eu sinceramente sinto-me aliviada por ter deixado o Sasuke para você — falou, referindo-se ao passado quando brigávamos por causa do Uchiha. — Não haveria amor que eu sentisse que pudesse ser capaz de suportar Sasuke com todas as suas virtudes e defeitos. Ele é muito complexo, fragmentado, um enigma. Eu quero um amor simples, nada épico como vocês têm sido. É lindo, mas não é para mim. Você realmente foi escolhida a dedo, e não somente por ele, pelo destino. Parece ter nascido com a função de desvendá-lo, juntar seus pedaços e reconstruí-lo. Sasuke é de fato um novo homem, tem melhorado em todos os aspectos, detesto assumir, mas ele ainda está verde para você. Deixe-o amadurecer mais, deixe a saudade corroê-lo, pise mais um pouco... Do contrário, você estará repetindo o mesmo erro de ter aceito aquela proposta horrorosa de casamento sem pestanejar. Continue firme e forte. Na hora certa, ele vai estar pronto para você como você sempre, desde a nossa infância, esteve pronta para ele.
.o0o.
No horário e dia marcado, sentamos à mesa do Hokage para exibir o fruto da dedicação diária minha e de Ino. Embora minha mente estivesse vagando sobre a viagem do Sasuke e sobre a minha conversa com Ino, eu ainda estava focada no meu objetivo. Naruto tinha que aceitar. Todo o projeto e ensaio que fizemos agregou todas as possíveis dúvidas que Naruto pudesse ter para que, no momento seguinte, já tivéssemos a resposta para dar-lhe. Isso passaria maior confiança, consequentemente poderia contar como ponto para a aceitação do projeto.
Naruto nos cumprimentou alegremente, fazendo brincadeiras e comentários íntimos como se aquele não fosse ambiente de trabalho e uma reunião séria. Ino, cujo pavio é mais curto do que tudo, logo encerrou as tentativas frustradas de entretenimento partidas do Naruto e perguntou se poderia começar a apresentar o projeto.
— Não antes de Sakura me responder se ela está bem — Naruto respondeu, fitando-me do outro lado da mesa.
Eu não tinha o encarado desde que entrei, apenas sentei-me ao lado de Ino, cruzei os braços sobre a cópia do projeto em meu colo e concentrei-me em ignorar os olhares dirigidos a mim.
Depois do cutucão de Ino, entendi que deveria, assim como ela (que também estava chateada com o posicionamento do Naruto em relação a mim), tratar aquele momento exclusivamente como uma reunião de negócio sem pessoalidades. Naruto ainda era o Hokage, e Ino e eu ainda éramos kunoichis comuns que necessitavam do alvará dele.
Olhei Naruto e respondi:
— Estou bem.
Os olhos azuis faziam um contraste perfeito com o seu rosto bronzeado e os cabelos dourados. Os anos estavam fazendo muito bem à sua aparência, embora não otimizassem sua sorte com as mulheres.
— Eu fico feliz em ouvir isso, pois estive preocupado.
— Há semanas estive afastada. Nem você nem ninguém tirou cinco minutos para me ver. Sua preocupação me toca.
— Sakura — Ino repreendeu-me pisando no meu pé.
Naruto, visivelmente desconfortável e magoado, sorriu e coçou a parte de trás da cabeça, como fazia quando fica nervoso.
— Eu sei que isso não está na pauta, entretanto, parece-me pertinente acabar com esse clima pesado antes de começarmos a reunião — disse, alternando o olhar de Ino para mim. — Fora as obrigações do meu cargo, eu também tenho meus problemas, Sakura. Você também não tem batido à minha porta e perguntado como estou depois de meses afastados abruptamente da mulher que eu amo por um motivo irracional. O seu sofrimento é provocado, o meu não depende da minha vontade. Você não me perguntou, mas eu não estou bem, e nem sendo Hokage consigo muitos amigos para me levantarem nesse momento, somente aquele por quem eu batalhei anos esteve comigo diariamente. Então, eu sinto muito se tomei uma decisão errada, impensada, egoísta e desonesta. Eu errei com você e sou o principal culpado. Peço desculpas, Sakura. Contudo, agora, eu sou a pessoa de quem você depende e eu peço que, ao menos, responda as minhas perguntas e não prolongue o clima desagradável.
A boca de Ino fazia um perfeito “o”, e eu só queria me afundar naquela poltrona e sair do mundo. O Naruto era meu melhor amigo. Foi difícil tudo o que aconteceu para nós dois, as desgraças combinaram de acontecerem todas juntas, e ambos não tivemos como nos mantermos firmes e ainda dar suporte um ao outro.
— Responderei suas perguntas, Naruto-sama — usei o sufixo que nunca antes havia usado para tratar com ele. — Sinto muito pela minha grosseria. Podemos começar?
Naruto engoliu um seco e olhou brevemente para mim antes de voltar o olhar para Ino. Com um sorriso fraco e um olhar opaco, pediu para que começássemos.
Ino falou o tempo todo, havia carimbado tudo o que lera na mente e reproduzia para o Naruto de maneira clara e objetiva. Poucas foram as vezes que Naruto interviu para tirar dúvidas e, a cada virada de página, parecia impressionado. O opaco da íris ganhava vida, e o sorriso forçado mostrou-se gradualmente mais sincero, voltado totalmente a Ino que levou sozinha toda a reunião.
— Gostaria de acrescentar mais alguma coisa, Sakura? — Ino perguntou, e eu neguei com a cabeça.
— Sendo assim, confesso que estou surpreso, admirado com isso. Vocês fizeram tudo! — Folheava as páginas.
— Em tempo recorde — acrescentou Ino.
— Eu... Eu adorei a ideia, a organização e foco das duas. O projeto é magnifico!
— E...? — Ino cobrou uma resposta menos abstrata.
— E, por mim, totalmente aprovado. — Ino deu um grito de felicidade. — Porém, como vocês já previram, não depende apenas de mim. É algo muito grande e...
— Tudo foi pensado. — Fiquei ereta na cadeira para falar-lhe. — Sabemos que estamos sozinhas nessa e iremos atrás do que for preciso, porém precisamos da sua autorização.
— Eu darei, mas não agora, não imediatamente. Esse projeto é magnifico, mas precisa ser pensado e discutido com os Conselheiros e outras autoridades.
— Você não consegue nos dar uma resposta imediata? — Ino indagou.
— Infelizmente, não. Posso garantir-lhes que hoje mesmo consigo distribuir as cópias dos projetos para os membros anciãos de Konoha e, em menos de um mês, envio um telegrama com a data da reunião para a confirmação do resultado.
— Um mês? — exclamei incrédula.
— Menos de um mês, Sakura — Ino corrigiu-me. Segurou minha mão e olhou no fundo dos meus olhos, prevendo que eu surtaria por conta disso.
— Mas e o nosso cronograma, Ino? — indaguei, ignorando a presença do Naruto. — Ficaremos atrasadas. Nesse mês, iríamos agendar as reuniões de patrocínio e doações, iríamos em busca do terreno, do...
— Podemos ver isso depois, Sakura. Calma, vamos conseguir. — Ino sorriu confiante e me abraçou. — Vamos embora — disse para mim. — Obrigada, Naruto-san. Muito obrigada mesmo por ter disponibilizado seu tempo e paciência. — Ino fez uma breve reverência.
— De nada, Ino — falou em um tom fraco. — Tenha um bom dia, Sakura — desejou.
Eu murmurei um “também”. Não sei se ele escutou, mas, se escutou, eu gostaria que ele entendesse toda a contradição explícita naquela palavra.
Eu queria meu hospital já, queria começar logo. Se eu pudesse, eu mesma ergueria as paredes, porém a maldita burocracia atava minhas mãos. Aquele hospital infantil não curaria somente as fraquezas da criança, curaria as minhas também. Mesmos sem existir, já estava curando, e a ameaça de não poder concretizar aquele sonho recém-nascido me deixava a beira do desespero.
— Um mês... — comentei em tom de reclamação enquanto voltava amuada para casa.
— Em um mês, muita coisa acontece, Sakura. Tire esse um mês de férias do projeto. Aproveite que o Sasuke vai estar fora do seu pé, faça alguma coisa. Não vá enlouquecer por causa de uma pasta cheia de papéis, não é?
Neguei veemente. Talvez eu estivesse muito obcecada. De fato, Sasuke ficaria um tempo fora. O que eu poderia fazer enquanto isso que eu não poderia fazer caso Sasuke estivesse na vila?
— Os festivais irão começar, vamos a todos eles! — Ino vibrou.
— Com certeza — garanti, sendo contagiada pela mesma empolgação.
Em um mês, muita coisa acontece.
Omusubi¹: bolinho de arroz triangular que pode acompanhar outras especiarias ou ser recheado. Uma das comidas favoritas do Sasuke-kun.
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